segunda-feira, janeiro 29, 2007

Solano Portela

Cosmovisão para Leigos (3) - Áreas de Conhecimento

Sociedade, Governo, Economia, Cultura, Arte e Tecnologia.

No post anterior iniciamos uma tratamento resumido de áreas da atividade em que estamos envolvidos ou de conhecimento, com a Palavra de Deus. A forma como observamos, abordamos ou procuramos entender essas esferas, se constitui em nossa Cosmovisão.

Sociedade
Na cosmovisão cristã, o estudo das sociedades, ou sociologia, começa com a pessoa de Deus, que subsiste em um relacionamento social eterno na trindade. A Bíblia enfatiza que Deus é unidade e pluralidade, bem como causa final de todas as coisas. Por isso, nas Escrituras, não encontramos nem o indivíduo nem a sociedade corporativa, um acima do outro. O cristianismo representa a única solução aos problemas gerados pelo humanismo que postula uma luta constante entre individualismo e coletivismo.

Em sua sabedoria infinita, Deus instituiu o relacionamento social primário e fundamental – a família, desde a criação. Esta é a célula principal de todas as demais ordens sociais, que foram se desenvolvendo conforme a providência divina. Procedem de Deus a formação do estado, da igreja e da família. Cada uma dessas áreas representa uma esfera de atividades e competências, com regras e limites específicos, sendo responsáveis perante Deus, na pessoa de seus líderes designados, para funcionarem dentro da esfera de autoridade específica que cada uma possui, como dádiva recebida de Deus. Esses direitos e responsabilidades foram adequadamente delineados e registrados na Lei santa de Deus. Deus criou o homem, portanto, como uma criatura social, à sua imagem.

A Bíblia também nos apresenta fatos sociais que devem ser ensinados. Por exemplo, existe extremo valor didático e muitos princípios a serem extraídos do estudo de como Deus se relacionou com o seu povo, em uma época e situação específica, no Antigo Testamento. Como aquela sociedade foi estruturada, por Deus, para resistir a fragmentação gerada pelo pecado. Quais os contrastes e similaridades daquela sociedade com os povos sem Deus que a rodeavam. A apresentação bíblica da ordem social é necessária para nos ensinar como Deus lida com a corrução moral e social em diversas ocasiões. A legislação moral encontrada na Palavra de Deus é uma ferramenta de análise das diversas estruturas sociais das nações e povos.

Quando analisamos a ordem social proveniente de Deus e a perversão dessa ordem, pelo homem pecador, compreendemos as diretrizes divinas para constituição de uma sociedade alternativa que verdadeiramente o glorifique. O que é distorcido pelo pecado, é restaurado pela graça de Deus. Cristo e a redenção nele encontrada, não somente restaura o relacionamento entre Deus e os seus chamados, mas, como resultado, o relacionamento entre homens, mulheres, crianças, raças e nações é também restaurado. A família cristã e a comunidade cristã – a igreja – deveriam sempre ser modelos firmes de um relacionamento social adequado no meio do caos do mundo contemporâneo – submerso em pecado.

Pela Palavra de Deus, a sociedade cristã é igualmente equipada a coexistir e sobreviver - fortalecida em Deus e por ele - em um mundo que pode ser hostil intelectualmente, ou até fisicamente violento contra o cristianismo e os cristãos. Nessas situações, a sociedade cristã não "joga a toalha" e se amolda aos valores e percepções anti-cristãs, mas permanece, como sal da terra e luz do mundo, testemunhando dos valores de Deus, procurando influenciar, em vez de ser influenciada, na expectativa de que ele, por sua graça comum, conceda momentos de vitórias onde tais valores venham a permear segmentos, bolsões, ou grande parte da sociedade. A história registra que Deus, por vezes, tem concedido tais tempos de refrigério ao seu povo.

Governo
O estudo correto do governo, ou das ciências políticas, na cosmovisão cristã, deve ser fundamentado na Palavra de Deus. O estudo da lei civil e do governo torna necessário a compreensão do padrão infalível de Deus, para uma adequada percepção do que é justiça e do que é injustiça. O governo civil se ocupa da promulgação da lei. Isso significa que sua esfera de atuação abrange a definição do certo e do errado. Certo e errado, entretanto, são conceitos que não podem ser divorciados de moralidade e moralidade está na essência da religião. Assim, governo civil é, por sua própria natureza, uma instituição religiosa – no sentido de que se rege pela religião (verdadeira, ou humanista) e presta contas a Deus (ou deixa de prestá-las, atuando como se fosse autônoma, para sua própria destruição.

O Antigo Testamento revelou o sistema legislativo para um governo civil. Deus, através de Moisés, supriu todo um povo, civilização e sociedade com um sistema completo de legislação civil e de governo. O decálogo, estabelece a base moral do governo. O exemplo do governo civil do Povo de Deus no AT, nos ensina separação de poderes; sistema de apelos e recursos; e um sistema de aferições contínuas entre os poderes.

Essa compreensão da teocracia veto-testamentária nos possibilita a análise comparativa de governos humanos, do passado e do presente, bem como de suas estruturas, leis e políticas. A cosmovisão cristã e o estudo desta área, leva aquele que estuda e se aplica nos princípios bíblicos a uma participação responsável no seu governo, exercitando cidadania responsável, tornando-se arauto da lei de Deus a uma sociedade sem Deus.

Reconhecemos que Deus trabalha de formas diferentes em eras diferentes (Hb 1.1-4) e que a legislação civil do Antigo Testamento foi promulgada para um povo específico, com propósitos específicos e com caráter temporal, não sendo normativa em seus detalhes à nossa sociedade. No entanto, a cosmovisão cristã procura estudar os princípios e valores contidos por trás daquelas legislações específicas e reconhece o aspecto didático desse estudo.

O entrelaçamento do governo (ou do estado) com a pessoa de Deus é claramente delineado no textus maximus dessa área - Rm 13.1-7, onde temos reafirmado o ensinamento de que Deus é a fonte da autoridade, que ela a delega a governantes humanos, mas que nem por isso eles deixam de ser responsáveis perante Deus e os homens, pelo desempenho correto de suas responsabilidades. Ali aprendemos, em adição, que tais responsabilidades são limitadas e não atribuidas para o exercício do despotismo; que elas são circunscritas a áreas específicas de manutenção da ordem, e não representam uma carta branca para a intromissão em todas as áreas das vidas dos cidadãos.

Em um post subsequente, deverei expandir um pouco mais essa visão bíblica do governo, ou do conceito do estado.

Economia
Deus é o proprietário da terra, a fonte de toda a riqueza. Ele é o dono de tudo e delega tal propriedade a quem lhe apraz. De Deus procedem, também, leis que governam a esfera da economia humana. Deus concedeu ao homem o direito de possuir propriedade privada, de ocupá-la ou desenvolvê-la, de objetivar a lucratividade e de definir como o a receita deve ser aplicada. No entanto, pelo próprio fato de que Deus é o Senhor de tudo e de todos, somos ensinados a exercitar todos esses direitos responsavelmente, como mordomos de Deus.

De acordo com as Escrituras, não faz parte das atribuições governamentais a regulamentação excessiva ou detalhada da economia, exceto na dádiva de garantias contra roubos e fraudes. A Palavra de Deus especifica a dignidade do trabalho e o direito do trabalhador de usufruir economicamente do seu trabalho. O exercício desses direitos deve se processar debaixo de diretrizes contidas na Palavra que produzem um sistema econômico que glorifica a Deus e demonstra sensibilidade às necessidades alheias. Esse sistema deve englobar e levar em consideração: o trabalho com afinco; a competitividade; os riscos do mercado. Esses fatores impelem os produtores e vendedores a utilizarem suas habilidades e recursos econômicos com muito cuidado, gerando produtos de qualidade crescente a preços mais razoáveis. O papel do governo, nessa esfera, é o de servir de árbitro – louvando os bons e punindo os maus – também na mercantilização, de acordo com os padrões da lei de Deus.

Riqueza não é uma conseqüência única de brutalidade econômica. A prosperidade econômica é possível vir como resultado das bênçãos divinas sobre o uso correto do trabalho empregado e da aplicação do lucro obtido. Harmonia produtiva, na esfera comercial, é fruto da graça comum de Deus, possibilitando as pessoas a seguirem suas leis (mesmo descrentes, que não as têm em suas mentes e corações). O cristianismo deve servir de intensa influência salutar na vida econômica construida em justiça, em uma sociedade; promovendo o respeito mútuo às leis; a obediência aos contratos firmados; a consideração ao bem alheio, o uso comedido do poder, a ausência de egoísmo desvairado nas realizações e a sensibilidade aos necessitados e carentes.

Cultura e Arte
As artes e a cultura são dons concedidos aos homens pelo Espírito Santo. Quando um artista compõe uma música, pinta um quadro de qualidade, um arquiteto projeta um edifício – cada um desses aplica, em sua específica esfera, o talento recebido de Deus. Na cosmovisão cristã, cada dom será utilizado para refletir a glória e sabedoria do doador e imitar a beleza e utilidade da obra criativa de Deus.[1]

A cosmovisão humanista vê a cultura e a arte como se existissem apenas para se auto-expressarem, ou para o divertimento das pessoas, ou por vaidade egoísta. As pessoas sem Deus utilizam, muitas vezes, a cultura como uma forma de expressar a sua revolta contra Deus e de glorificarem-se a si mesmas. Quando o homem cria, não está criando algo do nada, mas descobrindo a potencialidade em si, ali colocada por Deus. O uso correto da cultura e das artes representa uma bênção de Deus e resulta no benefício da humanidade e na validade da apreensão estética das coisas. O uso ou desenvolvimento incorreto, torna-se em uma maldição contribuindo para a destruição e dissolução moral da humanidade.

As artes e a cultura criam obras que expressam pensamentos e emoções. Conseqüentemente, influenciam a moralidade e o comportamento de muitos. Em muitas situações, providenciam comunhão e experiências praticamente religiosas aos apreciadores, criando um magnetismo e atratividade intensa entre artistas e espectadores. Isso representa uma grande responsabilidade ao cristão e quer dizer que não devemos nos envolver e desfrutar das artes que promovem pensamentos, emoções e comportamentos contrários à Palavra de Deus (2 Co 6.14).

Reconhecendo a manifestação da graça comum de Deus nessas esferas; reconhecendo o que é de mérito e qualidade; o cristão deve utilizar-se dessas áreas para a promoção do Reino de Deus. Os talentos devem ser desenvolvidos em harmonia com a lei moral de Deus, para sua honra e glória.

