terça-feira, outubro 10, 2006

Mauro Meister

A idolatria nossa de cada dia...

Esta semana marca, de forma bem visível, a idolatria religiosa que ainda impera em nosso pais. Veremos, por todos os lados, as coisas mais ‘impensáveis’, mas que, de certa forma, sempre estiveram presentes na religiosidade popular brasileira. Veremos pessoas fazendo sacrifícios físicos imensos, caminhando muitos quilômetros, carregando cruzes, imagens, objetos e até marcando o seu corpo com auto flagelação. Ouviremos pela mídia simpatizante relatos de supostos milagres alcançados e promessas que precisam ser pagas, sob a penalidade de ver a bênção revertida. Já nos acostumamos a tudo isto, ano após ano.

O que muitas vezes não percebemos é que este mesmo tipo de idolatria tomou conta dos arraiais chamados evangélicos. O velho evangelicalismo está dando lugar a um “outro evangelho” que troca a fé nas Escrituras por um misticismo individualista com manifestações coletivas. Em geral, o que acontece na igreja evangélica hoje não é um reflexo da aplicação da Palavra de Deus sobre a vida de pessoas transformadas pelo Evangelho. Quando Deus nos dá a sua Palavra, diz-nos que foi dada para ser ‘ensinada, aprendida, cumprida e guardada’ e que isto deveria gerar temor no coração das gerações (veja Deuteronômio 6.1-2). Mas hoje, ensina-se nas igrejas ao redor que uma boa igreja é aquela na qual eu me ‘sinto bem’ e que satisfaz meus anseios. Disto temos as mais variadas provas, inclusive no tipo de programação oferecida ao público: culto disto e culto daquilo onde, na verdade, há um ‘culto de si mesmo’ (Colossenses 2.23) e das ambições humanas (Salmo 131). As conseqüências vemos nas águas benzidas, rosas ungidas, fitas, novenas e orações de poder.

No entanto, tenho a impressão que o culto das ambições humanas, tão claramente marcado em nossa sociedade consumista, é uma das formas permanentes de idolatria que mais nos ameaçam e que muitas vezes sequer percebemos. A ironia da situação é que nos escandalizamos com a idolatria exposta da religião e não percebemos a idolatria intrínseca do nosso coração. Em Isaías 44 o profeta nos fala deste tipo de tolice que acomete o homem. Ele nos diz:
Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta e coze o pão; e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela. Metade queima no fogo e com ela coze a carne para comer; assa-a e farta-se; também se aquenta e diz: Ah! Já me aquento, contemplo a luz. Então, do resto faz um deus, uma imagem de escultura; ajoelha-se diante dela, prostra-se e lhe dirige a sua oração, dizendo: Livra-me, porque tu és o meu deus.” (vs. 14-17)
Percebem a ironia da situação? Um homem planta a árvore e da mesma árvore que plantou tira a lenha para aquecer o pão e fazer um ídolo. Depois, faz um pedido: livra-me! Diríamos, olhando para este homem: que tolice.

Pois hoje, a situação não é tão diferente, ainda que seja mais sofisticada. Hoje, não mais plantamos uma árvore, reflorestamos. Quando cortamos nossas áreas reflorestadas, o fazemos com grandes e potentes máquinas. Depois disto, enviamos o produto por meio de sistemas de transportes a fábricas que refinam o material e, finalmente, produzem o papel. Nele, imprimimos de tudo, nossa cultura e nossas idéias (livros, jornais, revistas) e nosso idolatrado capital (cédulas, cheques, promissórias e títulos).

Em resumo, com grande sofisticação, o homem moderno faz o mesmo que aquele homem 'primitivo' mencionado em Isaías 44.

Pergunto: será estamos livres da idolatria que vamos contemplar durante esta semana?
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sábado, outubro 07, 2006

Solano Portela

Apresentando um livro



Destinados para a Glória, do Rev. Hernandes Dias Lopes

Quando nossa concentração está simplesmente no mundo em que vivemos, podemos desanimar com facilidade. Olhamos tanto ao nosso redor que nos esquecemos do nosso destino. Afinal, a trilha da vida é repleta de sombras, vales e dificuldades. Perigos e decepções nos cercam a cada passo e dificuldades espreitam o nosso caminhar. Precisamos de uma âncora firme, de um direcionamento seguro, de conforto ao nosso coração e de alegria na vida cristã. O Rev. Hernandes escreve o seu livro exatamente para nos lembrar que o nosso curso é supervisionado pelo Senhor da Glória. Temos um alvo e um objetivo traçado por Deus e o destino que nos espera é construído em seu amor e cuidado onipotente.

Em um trecho do livro, o autor captura um dos aspectos chave do ensinamento do apóstolo Paulo e registra que ele “...está nos ensinando a transformar os nossos vales em mananciais, as nossas noites escuras em prelúdios de manhãs radiosas, as nossas dores em cenário de consolo e a própria enfermidade que surra o nosso corpo num instrumento de quebrantamento e proximidade de Deus” (p. 52).

Destinados Para a Glória (Mundo Cristão, 2006) é uma cuidadosa exposição de Romanos 8.26-30, por alguém que não somente é reconhecido como grande expressão contemporânea na pregação da Palavra de Deus, mas cujos livros vêm servindo de bênção e instrução espiritual a muitos. Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória e presidente da Comissão Nacional de Evangelização da Igreja Presbiteriana do Brasil, o Rev. Hernandes Dias Lopes é destaque no cenário evangélico brasileiro também pelo programa de televisão Verdade e Vida (Rede TV), no qual apresenta o bálsamo das Boas Novas a uma sociedade cada vez mais carente de rumo e de princípios.

Neste livro não temos uma coletânea de conceitos místicos ou frases de efeito que procuram emular a auto-ajuda existente em livros que se servem do desespero das pessoas, em vez de servir às pessoas em desespero. O Rev. Hernandes nos traz remédio eficaz exatamente porque extrai e se ampara na Escritura, como a fonte objetiva de conhecimento espiritual. Suas palavras não são frias, mas, embaladas no calor do Espírito que inspirou o texto sagrado, miram o coração e o entendimento dos leitores, para que dependam mais de Deus e sigam conscientemente sob sua proteção. Em uma era em que tantos escritores se utilizam do linguajar evangélico, mas diminuem a pessoa de Deus pela exaltação da autonomia humana, Destinados Para a Glória aparece como um oásis de lucidez cristã no deserto da insensatez teológica. Hernandes nos mostra que não é negando quem Deus é e quem ele se revela ser, mas é exatamente no reconhecer de sua majestade e soberania que encontramos o nosso conforto e a nossa redenção.

Leia este livro e envolva-se com a forma prática e suave com que os conceitos bíblicos são aplicados. Concentrando sua visão em Deus, como nos insta o autor, você será levado a apreciar este ensino crucial da carta aos Romanos e irá recuperar as forças exauridas pelo desânimo e ausência de propósito que porventura estejam rondando a sua vida.

Solano
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segunda-feira, outubro 02, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

O Dom de Sepultar Igrejas

Por     20 comentários:
É um assunto sensível e delicado, mas acho que devo escrever sobre ele. É o caso de pastores que acabam ficando conhecidos, não pelas novas igrejas que abriram, mas pelas igrejas que sepultaram. A mão deles, ao sair das igrejas, quase sempre foi aquela que fechou os olhos do pobre cadáver eclesiástico.

Soube que os colegas de um desses, na gozação, haviam decidido entregar-lhe “a pá de ouro”, quando finalmente se jubilou para alívio de todos... (qué malos!) Os pastores com o ministério do “esvaziamento bíblico” são um problema para suas denominações, que ficam sem saber o que fazer com eles, após terem criado problemas em praticamente todas as igrejas por onde passaram. O pior é quando um pastor desses acaba obtendo algum poder político no âmbito da denominação, o que torna ainda mais difícil achar uma solução.

E que solução haveria para os pastores que têm um histórico crônico de problemas nas igrejas por onde passaram? Acho que se deve, em primeiro lugar, dar um crédito de bona fide. Será que o problema é realmente o pastor ou os conselhos e igrejas por onde, por azar, andou pastoreando? (há, de fato, conselhos, consistórios ou mesas diretoras conhecidos por trucidarem pastores. Mas, isso é assunto de outro post...)

