terça-feira, julho 25, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Eu Não Sei

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Recentemente li uma crítica feita aos calvinistas que eles costumam escapar de dilemas teológicos resultantes de sua própria lógica recorrendo ao conceito de “mistério”. Ou seja, os calvinistas, depois de se colocarem a si mesmos numa encruzilhada teológica, candidamente confessam que não sabem a resposta para a mesma.

A crítica em particular era sobre a doutrina da predestinação. Segundo a crítica, os calvinistas insistem que Deus decretou tudo que existe, mas quando chega o momento de explicar a existência do mal no mundo, a liberdade humana e a responsabilidade na evangelização, eles simplesmente dizem que não sabem a resposta para os dilemas lógicos criados: se Deus predestinou os que haveriam de ser salvos e condenados, como podemos responsabilizar os que rejeitam a mensagem do Evangelho? Os calvinistas, então, de acordo com a crítica, recorrem ao que é denominado de antinômio, a existência pacífica de duas proposições bíblicas aparentemente contraditórias que não podem ser harmonizadas pela lógica humana.

A verdade é que, além da soberania de Deus, temos outras doutrinas na mesma condição, como a definição clássica da Trindade, mantida não somente pelos calvinistas, mas pelo Cristianismo histórico em geral. Por um lado, ela afirma a existência de um único Deus. Por outro, afirma a existência de três Pessoas que são divinas, sem admitir a existência de três deuses.

Ao longo da história da Igreja vários tentaram resolver logicamente o dilema causado pela afirmação simultânea de duas verdades aparentemente incompatíveis. Quanto ao mistério da Trindade, as soluções invariavelmente correram na direção da negação da divindade de Cristo ou da personalidade e divindade do Espírito Santo; ou ainda, na direção da negação da existência de três Pessoas distintas. Todas essas tentativas sempre foram rechaçadas pela Igreja Cristã por negarem algum dos lados do antinômio.

Um outro exemplo foram as tentativas de resolver a tensão entre as duas naturezas de Cristo. Os gnósticos tendiam a negar a sua humanidade para poder manter a sua divindade. Já arianos, e mais tarde, liberais, negaram a sua divindade para manter a sua humanidade. Os conservadores, por sua vez, insistiram em manter as duas naturezas e confessar que não se pode saber como elas podem coexistir simultânea e plenamente numa única pessoa.

No caso em questão, as tentativas de solucionar o aparente dilema entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana sempre caminharam para a redução e negação da soberania de Deus ou, indo na outra direção, para a anulação da liberdade humana. No primeiro caso, temos os pelagianos e arminianos. No outro, temos os hipercalvinistas, que por suas posições deveriam mais ser chamados de “anticalvinistas”. Mais recentemente, os teólogos relacionais chegaram mesmo a negar a presciência de Deus pensando assim em resguardar a liberdade humana.

Há várias razões pelas quais eu resisto à tentação de descobrir a chave desses enigmas. A primeira e a mais importante é o fato que a Bíblia simplesmente apresenta vários fatos sem explicá-los. Ela afirma queum Deus e quetrês Pessoas que são Deus. Não nos dá nenhuma explicação sobre como isso pode acontecer, mesmo diante da aparente impossibilidade lógica do ponto de vista humano. Os próprios escritores bíblicos, inspirados por Deus, preferiram afirmar essas verdades lado a lado, sem elucidar a relação entre elas. Em seu sermão no dia de Pentecostes, Pedro afirma que a morte de Jesus foi predeterminada por Deus ao mesmo tempo em que responsabiliza os judeus por ela. Nãoqualquer preocupação da parte de Pedro com o dilema lógico que ele cria: se Deus predeterminou a morte de Jesus, como se pode responsabilizar os judeus por tê-lo matado? Da mesma forma, Paulo, após tratar deste que é um dos mais famosos casos de antinomínia do Novo Testamento (predestinação e responsabilidade humana), reconhece a realidade de que os juízos de Deus são insondáveis e seus caminhos inescrutáveis (Rm 11.33).

A segunda razão é a natureza de Deus e a revelação que ele fez de si mesmo. Para mim, Deus está acima de nossa possibilidade plena de compreensão. Não estou concordando com os neo-ortodoxos que negam qualquer possibilidade de até se falar sobre Deus. Mas, é verdade que ninguém pode compreender Deus de forma exaustiva, completa e total. Dependemos da revelação que ele fez de si mesmo. Contudo, essa revelação, na natureza e especialmente nas Escrituras, mesmo suficiente, não é exaustiva. Não sendo exaustiva, ela se cala sobre diversos pontos – e entre eles estão o relacionamento lógico entre os pontos que compõem a doutrina da Trindade, da pessoa de Cristo e da soberania de Deus.

A terceira razão é que existe um pressuposto por detrás das tentativas feitas de explicar racionalmente os mistérios bíblicos, pressuposto esse que eu rejeito: que somente é verdadeiro aquilo que podemos entender. Não vou dizer que isso é exclusivamente fruto do Iluminismo do séc. XVII pois antes dele essa tendência já existia. O racionalismo acaba subordinando as Escrituras aos seus cânones. Prefiro o lema de Paulo, “levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Coríntios 10.5). Parece que os racionalistas esquecem que além de limitados em nosso entendimento por sermos criaturas finitas, somos limitados também por nossa pecaminosidade. É claro que mediante a regeneração e a iluminação do Espírito podemos entender salvadoramente aquilo que Deus nos revelou em sua Palavra. Contudo, não há promessas de que regenerados e iluminados descortinaremos todos os mistérios de Deus. A regeneração e a iluminação não nos tornam iguais a Deus.

Além dos mistérios mencionados, existem outros relacionados com a natureza de Deus e seus caminhos. Diante de todos eles, procuro calar-me onde os escritores bíblicos se calaram, após esgotar toda análise das partes do mistério que foram reveladas. Não estou dizendo que não podemos ponderar sobre o que a Bíblia não falamas que o façamos conscientes de que estamos apenas especulando, no bom sentido, e que os resultados dessas especulações não podem ser tomados como dogmas.

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Augustus Nicodemus Lopes

Remindo o tempo...

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Dois dos autores do blog detonando uma moqueca capixaba para refazer as forças e voltar ao plenário da reunião do Supremo Concílio. O autor que está faltando está no outro lado da mesa acabando um bifinho a cavalo... Posted by Picasa
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sexta-feira, julho 21, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Reunião do Supremo Concílio da IPB

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Durante essa semana reune-se o maior concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, o seu Supremo Concílio, no SESC de Aracruz, no litoral espirito-santense. Os autores desse blog são delegados de seus presbitérios a essa reunião, daí a inatividade aqui nesses dias. Esperamos na próxima semana estar de volta! Um abraço a todos.
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quarta-feira, julho 12, 2006

Solano Portela

Quando se perde a cabeça


O texto abaixo é do Rev. Dr. João Alves dos Santos, professor do Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper. Por sua relação com uma questão bem contemporânea, bem como pelas considerações éticas pertinentes que ele levanta, está sendo publicado neste espaço, sob permissão do autor. O Rev. João Alves, que além de sua formação pós-graduada como teólogo, possui bacharelados em advocacia e letras, é um dos grandes eruditos brasileiros na área de Novo Testamento.

Refletindo sobre a ética futebolística e o caso Zidane

“Foi um jogo dramático, como todo final de Copa, com muitos heróis, mas nenhum tão presente em lances decisivos quanto o já experiente Marco Materazzi, 33 anos, defensor da Inter de Milão... Na sua terceira intervenção valeu a malandragem, a provocação - e o experiente Zidane, já coberto de louros, fazendo o último jogo de sua carreira, caiu. Eram 5 minutos da segunda fase da prorrogação, e os dois tiveram um atrito em uma disputa de bola. Materazzi saiu desfiando xingamentos - segundo o "Fantástico" da TV Globo, teria chamado de prostituta a irmã de Zidane, entre outras baixarias - e o francês se descontrolou. Voltou-se subitamente, deu-lhe a cabeçada fatal. O quarto-zagueiro caiu de modo exagerado, tornando ainda mais indefensável a agressão”. É como analisa Luís Augusto Mônaco, em artigo no Estado de São Paulo de ontem (10/07/2006) sob o título “Materazzi, o reserva que decide”.

“Na sala de imprensa em Berlim, Zidane, de 34 anos, era muito mais falado do que os personagens campeões. Por que teria agredido o adversário daquela forma? De acordo com Domenech, ele provavelmente foi ofendido. Essa era a única explicação para sua atitude. Mas, claro, nada justifica o que fez. Jornalistas e torcedores franceses não acreditaram no que viram. E a maioria colocou Zidane como o grande vilão da final. ´Ele não poderia ter feito aquilo de jeito nenhum, mesmo que tivesse sido xingado pelo Materazzi, foi uma atitude impensada’ , opinou David Opoczynski, repórter do Le Parisien”. É o que disseram Eduardo Maluf, Wilson Baldini Jr. em matéria denominada “Zidane perde a esportiva”, na mesma edição.

A repercussão do fato foi grande porque Zidane era considerado um jogador disciplinado e exemplar – um gentleman. Só uma ofensa muito grave “o teria tirado do sério”, diziam comentaristas e articulistas. Conforme as notícias de hoje (11/07/06) “de acordo com comunicado oficial divulgado pela Fifa, a entidade ´vai abrir uma investigação disciplinar sobre a conduta de Zidane para tornar claras, da forma mais exata possível, as circunstâncias que envolvem o incidente’. O comunicado é uma resposta à enorme repercussão que o caso teve, com insinuações de que Materazzi teria proferido palavras de cunho racista em alusão à origem argelina de Zidane - nascido em Marselha (França), o craque é filho de pais provenientes do país africano. Ontem à noite, Materazzi admitiu ter insultado o francês, que teria esbanjado "arrogância", mas não revelou o conteúdo de suas palavras, dizendo que proferiu "um insulto desses que se ouvem dezenas de vezes e que geralmente nos escapam no gramado" (texto “Fifa abrirá investigação disciplinar sobre o caso Zidane” do site Uol de 11/07/06 e Gazzetta dello Sport). O mesmo site, no artigo intitulado “Materazzi admite insulto ao ´arrogante’ Zidane”, traz a admissão de Materazzi: “Zidane estava muito arrogante e o insultei”. Só não especificou qual foi o insulto.