Tecnologia
Uma maneira de entender tecnologia, é considerando-a como a ciência aplicada à mecânica da vida, à multiplicação do potencial humano de realização. Ela tem algo de arte e cultura, pois é a interação da criatividade humana com as decobertas do funcionamento da criação de Deus (por exemplo: as chamadas leis físicas e químicas, o código do genoma, etc.), resultando em construções ou produtos colocados a serviço do homem. Se "fazer ciência" é algo que compreendemos como possível exatamente pela existência de Deus, como âncora metafísica maior, que estruturou e mantém uma criação em harmonia - não caótica, a tecnologia só é possível em função dessa mesma harmonia.

O avanço da tecnologia é uma evidência da operação do que conhecemos como graça comum de Deus. Ele possibilita a facilitação da jornada humana, através de obras que, como nas artes e na cultura, possuem mérito e qualidade intrinseca, independentemente se foram produzidas conscientemente para a glorificação do Criador. Ou seja, a cosmovisão cristã reconhece, sim, que o descrente produz obras de mérito e qualidade - mesmo em sua rejeição ao Deus que as possibilita. Descrentes projetam e constroem pontes seguras, elevadores que não falham, prédios que não caem, computadores que funcionam. Semelhantemente, são competentes na realização de cirurgias complicadas (e as simples, também), no estudo e controle de condições climáticas. A diferença é que os crentes no Deus da criação que são competentes nessas áreas têm a capacidade de exercitar seus dons e treinamentos conscientemente na glorificação do Criador e reconhecem que essas habilidades procedem dele.

A cosmovisão cristã não rejeita a tecnologia, mas não a considera um fim em si, nem que a sua servitude se exaure no melhoramento da humanidade. Enxerga a fonte e o destino dela - o Deus do Universo. Sabe que ela pode ser utilizada tanto para o bem como para o mal, e que isso é uma consequência do fator pecado, que deixa suas marcas em todas as áreas de realizações humanas.

Conclusão
Diversas outras áreas de conhecimento poderiam ser apresentadas sob o prisma de uma cosmovisão cristã. Nosso propósito, é o de que você se convença que as Escrituras são pertinentes ao todo da nossa vida. Isso tem uma conseqüência dupla: (1) Torna legítima as múltiplas esferas de conhecimento, ao cristão, que deve dominá-las para a Glória de Deus; (2) Desenvolve o nosso pensar como cristãos, objetivando a verdadeira transformação de nossa mente, em vez da conformação com o pensamento do mundo, fazendo-nos ávidos inquiridores e pesquisadores da Palavra de Deus, para ver o que ela tem a nos ensinar em cada segmento do conhecimento humano.

[1] Ver o meu artigo “Cultura – A Fé Cristã é Contra ou a Favor?”, postado em: http://www.solanoportela.net/artigos/cultura.htm
Leia Mais

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Solano Portela

Cosmovisão para Leigos (2) - Áreas de Conhecimento

Gostaria de dar um tratamento resumido sobre o relacionamento da fé cristã com algumas áreas do conhecimento humano. Isso, obviamente, não tem qualquer pretensão de esgotar a questão - meramente arranhamos a superfície. [1]

Matemática
Deus é trino – uma trindade. Ele é, igualmente, um único Deus. Nisso entendemos porque temos tanto unidade como diversidade na criação. Podemos ver nisso uma base para unidade e diferenciação na matemática.

A Bíblia nos ensina que o criador é Deus de ordem (1 Co 14.33 – “... Deus não é Deus de confusão...”). Quando estudamos o universo, criação de Deus, verificamos a ordem matemática das estruturas. A criação é governada por leis matemáticas, por seqüências lógicas (Sl. 19.1-2), que refletem o caráter daquele que a formou. Muitas leis da criação são definidas em termos da matemática. Observamos uma precisão maravilhosa na natureza e na física. Isso deve nos levar a exaltar a pessoa de Deus, constatando que essa precisão só é possível porque emana dela.

Os princípios matemáticos não variam; as fórmulas e equações demonstram coerência a toda prova. A matemática é, portanto, uma ferramenta básica ao estudo da obra criativa de Deus. A matemática nos auxilia a descobrir as leis físicas da criação e os modelos nela colocados por Deus. É impossível, para nós, entendermos a criação divina, sem a dádiva da matemática. Sem ela não teríamos como medir o mundo de Deus. A matemática é uma das ferramentas que Deus deu ao homem para que ele exercesse o seu domínio sobre a criação (Gn 1.28). Todos os campos de conhecimento demandam planejamento, cálculo de percurso e avaliação de resultados – no sentido de que as responsabilidades recebidas de Deus sejam bem desempenhadas. A matemática tem papel fundamental, quer seja em negócios, engenharia, arte, ciências, governo, economia, etc.

O estudante cristão, ao dominar a matemática, está contribuindo para o avanço do Reino de Deus, na terra, quando exercita esse conhecimento para a glória dele e se empenha no cumprimento do mandato cultural, de dominar a terra e sujeitá-la, recebido no início da criação.


Ciência
Ciência é o estudo próprio da criação de Deus. Os fatos da criação somente podem ser entendidos apropriadamente, quando olhados através das lentes das Escrituras. A Palavra de Deus nos ensina que a questão das origens, mesmo se constituindo uma base para ciências, é, acima de tudo, uma questão de fé, de pressupostos, de postulados. Hb 11.3, ensina: “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê”. Mas quando a ciência, os fenômenos observáveis da criação, são estudados partindo da informação Bíblica de que Deus é o criador, tudo adquire sentido, coerência e forma.

O estudo das ciências revela a glória de Deus (Sl 19.1), o poder de Deus, a beleza da obra de suas mãos e a arquitetura, com similaridades, nas suas criaturas – indicando procedência criativa de um ser todo-poderoso, pensante. A criação foi efetivada pela sabedoria divina e o homem é parte dela, tendo sido chamado a subjugá-la para a glória de Deus. Ainda no Jardim do Édem, Deus assinalou ao homem a tarefa de regência sobre os animais e plantas, na guarda da terra. Sob a autoridade de Deus, ele deveria cultivar a terra, cuidar dela e desenvolver cada aspecto do conhecimento sobre esta mesma terra, para a glória de Deus. Certamente o conhecimento das ciências esteve presente em Adão, para o cultivo da flora e classificação da fauna.

Para que dominemos a terra, como Deus nos comanda, temos de adquirir o conhecimento científico sistematizado e organizado. Pelo estudo tanto das leis físicas como das demais criaturas, aqueles que assim o fazem na compreensão de que procedem de Deus, aprendem a utilizar esse conhecimento segundo os preceitos de Deus. Cada nova descoberta sobre o mundo e o universo criado por Deus, deve levar ao reconhecimento de que Jeová é único. Deve levar, igualmente, a um cuidado maior por essa criação divina. Para que isso ocorra, o estudo da ciência tem que estar subordinado à Palavra de Deus. Não é que a Bíblia virá suprir a todo o conhecimento necessário nesses campos, mas a criação nunca deve ser vista como algo que é independente do seu criador.

O cristão, e a cosmovisão cristã, vêem a criação como impossível de ser estudada – em coerência e verdade – sem considerações ao papel fundamental da pessoa de Deus (na criação e manutenção dela) e sem que sejam traçados os elos, de propósito e utilidade, aos preceitos das Escrituras. Quando essa conexão se faz ausente, caímos na falsa ciência (1 Tm 6.20) e na cosmovisão evolucionista que domina os círculos intelectuais contemporâneos descrentes, chegando a influenciar fortemente e confundir aos próprios cristãos.


Saúde
O propósito do estudo da saúde e da educação física é o cuidado dos nossos corpos para a glória de Deus. Essa perspectiva da cosmovisão cristã difere da compreensão contemporânea do chamado “culto do corpo”. Somente Deus é para ser cultuado e o fazemos com nossas mentes e corpos. Um corpo saudável nos possibilita o serviço diligente à causa do mestre e realizar os deveres que nos são comandados. Assim, os princípios de termos dietas saudáveis, o exercício sistemático, o descanso apropriado – são todas áreas de ênfase, nesta esfera de conhecimento, para que nossa saúde se mantenha em excelência, para a glória de Deus. Devido ao pecado as pessoas têm a tendência à preguiça e indolência. O exercício físico e os esportes, combinados com a santificação do caráter interno, condicionam o corpo ao comando da mente; encorajam o desenvolvimento da auto-disciplina.

A participação em competições encoraja as pessoas a se manterem dentro das regras estabelecidas e a aceitarem o direcionamento de pessoas em posição de autoridade, bem como ao trabalho em grupo e ao desenvolvimento das habilidades, pela prática constante. Praticadas sob princípios cristãos de comportamento, as competições esportivas ensinam a manifestar graça tanto na vitória como na derrota. Na cosmovisão cristã, as atividades relacionadas com a saúde e educação física, nunca são um fim em si, nem se sobrepõem a outros deveres humanos, mas são áreas que compõem e servem de base ao desenvolvimento de uma vida de serviço a Deus.


Geografia
Para que o homem exerça o domínio sobre a terra, como Deus comanda, ele necessita ter um conhecimento prático de geografia. Nesse estudo ele deve levar em consideração os dados da Palavra de Deus, bem como os relatos históricos do grande cataclismo que foi o dilúvio e seus efeitos sobre a aparência e configuração da terra. Ignorar este evento e suas implicações, é o caminho seguido pelos eruditos descrentes contemporâneos, mas as conclusões a que chegam divergem consideravelmente da realidade e veracidade à qual pode chegar aquele que possui uma cosmovisão cristã.

Aprendemos nas escrituras, igualmente, a origem das nações, no incidente da Torre de Babel. Considerando esse fato, o estudo terá um direcionamento mais adequado. O estudo da geografia possibilitará entender como as diferentes configurações, climas, limites e recursos afetam a vida e a economia das nações. Em uma cosmovisão cristã, estaremos vendo Deus como regente da história e das nações operando o seu plano soberano de forma linear, na terra. O estudo da geografia também nos possibilita o acompanhamento do avanço do Reino de Deus, na terra, e como podemos nos empenhar ao avanço das missões a cada terra e nação.


