quarta-feira, janeiro 26, 2011

Um Credo para os Fundamentalistas

É só uma sugestão. Acho que posso sugerir, pois fui criado numa denominação fundamentalista e mesmo que não pertença a ela hoje, continuo a ser chamado assim. Portanto, segundo meus críticos, devo entender razoavelmente do assunto.

Creio na inerrância das Escrituras. Isto não quer dizer que eu creio que a Bíblia foi ditada mecanicamente por Deus, que ela caiu pronta do céu, que sua linguagem é científica, que não há erros nas cópias, que as traduções são inerrantes (especialmente a King James), que as cópias em manuscritos existentes são inerrantes, que a Bíblia é exaustiva e que tudo que está na Bíblia é fácil de entender e interpretar. Quer dizer que eu acredito que os manuscritos originais foram infalivelmente inspirados por Deus e que, em conseqüência, a Bíblia é verdadeira em tudo o que afirma. Creio que pelas cópias existentes podemos ter certeza quase plena do que havia nos originais e que muitas das partes polêmicas e difíceis de interpretar não afetam a compreensão correta do todo.

Creio na divindade de Jesus Cristo. Isso não quer dizer que eu negue sua plena humanidade, a realidade de suas tentações, a sua preocupação com os pobres e as questões sociais. Não quer dizer que eu negue que ele foi gente de verdade, capaz de rir, de chorar, que passou por perplexidades e que aprendeu muita coisa gradativamente como as outras pessoas. Quer dizer tão somente que creio que ele era verdadeiro Deus e verdadeiro homem, muito embora eu não tenha todas as respostas para as perguntas levantadas pela doutrina das suas duas naturezas. Creio que sua morte na cruz tem eficácia para perdoar meus pecados, visto que não era um mero homem morrendo por suas próprias faltas. Sua vida, suas ações e seus movimentos podem servir de modelo para mim, embora sua religião não possa, pois ele não era cristão, como eu já disse em outra postagem aqui no blog.

Creio em todos os milagres que a Bíblia relata. Isso não quer dizer que eu acredite que milagres acontecem todos os dias, que milagres contemporâneos são indispensáveis para que eu acredite em Jesus Cristo, que Deus cura somente pela fé e que tomar remédio e ir ao médico é pecado. Também não quer dizer que eu acredite que os milagres narrados na Bíblia foram coincidências com fenômenos naturais, interpretados pelos antigos como ações de Deus, como uma enchente de barro vermelho no Nilo que parecia sangue, um tremor de terra exatamente no mesmo momento em que Josué mandou tocar as trombetas em Jericó ou um eclipse na hora que ele mandou o sol parar. Quer dizer que eu creio que os milagres bíblicos realmente aconteceram conforme estão escritos, que não são mitos, lendas, sagas, estórias ou midrashes. Creio que Deus, se quisesse, poderia fazê-los todos de novo hoje apesar de que, mesmo assim, os incrédulos continuariam a procurar outras explicações.

Creio na ressurreição física de Cristo de entre os mortos. Isso não quer dizer que eu coloque o corpo acima do espírito e nem que eu seja um ingênuo que ignora o fato que cadáveres não revivem cotidianamente. Também não quer dizer que eu ignore as tentativas de explicações alternativas existentes para o túmulo vazio, a falta do corpo de Jesus até hoje e a mudança de atitude dos discípulos. Também não quer dizer que eu acredito que Jesus hoje apareça diariamente às pessoas. Quer dizer que eu creio que ele realmente ressurgiu dos mortos e que vive eternamente com aquele corpo ressurreto e glorioso, com o qual retornará em data não sabida a esse mundo, para buscar os seus e julgar os demais. Creio que a ressurreição de Cristo é essencial para o Cristianismo. Se Cristo não ressuscitou fisicamente dos mortos, o Cristianismo é uma farsa.

