domingo, dezembro 31, 2006

Solano Portela

Saddam, o estado vingador e o Rio de Janeiro


O mundo inteiro está comentando a morte de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Os jornais e programas de notícias têm apresentado não somente os detalhes da execução realizada após um conturbado julgamento, mas também as reações e pronunciamentos de autoridades diversas, entre as quais a do governo brasileiro. Além da condenação à execução pronunciada pelo Itamaraty, o nosso chefe maior declarou igual discordância, pois ela representava apenas um ato de vingança e ele era contra a pena de morte por convicção, primeiramente religiosa e depois política. Declarações semelhantes têm sido emitidas pelos mais diversos comentaristas e personalidades chamadas para entrevistas sobre o acontecimento.

A notícia veio obscurecer o item anterior que tomava conta da atenção dos brasileiros – os ataques seqüenciados contra postos policiais, populares e ônibus incendiados com sua carga de cidadãos indefesos, por criminosos, em mais uma cruel demonstração de força evidenciando a falência cada vez mais intensa da instituição do estado.

O que esses temas aparentemente heterogêneos têm em comum e, como cristãos, qual deve ser nossa percepção e discernimento dos tempos? Algumas observações podem ser emitidas, neste momento:
  1. Precisamos nos resguardar da beatificação de Saddam Hussein. Li a carta que ele escreveu – parecem procedentes das mãos de um anjo, e muitos estão apresentando essa visão nostálgica em seus comentários. A história não deve esquecer as atrocidades cometidas por ele e sua gangue. Não somente o genocídio e a aniquilação em larga escala, como a ferocidade com que eliminaram os desafetos e membros da própria família, quando os contrariaram (as estimativas são de que em seus 24 anos de regência, foi responsável pela morte de mais de 2.000.000 de pessoas). Os próprios jornais destes dias, ao darem o seu histórico, desfilam um rosário impressionante das barbaridades do seu regime. A suposta calma interna do país, observada sob sua regência, era vivida às custas do terror oficial e da tirania. Isso não significa que o Iraque esteja atualmente vivendo um período de calma e paz. Tenho sido um crítico do modus operandi norte-americano, em vários escritos. Não por terem ido lá e tentado “limpar a casa”, mas porque demonstraram total inabilidade em estruturar um governo de transição, que garantisse exatamente o que minimamente deveria estar presente – a segurança dos cidadãos e os serviços públicos essenciais. O descaso e despreparo do início; a inércia perante os rufiões armados que pilhavam e maltratavam os mais fracos; a tolerância com as milícias; a permissividade e despreparo dos que deveriam estabelecer a ordem, mas perpetuaram as prisões como câmaras de tortura; a ingênua avaliação do lado obscuro e malévolo do islamismo; todos esses fatores resultaram no crescimento dos grupos que diariamente se matam uns aos outros. Entretanto, não tenho qualquer dúvida que Saddam merecia ser deposto e ser alvo de justiça retributiva pelos crimes cometidos. Contrário ao que afirma manchete da Folha de São Paulo (30.12.2006), que a execução é uma “derrota da justiça”, esta é uma das poucas vezes em que a justiça implacável prevaleceu acima da visão humanista, açucarada e diluída, que permite que tiranos assassinos dêem continuidade à sua arrogante vida de violência.
  2. Ser-se pressuposicionalmente contra a pena de morte, sem o exame das bases lógicas e político-religiosas para esta penalidade é um erro. Se o nosso presidente tivesse realmente convicções religiosas cristãs, nesta matéria, não seria contra, mas a favor. Em outro lugar já escrevi sobre a Pena Capital – indicando a base bíblica para sua aceitação (caso tenha interesse de ler o ensaio todo, clique aqui), e não caberia, neste espaço, uma repetição dos argumentos. Mas a Pena Capital foi instituída por Deus (Gênesis 9.6), e não pelo homem, exatamente porque ele dá valor à vida do ser humano, formado à sua imagem e semelhança, e não por que a considera uma comodidade barata. Ela é exatamente uma medida contra a violência. Deus abomina a violência e aqueles que atentam contra a vida humana perdem o direito à própria vida. É um erro acreditar que ela é o reflexo de uma sociedade primitiva, e que hoje já evoluímos socialmente e adquirimos um novo patamar de entendimento – o próprio Deus, através da pena inspirada de Paulo, a comanda e delega a sua aplicação ao estado (Romanos 13.1-7), e isso no Novo Testamento.
  3. Isso não significa que a execução de Saddam represente uma ocasião de alegria. A morte é sempre ocasião de tristeza – ela não pertence à essência da criação perfeita. Ela é concretamente fruto do pecado, salário deste, conseqüência nefasta do nosso afastamento de Deus, como bem postou em seu Blog nosso irmão Juan , comentando os acontecimentos do Rio. Até a morte do malfeitor, por mais que venha em resultado da justiça e por mais que profilaticamente proteja a sociedade de crimes adicionais que ele poderia cometer, é momento de sobriedade, reflexão e tristeza, principalmente porque a vida que se foi não alcançou o seu propósito máximo e original – de glorificar o criador com as suas ações e pensamentos. Assim, sou contra as manifestações públicas e privadas de regozijo pela morte de Saddam, bem como, pelos motivos já expostos, contra os protestos, inconseqüentes contra a sua execução, insensíveis aos antecedentes históricos que a justificam.
  4. E quanto à colocação presidencial de que a execução foi um ato de vingança? Ela é precisa e real, mas não precisamos pedir desculpas por aceitá-la como tal. Vingança é um sentimento que não cabe na vida pessoal do cristão. Como cristãos, somos pessoas pacíficas, perdoadoras – voltamos até a outra face. No entanto, isso não significa que somos insensíveis à justiça, nem coniventes com o erro. A Palavra de Deus nos leva a Deus, apresentando-o como o nosso vingador (Salmo 9.11-12; Naum 1.2). Ela apresenta Deus como aquele que faz justiça aos fracos e oprimidos e vinga os direitos que são subtraídos (1 Tessalonicenses 4.6). De que maneira? Trazendo conseqüências danosas aos criminosos; e uma das maneiras que ele faz isso é através do estado – a este é delegado esse poder (Romanos 13.4: “... visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”). Isso mesmo, se a vingança não deve fazer parte de nossa vida é porque ela foi institucionalmente colocada nas mãos do estado. Os governantes e autoridades são (ou deveriam ser) ministros de Deus para executar justiça e proteger os cidadãos. Quem vinga os curdos indefesos – mulheres e crianças, que foram massacrados por Saddam? E as demais pessoas que pereceram em suas mãos? Eles nada mais podem fazer, mas o estado vingador entra em ação e executa justiça.
  5. E o Rio de Janeiro? É exatamente essa, a conexão com os últimos acontecimentos de violência na Cidade Maravilhosa e linda que está cada vez mais refém, a exemplo de São Paulo e outra regiões do nosso país. Quem vingará os cidadãos calcinados nos ônibus incendiados? Quem vingará os que ainda agonizam nos hospitais, com os corpos queimados, possivelmente desfigurados até o fim de seus dias? Quem vingará a vida da mãe que morreu tentando proteger o seu filho? Quem vingará os que foram friamente assassinados? Quando perdemos essa visão de que o estado é, realmente, o vingador, o executor da justiça implacável, a população fica a mercê dos criminosos. Quando nossos governantes emitem palavras que soam piedosas, humanistas e politicamente corretas, mas que revelam um estado fraco e impotente em frente à criminalidade e aos criminosos, temos palavras que são realmente mortais para os fracos e oprimidos, vítimas da violência insana. Além disso, temos um outro aspecto ainda mais cruel. Um articulista da Folha expressou o problema de acúmulo de cargos do Sr. Álvaro Lins, que acaba de ser eleito deputado: ex-chefe da polícia do Rio de Janeiro e, segundo a Polícia Federal, concomitantemente, chefe de quadrilha. Esse é um dos maiores problemas brasileiros – o acúmulo desses cargos por vários integrantes da classe política, várias autoridades governamentais e inúmeros policiais – muitos possuem não somente os seus postos de autoridade, mas são igualmente chefes de quadrilhas. Esse acúmulo de funções é mortal à instituição do estado e à população. Essas pessoas de vida dupla, corrompidas se alimentam do sangue e da vida dos cidadãos que deveriam estar protegendo. É por isso que anualmente, no Brasil, 50.000 vidas são ceifadas por assassinatos, apenas! Muito menos que no Iraque, sob Saddam (tirando a média dos seus 24 anos no poder, as estimativas são de que ele foi responsável pela matança de 41.000 pessoas de outros países vizinhos por ano, mais 42.000 pessoas por ano do seu próprio povo), mas muito mais do que no Iraque de hoje (cerca de 30.000 por ano), com toda a convulsão social, carros bomba e estágio pré-guerra civil que vigora naquele país.

Que Deus se apiede de nós em 2007 e nos conceda mais paz e justiça, conscientizando aqueles que estão em autoridade de sua real missão e obrigações perante Deus e para com os homens. Que tenhamos uma visão mais cristalina e mais bíblica da justiça. Intercedamos por isso (1 Timóteo 2.1-2).
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segunda-feira, dezembro 25, 2006

Solano Portela

Calvino Contra o Natal?

Cristãos Contra o Natal!

Como bem observou o Augustus, em seu último post, o impossível está acontecendo: temos um movimento crescente de “Cristãos Contra o Natal”! A chamada “festa máxima da cristandade” está sob ataque cerrado de vários flancos e desta vez a luta é interna! Multiplicam-se os textos e os posicionamentos não apenas contra as características eminentemente comerciais do feriado (esse viés sempre foi um legítimo campo de batalha dos cristãos), mas somos alertados que o Natal não é nada mais do que um feriado pagão assimilado pela igreja medieval, e que persiste no campo evangélico apenas por desconhecimento do seu histórico. Essa origem, além da exploração comercial, inviabilizaria a sua observância religiosa pelos cristãos sendo fútil a tentativa de se resgatar o conceito abrigado no desgastado chavão do “verdadeiro sentido do Natal” (postei algo sobre isso em 20 de dezembro de 2005).

A literatura já nos brindou com alguns exemplos de personagens que não gostavam do Natal. Temos Charles Dickens, no livro Um Conto de Natal (teria sido melhor traduzido como “Um Cântico de Natal”),[1] trazendo a história de Ebenezer Scrooge, durante um período de festividades natalinas. Scrooge era um homem rico, não ligava para ninguém; desprezava as crianças pobres; era avarento e egoísta. Teve, entretanto, um sonho no qual empobrece, modificando sua atitude para com a data. A mensagem de Dickens é que a “essência” do Natal conseguiu derreter aquele coração endurecido. Outro personagem famoso é o Grinch – da pena do escritor Dr. Seuss, que publicava seus contos em rimas. Ele escreveu Como Grinch Roubou o Natal,[2] que virou, anos atrás, um filme com o ator Jim Carey. A história retrata Grinch como uma criatura mal-humorada que tem o coração bem pequeno. Ele odeia o Natal – pois não consegue ver ninguém demonstrando felicidade – e planeja roubar todos os presentes e ornamentos para impedir a celebração do evento em uma aldeia perto de sua moradia. Para seu espanto, a celebração ocorre de qualquer maneira. A mensagem de Seuss é que a “essência” do Natal não estava nos presentes ou nos ornamentos – transcendia tudo isso.

