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segunda-feira, setembro 20, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Ainda???!!!

Vejam aqui a entrevista que Leonardo Boff deu à revista Época:

O título é bombástico: "João Paulo II e Bento XVI afastaram a Igreja do mundo."

Concordo com várias das análises de Boff quanto a alguns dos motivos pelos quais a Igreja Católica vem perdendo membros no mundo todo, tais como a falta de padres por causa do celibato obrigatório e os escândalos recentes com casos e mais casos de pedofilia, seguidos por uma atitude incompetente do Papa para resolver o assunto.

Mas o que eu achei interessante foi a resposta que ele deu à pergunta da revista Época, "Qual seria a melhor forma de atrair quem anda distante da Igreja Católica?"

A resposta de Boff foi esta:

"A melhor forma é aquilo que a Igreja da Libertação faz desde os anos 70. Reunir cristãos pra confrontar a página da Bíblia com a da vida. Uma evangelização ligada ao cotidiano e às culturas locais. Uma coisa no Nordeste, outra na Coreia. Essa visão proselitista é ofensiva à liberdade humana".

O que me impressionou foi que Boff ainda receita a teologia da libertação como remédio para a crise que a Igreja Católica está passando, mesmo que a teologia da libertação já tenha seu prazo de validade vencido.

Ele culpa João Paulo II e Bento XVI por terem matado a Teologia da Libertação. Mas eu acho que não. Ela morreu porque não era teologia e sim sociologia, não libertava os pobres da verdadeira escravidão à qual tanto eles quanto os ricos estão submetidos e no tempo em que teve oportunidade de mostrar a que veio falhou em conquistar o povo - ficou sendo um movimento de intelectuais apenas.

É diferente, por exemplo, da Reforma protestante. À semelhança da Teologia da Libertação, a teologia reformada sofreu oposição do Papa e à semelhança de Boff, Lutero foi excluído da Igreja Romana. Mas, o Papa não foi capaz de parar o avanço da teologia reformada e nem de destrui-la, como Boff diz que ele fez com a Teologia da Libertação. A diferença é que a teologia da Reforma era o antigo e simples Evangelho de Cristo, o poder de Deus para salvar todo aquele que crê. Ela inflamou não somente os nobres mas o povo simples, que nela encontrou a solução para um problema pior que a pobreza e a opressão, que é a culpa e a condenação eterna. E por isto se alastrou pelo mundo, em que pese os esforços do Papa e da Contra-Reforma católica. Hoje, o neo-calvinismo - movimento moderno oriundo da Reforma de Calvino - é considerado como uma das forças que estão mudando o mundo atual.

Eu fico impressionado como alguém fica defendendo ainda hoje os postulados e idéias gastos do liberalismo teológico, como os da Teologia da Libertação, apesar dos fatos demonstrarem que essas teologias não deram em nada, não mudaram vidas, não plantaram novas igrejas e não trouxeram pecadores perdidos ao arrependimento e à fé no Cristo ressurreto.

É igual à atitude dos liberais, que apesar do fracasso retumbante da teologia liberal em trazer um Evangelho palatável ao homem moderno, insistem em defendê-la e promovê-la.

Como dizem os americanos, "old ideas die hard...".
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quinta-feira, março 04, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Impressões do Congresso de Teologia do Mackenzie

Por     47 comentários:
Acabou ontem a noite o Congresso Internacional de Teologia, realizado no Mackenzie e tendo como principal preletor Dr. Michael Horton, com mais de uma dezena de livros publicados em português. A freqüência às palestras de Dr. Horton e dos demais preletores superou a expectativa dos organizadores do evento. Diversas oficinas foram oferecidas durante as tardes, e as salas reservadas ficaram pequenas para a grande afluência de interessados. Na noite da abertura havia perto de 800 pessoas no auditório Ruy Barbosa. As palestras foram também transmitidas ao vivo pela internet. Juntamente com o fato de que a maioria do público participante era composta de pastores, professores e alunos de teologia, a transmissão ao vivo aumentou bastante o potencial multiplicador do Congresso.

Um stand de livros teológicos selecionados ofereceu obras até com 50% de desconto, de diversas publicadoras, com vendas recorde em eventos anteriores realizados no Mackenzie. Na última noite, tivemos o lançamento do último título do Dr. Horton no Brasil, Cristianismo sem Cristo.