O que fica demonstrado nesse episódio é que ofender verbalmente durante uma partida de futebol pode, de acordo com a ética futebolista. O que não pode é revidar fisicamente. Materazzi foi considerado um herói por alguns da imprensa não só porque jogou bom futebol mas porque também conseguiu desestruturar com xingamentos e ofensas pessoais o seu adversário, causando a sua expulsão. A expulsão, como é opinião geral, desestruturou também toda a equipe da França, que jogava melhor e tinha chances de vencer a copa. “Valeu a malandragem”, como disse o articulista acima citado.

Outro ponto a ser considerado é que enquanto os xingamentos estavam sendo considerados como daqueles que envolvem “apenas” a honra da família (no caso a da sua irmã), nada de grave parecia haver. Era, como disse o próprio “herói” Materazzi, “um insulto desses que se ouvem dezenas de vezes e que geralmente nos escapam no gramado” Mas quando surgiu a hipótese de a ofensa ser de natureza racial, então a Fifa resolveu investigar.

De acordo com essa ética, não é grave chamar a irmã de alguém de prostituta, se essa foi mesma a ofensa. O que é grave é chamar alguém de terrorista (supõe-se que este tenha sido o xingamento de conotação preconceituosa, já que Zidane é filho de argelinos). Esta é a ética da Fifa e da imprensa, em geral.

Não parece muito diferente da ética que algumas vezes encontramos na igreja, infelizmente. Só é grave e punível aquilo que transparece aos olhos da platéia, os pecados públicos, os que “estragam o espetáculo”. As ofensas que dizem respeito ao relacionamento pessoal, como difamação, desprezo, orgulho e outras ("dessas que se ouvem dezenas de vezes e que geralmente nos escapam no gramado"), essas podem passar despercebidas. Mas são essas, muitas vezes, as que tiram os “zidanes espirituais” do sério e provocam a sua expulsão.

João Alves dos Santos
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segunda-feira, julho 10, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Conselhos a Um Jovem Pastor Sobre o Grupo de Louvor de Sua Igreja

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“São Paulo, nove de julho de 2006

Meu caro Tadeu,

Fiquei muito feliz com a notícia de que você está pastoreando a igreja de seus pais desde o ano passado. Agradeço a sua carta comunicando o fato e também a confiança depositada em mim, ao expor os conflitos com o ‘grupo de louvor’ de sua nova igreja. Percebo que desde sua posse esse tem sido um dos assuntos que mais o tem afligido. Você foi eleito para cinco anos e ainda há um longo caminho a ser percorrido. Como pastor da igreja, você tem prerrogativas quanto à condução do culto e autoridade para orientar o que vai ser cantado no culto e a maneira como isso vai ser feito. Em alguns casos, o desgaste já é tão grande que não existe mais diálogo possível entre o pastor e o grupo de louvor. Espero que não seja esse o seu caso, e nessa esperança, dou-lhe alguns conselhos.

1) Aconselho que você reconheça que nós, reformados, já perdemos a batalha por um culto simples, espiritual, teocêntrico e equilibrado. O movimento gospel veio para ficar. Nós perdemos, Tadeu, porque erramos na estratégia. Há cerca de dez anos, quando a Igreja Batista da Lagoinha começou a comandar o louvor nas igrejas evangélicas no Brasil, preferimos resistir frontalmente e insistir com nossas igrejas a que ficassem com os hinos de nosso hinário. Foi um erro. Poderíamos, além disso, ter apresentado uma alternativa às músicas deles. Há exceções, mas muitas delas são sofríveis, musicalmente falando, e têm uma teologia fraquíssima. São cânticos permeados de conceitos arminianos, neopentecostais, da teologia da prosperidade e da batalha espiritual, característicos daquilo que é produzido pelos músicos e cantores gospel da atualidade. Infelizmente, não conseguimos oferecer nada melhor desde o início, a não ser apelos para ficarmos com os hinos tradicionais.

2) Comece solicitando ao grupo de louvor uma relação de todos os cânticos do seu repertório e se comprometa a estar em todos os ensaios deles para estudo bíblico a respeito do louvor e da adoração, para analisar a propriedade, a teologia e até mesmo o português desses cânticos. Nesses encontros, aja humildemente e não autoritariamente. Lembre-se que eles estão acostumados a tocar tudo o que querem sem serem críticos do que estão cantando. Procure conduzir as discussões para a Bíblia, como o referencial último de tudo o que vai ser feito no culto. Leve-os a perceberem por si próprios que determinadas letras são inadequadas e a desistirem delas. Nesse sentido, seu maior aliado é o púlpito. Pregue sobre a centralidade de Deus no culto, sobre a necessidade da boa doutrina, sobre o perigo dos falsos ensinamentos, sobre o poder da música para o bem e para o mal e o imperativo de mantermos o culto dentro dos parâmetros bíblicos.

3) Coloque como regra inflexível – se possível aprovada como decisão do Conselho da Igreja – que todos os participantes do grupo de louvor também devem estar totalmente integrados na vida da igreja, participando da escola dominical, das sociedades domésticas, sendo assíduos aos cultos. Mais importante do que tudo, deve ser colocada como condição sine qua non, que suas vidas sejam irrepreensíveis, sendo exemplo para os demais jovens da igreja. Insista que eles devem participar do culto todo e que é inaceitável que após a parte deles, que saiam e fiquem do lado de fora da igreja. Não abra mão disso.

4) Com muito cuidado, procure diminuir o volume com que eles tocam. Domingo à noite fui pregar em uma igreja e sentei-me no primeiro banco, aguardando o momento da pregação. O volume do grupo de louvor estava tão alto que não agüentei – levante-me e sai discretamente. Quando consegui sair do local e chegar do lado de fora, meus ouvidos estavam zumbindo. De alguma maneira, os grupos de louvor têm a idéia de que os cânticos têm que ser tocados e cantados com os instrumentos e o vocal no volume máximo. Uma coisa que você pode fazer para convencê-los de que sempre estão tocando muito mais alto do que é necessário é conseguir trazer um especialista com um medidor de decibéis durante os ensaios para medir o nível de ruído. Isso vai mostrar para eles como muitas pessoas se sentem incomodados – inclusive vizinhos silenciosos que não vão reclamar na polícia, mas que no íntimo já tomaram a decisão que jamais se tornarão crentes. Em especial, trabalhe com o baterista, procurando convencê-lo que o alvo da bateria não é fazer barulho, mas marcar o compasso da música de maneira discreta, misturando-se com a melodia, a ponto de se tornar quase imperceptível. Esse provavelmente será o seu trabalho mais difícil. Se quiser o testemunho de um presbítero que quase ficou surdo com o volume do grupo de louvor, veja seu testemunho aqui.

5) Uma outra tarefa difícil será convencer o guitarrista principal de que o culto não é show e nem os louvores uma oportunidade dele mostrar solos incríveis de guitarra. Exibições individuais da performance dos instrumentistas apenas chamam a atenção para eles – não para Deus. Como alternativa, sugira uma noite de som gospel, num sábado à noite, onde outras bandas poderão ser convidadas para um festival de gospel. E tenha cuidado para não dar a esse encontro qualquer conotação de culto. Lá eles podem mostrar toda a sua capacidade com a guitarra. Mas, no culto, usem os instrumentos de forma discreta, para acompanhar os cânticos.

6) Tente mostrar para eles que mandar o povo ficar em pé toda vez que assumem o microfone nem sempre fica bem. Às vezes o pastor acabou de mandar o povo sentar. Deixem o povo sentado. Não vai prejudicar em nada o louvor se o povo ficar sentado. Além disso, tem velhos, idosos e pessoas doentes que não conseguem ficar vinte minutos em pé. Eles devem pensar também no pregador da noite, que além de ficar em pé durante o tempo do louvor, vai ficar em pé mais uma hora pregando. Não tem quem agüente.

7) Procure convencê-los a ocupar menos tempo da liturgia. Se conseguir, será uma grande vitória. Uma sugestão que você pode dar nesse sentido é que não repitam o mesmo cântico duas ou três vezes, como costumam fazer. Também, que cortem as ‘introduções’, geralmente compostas da repetição de frases clichês e batidas que não dizem nada. Se você conseguir convencer o líder do grupo que a tarefa dele é cantar e não exortar e dar testemunho, irá diminuir bastante o tempo empregado no louvor, além de poupar os ouvidos dos crentes de ouvir besteiras, frases clichês, chavões batidos, que só tomam tempo mesmo.

8) Outra coisa que me ocorre: insista em que estejam preparados antes do culto. Fica muito feio e distrai o povo quando os componentes do grupo de louvor ficam afinando instrumentos, equalizando o equipamento de som, plugando e desplugando microfones e fios quando o culto já começou. Ensine-os a serem profissionais naquilo que fazem, e que Deus é Deus de ordem.