Obviamente os “Cristãos Contra o Natal” não têm relação com qualquer desses personagens, ou com aquele outro, registrado nas páginas das Escrituras Sagradas, que também odiou o Natal – o Rei Herodes,[3] mas parece que está virando moda termos cristãos contra o Natal. Além das razões relacionadas com as origens e da distorção comercial já mencionada, temos cristãos que apresentam algumas razões teológicas firmadas em suas convicções do que seria ou não apropriado ao culto e celebrações na Igreja de Cristo.

Cristãos Reformados Contra o Natal!No campo reformado, principalmente entre presbiterianos e batistas históricos, os argumentos contra o Natal são ampliados com uma veia histórica. Pretende-se provar que a verdadeira teologia da reforma e, principalmente, os reformadores e seus seguidores próximos, foram avessos à celebração do Natal. Argumenta-se que a celebração do Natal fere o “princípio regulador do culto”, defendido pela ala reformada da igreja. Conseqüentemente, se desejamos ser seguidores da reforma, teríamos que, coerentemente, rejeitar a celebração desta data. Nessa linha de entendimento, muitos artigos têm sido escritos[4] presumindo uma linha uniforme de pensamento nos teólogos reformados e correntes denominacionais reformadas no que diz respeito à rejeição da comemoração do Natal. Normalmente, também, o raciocínio se estende a outras datas celebradas no seio da cristandade, tais como a páscoa, que seriam igualmente condenáveis no calendário cristão. Por vezes, a defesa apaixonada deste ponto de vista tem resultado em dissensões e desarmonia no seio da igreja, ou de demonstração de um espírito de superioridade espiritual e auto-justiça, com críticas mordazes e ferinas aos que não se convenceram do embasamento teológico, histórico ou bíblico para a rejeição.

Deixando de lado a questão das origens – se elas têm a força de determinar a correção de uma observância religiosa – o que seria um ensaio à parte, será que a opinião dos reformadores foi sempre uniforme com relação à celebração do Natal e de outras datas importantes ao cristianismo? Será que houve sempre tanta harmonia assim, nas denominações reformadas, com relação à rejeição da comemoração do Natal resultando nessa tradição monolítica? Será que Calvino, realmente, se posicionou contra o Natal? Será que procede o que me escreveu uma vez um irmão reformado, dizendo que a rejeição do Natal seria “coerente com a fé cristã bíblica e reformada, principalmente com a posição presbiteriana histórica, a partir de Calvino e Knox”?

Calvino Contra o Natal?
A primeira coisa que temos a observar é que essa hipotética concordância entre Calvino e Knox não existiu. Nem há uma visão monolítica, sobre a questão, no seio reformado histórico, como muitos pretendem transmitir. Aquele irmão, em sua carta, desafiava: “por favor cite uma fonte primaria de onde Calvino aprova o Natal ou recomenda o mesmo”.

Bom, se é isso que vai ajudar, vamos a ela: uma das fontes primárias é uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551 (Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858). Nela, Calvino escreveu: “Priusquam urbem unquam ingrederer, nullae prorsus erant feriae praeter diem Dominicum. Ex quo sum revocatus hoc temperamentum quae sivi, ut Christi natalis celebraretur”.

Para alguns, isso bastaria para resolver a questão, mas para o resto de nós – entre os quais me incluo, a versão ao vernáculo é necessária. Possivelmente, uma tradução razoável para o português, seria (agradecimentos ao Rev. Elias Medeiros): “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação afim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”.

Uma outra carta, de março de 1555, para os Magistrados (Seigneurs) de Berna, que aderentemente eram contra a celebração do Natal, diz o seguinte: “Quanto ao restante, meus escritos testemunham os meus sentimentos nesses pontos, pois neles declaro que uma igreja não deve ser desprezada ou condenada porque observa mais festivais do que outras. A recente abolição de dias de festas resultou apenas no seguinte: não se passa um ano sem que haja algum tipo de briga e discussão; o povo estava dividido ao ponto de desembainharem as suas espadas” (mesma fonte). No contexto, Calvino parece indicar que os oficiais que haviam abolido a celebração tinham boas intenções de eliminar a idolatria (vamos nos lembrar da situação histórica), mas parece igualmente claro que ele indica que, se a definição estivesse em suas mãos teria agido de forma diferente.

Historicamente, Knox e a igreja a Igreja Escocesa seguiram a opinião dos oficiais de Genebra. Ou seja, em seu contexto histórico de se dissociar de tudo que era catolicismo, reforçou a abolição das festividades, nas igrejas. Mas não esqueçamos que ele também rejeitou instrumentos musicais, cânticos, e várias outras formas de adoração – os “Reformados Contra o Natal” estão dispostos a segui-lo em tudo, como parâmetro infalível?

Ocorre que Calvino é sempre apontado como uma força instigadora e radical, na gestão de Genebra. Na realidade, entretanto, ele agiu, em muitos casos (como no incidente de Serveto) como um pólo de moderação e encaminhamento, mas nem sempre sua opinião prevaleceu. O governo de Genebra era conciliar e fazia valer a visão da maioria. Por exemplo, o Rev. Hérmisten Maia Pereira da Costa aponta que a persuasão de Calvino era a de que a Santa Ceia devia ser celebrada semanalmente, enquanto que nas cidades de Berna e Genebra, no máximo era celebrada quatro vezes por ano. Calvino deu até o que poderíamos chamar de um “jeitinho reformado” ou de um “jogo de cintura” notável. Hérmisten cita: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais freqüente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha” [William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141] Costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].

Hérmisten aponta também que em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd. John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141]. A conclusão óbvia é a citada pelo Hérmisten: “As cinco festas da Igreja Reformada eram: Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa, Assunção e Pentecostes” (Cf. Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 28)]. Podemos dizer que não havia, na essência da questão, celebração do Natal, em Genebra?

A suposta unidade monolítica e histórica dos reformados, sobre esta questão das celebrações de festividades do chamado “calendário cristão” é mais um mito do que verdade. Ousaríamos rotular o Sínodo de Dordrecht (Dordt) de “não reformado” – justamente de onde extraímos os Cinco Pontos do Calvinismo (em 1618)? Pois bem, em 1578, temos a seguinte decisão: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão a congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”. Assim, as igrejas reformadas procedentes do ramo holandês comemoram várias dessas datas até em dose dupla (incluindo o dia seguinte). Augustus mencionou não somente este trecho, mas adicionou a admissão dessa visão na Confissão de Fé de Westminster (Cap. 21) e na Confissão Helvética (XXIV). Não ve, igualmente, dano na celebração do Natal, um outro ícone reformado, Turretin (1623-1687)[5]. Ou seja, a rejeição do Natal, atualmente “ressuscitada”, não tem o respaldo histórico-teológico que pretende ter.

Obviamente todos esses referenciais históricos são importantes, mas o que firma a nossa convicção é a Palavra de Deus e nela aprendemos que a questão das origens não determina a propriedade, ou não, de uma coisa ou situação, mas sim a atitude de fé do utilizante. Isso pode ser extraído de um estudo de 1 Coríntios 8.1-13; ou examinando como os artefatos e itens preciosos, surrupiados pelos Israelitas dos Egípcios (imediatamente antes do Êxodo), muitos dos quais com certeza utilizados em cultos e festividades pagãs, foram utilizados em consagração total (e sem restrições) no Tabernáculo (Ex 35 a 39). Das Escrituras, podemos inferir, possivelmente, que Jesus participou de celebrações de festividades que não procediam das determinações explícitas da Lei Mosaica, mas que refletiam ocorrências históricas importantes na história do Povo de Deus – como as festas de Purim[6] e Hanucah[7] – deixando implícita a propriedade dessas celebrações, como algo que, provém “de fé”, não sendo, portanto, pecado. Romanos 14 e 15 trazem considerações sobre tais questões, demonstrando a necessidade da consciência pura, ao lado da preocupação com os irmãos na fé, para que procuremos “as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (14.19). É lá igualmente que lemos (14.5): “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias; cada um esteja inteiramente convicto em sua própria mente”. Se Deus decidiu não disciplinar condenatoriamente a questão, não o façamos nós.

Um Feliz Natal Reformado a todos!


[1] Charles Dickens, Um Conto de Natal (S. Paulo: Rideel, 2003), 32 pp.[2] Dr. Seuss, Como Grinch Roubou o Natal (S. Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000), 64 pp.[3] Mt 2.1-18. Herodes, conhecido como “o Grande” e “Rei dos Judeus”, nasceu em 73 a.C. Filho de Antipater II – era da região chamada induméia e foi indicado pelo imperador romano Júlio César como “governador da Judéia”.[4] Veja, por exemplo, Brian Schwertley e seu artigo “The Regulative Principle of Worship and Christmas”, postado, entre outros sites, em: http://www.swrb.com/newslett/actualnls/CHRISTMAS.htm (acessado em 18.12.2003).[5] Turretin admite as celebrações de dias especiais pelas igrejas, desde que estes não sejam impostos por elas como matéria de fé, ou considerados mais santos do que os demais. Referindo-se à censura de igrejas que haviam escolhido não celebrar o Natal e outras datas, sobre outras igrejas cristãos, ele escreve: “não podemos aprovar o julgamento rígido daqueles que acusam essas igrejas de idolatria” (Institutes of Elenctic Theology (Philipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, 1994), vol 2 p. 100.[6] Possivelmente a festividade relatada em João 5 – relacionada com os incidentes narrados no livro de Ester.[7] Ou “Chanukah” – festividade originada na época dos Macabeus, em celebração ao livramento físico do Povo Judeu. Jesus estava em Jerusalém na época da celebração (João 10.23-30).
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sábado, dezembro 02, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Por que os Protestantes Históricos no Brasil Nunca Tiveram um Canal de Televisão

Por     50 comentários:
Semana passada, quando a mídia cobriu exaustivamente a decretação da prisão preventiva de Estêvam e Sônia Hernandes, donos da Renascer, li na Folha de São Paulo que o lema do casal, quando fundou a igreja, era "ganhar o Brasil e o mundo através da mídia". E de fato, estavam caminhando para isso. Donos de um canal de televisão e dezenas de emissoras de rádio pelo Brasil, onde tinham aberto cerca de 1.500 igrejas, a denominação do casal Hernandes só perdia em números para a Universal do Reino de Deus, a maior igreja neopentecostal do Brasil.

O poder da mídia na formação e crescimento de novas igrejas no Brasil é evidente. As duas maiores igrejas neopentecostais do Brasil, a Universal e a Renascer, são donas de canais de TV e emissoras de rádio. Mesmo denominações neopentecostais menores, como Deus é Amor, investem pesado no rádio. E as igrejas históricas, como presbiterianas, batistas, congregacionais, por exemplo? Afinal, estamos aqui no Brasil há mais de cem anos, enquanto que a Renascer tem 25 anos.

