segunda-feira, março 12, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Liberalismo e Fundamentalismo Outra Vez

Por     32 comentários:
[A entrevista abaixo foi elaborada por Elvis Brassaroto Aleixo e será publicada em breve na revista Defesa da Fé. Eu sei que já escrevi bastante sobre esse assunto, mas é que achei as perguntas bem diretas e relevantes.]

Defesa da Fé – O liberalismo teológico não surgiu do nada. Quais foram os acontecimentos históricos que preparam o caminho para o seu surgimento?

Profº Nicodemus – O liberalismo é, de muitas maneiras, um fruto do Iluminismo, movimento surgido no início do século 18 que tinha em seu âmago uma revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral. As pressuposições filosóficas do movimento eram, em primeiro lugar, o Racionalismo de Descartes, Spinoza e Leibniz, e o Empirismo de Locke, Berkeley e Hume. Os efeitos combinados dessas duas filosofias — que, mesmo sendo teoricamente contrárias entre si, concordavam que Deus tem de ficar de fora do conhecimento humano — produziu profundo impacto na teologia cristã. Como resultado da invasão do Racionalismo na teologia, chegou-se à conclusão de que o “sobrenatural não invade a história”. A história passou a ser vista como simplesmente uma relação natural de causas e efeitos. O conceito de que Deus se revela ao homem e de que intervém e atua na história humana foram logo excluídos. A fé cristã histórica sempre acreditou que os milagres bíblicos realmente ocorreram como narrados. Milagres como o nascimento virginal de Cristo, os milagres que o próprio Cristo realizou, sua ressurreição física dentre os mortos, os milagres do Antigo e Novo Testamentos, de maneira geral, são todos considerados fatos. O teólogo liberal, por sua vez, e os neo-ortodoxos fazem distinção entre historie (história, fatos brutos) e heilsgeschichte (história santa, ou história salvífica), criando dois mundos distintos e não conectados: o mundo da história bruta, real, factível e o mundo da fé, da história da salvação. Temas como criação, Adão, queda, milagres, ressurreição, entre outros, pertencem à história salvífica e não à história real e bruta. Para os liberais e os neo-ortodoxos, não interessa o que realmente aconteceu no túmulo de Jesus no primeiro dia da semana, mas, sim, a declaração dos discípulos de Jesus que diz que Jesus ressuscitou. Assim, o que eles querem afirmar com isso é bastante diferente daquilo que a fé cristã histórica acredita. Na verdade, eles consideram que os relatos bíblicos dos milagres são invenções piedosas do povo judeu e dos primeiros cristãos, mitos e lendas oriundos de uma época pré-científica, quando ainda não havia explicação racional e lógica para o sobrenatural.

Defesa da Fé – O alemão J. Solomon Semler distinguiu a “Palavra de Deus” da “Escritura”, e esse é um dos princípios que norteiam o liberalismo teológico. O senhor poderia nos esclarecer um pouco mais sobre essa distinção?

Profº Nicodemus – Por detrás desta declaração de Semler está a crença de que a Escritura contém erros e contradições, lado a lado com aquelas palavras que provêm de Deus. Desta declaração, percebe-se também os pressupostos racionalistas do Iluminismo quanto à impossibilidade do sobrenatural na história. Partindo desses pressupostos teológicos, os críticos iluministas se engajaram na busca da Palavra de Deus que, supostamente, estava dentro da Escritura, misturada com erros e contradições. Essa busca se tornou o objetivo do método histórico-crítico, que é fazer a separação entre essas duas coisas, por meio da exegese “científica”, e descobrir a Palavra de Deus dentro do cânon da Bíblia. O subjetivismo inerente aos critérios utilizados para reconhecer a Palavra de Deus dentro do cânon fez que os resultados fossem completamente díspares. Até hoje, não existe um consenso do que seria a Palavra de Deus, dentro do cânon, reconhecida e aceita pelos próprios críticos.

Defesa da Fé – Quais são as implicações mais prejudiciais dessa diferença para o cristianismo?