Creio que somente mediante a fé em Jesus Cristo como único Senhor e Salvador é que as pessoas podem ser perdoadas e salvas. Isto não quer dizer que eu desconheça o fato de que existem pessoas de bem, honestas, sinceras e de boa conduta entre aqueles que não acreditam em Deus e muito menos em Cristo. Tampouco quer dizer que todos aqueles que têm fé em Jesus Cristo são perfeitamente bons, justos e santos. O que eu quero dizer é que somos todos pecadores, uns mais, outros menos, uns ostensivamente, outros em oculto, e que somente pela confiança no que Cristo fez por nós é que poderemos ser aceitos por Deus – e não por méritos pessoais. Neste sentido, acredito que fora da fé em Cristo não há salvação, perdão ou reconciliação com Deus.

Creio em verdades absolutas. Isto não quer dizer que eu ignore que as pessoas têm diferentes compreensões de um mesmo fato. Quer dizer apenas que, para mim, quando não se complementam, tais diferentes compreensões são contraditórias e uma delas – ou várias – devem estar erradas. Acredito em absolutos morais, em leis espirituais de natureza universal, em declarações unívocas e também que Deus se revelou de maneira proposicional nas Escrituras.

Creio em tolerância. Isto não quer dizer que eu seja inclusivista e relativista, mas simplesmente que não deixarei de me relacionar com uma pessoa simplesmente porque considero que ela está equivocada teologicamente. Para mim, a tolerância pregada pelo mundo moderno é aquela característica de pessoas que não têm convicções, que não têm opiniões formadas sobre nada e que vivem numa perpétua metamorfose ambulante. Eu acredito que é possível, sim, ter convicções profundas – especialmente na área de religião – e ainda assim se manter o diálogo com quem diverge.

Tem mais coisa a ser incluída neste credo fundamentalista, mas tá bom. O que eu quero mostrar é que tem muita gente que tem o mesmo credo acima, e que é fundamentalista sem saber. Alguns ultra-fundamentalistas vão achar que eu sou liberal.

domingo, janeiro 23, 2011

O Apóstolo Pródigo

Estudando Paulo para dar aulas esta semana, percebi mais um aspecto interessante do apóstolo que o distancia dos apóstolos modernos. Ao contrário dos tais apóstolos que se lançam para fazer carreira solo e ter seu próprio ministério, Paulo sempre fez questão de mostrar que ele fazia parte do grupo apostólico de sua época, embora tivesse sido chamado para ser apóstolo quando o prazo de matrícula já tinha expirado ("nascido fora de tempo", 1Co 15:8).

Se alguns têm uma visão de Paulo como um individualista que seguiu carreira e ministério próprios, isto se deve, em parte, à Igreja Católica que colocou Pedro acima dos demais apóstolos e portanto longe de Paulo. Os liberais também contribuíram para isto, quando fizeram de Pedro o líder do Cristianismo judaico da Palestina e Paulo o líder do Cristianismo gentílico de Antioquia, em constante tensão e hostilidade mútuas.

De todos os apóstolos, Paulo era o mais culto, o mais preparado intelectualmente e com maior experiência intercultural. Nascido em Tarso da Cilícia, em território grego, educado no que havia de melhor e mais refinado na erudição judaica, de família rica o suficiente para lhe dar o status de cidadão romano, Paulo se destacava dos pescadores, cobradores de impostos, artesãos e ex-guerrilheiros galileus que compunham o quadro dos Doze apóstolos de Jesus Cristo ("iletrados", At 4:13). Com facilidade ele poderia ter iniciado um movimento independente e ter seu próprio ministério e até mesmo fundar uma religião. Todavia, ele se negou a fazer isto e até mesmo repreendeu os seus fãs que queriam começar o "partido de Paulo" (veja 1Co 3:4-9).