História
A Bíblia revela, claramente, que Deus é Senhor da história. Ele governa os povos e nações por intermédio de sua providência. Ele age tanto direta, como indiretamente na história, derramando bênçãos e executando julgamentos sobre a terra (Dt 28). A Palavra de Deus registra profecias e muitas dessas já foram cumpridas, demonstrando que não somente a história foi planejada por Deus, mas se desenrola de acordo com o seu propósito. Todos os aspectos da história (antiga, medieval, moderna e contemporânea) devem ser vistos como a regência soberana de Deus sobre os atos dos homens, na terra. Tantos os indivíduos como as nações devem prestar contas a Deus. A história e os atos de Deus, nela, nos ensinam a viver o presente.

Estudar a história, sem a perspectiva da cosmovisão cristã, leva a um conceito errôneo de que as seqüências de eventos são aleatórias e sem propósito. Deus se entrelaça com a história da forma mais intensa. Não somente regendo-a de forma transcendente, mas interagindo poderosamente com ela, em Cristo Jesus. Esse é o ponto chave da criação. Um estudo da história que considere a vinda e vida de Cristo apenas um pequeno incidente a ser (imperfeitamente) relatado, é um estudo distorcido e inconseqüente. O fato da queda, é histórico, e também um ponto chave na compreensão dos incidentes históricos subseqüentes, da maldade humana motivadora das guerras e dissensões, bem como na necessidade do Messias redentor.

A teologia verdadeiramente relacional, é a reformada, que apresenta o Deus soberano verdadeiramente se relacionando com a sua criação. História é o registro desses relacionamentos. O plano de Deus é convergir todas as coisas em Cristo (Ef 1.10). A história tem, conseqüentemente, um propósito. O seu significado e interpretação se acham na compreensão de Cristo.

História é mais do que uma crônica de nomes, datas, lugares e eventos. História é o estudo da moral e do pacto feito entre Deus e o homem. Todos os eventos anteriores à crucificação, levam a ela e apontam a ela. Todos os subseqüentes, levam à vitória final, profetizada e à exaltação de Cristo. O estudo da história, sob a cosmovisão cristã, revelará as tentativas fúteis de homens que procuraram estabelecer o reino dos homens, em vez de procurarem o Reino de Deus.


No próximo post, pretendo dar continuidade ao que entendo como Cosmovisão Bíblica, desta vez nas áreas - Sociedade, Governo, Economia, Cultura, Arte e Tecnologia.

[1] Para um aprofundamento nesse relacionamento das diversas áreas com a Palavra de Deus, procure adquirir a Enciclopédia das Verdades Bíblicas, de Ruth C. Haycock – excelente livro recém-traduzido para o português, pela ACSI. Também utilizamos bastante material do Biblical Worldview Curriculum.
Leia Mais

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Solano Portela

Afinal, que bicho é esse de que tanto se fala? COSMOVISÃO para leigos (1).

Você vai ouvir cada vez mais a palavra Cosmovisão. Apesar dela não fazer parte de nosso vocabulário diário, ela sempre foi muito usada nos meios teológicos e filosóficos e é imprescindível que o resto de nós, leigos, tenhamos a compreensão do que ela representa. É um pássaro? É um avião (até rima)? É um bicho exótico - e será que ele morde?

Simplificadamente, cosmovisão é a compreensão que uma pessoa tem do mundo, do universo que a cerca, da vida. O alemão expressa esse significado com a palavra weltanschauung. O inglês, como worldview, ou com a combinação: world and life view. O significado, principalmente no alemão, abrange mais do que simplesmente a visão do universo físico. É nesse sentido que a devemos utilizar. Para o cristão, a cosmovisão cristã vai colocar o entendimento do universo como criação de Deus, e todas as esferas de conhecimento, possíveis de estarem presentes na humanidade, como procedentes do Deus único e verdadeiro, Senhor do universo, comunicadas a nós por Cristo “...no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3)”.

Disse que você vai ouvir cada vez mais esta palavra, porque está em andamento uma movimentação muito intensa, no meio evangélico, para estabelecimento de escolas evangélicas, que ensinem todas as matérias a partir da perspectiva cristã da vida. Para isso, há a necessidade de que se ensine e se dissemine uma cosmovisão cristã. A fé cristã deixa de ser uma “questão religiosa” para o domingo, mas volta a assumir o seu posto original, e que havia sido resgatado pela reforma do século 16.

O curioso, é que esse movimento por escolas cristãs, tem características interdenominacionais. A fé reformada sempre enfatizou a questão da cosmovisão cristã. Agora, esse tesouro está sendo procurado por segmentos que até pouco tempo rejeitavam qualquer coisa que tivesse o mais remoto relacionamento com o calvinismo. O que pregadores e autores, durante anos, não conseguiram, Deus, em sua soberania, está fazendo – com a absorção, pela necessidade, dos conceitos transmitidos na idéia de uma cosmovisão cristã.

Nesse sentido, Deus tem sido pregado como soberano real do universo em comunidades teologicamente arminianas. Escolas de igrejas que “fogem” da teologia reformada, não piscam quando livros tais como: Calvinismo (de Abraham Kuyper) e E Agora, Como Viveremos (que tem como co-autora Nancy Pearcey – que estudou com o filósofo e teólogo calvinista, Francis Schaeffer), são recomendados, apresentados e suas idéias ensinadas. Tais círculos têm compreendido que é impossível se praticar a verdadeira educação das esferas de conhecimento, sem a coesão proporcionada por uma cosmovisão cristã reformada, na qual Deus é verdadeiramente regente do universo, e não um mero espectador, que reage às circunstâncias, procurando “consertar” as coisas.

Por isso é necessário que o pastor e líder cristão, e até nós, leigos, tenhamos uma boa compreensão deste tema. Porque precisamos também orientar os irmãos e familiares nesse entendimento. Cosmovisão cristã, também, tem tudo a ver com o estudo de Governo e Economia, e outras áreas de conhecimento e de atividades humanas que, para serem adequadamente compreendidas e exercitadas, não podem ser divorciadas dos princípios contidos nas Escrituras.

É óbvio que para o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã é crucial a pertinência e a necessidade da Palavra de Deus, para compreensão e envolvimento nosso, com o mundo em que vivemos. Mas, nesses posts, agora, quero focalizar a nossa atenção no conceito de cosmovisão, mostrando como existe um relacionamento de todas as atividades humanas, com o rumo traçado nas Escrituras para a criação.

Falar em cosmovisão no singular ou sem qualificá-la, somente, não resolve. Cada filosofia, cada forma de ver e entender as coisas, é uma cosmovisão em si. Norman Geisler diz que a “cosmovisão é análoga à lente intelectual através da qual as pessoas vêem a realidade. A cor da lente é um fato fortemente determinante para contribuir o que elas crêem acerca do mundo”. Ele continua, indicando que toda cosmovisão “procura explicar como os fatos da realidade se relacionam e se ajustam uns aos outros”. Além disso, a cosmovisão se preocupa com “as conseqüências lógicas associadas a viver de acordo com as convicções” sustentadas como verdadeiras.[1]

Por isso, devemos considerar sempre a cosmovisão cristã. Nossa lente são as nossas premissas. Nossas premissas são verdadeiras, porque se fundamentam na revelação de Deus ao homem – As Escrituras. Não precisamos pedir desculpas por nossas pressuposições, apenas devemos reconhecê-las claramente e demonstrar que todas as demais cosmovisões possuem suas próprias pressuposições. Quando falamos de cosmovisão cristã, portanto, já expressamos o entrelaçamento de nossa visão do universo e da vida, com as premissas da nossa fé cristã, reveladas de forma objetiva e proposicional nas Escrituras.

No próximo post vou dar um tratamento resumido sobre o relacionamento da fé cristã com algumas áreas do conhecimento humano.


[1] Norman Geisler, Fundamentos Inabaláveis, p. 53.
Leia Mais

sábado, janeiro 13, 2007

Solano Portela

E agora, o MEU comercial…

Caros amigos:

Chega aquele momento inexorável da mídia onde nos empenhamos em mostrar as qualidades daqueles que nos apóiam, cuidam de nós, e em fazer a devida propagandazinha. Não pensem que estavam imunes disso, neste BLOG!

Quero divulgar o site “Crônicas do Cotidiano”, cujo link está aí ao lado, escrito por escritora que conheço há 37 anos e com a qual estou casado há 33! Betty Portela, tem escrito um artigo trimestral em revista da Igreja Presbiteriana. Mesclando realidade com ficção, ela entrelaça o nosso cotidiano com princípios extraídos da Escritura. Se você gosta de uma crônica, de boa literatura e se preocupa em refletir as questões do dia-a-dia à luz da Palavra, pode gostar muito do que vai encontrar lá.

Dêem uma passadinha por lá e, se gostarem, deixem um comentário. Isso irá motivar a autora e fará maravilhas à manutenção da harmonia conjugal!!

Um abraço,

Solano
Leia Mais

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

A Religião dos Liberais-Esquerdistas

Por     83 comentários:
Em 1923 J. Gresham Machen publicou Cristianismo e Liberalismo, em que mostrou claramente que o liberalismo era uma religião, e uma bem diferente do Cristianismo. Apesar da denúncia, a religião dos liberais cresceu e permeou todas as áreas do mundo ocidental moderno cristão, particularmente a política. Uma obra recente que delineia a religião do liberalismo e sua influência é Godless -- The Church of Liberalism [Sem Deus -- A Igreja do Liberalismo] de Ann Coulter. Comprei o livro (ainda não traduzido) e aproveitei minhas férias aqui em Recife para lê-lo (foto). Já estou chegando ao fim e também a algumas considerações sobre o seu conteúdo.

Ann Coulter é uma cristã que freqüenta com alguma regularidade a Redeemer Church, do Tim Keller, pastor presbiteriano conhecido nosso nos Estados Unidos. Republicana, conservadora, Coulter é advogada, jornalista, colunista de diversos periódicos americanos e escritora de sucesso, com vários livros na lista de best-sellers do The New York Times, inclusive esse último. Ann Coulter é uma crítica mordaz, ferrenha e destemida dos democratas-liberais esquerdistas americanos, aos quais se refere abertamente como retardados, traidores, covardes e inimigos de Deus, do Cristianismo e da América.