Descontado este crédito, fica evidente que tem gente que errou na escolha do ministério pastoral como sua missão no mundo. Talvez esse engano não foi intencional. O zelo e o ardor de servir a Deus e de viver em contato com sua Palavra e a sua obra fazem com que muitos jovens cristãos, cheios de amor ao Senhor, busquem o pastorado como a maneira prática de realizar seus sonhos espirituais. A esses, muito pouco tenho a dizer, senão que podemos ser espirituais, zelosos por Deus, amantes de Sua Palavra e de sua obra em qualquer outro lugar além do púlpito. Há cristãos zelosos e sinceros que sinceramente erraram na vocação. Há também aqueles que viram o pastorado como meio de vida, ou que ficaram fascinados pelo prestígio que o púlpito e o microfone na mão parecem conferir aos que chegam lá. O pastorado exige mais que desejos profundos de santidade e paixão pelas almas perdidas. E obviamente, nunca será eficazmente desempenhado por quem entrou por motivos baixos.

Não estou dizendo que a prova da genuinidade da vocação é o sucesso numérico, pastorados longos em um único lugar e um histórico de saídas pacíficas de diferentes igrejas. Sei que números não dizem tudo. Nem saídas pacíficas de pastorados longos. Contudo, dizem alguma coisa. O problema se agrava porque em denominações históricas se incentiva o ministério em tempo integral. O pastor, via de regra, só aprendeu a fazer aquilo mesmo: realizar atos pastorais, elaborar uma liturgia, preparar sermões e estudos bíblicos, atender gente no gabinete, visitar os enfermos e necessitados, animar os cultos de domingo, fazer a sociabilidade da igreja, e por ai vai. Se sair do pastorado, não sabe praticamente fazer mais nada. Vai acabar abrindo uma igreja para ele, como muitos fizeram. Para evitar o problema, algumas denominações incentivam pastores bi-vocacionados, isto é, que além do ministério pastoral, tenham uma profissão secular.

Pastores com dom de fechar igrejas acabam se tornando um problema para todo mundo, especialmente quando eles vêm com um defeito de fábrica: a falta do “mancômetro”, um instrumento extremamente necessário para o ministério pastoral, que avisa quando está na hora de sair. Pastores sem mancômetro não conseguem perceber aquilo que todo mundo fica com receio de dizer-lhe abertamente: que de pastor mesmo, ele tem pouco ou nada. E que a melhor coisa que ele deveria fazer, era pedir para sair, e sair silenciosamente, sem fazer muito barulho.

Não posso deixar de admirar pastores que após algum tempo de ministério voluntariamente pedem para sair, ao perceber que cometeram um erro ao entrar. Conheci uns três ou quatro que fizeram isso, apesar de só me lembrar do nome de um deles. Tenho certeza que uma atitude dessas por parte de irmãos com o dom de enterrar igrejas agradaria ao Senhor. A ponto dele abrir-lhes portas para ganharem a vida de uma forma realmente digna e decente. Lembro-me da oração de meu sogro, o Rev. Francisco Leonardo, quando era reitor do Seminário Presbiteriano do Norte: “Senhor, manda para o seminário os verdadeiros vocacionados e coloca para fora os que não são”. Se mais diretores de seminários e conselhos de igrejas fizessem esse tipo de oração com mais freqüência, teríamos que entregar menos “pás de ouro” nos concílios.

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domingo, setembro 24, 2006

Mauro Meister

Aumenta a indignação, surge a esperança

EU, cidadão do Brasil, residente e domiciliado no mesmo, encontro-me indignado e esperançoso. Creio que, pela liberdade de consciência e pelo direito constitucional de eleitor, tenho direito de falar. Os amigos que discordam, tem este direito e me dêem este direito.

Primeiro, confesso que durante as duas últimas semanas estive quase que alienado do contexto político. Razões funcionais não faltaram... mas hoje, tentando me atualizar e sair da alienação, decidi prestar a atenção ao mesmo. Minha fonte de informação foi a revista Veja... e vejo-me mais uma vez profundamente indignado.

Percebi que o tamanho do monstro da corrupção é maior do que se pode imaginar, e olha que sou calvinista e creio plenamente na depravação total. Não penso, por um minuto sequer, que os valores morais dos homens da direita sejam melhores do que os dos homens da esquerda... Deixa eu melhorar isto: creio que os homens da direita (religiosos ou não) são capazes de fazer as mesmas coisas que os da esquerda estão fazendo. As evidências são enormes e as táticas desavergonhadas e impressionantes. A tática preferida da esquerda, ultimamente, é a do ‘eu não sabia’.

Aliás, esta seria a razão mais básica para não votar em nosso atual candidato da esquerda: ignorância. Um chefe de estado que vive na total obscuridade dos fatos não pode continuar a sê-lo.

Mas, se não for por ignorância, uma segunda razão seria a incompetência. Uma vez que o próprio governo está tão envolvido na lama da corrupção, falta-lhe competência até mesmo para ser corrupto. Uma das frases publicadas na Veja na seção "Veja Essa" é interessante e retrata bem isto: “O que atrapalha o governo não é a incompetência do PT para fazer a coisa certa, é a falta de competência para fazer a coisa errada” (atribuída a José Edson Barbosa, delegado de polícia, lembrando o humorista Jésus Rocha).

Porém, se estas duas não servem, parto ainda para uma terceira: o ideário da esquerda tende a levar o homem a livrar-se mais facilmente de valores externos que o impedem de chegar ao fundo do poço tão rápido. A esquerda materialista tende a ver menos razões para o temor a Deus, uma vez que parte do pressuposto que Ele não existe. E, aparentemente, não têm o menor respeito pela lei civil, que, segundo Calvino, foi dada como inibidora do não regenerado, como "um freio com que sejam coibidos" (Institutas, Livro II, p.122). Não existe ideologia sem caráter religioso. O presidente candidato até se vê como o messias, o salvador pleno das massas oprimidas:

"Numa mesa de 12 pessoas, Cristo foi traído por um, mas mesmo assim ele não perdeu sua importância", disse o candidato. Lula também defendeu que sua campanha presidencial é do povo, da "luta do trabalhador contra a elite"
.Mesmo indignado, surgiu-me um raio de esperança. Creio que, desta vez, não será tão fácil acobertá-lo em seu messianismo ignorante, repetindo ‘ eu não sabia’. Minha indignação se manifesta em palavras e voto. Minha esperança é de estar certo e de que o povo brasileiro ainda possa ver que a situação pode tornar-se pior do que já está.
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quarta-feira, setembro 20, 2006

Solano Portela

Como é mesmo isso? - Violência e Infalibilidade na era pós moderna.

Nessa época de contradições intrínsecas convivendo harmonicamente lado a lado, estou tentando entender e ponderar sobre os últimos acontecimentos envolvendo o pronunciamento do Papa Bento 16 sobre o islamismo. Aliás, aconselho que leiam o mesmo na íntegra, clicando nesta frase, em link que me foi enviado pelo grande autor do Blog “Politicamente (In)Correto”.


Duas coisas me intrigam:

1. Os islâmicos promoveram violentos protestos para provar que não são violentos! Em Basra, no Iraque, a efígie do Papa foi queimada; no oriente médio, muçulmanos jogaram bombas incendiárias em sete igrejas, no fim de semana seguinte ao pronunciamento; enquanto líderes islâmicos, em todo o mundo, condenaram o pronunciamento e exigiram um pedido integral de desculpas, com reconhecimento de erro. Acredito que se aumentaram um pouco mais a violência talvez consigam provar o seu ponto – seremos violentamente forçados a acreditar que eles realmente não o são.


2. O que eles não estão alcançando é o grande dilema em que estão jogando o pobre Papa: querem que ele reconheça erro no pronunciamento! E a infalibilidade, como fica? É verdade que o Papa estava somente citando registros de interações históricas de Manoel II Paleologus emitidas em 1391. Mas eu li o texto-todo, cara-pálida – que ele está concordando com a compreensão do Manoel, lá isso ele está (e eu assino embaixo) e ressuscita essa exposição em boa hora! Alguém dirá: “pera, aí”! Ele só é infalível quando fala ex cátedra (ou, como pedem os puristas, ex cattedra)! Mas querem mais cátedra do que aquela – sentado, lendo um discurso preparado de antemão, no ambiente totalmente acadêmico e formal da Universidade de Regensburg? Como é que ele vai dizer que o que disse foi um erro?