9) Procure mostrar que eles não são levitas. Não temos mais levitas hoje. Todo o povo de Deus, cada crente em particular, é um levita, um sacerdote, como o Novo Testamento ensina. É uma idéia abominável que os membros do grupo de louvor são levitas. Isso reintroduz o conceito que foi abolido na Reforma protestante de que o louvor e o acesso a Deus são prerrogativas de apenas um grupo e não de todo o povo de Deus. Resista firmemente a essas idéias erradas, que são oriundas das igrejas neopentecostais, especialmente daquelas que se fizeram em cima do movimento de louvor. Tais conceitos apenas servem para que eles se sintam mais especiais do que realmente são e, portanto, intocáveis. Procure incutir na mente deles que aquilo que eles fazem no culto não é mais louvor e mais espiritual do que o cântico de hinos acompanhados ao órgão ou ao piano.

10) Por fim, ore bastante para que os membros do grupo de louvor não sejam filhos de presbíteros e de famílias influentes da igreja, porque se forem, profetizo que sua missão fracassará. Por mais crentes e sérios que os presbíteros sejam, eles não irão contra a sua própria família, e muito menos contra os seus filhos. Você não terá o apoio deles para reduzir, minimizar, limitar e mesmo qualificar a participação do grupo de louvor no culto. Nesse caso, restarão poucas opções. Uma delas é capitular inteiramente e simplesmente deixar o grupo de louvor fazer o que sempre fez, suportando heroicamente, enquanto ora baixinho no culto, ‘Deus, dá-me paciência para que eu possa suportar esse calvário durante o tempo em que fui eleito aqui’. Outra opção é simplesmente pedir as contas e ir embora para outra igreja, tendo aprendido a importante lição de que a primeira pergunta que se faz ao ser convidado para ser pastor de uma igreja é essa: ‘tem grupo de louvor? Os componentes são filhos dos presbíteros?’

Um velho pastor do Recife costumava se referir ao conjunto da sua Igreja como ‘cão junto’. Espero que não chegue a esse ponto em sua igreja, Tadeu, mas que você encontre misericórdia da parte de Deus para que esse desafio seja vencido e que sua igreja desfrute do verdadeiro louvor durante os cultos.

Um abraço!

Augustus”

*NOTA: A carta é fictícia. Toda semelhança com qualquer situação pela qual algum pastor reformado esteja passando será mera coincidência...

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sexta-feira, julho 07, 2006

Mauro Meister

Sem palavras... só descanso nos lençois maranhenses...




Meu grande abraço...
Mauro
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segunda-feira, julho 03, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Denominação Americana Finalmente Aprova Pastores Homossexuais Praticantes

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Matéria veiculada na Christianity Today Newsletter, de 28.06.2006, assinada por David E. Anderson, informa que, no último dia 20, depois de um acirrado debate de mais de três horas, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA) – o maior ramo do presbiterianismo naquele país – aprovou, para entrar imediatamente em vigor, por 298 votos contra 221, a proposta encaminhada, após quatro anos de estudo, pela “Força Tarefa sobre Paz, Unidade e Pureza na Igreja”, que permite a ordenação ao pastorado de candidatos ao ministério homossexuais praticantes, por decisão das congregações e dos seus 173 presbitérios locais.

Antes de mais nada, preciso esclarecer que essa denominação norte-americana nada tem a ver com a Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual os autores deste blog são membros. Na verdade, a IPB tem consistentemente rechaçado nas últimas décadas todas as tentativas oficiais de aproximação com a Presbyterian Church of the United States (PCUSA), feitas tanto das bandas de lá como das bandas de cá.

Não vou dizer que fiquei estarrecido, surpreso ou chocado com a decisão tomada finalmente pela assembléia geral da PCUSA semana passada, de aceitar pastores homossexuais e pastoras lésbicas praticantes. Não estou surpreso porque já era de se esperar que tal coisa acontecesse, cedo ou tarde. Afinal, as decisões que vinham sendo tomadas por esta denominação presbiteriana em décadas recentes, não poderiam levar a outra coisa senão a decisões como tais. A decisão da semana passada, fruto de 30 anos de estudos, é o resultado da fermentação de vários conceitos e pressupostos que ao longo do tempo foram lentamente sendo introduzidos na alma da denominação, formando irreversivelmente a sua maneira de pensar e de agir.

Tudo começou quando a PCUSA passou a tolerar que o liberalismo teológico fosse ensinado nas suas instituições teológicas, as quais são responsáveis pela formação teológica, eclesiástica e ministerial dos seus pastores. O liberalismo teológico retira toda a autoridade das Escrituras como palavra de Deus, introduz o conceito de que ela é fruto do pensamento ultrapassado de gerações antigas e que traz valores e conceitos que não podem mais ser aceitos pelo homem moderno. Assim, coloca a Bíblia debaixo da crítica cultural. O passo seguinte foi a aprovação da ordenação de mulheres cristãs ao ministério, em meados da década de 60, com base exatamente no argumento de que os textos bíblicos que impõem restrições ao exercício da autoridade eclesiástica por parte da mulher cristã eram culturalmente condicionados, e portanto impróprios para a nossa época, em que a mulher já galgou todas as posições de autoridade.

O argumento que vem sendo usado há décadas pelos defensores do homossexualismo dentro da PCUSA segue na mesma linha. Os textos bíblicos contrários ao homossexualismo são vistos como resultantes da cosmovisão cultural ultrapassada dos escritores bíblicos, refletindo os valores daquela época. Em especial, os textos de Paulo contra o homossexualismo (Romanos 1 em particular) são entendidos como condicionados pelos preconceitos da cultura antiga e pela falta de conhecimento científico, que segundo os defensores do homossexualismo hoje já demonstra que ser gay é genético, não podendo, portanto, ser mais considerado como desvio moral ou pecado. Já que a cultura moderna mais e mais aceita o homossexualismo como normal, chegando mesmo a reconhecer o casamento entre eles em alguns casos, por que a Igreja, que deveria sempre dar o primeiro exemplo em tolerância, aceitação e amor, não pode receber os homossexuais como membros comungantes e pastores da Igreja? Essa foi a argumentação que finalmente prevaleceu, pois a decisão permite que homossexuais praticantes considerem a sua escolha sexual como uma questão secundária e não como matéria de fé, sujeita à disciplina eclesiástica da denominação.

Não estou dizendo que todos os que defendem a ordenação de mulheres necessariamente são defensores da ordenação gay e do casamento de homossexuais. Tenho bons amigos que defendem um e abominam o outro. Estou apenas dizendo que, em ambos os casos, o argumento usado para sua aprovação dentro da PCUSA foi o mesmo: o que os escritores bíblicos dizem sobre estes assuntos não tem validade para os dias de hoje, e portanto, a Igreja deve se guiar por aquilo que é culturalmente aceitável, politicamente correto e que faz parte do bom senso comum.

Existe uma brava minoria dentro da PCUSA que, de longa data, tem lutado contra a introdução desses conceitos. Agora, assiste com tristeza a derrota bater à sua porta. Ainda não se sabe que decisão eles haverão de tomar. As opções não são muitas. Meu coração se entristece por eles. Quem tiver interesse e ler inglês, pode visitar o site de um dos grupos de resistência dentro da PCUSA: www.layman.org

Não devemos pensar que esse é um problema que se restringe àquela denominação americana. Os mesmos pressupostos que a levaram a tomar essa decisão já estão em operação em nosso país, a começar pelos seminários e instituições de ensino teológico que já caíram vítimas do método histórico-crítico de interpretação, do liberalismo teológico, do pragmatismo e do relativismo. O campo está sendo preparado no Brasil para que em breve evangélicos passem a considerar a homossexualidade como sendo uma questão pessoal e secundária, abrindo assim a porta para ordenação de gays e lésbicas praticantes ao ministério da Palavra.

Acredito que a única medida preventiva é não abrirmos mão da legitimidade e aplicabilidade dos valores e dos ensinamentos bíblicos para todas as épocas e culturas. Isto nos permitirá sempre fazer uma crítica da cultura a partir do referencial da Palavra inspirada e infalível de Deus. Foi quando a PCUSA subjugou a Bíblia à cultura que a lata de minhocas foi aberta. A Bíblia passou a ser julgada pela cultura. Vai ser difícil para liberais, neo-ortodoxos, neopentecostais e outros grupos no Brasil, que de maneiras diferentes colocam a cultura à frente da Bíblia, resistir à pressão. Quem viver, verá.

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segunda-feira, junho 26, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Por que prefiro o Método Gramático-Histórico de Interpretação

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O motivo principal é a atitude que os aderentes do método gramático-histórico têm para com a Bíblia. Os que adotam esse método geralmente seguem pressupostos para com as Escrituras, no todo ou em parte, que estão ligadas ao Cristianismo histórico e à Reforma protestante. Como reformado, por definição me inclino para esse método. Para os que não estão familiarizados com essa nomenclatura, o método gramático-histórico é o nome que se dá ao sistema de interpretação oriundo da Reforma, cujos proponentes se caracterizam pelas seguintes atitudes (entre outras) para com a Bíblia:

1) Recebem-na como Palavra de Deus, inspirada, autoritativa, infalível, suficiente e única regra de fé e prática. Assim, desejam submeter-se a ela, pois a consideram como estando acima de suas tradições e confissões.

2) Entendem que ela, como texto, tem somente um sentido, que é aquele pretendido pelo autor humano inspirado. Esse sentido é geralmente o sentido natural e óbvio do texto. E para descobri-lo, acreditam que ela é a sua melhor intérprete. Por conseguinte, dedicam-se a estudá-la, pois também reconhecem que ela foi escrita por homens de cultura e língua diferentes vivendo em momento histórico também diferente.

3) Professam que a mensagem central das Escrituras é clara a todos, e que seus pontos essenciais são suficientemente revelados, de forma que, pelo uso dos meios normais, qualquer pessoa, sob a iluminação do Espírito, pode ter conhecimento salvador dessa mensagem.

4) Reconhecem que as diferenças doutrinárias que existem entre si próprios são decorrentes, não de erros ou contradições das Escrituras, mas da incapacidade deles, causada pelo pecado e pelas limitações humanas, de compreender perfeitamente a revelação perfeita de Deus.