Na realidade, o retrato que temos de Paulo em suas cartas e no livro de Atos é de um apóstolo que não se via tendo um ministério solo nem próprio, mas em perfeita harmonia e cooperação com os demais. Para ele a igreja está edificada sobre o fundamento "dos apóstolos e dos profetas" (Ef 2:20). Ele não se vê como um fundamento à parte. Ele honrou os apóstolos antes deles, visitando-os em Jerusalém e procurando comunhão e harmonia com eles (Gal 1:18). Foi provavelmente nesta ocasião que ele aprendeu com eles acerca de várias tradições originadas em Jesus (1Co 11:2; 15:3-7). Paulo declara que eles eram importantes e colunas da igreja, apesar de terem uma condição humana muito humilde - o que realmente não importava, pois Deus não olha para o exterior (Gal 2:6). Os sinais e prodígios que ele realizava eram "credenciais do apostolado" (2Co 12:12), isto é, sinais que eram operados por todos os que eram apóstolos. Paulo não teve problemas em se submeter às instruções de Tiago quando esteve em Jerusalém (At 21:18-26).

E quando é obrigado a dizer que trabalhou até mais que eles, Paulo logo acrescenta que é somente pela graça (1Co 15:10). E quando teve de repreender a Pedro por sua inconsistência (Gal 2:11-21), isto não fez com que se separasse dele - na verdade, Pedro mais tarde até mesmo recomenda as cartas que Paulo escreveu como se fossem Escritura! (2Pe 3:15-16).

A melhor maneira de descrever como Paulo se via entre os demais apóstolos é aquela do filho pródigo, que disse ao pai, ao regressar, "não sou digno de ser chamado teu filho" (Lc 15:21). Por ter perseguido a Igreja, Paulo fala de seu apostolado como uma honra nunca merecida, um favor especial concedido por Deus: "Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus" (1Co 15:9) [- devo este parágrafo a J. Van Bruggen].

Fico com a impressão que a inspiração dos modernos apóstolos evangélicos não é Paulo ou um dos Doze, mas o atual bispo de Roma.

terça-feira, janeiro 18, 2011

KING - O Homem e o Mito


Na revista Ultimato, de novembro/dezembro de 2000, um articulista escreveu o seguinte, sobre Martin Luther King: “Em 4 de abril de 1968. uma bala assassina silenciou esse profeta de Deus. Contudo. sua vida continua inspirando milhões de homens e mulheres. Martin Luther King Jr. não pode ser esquecido pela geração evangélica deste novo milênio. Que ele nos inspire a desejar mais profetas na igreja. Precisamos de homens e mulheres que não nos deixem acostumados com a ordem natural das coisas. Precisamos de gente cuja voz troveje ira contra a iniquidade e a injustiça, mas que nunca fale sem a ternura de Deus”.

Há décadas, esse é o mito criado ao redor de Martin Luther King: um profeta, um cristão comprometido, um exemplo para as gerações futuras. Não há dúvidas de que ele foi um hábil político, um orador excepcional, um articulador poderoso, um líder de massas e até um provocador de mudanças necessárias. Mas partir desse ponto, “canonizá-lo evangelicamente”, só deliberadamente ignorando alguns fatos que claramente comprometem o seu testemunho cristão. É verdade que a grande mídia estabeleceu a santidade de King a um ponto em que ninguém levanta qualquer questionamento sobre a auréola de pureza idealista criada em torno de sua pessoa. Apresentar a lembrança de suas falhas equivale a suicídio político e é o ápice do politicamente incorreto. Os evangélicos entraram na onda; hoje ele é capitaneado como sendo um líder cristão de primeira estirpe. Uma editora, no campo presbiteriano, chegou a lançar uma coleção de “Heróis da Fé”, na qual sua biografia ocupa um volume inteiro, ao lado de outros volumes dedicados a Martinho Lutero e outros verdadeiros baluartes cristãos.

Oferecemos aqui outro aspecto, geralmente esquecido, sobre Martin Luther King, não para apagar suas conquistas, mas para colocá-lo e posicioná-las dentro do contexto completo. Estas observações abaixo são públicas e estão disponíveis em livros e na internet, para quem quiser se certificar de sua autenticidade.

1. O destaque de Martin Luther King foi evidente na esfera político-social, mas no campo eclesiástico ele não se sobressaiu: nunca teve um pastorado produtivo de uma igreja; nunca trafegou na esfera teológica com pertinência; não deixou legado expositivo da Palavra de Deus.