Bom, o Papa já declarou que ele está chateado com essa celeuma toda. Acho que ele espera que a violência, demonstrada pelos não-violentos, venha a cessar rapidamente. Esperar mais do que isso dele e deles é meio utópico, não acham?

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sexta-feira, setembro 15, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Guerra Que Nunca Existiu

Por     14 comentários:

Na foto (ainda do meu celular) a Nancy Pearcey trata na quarta-feira à noite da "guerra que nunca existiu". Ela traçou através da história o surgimento do mito de que o Cristianismo sempre perseguiu os cientistas que trouxeram novas visões do mundo e da realidade, a começar com Galileo. Com farta documentação, Nancy mostrou que longe de ser antagonista de Galileo, Copérnico ou quaisquer outros dos famosos cientistas que nos ajudaram a ter uma visão melhor de mundo, o Cristianismo havia na verdade fornecido os pressupostos necessários para o surgimento das idéias destes homens e de outros como Kepler, tais como o conceito de que há ordem e propósito inteligente no universo, e que o homem é capaz de compreender e entender o funcionamento do universo.

Quanto as gravações das palestras da Nancy, ainda não temos resposta se poderemos ou não disponibilizá-las, estamos trabalhando no assunto, mas sem promessas.

Um abraço.
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quarta-feira, setembro 13, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Verdade Fragmentada

Por     9 comentários:
Na foto (tirada com meu celular ultrapassado, desculpem!) a Nancy Pearcey no Café Acadêmico das 14h de hoje, sendo interpretada por Eros Pasquini. Falou sobre a arte como uma janela para o mundo intelectual. Durante 45 minutos ela analisou os diversos estilos de pintura surgidos após o Iluminismo até os dias de hoje, mostrando como a história da arte moderna reflete a fragmentação do conceito de verdade e de realidade introduzido pelo racionalismo. Reivindicou ao final que os artistas cristãos não têm e nunca tiveram o dilema dos modernos e pós-modernos, de achar um lugar para arte depois que a mesma foi desconectada da verdade e da realidade. Muuuuuito bom e esclarecedor. Bem ao estilo do Francis Schaeffer e do Shoemaker no livro "A Arte Moderna e a Morte de Uma Cultura" (não traduzido para português). Para quem mora em São Paulo, ainda tem lugar hoje a noite para ouvir a palestra de Nancy sobre "O Mito da Guerra entre Ciência e Cristianismo".

Um abraço a todos.
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segunda-feira, setembro 11, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Nancy Pearcey: Cristianismo e Ciência no Mackenzie

Começa nessa terça-feira dia 12 de setembro o II Congresso Internacional de Ética e Cidadania promovido pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Com as inscrições online já esgotadas, o Congresso começa às 19h no auditório Rui Barbosa, no campus Itambé, São Paulo.

No ano passado, o Dr. Egbert Schuurman, senador e cientista holandês, membro da Igreja Reformada da Holanda, foi o preletor principal do I Congresso, falando sobre Fé e Tecnologia.
Dessa feita, Nancy Pearcey, historiadora da ciência, apontada por muitos como a sucessora de Francis Schaeffer, estará falando sobre Religião e Ciência nos dias 12, 13 e 14, sempre às 19h.

Os temas das palestras serão: "Verdade Total", que é o título do seu mais novo livro, traduzido e publicado em português pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (o lançamento será durante o evento), "O Mito do Conflito entre Religião e Ciência" e "Darwinismo e cultura".

Durante a semana, dezenas de palestras menores estarão sendo oferecidas no Mackenzie pela manhã e à tarde sobre o tema geral de ética, reunindo pesquisadores e estudiosos do assunto da USP, metodista, PUC e do próprio Mackenzie. Mais de 200 estudiosos já inscreveram seus trabalhos para análise de um comitê científico, pois o evento tem a aprovação da CAPES e do Mackpesquisa, órgão de fomento do Mackenzie.

Nancy Pearcey é uma das autoras mais lidas hoje sobre esse assunto e tem diversos livros publicados, inclusive no Brasil.

O nosso alvo é mostrar ao público acadêmico e em geral que longe de ser um obstáculo à fé, a ciência moderna nasceu da cosmovisão cristã e que somente depois de abandonar os pressupostos cristãos é que se tornou materialista. O Cristianismo continua oferecendo uma visão de mundo que fornece os fundamentos para a verdade na sua forma mais abrangente.
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segunda-feira, setembro 04, 2006

Mauro Meister

Chega a hora de votar novamente...

As eleições se aproximam e a frustração diante da situação política da nação cresce. Vemos todo tipo de propaganda política, das mais ridículas e/ou intelctualóides até algumas que fazem algum sentido. Na internet correm milhares de emails com as mais estranhas ideias a respeito de política e políticos, inclusive a crescente campanha ‘eu não voto em pastor’, que deve ter muitos adeptos entre evangélicos e não evangélicos (com provável razão). Em alguns casos, denominações fecham apoio político com um ou mais candidatos e pressionam seus fiéis a votarem, num tipo de antigo ‘voto de cabresto’. Existem, ainda, aqueles que entendem que a separação entre Igreja e Estado envolve o silêncio absoluto de pastores e líderes quanto a política, ou seja, no ensejo de separar as esferas de soberania, as igrejas locais e seus líderes devem ficar mudos... Tudo isto faz com que tomar uma decisão de voto se torne ainda mais difícil.

É obvio que quando nos voltamos para as Escrituras não vamos encontrar instruções diretas sobre como votar nas eleições brasileiras. Logo, temos que buscar os princípios da Escritura que nos orientam na escolha de nossos líderes, na igreja e fora dela.

Volto-me para o texto em que Moisés é orientado por seu sogro, Jetro, na escolha de líderes para ajudá-lo no árduo trabalho de julgar o povo durante a sua caminhada pelo deserto (Êxodo 18):

21 Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez; 22 para que julguem este povo em todo tempo. Toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julgarão; será assim mais fácil para ti, e eles levarão a carga contigo. 23 Se isto fizeres, e assim Deus to mandar, poderás, então, suportar; e assim também todo este povo tornará em paz ao seu lugar. 24 Moisés atendeu às palavras de seu sogro e fez tudo quanto este lhe dissera. 25 Escolheu Moisés homens capazes, de todo o Israel, e os constituiu por cabeças sobre o povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez. 26 Estes julgaram o povo em todo tempo; a causa grave trouxeram a Moisés e toda causa simples julgaram eles. 27 Então, se despediu Moisés de seu sogro, e este se foi para a sua terra.

O que este texto nos ensina, basicamente, é que deve-se buscar para a liderança do povo homens com determinados traços na sua capacidade e caráter:

• Capazes
• Tementes a Deus
• Homens de verdade
• Que aborreçam a avareza

Logo, ao buscar o candidato em quem votar, deve-se buscar alguém competente para desempenhar seu papel político, com competência, habilidade e compromisso na qualidade de agente político. Votar em alguém incompetente é votar contra a nação. Dificilmente os candidatos são ‘marinheiros de primeira viagem’, logo, neste quesito é possível avaliar grande parte dos candidatos.

No segundo ponto, ‘tementes a Deus’, fica mais difícil de avaliar, mas não é impossível. Obviamente um candidato não cristão não poderá ser ‘temente a Deus’. No entanto, ao tratar-se de votos para cargos políticos, não precisamos, primariamente, escolher “políticos crentes”. Se pudéssemos ajuntar as duas coisas, melhor, mas caso não seja possível, precisamos observar a ideologia do candidato e verificar se suas propostas políticas não são conflitantes com os princípios mais básicos da fé cristã. Mesmo os candidatos não cristãos podem manifestar conceitos e ideais que se aproximem mais dos valores do cristianismo. Não podemos nos esquecer que Deus criou o homem com consciência e esta pode estar mais ou menos cauterizada pela prática do pecado. Observar a vida de um candidato pode nos mostrar a respeito de sua consciência.

O terceiro aspecto trata do caráter do candidato. Os seus candidatos são homens que costumam falar a verdade e sustentá-la em meio às tempestades políticas? São candidatos que lutaram pelas propostas que fizeram nas últimas eleições ou em cargos que ocuparam? Estão envolvidos em casos de corrupção? Tem coragem de declarar seu voto? Estas são perguntas básicas que podem servir de guia para nossa busca de ‘homens da verdade’.