Os motivos pelos quais, na minha avaliação, as igrejas históricas nunca ocuparam -- e dificilmente ocuparão -- espaço significativo no rádio e na televisão, são os seguintes:

1) Falta de interesse maior na pregação feita pelo rádio e pela televisão, gerada pela desconfiança intrínseca quanto aos resultados da mídia, uma vez que as igrejas tradicionais sempre focam no discipulado. A mídia é insuperável para marcar a presença e a identidade de igrejas, mas o retorno em termos de fiéis comprometidos e doutrinados é baixo. Pesquisa feita há dez anos por Thom Rainer nos Estados Unidos entre igrejas tradicionais mostrou que os métodos que continuam enchendo igrejas com membros consistentes são a pregação bíblica dos púlpitos, a escola dominical e o evangelismo por amizade (Thom Rainer, Effective Evangelistic Churches: Successful Churches Reveal what Works and what Doesn't, 1996). Pode ser que essa realidade mudou agora, mas duvido muito. Além disso, depois que a televisão foi dominada por programas neopentecostais evangélicos e católicos, ficou "queimada", no dizer de um amigo meu, como veículo de credibilidade para transmitir a mensagem séria e fiel da Palavra de Deus, afastando ainda mais os tradicionais.

2) Escândalos acontecidos com televangelistas geralmente ganham repercussão nacional na mídia e respingam sobre todos os evangélicos. E não são poucos os acontecidos nos últimos dez anos: Jimmy Swaggart, Rex Humbard, Jim Bakker, Ted Haggard, Caio Fábio, e agora os Hernandes, para mencionar alguns. A mídia dá enorme destaque aos televangelistas quando cometem erros, especialmente de natureza sexual e financeira. Por isso, muitas igrejas históricas são avessas a holofotes demais para seus ministros. Por falar em escândalos, investigações recentes da Polícia Federal sobre "rádios piratas" na grande São Paulo identificam que boa parte delas são de igrejas evangélicas ou operadas por elas.

3) As denominações são estruturadas hierarquicamente e não são de uma pessoa só, ao contrário das igrejas neopentecostais que têm fundadores, como a Universal, Renascer e Deus é Amor. Não resta dúvida nessas igrejas quem vai empunhar o microfone em frente às câmeras: é o fundador e dono, ou quem ele permitir. Nas igrejas tradicionais isso geraria um problema que nem sempre se resolve em termos de mérito e capacidade: quem vai ser o apresentador e o pregador principal?

4) As igrejas históricas têm capacidade reduzida de alavancar grandes recursos e somas vultosas de dinheiro a curto prazo. Igrejas e pastores tradicionais têm escrúpulos de pedir muito dinheiro aos fiéis e infiéis, especialmente para programas de televisão. Não funciona mesmo. E mesmo que pedissem e recebessem, esbarrariam na questão da contabilização: grande parte dos recursos contabilizados pode ir para o fisco. Contabilizamos ou não? Quem decide? O assunto vai parar em algum concílio pelas vias hierárquicas e quando a decisão chegar, já passou a oportunidade de comprar o canal de televisão ou programa de rádio.

5) As igrejas tradicionais [ainda] não têm apóstolos que possam assegurar ao povo que Deus vai dar um canal de televisão à denominação se todos contribuirem com tudo o que tiverem. Oral Roberts e T. L. Orborn chegaram a afirmar que morreriam ou seriam punidos por Deus se o povo não levantasse milhões e milhões de dólares para construção de igrejas e programas de mídia. Dificilmente os presbiterianos acreditariam se eu viesse com essa história...

6) Igrejas tradicionais não elegeram políticos que podem apadrinhar as concessões. As igrejas neopentecostais foram mais espertas e elegeram deputados e senadores que certamente terão condições de dar uma palavrinha nos órgãos governamentais a favor de concessões para suas denominações. As igrejas históricas sempre terão dificuldades nessa área, especialmente as reformadas, que vêm os políticos evangélicos, não como tarefeiros das igrejas, mas como responsáveis pela coisa pública e pelo bem comum. E como sem o apadrinhamento político dificilmente se consegue espaço hoje na grande mídia, as igrejas históricas permanecerão à parte por mais tempo.

7) Igrejas tradicionais teriam muitos problemas na hora de alugar o tempo de sua rede de televisão particular. As igrejas que têm uma estação de televisão geralmente ocupam apenas uma parte do tempo e o restante do segmento tem que ser alugado para que gere recursos -- vide a Record e a RIT (do R.R. Soares). E nessa hora, as denominações históricas teriam escrúpulos para alugar esse segmento para programas de conotação sexual, baixaria, violência, etc. etc. Se forem alugar o segmento somente para programas limpos, jamais poderão pagar as despesas de manutenção do canal no ar. E agora?

Eu lamento muito que nós, protestantes históricos, perdemos o bonde nessa área. Talvez não seja tarde ainda para sonhar que um dia poderemos ter muitos bons programas de rádio e televisão alcançando o país, voltados genuinamente para a promoção da glória de Deus, a salvação de pecadores e a edificação da Igreja de Cristo, em vez de veículos de promoção pessoal.

Por enquanto, Solano, Mauro e eu vamos ficando com esse blog mesmo, que é provavelmente o máximo que alcançaremos em termos de mídia eletrônica...

[Aliás, em dezembro Tempora-Mores está completando um ano de existência! Obrigado a todos os nossos leitores e comentaristas.]
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quarta-feira, novembro 29, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

O Homem na Caixa

Por     12 comentários:
[Ano passado, entre as diversas oportunidade que tive de falar a professores e autoridades universitárias, toquei no assunto da visão de mundo do Cristianismo usando a famosa pintura de Bacon "A Cabeça". Todos perceberão a influência de Schaeffer via Rookmaker nesse post. Como a produção de todos os autores do blog anda meio baixa (todo mundo ocupado demais com a chegada do fim do ano), reproduzo-a aqui com poucas adaptações.]
Deus... fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17.26-28).

Nas palavras de Paulo aos filósofos estóicos e epicureus encontramos uma síntese da visão cristã de realidade: vivemos num mundo criado por Deus, o qual se encontra próximo de nós, embora muitos o procurem como cegos que tateiam seu caminho. Ou seja, vivemos numa realidade aberta.

O quadro que ilustra minha fala é de Francis Bacon – não o filósofo inglês do século XVI, mas o pintor inglês, natural de Dublin, nascido em 1909, falecido em 1992. Controverso, excêntrico, ficou famoso pelos quadros de figuras humanas grotescas, desfiguradas e horrendas, às vezes misturadas com animais. Um dos quadros mais famosos é “Cabeça IV”, de 1949, reproduzido acima. Conforme H. Rookmaker, professor de história da arte da Universidade Livre de Amsterdam, “Os quadros de Bacon são como caricaturas da humanidade, e não imagens humorísticas. São gritos altos de desespero por valores perdidos e grandeza perdida”.

Tomemos este quadro como uma expressão dos sentimentos mais profundos de Bacon e de sua geração, que é basicamente a nossa. O que podemos aprender com o homem na caixa? De que modo ele percebe a realidade?

Primeiro, embora exista uma realidade ao seu redor, ele só pode perceber como real o que se encontra dentro da caixa.

Segundo, seu mundo é fechado. Nada entra e nada sai. Portanto, seu grito é vazio. Ninguém o ouve.

Terceiro, se existir uma realidade além da caixa, e esta resolver responder e se aproximar, o homem na caixa não poderia ouvi-lo.

O quadro de Bacon representa bem a situação do homem moderno após o período do Iluminismo e da prevalência do cientificismo na academia e posteriormente na cultura ocidental. Antes do chamado período moderno, o conhecimento, as artes e a cultura em geral eram influenciadas por uma visão de mundo e de realidade moldada nos princípios e valores do Cristianismo.

O Cristianismo da Reforma protestante, com sua afirmação de que o mundo foi criado por Deus e que funciona seguindo a lei da causalidade, ela própria criada por Deus, havia libertado a mente humana do medo de ofender os deuses pela pesquisa do mundo e da natureza, e havia desfeito a dualidade oriunda do gnosticismo e perpetuada por Tomas de Aquino entre natureza e graça. Tudo isto contribuiu significativamente para o surgimento da cultura ocidental e um renovado apreço pelas artes, juntamente com o Humanismo.

Muitos dos grandes artistas, pintores, músicos, escritores, cientistas e pesquisadores deste período professavam a fé em Deus ao mesmo tempo em que se dedicavam a conhecer, pesquisar, explorar e desenvolver o mundo criado por Deus. Criam num mundo regido por leis naturais, ao mesmo tempo sustentado por Deus e passível de ser tocado pelo Criador, que providencialmente agia no mundo, na vida das pessoas, na história.

Contudo, com o advento da chamada idade da razão – melhor dizendo, do racionalismo, em meados do século dezessete, o homem abandonou esta perspectiva e passou a determinar a realidade através dos sentidos e da razão: só existe aquilo que for perceptível pelos sentidos e comprovado pela razão. Como Deus e o sobrenatural não podem ser comprovados por estes cânones, por mais gentil que ele fosse, foi convidado a se retirar do novo mundo criado pelo racionalismo. O homem constrói ao seu redor uma realidade fechada, um mundo governado pela lei férrea da causa e do efeito, onde a realidade é somente aquilo que a razão e os sentidos podem perceber. O homem se fechou numa caixa. Mas, tudo isto lhe era imperceptível, então, dominado que estava pela euforia de criar um admirável mundo novo, que ele haveria de dominar pelo cientificismo tecnológico.

Passados três séculos, o homem começa a sentir, hoje, os efeitos inevitáveis de estar na caixa. Os sinais disto estão em todo lugar: primeiro, nas artes, que na tentativa de achar sentido para a realidade, resolveu pular fora da caixa, em protesto contra a visão reducionista do positivismo do século XIX, sem contudo saber ao certo o que lhe espera do lado de fora. Artistas como Francis Bacon, e muitos outros refletem o desespero e a angústia das almas mais sensíveis que simplesmente desistiram de entender e expressar a realidade de forma sintética e coerente.

A filosofia, igualmente, foi dominada pelo existencialismo, que em suas mais diversas linhas, convida o homem a uma experiência fora da caixa, experiência que não tenha necessariamente sentido nem razão, e que não seja controlada por conceitos como certo ou errado, muito bem popularizadas pelo famoso filósofo brasileiro (risos) Roberto Carlos na música Emoções, onde canta “se sofri ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”.

Surge a posmodernidade, que sem negar que a realidade de fato está contida na caixa, contudo contesta a existência da própria caixa, e – por que também não, -- do próprio homem e da realidade ao seu redor.

Propostas religiosas antigas, como o monismo religioso, que vê a realidade como se fosse um tecido único, como se tudo fosse Deus e Deus fosse tudo, ressurgem inclusive dentro da Cristandade mais ampla, como por exemplo, nas 95 teses de Matthew Cox, leigo católico, pregadas na mesma porta de Wittemberg na Alemanha mês passado, onde diz na tese número seis: “A idéia de que Deus está acima ou além do universo é falsa. Tudo está em Deus e Deus está em tudo”.