2. Na esfera acadêmica, King tem sido constantemente acusado de ter plagiado sua tese de doutorado – isso é fato, e não calúnia, para quem quiser verificar. Um dos mais intensos pesquisadores (mas não o único), desse viés de Martin Luther King, foi Theodore Pappas (The Martin Luther King, Jr., Plagiarism Story). Ele prova categórica e comparativamente (com os originais) que King plagiou não apenas a sua tese de doutorado, mas diversos ensaios em vários cursos da Universidade de Boston. Na análise que fez da tese de King, Pappas demonstra a identidade em dúzias de trechos de uma tese de doutorado anterior, da mesma universidade, de autoria de Jack Boozer.

3. No campo matrimonial, infelizmente, ele envolveu-se com outras mulheres, mesmo sendo casado. A sua infidelidade conjugal não foi pontual, mas perene, enquanto se dedicava à causa política que abraçou. Quem comprovou isso, além de outros, foi o próprio Ralph Albernathy, um dos seus companheiros constantes e o seu sucessor à frente da AACP (Association for Advancement of Colored People). No seu livro de 1989, And the Walls Came Tumbling Down, Albernathy, afirma que no próprio dia em que foi assassinado, em um motel, Luther King “participou de uma pequena orgia com duas mulheres”. Teria ainda agredido e abusado de uma terceira.

4. Na esfera teológica ele pode ser classificado como liberal. James H. Cone é um de seus biógrafos, identificando-se com ele tanto pela cor da pele, como no abraçar do liberalismo teológico. Na página 29 do seu livro, além de apontar a grande influência de Paul Tillich na teologia e na vida de King, ele afirma que “King... se firmou no liberalismo teológico que dominava a Universidade de Boston”.

5. Seu maior pronunciamento ("I Have a Dream"), em que pese o anseio e a visão tão patentes por um tempo melhor e mais justo, é ao final, do ponto de vista cristão, um libelo existencialista que não passaria num teste de ortodoxia bíblica (o que não era, obviamente, sua preocupação). Leia esse discurso cuidadosamente e verá, que mesmo empolgante, do ponto de vista social e no contexto em que foi proferido, ele acena para situações inatingíveis na terra e constrói uma visão humanista da sociedade. Na realidade, por mais empolgante que seja o texto e a retórica, deveria ser evidente aos cristãos que King substitui escatologia por utopia.
Em última análise, King virou mito, tanto por seu ativismo político-social, como em função de seu brutal e injustificado assassinato (nenhum assassinato é justificado), por James Earl Ray, e todos passaram a bater palmas à sua memória, criando-se até um feriado específico para ele, nos Estados Unidos. Até aí, tudo bem. Mas, o que espanta, é que o mito é deglutido de forma indolor pelos cristãos que passam a compará-lo com os baluartes da fé. Pouquíssimos levantam a voz para dizer, ou pelo menos pesquisar, como foi o seu caminhar como crente. Quem quiser admirá-lo como expoente político, que o faça – ele merece. Mas, seria ir longe demais colocá-lo como exemplo de cristão.

Solano Portela

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Ainda chorando (e agindo) por nossas tragédias!

Estamos ainda em estado de choque pelos terríveis acontecimentos no Rio de Janeiro, onde as avalanches de terra e enchentes ceifaram mais de 400 vidas, testemunhando enchentes em São Paulo e Minas, também com perdas de vidas e de bens básicos, amealhados com grande sacrifício. Lembramos que, mais uma vez, as últimas viradas de anos têm sido marcada por tragédias. Em 2008/2009 foram inundações e deslizamentos assoladores em Santa Catarina. Na transição 2009/2010 tivemos também mortes e prejuízos causados pelas águas, no sudeste do Brasil. Naquela ocasião escrevíamos, também, sobre o terremoto no Haiti e choramos com o conseqüente sofrimento chocante e intenso daquele evento que dizimou cerca de 200 mil pessoas. Um ano depois, aquele povo ainda geme com a orfandade, dissolução social, promessas não cumpridas pela "comunidade internacional" e com a extrema e endêmica corrução arragaida naquela terra. Isso porque ainda não nos saiu da memória o Tsunami de 26.12.2004, no Oceano Índico, quando pereceram cerca de 220 mil pessoas.