O quarto e último quesito torna-se mais fácil de ser avaliado com as novas regras eleitorais estabelecidas que exigem a publicação na internet a declaração de bens dos candidatos. Mas também significa estar sintonizado com o que o político tem feito em sua vida pública, quais os escândalos nos quais tem se envolvido; quais as negociatas das quais tem participado. Aborrecer a avareza é o antônimo de enriquecimento ilícito, escândalos, fuga de esclarecimentos e atitudes duvidosas diante de problemas. A avareza é sinônima da aceitação de suborno e perversão do direito.

Tenho dificuldade com os pontos IV e IX do Decálogo do Voto Ético publicado em 1998 pela Associação Evangélica Brasileira, mas, no cômputo geral, me parece uma boa orientação quanto ao que não se deve fazer com o voto:

► I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;
► II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade numa outra direção;
► III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, devem evitar transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;
► IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multi-partidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, os vários representantes de correntes políticas possam ser ouvidos sem pré-conceitos; (tenho dificuldades com este ponto. Minha preocupação principal é que a confusão tome conta do povo de Deus ao ver seus líderes promoverem este tipo de debate e que, finalmente, estes debates acabem por descambar em promoção de apoio explícito de um ou de outro candidato)
► V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil deve levar os pastores a não tentar conduzir processos político-partidários dentro da igreja, sob pena de que, em assim fazendo, eles dividam a comunidade em diversos partidos;
► VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidas com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão política. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político evangélico tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um “despachante” de igrejas.
► VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um político evangélico votou de determinada maneira, apenas porque obteve a promessa de que, em fazendo assim, ele conseguirá alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades ou outros “trocos”, ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais “acertos” impliquem a prostituição da consciência de um cristão, mesmo que a “recompensa” seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Afinal, Jesus não aceitou ganhar os “reinos deste mundo” por quaisquer meios. Ele preferiu o caminho da cruz;
► VIII. Os eleitores evangélicos devem votar, para Presidente da República, sobretudo, baseados em programas de governo, e não apenas em função de “boatos” do tipo: “O candidato tal é ateu”; ou: “O fulano vai fechar as igrejas”; ou: “O sicrano não vai dar nada para os evangélicos”; ou ainda: “O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos”. É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos;
► IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: “o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto”, é de bom alvitre que, ainda assim, se dê um “voto de confiança” a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. A fé deve ser prioritária às simpatias ideológico-partidárias. (minha observação: nem sempre! Apesar de alguns andarem propagando que programa de partido não é programa de governo, o partido, supostamente, defende algumas idéias que devem ser comparadas com os absolutos de justiça que emanam de Deus às sociedades. O irmão que entra em uma canoa furada pode naufragar junto com ela. Ele não tem o direito de esperar um milagre divino que o salve, fazendo-o andar sobre as águas).
► X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ele ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.

Num pequeno artigo, nosso colega, Dr. Valdeci Santos, levanta 4 pontos muito pertinentes quanto ao votar em candidatos evangélicos:

1. Descubra se o candidato evangélico é um evangélico candidato;
2. Conheça o conceito de “serviço cristão” que o candidato possui;
3. Procure fazer distinção entre caráter e carisma;
4. Entenda que o moto “irmão vota em irmão” só é justificado quando o irmão em Cristo possui vocação política comprovada (e adiciono, uma agenda política apropriada).

No mais, eu gostaria de encontrar candidatos que se encaixassem no perfil e que nosso espaço no blog servisse para que apresentássemos perfis, ferramentas de busca para candidatos. Fundamental, em tudo, é obedecer a ordem de Paulo na carta a Timóteo:


Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, 2 em favor dos reis de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito.( 1Tm 2:1-2)

Recursos:
Para investigar a vida de políticos:
http://noticias.uol.com.br/fernandorodrigues/politicosdobrasil/
Para uma aula de política, veja os mais experientes: http://www.youtube.com/watch?v=ArQ2AtzMv4I

Piada eleitoral (Publicada no Blog da Revista Época http://www.blogbrasil.globolog.com.br/)

Xeque Humberto, o candidato do PTC ao governo do Rio Grande do Norte, não desiste. Depois de prometer leite encanado e um trem-bala entre as cidades de Natal e Mossoró, num e-mail enviado a ÉPOCA na manhã de hoje diz que vai construir um disco voador para a polícia atender às ocorrências com mais rapidez.
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sexta-feira, setembro 01, 2006

Solano Portela

Cuidado! O Ministério da Justiça pode ser prejudicial à família!


O protesto abaixo foi encaminhado ao e-mail: acs@mj.gov.br que foi o único endereço eletrônico do Ministério da Justiça que consegui encontrar. O "fale conosco" do site do Ministério, não funciona e dá erro, toda vez que você tenta:


Sr. Ministro da Justiça, digníssimo Dr. Márcio Thomaz Bastos:

Os considerandos da recente portaria No. 1.100, que regulamentam a classificação de espetáculos e filmes, apontam, corretamente:
"... que cabe ao poder público regular as diversões e espetáculos públicos" que se mostrem inadequados... "nos termos art. 74 da Lei 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA)";

Ocorre que, na prática, o Ministério da Justiça está fazendo EXATAMENTE o contrário - em vez de proteger a criança, a expõe; em vez de proteger a FAMÌLIA, a dissolve; em vez de proteger os valores, os DESTROI.

Não pode haver outra interpretação, além dessa, para a ação liberatória de chamado "beijaço gay" em horário livre; programa a ser mostrado antes das 20 horas na MTV.

Registro o meu mais veemente protesto, na esperança de que haja uma lúcida reversão desse curso em suas decisões.

Respeitosamente,

Solano Portela, cidadão brasileiro, cristão afrontado e pai irado.
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quarta-feira, agosto 30, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Quem disse que Presbiterianos Não Crescem?

Por     30 comentários:
Semana passada estive por uns dias em Tapachula, estado de Chiapas, no México, para palestras em um dos Seminários Teológicos da Igreja Presbiteriana Nacional do México. Estive acompanhando o Rev. Ludgero Morais (direita) e o Rev. Guillermo Green (esquerda), que também eram palestrantes no evento. Além da deliciosa comida mexicana (a foto foi tirada no restaurante La Parrilla que serve comida típica) tivemos a alegria de conhecer uma das igrejas presbiterianas que mais cresce no mundo. A IPNM tem perto de 3 milhões de membros, com pouco mais de 100 anos de história. A igreja está crescendo tão depressa que não estão dando conta de preparar pastores e obreiros para o crescente número de igrejas que nascem da noite para o dia. Grande parte do trabalho é feito por obreiros, presbíteros, missionárias. A IPNM é conservadora na teologia, embora tenha influência (localizada) de professores estrangeiros liberais e neo-ortodoxos em alguns seminários.

A cidade de Tapachula, onde estávamos, tem altíssima concentração de presbiterianos. Um dia, notei que tinha um carro estacionado em frente a uma loja, numa rua muito movimentada, com os vidros abertos e uma bolsa no banco da frente. Comentei com Rubem Vásquez, nosso anfitrião, que respondeu que o índice de criminalidade da cidade era quase zero. As pessoas se sentiam confiantes para deixar o carro aberto e a bolsa no banco da frente. Disse que era resultado não somente do ethos indígena daquela região, mas especialmente pela influência dos presbiterianos na vida da cidade. Noooossa!! Lembrei-me da piada que circulou essa semana, que bastou um brasileiro ir para o espaço e já sumiu um planeta...

Fiquei animado. Estou orando pela vibrante Igreja do México e pedindo ao nosso Deus que tenha misericórdia de nós, no Brasil. Posted by Picasa
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domingo, agosto 27, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Para Quem Pensa Estar em Pé (III) – versão para neo-ortodoxos

Por     18 comentários:
Eu não poderia deixar de incluir nessa série um post que trabalhasse a relação entre a santidade bíblica e a neo-ortodoxia. Acredito que uma das maiores vulnerabilidades da neo-ortodoxia é exatamente na área de santificação. Com isso não quero generalizar, dizendo que todo neo-ortodoxo inevitavelmente tem problemas sérios para viver uma vida santa. Apenas estou dizendo que os princípios operantes da neo-ortodoxia tendem a relegar a santificação a um papel secundário na vida cristã.