Tudo isto, e outras coisas mais, é o grito tremendo do homem na caixa. O homem moderno não consegue mais viver dentro dela. Quer respostas, quer sentido, quer razões, quer ser ouvido.

O que tudo isto tem a ver conosco? Creio que nosso maior desafio consiste nestes três pontos. Primeiro, perceber que boa parte do desespero e do vazio existencial hoje reinantes nas mentes e corações de todos, apesar das grandes conquistas intelectuais e advanços tecnológicos da humanidade, provém de uma visão reduzida da realidade, uma visão que pode muito bem ser exemplificada com a pintura de Francis Bacon.

Segunda, que talvez devêssemos considerar o passado e a história e aprender com aqueles que, sem negar a intelectualidade, a objetividade científica e a respeitabilidade acadêmica, estavam preparados para aceitar que a realidade é mais ampla e mais profunda do que aquilo que percebemos, vemos, ouvimos, tocamos e comprovamos. A caixa precisa ser aberta. Há um mundo maravilhoso, rico, misterioso e plenamente satisfatório lá fora.

Não os convido a saltar da caixa no escuro. Mas recomendo às suas mentes brilhantes e privilegiadas o Cristianismo bíblico, como uma visão de mundo e realidade que contempla e abrange a realidade de uma forma muito mais completa, e onde Deus não está longe de nenhum de nós.

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segunda-feira, novembro 20, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil

Os evangélicos no Brasil nunca conseguiram se livrar totalmente da influência do Catolicismo Romano. Por séculos, o Catolicismo formou a mentalidade brasileira, a sua maneira de ver o mundo ("cosmovisão"). O crescimento do número de evangélicos no Brasil é cada vez maior – segundo o IBGE, seremos 40 milhões esse ano de 2006 – mas há várias evidências de que boa parte dos evangélicos não tem conseguido se livrar da herança católica.

É um fato que conversão verdadeira (arrependimento e fé) implica numa mudança espiritual e moral, mas não significa necessariamente uma mudança na maneira como a pessoa vê o mundo. Alguém pode ter sido regenerado pelo Espírito e ainda continuar, por um tempo, a enxergar as coisas com os pressupostos antigos. É o caso dos crentes de Corinto, por exemplo. Alguns deles haviam sido impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores. Todavia, haviam sido lavados, santificados e justificados "em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus" (1Co 6.9-11) sem que isso significasse que uma mudança completa de mentalidade houvesse ocorrido com eles. Na primeira carta que lhes escreve, Paulo revela duas áreas em que eles continuavam a agir como pagãos: na maneira grega dicotômica de ver o mundo dividido em matéria e espírito (que dificultava a aceitação entre eles das relações sexuais no casamento e a ressurreição física dos mortos – capítulos 7 e 15) e o culto à personalidade mantido para com os filósofos gregos (que logo os levou à formar partidos na igreja em torno de Paulo, Pedro, Apolo e mesmo o próprio Cristo – capítulos 1 a 4). Eles eram cristãos, mas com a alma grega pagã.

Da mesma forma, creio que grande parte dos evangélicos no Brasil tem a alma católica. Antes de passar às argumentações, preciso esclarecer um ponto. Todas as tendências que eu identifico entre os evangélicos como sendo herança católica, no fundo, antes de serem católicas, são realmente tendências da nossa natureza humana decaída, corrompida e manchada pelo pecado, que se manifestam em todos os lugares, em todos os sistemas e não somente no Catolicismo. Como disse o reformado R. Hooykas, famoso historiador da ciência, “no fundo, somos todos romanos” (Philosophia Liberta, 1957). Todavia, alguns sistemas são mais vulneráveis a essas tendências e as absorveram mais que outros, como penso que é o caso com o Catolicismo no Brasil. E que tendências são essas?

1) O gosto por bispos e apóstolos – Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum, infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos, catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos auto-nomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções.

2) A idéia que pastores são mediadores entre Deus e os homens – No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam, na Missa, o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana passou para os evangélicos, com algumas poucas mudanças. Até nas igrejas chamadas históricas os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles, e que os pastores funcionam como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas já assimiladas como “a oração dos 318 homens de Deus”, “a prece poderosa do bispo tal”, “a oração da irmã fulana, que é profetisa”, etc.

3) O misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados
– O Catolicismo no Brasil, por sua vez influenciado pelas religiões afro-brasileiras, semeou misticismo e superstição durante séculos na alma brasileira: milagres de santos, uso de relíquias, aparições de Cristo e de Maria, objetos ungidos e santificados, água benta, entre outros. Hoje, há um crescimento espantoso entre setores evangélicos do uso de copo d’água, rosa ungida, sal grosso, pulseiras abençoadas, pentes santos do kit de beleza da rainha Ester, peças de roupa de entes queridos, oração no monte, no vale; óleos de oliveiras de Jerusalém, água do Jordão, sal do Vale do Sal, trombetas de Gideão (distribuídas em profusão), o cajado de Moisés... é infindável e sem limites a imaginação dos líderes e a credulidade do povo. Esse fenômeno só pode se explicado, ao meu ver, por um gosto intrínseco pelo misticismo impresso na alma católica dos evangélicos.

4) A separação entre sagrado e profano – No centro do pensamento católico existe a distinção entre natureza e graça idealizada e defendida por Tomás de Aquino, um dos mais importantes teólogos da Igreja Católica. Na prática, isso significou a aceitação de duas realidades co-existentes, antagônicas e freqüentemente irreconciliáveis: o sagrado, substanciado na Santa Igreja, e o profano, que é tudo o mais no mundo lá fora. Os brasileiros aprenderam durante séculos a não misturar as coisas: sagrado é aquilo que a gente vai fazer na Igreja: assistir Missa e se confessar. O profano – meu trabalho, meus estudos, as ciências – permanece intocado pelos pressupostos cristãos, separado de forma estanque. É a mesma atitude dos evangélicos. Falta-nos uma mentalidade que integre a fé às demais áreas da vida, conforme a visão bíblica de que tudo é sagrado. Por exemplo, na área da educação, temos por séculos deixado que a mentalidade humanista secularizada, permeada de pressupostos anticristãos, eduque os nossos filhos, do ensino fundamental até o superior, com algumas exceções. Em outros países os evangélicos têm tido mais sucesso em manter instituições de ensino que além de serem tão competentes como as outras, oferecem uma visão de mundo, de ciência, de tecnologia e da história oriunda de pressupostos cristãos. Numa cultura permeada pela idéia de que o sagrado e profano, a religião e o mundo, são dois reinos distintos e frequentemente antagônicos, não há como uma visão integral surgir e prevalecer a não ser por uma profunda reforma de mentalidade entre os evangélicos.

5) Somente pecados sexuais são realmente graves A distinção entre pecados mortais e veniais feita pelo romanismo católico vem permeando a ética brasileira há séculos. Segundo essa distinção, pecados considerados mortais privam a alma da graça salvadora e condenam ao inferno, enquanto que os veniais, como o nome já indica, são mais leves e merecem somente castigos temporais. A nossa cultura se encarregou de preencher as listas dos mortais e dos veniais. Dessa forma, enquanto se pode aceitar a “mentirinha”, o jeitinho, o tirar vantagem, a maledicência, etc., o adultério se tornou imperdoável. Lula foi reeleito cercado de acusações de corrupção. Mas, se tivesse ocorrido uma denúncia de escândalo sexual, tenho dúvidas de que teria sido reeleito, ou que teria sido reeleito por uma margem tão grande. Nas igrejas evangélicas – onde se sabe pela Bíblia que todo pecado é odioso e que quem guarda toda a lei de Deus e quebra um só mandamento é culpado de todos – é raro que alguém seja disciplinado, corrigido, admoestado, destituído ou despojado por pecados como mentira, preguiça, orgulho, vaidade, maledicência, entre outros. As disciplinas eclesiásticas acontecem via de regra por pecados de natureza sexual, como adultério, prostituição, fornicação, adição à pornografia, homossexualismo, etc., embora até mesmo esses estão sendo cada vez mais aceitáveis aos olhos evangélicos. Mais um resquício de catolicismo na alma dos evangélicos?

O que é mais surpreendente é que os evangélicos no Brasil estão entre os mais anti-católicos do mundo. Só para ilustrar (e sem entrar no mérito dessa polêmica) o Brasil é um dos poucos países onde convertidos do catolicismo são rebatizados nas igrejas evangélicas. O anti-catolicismo brasileiro, todavia, se concentrou apenas na questão das imagens e de Maria, e em questões éticas como não fumar, não beber e não dançar. Não foi e não é profundo o suficiente para fazer uma crítica mais completa de outros pontos que, por anos, vêm moldando a mentalidade do brasileiro, como mencionei acima. Além de uma conversão dos ídolos e de Maria a Cristo, os brasileiros evangélicos precisam de conversão na mentalidade, na maneira de ver o mundo. Temos de trazer cativo a Cristo todo pensamento e não somente os nossos pecados. Nossa cosmovisão precisa também de conversão (2Coríntios 10.4-5).

Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais católicas de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas, me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neo-catolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma católica.

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domingo, novembro 12, 2006

Mauro Meister

A anatomia da perseverança dos santos


Hoje à noite (domingo) tive o privilégio de interpretar o pr. Iain Murray pregando no texto de Mateus 11:28, em nossa igreja (Igreja Presbiteriana da Lapa). O pr. Murray nasceu em 1931 e começou no ministério pastoral em 1955. Foi pastor auxiliar do Dr. Lloyd-Jones e também pastoreou em Sydney, na Austrália. Foi um dos fundadores do Banner of Truth Trust, (1965) e, atualmente, é o diretor editorial deste importante ministério reformado.

Pr. Murray está no Brasil, com sua esposa Jean, para pregar no Encontro da Fé Reformada (Manaus e Goiânia) nas duas próximas semanas. São 55 anos de fiel ministério da palavra e, com uma vida assim, temos centenas de lições a aprender, entre elas:

1) Que um grande ministério não precisa ser um mega ministério. As obras que Deus colocou no caminho desse seu servo são, indubitavelmente, grandiosas. Porém, vendo-o pregar, não se vê uma 'estrela', mas um homem que abre a Palavra de Deus de maneira simples e poderosa, sem atrair qualquer atenção para si mesmo, exemplo de pregação simples e fiel.

2) Entre as muitas coisas preciosas que ouvi e traduzi, uma foi o simples conselho de que o povo de Deus pode e precisa aprender com a vida dos santos que nos é apresentada na História da Igreja. Tendo sido o pastor auxiliar de Lloyd-Jones, pr. Murray escreveu uma biografia (publicada pela PES, no Brasil), destacando como o ministério de pregação do "doutor" alcançou repercursão mundial pela sua fidelidade às Escrituras e pelo equilibrio na aplicação da mesma (isto claramente visto nas suas correspondências organizadas por Murray e, também, publicadas pela PES). Aprendamos com o santos e fiquemos alertas com os que caem.