Acho que a causa da grande procura pelo evento foi seu objetivo principal, de identificar, analisar e mostrar os prejuízos do antigo liberalismo teológico e das teologias modernas que ainda seguem em sua esteira no Brasil. As palestras principais do evento mostravam claramente esta tendência. Além daquelas de Dr. Horton mostrando as falácias do liberalismo e da neo-ortodoxia, tivemos outras como "O fim do método histórico-crítico", que tive o prazer de apresentar, e "Teologia e Academia: Os opostos se atraem?" por Dr. Hermisten Costa.

As oficinas também foram nesta direção, explorando as origens, falácias e perigos do liberalismo teológico, antigo e novo.

Uma oficina que chamou a atenção foi a de Franklin Ferreira, onde ele mostrou que o "Cristianismo positivo" professado por Hitler e seu partido nazista era resultado do liberalismo teológico dos séculos 19 e 20. O anti-semitismo, a rejeição do Antigo Testamento, a negação de Jesus como judeu e de Paulo como rabi, e tudo mais, encontra ressonância nas obras de liberais como Schleiermacher, Wellhausen, Harnack. Dr. Franklin usou entre outras fontes a obra recente lançada no Brasil, O santo reich, de Richard Steigmann-Gall, publicada pela Imago, onde essa associação entre o protestantismo liberal e o nazismo é claramente documentada. O prestigiado jornal americano Sunday Times endossou a tese do livro dizendo "… connects Nazism to liberal Protestantism in a convincing way" (... [o livro] conecta o Nazismo ao Protestantismo liberal de maneira convincente").

No geral, vejo o Congresso como parte do movimento crescente no Brasil em busca de uma teologia bíblica, que respeite as Escrituras como a infalível Palavra de Deus, que leve a sério seus ensinamentos como um todo, ao mesmo tempo em que rejeita cada vez mais o liberalismo teológico que, apesar da negação de muitos, continua sendo ensinado e disseminados nos seminários e escolas de teologia do Brasil.
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sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Mauro Meister

Matemática Teológico-eclesiástica

Como estes são temas recorrentes em nosso blog, e andamos um pouco 'parados' nos posts, vou lançar um desafio sério aos leitores (motivação para o fim de semana):

Completarem a série de cálculos usando fórmulas.

A série inicial retirei de um livro de Mark Driscoll, Confissões de um pastor da reformissão (Rio de Janeiro: Editora Tempo de Colheita, 2009):


Evangelho + Cultura - Igreja = organização para eclesiástica


Cultura + Igreja - Evangelho = Liberalismo


Igreja + Evangelho - Cultura = Fundamentalismo


Evangelho + Cultura + Igreja = Reformissão

As fórmulas podem ser mais elaboradas e ir além das duas operações básicas acima. Imagine-as com multiplicação e divisão, em alguns casos, números não inteiros, a necessidade de encontrar o MDC, etc.

Vejamos os resultados...
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segunda-feira, janeiro 11, 2010

Solano Portela

O deslumbramento com a erudição católico-romana.

Recentemente, chamou-me atenção a utilização, por um pastor presbiteriano, de um livro texto de um autor católico-romano para ensinar ética cristã em um curso de Escola Dominical. Os alunos foram incentivados a adquiri-lo e a tê-lo como base de instrução. O caso é intrigante, pois existem diversas obras bem escritas e fundamentadas, no campo reformado e evangélico sobre ética cristã. Por que não utilizar essas? A questão é tão amorfa e indefinida assim, que qualquer base interpretativa serve de alicerce? As cabeças dos alunos, não estariam sendo confundidas, em vez de esclarecidas? Após verificar o livro, em detalhe, fiquei ainda mais espantado, pois a base fundamental dele era a apresentação da Bíblia como uma compilação meramente humana de escritos religiosos, que não retratavam, necessariamente, os fatos ou situações descritas com veracidade ou autoridade. [1] Como desenvolver a compreensão de uma ética bíblica, se a própria Bíblia é colocada em suspeição?