Enquanto vemos as cenas de dor e tristeza, e avaliamos tudo isso, procurando aferir o que podemos e devemos fazer, somos levados às Escrituras para procurar alguma compreensão trazida pelo próprio Deus, para esses desastres. É no meio dessas circunstâncias que decidimos recolocar aqui alguns pensamentos que já foram expressos neste Blog, há um ano.

Na ocorrência de tragédias devemos resistir à tentação de procurar respostas que diminuem a bíblica soberania e majestade de Deus, e conseqüentemente não fazem justiça à sua pessoa. Tais “explicações”, “conclusões” e “construções” aparentam ser plausíveis, mas revelam-se meramente humanas, pois contrariam a revelação das Escrituras. Esse tipo de resposta sempre aparece, quando ocorrem desastres; quando diversas vidas são ceifadas e pessoas que estavam entre nós desaparecem, de uma hora para outra. Interpretações estranhas dessas circunstâncias não são novidade e nem têm surgido apenas em nossos dias.

Por exemplo, em novembro de 1755 a cidade de Lisboa foi praticamente arrasada por um grande terremoto. A conclusão emitida por padres jesuítas foi a de que: “Deus julgou e condenou Lisboa, como outrora fizera com Sodoma”. Voltaire (François Marie Arouet), que era um deísta, escreveu em 1756 “Poemas sobre o desastre em Lisboa”. Ali, ele culpa a natureza e a chama de malévola, deixando no ar questionamentos sobre a benevolência de Deus. Jean Jacques Rousseau, respondeu com “Carta sobre a providência”. Nela ele culpa “o homem” como responsável pela tragédia. Ele aponta que, em Lisboa, existiam “20 mil casas de seis ou sete andares” e que o homem “deveria ter construído elas menores e mais dispersas”. Ou seja, procurando “inocentar a Deus e a natureza” ele coloca a agência da tragédia no desatino dos homens, de maneira bem semelhante à que os especialistas contemporâneos e comentaristas da mídia adoram fazer.[1]

Quando do terremoto no Haiti, à semelhança do que ocorreu no Tsunami, alguns depoimentos de pastores, que li, falavam sobre a “mão pesada de Deus, em julgamento”; opinião semelhante à emitida quando do acidente com o avião que transportava o grupo “Mamonas Assassinas”, em 1996. Ninguém tem essa capacidade de julgamento, que reflete apenas orgulho e prepotência.

Mas outros procuram uma teologia estranha às Escrituras, para “isolar” Deus da regência da história. São os mesmos que, quando da ocorrência do Tsunami e do acidente ocorrido com o Vôo 447 da Air France em junho de 2009, emitiram a seguinte conclusão: “Diante de uma tragédia dessa magnitude, precisamos repensar alguns conceitos teológicos” (veja as excelentes reflexões sobre esse último desastre, no post do Augustus Nicodemus, neste mesmo blog). No entanto, em vez de formularmos nossa teologia pelas experiências, voltemo-nos ao ensinamento do próprio Jesus.

Graças a Deus que temos, em Lucas 13.1-9, instrução pertinente sobre como refletir sobre desastres e tragédias. A primeira tragédia tratada é aquela gerada por homens (Vs 1-3). Certos galileus haviam sido mortos por soldados de Pilatos. A Bíblia diz que “alguns” colocaram-se como críticos e juízes (a resposta de Jesus infere isso); deduziram que aqueles que haviam sofrido violência humana, sangue derramado por armas (um paralelo às situações que vivemos nos nossos dias) seriam mais pecadores do que os demais. No entanto, o ensino ministrado pelas Escrituras é o seguinte: Não vamos nos colocar no lugar de Deus. Não vamos nos concentrar em um possível juízo ou julgamento sobre as vítimas. Jesus, em essência diz: cuidem de si mesmos! Constatem os seus pecados! Arrependam-se!