3) Olhando para um ministério como este, e outros (estava presente no culto o Rev. Francisco Leonardo Schalkwijk, que foi missionário no Brasil durante décadas), reacende-se a esperança de que, apesar de tantas quedas que vemos ao nosso redor, a fidelidade do Senhor preserva os seus santos para que passem por muitas lutas no ministério e cheguem até o fim para dizer como Paulo: "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé." (2 Tm 4.7 )

4) Aprendi, também, que diante das muitas lutas, a graça de Deus pode manter a nossa lucidez, o bom-senso e a própria razão. Com certeza temos muitas lutas externas e nossa própria guerra contra o pecado. Creio que a simplicidade no evangelho pode nos manter longe do cinismo e racionalização que muitas vezes toma conta da vida íntima daqueles que caíram. Estes que chegam ao fim em pé, com certeza, viram muitos cair e seguiram o conselho: "Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia." (1 Co 10.12)

Estou dizendo isto porque a queda de Haggard me impressionou muito. Aliás, não a queda dele, especificamente, mas a queda de homens que lutam para viverem como 'homens de Deus'. Ver o pr. Murray pregando, depois de 55 anos de ministério, me trouxe alento e estímulo para permanecer fiel a Deus e a sua santa palavra.

Minha oração nesta noite é: Senhor, obrigado pela promessa da perseverança. Faça-a visivel na minha vida e mantém a integridade do ministério que o Senhor colocou em minhas mãos.

Esboço do texto de Mateus 11.28:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei."

1. O convite do Senhor: vinde a mim
2. A abrangência do convite: todos que estais cansados e sobrecarregados
3. A promessa: e eu vos aliviarei
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terça-feira, novembro 07, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Anatomia de uma Queda

Por     48 comentários:
Pois é, mais um escândalo na nossa conta. Caiu o Ted Haggard (foto), famoso pastor pentecostal nos Estados Unidos -- um dos vinte e cinco evangélicos mais conhecidos e influentes daquele país, segundo a revista Time, apontado como sucessor de Billy Graham. Haggard foi demitido de sua igreja e despojado do pastorado, depois que um prostituto gay denunciou que por três anos foi cliente de Haggard. Após uma negação inicial, veio a confissão. Haggard caiu, e com ele cairam algumas coisas.

1) Caiu a confiabilidade dos megaministérios. Como disse Montaigne, "Não importa a altura do trono, o rei ainda senta-se no seu traseiro." Algo anda errado no evangelicalismo mundial das últimas décadas. Jim Baker, Jimmy Swaggart, entre outros, e agora Ted Haggard, todos com perfis similares: megastars, pastores de megaigrejas, em cujas paredes seus retratos se dependuravam em profusão, líderes de cruzadas morais, estrelas de programas evangélicos de televisão. Só me lembro de Provérbios: "a soberba precede a queda". Não estou dizendo que todo megapastor é soberbo e sim que eles se tornam vulneráveis com maior facilidade.

2) Caiu a certeza de que ser gay é realmente uma escolha moral. Gays em todo mundo se regozijaram com a queda de Haggard e se fortaleceram na confiança de que ser gay é genético. Agora ficou ainda mais fácil acreditar que quem é, é mesmo, não tem como lutar contra, ainda que passe a vida numa cruzada heterossexual contra os gays, como Tedd Haggard.

3) Caiu o último escrúpulo daqueles que só estavam esperando um sinal das circunstâncias para cruzar a linha final. "Se Haggard, sendo pastor famoso, viveu vida dupla durante muitos anos, por que eu não posso fazer a mesma coisa?" Só Deus sabe quantos não foram encorajados a cair também com Haggard.

4) Caíram um pouco mais as chances de que faremos parte daqueles poucos que terminam seus ministérios honrados, incólumes e de ficha limpa, ao mesmo tempo em que aumentou a desconfiança de que podem haver muitos mais como Ted Haggard, totalmente envolvidos com o ministério cristão, líderes espirituais, pastores de igrejas e ao mesmo tempo vivendo uma vida dupla. Nos Estados Unidos e no Brasil.

5) Caiu um pouco mais a sensação de vergonha e de culpa (quando existente) de ex-líderes evangélicos, que caíram antes e foram disciplinados, despojados e ostracizados pelo público evangélico que antes os idolatrava. "Ah, mais um. Não fui o único. Outros também caem. Quantos mais caírem, menos me sentirei culpado e discriminado. Queria ver agora a cara dos fariseus que me condenaram”.

6) Caiu o nosso semblante diante dos gritos de alegria, escárnio, zombaria e malícia dos inimigos de Deus e da Igreja. Leia os comentários dos ímpios nos sites que publicaram a notícia da queda de Haggard. Em alguns, recomendam que Haggard se suicide. Outros, rejubilam-se com sua queda e com a "prova" de que a religião nada mais é que repressão. Outros, blasfemam contra Deus e contra Cristo. Meu coração se aperta e oro "não sejam envergonhados por minha causa os que esperam em ti, ó Deus de Israel" (Salmo 69.6).

Contudo, ao mesmo tempo em que essas coisas caíram com Ted Haggard, outras subiram.

1) Subiu o conceito bíblico da responsabilidade de darmos contas de nosso pastorado. Embora Haggard fosse um megapastor de uma igreja de cerca de 10 mil pessoas, estava debaixo da autoridade de um grupo de quatro outros pastores, que foram os que o demitiram e disciplinaram. Isso fez bem para ele. E faria muito bem a líderes evangélicos que fundaram suas próprias igrejas e denominações, que são seus próprios patrões e não respondem a ninguém pelo uso do dinheiro dos fiéis, sua vida pessoal e sua conduta como líder. Somente quanto vira caso de polícia e de justiça é que eles são chamados a responder por seus atos.

2) Subiu o nível de alerta entre os pastores que realmente temem a Deus. "Aquele que está em pé, veja que não caia" (1Co 10.13). Espero que tenha aumentado a convicção de que o pecado penetrou e corrompeu mais profundamente a alma humana do que até mesmo a nossa doutrina da depravação total reconhece. "Em mim não habita bem algum" (Romanos 7).

3) Subiu a consciência da seriedade da luta que travamos diariamente contra o pecado. Eu acredito na confissão que Haggard fez. Acredito no que ele disse, que lutou a vida toda contra a impureza, a tentação, a luxúria, a lascívia, e que ganhou algumas vezes e perdeu outras. Ao contrário de outros líderes evangélicos – inclusive no Brasil – que ao serem apanhados nunca realmente confessaram nem assumiram sua inteira culpa, Haggard fez isso. Acredito no que ele disse: que todas as coisas erradas que ele fez são contrárias ao que ele (ainda) acredita e pregou sua vida toda. Acredito que uma pessoa pode passar a vida inteira numa luta encarniçada contra hábitos pecaminosos e finalmente cair vencida no campo de batalha, após perder a sua lucidez, seu bom-senso e a própria razão. Pode acontecer – na verdade, está acontecendo hoje, agora – com muitos pastores e líderes, uma guerra secreta contra o pecado que eles aborrecem. O nível de alerta subiu. O caso Haggard mostra onde tudo pode terminar. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
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quinta-feira, novembro 02, 2006

Solano Portela

Lidando com o Caos – Que tal um pouco de história?

Observo perplexo os acontecimentos do início deste mês de novembro de 2006, que coincidem com a continuidade de um governo que empolga e se elege, mas que há muito considera secundária a tarefa de fazer o que deve ser feito, controlar o que deve ser controlado, governar o que deve ser governado e administrar o que deve ser administrado.


Minha perplexidade não diz respeito às comemorações da reeleição, ou ao pronunciamento do candidato eleito, levado ao ar de forma compulsória, mas à “greve branca” dos controladores de tráfego aéreo. Estes foram repentinamente acometidos de um senso de precaução e segurança que esteve ausente durante anos de atividades e deixaram, quem sabe seguindo o exemplo do líder máximo, de fazer o que deveriam estar fazendo. Lançando literalmente no espaço a já inexistente ética brasileira, decidiram complicar a vida de milhares de cidadãos viajantes que pagam impostos e têm tarefas a realizar, ou outros que, simplesmente, pensavam que podiam viajar com suas famílias. Fazendo “corpo mole”, jogaram os aeroportos da nação no caos, impedindo não somente o direito de ir e vir das pessoas, mas também o direito delas receberem os serviços pelos quais pagaram.

E as autoridades? Ah, as nossas autoridades – quão pitorescas e fora de foco! Inicialmente afirmaram que estava tudo normal, que não existia nenhum problema, mesmo perante a evidência gritante dos atrasos absurdos e com os telejornais já mostrando discussões intensas nos balcões das empresas aéreas – aliás, negar evidências parece ser uma postura institucional, ultimamente.

Com o caos já instalado, o Ministro da Defesa dá uma entrevista, nesta noite, jogando a culpa na aeronáutica que deixou de lhe informar sobre a gravidade da situação – parece que entregar “os companheiros” já é, também, uma norma institucionalizada. É interessante verificar que ele também “não sabia”.

Mais tragicômico, foi o Jornal Nacional da Globo transmitir diretamente da “Sala de Crises” da ANAC – uma minúscula sala de reuniões onde vários militares obesos bem intencionados examinavam mapas de rotas aéreas, pregados nas paredes, que mais pareciam documentos históricos recuperados. Ao redor da mesa, outros, faziam projeções dos vôos em notebooks arcaicos e surrados de 7 kg. e, pasmem, comunicavam-se via celulares com aeroportos e torres de controle do país. Assim estão sendo definidas as rotas e os destinos de centenas de vôos diários e de suas preciosas cargas de vidas, em nosso país. Qualquer semelhança com outras eletronicamente bem aparelhadas “salas de crise” que vemos por aí, não será nunca encontrada.

Nesse meio tempo, o líder dos grevistas faz uma reunião cordial, em Brasília, certamente regada a bastante cafezinho, sucos e salgadinhos, na qual discutiram uma mudança de subordinação – querem se desligar da esfera militar e ser supervisionados por civis. Nem sei por que – a atual forma parece bem amena e não incomoda a intrigante e não tão criativa tarefa de lançar a nação no caos (os sem-terra já são mestres nisso há bastante tempo).

Enquanto isso, o que faz o nosso sindicalista que ocupa por algumas horas por semana a Palácio da Alvorada? Entra em seu avião particular e milagrosamente imune aos atrasos, noites mal dormidas e prejuízos que estão afetando milhares de meros mortais brasileiros, vai tirar alguns dias de férias na Bahia, que ninguém é de ferro.

Como lidar com o caos? Os nossos líderes deveriam estudar um pouco a história, verificando o que outros mais lúcidos fizeram em situações semelhantes. Se tivessem ânimo à pesquisa e à leitura, nem precisariam retroagir tão longe assim, para extrair algumas lições.