5) Esforçam-se para continuamente rever seus pressupostos teológicos e características denominacionais à luz das Escrituras. Entretanto, não rejeitam o legado hermenêutico das gerações anteriores.

Essa atitude interpretativa para com a Bíblia tem sido chamada de gramático-histórica porque considera importante para seu entendimento tanto a pesquisa do sentido das palavras (gramma, em grego) quanto a compreensão das condições históricas em que foram escritas. Apesar de sua idade avançada e das críticas que tem recebido, ainda prefiro esse método de interpretação, por várias razões.

Primeira, mais que qualquer outro sistema hermenêutico, ele honra as Escrituras. Ele parte de um alto apreço pelas Escrituras e seus atributos, como inspiração, autoridade, infalibilidade, coerência e suficiência. As escolas alegóricas de interpretação sempre consideraram, em alguma medida, irrelevante a historicidade das narrativas bíblicas, e se interessaram pelo pretenso sentido oculto atrás delas. O método histórico-crítico, surgido ao final do século 17, partindo de suas pressuposições racionalistas, reduziu a Bíblia ao registro da fé de Israel e dos primeiros cristãos, negando sua inspiração e infalibilidade. As novas hermenêuticas centradas no leitor, com seu relativismo, negam a autoridade e infalibilidade das Escrituras e transformam o leitor em autor, pois é ele que determina o sentido. A hermenêutica do neo-misticismo evangélico desonra as Escrituras submetendo-a à autoridade dos espirituais e iluminados.

Segundo, mantém em equilíbrio a tensão entre oração e labuta no estudo da Bíblia. Os praticantes do método gramático-histórico sempre procuraram manter em equilíbrio a espiritualidade e a erudição no labor teológico, especialmente aqueles comprometidos com o método gramático-histórico, adotando o binômio orare et labutare: Orare, porque a Bíblia é divina, porque somos pecadores, porque Deus é muito diferente de nós. Pela oração buscamos a iluminação do Espírito. Labutare, porque a Bíblia, como literatura produzida por seres humanos num determinado contexto, numa outra cultura e numa outra época, é humana, e está distante de nós, o que provoca a necessidade de estudo. A interpretação alegórica neo-mística descuida do labutare – tudo o que o intérprete precisa é ser homem de oração, jejuar e aguardar iluminação do Espírito – provocando interpretações absurdas, cabalísticas e místicas. O método histórico-crítico tende a esquecer o orare – tudo o que o intérprete precisa é ser um especialista nas diversas críticas literárias – provocando intelectualismo árido e seco. As novas hermenêuticas tendem a esquecer as duas coisas. Por que orar e estudar, já que a interpretação é resultado da fusão de horizontes entre o leitor e o texto e se o sentido é determinado inexoravelmente pelas estruturas da linguagem? Ou, se não há um único sentido, mas muitos e diferentes e todos igualmente válidos?

Terceiro, o método gramático-histórico preserva a objetividade na interpretação. Os seus proponentes, mesmo admitindo que haja partes difíceis de entender na Bíblia, sempre afirmaram que a sua mensagem central é clara. Assim, foram capazes de elaborar confissões, credos e teologias. O método gramático-histórico parte do princípio que Deus se revelou proposicionalmente nas Escrituras e que esta revelação pode ser entendida, sintetizada e transmitida. Quando digo que Deus se revelou proposicionalmente, refiro-me ao fato de ele nos fala através de declarações, sentenças, frases. Setores do método histórico-crítico e das novas hermenêuticas defendem que Deus não se revelou de forma proposicional, mas através de histórias, poesias, experiências. Para eles, não existe um sistema doutrinário revelado na Bíblia, e conseqüentemente, não se pode sintetizar os resultados da interpretação – não se pode ter teologia.Toda interpretação é subjetiva, provisória, contextual e temporária. Nunca se pode afirmar que sabemos a verdade que a Bíblia ensina.

Por último, a escola gramático-histórica de interpretação produziu grandes pregadores e grandes expositores bíblicos, mais que as outras. O método histórico-crítico, por exemplo, costuma produzir mais professores acadêmicos do que grandes pregadores. Já o método alegórico e as novas hermenêuticas produzem contadores de experiências, visto que não lhes interessa o conteúdo teológico, doutrinário e práticos das Escrituras.

Em conclusão, eu diria que um retorno ao uso coerente do método gramático-histórico pode ser crucial para uma reforma no protestantismo brasileiro, como foi na igreja do século XVI. A ferramenta principal dos reformadores foi uma postura para com a Bíblia e uma leitura que rompeu com os métodos alegóricos medievais. Foi esta atitude para com a Bíblia que consolidou a Reforma. Acredito que a crise de identidade que vive o evangelicalismo brasileiro tem como uma das principais causas a falta de consistência e coerência no emprego do método de interpretação que sempre acompanhou o Cristianismo histórico.

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quarta-feira, junho 21, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Teologia da Marcha para Jesus

Por     40 comentários:
A edição 2006 da “Marcha para Jesus” aconteceu semana passada. Como caiu no feriadão, nosso blog silenciou sobre o tema porque os articulistas, exaustos de suas atividades, saíram para merecido descanso. Um deles, cujo nome só la no fim é que revelarei, saiu de vez para Recife e deve estar na base da água de coco e rede na beira da praia. Mas, aqui vai, meio atrasado, mas vai.

O presente post não analisa o evento propriamente dito, mas as razões e argumentos apresentados para justificar o evento. Para quem já conhece, é uma versão resumida de um artigo que escrevi em 2005 sobre o assunto.

A IDEOLOGIA POR DETRÁS DA MARCHA

Existe uma justificativa teológica elaborada para a Marcha, que procura abonar o evento à luz da Bíblia. Os pontos abaixo foram retirados do site Marcha para Jesus (www.marchaparajesus.com.br, em 12/01/05) e se constituem na “teologia da Marcha”. Aliás, a maior parte deles se encontra exatamente debaixo do tópico “teologia” no site da Marcha. Segue um resumo dos principais argumentos, entre outros, seguidos de um breve comentário.

1. A ordem de “marchar” aparentemente foi dada mediante revelação do Espírito Santo. Diz o site:

A visão inicial da Marcha para Jesus, como qualquer outra ação em que os cristãos empreendem para Deus, está baseado [sic!] no conhecimento e na obediência. Nós acreditamos que Deus diz para nós marcharmos, e esta obediência precede uma revelação. O Espírito Santo de Deus nos conduz em toda a verdade (João 16:13) e a teologia do ato de marcharmos para Jesus emerge quando nós nos engajamos em ouvir o que o Espírito Santo está dizendo para uma Igreja atuante e batalhadora nesta terra.

Comentário: O parágrafo acima não é claro, mas dá a entender que a visão inicial foi mediante uma revelação de Deus, seguida da obediência de quem a recebeu, em cumprir a visão. O parágrafo acima sugere que a visão da Marcha foi dada pelo Espírito Santo. Quando nos lembramos que a denominação organizadora da Marcha tem um “apóstolo” (uso o termo entre aspas, não por qualquer desrespeito a esse líder, mas porque não creio que existam apóstolos hoje à semelhança dos Doze e de Paulo), imagino que “revelações” (uso o termo entre aspas não por desrespeito às práticas dessa denominação, mas porque não creio que existam novas revelações da parte de Deus hoje) devam ser freqüentes.

2. Segundo o site, a Marcha é uma declaração teológica: a Igreja está em movimento e está viva! É o meio pelo qual os cristãos querem ser conhecidos publicamente como discípulos de Jesus.

Comentário: Se esta é a forma bíblica dos cristãos mostrarem que estão vivos e que são seguidores de Jesus, é no mínimo estranho que não encontremos o menor traço de marchas para Jesus no Novo Testamento, ou para Deus no Antigo.

3. A Marcha é entendida como uma celebração semelhante às do Antigo Testamento, possuindo uma qualidade extremamente espontânea e alegre. Participam da Marcha jovens de caras pintadas, cartazes, roupas coloridas e canções vivazes. Isto é visto como uma celebração do amor extravagante de Deus para o mundo.

Comentário: Na minha avaliação, o ponto acima dificilmente pode ser tomado como um argumento bíblico ou teológico para justificar o evento. As “marchas” de Israel no Antigo Testamento, não tinham como alvo evangelizar os povos – ao contrário, eram marchas de guerra, para conquistá-los ou exterminá-los, conforme o próprio Deus mandou naquela época. Fica difícil imaginar os israelitas organizando uma marcha através de Canaã, com os levitas tocando seus instrumentos e dando shows, para ganhar os cananeus para a fé no Deus de Israel!

4. Marchar para Jesus é visto também como um ato profético que dá consciência espiritual às pessoas. Josué mobilizou as pessoas de Israel para marchar ao redor das paredes de Jericó. Jeosafá marchou no deserto entoando louvores a Deus. Quando os cristãos marcham, estão agindo profeticamente, diz o site.

Comentário: Entendo que se trata de um uso errado das Escrituras. Por exemplo: se vamos tomar o texto de Josué como uma ordem para que os cristãos marchem, por que então somente marchar? Por que não tocar trombetas? E por que só marchar uma vez, e não sete ao redor da cidade inteira? E por que não mandar uma arca com as tábuas da lei na frente? E por que não ficar silencioso as seis primeiras vezes e só gritar na sétima?

5. Marchar para Jesus traz uma sensação natural de estar reivindicando o lugar no qual os participantes caminham. Acredita-se que assim libera-se no mundo espiritual a oportunidade desejada por Deus: “Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, eu a darei ...” (Josué 1.3).