          A verdade é que há um deslumbramento em nossas instituições evangélicas de ensino, e em muitos pastores e líderes evangélicos, com a erudição católico-romana. Vários autores são pinçados a dedo como paradigmas da boa metodologia científica e erudição teológica (Croatto, Segundo, Mailhiot. Schökell, Lohfink, Schüssler-Fiorenza, e outros).[2] Há uma conseqüente importação de temas, por vezes já superados nas próprias academias que os originaram: a Alta Crítica (O Pentateuco não é da lavra de Moisés, mas obra de quatro redatores, identificados pelas primeiras letras dos nomes utilizados para designação da divindade ou do período nos quais foram escritos: JEDP), a Crítica da Forma, e – ainda a grande pérola querida da academia – a Crítica do Texto. Todas essas correntes presentes em alguns círculos teológicos do evangelicalismo têm em comum o descartar da Escritura Sagrada como texto inspirado; como revelação em forma objetiva, com proposições aferíveis (revelação proposicional) à humanidade, como Palavra de Deus confiável.

          Procura-se hoje a análise do discurso, como forma de se chegar a uma compreensão da verdadeira mensagem que o autor ou autores procuraram registrar, e que está confundida com mitos, adições e trabalhos redacionais. Segundao esta visão, não existe texto íntegro. Todos estão sujeitos ao escrutínio da mente e especulação humana, que reina soberana postulando e definindo o que deve ser aceito e o que deve ser rejeitado. A simples idéia de uma revelação proposicional – de um Deus que intervém e interage com a produção intelectual da humanidade, por meio das Escrituras, de forma sobrenatural, é tão repugnante à pseudo academia teológica contemporânea, quanto a aceitação prima facie dos milagres registrados nos textos sagrados.

          Interessantemente, enquanto as Escrituras são rejeitadas ipso facto como sendo Palavra de Deus, confiável e livre de erros, outros documentos, de cuja existência não se têm a mínima menção em autores antigos, nem a menor evidência de terem existidos, são aceitos, como por revelação divina. Assim, rejeitam-se diversas cartas de Paulo, como sendo epístolas do próprio (apesar de sua autoria ser declarada no texto), mas não se tem qualquer dúvida da existência de “Q”, como fonte primária dos evangelhos sinóticos (ao lado de “M” e de “L”), mesmo que esses textos sejam meras especulações. Gerados pelas similaridades que a verdadeira erudição cristã sempre identificou nos evangelhos sinóticos, com um razão tão simples quanto veraz: são todos documentos confiáveis, íntegros, ancorados nos fatos históricos da vida de Jesus, cerne de suas narrativas.

          Mas essa verdade simples não serve, pois, partindo-se já da premissa da falta de integridade dos textos que dispomos, horas incontáveis de estudo e pseudo pesquisas são aplicadas no discernimento do pensamento das comunidades lucanas, petrinas, marcanas – supostamente grupos de cristãos responsáveis, como grupo, pelas idéias registradas nos livros que levam os nomes de autores bíblicos, que podem tão somente ser peças de ficção – tanto o texto final, como os autores.

          A Bíblia é, nessa abordagem, um livro meramente humano – cheio de mitos, falhas, contradições e divergências entre si. A teologia de Paulo difere daquela teologia retratada no evangelho de Mateus, pois representa um desenvolvimento adicional do pensamento. Não temos complementação de verdades, mas desenvolvimento de idéias, seguindo tramas e caminhos restritos apenas pela ousadia da imaginação dos autores.

         Qual a validade de tais estudos, então? Não representam a busca de um discernimento de proposições prescritivas, que podem auxiliar, como normativa, a postura dos Cristãos, em um caminhar que lhes dê paz, ou que agrade a Deus. Consistem apenas em exercícios acadêmicos; um fim em si mesmo; exercícios mentais de reconstrução historiográfica, partindo da premissa básica de que não existe palavra revelada, ou inspiração divina. Mesmo quando os textos, sob o escrutínio da crítica da forma (formgeschichte), estão estabelecendo modelos comportamentais – proibições e/ou permissões – eles são descartados por uma análise sociológica, ancorando tais prescrições nas condições vigentes, da era, invalidando qualquer aplicabilidade contemporânea. Essa visão segue, em coerência à rejeição da integridade dos textos, o entendimento da não existência de princípios absolutos, permanentes e de validade perene – relativizando todo inter-relacionamento social, às limitações comunitárias da época em que foram formuladas.

          Há também aqueles que não estão tão preocupados com as fontes, mas que se prendem à análise dos textos – quaisquer que sejam esses, porque a sua própria existência e sobrevida demonstram que possuem importância intrínseca. Não, segundo esses acadêmicos, como documentos históricos, de fatos aferíveis, confiáveis ou verificáveis; mas, tão somente, como reflexo de experiências humanas a coisas que aconteceram. Essas questões e fatos não são tão importantes assim – mas o reflexo delas, esse deve ser estudado. Não há validade prescritiva, mas apenas um trabalho, cheio de tédio e verborragia, descritivo dessas narrativas, entremeados com observações que militam contra a integridade do que é dito.