Em 1981, mais precisamente no início do mês de agosto, os controladores de vôo dos Estados Unidos começaram uma greve gigante no país. O sindicato deles (PATCO) agregava mais de 17 mil associados e desses, 13 mil paralisaram suas atividades exigindo melhores salários, apesar da atividade ter uma remuneração substancialmente acima da média. Interromperam, assim, negociações que já se estendiam por seis meses, nas quais haviam obtido várias vantagens e aumentos. Desde 1955 que greves em atividades essenciais eram proibidas por lei, nos Estados Unidos, no entanto mais de 22 paralisações ilegais haviam ocorrido nos anos recentes em diversas atividades similares. O que fez o presidente Ronald Reagan? Foi tirar férias na Flórida? Jogou a culpa no Ministro da Aeronáutica? Disse que “não sabia” que a situação era tão grave assim? Não! Vejam as lições, em como lidar com o caos, evidentes em algumas das medidas e decisões tomadas:


  • Primeiro, com precaução e planos emergenciais: Durante as negociações – nos seis meses anteriores, a FAA (Federal Aviation Administration) arquitetou um plano de emergência que previa a possibilidade de paralisação: 3000 supervisores, junto com os que não aderiram a greve colocaram a “mão na massa”, passando a controlar o tráfego aéreo; 900 militares da aeronáutica se uniram a eles. Essas pessoas não se furtaram, na emergência, a trabalhar 60 horas por semana – o dobro do que atualmente trabalham os nossos controladores. Para surpresa de todos, principalmente dos grevistas, o plano funcionou tranquilamente. Que contraste com a ignorância das nossas autoridades, que "não sabiam" o estado real desse segmento.
  • Segundo, com coragem e objetividade: Reagan deu 48 horas para que eles retornassem ao trabalho sob pena de serem sumariamente demitidos. Obviamente não faltaram os profetas da catástrofe que aventavam desastres enormes, que não ocorreram, com a suposta “falta de segurança” presente no plano e nas ações do governo. Que contraste com a condecendência do nosso governo para com os perturbadores da ordem.
  • Terceiro, com ações de porte e eficácia: Grande parte dos grevistas achou que o governo blefava, não voltou ao trabalho e foi para a rua da amargura. Os cursos que preparavam controladores de vôo, que formavam 1.500 a cada 21 semanas, aumentaram as classes, a capacidade e encurtaram o período para 17 semanas, passando a formar 5.500 controladores, no período. Dentro de poucas semanas a “fila” de candidatos a essas vagas chegou a 45.000 pessoas. Que contraste com o pronunciamento do nosso Ministro da Defesa, informando que contratarão 60 pessoas adicionais.
  • Quarto, com a aplicação rápida da lei: Os líderes do movimento foram presos por incitar e promover uma greve ilegal e processados em toda a extensão da lei. O sindicato foi multado em um milhão de dólares por dia de greve. O apoio popular foi todo para o governo, em vez de para os grevistas. Em 1984 o tráfego aéreo havia aumentado 20% e era eficientemente controlado por uma força de trabalho que era 80% daquela existente antes da greve de 1981. Que contraste com a impunidade que reina em nossa terra.
É desnecessário frisar que a forma como Reagan lidou com esse incidente restabeleceu o respeito ao governo, que vinha tratando a quebra da lei e da ordem de forma displicente, em administrações anteriores, e deu o tom aos anos que se seguiriam. Qualquer semelhança com o tratamento que as nossas autoridades vêm dando à greve do Pindorama é inexistente. Estamos realmente falidos na administração das questões públicas que afetam o dia-a-dia de grandes segmentos da população. Enquanto o governo se ocupa de tudo que é trivial, se esquece daquilo que é essencial. Daí a necessidade de estarmos alertas exercitando nossa cidadania na fiscalização de quem está la e na lembrança de caminhos viáveis aos impasses sociais. Podemos estar desanimados e tristes, sim; mas não desfalecidos!

Solano Portela

Os interessados no incidente relatado acima, ocorrido em 1981, podem obter mais detalhes clicando aqui.
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sábado, outubro 28, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

C.S.Lewis, "A teologia moderna e a crítica da Bíblia"

Por  
[Esse post não é da autoria de nenhum de nós (imagina!). É o texto clássico do C.S. Lewis sobre mitos na Bíblia. É publicado aqui para ajudar nossos leitores.]

A antiga ortodoxia tem sido solapada principalmente pela obra deletéria de teólogos engajados na crítica do Novo Testamento. A autoridade de especialistas naquela disciplina é a autoridade em deferência à qual somos solicitados a desistir de um imenso acúmulo de crenças compartilhadas em comum pela Igreja primitiva, pelos pais da Igreja, pela Idade Média, pela Reforma Protestante, pelos pregadores do século 19. Quero explicar aqui o que me deixa cético quanto a essa autoridade, ignorantemente cético, conforme muitos diriam após um exame superficial da questão. Mas o ceticismo é o pai da ignorância. É difícil alguém perseverar em um estudo detalhado quando tal estudioso não pode confiar prima facie em seus mestres.

Em primeiro lugar, o que quer que esses homens possam ser como críticos da Bíblia, desconfio deles como críticos. A mim parece que são fracos quanto a um bom juízo literário, mostrando-se incapazes de perceber a própria qualidade dos textos que examinam. Pode parecer isso uma estranha acusação contra indivíduos que têm estudado esses livros a sua vida inteira. Mas talvez precisamente aí resida a dificuldade deles. Um homem que passou toda a sua juventude e idade adulta fazendo pesquisas minuciosas nos textos do Novo Testamento e nos estudos de outros homens sobre estes textos, cuja experiência literária sobre aqueles textos ressente-se de quaisquer padrões de comparação que só podem desenvolver-se após uma ampla e profunda e genial experiência com a literatura em geral, conforme penso, tende muito a perder de vista as questões óbvias envolvidas. Se tal homem chega e diz que alguma coisa, em um dos evangelhos, é lendária ou romântica, então quero saber quantas lendas e romances ele já leu, o quanto está desenvolvido o seu gosto literário para poder detectar lendas e romances, e não quantos anos ele já passou estudando aquele evangelho. Porém, provavelmente seria melhor eu citar exemplos.

Em um comentário que atualmente já é bastante antigo, li que o quarto evangelho é considerado por certa escola crítica como um “romance espiritual”, como “um poema, e não uma história”, que deve ser aquilatado pelos mesmos cânones que a parábola de Natã, o livro de Jonas, o Paraíso Perdido, ou, mais exatamente ainda, o Peregrino de John Bunyan. Depois que um crítico faz essa declaração, por qual motivo daríamos atenção a qualquer coisa que ele ainda possa dizer sobre qualquer livro do mundo? Notemos que este autor considerou o Peregrino, uma história que professa ser um mero sonho e que exibe sua natureza alegórica da maneira mais explícita, como o mais chegado paralelo do evangelho de João! Notemos também que tal autor nem deu atenção ao fato de que Milton não escondeu estar escrevendo uma poesia épica. Mas mesmo que deixemos de lado esses absurdos mais grosseiros e nos apeguemos ao livro de Jonas, ainda assim a insensibilidade desse autor é crassa – pois disse ele que Jonas é apenas um conto, sem quaisquer pretensões de historicidade, um incidente grotesco e certamente não destituído de uma veia humorística tipicamente judaica, embora, sem dúvida, distintivamente edificante. Voltemo-nos, em seguida, para o evangelho de João. Leiamos os seus diálogos: aquele entre Jesus e a mulher samaritana, à beira do poço, ou então aquele outro, após a cura do cego de nascença. Examinemos em seguida os seus quadros mentais: Jesus (se me é permitido usar o termo) a escrever na areia com Seus próprios dedos; a inesquecível observação hvn dev nux (João 13.30), “E era noite”. Sim, tenho lido poemas, romances, literatura acerca de visões, lendas e mitos a vida toda. Sei com o que esse tipo de literatura se parece. Sei que em todo esse tipo de literatura não há nada que chegue à altura do quarto evangelho. Acerca do texto do quarto evangelho só são cabíveis dois pontos de vista. Ou trata-se de uma reportagem – que se aproxima extraordinariamente dos fatos ocorridos, conforme disse Boswell. Ou então, algum escritor desconhecido, no século 2º d. C., sem quaisquer antecessores ou sucessores conhecidos, de súbito antecipou a técnica inteira da narrativa moderna, noveles-ca, realista. Se o evangelho de João é veraz, então deve ser alguma narrativa dessa categoria. O leitor que não puder perceber isso, simplesmente ainda não aprendeu a ler.

Na obra de Bultmann, Theology of the New Testament (pág. 30), encontramos um outro exemplo do que estamos ressaltando. Disse ele: “Observemos de que maneira não-assimilada a predição sobre a parousia (ver Marcos 8.38) segue-se à predição sobre a paixão (Marcos 8.31).” O que Bultmann pode ter querido dizer? Não-assimilada? Bultmann acreditava que as predições acerca da parousia eram mais antigas que as predições a respeito da paixão. Por conseguinte, ele queria acreditar – e sem dúvida assim acreditava – que quando ocorriam as duas menções em uma mesma passagem, é que alguma dis-crepância ou ‘não-assimilação’ seria perceptível entre elas. Mas por certo ele impingiu isso sobre o texto sagrado com uma chocante falta de percepção. Pedro acabara de confessar que Jesus era o Ungido. O relâmpago de glória nem se apagara ainda quando começou aquela tenebrosa predição – o Filho do homem haveria de sofrer e morrer. E, então, o tremendo contraste foi reiterado. Pedro, embora tendo-se elevado por um momento, através de sua confissão do messiado de Jesus, chegou a tropeçar: e Jesus o repreendeu com aquelas terríveis palavras, “Arreda! Satanás.” E então, em meio à momentânea ruína em que Pedro se transformou (o que sucedeu com certa freqüência), a voz do Mestre, voltando-se para a multidão, generalizou a lição moral. Todos os seguidores de Jesus precisam carregar a sua própria cruz. Esse receio diante do sofrimento, essa autopreservação, não corresponde às realidades da vida. Em seguida, de maneira melhor definida ainda, soou a convocação ao martírio. Ninguém pode desviar-se do reto caminho. Se alguém negar a Cristo aqui e agora, Cristo haverá de negá-lo na outra vida. Lógica, emocional e imaginativamente, a seqüência mostra-se perfeita. Somente um Bultmann poderia pensar de outra forma, com sua Crítica de Forma.

Finalmente, meditemos no que saiu da pena desse mesmo Bultmann: “A personalidade de Jesus não tinha qualquer importância para a pregação de Paulo ou de João... De fato, a tra-dição da igreja primitiva nem ao menos preservou inconsistentemente um quadro descrito de Sua personalidade. Toda tentativa para reconstruir esse quadro tem permanecido como um jogo de imaginação subjetiva”.