Comentário: Será esta uma interpretação correta das Escrituras? Podemos tomar esta promessa de Deus a Josué e ao povo de Israel como sendo uma ordem para que os cristãos de todas as épocas marquem o terreno de Deus através de marchas? Que evangelizem, conquistem, e ganhem povos e nações para Jesus através de marchar no território deles? Que estratégia é esta, que nunca foi revelada antes aos apóstolos, Pais da Igreja, missionários, reformadores, evangelistas, de todas as épocas e terras, e da qual não encontramos o menor traço na Bíblia?

6. A Marcha destrói as fortalezas erguidas pelo inimigo em certas áreas das cidades e regiões onde ela acontece, declarando com fé que Jesus Cristo é o Senhor do Brasil.

Comentário: Onde está a fundamentação bíblica para tal? Na verdade, este ponto é baseado em conceitos do movimento de batalha espiritual, especialmente o conceito de espíritos territoriais, e em conceitos da confissão positiva, que afirmam que criamos realidades espirituais pelo poder das nossas declarações e palavras.

7. Os defensores da Marcha dizem que ela projeta a presença dos evangélicos na mídia de todo o Brasil.

Comentário: É verdade, só que a projeção nem sempre tem sido positiva. Além de provocar polêmica entre os próprios evangélicos, a mídia secular tem tido por vezes avaliação irônica e negativa.

8. Os defensores da Marcha dizem que pessoas se convertem no evento.

Comentário: Não nos é dito qual é o critério usado para identificar as verdadeiras conversões. Se for levantar a mão ou vir à frente durante os shows e as pregações da Marcha, é um critério bastante questionável. As estatísticas que temos nos dizem que apenas 10% das pessoas que atendem a um apelo em cruzadas de evangelização em massa, como aquelas de Billy Graham, permanecem nas igrejas. Mas, mesmo considerando as conversões reais, ainda não justificaria, pois não raras vezes Deus utiliza meios para converter pessoas, meios estes que não se tornam legítimos somente porque Deus os usou. Por exemplo, o fato de que maridos descrentes se convertem através da esposa crente não quer dizer que Deus aprova o casamento misto e nem que namorar descrentes para convertê-los seja estratégia evangelística adequada.

9. Os defensores dizem ainda que a Marcha promove a unidade entre os cristãos. Em alguns lugares do mundo, a Marcha é concluída com um “pacto” entre as denominações, confissões e indivíduos, exigindo que cada um deles não faça mais discriminação por razões doutrinárias.

Comentário: Sou favorável à unidade entre os verdadeiros cristãos. Mas não a qualquer preço e não qualquer tipo de união. A unidade promovida pela Marcha, sob as condições mencionadas acima, tem o efeito de relegar a doutrina bíblica a uma condição secundária. O resultado é que se deixa de dar atenção à doutrina. Em nome da unidade, abandona-se a exatidão doutrinária. Deixa-se de denunciar os erros doutrinários grosseiros que estão presentes em muitas denominações, erros sobre o ser de Deus, sobre a pessoa de Jesus Cristo, a pessoa e atuação do Espírito, o caminho da salvação pela fé somente, etc. Unidade entre os cristãos é boa e bíblica somente se for em torno da verdade. Jamais devemos sacrificar a verdade em nome de uma pretensa unidade. A unidade que a Marcha mostra ao mundo não corresponde à realidade. Ela acaba escondendo as divisões internas, os rachas doutrinários, as brigas pelo poder e as divisões que existem entre os evangélicos. Se queremos de fato unidade, vamos encarar nossas diferenças de frente e procurar discuti-las e resolve-las em concílios, reuniões, na mesa de discussão – e não marchando.

10. Os defensores da Marcha dizem que ela é uma forma de proclamação do Evangelho ao mundo.

Comentário: A resposta que damos é que a proclamação feita na Marcha vem misturada com apresentações de artistas gospel profissionais, ambiente de folia e danceteria, a ponto de perder-se no meio destas outras coisas. Além do mais, a mensagem proclamada é aquela da denominação organizadora, de linha neo-pentecostal, com a qual naturalmente as igrejas evangélicas históricas não concordariam, pois é influenciada pela teologia da prosperidade e pela batalha espiritual.

É evidente que, analisada de perto, a “teologia da Marcha” não se constitui em teologia propriamente dita. Os argumentos acima não provam que há uma revelação para que se marche, e não justificam a necessidade de os cristãos obedecerem organizando marchas. Não há qualquer justificativa bíblica para que os cristãos façam marchas, nem qualquer sustentação bíblica para a idéia de “dar a Deus a oportunidade” mediante uma marcha, ou ainda de que, marchando e declarando, se conquistam regiões e cidades para Cristo. Se há fundamento bíblico, por que os primeiros cristãos não o fizeram? Por que historicamente a Igreja Cristã nunca fez?

Pelos motivos acima, entendo que os argumentos bíblicos e teológicos apresentados para justificar a Marcha para Jesus não procedem. Nada tenho contra que cristãos organizem uma Marcha para Jesus. Apenas acho que não deveriam procurar justificar bíblica e teologicamente como se fosse um ato de obediência à Palavra de Deus. Neste caso, estão condenando como desobedientes todos os cristãos do passado, que nunca marcharam, e os que, no presente, também não marcham.

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sexta-feira, junho 09, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Neo-Ortodoxia e a Ressurreição de Jesus

Por     25 comentários:

A NEO-ORTODOXIA E A RESSURREIÇÃO DE JESUS

O objetivo desse post é demonstrar que a visão neo-ortodoxa padrão da ressurreição de Jesus, embora aparente ter muitas similaridades com aquilo que os ortodoxos acreditam, difere radicalmente da ortodoxia em pelo menos três pontos essenciais. A importância desse assunto reside no fato de que a ressurreição de Jesus sempre foi considerada como uma das doutrinas centrais que estabelecem a linha divisória entre o Cristianismo e outras religiões. Ou seja, crer na ressurreição de Jesus Cristo é o fundamento do Cristianismo. É a pedra sobre a qual se levanta o edifício do autêntico Cristianismo, e por ela se avalia a genuinidade de qualquer movimento ou ministério que se professe cristão.

É preciso salientar que muitos ortodoxos e neo-ortodoxos compartilham algumas perspectivas sobre esse assunto. Ambos acreditam que o túmulo está permanentemente vazio. Ambos acreditam que o túmulo foi esvaziado por um ato sobrenatural de Deus. Eles também compartilham a crença na genuinidade das aparições de Jesus aos discípulos após a sua ressurreição. Num certo sentido, são essas crenças que separam os neo-ortodoxos dos antigos liberais e os aproxima um pouco mais dos conservadores.

As diferenças, todavia, são muito profundas e não devem ser ignoradas em nome das similaridades. Afinal, como já dissemos, a ressurreição é muito importante para que possamos deixar esse ponto sem análise.

A IDENTIDADE NUMÉRICA DO CORPO DE JESUS

A primeira diferença diz respeito à identidade numérica do corpo de Jesus. Explico. Para os conservadores, o corpo com o qual Jesus ressuscitou era numericamente idêntico ao corpo com o qual ele viveu aqui nesse mundo. Era o mesmo corpo, agora glorificado pelo poder de Deus, e tendo, portanto, qualidades, poderes e virtudes distintos daquela primeira fase, como por exemplo, a imortalidade. O Credo dos Apóstolos declara "creio na ressurreição do corpo". A Igreja Cristã sempre confessou sua crença na ressurreição física de Jesus. Encontramos esse conceito nos pais da Igreja – à exceção de Orígenes, que foi condenado por negar isso –, na Igreja Católica do período medieval, nos reformadores e em todas as confissões históricas da Igreja Cristã. Em resumo, a crença de que o corpo da ressurreição era numericamente o mesmo corpo físico de carne e osso de Jesus durante o seu ministério terreno, sempre foi reconhecido pelos cristãos de todas as épocas.

A neo-ortodoxia, todavia, provavelmente influenciada pela mentalidade gnóstica, tem a tendência de espiritualizar a ressurreição de Jesus. Tomemos alguns exemplos. Emil Brunner, um dos pais da neo-ortodoxia, declarou enfaticamente: "ressurreição do corpo, sim; ressurreição da carne, não! A ressurreição do corpo não significa a identidade do corpo da ressurreição com o corpo de carne e ossos, apesar de já transformado; mas, a ressurreição do corpo significa a continuidade da personalidade individual desse lado e no outro lado, a morte." (1)

Todavia, a influência mais radical sobre a visão neo-ortodoxa da ressurreição vem de Rudolph Bultmann. Apesar de acreditar que existiu um Jesus da história, ele nega claramente a historicidade da ressurreição. Ele afirma que a ressurreição "não é um evento da história passada... um fato histórico que envolva a ressurreição de mortos é totalmente inconcebível". Para Bultmann, “é impossível acreditar-se num evento mítico como a ressurreição de um cadáver, pois é isso o que a ressurreição significa”. Portanto, para ele, "Se o evento do domingo de Páscoa for em qualquer sentido um evento histórico adicional ao evento da Cruz, não é nada mais do que o surgimento da fé no Senhor ressurreto...” (2)

Um outro exemplo vem de Wolfhart Pannenberg, que muito embora não possa ser considerado neo-ortodoxo, todavia, respira o mesmo ar que permeia o ambiente da neo-ortodoxia. Ele confessa que Jesus ressuscitou de um túmulo vazio, mas nega que ele foi ressuscitado no mesmo corpo físico de carne e ossos. Na verdade, ele vê o corpo da ressurreição como puramente espiritual ou material. (3)

Essa descontinuidade entre o corpo físico, de carne e ossos de Jesus, antes da ressurreição, e aquele corpo após a ressurreição, identifica a crença neo-ortodoxa e a separa radicalmente da fé do Cristianismo histórico.