          Toda essa rejeição do texto sagrado está presente no livro ao qual me referi no início deste texto. Mas qual a validade dele, para o entendimento da Palavra de Deus? Como livro de ética, é uma mera coletânea descritiva dos discursos de Jesus, conforme o registro dos evangelhos, e de diretrizes encontradas nas cartas paulinas. No entanto, a integridade dos textos é descartada como premissa. De acordo com o autor deste livro, os evangelhos são mera produção humana, compilados de documentos primários, com trabalho de redação e adição aos eventos históricos, pelos compiladores – que podem até ter sido, mesmo, os evangelistas, Marcos, Mateus e Lucas. As cartas, não são necessariamente de Paulo (não interessa que comecem afirmando a autoria paulina, com uma mentira, dizendo que são – situação ética, que se fosse veraz, seria bem contraditória a qualquer ética, não acham?). Até as cartas que o autor considera que podem ser atribuídas a Paulo, foram embaçadas, na sua opinião, por um trabalho de composição e redação de possíveis escritos menores, com adições prováveis realizadas pelo redator.

         Um livro de ética como esse, ao qual me refiro, não irá derivar regras comportamentais do texto sagrado, pois todos os direcionamentos nele encontrados são pertinentes à era. Tudo pode (e até deve) ser modificado, de acordo com ele. A conscientização da humanidade, a interação social através dos séculos, tudo isso está acima do texto sagrado e justifica a quebra das diretrizes, que não são aceitas nem como divinas, nem como universais e absolutas. Por exemplo, quando Paulo compara a relação social do casamento, à relação espiritual de amor que Cristo tem com a igreja, e daí deriva uma norma universal e perenemente aplicável, o autor diz que: “O Paulo de Efésios com certeza não vai além da estruturas sociais de seu tempo que em geral exigiam que as esposas fossem submissas a seus maridos” (p. 290). Nessa compreensão não temos, mais a palavra normativa de Deus com prescrições sempre atuais, mas um mero “Paulo de Efésios”, cujas diretrizes podem ser descartadas como anacronicamente inaplicáveis, por razões sociológicas.

          É lamentável que tantos se afastem da simplicidade do evangelho e se enredem nessas vias complexas, que levam à confusão, ao ceticismo, ao descrédito da fé. É mais lamentável ainda que o povo de Deus receba esse tipo de ensino e orientação que mina a autoridade da Palavra inspirada do nosso Criador. O Tempora! O Mores!
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[1] MATERA, Frank J. Ética do Novo Testamento: os legados de Jesus e de Paulo. Tradução João Rezende Costa, do original: New Testament Ethics. São Paulo: Paulus, 1999, 379 pp. (professor de Novo Testamento na Catholic University, Washington, DC).

[2] Alguns autores católicos muito utilizados e suas obras mais comuns – disponíveis em português:
• GIRARD, Marc. Como Ler o Livro dos Salmos: Espelho da vida do povo. São Paulo: Paulinas, 1992. (Frei Marc Girard, canadense, professor na Universidade de Quebec).
• MAILHIOT, Gilles-Dominique. Os Salmos: Rezar com as palavras de Deus. Trad. Odila Aparecida de Queiróz. São Paulo: Loyola, 2008. (Frei dominicano, falecido em 2008, ensinou no Colégio Universitário Dominicano de Otawa, no Canadá).
• ALONSO SCHÖKEL, Luis. O Espírito Santo e os Salmos. Salmos e Exercícios. Trad. Maurício Ruffier. São Paulo: Loyola, 1998. (Católico espanhol, falecido em 1988. Estudou no Pontifício Instituto Bíblico, do Vaticano).
• SCHÜSSLER-FIORENZA, Elisabeth. “Exemplificação do Método Exegético”. In: SCHREINER, Josef (ed.). Palavra e Mensagem: introdução teológica e crítica aos problemas do Antigo Testamento, pp. 497-526. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1978. (Elisabeth Schussler-Fiorenza é professora da Harvard Divinity School e identifica-se como católica).
• LOHFINK, Gerhard. Agora entendo a Bíblia. Para você entender a Crítica das Formas. Trad. Mateus Rocha. São Paulo: Paulinas, 1978. (ex-professor da Universidade de Tubinguen, na Alemanha. Católico, renunciou em 1986 para trabalhar com comunidades – livro escrito, nesse período: Jesus e Comunidade).
• BROOK, Wes Howard & Anthony GWYTHER. Desmascarando o Imperialismo: Interpretação do Apocalipse ontem e hoje. Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus e Loyola, 2003. (jesuíta, ex-advogado do Senado Norte-Americano, decidiu estudar teologia depois de uma carreira bem sucedida como advogado. Ensina na Seattle University)
• BEAUCHAMP, Paul & Denis VASSE. A violência na Bíblia. Trad. Maria Cecília M. Duprat. São Paulo: Paulus, 1994. (Exegeta francês, jesuíta, já falecido).
• SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos Sinóticos a Paulo. Trad. Magda Furtado de Queiroz. São Paulo: Paulus, 1997. (autor uruguaio, jesuíta, já falecido).
• CROATTO, J. Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa - uma introdução à fenomenologia da religião. Trad. de C. M. V. Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001. 513p. (Argentino, jesuíta).
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sábado, novembro 21, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Carta a Bultmann