Mas ele nos traz, também, um segundo tipo de tragédias. Esta que é referida é semelhante, guardadas as proporções, a essas enchentes e deslizamentos, ou ao terremoto do Haiti. São tragédias classificadas como “fatalidades”. Jesus fala da Torre de Siloé. O texto (Vs 4-5) diz que ela desabou, deixando 18 mortos. Jesus sabia que mesmo quando, aos nossos olhos, mortes ocorrem como conseqüência de acidentes, isso não impede que rapidamente exerçamos julgamento; não impede que tentemos nos colocar no lugar de Deus. E Jesus pergunta, sobre os que pereceram: “Acham que eram mais culpados do que todos os demais habitantes da cidade”? O ensino é idêntico: Não se coloquem no lugar de Deus; não se concentrem em um possível juízo ou julgamento sobre as vítimas; cuidem de si mesmos! Constatem a sua culpa! Arrependam-se!

O surpreendente é que Jesus passa a ilustrar o seu ensino com uma parábola (Vs.6-9). Ele fala de uma figueira sem fruto. Aparentemente, a parábola não teria relação com as observações prévias, mas, na realidade, tem. Ela nos ensina que vivemos todos em “tempo emprestado” pela misericórdia divina. O texto nos ensina que:

Figueiras existem para dar frutos - o homem vinha procurar frutos - essa era sua expectativa natural. Todos nós fomos criados para reconhecer a Deus e dar frutos. Esse é o nosso propósito original.

Figueiras sem frutos “ocupam inutilmente a terra”. O corte é iminente, e justificado a qualquer momento.

O escape: É feito um apelo para que se espere um pouco mais, na esperança de que, bem cuidada e adubada, a figueira venha a dar fruto e escape do corte.

Lições para o vizinho? Jesus não apresenta a figueira como um paralelo para fazermos uma comparação com outras pessoas – cujas existências foram ceifadas como vítimas de violência ou fatalidades. Ele quer que nos concentremos em nós mesmos, em nossas próprias vidas, pecados e na necessidade de arrependimento.

Tempo emprestado: O que ele está ensinando e ilustrando, aqui, é que nós, você e eu, como os habitantes das regiões serranas do Rio, de Franco da Rocha, em São Paulo, ou do Haiti, vivemos em tempo emprestado; vivemos pela misericórdia de Deus; vivemos com o propósito de frutificar, de agradar o nosso proprietário e criador.

Creio que a conclusão desse ensino, é que, conscientes da soberania de Deus e de que ele sabe o que deve ser feito, não devemos insistir em procurar grandes explicações para as tragédias e fatalidades. Jesus nos ensina que teremos aflições neste mundo (João 1.33) - essa é a norma de uma criação que geme na expectativa da redenção. 1 Pe 4.19 fala dos que sofrem segundo a vontade de Deus. Lemos que não devemos ousar penetrar nos propósitos insondáveis de Deus; não devemos “estranhar” até o “fogo ardente” (1 Pe 4.12).

Assim, as tragédias, desde as locais pessoais até as gigantescas, de características nacionais e internacionais, são lembretes da nossa fragilidade; de que a nossa vida é como vapor; de que devemos nos arrepender dos nossos pecados; de que devemos viver para dar frutos.

Também, não cometamos o erro de diminuir a pessoa de Deus, indicando que ele está ausente, isolado, impotente. Como tantas vezes já dissemos, “Deus continua no controle”. Lembremos-nos de Tiago 4.12: “um só é legislador e juiz - aquele que pode salvar e fazer perecer”. Não sigamos, portanto, nossas “intuições”, no nosso exame dos acontecimentos, mas a Palavra de Deus. Como nos instrui 1 Pe 4.11: “ se alguém falar, fale segundo os oráculos de Deus”.