A MATERIALIDADE DO CORPO DE JESUS

A igreja cristã sempre acreditou e confessou que Jesus ressuscitou de entre os mortos fisicamente. Ou seja, o que saiu do túmulo vazio não foi um fantasma ou um corpo imaterial, mas um corpo tangível e palpável, que poderia ser tocado e sentido, e que era material em todos os sentidos. Encontramos esse conceito nos escritos dos pais apostólicos bem como em todas as confissões ortodoxas da igreja cristã. A importância da materialidade do corpo de Jesus reside no fato de que ele é o primogênito da ressurreição. Os cristãos sempre ansiaram pela ressurreição do corpo da qual Jesus Cristo é o primogênito. Se, todavia, Jesus não ressuscitou com um corpo real, físico, material, tangível, palpável, essa esperança é na verdade vã.

A neo-ortodoxia padrão, muito embora confessando a ressurreição, nega que ela, em qualquer sentido, representa a revivificação de um cadáver. Conforme vimos acima, representantes da neo-ortodoxia defendem um corpo espiritual e imaterial, ou, como Bultmann, que a ressurreição é apenas a emergência da fé no coração dos discípulos.

A HISTORICIDADE DA RESSURREIÇÃO

É talvez aqui que a diferença entre a posição neo-ortodoxa e aquela do Cristianismo histórico apareça com maior clareza. Já que para a neo-ortodoxia existem dois níveis de história, a historie e a heilsgeschichte, sendo essa última a "história da salvação", cujos eventos não se localizam na história desse mundo, fica fácil para eles transpor a ressurreição de Jesus para a heilsgeschichte, o âmbito dos eventos salvadores não históricos e não verificáveis. Como para a neo-ortodoxia a historicidade dos eventos bíblicos e de suas narrativas não é realmente importante, ao fim das contas pouca diferença fará para a fé se Jesus ressuscitou de fato e de verdade na manhã daquele domingo de Páscoa.

É aqui que mencionamos o nome de Karl Barth. O velho liberalismo negava a historicidade da ressurreição de Jesus Cristo e jogou a narrativa bíblica no descrédito. Barth, todavia, através da sua teologia dialética, resgatou a doutrina da ressurreição. Contudo, mesmo vendo seu longo ministério como um todo, ainda permanecem dúvidas se ele acreditava que a ressurreição tenha sido um evento da história. No início da teologia da crise, em seu comentário de Romanos (1919), ele afirma, "a ressurreição toca a história como uma tangente toca um círculo, isto é, sem realmente tocá-lo”. Aqui Barth aparenta acreditar que a ressurreição de Jesus não pode ser provada nem refutada por evidências históricas, pois como ato de Deus, é histórica num sentido único. O que exatamente Barth quis dizer com isso, não é claro. Alguns defendem que ele mudou seu ponto de vista posteriormente, defendendo a corporeidade física da ressurreição de Jesus. Mas, muitos ainda suspeitam que para o simpático teólogo suíço, não se pode falar da ressurreição como um fato histórico, mas somente como revelação.

O meu objetivo com esse post foi mostrar que alguns expoentes da neo-ortodoxia não receiam negar três aspectos da ressurreição de Jesus Cristo que os cristãos conservadores consideram da mais alta importância: a continuidade entre o corpo antes da ressurreição e o corpo após a ressurreição, a materialidade do corpo da ressurreição, e a historicidade do evento. Não acredito que todos os que se consideram neo-ortodoxos pensem dessa forma. Todavia, acredito que é importante esclarecer que a negação desses aspectos da ressurreição de Jesus Cristo é característica da neo-ortodoxia.

Em conclusão, lembramos que o apóstolo Paulo em 1Coríntios 15 trata a ressurreição de Jesus como um evento ocorrido na história, e não na supra-história, evento esse testemunhado por várias pessoas, cuja historicidade é a base da fé cristã. É interessante que ele diz que se não há ressurreição (entendida como um evento histórico), inclusive o kerygma – a proclamação da Igreja – é vã.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Emil BRUNNER, The Christian Doctrine od Creation and Redemption, 1952, p. 372.

(2) Rudolph BULTMANN, Kerygma and Myth: A Theological Debate, 1954, pp. 38-39.

(3) Wolfhart PANNENBERG, Jesus—God and Man, 1968, p. 101.

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segunda-feira, junho 05, 2006

Mauro Meister

Neo-ortodoxia emergente...

Na verdade, meu alvo neste post é falar da chamada "igreja emergente", mas não resisti a mencionar no título "neo-ortodoxia" por duas razões: (a) dar continuidade ao tema e (b) por que a igreja emergente tem tudo a ver com as conseqüências finais da neo-ortodoxia!

Há alguns meses atrás, se ouvisse a expressão “igreja emergente” certamente pensaria que se tratava de algum estudo sobre a igreja neotestamentária nos primeiros séculos de nossa era. Hoje, depois de pensar que estive fechado em um quarto sem receber notícias do mundo por uma década, sei que a "igreja emergente" é um movimento crescente dentro da igreja evangélica nas duas últimas décadas. Já existe um bom número de livros escritos sobre o assunto assim como dezenas de sites e blogs emergentes ao redor do mundo (ver leituras ao final). Como o material é extenso e "confuso", vou tentar demonstrar, com definições próprias dos emergentes, exemplos do que é este movimento.

Primeiro, a definição:


[sic] A igreja emergente é um movimento da Igreja Protestante, iniciado por americanos e ingleses, com a finalidade de alcançar a Geração Pós-moderna. Refletindo as necessidades e os valores percebidos desta geração, as igrejas emergentes enfatizam o autêntico, a expressão criativa e uma perspectiva sem julgamentos, procurando reavaliar as doutrinas (ecclesia reformata, semper reformanda...). Igreja emergente é simplesmente um termo usado para denominar as igrejas que nasceram ou que foram [re]estruturadas para um contexto pós-moderno, pós-cristão de ser Igreja no Mundo de hoje. (http://igrejaemergente.blogspot.com/
2006_01_01_igrejaemergente_archive.html
)

Uma sintese da definição acima seria:
a. um movimento da igreja protestante;
b. tem a finalidade de alcançar a geração pós-moderna;
c. ênfase: o autêntico, a expressão criativa e uma perspectiva sem julgamentos, procurando reavaliar as doutrinas;
d. origem: igrejas que nasceram ou que foram [re]estruturadas para um contexto pós-moderno, pós-cristão de ser Igreja no mundo de hoje.

Tendo lido um bom número de livros sobre a igreja emergente, tanto de emergentes quanto de analistas do movimento, me aventuro a dizer que a descrição é uma boa tentativa de se definir o movimento emergente. Digo "tentar definir" em razão de que a "igreja emergente", sendo característicamente pós-moderna, é quase indefinível. Outro post, no mesmo blog, confirma a idéia:


[sic] As igrejas emergentes não possuem sistemas ou fórmulas, são variáveis conforme o contexto cultural, interdominacionais, não podem ser copiadas, não possuem uma doutrina definida e sim procuram expressar Deus em diversas formas, tentando desconstruir as barreiras que as denominações impuseram. Existe uma variedade de Igrejas Emergentes com diferentes interpretações teológicas em que elas acreditam. Somente porque você ouviu dizer que uma Igreja é "Emergente ", não significa que elas possuem os mesmos valores ou praticam as mesmas coisas. (http://igrejaemergente.blogspot.com/
2006_01_01_igrejaemergente_archive.html
)

Observa-se a ênfase à que “não possuem posição doutrinária definida”, não possuem fórmulas, e, até mesmo, a "igreja emergente" evita qualquer idéia de um credo ou confissão. No site emergent-us, um dos links na página inicial é “Declaração de Fé(?)”, onde é explicado pelo coordenador nacional, Tony Jones, que a idéia de ter uma declaração de fé é “descer por uma estrada na qual não queremos andar”.[i] Logo, estamos diante de algo que existe como um movimento, mas, ao mesmo tempo, pela sua fluidez de suas propostas, é essencialmente caracterizado pela ambigüidade. Podemos dizer que a "igreja emergente" é, na verdade, uma filosofia que não quer se definir. Isto não implica, no entanto, que não se possa entender o que está por trás do movimento.

Uma primeira característica do movimento emergente é o seu PROTESTO contra os modelos tradicionais de igreja do período moderno. Dizem os emergentes que a igreja evangélica deste período é marcada por características que a fazem incompatível com a pós-modernidade. Uma das marcas do protesto é a aversão ao absolutismo, ou seja, a forma de pensar do modernismo, que admite o conceito de verdade absoluta com bases fundacionalistas. Deduz-se que a primeira forma de oposição encontrada no discurso de vários líderes emergentes é a antítese ao pensamento bíblico da verdade revelada por Deus nas Escrituras e até então compreendida pela igreja. Na visão de vários destes líderes, a igreja da era da modernidade foi marcada pela cultura "inautêntica". Mike Yaconelli, outro expoente emergente, editou Stories of Emergence: Moving from Absolute to Authentic (Estórias de Emergência: movendo-se do absoluto para o autêntico).[ii] No livro encontram-se narrativas de vários líderes emergentes batendo na seguinte tecla: a autenticidade não esta presente na igreja; é necessário que a igreja se torne autêntica.

Carson expõe o protesto do movimento emergente em três frentes: o protesto contra a igreja evangélica tradicional, contra a forma que interpretam o modernismo e contra a igreja "seeker sensitive", isto é, voltada para os interessados.[iii] Além dos três pontos observados por Carson, destaco o protesto contra os conceitos de autoridade e hierarquia. É comum encontrar nos relatos emergentes a noção de que as estruturas eclesiásticas do modernismo e suas hierarquias são anti-bíblicas. Em igrejas emergentes não se encontram pastores titullares, bispos, etc. As hierarquias são anátema.