Começo recordando o que já disse aqui sobre a neo-ortodoxia (veja os links para os posts ao final). Ela foi uma tentativa de síntese entre a ortodoxia da Igreja e o liberalismo teológico no século passado, síntese em que não somente o liberalismo perdeu sua força, como também a própria ortodoxia, que já não seria a mesma. Contudo, a neo-ortodoxia continuou a se apresentar usando os termos e o vocabulário da ortodoxia histórica, embora com conteúdo diferente e que pouca coisa tem em comum com a ortodoxia histórica da Igreja. Aos neo-ortodoxos brasileiros eu diria o seguinte quanto à necessidade de santificação.

1. A santidade é visível aos olhos humanos – Ela não acontece nas regiões celestiais apenas, no âmbito das relações invisíveis entre os crentes e Deus. Se por um lado já fomos santificados e glorificados em Cristo nas regiões celestiais – coisa que não podemos sentir nem ver – somos exortados a nos santificar diariamente pela mortificação da natureza pecaminosa e pelo revestimento das virtudes cristãs (cf. Colossenses 3.1-6). A neo-ortodoxia tem a tendência de colocar como transcendentes as manifestações práticas e visíveis da operação da graça de Deus no ser humano, interpretando conversão e santificação em termos psicológicos, apenas. Talvez seja por esse motivo que alguns neo-ortodoxos – note que não estou generalizando – consideram como sem importância fazer sexo antes do casamento, fumar, beber, ir aos bailes e baladas, separar-se e casar de novo mais de uma vez, e usar palavrões e linguagem chula. Eles acabam esvaziando de sentido as declarações bíblicas sobre a necessidade diária e prática de uma vida separada do pecado e apegada aos valores cristãos.

2. A santidade é sinal da eleição – Muitos neo-ortodoxos negam isso, afirmando que os puritanos modificaram a doutrina da segurança da fé ensinada por Calvino. Os puritanos, com seu legalismo, teriam conectado a certeza de salvação à santidade e não á fé salvadora, como Calvino supostamente acreditava. Essa tese falsa já foi convincentemente refutada por muitos autores (recomendo o artigo de Paulo Anglada na revista Fides Reformata). Não precisamos dos puritanos para ver que a Bíblia ensina claramente que fomos eleitos para a santificação, e que sem santificação, ninguém verá ao Senhor (Hb 12.14). A santidade de vida – não estou falando de perfeição – é parte integrante da fé salvadora (Romanos 6). Santidade e fé salvadora são dois lados de uma mesma moeda. Tiago que o diga: “Fé sem obras é morta”. E no contexto, ele não estava falando de dar esmolas, mas de obedecer a Deus mesmo ao custo do que nos é mais precioso, como os exemplos de Abraão e Raabe demonstram (Tiago 2). Deixando de considerar a santificação como sinal da eleição para a vida eterna e adotando a fé como esse sinal, adotam uma base subjetiva para a segurança de salvação e correm o risco de se enganarem quanto à sua experiência religiosa, pois desta forma, podem se considerar salvos mesmo que não haja sinais visíveis da santificação entre eles.

3. A santidade é experimental – com isso quero dizer que podemos experimentá-la. Podemos viver, sentir e experimentar a vitória sobre as tentações interiores e exteriores. Sentimos e experimentamos grande gozo, alegria e deleite nas coisas de Deus. Sei que muitos vão se espantar com isso, mas declaro acreditar que reações físicas como tremer, chorar, emocionar-se, são perfeitamente válidas, se são resultado da pregação da Palavra de Deus na mente e no coração. Neo-ortodoxos tendem a considerar toda manifestação religiosa emocional como pentecostalismo, esquecidos de que a tradição reformada à qual dizem pertencer reconhece que a ação graciosa do Espírito na santificação por vezes produz efeitos profundos em nossa estrutura emocional. Eu sou contra emocionalismo e a manipulação e exploração das emoções. Mas, já chorei de alegria diante de Deus ao meditar na sua graça, já solucei amargamente, prostrado, por causa dos meus pecados, já senti uma paz que ultrapassa qualquer descrição ao enfrentar grandes tentações. O processo de santificação inevitavelmente passa pelas emoções – não é somente uma coisa da mente. E isso não é pietismo e nem pentecostalismo, como geralmente os neo-ortodoxos pensam.

4. A santidade precisa da prática devocional – Eu ainda acredito, depois de todos esses anos de crente, de pastor e professor de interpretação bíblica, que a leitura bíblica diária, junto com meditação e oração a Deus, são meios indispensáveis para nos santificarmos (Salmo 1). Não sei como muitos conseguem passar dias e dias sem ler a Palavra de Deus, sem meditar nela e buscar a Deus em oração. Quando por algum motivo deixo de fazer minhas devoções diárias, sinto o velho Adão crescer dentro em mim. Perco o gozo e o deleite na oração. Meu coração começa a se endurecer, meus sentidos espirituais começam a se embotar. O pecado deixa de ser odioso e começa a ser mais atraente. Eu nunca havia entendido até alguns anos passados porque neo-ortodoxos adotam uma ordem de culto extremamente litúrgica. Hoje, penso que descobri. Se não temos prática devocional e se tiramos o poder prático do Evangelho em nossas vidas, temos de transferir a dinâmica da santificação para outra esfera – e no caso, um culto extremamente formal e litúrgico. Não sou contra um culto litúrgico. Sou contra o “liturgismo” que aparece como substituto de uma vida devocional diária e do processo de santificação.

5. A santificação pressupõe que Deus fez e faz milagres neste mundo – A santificação bíblica pressupõe a realidade de três milagres. Primeiro, a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte, por sua ressurreição física, literal e histórica de entre os mortos. É somente mediante nossa união com o Cristo ressurreto e exaltado que temos o poder para vencer o pecado em nós. Segundo, a operação do Espírito regenerando o pecador, dando-lhe uma nova natureza e implantando nele o princípio da nova vida em Cristo. Sem regeneração, não pode haver santificação. A velha natureza pecaminosa não pode santificar-se. É preciso uma nova natureza e somente um ato miraculoso, criador, de Deus a implanta no pecador. Terceiro, a ação da Providência de Deus, que diariamente impede que sejamos tentados mais do que podemos resistir, subjugando Satanás, subjugando nossas paixões e nos mantendo no caminho da santidade. A neo-ortodoxia tende a lançar todos os atos miraculosos de Deus para a heilsgeschichte, um nível de existência que eles inventaram, que é fora desse mundo. Portanto, quem realmente não crê na ação miraculosa de Deus na historie, no mundo real, não conhece o que é a regeneração, a união mística com Cristo e a vitória diária sobre o pecado.

6. A santificação precisa de referenciais morais objetivos e fixos -- Sem eles, a santificação descamba para o misticismo, pragmatismo, e paganismo. O referencial seguro do caminho da santidade é a Palavra de Deus, nossa única regra de fé e prática. Ela é lâmpada para meus pés e luz para meus caminhos (Salmo 119.105). A neo-ortodoxia vê a Bíblia, não como a Palavra de Deus, mas como o testemunho humano escrito e falível a essa revelação. Deus só me fala pela Bíblia num encontro existencial, cujo conteúdo será determinado pela minha necessidade naquele momento. Fica difícil dizer não ao pecado, mortificar as paixões, rejeitar as tentações, buscar a verdade, a pureza e a justiça quando não temos certeza que essas coisas são certas e que são a vontade de Deus para nós a todo momento. Uma Bíblia falível, muda, cheia de erros, é um guia inseguro e não-confiável na senda do Calvário.

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14).

Veja esses posts sobre a Neo-Ortodoxia

A Neo-Ortodoxia e a ressurreição de Jesus

Barth para Leigos

Por que o Barthianismo foi chamado de Neo-ortodoxia

A Voz é de Jacó, Porém as Mãos são de Esaú

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terça-feira, agosto 15, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Para Quem Pensa Estar em Pé (II) – versão para reformados e neopuritanos

Por     52 comentários:
Embora eu tenha sido criado num lar presbiteriano e numa igreja presbiteriana onde as doutrinas características do presbiterianismo reformado eram pregadas com certa regularidade, revoltei-me contra essas doutrinas quando retornei ao Evangelho em 1977, depois de vários anos afastado de Deus e da Igreja. Influenciado pela leitura das obras de Charles Finney e João Wesley, combati a ferro e fogo, com zelo de novo convertido, não somente os cinco, mas todos os pontos do calvinismo.