Portanto, na opinião da crítica destrutiva o Novo Testamento não nos apresenta qualquer personalidade de nosso Senhor. Através de qual estranho processo aquele erudito alemão entrou, a fim de tornar-se cego para aquilo que todos os homens vêem, menos ele? Qual evidência existe de que ele reconheceria uma personalidade, se tivesse de defrontar-se com ela? Pois o caso é de um Bultmann contra mundum. Se existe alguma coisa que os crentes sentem em comum, e até mesmo muitos incrédulos, essa coisa é que, nos evangelhos, deparamo-nos com uma extraordinária personalidade. Existem personagens que sabemos terem sido figuras históricas, mas acerca das quais sentimos que não possuímos qualquer conhecimento pessoal – conhecimento por meio da familiaridade. Poderíamos citar entre esses vultos pessoas como Alexandre, Átila ou Guilherme de Orange. Existem outros vultos que não reivindicam qualquer realidade histórica, a despeito do que nós os conhe-cemos como conhecemos pessoas reais, como Papai Noel, Tio Sam ou Super-Homem. Mas existem apenas três personagens que, dotadas da primeira sorte de realidade, também possuidoras da segunda espécie de realidade. E certamente todos sabem de quem se trata: o Sócrates de Platão, o Jesus dos evangelhos e o Johnson de Boswell. Nossa familiaridade com eles exibe-se de diferentes maneiras. Assim, quando nos pomos a ler os evangelhos apócrifos, surpreendemo-nos constantemente a dizer acerca desta ou daquela declaração ou logion: “Não. Temos aqui uma boa declaração. Mas não pertence a Jesus. Não era assim que Ele costumava falar”.


Tão poderosa é a fragrância da personalidade que mesmo quando Jesus dizia coisas que – não fora o fato de Ele ser a própria encarnação da Deidade – pareciam espantosamente ar-rogantes, contudo, nós – e muitos incrédulos, por igual modo – aceitamos a Ele segundo a Sua própria avaliação. Para exemplificar, quando Ele declarou: “... sou manso e humilde de coração...” Até mesmo aquelas passagens do Novo Testamento que, superficialmente, e em intenção, dizem respeito à natureza divina, obscurecendo a natureza humana, levam-nos a enfrentar a personalidade de Jesus. Não tenho a certeza se essas passagens fazem isso mais do que outras. “... o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam... a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo...” (1João 1.1-3). Qual é a vantagem que alguém poderia obter por tentar evitar ou dissipar esse avassalador senso de contato pessoal com Jesus, quando esse alguém refere-se “àquela significação que a igreja primitiva encontrava e que se sentia impelida a atribuir ao Mestre”? Declarações assim esbofeteiam-me o rosto. Não devemos pensar no que aqueles cristãos sentiram-se impelidos a fazer, mas podemos comparar tais impressões com as im-pressões impessoais de um artigo escrito por algum autor da escola da Alta Crítica, ou de um obituário, ou de alguma obra como Life and Letters of Yeshua Bar-Yosef, em três volu-mes, acompanhada por fotografias antigas.

Esse, pois, é o meu primeiro balido. Esses homens pedem-me que eu acredite que eles po-dem ler entre as linhas dos textos antigos; mas todas as evidências levam-me a notar a ób-via incapacidade deles de lerem (em qualquer sentido digno de discussão) as próprias li-nhas. Eles afirmam poder ver coisinhas minúsculas, mas não podem ver um elefante a dez metros de distância, em plena luz do dia.

Agora, o meu segundo balido. Toda teologia da categoria liberal envolve, em algum ponto – e, por muitas vezes, do começo ao fim –, a reivindicação que o real comportamento e o propósito dos ensinamentos de Cristo quase imediatamente vieram a ser mal compreendidos e distorcidos por Seus seguidores, e que somente os eruditos modernos puderam exumá-los ou recuperá-los. Ora, muito antes que me interessasse pelas questões teológicas, eu já havia encontrado esse tipo de teoria em outros lugares. A tradição de Jowett ainda dominava os estudos sobre a filosofia antiga quando comecei a ler as obras de Greats. Então, os leitores eram convidados a acreditar que o sentido real dos escritos de Platão havia sido mal entendido por Aristóteles, e loucamente travestido pelos filósofos neoplatônicos, e que tal sentido só foi redescoberto pelos pensadores modernos. E uma vez refeito esse significado, descobriu-se (mui afortunadamente) que Platão o tempo todo havia pensado como um Hegel inglês, ou melhor, como T. H. Green. E, em meus estudos pro-fissionais, encontrei essa idéia pela terceira vez. A cada nova semana algum esperto quartanista, a cada quinze dias algum embotado perito norte-americano, vem descobrir, pela primeira vez na história do mundo qual o sentido real de alguma peça de Shakespeare. Nessa terceira instância, entretanto, já sou uma pessoa privilegiada. A revolução que tem havido na maneira de pensar e sentir, ocorrida durante o curto período de minha vida, é tão grande que, mentalmente falando, pertenço mais ao mundo de Shakespeare do que ao mundo desses intérpretes recentes. Percebo-o, sinto-o nos meus próprios ossos, estou convicto, acima de qualquer argumento, de que a maioria das interpretações desses modernos pensadores é praticamente impossível. Tais interpretações envolvem uma maneira de considerar as coisas que era desconhecida em 1914, e, mais ainda, no período jacobeano. Isso confirma diariamente a minha suspeita quanto à abordagem dos críticos no tocante aos escritos de Platão ou do Novo Testamento. Essa noção de que qualquer homem ou escritor deveria ser opaco e imcompreensível para aqueles que viviam na mesma época, na mesma cultura, que falavam o mesmo idioma, que compartilhavam das mesmas habituais imagens mentais e pressupostos inconscientes, e que, no entanto, torna-se perfeitamente claro e transparente para aqueles que não dispõem de nenhuma dessas óbvias vantagens, em minha opinião, não passa de um imenso absurdo. Nessa noção há uma improbabilidade a priori que não pode ser contrabalançada por quase qualquer argumento e evidência.

Em terceiro lugar, descubro nesses teólogos o constante emprego do princípio que diz que os milagres nunca ocorrem. Isso quer dizer que qualquer declaração posta nos lábios de nosso Senhor, pelos textos antigos, se é que Ele a fez realmente, constituiria uma predição sobre o futuro, mas só foi registrada após a ocorrência daquilo que ela parecia predizer. Essa opinião pode parecer sensata para aqueles que julgam saber que jamais ocorrem predições inspiradas. Por semelhante modo, a rejeição de todas as passagens bíblicas que narram milagres como trechos não-históricos, pode parecer uma rejeição sensata para aqueles que pensam saber que os milagres, em geral, jamais ocorrem. Ora, não é meu propósito discutir aqui se os milagres são possíveis ou não. Tão-somente quero ressaltar aqui que essa é uma questão puramente filosófica. Os eruditos, enquanto eruditos, não falam a esse respeito com maior autoridade do que qualquer outra pessoa. O cânon que estipula, “se é miraculoso, não é histórico”, é uma regra que os críticos impõem aos seus estudos dos textos sagrados, e não um princípio que deduziram desses textos. E já que estamos falando em autoridade, a autoridade conjunta de todos os críticos bíblicos do mundo é aqui considerada como zero. Quanto a isso, os críticos falam apenas como homens; homens obviamente influenciados pelo espírito da época em que cresceram, espírito esse talvez insuficientemente crítico quanto às suas próprias conclusões.

Mas o meu quarto balido – que também é o mais longo e mais vocífero – ainda vem por aí.

Todo esse tipo de crítica tenta reconstruir a gênese dos textos estudados. Essa re-constituição busca quais documentos desaparecidos cada autor usou; quando e onde ele escreveu; com quais propósitos; sob quais influências – a Sitz im Lebenz (situação vivencial) inteira dos textos. E isso é efetuado com imensa erudição e com grande engenho e arte. À primeira vista, esses esforços são muito convincentes. Chego a pensar que eu mesmo poderia ser convencido por tais argumentos, não fora um certo encantamento mágico que sempre trago comigo – uma certa erva fabulosa, de propriedades mágicas – e que uso com sucesso contra tais engodos. Aqui, o leitor precisa desculpar-me se estou falando de mim mesmo por alguns instantes. Pois o valor daquilo que digo depende de ser ou não evidências colhidas em primeira mão.

O que me protege definitivamente de todas essas reconstituições feitas pelos críticos é o fato de que tenho visto todas as tentativas deles do outro lado do prisma. Tenho observado os revisores reconstituírem a gênese de meus próprios livros, exatamente dessa forma.

Enquanto um escritos não acompanha o processo, no caso de seus próprios livros, ele difi-cilmente acredita que tão pouco de revisão ordinária é usada pelos críticos. Eles não avaliam, nem elogiam, nem censuram o livro que estão criticando. Quase tudo quanto fazem é utilizarem-se de histórias imaginárias acerca do processo mediante o qual o escritos em pauta teria atuado. Os próprios vocábulos que esses revisores usam, ao elogiar ou censurar a obra, com freqüência dão a entender o que eles fazem. Eles elogiam uma passagem “espontânea” e censuram outra passagem como “elaborada”. Em outras palavras, pensam ser capazes de saber que o escritor escreveu uma dessas passagens currente calamo (“ao correr da pena”), ao passo que a segunda, invita Minerva (“contra a vontade de Minerva”), ou seja, sem destreza técnica e sem sabedoria.

Qual o pequeno ou nenhum valor dessas reconstituições, feitas pelos críticos, aprendi desde cedo em minha carreira. Eu havia publicado um livro de ensaios. Aquele foi um livro para o qual me preparei de todo o coração, que tanto mexeu comigo e que escrevi com o mais agudo entusiasmo, acerca da personalidade de William Morris. No entanto, logo na primeira crítica que li a respeito, o revisor afirmava que era óbvio que eu tinha escrito sobre essa personagem sem ter demonstrado o mínimo interesse por ela. Que o leitor não me compreenda mal. Acredito agora que o tal crítico tinha razão ao pensar que o ensaio sobre William Morris foi muito ruim; pelo menos todos concordaram com ele. Mas aonde ele estava totalmente equivocado foi ao imaginar as causas que teriam produzido tão embotado ensaio.

Bem, o fato é que isso me deixou com a pulga atrás da orelha. Desde então, tenho vigiado, com alguma preocupação, histórias imaginárias similares, tanto acerca de meus próprios livros como acerca de livros de meus amigos, cuja história real eu saiba. Os revisores, tanto os amigáveis quanto os hostis, pespegam sobre os autores essas invencionices, fazendo-o com grande desenvoltura e confiança própria; dizem quais eventos públicos teriam tido influência direta sobre a mente dos autores, quanto a isso ou quanto a aquilo, quais outros autores tê-los-iam influenciado, quais teriam sido suas intenções globais, qual tipo de audiência os autores estariam visando, e por que e quando os autores fizeram tudo quanto fizeram.

Ora, antes de tudo preciso deixar registradas as minha impressões; e só então, em distinção a isso, poderei asseverar o que sou capaz de dizer com certeza. Minhas impressões são que, na totalidade de minha experiência, nenhuma dessas tentativas de adivinhação dos críticos tem estado ao lado da razão, e que tal método exibe um recorde de cem por cento de fracasso. Alguém poderia esperar que, devido à mera chance, os críticos acertassem tão freqüentemente quanto erram o alvo. Mas a minha nítida impressão é de que eles nunca acertam. Não consigo lembrar de um único acerto deles. Porém, visto que não tenho feito anotações cuidadosas a respeito, minhas meras impressões podem estar equivocadas. O que penso que posso afirmar com toda a certeza é que, usualmente, eles se equivocam...