Profº Nicodemus – O problema que os evangélicos e conservadores sempre tiveram com essa diferenciação e com o método histórico-crítico que surgiu dela é que ambos pressupõem, desde o início, o direito que o crítico tem de emitir juízos sobre as afirmações bíblicas como sendo ou não verdadeiras. Para os críticos liberais, interpretar a Bíblia historicamente significava, quase que por definição, reconhecer que a Bíblia contém contradições. Para eles, qualquer abordagem hermenêutica deixa de ser histórica se não aceitar essas contradições. Em resumo, concordar que a Bíblia não era totalmente confiável se tornou um dos princípios operacionais do liberalismo e de seu “método histórico-crítico”. Tal desconfiança se percebe, por exemplo, nas declarações de Ernest Käsemann, um dos críticos recentes mais proeminentes. Seu desejo é “distanciar-se da superstição incompreensível de que no cânon [bíblico] somente a fé genuína se manifesta”. Para ele, “a Escritura, à qual as pessoas se rendem de maneira não-crítica, não leva somente à multiplicidade de confissões, mas também a uma confusão indistinguível entre fé e superstição”. Essas declarações de Käsemann representam bem o pensamento liberal sobre a Bíblia.

Defesa da Fé – Em face disso tudo, quem é Jesus para os teólogos liberais? É Deus salvador?

Profº Nicodemus – Segundo Bultmann, um dos maiores liberais de épocas recentes, a única coisa histórica no credo apostólico é a declaração “Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos”. As demais declarações são todas invenções da fé criativa da Igreja primitiva. O Jesus histórico foi uma pessoa normal, filho de Maria e, talvez, de José, que ganhou status de Salvador, Messias e Deus por meio da fé dos discípulos e, particularmente, de Paulo. Na realidade, segundo os liberais, Jesus teria sido um profeta, um contador de histórias, um lutador contra as desigualdades, um homem sábio, entre outras versões. Todas elas concordam, porém, que Jesus não era divino, não ressuscitou dos mortos e nunca se proclamou Filho de Deus e Messias.

Defesa da Fé – Há, também, a questão do mito fundante que afirma que Adão não existiu. Mito esse que, às vezes, tenta conciliar evolucionismo com criacionismo. Como o liberalismo lida com o livro de Gênesis?

Profº Nicodemus – Os liberais acreditam que a Igreja Cristã se perdeu completamente na interpretação da Bíblia através dos séculos e que somente com o advento do Iluminismo, do racionalismo e das filosofias resultantes é que se começou a analisar criticamente a Bíblia e a teologia cristã, expurgando-as dos alegados mitos, fábulas, lendas, acréscimos, como, por exemplo, os mitos da criação e do dilúvio e de personagens inventados como Adão e Moisés, etc. Por considerar os relatos da criação, da formação de Adão e sua queda como mitos, os liberais tratam o livro de Gênesis como uma produção da fé de Israel escrita com o propósito de legitimar a posse e a permanência de Israel na terra. Acreditam que Gênesis foi redigido em sua forma final no período do exílio babilônico, por um editor que colecionou e colou juntos relatos díspares sobre a criação, a história do dilúvio, etc. Por não considerarem histórico o relato da criação, os liberais são, por via de regra, evolucionistas. Alguns acreditam que Deus criou o mundo mediante o processo da evolução. Mas, no geral, descartam completamente a idéia de uma criação do mundo e do homem ex nihilo, do nada, pela palavra do seu poder.

Defesa da Fé – Em sua avaliação, o liberalismo pode ser apontado como um dos fatores responsáveis pela adesão às causas pró-homossexualidade que adentraram em muitas igrejas dos EUA e que já começaram a grassar no Brasil?

Profº Nicodemus – Sim, mas sem generalizar. Uma vez que a Bíblia é vista como reflexo da fé e da crença do povo de Israel e dos primeiros cristãos, e não como Palavra infalível de Deus, os valores e os conceitos que ela traz são vistos como culturalmente condicionados e irrelevantes aos tempos modernos, em que os valores são outros. Dessa forma, o que a Bíblia diz, por exemplo, sobre a prática homossexual, é interpretado pelos liberais como fruto da cultura da época, que não sabia que a homossexualidade é uma opção sexual, e também que as pessoas nascem geneticamente determinadas à homossexualidade. Em igrejas onde a ética da Bíblia é vista como ultrapassada, fica aberta a porta para a conformação da ética da Igreja à ética do mundo.