Foi um batista reformado, Charles Spurgeon, com sua exposição bíblica da doutrina da eleição, quem abriu meus olhos para que eu passasse a aceitar com regozijo a fé reformada. Faminto, passei a devorar a literatura reformada disponível. Mais tarde, fazendo meu mestrado na África do Sul, conheci a obra de Martyn Lloyd-Jones e dela para a literatura puritana, foi um breve salto.

Amo a literatura produzida pelos antigos puritanos. Sólida, bíblica, profunda, muito pastoral e prática. A santidade defendida e pregada pelos puritanos aqueceu meu coração e se tornou o ideal que eu decidi perseguir até hoje. Um breve resumo do pensamento puritano sobre a santidade está na Confissão de Fé de Westminster, no capítulo SANTIFICAÇÃO:

I. Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita; o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais é mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.

II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável - a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne.

III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.

Era esse conceito de santificação que eu gostaria de ver difundido como sendo o conceito reformado. Contudo, recentes influências dentro do campo reformado, algumas delas chamadas de “neopuritanismo”, têm criado alguma confusão sobre o assunto.

Conforme escrevi num post anterior, o termo “neopuritanos” tem sido usado para designar os adeptos de um movimento recente no Brasil que inicialmente visava apenas resgatar a literatura dos puritanos e difundir seus ensinamentos em nosso país. Com o tempo, o movimento passou a usar determinadas doutrinas e práticas como identificadoras dos verdadeiros reformados, tais quais o cântico exclusivo de salmos sem instrumentos musicais no culto, o silêncio total das mulheres no culto, a interpretação de “o perfeito” em 1Coríntios 13.8 como se referindo ao cânon do Novo Testamento (posição contrária à de Calvino), uma aplicação rigorosa e inflexível do princípio regulador do culto e outros distintivos semelhantes. Há o grande risco de que se caia na tentação de associar a santidade com esses pontos. Sinto que os seguintes comentários poderiam ajudar a esclarecer o assunto.

1. A santidade deve ser buscada ardorosamente sem, contudo, perder-se de vista que a salvação é pela fé, e não pela santidade – Muitos seguidores modernos dos puritanos tendem à introspecção e a buscar a certeza da salvação dentro de si próprios, analisando as evidências da obra da graça em si para certificar-se que são eleitos. Não estou dizendo que isso está errado. A salvação é pela fé e, no meu entendimento, a certeza dela está ligada ao processo de santificação. Contudo, puritanos de todas as épocas correm o risco de confundir as duas coisas. Se a busca contínua pela santidade não for feita à luz da doutrina da justificação pela graça, mediante a fé, levará ao desespero, às trevas e à confusão. Quanto mais olhamos para dentro de nós, mais confusos ficaremos. “Enganoso é o coração, mais que todas as coisas; e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9) Não estou descartando o exame próprio e a análise interior de nossos motivos. Apenas estou insistindo que devemos fazer isso olhando para Cristo crucificado e morto pelos nossos pecados. Somente conscientes da graça de Deus é que podemos prosseguir na santificação, reconhecendo que esse processo é evidência da salvação.

2. A santidade não se expressa sempre da mesma forma; ela tem elementos culturais, temporais e regionais – Sei que não é fácil distinguir entre a forma e a essência da santidade. Para mim, adultério é pecado aqui e na China, independentemente da visão cultural que os chineses tenham da infidelidade conjugal. Contudo, coisas como o uso do véu pelas mulheres me parecem claramente culturais. Quero insistir nesse ponto. A santidade pode se expressar de maneira contemporânea e cultural, não está presa a uma época ou a um local – Sei que muitos modernos puritanos negarão que desejam recuperar o estilo dos antigos puritanos da Inglaterra, Escócia, Holanda e Estados Unidos. Contudo, pontos como a insistência no uso do véu, no silêncio absoluto das mulheres no culto, no cântico de salmos à capela, na extrema seriedade dos cultos e do comportamento, a aversão ao humor, me parecem muito mais traços de uma época já passada do que essenciais teológicos. Especialmente quando a argumentação exegética para defendê-los carece de melhor fundamentação.

3. A santidade pessoal pode existir mesmo em um ambiente não totalmente puro – Eu acredito que chega um momento em que devemos nos separar daqueles que se professam irmãos, mas que vivem na prática da iniqüidade (1Coríntios 5). Não creio que devamos sacrificar a verdade no altar da pretensa unidade da Igreja. Se queremos a santidade, devemos estar prontos para arrancar de nós o olho, a mão e o pé que nos fazem tropeçar. Contudo, creio que há um caminho a ser percorrido antes de empregarmos a separação como meio de preservar a santidade bíblica. Sei que os santos são chamados a se separar de todo mal, inclusive dos pecadores (Salmo 1). Mas a separação bíblica é bem diferente daquela defendida por alguns puritanos modernos, que têm dificuldade de conviver inclusive com outros reformados dos quais discordam em questões que considero absolutamente secundárias. Podemos ser santos dentro de uma denominação ou de uma igreja local que não sejam, de acordo com as marcas da Igreja, uma igreja completamente pura. Sei que não é fácil, mas teoricamente posso ser santo dentro de Sodoma e Gomorra. Posso ser santo na minha denominação, mesmo que ela abrigue gente de pensamento divergente do meu. Os cristãos que compõem os grupos conservadores dentro da PCUSA, da Igreja Presbiteriana da Escócia podem ser santos, mesmo que muitos da sua própria denominação achem que a santidade do casamento inclui casamento gay. Não preciso necessariamente me separar como indivíduo para poder ser santo, especialmente se as alternativas de associação forem raras ou inexistentes.

4. A santidade pode ocorrer mesmo onde não haja plena ortodoxia – Sei que esse ponto é difícil para alguns puritanos modernos. Por incrível que pareça, a tolerância e a misericórdia marcaram os puritanos ingleses do século XVII. Foi somente a fase posterior do puritanismo que lhe deu a fama de intolerância. John Owen, o famoso puritano, pregou em 1648 um extenso sermão no Parlamento Britânico, na Câmara dos Comuns, intitulado “Sobre Intolerância”, no qual defendeu, mais uma vez, a demonstração do amor cristão e a não-intervenção dos poderes governamentais nas diferenças de opiniões eclesiásticas (Works, VIII, 163-206). O neo-puritanismo tende a ver com desconfiança a genuinidade da experiência cristã de arminianos e pentecostais. Para mim, a graça de Deus é muito maior do que imaginamos e o Senhor tem eleitos onde menos pensamos. Assim, creio que exista santidade genuína além do arraial puritano. Não estou negando a relação entre doutrina correta e santidade. O Cristianismo bíblico enfatiza as duas coisas como necessárias e existe uma relação entre elas. Contudo, por causa da incoerência que nos aflige a todos, é possível vivermos mais santamente do que a lógica das nossas convicções teológicas permitiria. Cito Owen mais uma vez:

A consciência de nossos próprios males, falhas, incompreensões, escuridão e o nosso conhecimento parcial, deveria operar em nós uma opinião caridosa para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro, assim estão com os corações sinceros e retos, com postura semelhante aos que estão com a verdade (Works, VIII, 61).

Acredito que a teologia reformada é a que tem melhores condições de oferecer suporte doutrinário para a espiritualidade, a santidade e o andar com Deus. Os reformados brasileiros são responsáveis por mostrar que a teologia reformada é prática, plena de bom senso, brasileira e cheia de misericórdia.

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terça-feira, agosto 08, 2006

Mauro Meister

Guerra santa em Israel?

Participei ontem (07/08/2006) de um debate em um canal UHF (www.rittv.com.br/vejamso/) sobre a guerra de Israel contra o Líbano, que foi deflagrada com as mortes e seqüestro de soldados israelenses. Primeiro o Hamas (ao sul de Israel), invadiu as fronteiras de Israel, matou soldados e seqüestrou um deles. Depois, o Hezbollah fez coisa semelhante nas fronteiras do norte de Israel. Em ambos os casos, Israel reagiu com força militar maciça contra os ataques recebidos.

As reações à reação de Israel são variadas entre os cristãos, desde aqueles que abominam completamente a ação de Israel até aqueles que crêem que esta é uma guerra santa, abençoada por Deus, no mesmo espírito e modelo das guerras bíblicas. Sabemos que para o Hezbollah, esta é uma ‘guerra santa’, mas como os cristãos podem analisar a questão?