Godless é voltado para o público americano e expõe a falácia e incoerência dos principais pontos defendidos pelos liberais democratas americanos, naquilo que Coulter chama de "a Igreja do liberalismo". Podemos ter alguma dificuldade no entendimento de suas teses porque para a maioria dos brasileiros todos os americanos são apoiadores do Bush, direitistas e retardados. Apesar da linguagem ácida e debochada (eu provavelmente não liberaria comentários dela aqui no blog...) Coulter é extremamente bem informada e usa essas informações com muita inteligência – apesar de ser loura e usar uma mini-saia – e com uma ironia fina que arranca risadas freqüentes dos leitores (que concordam com ela, é claro). Tudo isso é empregado de maneira eficaz para detonar a religião do liberalismo político e expor seus defensores. Entre as risadas que dei lendo o livro na rede à beira-mar, aprendi que existe uma extraordinária semelhança entre a religião dos democratas-liberais esquerdistas de lá e aquela dos esquerdistas daqui. Menciono algumas, lembrando que aqueles que ela chama de liberais no contexto americano equivale mais ou menos aos esquerdistas do Brasil. Também não preciso dizer que apesar de generalizar, estou consciente de que há várias exceções.

1. Os liberais-esquerdistas são contra a punição de malfeitores como estupradores, assassinos, assaltantes a mão-armada e terroristas. Por não acreditarem no estado de queda e depravação moral e espiritual em que os homens vivem, defendem a possibilidade de reabilitação dos piores criminosos mediante a melhoria da auto-estima deles, programas de reabilitação administrados pelo Estado e psicólogos profissionais. São contra prisão perpétua, pena de morte, e a construção de mais prisões e detenções. São a favor de indultos, diminuição de pena e de devolver à sociedade bandidos perigosos para que se reintegrem e se tornem bons cidadãos. Esse seria um dos mandamentos da religião do liberalismo: “não punirás o malfeitor”.

2. Os mártires da religião liberal-esquerdista são geralmente esse pessoal. Nos Estados Unidos, assassinos seriais como Ted Bundy ganham fã-clube e seguidores, além de defensores entre homens e mulheres públicos. Recentemente, o estuprador e assassino Willie Horton ganhou notoriedade e milhares de defensores por que seus crimes foram considerados como armação de brancos preconceituosos – Horton é afro-descendente. Na mídia mundial liberal, Saddam Hussein já começa a tomar os contornos de herói e mártir.

3. O ponto de honra da religião liberal-esquerdista é o aborto, equivalente a um sacramento. Liberais-esquerdistas fazem o seu principal cavalo de batalha do direito da mulher abortar em qualquer período da gestação. Coulter diz que a razão é que os liberais odeiam os seres humanos e querem destruir o maior número possível de fetos. Nessa mesma linha, defendem o casamento gay porque gays não se reproduzem.

4. Os templos da Igreja liberal-esquerdista são as escolas públicas e os sacerdotes são os professores. Os liberais conseguiram transformar a rede pública de ensino em templos onde sua religião secularista-humanista-evolucionista é ensinada, onde o Cristianismo é proibido, onde nossos filhos aprendem desde cedo que a sexualidade precoce é natural, que ser gay é OK, que é legal usar camisinha e o “liberou-geral”, tudo isto à custa dos impostos pagos inclusive por aqueles que não mandam filhos para as escolas públicas e nem aceitam essas premissas ou a religião dos liberais. Aqui no Brasil, isso se estende à esfera governamental, com seus anúncios permissivos pagos com nossos impostos, bem como às universidades públicas.

5. Os liberais-esquerdistas são inimigos da ciência que considera as realidades de Deus, e se pudessem, queimariam todos os livros verdadeiramente científicos, como no passado houve queima de Bíblias. A religião liberal só aprecia a ciência quando ela aparenta contradizer o Cristianismo histórico. Toda vez que a ciência contradiz algum dogma da sua religião, os liberais estão prontos a reagir, protestar, desautorizar e renegar o valor das pesquisas e conclusões. Fizeram isso quando pesquisas científicas feitas por cientistas de Harvard, Cambridge e outros, mostraram que o QI das pessoas é genético (isso desbanca o dogma da igualdade de todas as raças por causa da evolução), que os homens são mais aptos para ciência e engenharia do que as mulheres (isso ataca o dogma da igualdade plena homens e mulheres), que o vírus da AIDS discrimina mesmo, atacando gays em 90% dos casos comprovados de AIDS (isso ameaça o dogma que ser gay é normal e natural e até desejável), que o aquecimento global não é tão sério como os ambientalistas – geralmente liberais-esquerdistas – propagam (isso ataca o dogma de que a vida humana tem menos valor que o meio-ambiente), que células-tronco de adultos são eficazes e têm já produzido efeito na cura de doenças graves, muito mais que o uso de células tronco de embriões (isso ataca o sacramento liberal de exterminar com o maior número possível de fetos), e por ai vai.

6. A premissa fundamental da religião liberal é a teoria da evolução. Apesar de 150 anos terem decorrido desde a publicação de Origem das Espécies os liberais continuam sem evidências fósseis da seleção natural e da evolução de uma espécie em outra mais adaptada. Quanto mais mergulhamos no conhecimento profundo do mundo e suas maravilhas, menos e menos plausível o evolucionismo se torna, a ponto de cientistas ateus, que rejeitam a evolução, procurarem outras alternativas para a origem da vida (que tal incluir Deus entre as opções?). Apesar de tudo, evolucionismo é dogma intocável e não passível de discussão nos templos liberais do ensino público. A única religião e a única fé que os liberais realmente desejam excluir das escolas e universidades é o Cristianismo. A religião que continua a defender pela fé o evolucionismo é mantida, nutrida e ensinada aos nossos filhos, usando nossos impostos.

Posso não concordar com o estilo mordaz de Coulter e nem com algumas colocações bem mais radicais do que estou pronto a endossar, mas estou impressionado com a percepção clara que ela tem daquilo que está realmente em jogo. A Igreja do liberalismo-esquerdista está no Brasil também, com seus templos, sacerdotes, dogmas e sacramentos. Em contraste com os Estados Unidos, cristãos históricos no Brasil ainda não são bem articulados, organizados e têm pouco acesso à mídia. Todavia, temos esperança de que, considerando as inconsistências internas do liberalismo, o crescente interesse pelo Cristianismo histórico e os esforços pequenos porém constantes de indivíduos em mostrar o outro lado, dias melhores poderão chegar.
Leia Mais

domingo, dezembro 31, 2006

Solano Portela

Saddam, o estado vingador e o Rio de Janeiro


O mundo inteiro está comentando a morte de Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque. Os jornais e programas de notícias têm apresentado não somente os detalhes da execução realizada após um conturbado julgamento, mas também as reações e pronunciamentos de autoridades diversas, entre as quais a do governo brasileiro. Além da condenação à execução pronunciada pelo Itamaraty, o nosso chefe maior declarou igual discordância, pois ela representava apenas um ato de vingança e ele era contra a pena de morte por convicção, primeiramente religiosa e depois política. Declarações semelhantes têm sido emitidas pelos mais diversos comentaristas e personalidades chamadas para entrevistas sobre o acontecimento.

A notícia veio obscurecer o item anterior que tomava conta da atenção dos brasileiros – os ataques seqüenciados contra postos policiais, populares e ônibus incendiados com sua carga de cidadãos indefesos, por criminosos, em mais uma cruel demonstração de força evidenciando a falência cada vez mais intensa da instituição do estado.