Por     118 comentários:


Rudolf Bultmann (1884 – 1976) foi um dos maiores estudiosos do Novo Testamento do século passado, e provavelmente o maior representante do liberalismo teológico na área dos estudos bíblicos (embora ele mesmo não se considerasse um liberal). A carta, obviamente, é fictícia, bem como os comentários jocosos que irão aparecer assinados por Bultmann...
Meu caro Bultmann,

Sei que você não pode mais me ouvir. Não quero parecer covarde escrevendo para quem já morreu. Mas, não tive a oportunidade de conhecê-lo enquanto você ainda vivia (tornei-me cristão um ano após a sua morte). Além do mais, você sabe que escrever é dar a cara à tapa, mesmo depois de morto. E o que coloco aqui é baseado nas coisas que você escreveu e que, depois de sua morte, ainda falam.
Começo expressando minha profunda admiração pela sua cultura, seu conhecimento, domínio do grego e do latim e pela lógica de seus posicionamentos. Posso não concordar com você em praticamente tudo que você concluiu, mas seria injusto deixar de reconhecer seu valor e talento como pesquisador, erudito e escritor para os estudos no Novo Testamento e para a hermenêutica.
Reconheço também a sua piedade. Sei que sua religiosidade foi moldada no pietismo alemão, o qual valorizava a piedade individual e defendia uma vida cristã consistente. Pelo que li, você era membro dedicado da Igreja Luterana na Alemanha e um excelente pregador. Li recentemente que você também pregava sermões natalinos e fiquei curioso em saber como você conseguia fazer isto, uma vez que não acreditava realmente que Jesus de Nazaré era o Filho de Deus encarnado.
Sabe, caro doutor, pode ser que sua intenção real, ao dizer que o Novo Testamento está cheio de mitos, lendas e estórias fabricadas pela fé da Igreja, tenha sido libertar o kerygma de uma determinada visão mitológica de mundo. Você aparentemente intencionava alcançar o homem moderno, que tem uma visão de mundo moldada pelo cientificismo, que não acredita mais em milagres, e que já tem uma explicação científica para tudo o que acontece. Você queria desmitologizar o Novo Testamento e apresentar a este homem racionalista um Evangelho que não o ofendesse e que ele pudesse aceitar sem perder a sua respeitabilidade científica. Quero dizer que reconheço que sua intenção era boa e seu alvo, legítimo. Devemos envidar todos os esforços para falar à nossa geração. Vejo neste propósito seu uma intenção missionária, que aprecio e com a qual concordo.
Mas, se você pudesse ver hoje o resultado de sua estratégia, desconfio que ficaria desconsolado em ver que não funcionou como você queria. Seria injusto acusá-lo de esvaziar as igrejas na Europa, Estados Unidos e outros locais. A secularização geral da Europa também contribuiu para isto. Mas o fato é que onde suas idéias mais radicais foram adotadas por professores liberais de teologia e pastores, as igrejas secaram, se esvaziaram e morreram. Pode ter sido coincidência. Mas a verdade é que este homem moderno, por mais científica que seja sua mentalidade, quando ele vai aos domingos para a igreja, quer saber como pode alcançar paz interior, perdão para sua consciência culpada, reconciliação com Deus e ter esperança da vida eterna – coisas que o Jesus histórico com sua mensagem existencialista que você apresentou, depois de despi-lo de sua divindade, não pode oferecer.
Se você pudesse ver alguns de seus seguidores hoje entenderia melhor o que eu quero dizer. Uma parte deles não consegue contribuir em nada para a Igreja, o que era sua intenção inicial, caro Rudolf. Eles acabam virando acadêmicos, dando aulas em escolas de teologia secularizadas ou nos seminários das denominações históricas e tradicionais, onde nem sempre dizem o que pensam (há exceções, é claro). Não ouvi ainda falar de algum que seja um pastor reconhecido, plantador de igrejas, evangelista, que ame missões e que tenha feito sua igreja crescer - embora eu deva reconhecer que conheço alguns fundamentalistas que também são assim, secos e infrutíferos. Mas, a diferença, caro doutor, é que um pastor liberal (é assim que chamamos, certo ou errado, quem adota suas idéias) que não planta igrejas, não evangeliza, não tem interesse em missões, está sendo coerente com aquilo que acredita; enquanto que um pastor conservador que não planta igrejas, não evangeliza nem tem interesse em missões está sendo inconsistente para com o Cristianismo histórico tradicional.
