
Perdemos a guerra cultural?
Solano Portela
Descrentes querem viver a vida moral dissoluta, mas dentro
de uma estrutura da sociedade que garanta sua segurança, seus bens, seu
progresso profissional, sua voz de reclamar, de reivindicar, de usufruir do avanço
da ciência e dos bens de consumo, de desfrutar as benesses do “capitalismo”, sem
se aperceberem que tais “direitos” vieram exatamente porque a sociedade ocidental,
ou a cultura judaico-cristã influenciou a construção dessa sociedade em que
vivemos e na qual estamos acostumados a coexistir. Estão cegos quanto ao
obscurantismo que impera nas regiões onde a influência do cristianismo cessou
de existir, ou onde ainda não chegou. Não enxergam os exemplos presentes e que
a norma, para uma humanidade caída em violência e pecado, é a desvalorização da
vida que se observa onde impera o islamismo, ou o hedonismo cruel das ditaduras
despóticas que adoram algum “líder supremo”, que assim se autoelege.
Na medida em que valores cristãos vão sendo ridicularizados
e descartados essa sociedade vai se fragmentando cada vez mais. Não é surpresa
para ninguém que a falta de ênfase primária à questão de segurança tem levado à
criminalidade desenfreada (pelos valores cristãos, este seria o propósito
principal do governo, segundo Romanos 13.1-7). A ignorância do valor da
honestidade (pelos valores cristãos, a cobiça é condenada) permeia não somente
os políticos e empresários corruptos, mas o dia a dia das pessoas, que também querem
levar vantagens indevidas. O descaso pela instituição do matrimônio (pelos
valores cristãos, é a união entre um homem e uma mulher), tem desfigurado a
célula mãe da sociedade e desnudado um futuro grotesco onde o comportamento
pecaminoso é glorificado e elevado como expressão máxima da liberdade
individual, que se coloca acima de qualquer padrão ou princípio. O desrespeito
à propriedade (pelos valores cristãos, o mandamento “não furtarás”, continua
válido, como os demais que regulam as relações entre os semelhantes), tem
levado a protestos ou reivindicações com quebra-quebras, invasões, apropriações
e espoliações do que é alheio.
Nesse cenário, algumas vozes, conscientes dos benefícios de
uma sociedade firmada em cima de princípios cristãos, têm proclamado que
estamos em outra era. Devemos mesmo é esquecer essa sociedade que conhecemos e
admitir que perdemos a guerra cultural. O mal venceu. A situação não vai
melhorar e estamos irremediavelmente fadados ao ostracismo, à rejeição, ao
ridículo e até à extinção como tribo defensora de valores e princípios
ultrapassados. Nem todos, mas muitos evangélicos, desde os rincões mais
arminianos até os bolsões conhecidos como reformados, têm abraçado esse
entendimento.
O que fazer, então? A escritora Leah Farish[1]
aponta algumas respostas que têm surgido de autores fora do campo evangélico. O
russo-ortodoxo Rod Dreher escreveu um livro intitulado The Benedict Option (A Opção Benedito), que vem causando furor e
muita discussão, até em meios reformados. Nesse livro, analisando a sociedade
norte-americana, ele aponta a perda inexorável dos limites de civilidade e a
crescente hostilidade aos princípios cristãos, de tal maneira que não há mais
clima de diálogo, promoção ou aprendizado dos valores cristãos. A solução, para
aqueles que ainda presam esses valores, seria se fecharem em comunidades nas
quais esses princípios pudessem ainda ser observados. Um outro autor, desta
feita católico romano, Alasdair McIntyre, também tem ideias semelhantes e advoga
essa clausura de autopreservação para que essa nova idade negra, na qual
reinarão bárbaros filosóficos, possa ser atravessada.[2]
As referências da Opção Benedito, são, em parte, a
pontuações feitas pelo atual Papa[3]
(Benedito, ou Bento XVI). No entanto a lembrança é levada, mais
especificamente, ao Benedito (ou Bento) do 6º Século d.C. (480-547 – não confundir
com o Benedito do século 16, 1526-1589), quando os cristãos fugiram dos
bárbaros e se agruparam no deserto, carregando consigo o germe redentor da
civilização que estava em perigo. A referência é que a barbárie demanda o
retorno a um isolamento em mosteiros.
Mas será que essa análise está correta? Sem descartar a
precisa visão dos problemas filosóficos, éticos e comportamentais que nos
assolam, as soluções apresentadas não parecem se harmonizar com a visão de uma compreensão
bíblica adequada, resgatada pela teologia da Reforma do Século 16. A Bíblia não
ensina o monasticismo como solução à pecaminosidade do mundo (Assim orou Jesus:
“Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”, João 17.9), mas o
envolvimento firmado na verdade para que sejamos “sal da Terra” (Mateus 5.13),
preservando a sociedade na qual vivemos; e “luz do mundo” (Mateus 5.14); luz no
meio das trevas, apontando os caminhos e revelando a iniquidade pelo contraste
com a verdade proclamada.
Com isso parece concordar Leah Farish, que diz, no artigo já
citado, “a Opção Benedito contrasta com as raízes da fé reformada”! As 95 teses
de Lutero foram um manifesto explosivo contra a cultura reinante; Calvino lutou
para reformar o pedaço de civilização sobre o qual tinha autoridade e sua
influência sobre a cultura do mundo ocidental é imensurável. Pode haver alguma
validade na sugestão dos crentes verdadeiros se agruparem, em reflexão, para estudarem
a Palavra e delinearem estratégias sobre a batalha na qual já estamos
envolvidos, mas nunca recorrer à formação de um gueto cristão. Leah Farish
relembra que os Judeus, na Polônia, inicialmente ficaram satisfeitos em serem
colocados em comunidades reclusas, os guetos. Afinal, iam poder viver em paz,
sem perseguição e praticar sua religião. Mas, o extermínio foi o passo
subsequente.
Como Paulo, reivindiquemos nossa “cidadania romana”, e
proclamemos o que temos de proclamar!
[1] Artigo postado no site da World
Reformed Fellowship (WRF): Is The
Benedict Option an Option?, disponível em: http://wrfnet.org/articles/2017/03/wrf-member-leah-farish-asks-benedict-option-really-option#.WNJ8rYWcGP8
[3] Por
exemplo: “Estamos nos movendo em direção a uma ditadura do relativismo, que não
reconhece nada como certo e cujo objetivo supremo é o ego e os desejos de cada
um”, citado em: http://www.catholic.org/news/national/story.php?id=34057