Defesa da Fé – Em que sentido podemos dizer que a teologia liberal promoveu o (macro) ecumenismo? O liberalismo chega a ponto de validar sistemas de crenças díspares do cristianismo?

Profº Nicodemus – Para o liberalismo clássico, inspirado por F. Schleiermacher, religião era simplesmente “o sentimento e o gosto pelo infinito” e consistia, primariamente, em emoções. A experiência humana marcava os limites do que se podia especular acerca da realidade. O essencial do sentimento religioso é o senso de dependência de Deus, que produz consciência ou intuição da sua realidade. Fé e ação eram coisas secundárias. O sentimento religioso é algo universal, isto é, cada ser humano é capaz de experimentá-lo. É esse sentimento que dá validade às experiências religiosas e que torna o ecumenismo possível. Uma vez que se entende que religião é basicamente o gosto pelo infinito, e que encontramos esse gosto em todas as religiões, temos aí a base para dizer que todas as religiões são iguais e querem a mesma coisa, diferindo apenas na maneira como pretendem alcançar esse alvo. O macroecumenismo é filho do liberalismo teológico.

Defesa da Fé – Considerando o ciclo da criação e recepção teológica (Europa, América do Norte e América do Sul), o senhor julga que o liberalismo pode ter decretado a decadência da Igreja evangélica na Europa?

Profº Nicodemus – Creio que esse seja um dos fatores, mas outros poderiam também ser apontados, como, por exemplo, a secularização da vida e da sociedade européia, o materialismo e o abandono dos princípios do cristianismo em todas as áreas da vida. Até mesmo igrejas que não são liberais têm dificuldade em se manter na Europa de hoje. Todavia, o liberalismo teológico é responsável pelo esvaziamento das igrejas históricas e tradicionais, mas não necessariamente pela secularização do continente como um todo.

Defesa da Fé – Já é possível mencionar alguns de seus efeitos mais notáveis na América Latina e, mais especificamente, no Brasil?


Profº Nicodemus – Sim, sem dúvida. Mas o liberalismo teológico que chegou em nosso país já chegou com formas e propostas diferentes, associado, por exemplo, com a teologia da libertação. Os cursos de teologia oferecidos em universidades seculares ou em universidades teológicas sem nenhum compromisso com a infalibilidade das Escrituras são a porta de entrada do liberalismo em nosso país. O que se percebe claramente é a busca, por parte dos evangélicos, da respeitabilidade acadêmica oferecida pela academia secular. Isso tem feito que o “evangelicalismo” submeta suas instituições teológicas de formação pastoral aos padrões educacionais do Estado e das universidades. Esses padrões, ao contrário do que se pensa, não são cientificamente neutros. São comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo. Os cursos de teologia e ciências da religião oferecidos pelas universidades são, geralmente, dominados pelo liberalismo teológico e pelo método histórico-crítico. Com a busca acentuada por um diploma de teologia reconhecido, os evangélicos correm o risco de sacrificar seu compromisso com as Escrituras em troca de qualidade científica prometida e oportunidade de emprego.

Defesa da Fé – Muito dessa discussão permeou as denominações de confissão histórica. Seria correto afirmar que as denominações pentecostais ficaram isentas de problemas com o liberalismo?


Profº Nicodemus – Absolutamente não. Hoje, um dos maiores defensores do teísmo aberto em nosso país – ideologia que nega a soberania de Deus e a sua onisciência – é pentecostal. Por não terem investido, no passado, em uma boa educação teológica de seus pastores e obreiros, muitas igrejas pentecostais, hoje, têm um tremendo passivo teológico. Várias delas têm sucumbido ao liberalismo teológico quando enviam seus obreiros para serem preparados em cursos de teologia e ciências da religião comprometidos com o método histórico-crítico. Esses obreiros voltam para as igrejas com a cabeça completamente virada e, às vezes, não crêem em mais nada. Julgo que o liberalismo foi nocivo e atingiu tanto os tradicionais como os pentecostais.