Em adição a tudo isso, não podemos cometer o erro de ser insensíveis às tragédias - Pv 17.5 diz: “o que se alegra na calamidade, não ficará impune”; mesmo perplexos, sabendo que não somos juízes nem videntes. Devemos nos solidarizar com as vítimas, na medida do possível. E o que podemos fazer para auxiliar e agir a favor daqueles que foram severamente atingidos nesses desastres causados pelas águas, entre os quais estão vários dos nossos irmãos na fé? A Igreja Presbiteriana do Brasil possui um Conselho de Ação Social (CAS). Contatado, obtive a seguinte informação, sobre o que pode ser feito:

1. Um pastor da região, o Rev. Carlos Augusto, da Igreja Presbiteriana de Magé, presidente do Presbitério de Magé, está responsável pelos esforços de coleta e distribuição de auxílio aos sobreviventes, que se encontram em dificuldade. Eles esperam doações de roupas em perfeito estado, roupas íntimas novas; roupas de cama, mesa e banho; alimentos não perecíveis, velas, material de higiene pessoal, limpesa, etc. Esse tipo de material pode ser entregue ou remetido para o seguinte endereço: Avenida 02, No. 21, Jardim Novo Mundo, Magé.

2. Para doações em dinheiro
a. Igreja Presbiteriana do Brasil (CNPJ 00.118.331.0002/01) - doações terminando em R$2,00
Banco do Brasil, Agência: 4442-3, Conta Corrente - 6000-3
Exemplo: R$ 202,00.

b. Presbitério de Magé (CNPJ 01.264.150-0001/75),
Banco Bradesco, Agência 1546-6, conta corrente, 7806-9.

“Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade” ( 1 João 3.17-18).

Solano Portela

[1] Folha de S. Paulo 28/12/2004; Jornal do Commércio - Recife - 2/1/2005, de onde foram extraídas as citações desse trecho.
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Adaptado de estudos e sermões proferidos em 2005, e de POST de janeiro de 2010

Como assim, "livre pensador"?

Se com isto você quer dizer que quer "pensar" sem levar em conta pressupostos teológicos como Deus, as Escrituras e a teologia cristã, tudo bem. Mas se com isto você quer dizer que consegue pensar livre de qualquer pressuposto ou de maneira isenta ou neutra, é a maior bobagem que já vi. Todos, sem exceção, pensam a partir de referenciais. Se não for o Cristianismo histórico, será o liberalismo teológico, o naturalismo filosófico, o existencialismo, ou qualquer outra cosmovisão. Portanto, tire este arzinho se superioridade da cara, como se um "livre pensador" fosse alguém superior, mais inteligente ou liberto das peias do obscurantismo, ao qual todos os que confessam a fé cristã estão presos.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

É gente?

Recebi esta semana. Réplica de plástico de um feto de 12 semanas feito pelo pessoal pró-vida da Espanha, chamado de Bebè Aido. Usado para ajudar as mães que pretendem abortar com 12 semanas de gravidez a entender que não estão apenas "extraindo" uma "coisa" de seu ventre.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Decisões da IPB sobre o culto público


Em novembro de 2010 o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil se reuniu extraordinariamente para examinar diversos documentos que não puderam ser analisados em sua reunião ordinária em julho do mesmo ano. Entre eles havia vários documentos oriundos de presbitérios e sínodos acerca de questões relacionadas com o culto público a Deus.

Para alguns, pode parecer estranho que o concílio maior de uma denominação tão antiga e séria como a IPB se dedique a discutir por horas assuntos litúrgicos, quando existem outros assuntos "mais sérios e importantes" a serem tratados. A verdade, todavia, é que para os presbiterianos o culto público é um dos assuntos mais sérios e importantes na vida de uma igreja local e de uma denominação. No âmago da Reforma protestante estava um desejo profundo de reformar o culto a Deus dos acréscimos feitos pela Igreja Católica durante a Idade Média e retornar ao culto simples e teocêntrico ensinado na Bíblia. E hoje, quando outra vez a pureza do culto é ameaçada pela intrusão de elementos e práticas estranhas trazidos pelo neopentecostalismo e outras tendências, os presbiterianos entendem que é preciso se debruçar sobre o assunto, discutir o mesmo e tomar posicionamentos.