Eu gostaria de poder lhe dizer que suas idéias morreram e que hoje praticamente não tem mais ninguém que seriamente as defenda. Mas, não, não posso dizer isto. Lembra do Karl Barth, que viveu na sua época, e com quem você trocou correspondências por mais de 30 anos? Vocês dois tinham muita coisa em comum, embora também diferenças. Pois é, acho que ele acabou levando a melhor, pois muitos de teus discípulos acabaram virando bartianos ou neo-ortodoxos – é assim que os chamamos – e embora falem a língua dos ortodoxos (daí o nome neo-ortodoxia) ainda conservam em grande parte aquele seu ceticismo radical para com a veracidade e historicidade do Novo Testamento. Estes neo-ortodoxos detestam ser identificados como liberais, mas ao final, não sendo realmente uma nova ortodoxia, o melhor nome para eles deveria ser neo-liberais mesmo.
Por último, não poderia deixar de lhe dizer que a premissa maior de seu programa de desmitologização – aquela de que o homem moderno tem uma mentalidade científica e não acredita mais em milagres – acabou se provando falsa: o homem moderno continua cada vez mais religioso, apesar dos esforços dos ateus evangelistas (não que você tenha sido ateu), como Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens, e do crescimento da mentalidade secularizada no mundo ocidental.
Termino aqui. Espero sinceramente não ter entendido mal as coisas que você escreveu. Digo isto, pois mostrei o esboço desta carta a um amigo, um jovem, erudito, inteligente e capaz teólogo, seu admirador, e ele me disse que discordava totalmente de mim. Não tivemos tempo de aprofundar nossa conversa e discutir os pontos de discordância. Mas, pelo que tenho lido das tuas obras, acredito que não fui injusto para com tuas idéias.
Sinceramente,
Augustus

Veja aqui resenha minha de uma das obras críticas de Bultmann sobre o Novo Testamento

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domingo, setembro 06, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Gays e Lésbicas praticantes agora podem ser Ministros do Evangelho na Igreja Luterana Americana

Por     52 comentários:

Leiam aqui a notícia sobre a decisão recente da maior Igreja Luterana dos Estados Unidos de confirmar gays e lésbicas praticantes como pastores e bispos luteranos. Antes, eles eram aceitos somente se permanecessem no celibato. A reunião foi presidida pelo bispo Mark Hanson (foto).

Não pretendo neste post entrar na questão da homossexualidade como uma quebra do padrão bíblico para a família, indivíduo e sexualidade. Quem quiser ler sobre isto, faça uma busca aqui no blog da palavra "homossexual" e encontrará diversos posts sobre o assunto. O que eu quero destacar é que a Igreja Luterana dos Estados Unidos, ao decidir pela maioria de seus representantes que gays e lésbicas podem ser ministros do Evangelho, estava simplesmente levando o liberalismo teológico às suas últimas conseqüências lógicas.

Sim, a ELCA (Igreja Evangélica Luterana da América) é outra daquelas igrejas históricas oriundas da Reforma que abandonaram a visão dos Reformadores quanto às Escrituras e sua autoridade e adotou o método crítico de interpretação. Para os que lêem inglês, vejam o que a ELCA pensa sobre a Bíblia. Em resumo, para os que não lêem inglês, a ELCA acredita que:

1) A Bíblia é o mais importante meio de Deus revelar seu ser e sua presença. Não é sua revelação exclusiva, uma vez que a ELCA é ecumênica e acredita que existe salvação em outras religiões.