Com este post quero expressar a minha posição teológica quanto a Israel hoje e também minha leitura do direito de Israel à auto defesa.

1. Questão Teológica
Na visão de muitos cristãos (e judeus), a nação de Israel que hoje se encontra no Oriente Médio, estabelecida pela ONU em 1948 sobre territórios ocupados por ingleses na época, é um literal cumprimento de diversas promessas e profecias bíblicas do Antigo Testamento. Esta leitura vê, por exemplo, que a restauração da nação israelita é o caminho de Deus para cumprir a promessa de bênção a Abraão e a aliança eterna de Deus com a casa de Davi. O fato de a nação israelita ter ‘reaparecido’ no cenário mundial depois de quase 2 milênios da diáspora é visto não só como uma ação soberana de Deus (o que eu creio, pois todas as manifestações históricas retratam a soberania de Deus ), mas também como a manifestação da vontade de Deus prescritiva conforme expressa na Bíblia (o que não creio, pois procura-se “enxergar” em demasia os caminhos de Deus nos traços da história, esquecendo-se o todo da Revelação Especial). Logo, é ação soberana de Deus, mas não está revelada nas Escrituras.

Não seria a primeira vez que Israel “reaparece” na história da humanidade como nação. Depois da destruição do primeiro templo e do cativeiro na Babilônia por um período de 70 anos, a nação voltou ao seu território e se restabeleceu, agora debaixo do domínio Persa. A diferença entre o primeiro ‘reaparecimento’ de Israel e este segundo, em 1948, é que o primeiro é claramente estabelecido na Bíblia como o resgate da disciplina de Deus sobre seu povo e as profecias são muito claras, inclusive quanto ao tempo da volta do cativeiro e até com o nome de quem seria o seu libertador (Ciro). Não tenho qualquer dificuldade em compreender nesses atos de Deus o cumprimento de profecias, conforme registradas na Bíblia. Afinal, creio plenamente na inspiração, inerrância e autoridade das Escrituras. O que não consigo ver, como muitos hoje vêem, são profecias claras a respeito do Israel de hoje, a se cumprirem na atualidade e no final dos tempos. Aliás, a maioria dos intérpretes reformados compreende que a nação de Israel, com a vinda do Messias e sua conseqüente negação, perdeu o seu papel bíblico como agente do Reino do Deus, tendo Israel sido incorporado pela igreja do Senhor Jesus. A igreja é o verdadeiro Israel de Deus, formado por toda língua, raça, povo e nação.

Creio na eleição de Israel como etnia para trazer ao mundo os oráculos de Deus e o próprio Messias, mas este papel se extingue quando, em Cristo, as promessas feitas aos verdadeiros crentes, os filhos de Abraão na fé, israelitas de sangue ou não, são cumpridas. O rei davídico, o descendente de Abraão, Jesus Cristo, está assentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, e de lá há de vir para julgar os vivos e os mortos. A ‘menina dos olhos’ de Deus é a sua Igreja, o verdadeiro Israel, composto dos remidos do Senhor em todos os tempos, em ambas as dispensações. Existem muitos cristãos não dispensacionalistas que acreditam na possibilidade de que as Escrituras apontem para um futuro glorioso para a nação de Israel. Ainda que eu veja isto como uma possibilidade, ainda não fui decididamente convencido.

Sei que este é assunto por demais polêmico e pretendo responder a alguns comentários, mas prometo, não vou responder a todos. Para uma leitura específica sobre esta posição recomendo: O. Palmer Robertson, O Israel de Deus: passado, presente e futuro (Editora Vida) e David Holwerda, Jesus e Israel: uma aliança ou duas? (Editora Cultura Cristã). Se você está preocupado com o cumprimento do sermão escatológico de Jesus e o relaciona especificamente a Israel, sugiro a leitura do recém lançado “Ainda não é o fim”: uma exposição do sermão escatológico de Jesus, por não menos do que nosso co-blogueiro, Augustus Nicodemus Lopes (Luz para o caminho publicações).

2. O direito de defesa
Ainda que não creia que a presente nação de Israel seja a mesma coisa que o Israel bíblico e as profecias bíblicas não se refiram diretamente a este Israel que está em guerra com o Líbano, creio que qualquer nação tem o direito de defesa do seu território e de sua soberania. Israel tem sido atacado por povos de outras nações e precisa usar dos meios necessários para a proteção de sua população, fronteiras e propriedade. Se qualquer nação vizinha ou longínqua atacar o Brasil, o mínimo que eu espero é que o nosso governo federal reaja em proteção ao seu próprio povo (mesmo que seja um ataque a uma propriedade brasileira no exterior, quem sabe uma refinaria da Petrobrás).

Ainda que uma guerra por si nunca seja boa, ela é muitas vezes necessária. Creio na doutrina da ‘Depravação Total’ e já cresci o suficiente para saber que esta depravação, muitas vezes, não permite que situações se resolvam satisfatoriamente. Tanto os israelitas quanto os libaneses se encaixam plenamente neste status e, conforme sua natureza, vão tentar resolver as diferenças – um atacou o outro e, enquanto um não abrir mão de seus direitos, ou ambos, não existirá uma solução.

Pesa contra Israel a acusação de que a reação aos ataques recebidos foi desproporcional, ainda que as notícias nesse sentido procurem ignorar as repetidas agressões infligidas contra aquela nação por várias décadas. Pesa contra o Líbano o fato de manter dentro de suas fronteiras um exército não oficial, sobre o qual o governo ‘não tem controle’. Ou seja, o governo do Líbano não ataca a Israel, mas, em tese, abriga um grupo que manifesta seu ódio à nação vizinha atacando-a. Pesa ainda o fato de que esta força de guerrilha se abriga no meio da ‘população civil’, em meio a escolas, lugares de comércio, fazendas, etc., usando a população como escudo e desculpa. Se, por um lado, a força bruta usada por Israel nos assusta, a covardia de manter força bélica no meio de casas com civis, mulheres e crianças também impressiona. Não podemos ignorar um fato com freqüência esquecido pelos meios de comunicação: como bem disse o primeiro ministro de Israel, “a diferença entre nós é que quando atingimos civis, reconhecemos e lamentamos o erro, enquanto que eles celebram e comemoram exatamente isso”.

Creio que o conceito expresso na Confissão de Fé de Westminster sobre guerra justa, pode ser o nosso princípio de análise para a questão (Capítulo XXIII: Do Magistrado Civil):


II. Aos cristãos é licito aceitar e exercer o ofício de magistrado, sendo para
ele chamado; e em sua administração, como devem especialmente manter a piedade, a justiça, e a paz segundo as leis salutares de cada Estado, eles, sob a
dispensação do Novo Testamento e para conseguir esse fim, podem licitamente
fazer guerra, havendo ocasiões justas e necessárias.
Prov. 8:15-16; Sal. 82:3-4; II Sam. 23:3; Luc. 3:14; Mat. 8:9-10; Rom. 13:4.

As perguntas que precisamos fazer antes de conclusões precipitadas e, por vezes, teologicamente equivocadas, que levam alguns a subscrever tudo o que a atual nação de Israel faz; ou antes de manter discursos inflamados que refletem tão somente a visão simplista da mídia e o bordão de “reação proporcional” (o que seria mesmo isso – matar apenas 1:1?) seriam: Esta guerra é necessária? Esta guerra é justa? Esta guerra é lícita? É impossível ter todas as respostas agora. Muitos desdobramentos ainda virão. Além disso, devemos orar e rogar a Deus pelos libaneses, israelitas e nossos irmãos cristãos que estão em ambas as fronteiras desta guerra e que estão sofrendo e morrendo. Uma coisa é certa: não há guerra boa, que Deus abrevie o fim desta, com a possibilidade de que a justiça prevaleça e que uma paz duradoura se estabeleça para aqueles que assim a desejam.
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quarta-feira, agosto 02, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Para quem Pensa Estar em Pé (I) -- Versão para Pentecostais e Neopentecostais

Por     47 comentários:

Faz alguns anos fui convidado para ser o preletor de uma conferência sobre santidade promovida por uma conhecida organização carismática no Brasil. O convite, bastante gentil, dizia em linhas gerais que o povo de Deus no Brasil havia experimentado nas últimas décadas ondas sobre ondas de avivamento. “O vento do Senhor tem soprado renovação sobre nós”, dizia o convite, mencionando em seguida o que considerava como evidências: o movimento brasileiro de missões, crescimento na área da ação social, seminários e institutos bíblicos cheios, o surgimento de uma nova onda de louvor e adoração, com bandas diferentes que “conseguem aquecer os nossos ambientes de culto”. O convite reconhecia, porém, que ainda havia muito que alcançar. Existia especialmente um assunto que não tinha recebido muita ênfase, dizia o convite, que era a santidade. E acrescentava: “Sentimos que precisamos batalhar por santidade. Por isto, estamos marcando uma conferência sobre Santidade...”