Defesa da Fé – Falando, agora, sobre o fundamentalismo, em que termos essa corrente contribuiu para promover a apologética, na medida em que se opôs ao liberalismo?


Profº Nicodemus – O fundamentalismo histórico nasceu em defesa da fé cristã, ameaçada, na época, pelo liberalismo teológico. Portanto, o fudamentalismo foi um movimento apologético de defesa da fé, porque entendia que a tarefa da Igreja cristã era defender a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Nesse aspecto, é positiva a disposição de se lutar em favor da fé bíblica, identificando inimigos potenciais do cristianismo, como o liberalismo teológico, o humanismo, o evolucionismo e o “evangelicalismo”, que tem, gradualmente, abandonado a doutrina da infalibilidade da Escritura e adotado o ecumenismo e o evolucionismo teísta.

Defesa da Fé – Em sua análise, é impossível encontrar algum legado positivo do liberalismo à Iigreja evangélica?


Profº Nicodemus – Citaria que muitos estudiosos liberais contribuíram bastante para o avanço do nosso conhecimento acerca do mundo do Antigo e do Novo Testamento e para a nossa consciência da importância da cosmovisão oriental na formação do mundo dos autores da Bíblia. Liberais como Bultmann contribuíram para o estudo das religiões do período neotestamentário, quando do surgimento do cristianismo, embora suas conclusões sejam inaceitáveis para estudiosos comprometidos com a infalibilidade da Bíblia. Essas contribuições, todavia, ajudam a Igreja evangélica apenas indiretamente. Em termos de contribuição direta para a Igreja evangélica, a resposta é negativa. O liberalismo nunca plantou igrejas, nunca aumentou número de membros e muito menos a receita financeira das igrejas. Só conseguiu reproduzir outros liberais, os quais, por sua vez, precisavam, também, sobreviver. O liberalismo teológico sempre teve de achar um hospedeiro que pudesse sugar até que o mesmo morresse, drenado. O liberalismo sobreviveu muitos anos à custa do esforço missionário, do zelo expansionista e do sacrifício financeiro dos cristãos bíblicos, que fundaram igrejas, criaram organizações, ajuntaram fundos missionários e abriram escolas teológicas, e todas elas, depois, foram ocupadas pelos liberais. O liberalismo plenamente desenvolvido não fundou novas denominações, não abriu novas igrejas, não inaugurou novos campos missionários e não abriu novas escolas. Não conheço nenhum curso de teologia hoje nos Estados Unidos e na Europa que seja liberal e que funcione numa universidade que tenha sido criada por liberais. Harvard, Union, Princeton, Yale, Amsterdã, Oxford... todas foram criadas por conservadores das mais diferentes linhas. O caráter parasitário do liberalismo teológico se deveu ao fato de que os liberais não acreditavam em evangelismo e missões. Os liberais sugaram a herança organizacional eclesiástico-financeira de Calvino, Lutero, Wesley e dos puritanos.

Defesa da Fé – E o que dizer do fundamentalismo? O senhor mencionaria algo nesse movimento que consideraria prejudicial?


Profº Nicodemus – Sim, cito negativamente o fundamentalismo como movimento separatista do erro teológico como único meio de preservar a verdade cristã. Sob esse aspecto, o fundamentalismo crê que não pode haver associação com igrejas, denominações e indivíduos que neguem os pontos fundamentais do cristianismo. O separatismo nem sempre é o caminho para batalharmos pela fé histórica. O fundamentalismo nem sempre consegue conviver com diferentes opiniões, mesmo em questões que não afetam os pontos fundamentais da fé, e acaba tratando com desconfiança irmãos conservadores que concordam com os pontos fundamentais, mas divergem em outras questões. Penso que setores do fundamentalismo desenvolveram uma síndrome de conspiração mundial para o surgimento do reino do anticristo por meio do ocultismo, da tecnologia, da mídia, dos eventos mundiais, das superpotências, além de uma mentalidade de censura e apego a itens periféricos como se fossem o cerne do evangelho e critério de ortodoxia (por exemplo, só é bíblico e conservador quem usa versões da Bíblia baseadas no Texto Majoritário; quem não assiste desenhos da Disney e não vê Harry Potter).
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quarta-feira, março 07, 2007

Solano Portela

Por que não consigo acreditar na política brasileira

Os noticiários estão divulgando a toda hora as últimas negociações, conchavos e acertos para o preenchimento dos ministérios. Além do “fator Suplicy”, descrito por alguém como o maior motivador da eficiência ministerial (basta ameaçar colocar a Marta em um ministério qualquer, que o atual titular passa a trabalhar 15 horas por dia e produzir todos os planos que deixou esquecidos nos últimos dois anos), a maior novidade é a indicação do deputado Geddel Vieira Lima para o Ministério da Integração Nacional.