Um dos mais reconhecidos líderes do movimento, Brian McLaren, com vários livros escritos, propõe que o cristianismo adote o que ele chama de 'uma ortodoxia generosa'. Em seu livro com este título, Generous Orthodoxy, McLaren declara a essência de seu PLURALISMO:


Por que eu sou um cristão missional, evangélicos, pós protestante, liberal/conservador, místico/poético, bíblico, carismático/contemplativo, fundamentalista/calvinista, anabatista/anglicano, metodista, católico, verde, incarnacional, depressivo-mas-esperançoso, emergente e não-acabado.

Ser todas estas coisas ao mesmo tempo é a essência de sua proposta de "ortodoxia". A expressão desconstruir é freqüente em seus escritos e inclui uma alta dose de INCLUSIVISMO, ilustrado na sentença “Pense em um corte transversal numa árvore. Cada anel representa, não a substituição dos anéis anteriores, não a sua rejeição, mas a sua adoção, a sua inclusão em algo maior”.[iv] Assim se forma o conceito da ‘ortodoxia generosa emergente’, uma espécie de pensamento inclusivista que nunca termina, está sempre emergindo em algo novo. Simon Hall, líder da comunidade Revive, em Leeds, Reino Unido, afirma: “Meu alvo para a comunidade não é ser ‘pós’ tudo. Nós somos evangélicos e carismáticos e liberais e ortodoxos e contemplativos e ligados a justiça social e ao culto alternativo”.[v]

Para Mclaren o que os evangélicos precisam é do novo cristão, de uma nova forma de seguir a Jesus que emerge dos escombros do cristianismo dividido por lutas teológicas, negligência das responsabilidades sociais e da tirania do capitalismo conservador da modernidade. Para ele, "Cada um desses novos desafios [da pós-modernidade] requer que líderes cristãos criem novas formas, novos métodos, novas estruturas – e requer deles que encontrem novo conteúdo, novas idéias, novas verdades e novo significado que sustente os novos desafios. As novas mensagens são incompatíveis com o evangelho do reino que Jesus ensinou. Não, elas são inerentes a ele, mas, previamente, não descobertas, não expressas, talvez não imaginadas".[vi]
Segundo o pensamento emergente, o cristianismo do modernismo foi fundamentado no monoteísmo racional, religião proposicional, com uma sistemática local e uma verdade individualista. Já na era pós-moderna o cristianismo se fundamentará no pluralismo experimental, narrativa mística, fluida, global, e preferência comunal/tribal.

Essa é a redefinição ou desconstrução do conceito MISSIONAL. Segundo McLaren


. . . a fé cristã missional afirma que Jesus não veio fazer algumas pessoas salvas e outras condenadas. Jesus não veio ajudar algumas pessoas a serem corretas e enquanto deixa todas as demais erradas. Jesus não veio para criar outra religião exclusiva – o judaísmo sendo exclusivamente baseado em genética e o cristianismo sendo baseado exclusivamente na crença (o que pode ser um requisito mais difícil do que a genética).[vii]

Nesse sentido, ser missional é ser absolutamente inclusivista.

Como tudo isto pode ser relevante dentro da discussão da neo-ortodoxia e que relação todas estas coisas têm conosco? Um dos mecanismos fundamentais no pensamento emergente é, exatamente, recorrer às categorias da neo-ortodoxia para manter o linguajar bíblico e uma piedade escriturística aparente, negando, entretanto, o fundamento histórico da fé cristã bíblica. Compare as idéias acima com a tabela que Solano publicou em seu último post e você verá um retrato da neo-ortodoxia.



Num próximo post pretendo demonstrar as conseqüências dessas idéias conforme têm se apresentado na prática da “igreja emergente” e seus contrastes com o cristianismo bíblico.

BIBLIOGRAFIA E LEITURAS:

[1] CARSON, D. A. Becoming conversant with the emerging church : understanding a movement and its implications;

CAMPOS, Heber. O pluralismo do pós-modernismo. Fides Reformata 2/1 (1997), p. 5-28.

GIBBS, Eddie e BOLGER, Ryan, Emerging churches: creating Christian community in postmodern cultures. Grand Rapids, Baker Academics, 2005.

JOHNSON, Phil. A critical look at the emerging church movement. http://emergentno.blogspot.com/2006/03/phil-johnson-critical-look-at-emerging.html (acesso em 11-04-2006).

KIMBALL, Dan. The emerging church. Zondervan, 2003.

McLAREN, Brian. A new kind of Christian. San Francisco: Jossey-Bass, 2001.

McLAREN, Brian. A generous orthodoxy: why I am a missional, evangelical, post/protestant, liberal/conservative, mystical/poetic, biblical, charismatic/contemplative, fundamentalist/calvinist, anabaptist/anglican, methodist, catholic, green, incarnational, depressed-yet-hopeful, emergent, unfinished Christian. Zondervan, 2004.

YACONELLI, Mike, editor. Stories of Emergence: Moving from Absolute to Authentic. Grand Rapids: Zondervan, 2003.

NOTAS DE FIM
[i] JONES, Tony. Doctrinal Statement(?).http://emergent-us.typepad.com/emergentus/2006/05/doctrinal_state.html (acesso em 08-05-2006).
[ii] YACONELLI, Mike, editor. Stories of Emergence: Moving from Absolute to Authentic. Grand Rapids: Zondervan, 2003.
[iii] CARSON, Becoming Conversant, p. 36-41.
[iv] McLAREN, A generous orthodoxy, p. 276-277.
[v] Entrevista citada em GIBBS e BOLGER, Emerging churches, p. 38-39.
[vi] McLAREN, Generous Orthodoxy, p.192-193.
[vii] McLaren, Generous Orthodoxy, p. 109-110.
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quarta-feira, maio 31, 2006

Solano Portela

Barth para Leigos - 2: Neo-ortodoxia e a Teologia da Reforma

Ainda nesta série de posts, e complementando o anterior quero colocar um pequeno comparativo com a teologia da reforma. Alguns me perguntaram se não existia qualquer contribuição positiva da neo-ortodoxia. Acredito que houve alguma. Afinal, Barth deu uma sacudidela na esterilidade do pensamento teológico corrente e insistiu que o liberalismo clássico era inadequado – não glorificava a Deus nem atendia às necessidades das pessoas.

Entretanto, paulatinamente, a neo-ortodoxia foi introdutora de um subjetivismo danoso. Nesse sentido, ela facilitou o adentramento da compreensão pós-moderna no campo teológico e com ele o conceito da relativização da verdade, ou pluralização de "verdades" ("minha verdade não é a sua verdade"; ou, "afinal, existe a verdade?"). Isso levou a um afastamento progressivo dos pontos defendidos pelos reformadores.

Vejam essa tabelinha comparativa com os cinco solas da reforma:
Percebem que a questão não é a rejeição explícita dos pontos, mas a redefinição deles e a visão subjetiva introduzida onde deve existir objetividade? Por esta razão a neo-ortodoxia torna-se tão querida da mente teológica contemporânea - permite o linguajar doutrinário clássico, mas cada um vai colocando nele o significado segundo a sua apreensão da religiosidade. Perdem-se no ar, portanto, as âncoras metafísicas proposicionais e a possibilidade de um diálogo ou argumentação com real significado.
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quinta-feira, maio 25, 2006

Solano Portela

Barth para Leigos

O Dr. Augustus Nicodemus tem postado artigos sobre Barth, neo-ortodoxia e sua influência no meio evangélico brasileiro. Numa conversa nossa, na qual indiquei que eu tinha arquivados alguns pensamentos sobre o teólogo e seu ramo de teologia, ele achou que caberia esta inserção meio intrometida. É uma espécie de “Barth for Dummies”, ou “simplificando a neo-ortodoxia para o resto de nós”, casta não iniciada. Os puristas não devem se desesperar, pois restam ainda um ou dois posts do Nicodemus sobre o assunto, que serão devidamente colocados, na seqüência, restaurando o nível do blog.

A neo-ortodoxia é uma corrente teológica que não foi batizada com esse nome. No início ninguém a chamava assim, o que não deve deixar os correligionários tristes, porque poucas são as linhas teológicas que receberam o nome que passou para a posteridade, na ocasião do nascimento. Afinal, luteranismo só foi chamado assim após 1580 e os reformados só ficaram conhecidos com esse nome após 1600, quando os calvinistas e filipistas se apropriaram do nome, para se distinguirem dos luteranos.

Como já foi indicado em post anterior, a neo-ortodoxia começou como uma reação aparentemente saudável ao liberalismo. Teólogos, entre os quais está Karl Barth como um dos maiores nomes, se posicionavam contra o racionalismo do liberalismo e davam valor às Escrituras, voltavam a falar de Deus em termos reverentes e encorajavam uma postura piedosa de vida.

Acontece que, com o passar do tempo e na medida em que muitos escritos foram sendo produzidos a neo-ortodoxia mostrou que não estava realmente disposta a confrontar o liberalismo e, especialmente, o cientismo (termo que pode ser definido como a elevação da ciência conhecida ao ponto culminante, como aferidora de todo o saber remanescente) com as simples verdades da Palavra de Deus. Apesar das possíveis boas intenções não acataram a Bíblia com o mesmo apreço dos reformadores, que pregaram o seu caráter proposicional e objetivo: padrão de aferição de todo o pensamento e fonte suprema de nosso conhecimento religiosos e metafísico.

Nesse sentido, os neo-ortodoxos passaram a redefinir certos termos, no sentido de evitar conflitos com a ciência conhecida e com supostos postulados históricos. Ou seja – procuraram conservar terminologia cristã, em paralelo a uma aceitação ampla de uma visão humanista da história e da ciência. A forma achada de resolver esse conflito, foi criar duas esferas ou estradas de conhecimento, de registros ou de impressões da história. Uma seria chamada de HISTORIE (história, fatos brutos); a outra, mais elevada, de HEILSGESCHICHTE (história santa, sagrada ou história salvífica - estão vendo como a língua alemã é complicada?).