O que esses temas aparentemente heterogêneos têm em comum e, como cristãos, qual deve ser nossa percepção e discernimento dos tempos? Algumas observações podem ser emitidas, neste momento:
  1. Precisamos nos resguardar da beatificação de Saddam Hussein. Li a carta que ele escreveu – parecem procedentes das mãos de um anjo, e muitos estão apresentando essa visão nostálgica em seus comentários. A história não deve esquecer as atrocidades cometidas por ele e sua gangue. Não somente o genocídio e a aniquilação em larga escala, como a ferocidade com que eliminaram os desafetos e membros da própria família, quando os contrariaram (as estimativas são de que em seus 24 anos de regência, foi responsável pela morte de mais de 2.000.000 de pessoas). Os próprios jornais destes dias, ao darem o seu histórico, desfilam um rosário impressionante das barbaridades do seu regime. A suposta calma interna do país, observada sob sua regência, era vivida às custas do terror oficial e da tirania. Isso não significa que o Iraque esteja atualmente vivendo um período de calma e paz. Tenho sido um crítico do modus operandi norte-americano, em vários escritos. Não por terem ido lá e tentado “limpar a casa”, mas porque demonstraram total inabilidade em estruturar um governo de transição, que garantisse exatamente o que minimamente deveria estar presente – a segurança dos cidadãos e os serviços públicos essenciais. O descaso e despreparo do início; a inércia perante os rufiões armados que pilhavam e maltratavam os mais fracos; a tolerância com as milícias; a permissividade e despreparo dos que deveriam estabelecer a ordem, mas perpetuaram as prisões como câmaras de tortura; a ingênua avaliação do lado obscuro e malévolo do islamismo; todos esses fatores resultaram no crescimento dos grupos que diariamente se matam uns aos outros. Entretanto, não tenho qualquer dúvida que Saddam merecia ser deposto e ser alvo de justiça retributiva pelos crimes cometidos. Contrário ao que afirma manchete da Folha de São Paulo (30.12.2006), que a execução é uma “derrota da justiça”, esta é uma das poucas vezes em que a justiça implacável prevaleceu acima da visão humanista, açucarada e diluída, que permite que tiranos assassinos dêem continuidade à sua arrogante vida de violência.
  2. Ser-se pressuposicionalmente contra a pena de morte, sem o exame das bases lógicas e político-religiosas para esta penalidade é um erro. Se o nosso presidente tivesse realmente convicções religiosas cristãs, nesta matéria, não seria contra, mas a favor. Em outro lugar já escrevi sobre a Pena Capital – indicando a base bíblica para sua aceitação (caso tenha interesse de ler o ensaio todo, clique aqui), e não caberia, neste espaço, uma repetição dos argumentos. Mas a Pena Capital foi instituída por Deus (Gênesis 9.6), e não pelo homem, exatamente porque ele dá valor à vida do ser humano, formado à sua imagem e semelhança, e não por que a considera uma comodidade barata. Ela é exatamente uma medida contra a violência. Deus abomina a violência e aqueles que atentam contra a vida humana perdem o direito à própria vida. É um erro acreditar que ela é o reflexo de uma sociedade primitiva, e que hoje já evoluímos socialmente e adquirimos um novo patamar de entendimento – o próprio Deus, através da pena inspirada de Paulo, a comanda e delega a sua aplicação ao estado (Romanos 13.1-7), e isso no Novo Testamento.
  3. Isso não significa que a execução de Saddam represente uma ocasião de alegria. A morte é sempre ocasião de tristeza – ela não pertence à essência da criação perfeita. Ela é concretamente fruto do pecado, salário deste, conseqüência nefasta do nosso afastamento de Deus, como bem postou em seu Blog nosso irmão Juan , comentando os acontecimentos do Rio. Até a morte do malfeitor, por mais que venha em resultado da justiça e por mais que profilaticamente proteja a sociedade de crimes adicionais que ele poderia cometer, é momento de sobriedade, reflexão e tristeza, principalmente porque a vida que se foi não alcançou o seu propósito máximo e original – de glorificar o criador com as suas ações e pensamentos. Assim, sou contra as manifestações públicas e privadas de regozijo pela morte de Saddam, bem como, pelos motivos já expostos, contra os protestos, inconseqüentes contra a sua execução, insensíveis aos antecedentes históricos que a justificam.
  4. E quanto à colocação presidencial de que a execução foi um ato de vingança? Ela é precisa e real, mas não precisamos pedir desculpas por aceitá-la como tal. Vingança é um sentimento que não cabe na vida pessoal do cristão. Como cristãos, somos pessoas pacíficas, perdoadoras – voltamos até a outra face. No entanto, isso não significa que somos insensíveis à justiça, nem coniventes com o erro. A Palavra de Deus nos leva a Deus, apresentando-o como o nosso vingador (Salmo 9.11-12; Naum 1.2). Ela apresenta Deus como aquele que faz justiça aos fracos e oprimidos e vinga os direitos que são subtraídos (1 Tessalonicenses 4.6). De que maneira? Trazendo conseqüências danosas aos criminosos; e uma das maneiras que ele faz isso é através do estado – a este é delegado esse poder (Romanos 13.4: “... visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”). Isso mesmo, se a vingança não deve fazer parte de nossa vida é porque ela foi institucionalmente colocada nas mãos do estado. Os governantes e autoridades são (ou deveriam ser) ministros de Deus para executar justiça e proteger os cidadãos. Quem vinga os curdos indefesos – mulheres e crianças, que foram massacrados por Saddam? E as demais pessoas que pereceram em suas mãos? Eles nada mais podem fazer, mas o estado vingador entra em ação e executa justiça.
  5. E o Rio de Janeiro? É exatamente essa, a conexão com os últimos acontecimentos de violência na Cidade Maravilhosa e linda que está cada vez mais refém, a exemplo de São Paulo e outra regiões do nosso país. Quem vingará os cidadãos calcinados nos ônibus incendiados? Quem vingará os que ainda agonizam nos hospitais, com os corpos queimados, possivelmente desfigurados até o fim de seus dias? Quem vingará a vida da mãe que morreu tentando proteger o seu filho? Quem vingará os que foram friamente assassinados? Quando perdemos essa visão de que o estado é, realmente, o vingador, o executor da justiça implacável, a população fica a mercê dos criminosos. Quando nossos governantes emitem palavras que soam piedosas, humanistas e politicamente corretas, mas que revelam um estado fraco e impotente em frente à criminalidade e aos criminosos, temos palavras que são realmente mortais para os fracos e oprimidos, vítimas da violência insana. Além disso, temos um outro aspecto ainda mais cruel. Um articulista da Folha expressou o problema de acúmulo de cargos do Sr. Álvaro Lins, que acaba de ser eleito deputado: ex-chefe da polícia do Rio de Janeiro e, segundo a Polícia Federal, concomitantemente, chefe de quadrilha. Esse é um dos maiores problemas brasileiros – o acúmulo desses cargos por vários integrantes da classe política, várias autoridades governamentais e inúmeros policiais – muitos possuem não somente os seus postos de autoridade, mas são igualmente chefes de quadrilhas. Esse acúmulo de funções é mortal à instituição do estado e à população. Essas pessoas de vida dupla, corrompidas se alimentam do sangue e da vida dos cidadãos que deveriam estar protegendo. É por isso que anualmente, no Brasil, 50.000 vidas são ceifadas por assassinatos, apenas! Muito menos que no Iraque, sob Saddam (tirando a média dos seus 24 anos no poder, as estimativas são de que ele foi responsável pela matança de 41.000 pessoas de outros países vizinhos por ano, mais 42.000 pessoas por ano do seu próprio povo), mas muito mais do que no Iraque de hoje (cerca de 30.000 por ano), com toda a convulsão social, carros bomba e estágio pré-guerra civil que vigora naquele país.

Que Deus se apiede de nós em 2007 e nos conceda mais paz e justiça, conscientizando aqueles que estão em autoridade de sua real missão e obrigações perante Deus e para com os homens. Que tenhamos uma visão mais cristalina e mais bíblica da justiça. Intercedamos por isso (1 Timóteo 2.1-2).
Leia Mais

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Solano Portela

Calvino Contra o Natal?

Cristãos Contra o Natal!

Como bem observou o Augustus, em seu último post, o impossível está acontecendo: temos um movimento crescente de “Cristãos Contra o Natal”! A chamada “festa máxima da cristandade” está sob ataque cerrado de vários flancos e desta vez a luta é interna! Multiplicam-se os textos e os posicionamentos não apenas contra as características eminentemente comerciais do feriado (esse viés sempre foi um legítimo campo de batalha dos cristãos), mas somos alertados que o Natal não é nada mais do que um feriado pagão assimilado pela igreja medieval, e que persiste no campo evangélico apenas por desconhecimento do seu histórico. Essa origem, além da exploração comercial, inviabilizaria a sua observância religiosa pelos cristãos sendo fútil a tentativa de se resgatar o conceito abrigado no desgastado chavão do “verdadeiro sentido do Natal” (postei algo sobre isso em 20 de dezembro de 2005).

A literatura já nos brindou com alguns exemplos de personagens que não gostavam do Natal. Temos Charles Dickens, no livro Um Conto de Natal (teria sido melhor traduzido como “Um Cântico de Natal”),[1] trazendo a história de Ebenezer Scrooge, durante um período de festividades natalinas. Scrooge era um homem rico, não ligava para ninguém; desprezava as crianças pobres; era avarento e egoísta. Teve, entretanto, um sonho no qual empobrece, modificando sua atitude para com a data. A mensagem de Dickens é que a “essência” do Natal conseguiu derreter aquele coração endurecido. Outro personagem famoso é o Grinch – da pena do escritor Dr. Seuss, que publicava seus contos em rimas. Ele escreveu Como Grinch Roubou o Natal,[2] que virou, anos atrás, um filme com o ator Jim Carey. A história retrata Grinch como uma criatura mal-humorada que tem o coração bem pequeno. Ele odeia o Natal – pois não consegue ver ninguém demonstrando felicidade – e planeja roubar todos os presentes e ornamentos para impedir a celebração do evento em uma aldeia perto de sua moradia. Para seu espanto, a celebração ocorre de qualquer maneira. A mensagem de Seuss é que a “essência” do Natal não estava nos presentes ou nos ornamentos – transcendia tudo isso.

Obviamente os “Cristãos Contra o Natal” não têm relação com qualquer desses personagens, ou com aquele outro, registrado nas páginas das Escrituras Sagradas, que também odiou o Natal – o Rei Herodes,[3] mas parece que está virando moda termos cristãos contra o Natal. Além das razões relacionadas com as origens e da distorção comercial já mencionada, temos cristãos que apresentam algumas razões teológicas firmadas em suas convicções do que seria ou não apropriado ao culto e celebrações na Igreja de Cristo.

Cristãos Reformados Contra o Natal!No campo reformado, principalmente entre presbiterianos e batistas históricos, os argumentos contra o Natal são ampliados com uma veia histórica. Pretende-se provar que a verdadeira teologia da reforma e, principalmente, os reformadores e seus seguidores próximos, foram avessos à celebração do Natal. Argumenta-se que a celebração do Natal fere o “princípio regulador do culto”, defendido pela ala reformada da igreja. Conseqüentemente, se desejamos ser seguidores da reforma, teríamos que, coerentemente, rejeitar a celebração desta data. Nessa linha de entendimento, muitos artigos têm sido escritos[4] presumindo uma linha uniforme de pensamento nos teólogos reformados e correntes denominacionais reformadas no que diz respeito à rejeição da comemoração do Natal. Normalmente, também, o raciocínio se estende a outras datas celebradas no seio da cristandade, tais como a páscoa, que seriam igualmente condenáveis no calendário cristão. Por vezes, a defesa apaixonada deste ponto de vista tem resultado em dissensões e desarmonia no seio da igreja, ou de demonstração de um espírito de superioridade espiritual e auto-justiça, com críticas mordazes e ferinas aos que não se convenceram do embasamento teológico, histórico ou bíblico para a rejeição.

Deixando de lado a questão das origens – se elas têm a força de determinar a correção de uma observância religiosa – o que seria um ensaio à parte, será que a opinião dos reformadores foi sempre uniforme com relação à celebração do Natal e de outras datas importantes ao cristianismo? Será que houve sempre tanta harmonia assim, nas denominações reformadas, com relação à rejeição da comemoração do Natal resultando nessa tradição monolítica? Será que Calvino, realmente, se posicionou contra o Natal? Será que procede o que me escreveu uma vez um irmão reformado, dizendo que a rejeição do Natal seria “coerente com a fé cristã bíblica e reformada, principalmente com a posição presbiteriana histórica, a partir de Calvino e Knox”?

Calvino Contra o Natal?
A primeira coisa que temos a observar é que essa hipotética concordância entre Calvino e Knox não existiu. Nem há uma visão monolítica, sobre a questão, no seio reformado histórico, como muitos pretendem transmitir. Aquele irmão, em sua carta, desafiava: “por favor cite uma fonte primaria de onde Calvino aprova o Natal ou recomenda o mesmo”.

Bom, se é isso que vai ajudar, vamos a ela: uma das fontes primárias é uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551 (Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858). Nela, Calvino escreveu: “Priusquam urbem unquam ingrederer, nullae prorsus erant feriae praeter diem Dominicum. Ex quo sum revocatus hoc temperamentum quae sivi, ut Christi natalis celebraretur”.

Para alguns, isso bastaria para resolver a questão, mas para o resto de nós – entre os quais me incluo, a versão ao vernáculo é necessária. Possivelmente, uma tradução razoável para o português, seria (agradecimentos ao Rev. Elias Medeiros): “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação afim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”.