A agência Reuters anunciou ontem (05.03.07) que o presidente Lula, chamou o presidente do PMDB, Michel Temer, e, exigindo silêncio e discrição, garantiu a nomeação do colega de partido, Geddel, para esse ministério. Ora, haja integração! Haja também amnésia conveniente, viração de casaca inconseqüente, ausência de posição coerente. A postura de geléia amorfa demonstrada pelos protagonistas da nossa política é de tirar a sanidade mental de qualquer um, pelo menos daqueles que preservam um pouquinho de memória e que desejam conservar alguns parcos traços de ética e moral nas estruturas governamentais.

Geddel, o que agora vai integrar a nação, é aquele mesmo que freqüentou os noticiários na remota era de 2001. Na ocasião, a Folha de São Paulo (05.02.2001) relatou as acusações trocadas entre ele e o então presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. ACM, chamado por Geddel de “fanfarrão que mandava na República", preparou um vídeo intitulado “Geddel vai às compras”, exibido à classe política e jornalística em diversas ocasiões. Nele, relatos de comissões recebidas de empreiteiras e outras supostas provas de corrupção enrustida eram apresentados. Segundo aquela reportagem da Folha, o vídeo mostrava “várias propriedades rurais e urbanas e outros bens que teriam sido comprados por Geddel e seus familiares, com insinuações de que teria sido usado dinheiro público”.

O interessante, é que a esquerda coligada, fazia coro na cruzada pela moralidade. O jornal “A Classe Operária” (PCdoB), em seu número 198, de 07.02.2001, apresentando a posição de uma coligação ((PCdoB, PT e PDT) classificava o Sr. Geddel como “destacado membro da cúpula mais fisiológica do PMDB”. Mencionando o já famoso vídeo do ACM, o artigo lembrava a sua situação de investigado pela CPI do Orçamento, acusava-o de aliciar quatro deputados federais do PFL e de dar calote no preço da sedução, naquilo que, segundo o Jornal, era uma “autofagia conservadora”.

Bom, tudo isso está esquecido, pela esquerda, no jogo contemporâneo de compra e venda de cargos atrelados a seus respectivos ministérios. Mas o que pensa Geddel de tudo isso? Na revista Época (No. 261, de 19.05.2003) ele concedeu uma longa entrevista. Na ocasião, Lula o comparava ao Babá, aquele troglodita dissidente do PT. Sua opinião sobre o presidente Lula? Criticando-o, Geddel disse que “Lula usa métodos iguais aos de FHC para cooptar seus aliados”. Numa explosão inexplicável de ética, ele declarou: “não acho correto, ético, é buscar cargos em troca das reformas num governo que eu não elegi”.

Obviamente deve ter mudado drasticamente de opinião, pois não parece emitir nenhum sinal de protesto com as recentes negociações. É claro que temos um caso grave de amnésia política, pois na mesma entrevista, falando sobre o PT, ele disse: “A sociedade optou pelo projeto do PT e nos colocou na oposição. Essa também é a postura ética”.

Só para encerrar essa confusão dos “sem posição”, a CUFDB, Central Única Federal dos Detetives do Brasil (é, isso existe, mesmo), em uma postagem de 25.07.2005, faz referência a uma fita gravada. Nela, o deputado José Lourenço reclamava “com o ex-deputado Jonival Lucas a liberação de verbas para a prefeitura de um município de sua base eleitoral que teria sido prometida pelo líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima”. Na gravação, "Lourenço chamava Geddel e o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, de ladrões por estarem exigindo uma comissão de 20% para liberar os recursos".