Dei graças a Deus pelo desejo daqueles irmãos em buscar mais santidade. Entretanto, por detrás dessa busca havia o conceito de que se pode ter um “avivamento” espiritual sem que haja ênfase em santidade! Parece que para estes irmãos — e muitos outros no Brasil — a prática dos chamados dons sobrenaturais (visões, sonhos, revelações, milagres, curas, línguas, profecias), “louvorzão”, ajuntamento de massas em eventos especiais, e coisas assim, são sinais de um verdadeiro avivamento. É esse o conceito de avivamento e plenitude do Espírito que permeia o evangelicalismo brasileiro em nossos dias. Parece que a atuação do Espírito, ou um avivamento, identifica-se mais com essas manifestações externas e com a chamada liberdade litúrgica, do que propriamente com o controle do Espírito Santo na vida de alguém, na vida da igreja, na vida de uma comunidade.

Lamentavelmente, o escândalo da participação maciça da bancada evangélica (a esmagadora maioria de igrejas pentecostais e neopentecostais) na máfia dos sanguessugas vem confirmar nosso entendimento de que em muitos ambientes evangélicos, a santidade de vida, a ética e a moralidade estão completamente desconectados da vida cristã, dos cultos, dos milagres, da prosperidade em geral.

Uma análise do conceito bíblico de santidade que fosse orientada para pentecostais e neopentecostais – sempre lembrando que não estou generalizando, pois há irmãos pentecostais e neopentecostais que amam a santidade – teria de destacar os seguintes aspectos.

1) A santidade não tem nada a ver com usos e costumes. Ser santo não é guardar uma série de regras e normas concernentes ao vestuário e tamanho do cabelo. Não é ser contra piercing, tatuagem, filmes da Disney, a Bíblia na Linguagem de Hoje. Não é só ouvir música evangélica, nunca ir à praia ou ao campo de futebol e nunca tomar um copo de vinho ou uma cerveja. Não é viver jejuando e orando, isolado dos outros, andar de paletó e gravata. Para muitos pentecostais no Brasil, santidade está ligada a esse tipo de coisas. Duvido que estas coisas funcionem. Elas não mortificam a inveja, a cobiça, a ganância, os pensamentos impuros, a raiva, a incredulidade, o temor dos homens, a preguiça, a mentira. Nenhuma dessas abstinências e regras conseguem, de fato, crucificar o velho homem com seus feitos. Elas têm aparência de piedade, mas não tem poder algum contra a carne. Foi o que Paulo tentou explicar aos colossenses, muito tempo atrás: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23).

2) A santidade existe sem manifestações carismáticas e as manifestações carismáticas existem sem ela. Isso fica muito claro na primeira carta de Paulo aos Coríntios. Provavelmente, a igreja de Corinto foi a igreja onde os dons espirituais, especialmente línguas, profecias, curas, visões e revelações, mais se manifestaram durante o período apostólico. Todavia, não existe uma igreja onde houve uma maior falta de santidade do que aquela. Ali, os seus membros estavam divididos por questões secundárias, havia a prática da imoralidade, culto à personalidade, suspeitas, heresias e a mais completa falta de amor e pureza, até mesmo na hora da celebração da Ceia do Senhor. Eles pensavam que eram espirituais, mas Paulo os chama de carnais (1Coríntios 3.1-3). As manifestações espirituais podem ocorrer até mesmo através de pessoas como Judas, que juntamente com os demais apóstolos, curou enfermos e ressuscitou mortos (Marcos 10.1-8). No dia do juízo, o Senhor Jesus irá expulsar de sua presença aqueles que praticam a iniqüidade, mesmo que eles tenham expelido demônios e curado enfermos (Mateus 7.22-23).

3) A santidade implica principalmente na mortificação do pecado que habita em nós. Apesar de regenerados e de possuirmos uma nova natureza, o velho homem permanece em nós e carece de ser mortificado diariamente, pelo poder do Espírito Santo. É necessário mais poder espiritual para dominar as paixões carnais do que para expelir demônios. E, a julgar pelo que estamos vendo, estamos muito longe de estar vivendo uma grande efusão do Espírito. Onde as paixões carnais se manifestam, não há santidade, mesmo que doentes sejam curados, línguas “estranhas” sejam faladas e demônios sejam expulsos. Não há nenhuma passagem em toda a Bíblia que faça a conexão direta entre santidade e manifestações carismáticas. Ao contrário, a Bíblia nos adverte constantemente contra falsos profetas, Satanás e seus emissários, cujo sinal característico é a operação de sinais e prodígios, ver Mateus 24.24; Marcos 13.22; 2Tessalonicenses 2.9; Apocalipse 13.13; Apocalipse 16.14.

4) O poder da santidade provém da união com Cristo. Ninguém é santo pela força de vontade, por mais que deseje. Não há poder em nós mesmos para mortificarmos as paixões carnais. Somente mediante a união com o Cristo crucificado e ressurreto é que teremos o poder necessário para subjugar a velha natureza e nos revestirmos da nova natureza, do novo homem, que é Cristo. O legalismo não consegue obter o poder espiritual necessário para vencer Adão. Somente Cristo pode vencer Adão. É somente mediante nossa união mística com o Cristo vivo que recebemos poder espiritual para vivermos uma vida santa, pura e limpa aqui nesse mundo. É mais difícil vencer o domínio de hábitos pecaminosos do que quebrar maldições, libertar enfermos, e receber prosperidade. O poder da ressurreição, contudo, triunfa sobre o pecado e sobre a morte. Quando “sabemos” que fomos crucificados com Cristo (Romanos 6.6), nos “consideramos” mortos para o pecado e vivos para Deus (Romanos 6.11), não permitimos que o pecado “reine” sobre nós (Romanos 6.12) e nem nos “oferecemos” a ele como escravos (Romanos 6.13), experimentamos a vitória sobre o pecado (Romanos 6.14). Aleluia!

5) A santidade é progressiva. Ela não se obtém instantaneamente, por meio de alguma intervenção sobrenatural. Deus nunca prometeu que nos santificaria inteiramente e instantaneamente. Na verdade, os apóstolos escreveram as cartas do Novo Testamento exatamente para instruir os crentes no processo de santificação. Infelizmente, influenciados pelo pensamento de João Wesley – que noutros pontos tem sido inspiração para minha vida e de muitos outros –, pentecostais e neopentecostais buscam a santificação instantânea, ou a experiência do amor perfeito, esquecidos que a pureza de vida e a santidade de coração são advindas de um processo diário, progressivo e incompleto aqui nesse mundo.

6) A santificação é um processo irresistível na vida do verdadeiro salvo. Deus escolheu um povo para que fosse santo. O alvo da escolha de Deus é que sejamos santos e irrepreensíveis diante dele (Efésios 1.4). Deus nos escolheu para a salvação mediante a santificação do Espírito (2Tessalonicenses 2.13). Fomos predestinados para sermoas conformes à imagem de Jesus Cristo (Romanos 8.29). Muito embora o verdadeiro crente tropece, caia, falhe miseravelmente, ele não permanecerá caído. Será levantado por força do propósito de Deus, mediante o Espírito. Sua consciência não vai deixá-lo em paz. Ele não conseguirá amar o pecado, viver no pecado, viver na prática do pecado. Ele vai fazer como o filho pródigo, “Levantar-me-ei e irei ter com o meu Pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti” (Lucas 15.18). Ninguém que vive na prática do pecado, da corrupção, da imoralidade, da impiedade, – e gosta disso – pode dizer que é salvo, filho de Deus, por mais próspero que seja financeiramente, por mais milagres que tenha realizado e por mais experiências sobrenaturais que tenha tido.

Estava certo o convite que recebi naquele dia: precisamos de santidade! E como! E a começar em mim. Tenha misericórdia, ó Deus!

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