Desta forma, fica tudo mais fácil de resolver: se alguém pergunta - "a criação realmente aconteceu"? A resposta daquele que agora já era conhecido como neo-ortodoxo (porque se distanciava mesmo dos ortodoxos – ou seja dos fiéis reformados), possivelmente seria algo assim: “alguma coisa aconteceu, mas isso é campo da ciência; não é relevante para o nosso meditar e caminhada em direção a Deus – isso é HISTORIE; o que estamos interessados é em HEILSGESCHICHTE e é isso que temos na Bíblia – como essas questões impressionaram e afetaram o autor – ou autores”. Na realidade, para o neo-ortodoxo a integridade e ausência de erro do texto também não é algo relevante; é fruto de uma visão antiquada e ultrapassada dos escritos sagrados.

Semelhantemente, perguntando alguém: "a ressurreição realmente aconteceu?" O neo-ortodoxo, provavelmente não consideraria essa uma questão que devesse merecer preocupação; em sua visão ela não é relevante; os registros bíblicos são HEILSGESCHICHTE e se a ressurreição aconteceu ou não, foi assim que ela impressionou os primeiros cristãos e aqueles que registraram os reflexos religiosos dessa experiência – qualquer que tenha sido, realmente, ela. Isso quer dizer que o importante, não é o aspecto HISTORIE da ressurreição, mas o que esse conceito representa para você, como ele lhe move ou o comove a ser uma melhor pessoa e a ter mais solidariedade humana em sua existência.

Criando esses dois mundos, resolveram uma série de conflitos. Teólogos não precisavam mais se preocupar com as alegações da ciência conhecida (note que eu chamo de ciência conhecida, porque ela vai se metamorfoseando em algo desejavelmente mais veraz a cada nova descoberta que se faz), mesmo quando essas alegações entram em choque com a Bíblia. Teólogos passaram a ser intelectuais respeitáveis, em vez de simplesmente oradores de discursos chatos e ultrapassados, sempre concentrados em um mesmo tema – "o que dizem as Escrituras"?

Só tem um probleminha com isso tudo. A Bíblia, e a realidade do mundo criado pelo Deus soberano, desconhecem essa divisão artificial criada pelos neo-ortodoxos. Somos impressionados, sim, pelos fatos da história (HISTORIE), pois é nela que Deus desenvolve a sua providência. Deus é um Deus que interage com a história. Suas ações acontecem no tempo e no espaço. A vinda de Cristo realmente aconteceu, da forma como está descrita, e isso é um evento HISTORIE tanto como HEILSGESCHICHTE, pois esses dois aspectos convergem e se sobrepõem.

Paulo, ao substanciar a ressurreição (1 Co 15, entre outros textos) não dá qualquer indicação de que está preocupado apenas com o reflexo religioso ou com o caráter "supra-histórico" desse evento, qualquer que este tenha sido. Não! Ele trata a ressurreição como algo que aconteceu mesmo e foi testemunhado por inúmeras pessoas, muitas das quais ainda viviam quando escreveu (para dar ainda maior credibilidade). Paulo não estava preocupado apenas no reflexo religioso de uma mensagem intangível historicamente, mas "arrazoava" objetivamente com os seus ouvintes, transmitindo fatos proposicionais de verdades históricas de valor eterno.

Na prática qual o perigo da neo-ortodoxia, para a igreja cristã? Mesmo que tenham enfatizado uma vida devocional mais intensa, "puxaram o tapete" dos reformadores que haviam resgatado a objetividade das Escrituras; embarcaram a teologia cristã em um subjetivismo que praticamente pavimentou o caminho para qualquer tipo de idéias. Partindo de Barth, que era mais "ortodoxo" que os demais, a escalada foi descendente em amplos degraus: Bultmann, Tillich e outros foram se aproximando cada vez mais do velho liberalismo.

Um exemplo recente: A revista Ultimato, em seu No. 261 (na realidade, já faz alguns anos), traz um artigo sobre ciência e a Bíblia por um conhecido presbiteriano, professor de um dos seminários. A impressão extraída da leitura daquele artigo é a de que ele reflete bem a teologia de Barth: algo assim como – "não me importune com a história ou os fatos reais, pois podemos perder a mensagem principal transmitida nos textos bíblicos". É óbvio que o artigo não coloca a questão nessas palavras, mas essa é a impressão que tive da abordagem do autor, como se a mensagem bíblica pudesse ser divorciada das realidades históricas; como se a historicidade de Adão não fosse fato relevante à construção teológica e até à apresentação da pessoa de Cristo nos escritos paulinos.

A teologia de Barth tem tido intensa influência e penetração nos círculos intelectuais teológicos. O teólogo Franklin Fereira escreveu um excelente artigo sobre Barth na revista Fides Reformata (Volume 8/1, janeiro-junho 2003), no qual destaca algumas contribuições dele, mas tece também críticas pertinentes. A grande questão não é tanto quanto à contribuição, mas quanto será que o seu subjetivismo e abandono da visão reformada das Escrituras tem prejudicado a verdadeira fé? Quanto será que Barth aplainou o caminho e encorajou os Tillich da vida de irem "mais além", de deixarem o Sola Scriptura, de pensarem inclusivisticamente, de baixarem a guarda contra o pluralismo incipiente? Quanto Barth é responsável, não por um ressurgimento de interesse na ortodoxia e abandono do liberalismo clássico, mas pela teologia amorfa que tomou conta de mentes e setores que, antes, eram bastiões da sã teologia reformada, como é o caso de Berkower e da Free University, em Amsterdam? Quanto, de Barth é religiosidade verdadeira e quanto é puro misticismo?

Os conceitos barthianos de "historie" e "heilsgeschichte" legitimaram o divórcio da religiosidade com a realidade; isso tornou desnecessária a defesa da verdade. Disso se aproveitou o próprio liberalismo, tão combatido na forma antiga por Barth, para entrar pela porta dos fundos nos seminários e, por último nas igrejas, e ele está bem vivo em nosso meio.

Franklin, em uma ocasião me escreveu: "Acho que este é o problema principal em Barth. Ainda que, em alguns pontos, ele apóie a posição cristã histórica, e tenha sido piedoso, sua teologia tem fraquezas tão óbvias que não propiciaram defesa aos assaltos de Bultmann e Tillich – e olha que Barth entendia que Bultmann e Tillich estavam voltando ao liberalismo! Também poderia destacar o fato de que após a II Guerra a teologia bartiana entrou em colapso no Velho Mundo".

Existem boas críticas da posição teológica de Barth e dos demais neo-ortodoxos em inglês. Um bom livro é o de Gordon Clark: "What do Presbyterians Believe - The Westminster Confession Yesterday and Today", publicado pela The Presbyterian and Reformed Publishing Co. A preocupação maior de Clark é comentar as Escrituras como única fonte, com autoridade, de conhecimento religioso (complementando a revelação natural). Ele destaca o termo "infalível", utilizado no primeiro cap. da CFW e manda bordoadas nos neo-ortodoxos, indicando como as visões de Bultmann e Barth são incompatíveis com a aceitação da Confissão de Fé de Westminster.

Exatamente por essa razão, não dá pra classificar Barth de "reformado", como fazem muitos (nem dá para se entusiasmar com a teologia de Bonhoeffer, que é igualmente neo-ortodoxo – apesar de ser sempre citado, corretamente, como um modelo de coragem na postura cristã, por sua resistência ao nazismo).

O conceito de Barth das Escrituras é tudo MENOS reformado. Veja o que ele escreveu em um dos seus trabalhos mais importantes: Church Dogmatics (Edinbugh: T. & T. Clark, 1957), Vol. 1, Sec. 2, p. 492 - "A Bíblia... em si própria não é revelação mas apenas, e esta é a sua limitação, uma testemunha da revelação". Na página 501 ele escreve: "Você não pode atribuir à própria Bíblia... a capacidade de nos revelar Deus de tal forma que pela sua presença ela nos dê uma fé sincera na Palavra de Deus contida nela". Ou seja uma afirmação freqüente e verdadeira, sobre qual seria o conceito de Barth seria a seguinte: A Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um testemunho da Palavra de Deus. Outra maneira de colocar, é que ela pode se tornar a Palavra de Deus, de acordo com a apreensão pessoal e subjetiva do leitor, mas ela, intrinsecamente, não o é. Ainda no mesmo livro (Vol. 1, seção 1, p. 123) ele escreve: "A Bíblia se torna a palavra de Deus na medida em que Deus a deixa ser sua palavra, na medida em que Deus fala através dela". Esse conceito está muito distante da teologia reformada. Perguntamos: A Bíblia é inspirada porque é poderosa em nós, ou ela é poderosa porque ela é inspirada?

Veja como um "teólogo" tupiniquim expressa a sua compreensão da neo-ortodoxia e sua simpatia por ela: "Na minha opinião, esses teólogos eram equilibrados; vejamos por exemplo a questão da inspiração bíblica: enquanto o fundamentalismo defendia que a bíblia é a palavra de Deus, porém de forma não exegética (mas sim "eixegética") e totalmente sem reflexão teológica e o liberalismo defendia que a bíblia contém a palavra de Deus, usando a história, a filosofia e até a alta crítica para desvalorizar as escrituras, alguns dos neo-ortodoxos, como Barth, trouxeram uma concepção racional sobre inspiração que não tira a autenticidade da revelação".

No entanto, como vimos pelas citações de Barth, sua visão em nada difere daqueles que afirmam que a Bíblia apenas contém a Palavra de Deus. A neo-ortodoxia, assim, dá uma volta sobre si mesma e termina legitimando o liberalismo, ou oferecendo o liberalismo como conclusão final de suas elucubrações místicas.
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