Tudo isso está esquecido e varrido para debaixo do tapete. E nessas negociatas por ministérios e cargos o que fica mais claro é que não existe esquerda, direita, ou ideologia nenhuma – é tudo puro fisiologismo pessoal e corporativo e os interesses do país vão para o espaço.

Essas idas e vindas só trazem descrédito à política brasileira. Que Deus abençoe o nosso sofrido país.
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segunda-feira, março 05, 2007

Mauro Meister

Peter Jones no Brasil...



Prezados leitores,

Sei que há muito não escrevo, mas estou vivo... espero poder contribuir mais em breve, antes que os colegas me expulsem do blog... corro este risco!!! Por enquanto, faço um anúncio importante. Ano passado escrevi sobre neo-paganismo e uma conferência da qual participei com o Dr. Peter Joner, na Califórnia. Estivemos lá novamente e foi muito bom. A boa notícia é que poderemos ter um gostinho do tema com a vinda do organizador da conferência, na próxima semana, em vários lugares do Brasil, lançando alguns de seus livros em português. Aproveitem a oportunidade!

A Editora Cultura Cristã e o CPAJ trazem ao Brasil, nos próximos dias 12 a 16, o Dr. Peter Jones, com quem estiveram reunidos recentemente alguns de nossos professores (veja notícia abaixo). Dr. Jones possui grau de M.Div. pelo Gordon-Cornwell Theological Seminary, grau de Th.M. pela Harvard Divinity School e Ph.D. pelo Princeton Theological Seminary. É professor de Novo Testamento no Westminster Seminary em Escondido, na Califórnia e autor de vários livros. Dentre eles, a Editora Cultura Cristã já lançou no Brasil A Ameaça Pagã e agora, por ocasião de sua visita, lança O Deus do Sexo, Falsa Identidade e Verdades do Evangelho versus Mentiras Pagãs. Com seu ministério Christian Witness to a Pagan Planet o Dr. Jones se dedica a alertar a igreja sobre o avanço do neo-paganismo, fazendo conferências e dando palestras em vários lugares do mundo, bem como por meio de seu boletim eletrônico (http://www.cwipp.org/). Peter Jones e sua esposa Rebecca residem na Califórnia. Veja onde você poderá ouvir o Dr. Jones:

12/03
Palestra promovida pelo CPAJ/EST no Auditório Benedito Garcez, Campus Itambé do Mackenzie. Telefone (11) 2114 8644 - 19:00h

13/03
Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia - Rua 68 esq. c/ 71, Centro. Telefone: (62) 3213 3320
20:00h

14/03
Seminário Presbiteriano Brasil Central - local da palestra - Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia - 9:00h


14/03
Primeira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte - Rua Ceará 1434 - Funcionários – Belo Horizonte. Telefone: (31) 3273 7044 - 19:30h


15/03
Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - Estrada do Itanhangá 1051. Telefone (21) 2493 1999 - 19:30h


18/03
Igreja Presbiteriana da Lapa - Rua Roma, 465, Lapa, São Paulo - 9:00h
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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

A sepultura de Jesus


A foto acima é da tradicional entrada do túmulo de Jesus em Jerusalém. Embora o lugar seja apontado pela Igreja Católica e outras igrejas cristãs como sendo o lugar certo, a verdade é que não há certeza absoluta de que Jesus foi sepultado aqui mesmo. Para os cristãos reformados, o exato local -- e mesmo, um local -- não faz muita diferença. Para eles, Jesus morreu no monte Gólgota e foi sepultado em algum lugar nos arredores de Jerusalém, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e subiu aos céus, conforme o relato dos Evangelhos.

Agora, o Discovery Channel anuncia documentário "imparcial" a ser veiculado 18 de março, com o título "O Sepulcro Esquecido de Jesus". Segundo o site do Discovery, é "o provável achado mais importante da história". O documentário, dirigido pelo diretor de "Titanic", James Cameron, é sobre uma caverna encontrada em 1980 ou 1990 [tenho essas duas datas na mídia] num bairro ao norte de Jerusalém contendo dez caixões que guardariam os restos mortais de Jesus de Nazaré, de sua mãe Maria e de Maria Madalena. Afirmará o documentário que a caverna é o local do enterro de Jesus. "Se for comprovado que é verdadeiro, este será o mais importante achado arqueológico da história do mundo cristão", afirma notícia do Globo online.