Uma outra carta, de março de 1555, para os Magistrados (Seigneurs) de Berna, que aderentemente eram contra a celebração do Natal, diz o seguinte: “Quanto ao restante, meus escritos testemunham os meus sentimentos nesses pontos, pois neles declaro que uma igreja não deve ser desprezada ou condenada porque observa mais festivais do que outras. A recente abolição de dias de festas resultou apenas no seguinte: não se passa um ano sem que haja algum tipo de briga e discussão; o povo estava dividido ao ponto de desembainharem as suas espadas” (mesma fonte). No contexto, Calvino parece indicar que os oficiais que haviam abolido a celebração tinham boas intenções de eliminar a idolatria (vamos nos lembrar da situação histórica), mas parece igualmente claro que ele indica que, se a definição estivesse em suas mãos teria agido de forma diferente.

Historicamente, Knox e a igreja a Igreja Escocesa seguiram a opinião dos oficiais de Genebra. Ou seja, em seu contexto histórico de se dissociar de tudo que era catolicismo, reforçou a abolição das festividades, nas igrejas. Mas não esqueçamos que ele também rejeitou instrumentos musicais, cânticos, e várias outras formas de adoração – os “Reformados Contra o Natal” estão dispostos a segui-lo em tudo, como parâmetro infalível?

Ocorre que Calvino é sempre apontado como uma força instigadora e radical, na gestão de Genebra. Na realidade, entretanto, ele agiu, em muitos casos (como no incidente de Serveto) como um pólo de moderação e encaminhamento, mas nem sempre sua opinião prevaleceu. O governo de Genebra era conciliar e fazia valer a visão da maioria. Por exemplo, o Rev. Hérmisten Maia Pereira da Costa aponta que a persuasão de Calvino era a de que a Santa Ceia devia ser celebrada semanalmente, enquanto que nas cidades de Berna e Genebra, no máximo era celebrada quatro vezes por ano. Calvino deu até o que poderíamos chamar de um “jeitinho reformado” ou de um “jogo de cintura” notável. Hérmisten cita: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais freqüente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha” [William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141] Costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].

Hérmisten aponta também que em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd. John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141]. A conclusão óbvia é a citada pelo Hérmisten: “As cinco festas da Igreja Reformada eram: Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa, Assunção e Pentecostes” (Cf. Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 28)]. Podemos dizer que não havia, na essência da questão, celebração do Natal, em Genebra?

A suposta unidade monolítica e histórica dos reformados, sobre esta questão das celebrações de festividades do chamado “calendário cristão” é mais um mito do que verdade. Ousaríamos rotular o Sínodo de Dordrecht (Dordt) de “não reformado” – justamente de onde extraímos os Cinco Pontos do Calvinismo (em 1618)? Pois bem, em 1578, temos a seguinte decisão: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão a congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”. Assim, as igrejas reformadas procedentes do ramo holandês comemoram várias dessas datas até em dose dupla (incluindo o dia seguinte). Augustus mencionou não somente este trecho, mas adicionou a admissão dessa visão na Confissão de Fé de Westminster (Cap. 21) e na Confissão Helvética (XXIV). Não ve, igualmente, dano na celebração do Natal, um outro ícone reformado, Turretin (1623-1687)[5]. Ou seja, a rejeição do Natal, atualmente “ressuscitada”, não tem o respaldo histórico-teológico que pretende ter.

Obviamente todos esses referenciais históricos são importantes, mas o que firma a nossa convicção é a Palavra de Deus e nela aprendemos que a questão das origens não determina a propriedade, ou não, de uma coisa ou situação, mas sim a atitude de fé do utilizante. Isso pode ser extraído de um estudo de 1 Coríntios 8.1-13; ou examinando como os artefatos e itens preciosos, surrupiados pelos Israelitas dos Egípcios (imediatamente antes do Êxodo), muitos dos quais com certeza utilizados em cultos e festividades pagãs, foram utilizados em consagração total (e sem restrições) no Tabernáculo (Ex 35 a 39). Das Escrituras, podemos inferir, possivelmente, que Jesus participou de celebrações de festividades que não procediam das determinações explícitas da Lei Mosaica, mas que refletiam ocorrências históricas importantes na história do Povo de Deus – como as festas de Purim[6] e Hanucah[7] – deixando implícita a propriedade dessas celebrações, como algo que, provém “de fé”, não sendo, portanto, pecado. Romanos 14 e 15 trazem considerações sobre tais questões, demonstrando a necessidade da consciência pura, ao lado da preocupação com os irmãos na fé, para que procuremos “as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (14.19). É lá igualmente que lemos (14.5): “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias; cada um esteja inteiramente convicto em sua própria mente”. Se Deus decidiu não disciplinar condenatoriamente a questão, não o façamos nós.

Um Feliz Natal Reformado a todos!


[1] Charles Dickens, Um Conto de Natal (S. Paulo: Rideel, 2003), 32 pp.[2] Dr. Seuss, Como Grinch Roubou o Natal (S. Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000), 64 pp.[3] Mt 2.1-18. Herodes, conhecido como “o Grande” e “Rei dos Judeus”, nasceu em 73 a.C. Filho de Antipater II – era da região chamada induméia e foi indicado pelo imperador romano Júlio César como “governador da Judéia”.[4] Veja, por exemplo, Brian Schwertley e seu artigo “The Regulative Principle of Worship and Christmas”, postado, entre outros sites, em: http://www.swrb.com/newslett/actualnls/CHRISTMAS.htm (acessado em 18.12.2003).[5] Turretin admite as celebrações de dias especiais pelas igrejas, desde que estes não sejam impostos por elas como matéria de fé, ou considerados mais santos do que os demais. Referindo-se à censura de igrejas que haviam escolhido não celebrar o Natal e outras datas, sobre outras igrejas cristãos, ele escreve: “não podemos aprovar o julgamento rígido daqueles que acusam essas igrejas de idolatria” (Institutes of Elenctic Theology (Philipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, 1994), vol 2 p. 100.[6] Possivelmente a festividade relatada em João 5 – relacionada com os incidentes narrados no livro de Ester.[7] Ou “Chanukah” – festividade originada na época dos Macabeus, em celebração ao livramento físico do Povo Judeu. Jesus estava em Jerusalém na época da celebração (João 10.23-30).
Leia Mais

sábado, dezembro 02, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

Por que os Protestantes Históricos no Brasil Nunca Tiveram um Canal de Televisão

Por     50 comentários:
Semana passada, quando a mídia cobriu exaustivamente a decretação da prisão preventiva de Estêvam e Sônia Hernandes, donos da Renascer, li na Folha de São Paulo que o lema do casal, quando fundou a igreja, era "ganhar o Brasil e o mundo através da mídia". E de fato, estavam caminhando para isso. Donos de um canal de televisão e dezenas de emissoras de rádio pelo Brasil, onde tinham aberto cerca de 1.500 igrejas, a denominação do casal Hernandes só perdia em números para a Universal do Reino de Deus, a maior igreja neopentecostal do Brasil.

O poder da mídia na formação e crescimento de novas igrejas no Brasil é evidente. As duas maiores igrejas neopentecostais do Brasil, a Universal e a Renascer, são donas de canais de TV e emissoras de rádio. Mesmo denominações neopentecostais menores, como Deus é Amor, investem pesado no rádio. E as igrejas históricas, como presbiterianas, batistas, congregacionais, por exemplo? Afinal, estamos aqui no Brasil há mais de cem anos, enquanto que a Renascer tem 25 anos.

Os motivos pelos quais, na minha avaliação, as igrejas históricas nunca ocuparam -- e dificilmente ocuparão -- espaço significativo no rádio e na televisão, são os seguintes:

1) Falta de interesse maior na pregação feita pelo rádio e pela televisão, gerada pela desconfiança intrínseca quanto aos resultados da mídia, uma vez que as igrejas tradicionais sempre focam no discipulado. A mídia é insuperável para marcar a presença e a identidade de igrejas, mas o retorno em termos de fiéis comprometidos e doutrinados é baixo. Pesquisa feita há dez anos por Thom Rainer nos Estados Unidos entre igrejas tradicionais mostrou que os métodos que continuam enchendo igrejas com membros consistentes são a pregação bíblica dos púlpitos, a escola dominical e o evangelismo por amizade (Thom Rainer, Effective Evangelistic Churches: Successful Churches Reveal what Works and what Doesn't, 1996). Pode ser que essa realidade mudou agora, mas duvido muito. Além disso, depois que a televisão foi dominada por programas neopentecostais evangélicos e católicos, ficou "queimada", no dizer de um amigo meu, como veículo de credibilidade para transmitir a mensagem séria e fiel da Palavra de Deus, afastando ainda mais os tradicionais.

2) Escândalos acontecidos com televangelistas geralmente ganham repercussão nacional na mídia e respingam sobre todos os evangélicos. E não são poucos os acontecidos nos últimos dez anos: Jimmy Swaggart, Rex Humbard, Jim Bakker, Ted Haggard, Caio Fábio, e agora os Hernandes, para mencionar alguns. A mídia dá enorme destaque aos televangelistas quando cometem erros, especialmente de natureza sexual e financeira. Por isso, muitas igrejas históricas são avessas a holofotes demais para seus ministros. Por falar em escândalos, investigações recentes da Polícia Federal sobre "rádios piratas" na grande São Paulo identificam que boa parte delas são de igrejas evangélicas ou operadas por elas.

3) As denominações são estruturadas hierarquicamente e não são de uma pessoa só, ao contrário das igrejas neopentecostais que têm fundadores, como a Universal, Renascer e Deus é Amor. Não resta dúvida nessas igrejas quem vai empunhar o microfone em frente às câmeras: é o fundador e dono, ou quem ele permitir. Nas igrejas tradicionais isso geraria um problema que nem sempre se resolve em termos de mérito e capacidade: quem vai ser o apresentador e o pregador principal?

4) As igrejas históricas têm capacidade reduzida de alavancar grandes recursos e somas vultosas de dinheiro a curto prazo. Igrejas e pastores tradicionais têm escrúpulos de pedir muito dinheiro aos fiéis e infiéis, especialmente para programas de televisão. Não funciona mesmo. E mesmo que pedissem e recebessem, esbarrariam na questão da contabilização: grande parte dos recursos contabilizados pode ir para o fisco. Contabilizamos ou não? Quem decide? O assunto vai parar em algum concílio pelas vias hierárquicas e quando a decisão chegar, já passou a oportunidade de comprar o canal de televisão ou programa de rádio.