Ora, sem dúvida esses fatos deveriam fazer-nos parar para refletir. A reconstituição da his-tória de um texto qualquer, quando esse texto é antigo, pode parecer deveras convincente. Em tal caso, entretanto, quem queira provar o contrário estará malhando em ferro frio, pois os resultados obtidos não poderão ser cotejados com os fatos. A fim de averiguarmos quão fidedigno é esse método, que mais poderíamos pedir senão que se examine uma instância, onde o mesmo método foi usado em obras que podemos examinar, por serem recentes? Pois bem, é precisamente isso que tenho feito. E, quando assim fazemos, então descobrimos que os resultados são sempre ou quase sempre errados. Os “firmes resultados da erudição moderna”, na sua tentativa de descobrir por quais motivos algum livro antigo foi escrito, segundo podemos facilmente concluir, só são “firmes” porque as pessoas que sabiam dos fatos já faleceram, e não podem desdizer o que os críticos asseguram com tanta autoconfiança. Os gigantescos ensaios em meu próprio campo, que procuraram reconstruir a história do livro Piers Plowman, ou o livro The Faerie Queene, provavelmente não pas-sam das mais puras tapeações.

Aventuro-me a comparar qualquer pretensioso que escreve uma crítica literária em uma revista semanal com os grandes eruditos que consagraram suas vidas inteiras ao estudo pormenorizado do Novo Testamento? Se aqueles primeiros sempre se equivocam, segue-se daí que estes últimos não podem sair-se melhor em seu trabalho?

Há duas respostas para essa indagação. Em primeiro lugar, apesar de respeitar a erudição dos grandes críticos das Escrituras Sagradas, ainda não estou persuadido que o juízo deles deva ser igualmente respeitado. Em segundo lugar, consideremos com quantas avassaladoras vantagens iniciam os meros revisores. Eles procuram reconstituir a história de um livro escrito por alguém cuja língua pátria é a mesma que a deles; por alguém que é um contemporâneo, educado como eles o foram, que vivem mais ou menos na mesma atmosfera mental e espiritual. Contam com tudo quanto pode ajudá-los. A superioridade no terreno do julgamento e da diligência que se poderia atribuir aos críticos da Bíblia terá de ser sobre-humana, se tiver de contrabalançar o fato de que por toda parte precisam enfrentar costumes, linguagens, características étnicas, pano de fundo religioso, hábitos de composição e pressupostos básicos que nenhuma erudição jamais poderia capacitar qualquer pessoa viva a saber com tanta certeza, intimidade e instinto, como os meros re-visores de obras contemporâneos são capazes de atuar. E pelas mesmas razões, lembremo-nos de que os críticos da Bíblia, sem importar quais reconstituições imaginaram, jamais poderão estar comprovadamente equivocados. Marcos já morreu. E quando encontrarem Pedro, haverá questões mais urgentes a serem debatidas.

Naturalmente, o leitor poderá dizer que esses revisores de obras contemporâneas são tolos, por tentarem adivinhar como algum livro, que eles não escreveram, foi escrito por outrem. Eles supõem que alguém escreve uma história, tal como eles mesmos tentariam escrever uma história; e o fato de tentarem realizar essa façanha, explica por que eles nunca produzi-ram qualquer história e a publicaram. Mas, e os críticos da Bíblia apareceram sob melhor luz quando confrontados com aqueles outros? O Dr. Bultmann nunca escreveu um evangelho. As experiências de sua erudita, especializada e sem dúvida meritória vida realmente deram-lhe a capacidade de ler as mentes de homens que morreram faz muitos séculos, arrebatados como eles foram por aquilo que temos de considerar como a experiência religiosa mais central e atordoadora de toda a história humana? Não é uma incivilidade dizer – conforme admitiria o próprio Bultmann – que em todos os sentidos ele deve estar separado dos evangelistas por barreiras muito mais formidáveis – tanto espi-rituais quanto intelectuais – como nunca poderiam ser interpostas entre meus revisores e mim.
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quinta-feira, outubro 26, 2006

Mauro Meister

Procurando uma escola para meus filhos

Em 2002, Deus me deu a oportunidade de começar a trabalhar no campo da educação cristã escolar (chamo-a assim para que não se confunda o leitor com a idéia de que educação cristã é um campo que se limita à educação na escola dominical). Esta oportunidade me abriu imensos horizontes e me fez trilhar caminhos de grandes descobertas. Desde então, tornei-me um ‘militante’ da educação cristã escolar, ao lado de outros que Deus chamou para este ministério. Porém, ainda que alguns poucos sejam os ‘chamados’ para esta aventura, este é um ministério do corpo de Cristo que precisa, urgentemente, ser abraçado por todos. Creio que na educação cristã escolar reside um dos pontos de esperança para a mudança da nossa nação e para que os chamados evangélicos comecem a fazer alguma diferença neste país.

Digo isto porque a escola cristã verdadeira tem nas mãos a possibilidade de formar gerações inteiras com uma visão de vida e de mundo cristãs, o que muitas vezes não acontece na igreja. Nem sempre a conversão implica em uma mudança plena da forma como as pessoas enxergam toda a realidade. É por isto que continuamos a ver tanta ‘coisa estranha’ no meio evangélico.

Chegamos à época do ano em que as decisões sobre a vida escolar de nossos filhos precisam ser tomadas. Se alguma coisa vai mudar, é agora. Dentro em breve os jornais da cidade começarão a publicar as “dicas” sobre como escolher uma escola, que características devem ser observadas e que serviços uma escola moderna deve oferecer. As revistas de circulação nacional farão o mesmo, como todo ano, lançando seus desafios para os pais da nação em busca da escola ideal para seus filhos.

E os pais cristãos, devem ter algum critério para escolha da escola de seus filhos? Com certeza, sim. Sabemos que a situação da educação cristã em nosso pais é muito precária e o número de escolas cristãs é ainda diminuto em relação às necessidades que temos. Mas, em havendo a possibilidade de escolhas, o que devemos procurar em uma escola cristã?

Um compromisso inalienável com a Verdade , sabendo que toda a verdade é verdade de Deus e que a realidade do mundo a nossa volta deve ser inquirida com os olhos da Revelação Especial de Deus, as Escrituras. Só uma escola legitimamente cristã é capaz de fazer isto. Logo, é fundamental que os pais procurem reconhecer a filosofia da escola onde pretendem expor seus filhos a educação. Se é verdade o que Escritura diz, que Cristo deve ter a primazia em todas as coisas (Cl 1.18), isto deve incluir a educação escolar. Se é verdade o que a Escritura diz, que em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2.3), estes tesouros só podem ser plenamente descortinados com uma visão clara de Cristo. Se o fundamento teológico exposto por Calvino for verdadeiro, que o homem foi criado para conhecer a Deus, é na escola cristã que nossos filhos terão a melhor condição de fazê-lo.

O segundo compromisso essencial da escola cristã, que necessariamente deve acompanhar o primeiro, é o compromisso com o desenvolvimento intelectual do aluno. Logo, o serviço da escola cristã, exatamente por ser escola, deve enfatizar o desenvolvimento intelectual de seus alunos, para a glória de Deus. Escolas cristãs não podem ter apenas “fachada” de escola e promoverem uma educação desqualificada. A boa escola cristã deve buscar em todas as áreas de sua atuação a excelência acadêmica. Deve ficar estampado no ensino da escola cristã o fato de que ela não está ai simplesmente “servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus.” (Ef 6.6)

Em terceiro lugar, a escola cristã deve buscar a excelência entre os Educadores Cristãos. A questão é muito simples: educação cristã, na sua essência, é feita por seguidores comprometidos com Cristo. Só o educador cristão pode entender e implementar os dois princípios acima de maneira completa.

É também fundamental que a escola cristã promova as experiências de aprendizado com o fim de que seus alunos alcancem o seu pleno potencial em Cristo, preparando o educando para uma vida de serviço cristão, compreendendo as suas responsabilidades com os pais, família, autoridades, nação e a criação de Deus como um todo. Procure saber se a escola busca envolver seus alunos no discipulado e se há uma preocupação de que as atividades curriculares apontem para o desenvolvimento do aluno.

Uma última questão a ser analisada é a Integridade Operacional. A escola cristã precisa ser conhecida pelo mais alto padrão de justiça e verdade em todos os seus processos administrativos. É uma incoerência para a comunidade e para o próprio aluno que sua escola cristã seja motivo de desconfiança em meio à sociedade. A integridade operacional da escola cristã precisa ser clara desde a sala de aula até os níveis mais altos de sua administração.

Onde se encontra esta escola? Creio que não a encontraremos na próxima esquina e nem tão próximo de nosso tempo. No entanto, existem escolas cristãs que estão buscando estas coisas e nós, como pais, devemos procurá-las e incentivá-las. Ainda mais, deve ser sonho de pais e educadores cristãos buscarem e sonharem em construir esta escola. Peço a Deus que dê a muitas igrejas, conselhos e pastores a visão de começarem escolas legitimamente cristãs junto a suas comunidades.

Um dos recentes projetos em que eu e Solano temos trabalhado (junto com uma crescente equipe) é na criação de um sistema de ensino que parte de uma cosmovisão cristã.

Recursos:
Conheça o site da ACSI - Associação Internacional de Escolas Cristãs
Conheça o site da AECEP - Associação de Escolas Cristãs de Educação por Princípios

Livros:
  • Educação Cristã? Solano Portela (FIEL)

  • Livros publicados pela ACSI-Brasil:
  • Fundamentos Bíblicos e Filosóficos da Educação
  • Fundamentos da Psicologia da Educação
  • Fundamentos Pedagógicos
  • Enciclopédia das Verdades Bíblicas - Fundamentanção para o Currículo Escolar Cristão
  • Sala de Aula, Disciplina e Gestão
  • Introdução à Educação Cristã - Perry G.Downs - Ed.Cultura Cristã

  • Sobre a formação de uma cosmovisão cristã:
    • Todos o livros de Francis Schaeffer, principalmente a 'trilogia': O Deus que Intervém, Morte da Razão e O Deus que se revela. Também, Como viveremos e Morte na Cidade.
    • Verdade Absoluta (uma tradução infeliz do título original -Total Truth) - Nancy Pearcey - CPAD
    • Alma da Ciência - Nancy Pearcey & Charles Thaxton - Cultura Cristã
    • E agora, como viveremos? - Charles Colson & Nancy Pearcey - CPAD
    • O Universo ao Lado - James Sire - Editorial Press
    • O Cristão e a Cultura - Michael Horton - Cultura Cristã
    • Fundamentos Inabaláveis - Normal Geisler / Peter Bocchino - Editora Vida
    • Crer é também pensar - John Stott - ABU
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