2) A Bíblia contém a história da interação de Deus com os homens. Nada mais que isto. Ela não é a Palavra de Deus, mas o registro humano daquilo que os judeus e os cristãos acreditavam sobre Deus.

3) Como tal, este registro é falível e contém erros. Nele encontramos o reflexo dos preconceitos da época em que a Bíblia foi escrita. Este registro é por vezes contraditório internamente, pois os escritores da Bíblia registraram idéias diferentes e contraditórias sobre Deus, sua palavra, caminhos e vontade.

4) Quem pode dizer o que é certo ou errado dentro da Bíblia é a Igreja, a comunidade do Cristo. Este é o critério os luteranos americanos para aceitar ou rejeitar partes da Bíblia. Se alguma coisa edifica e leva a Cristo, então é de Deus. Se não, é coisa humana. E se perguntarmos qual o critério para decidirmos, por exemplo, que a homoafetividade edifica e leva à Cristo, a resposta será “aquilo que a Igreja decidir”.

5) Nos gêneros literários da Bíblia temos lendas de heroísmo e "estórias", outro nome para mitos. Entre estes a ELCA certamente coloca o nascimento virginal de Jesus -- assunto que ela declara estar aberto para discussão -- e a ressurreição de Jesus, que para eles não é um fato da história.

Quando uma igreja adota esta visão liberal da Bíblia é só uma questão de tempo até começar a rejeitar o ensino bíblico sobre o homossexualismo. Todas as igrejas ditas cristãs e que hoje aceitam que homossexuais praticantes sejam pastores e bispos são também igrejas que adotaram o método crítico e o liberalismo teológico em primeiro lugar: A Metodista Unida dos Estados Unidos, a Presbiteriana dos Estados Unidos, a Episcopal americana e agora a Luterana, também nos Estados Unidos. Na Europa, o padrão é o mesmo.

É preciso ressalvar que nem todos os pastores e membros destas igrejas concordam com isto. Houve rachas, dissensões, protestos, por parte das minorias discordantes. Todavia, estas minorias não têm força para lutar dentro de denominações que já rejeitaram a idéia de um cânon definido, inspirado, autoritativo e infalível, única regra de fé e prática.

É fácil ver que a ordenação de gays e lésbicas como ministros do Evangelho é fruto do liberalismo teológico. Uma vez que boa parte da sociedade já aceita o homossexualismo como algo natural, normal e até desejável, resolve-se que aquelas partes da Bíblia que caracterizam a homossexualidade como desvio moral e abominação sejam consideradas como mais um reflexo do preconceito cultural da época, a opinião pessoal dos escritores, mas jamais como uma norma, um conceito ou uma verdade de Deus, válida para todas as épocas e culturas. E assim a Igreja passa a julgar a Bíblia e decidir o que vale e o que não vale para hoje, a partir do seu entendimento da sociedade, da cultura e da época.

É claro que há coisas na Bíblia que são reflexo da cultura do Antigo Oriente, onde ela foi escrita, como saudar com beijos, usar véu, a escravidão e a poligamia. Contudo, saudação com ósculo santo e uso do véu não estão na mesma categoria de relações sexuais. A poligamia já é claramente abolida no Novo Testamento, onde também estão plantadas as sementes para a abolição da escravidão. O tema da homossexualidade, contudo, é tratado uniformemente, no Antigo Testamento e no Novo Testamento como uma questão moral e espiritual que tem raízes na natureza corrompida e decaída do ser humano.

O liberalismo teológico está firmemente plantado no coração de várias denominações históricas no Brasil. As sementes estão lá. Cedo ou tarde elas amadurecerão e seu fruto não será diferente do que tem acontecido com as igrejas nos Estados Unidos e Europa, que durante décadas ensinaram o método histórico-crítico em seus seminários. Já ficou claro historicamente quais as conseqüências morais uma vez que se rejeita a autoridade e infalibilidade da Escritura: não existem valores morais que sejam absolutos e intocáveis.

[Vejam aqui o meu comentário quando a PCUSA (Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos) passou a aceitar gays e lésbicas como membros comungantes de suas igrejas locais.]

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