Foi isto, numa certa medida, que foi feito na reunião de novembro do ano passado. Alguns dos tópicos sobre culto analisados foram os seguintes.

1 - Havia uma consulta sobre a proibição de culto de gratidão a Deus no domingo a noite - ao que parece, alguns pastores estavam defendendo que o culto público nos domingos à noite deveriam sempre ser cultos regulares, sem a possibilidade da celebração de cultos em ações de graça, como é comum acontecer nas igrejas. A decisão do Supremo Concílio foi "não proibir as ações de graças como parte do culto no dia do Senhor", e que o culto deve ter Deus como centro. Ou seja, declarou que as ações de graças fazem parte do culto a Deus, como está na Confissão de Fé da IPB (Westminster) e que o culto não deve virar culto à personalidade, mas Deus é sempre o centro do mesmo.

2. Outra consulta tratava do título de apóstolo, diante do uso cada vez mais freqüente do mesmo por parte de líderes de igrejas e grupos neopentecostais. O Supremo Concílio respondeu que reconhece apenas os Doze Apóstolos e Paulo e que não cabe o uso do título a nenhum líder cristão contemporâneo.

3. O Supremo Concílio aprovou uma Carta Pastoral sobre Liturgia que trata de danças litúrgicas, coreografias e bater palmas durante os cultos. Esta Pastoral será preparada em formato de livro e publicada pela Editora Cultura Cristã, órgão oficial da IPB, e enviada a todas as igrejas locais sob sua jurisdição. Em linhas gerais, o Supremo Concílio declara na Pastoral que as danças e coreografias não fazem parte do culto público oferecido a Deus conforme revelado na Bíblia e que, portanto, as igrejas devem excluir tais práticas de suas liturgias. Bater palmas fica a critério de cada igreja local.

4. As comemorações do Natal por parte das igrejas também foi alvo de consulta. Como é sabido, há reformados que consideram cultos natalinos como corrupção do culto a Deus e  uma prática pagã sem fundamento bíblico. A decisão do Supremo Concílio, todavia, foi ratificar várias decisões anteriores que não proibiam as celebrações natalinas, embora colocassem limites e orientações e exigissem a fiscalização direta dos conselhos contra abusos.

5. Houve também a reafirmação de uma decisão anterior quanto às chamadas "práticas neopuritanas". Em termos gerais, o Supremo Concílio considera que tais práticas, como o cântico exclusivo dos salmos, a proibição de mulheres cristãs orarem nos cultos da Igreja, a proibição do uso de instrumentos musicais e de corais nos cultos, "não encontram amparo nos símbolos de fé da Igreja e nem nos seus Princípios de Liturgia," e que os concílios devem repelir a restrição de genuínos atos litúrgicos bem como os acréscimos de práticas antropocêntricas.

6. Uma decisão muito debatida foi sobre cantatas com representações teatrais. A decisão do Supremo Concílio declarou que "não há qualquer incompatibilidade da encenação teatral ou representativa de cantatas" com os elementos de culto público da IPB. Ou seja, continuam a ser permitidas - e felizmente, não obrigatórias - as cantatas com teatralização no culto. Se eu entendi correto, a decisão está permitindo teatro ou encenação durante o culto somente durante cantatas - o que normalmente se faz somente na época da Páscoa e do Natal. Assim mesmo, fica a dúvida se esta decisão não contraria a decisão mencionada no item 3 acima, e que foi tomada antes desta, que proibe coreografias durante o culto.

Tomadas como um todo, as decisões confirmam a tendência da maioria dos pastores e presbíteros da IPB em anos recentes de nos firmarmos mais e mais como uma igreja liturgicamente reformada, que rejeita as práticas neopentecostais sem, contudo, ceder aos excessos no neopuritanismo.

Quanto à implementação e observância destas decisões no cotidiano das igrejas locais, dependerá completamente da honestidade, fidelidade e zelo dos pastores, presbíteros e conselhos. Quem viver, verá...