5) As igrejas tradicionais [ainda] não têm apóstolos que possam assegurar ao povo que Deus vai dar um canal de televisão à denominação se todos contribuirem com tudo o que tiverem. Oral Roberts e T. L. Orborn chegaram a afirmar que morreriam ou seriam punidos por Deus se o povo não levantasse milhões e milhões de dólares para construção de igrejas e programas de mídia. Dificilmente os presbiterianos acreditariam se eu viesse com essa história...

6) Igrejas tradicionais não elegeram políticos que podem apadrinhar as concessões. As igrejas neopentecostais foram mais espertas e elegeram deputados e senadores que certamente terão condições de dar uma palavrinha nos órgãos governamentais a favor de concessões para suas denominações. As igrejas históricas sempre terão dificuldades nessa área, especialmente as reformadas, que vêm os políticos evangélicos, não como tarefeiros das igrejas, mas como responsáveis pela coisa pública e pelo bem comum. E como sem o apadrinhamento político dificilmente se consegue espaço hoje na grande mídia, as igrejas históricas permanecerão à parte por mais tempo.

7) Igrejas tradicionais teriam muitos problemas na hora de alugar o tempo de sua rede de televisão particular. As igrejas que têm uma estação de televisão geralmente ocupam apenas uma parte do tempo e o restante do segmento tem que ser alugado para que gere recursos -- vide a Record e a RIT (do R.R. Soares). E nessa hora, as denominações históricas teriam escrúpulos para alugar esse segmento para programas de conotação sexual, baixaria, violência, etc. etc. Se forem alugar o segmento somente para programas limpos, jamais poderão pagar as despesas de manutenção do canal no ar. E agora?

Eu lamento muito que nós, protestantes históricos, perdemos o bonde nessa área. Talvez não seja tarde ainda para sonhar que um dia poderemos ter muitos bons programas de rádio e televisão alcançando o país, voltados genuinamente para a promoção da glória de Deus, a salvação de pecadores e a edificação da Igreja de Cristo, em vez de veículos de promoção pessoal.

Por enquanto, Solano, Mauro e eu vamos ficando com esse blog mesmo, que é provavelmente o máximo que alcançaremos em termos de mídia eletrônica...

[Aliás, em dezembro Tempora-Mores está completando um ano de existência! Obrigado a todos os nossos leitores e comentaristas.]
Leia Mais

quarta-feira, novembro 29, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

O Homem na Caixa

Por     12 comentários:
[Ano passado, entre as diversas oportunidade que tive de falar a professores e autoridades universitárias, toquei no assunto da visão de mundo do Cristianismo usando a famosa pintura de Bacon "A Cabeça". Todos perceberão a influência de Schaeffer via Rookmaker nesse post. Como a produção de todos os autores do blog anda meio baixa (todo mundo ocupado demais com a chegada do fim do ano), reproduzo-a aqui com poucas adaptações.]
Deus... fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17.26-28).

Nas palavras de Paulo aos filósofos estóicos e epicureus encontramos uma síntese da visão cristã de realidade: vivemos num mundo criado por Deus, o qual se encontra próximo de nós, embora muitos o procurem como cegos que tateiam seu caminho. Ou seja, vivemos numa realidade aberta.

O quadro que ilustra minha fala é de Francis Bacon – não o filósofo inglês do século XVI, mas o pintor inglês, natural de Dublin, nascido em 1909, falecido em 1992. Controverso, excêntrico, ficou famoso pelos quadros de figuras humanas grotescas, desfiguradas e horrendas, às vezes misturadas com animais. Um dos quadros mais famosos é “Cabeça IV”, de 1949, reproduzido acima. Conforme H. Rookmaker, professor de história da arte da Universidade Livre de Amsterdam, “Os quadros de Bacon são como caricaturas da humanidade, e não imagens humorísticas. São gritos altos de desespero por valores perdidos e grandeza perdida”.

Tomemos este quadro como uma expressão dos sentimentos mais profundos de Bacon e de sua geração, que é basicamente a nossa. O que podemos aprender com o homem na caixa? De que modo ele percebe a realidade?

Primeiro, embora exista uma realidade ao seu redor, ele só pode perceber como real o que se encontra dentro da caixa.

Segundo, seu mundo é fechado. Nada entra e nada sai. Portanto, seu grito é vazio. Ninguém o ouve.

Terceiro, se existir uma realidade além da caixa, e esta resolver responder e se aproximar, o homem na caixa não poderia ouvi-lo.

O quadro de Bacon representa bem a situação do homem moderno após o período do Iluminismo e da prevalência do cientificismo na academia e posteriormente na cultura ocidental. Antes do chamado período moderno, o conhecimento, as artes e a cultura em geral eram influenciadas por uma visão de mundo e de realidade moldada nos princípios e valores do Cristianismo.

O Cristianismo da Reforma protestante, com sua afirmação de que o mundo foi criado por Deus e que funciona seguindo a lei da causalidade, ela própria criada por Deus, havia libertado a mente humana do medo de ofender os deuses pela pesquisa do mundo e da natureza, e havia desfeito a dualidade oriunda do gnosticismo e perpetuada por Tomas de Aquino entre natureza e graça. Tudo isto contribuiu significativamente para o surgimento da cultura ocidental e um renovado apreço pelas artes, juntamente com o Humanismo.

Muitos dos grandes artistas, pintores, músicos, escritores, cientistas e pesquisadores deste período professavam a fé em Deus ao mesmo tempo em que se dedicavam a conhecer, pesquisar, explorar e desenvolver o mundo criado por Deus. Criam num mundo regido por leis naturais, ao mesmo tempo sustentado por Deus e passível de ser tocado pelo Criador, que providencialmente agia no mundo, na vida das pessoas, na história.

Contudo, com o advento da chamada idade da razão – melhor dizendo, do racionalismo, em meados do século dezessete, o homem abandonou esta perspectiva e passou a determinar a realidade através dos sentidos e da razão: só existe aquilo que for perceptível pelos sentidos e comprovado pela razão. Como Deus e o sobrenatural não podem ser comprovados por estes cânones, por mais gentil que ele fosse, foi convidado a se retirar do novo mundo criado pelo racionalismo. O homem constrói ao seu redor uma realidade fechada, um mundo governado pela lei férrea da causa e do efeito, onde a realidade é somente aquilo que a razão e os sentidos podem perceber. O homem se fechou numa caixa. Mas, tudo isto lhe era imperceptível, então, dominado que estava pela euforia de criar um admirável mundo novo, que ele haveria de dominar pelo cientificismo tecnológico.

Passados três séculos, o homem começa a sentir, hoje, os efeitos inevitáveis de estar na caixa. Os sinais disto estão em todo lugar: primeiro, nas artes, que na tentativa de achar sentido para a realidade, resolveu pular fora da caixa, em protesto contra a visão reducionista do positivismo do século XIX, sem contudo saber ao certo o que lhe espera do lado de fora. Artistas como Francis Bacon, e muitos outros refletem o desespero e a angústia das almas mais sensíveis que simplesmente desistiram de entender e expressar a realidade de forma sintética e coerente.

A filosofia, igualmente, foi dominada pelo existencialismo, que em suas mais diversas linhas, convida o homem a uma experiência fora da caixa, experiência que não tenha necessariamente sentido nem razão, e que não seja controlada por conceitos como certo ou errado, muito bem popularizadas pelo famoso filósofo brasileiro (risos) Roberto Carlos na música Emoções, onde canta “se sofri ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”.

Surge a posmodernidade, que sem negar que a realidade de fato está contida na caixa, contudo contesta a existência da própria caixa, e – por que também não, -- do próprio homem e da realidade ao seu redor.

Propostas religiosas antigas, como o monismo religioso, que vê a realidade como se fosse um tecido único, como se tudo fosse Deus e Deus fosse tudo, ressurgem inclusive dentro da Cristandade mais ampla, como por exemplo, nas 95 teses de Matthew Cox, leigo católico, pregadas na mesma porta de Wittemberg na Alemanha mês passado, onde diz na tese número seis: “A idéia de que Deus está acima ou além do universo é falsa. Tudo está em Deus e Deus está em tudo”.

Tudo isto, e outras coisas mais, é o grito tremendo do homem na caixa. O homem moderno não consegue mais viver dentro dela. Quer respostas, quer sentido, quer razões, quer ser ouvido.

O que tudo isto tem a ver conosco? Creio que nosso maior desafio consiste nestes três pontos. Primeiro, perceber que boa parte do desespero e do vazio existencial hoje reinantes nas mentes e corações de todos, apesar das grandes conquistas intelectuais e advanços tecnológicos da humanidade, provém de uma visão reduzida da realidade, uma visão que pode muito bem ser exemplificada com a pintura de Francis Bacon.

Segunda, que talvez devêssemos considerar o passado e a história e aprender com aqueles que, sem negar a intelectualidade, a objetividade científica e a respeitabilidade acadêmica, estavam preparados para aceitar que a realidade é mais ampla e mais profunda do que aquilo que percebemos, vemos, ouvimos, tocamos e comprovamos. A caixa precisa ser aberta. Há um mundo maravilhoso, rico, misterioso e plenamente satisfatório lá fora.

Não os convido a saltar da caixa no escuro. Mas recomendo às suas mentes brilhantes e privilegiadas o Cristianismo bíblico, como uma visão de mundo e realidade que contempla e abrange a realidade de uma forma muito mais completa, e onde Deus não está longe de nenhum de nós.

Leia Mais

segunda-feira, novembro 20, 2006

Augustus Nicodemus Lopes

A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil

Os evangélicos no Brasil nunca conseguiram se livrar totalmente da influência do Catolicismo Romano. Por séculos, o Catolicismo formou a mentalidade brasileira, a sua maneira de ver o mundo ("cosmovisão"). O crescimento do número de evangélicos no Brasil é cada vez maior – segundo o IBGE, seremos 40 milhões esse ano de 2006 – mas há várias evidências de que boa parte dos evangélicos não tem conseguido se livrar da herança católica.

É um fato que conversão verdadeira (arrependimento e fé) implica numa mudança espiritual e moral, mas não significa necessariamente uma mudança na maneira como a pessoa vê o mundo. Alguém pode ter sido regenerado pelo Espírito e ainda continuar, por um tempo, a enxergar as coisas com os pressupostos antigos. É o caso dos crentes de Corinto, por exemplo. Alguns deles haviam sido impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores. Todavia, haviam sido lavados, santificados e justificados "em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus" (1Co 6.9-11) sem que isso significasse que uma mudança completa de mentalidade houvesse ocorrido com eles. Na primeira carta que lhes escreve, Paulo revela duas áreas em que eles continuavam a agir como pagãos: na maneira grega dicotômica de ver o mundo dividido em matéria e espírito (que dificultava a aceitação entre eles das relações sexuais no casamento e a ressurreição física dos mortos – capítulos 7 e 15) e o culto à personalidade mantido para com os filósofos gregos (que logo os levou à formar partidos na igreja em torno de Paulo, Pedro, Apolo e mesmo o próprio Cristo – capítulos 1 a 4). Eles eram cristãos, mas com a alma grega pagã.

Da mesma forma, creio que grande parte dos evangélicos no Brasil tem a alma católica. Antes de passar às argumentações, preciso esclarecer um ponto. Todas as tendências que eu identifico entre os evangélicos como sendo herança católica, no fundo, antes de serem católicas, são realmente tendências da nossa natureza humana decaída, corrompida e manchada pelo pecado, que se manifestam em todos os lugares, em todos os sistemas e não somente no Catolicismo. Como disse o reformado R. Hooykas, famoso historiador da ciência, “no fundo, somos todos romanos” (Philosophia Liberta, 1957). Todavia, alguns sistemas são mais vulneráveis a essas tendências e as absorveram mais que outros, como penso que é o caso com o Catolicismo no Brasil. E que tendências são essas?

1) O gosto por bispos e apóstolos – Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum, infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos, catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos auto-nomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções.

2) A idéia que pastores são mediadores entre Deus e os homens – No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam, na Missa, o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana passou para os evangélicos, com algumas poucas mudanças. Até nas igrejas chamadas históricas os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles, e que os pastores funcionam como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas já assimiladas como “a oração dos 318 homens de Deus”, “a prece poderosa do bispo tal”, “a oração da irmã fulana, que é profetisa”, etc.

3) O misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados
– O Catolicismo no Brasil, por sua vez influenciado pelas religiões afro-brasileiras, semeou misticismo e superstição durante séculos na alma brasileira: milagres de santos, uso de relíquias, aparições de Cristo e de Maria, objetos ungidos e santificados, água benta, entre outros. Hoje, há um crescimento espantoso entre setores evangélicos do uso de copo d’água, rosa ungida, sal grosso, pulseiras abençoadas, pentes santos do kit de beleza da rainha Ester, peças de roupa de entes queridos, oração no monte, no vale; óleos de oliveiras de Jerusalém, água do Jordão, sal do Vale do Sal, trombetas de Gideão (distribuídas em profusão), o cajado de Moisés... é infindável e sem limites a imaginação dos líderes e a credulidade do povo. Esse fenômeno só pode se explicado, ao meu ver, por um gosto intrínseco pelo misticismo impresso na alma católica dos evangélicos.

4) A separação entre sagrado e profano – No centro do pensamento católico existe a distinção entre natureza e graça idealizada e defendida por Tomás de Aquino, um dos mais importantes teólogos da Igreja Católica. Na prática, isso significou a aceitação de duas realidades co-existentes, antagônicas e freqüentemente irreconciliáveis: o sagrado, substanciado na Santa Igreja, e o profano, que é tudo o mais no mundo lá fora. Os brasileiros aprenderam durante séculos a não misturar as coisas: sagrado é aquilo que a gente vai fazer na Igreja: assistir Missa e se confessar. O profano – meu trabalho, meus estudos, as ciências – permanece intocado pelos pressupostos cristãos, separado de forma estanque. É a mesma atitude dos evangélicos. Falta-nos uma mentalidade que integre a fé às demais áreas da vida, conforme a visão bíblica de que tudo é sagrado. Por exemplo, na área da educação, temos por séculos deixado que a mentalidade humanista secularizada, permeada de pressupostos anticristãos, eduque os nossos filhos, do ensino fundamental até o superior, com algumas exceções. Em outros países os evangélicos têm tido mais sucesso em manter instituições de ensino que além de serem tão competentes como as outras, oferecem uma visão de mundo, de ciência, de tecnologia e da história oriunda de pressupostos cristãos. Numa cultura permeada pela idéia de que o sagrado e profano, a religião e o mundo, são dois reinos distintos e frequentemente antagônicos, não há como uma visão integral surgir e prevalecer a não ser por uma profunda reforma de mentalidade entre os evangélicos.

5) Somente pecados sexuais são realmente graves A distinção entre pecados mortais e veniais feita pelo romanismo católico vem permeando a ética brasileira há séculos. Segundo essa distinção, pecados considerados mortais privam a alma da graça salvadora e condenam ao inferno, enquanto que os veniais, como o nome já indica, são mais leves e merecem somente castigos temporais. A nossa cultura se encarregou de preencher as listas dos mortais e dos veniais. Dessa forma, enquanto se pode aceitar a “mentirinha”, o jeitinho, o tirar vantagem, a maledicência, etc., o adultério se tornou imperdoável. Lula foi reeleito cercado de acusações de corrupção. Mas, se tivesse ocorrido uma denúncia de escândalo sexual, tenho dúvidas de que teria sido reeleito, ou que teria sido reeleito por uma margem tão grande. Nas igrejas evangélicas – onde se sabe pela Bíblia que todo pecado é odioso e que quem guarda toda a lei de Deus e quebra um só mandamento é culpado de todos – é raro que alguém seja disciplinado, corrigido, admoestado, destituído ou despojado por pecados como mentira, preguiça, orgulho, vaidade, maledicência, entre outros. As disciplinas eclesiásticas acontecem via de regra por pecados de natureza sexual, como adultério, prostituição, fornicação, adição à pornografia, homossexualismo, etc., embora até mesmo esses estão sendo cada vez mais aceitáveis aos olhos evangélicos. Mais um resquício de catolicismo na alma dos evangélicos?

O que é mais surpreendente é que os evangélicos no Brasil estão entre os mais anti-católicos do mundo. Só para ilustrar (e sem entrar no mérito dessa polêmica) o Brasil é um dos poucos países onde convertidos do catolicismo são rebatizados nas igrejas evangélicas. O anti-catolicismo brasileiro, todavia, se concentrou apenas na questão das imagens e de Maria, e em questões éticas como não fumar, não beber e não dançar. Não foi e não é profundo o suficiente para fazer uma crítica mais completa de outros pontos que, por anos, vêm moldando a mentalidade do brasileiro, como mencionei acima. Além de uma conversão dos ídolos e de Maria a Cristo, os brasileiros evangélicos precisam de conversão na mentalidade, na maneira de ver o mundo. Temos de trazer cativo a Cristo todo pensamento e não somente os nossos pecados. Nossa cosmovisão precisa também de conversão (2Coríntios 10.4-5).

Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais católicas de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas, me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neo-catolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma católica.

Leia Mais

domingo, novembro 12, 2006

Mauro Meister

A anatomia da perseverança dos santos


Hoje à noite (domingo) tive o privilégio de interpretar o pr. Iain Murray pregando no texto de Mateus 11:28, em nossa igreja (Igreja Presbiteriana da Lapa). O pr. Murray nasceu em 1931 e começou no ministério pastoral em 1955. Foi pastor auxiliar do Dr. Lloyd-Jones e também pastoreou em Sydney, na Austrália. Foi um dos fundadores do Banner of Truth Trust, (1965) e, atualmente, é o diretor editorial deste importante ministério reformado.

Pr. Murray está no Brasil, com sua esposa Jean, para pregar no Encontro da Fé Reformada (Manaus e Goiânia) nas duas próximas semanas. São 55 anos de fiel ministério da palavra e, com uma vida assim, temos centenas de lições a aprender, entre elas:

1) Que um grande ministério não precisa ser um mega ministério. As obras que Deus colocou no caminho desse seu servo são, indubitavelmente, grandiosas. Porém, vendo-o pregar, não se vê uma 'estrela', mas um homem que abre a Palavra de Deus de maneira simples e poderosa, sem atrair qualquer atenção para si mesmo, exemplo de pregação simples e fiel.

2) Entre as muitas coisas preciosas que ouvi e traduzi, uma foi o simples conselho de que o povo de Deus pode e precisa aprender com a vida dos santos que nos é apresentada na História da Igreja. Tendo sido o pastor auxiliar de Lloyd-Jones, pr. Murray escreveu uma biografia (publicada pela PES, no Brasil), destacando como o ministério de pregação do "doutor" alcançou repercursão mundial pela sua fidelidade às Escrituras e pelo equilibrio na aplicação da mesma (isto claramente visto nas suas correspondências organizadas por Murray e, também, publicadas pela PES). Aprendamos com o santos e fiquemos alertas com os que caem.

3) Olhando para um ministério como este, e outros (estava presente no culto o Rev. Francisco Leonardo Schalkwijk, que foi missionário no Brasil durante décadas), reacende-se a esperança de que, apesar de tantas quedas que vemos ao nosso redor, a fidelidade do Senhor preserva os seus santos para que passem por muitas lutas no ministério e cheguem até o fim para dizer como Paulo: "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé." (2 Tm 4.7 )

4) Aprendi, também, que diante das muitas lutas, a graça de Deus pode manter a nossa lucidez, o bom-senso e a própria razão. Com certeza temos muitas lutas externas e nossa própria guerra contra o pecado. Creio que a simplicidade no evangelho pode nos manter longe do cinismo e racionalização que muitas vezes toma conta da vida íntima daqueles que caíram. Estes que chegam ao fim em pé, com certeza, viram muitos cair e seguiram o conselho: "Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia." (1 Co 10.12)

Estou dizendo isto porque a queda de Haggard me impressionou muito. Aliás, não a queda dele, especificamente, mas a queda de homens que lutam para viverem como 'homens de Deus'. Ver o pr. Murray pregando, depois de 55 anos de ministério, me trouxe alento e estímulo para permanecer fiel a Deus e a sua santa palavra.

Minha oração nesta noite é: Senhor, obrigado pela promessa da perseverança. Faça-a visivel na minha vida e mantém a integridade do ministério que o Senhor colocou em minhas mãos.

Esboço do texto de Mateus 11.28:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei."

1. O convite do Senhor: vinde a mim
2. A abrangência do convite: todos que estais cansados e sobrecarregados
3. A promessa: e eu vos aliviarei
Leia Mais