A diferença entre o local tradicional e esse apontado pelo Discovery é que o primeiro está vazio, enquanto que o último, supostamente, contém os restos mortais de Jesus. Se os reformados não se importam com o local exato, agora o assunto é diferente. Faço as seguintes observações sobre a notícia e o fato em si.


1) Tem se tornado comum nos últimos anos a veiculação de matérias anti-cristãs pela mídia internacional durante as datas tradicionais da Cristandade, como Natal e Páscoa. O documentário da Discovery irá ao ar exatamente no período da Páscoa. Nos anos anteriores foi o Código da Vinci, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Judas, a sepultura de um irmão de Jesus, etc. Agora é a vez da descoberta do corpo de Jesus.

2) Os ataques da mídia e documentários como esse são dirigidos primariamente contra a Igreja Católica. Note que não é só o corpo de Jesus que pretensamente foi achado, mas também de Maria -- que a Igreja Católica defende que foi assunta aos céus. De tabela, o documentário atinge os protestantes, pelo menos os que acreditam no relato bíblico da ressurreição de Jesus. Os neo-liberais e neo-ortodoxos não serão muito atingidos se descobrirem o corpo de Jesus, pois, como Bultmann já disse, a única coisa realmente histórica (que aconteceu de fato) no Credo Apostólico é a frase "Cristo... padeceu sob Pôncio Pilatos". Os demais itens -- nascimento virginal, ressurreição, ascenção e segunda vinda -- é tudo fruto da fé criadora dos discípulos e não têm a menor importância para o Cristianismo.

3) Não é a primeira vez que aparece gente para derrubar a fé cristã na ressurreição de Jesus. Já os judeus do primeiro século disseminaram a versão de que os discípulos roubaram o corpo de Jesus e inventaram a história que ele ressuscitou. Fala-se também que Jesus não morreu de fato, mas ficou em coma, do qual se recuperou posteriormente. As idéias são muitas e engenhosas. Recomendo a leitura da "Busca do Jesus Histórico" de Albert Schweitzer para os interessados no assunto. Apesar de todos os ataques, os fatos permanecem os mesmos: o túmulo vazio, a ausência do corpo de Jesus, a mudança radical dos discípulos, o testemunho dos 4 Evangelhos e de Paulo, um judeu convertido a Cristo, que afirma tê-lo visto ressurreto.

4) Apesar da propaganda de que o documentário foi montado por pesquisadores, especialistas, etc., estou simplesmente curioso para ver as evidências que vão apresentar de que os restos mortais dos dez caixões são de Jesus e de sua mãe. Pelo que li, Cameron e Jacobovici, o co-produtor, "dizem ter encontrado sarcófagos com a legenda 'Jesus, filho de José', 'Maria' e 'Judá' (que, segundo os cineastas, seria filho de Jesus)". É essa a prova que vai destruir a evidência oriunda do século I e que tem sido crida por 2 mil anos? Como sabem se as inscrições são autênticas? Segundo alguns, "a inscrição parecia duvidosa, pelo conteúdo, a caligrafia e o revestimento que o cobria". Mesmo que fossem autênticas, só havia um Jesus, um José e uma Maria em Israel no século I? São nomes extremamente comuns naquela época.

5) À semelhança das demais tentativas anuais para desacreditar o Cristianismo, essa vai para o esquecimento em breve, como também já está indo o Código da Vinci e o Evangelho de Judas. É claro que os incrédulos continuarão a se apegar teimosamente a qualquer coisa que prometa comprovar que os Evangelhos são uma grande mentira. E mesmo que o Discovery diga que é um "provável" achado, muitos verão o documentário como prova absoluta de que Jesus não ressuscitou.

Uma falha imperdoável destes documentários – compreensível por terem sido escritas por cineastas, e não por peritos em crítica histórica do Novo Testamento – é que não consultam a opinião de pesquisadores e arqueólogos bíblicos de convicções conservadoras. São reportagens unilaterais e preconceituosas. O documentário da Discovery está, num sentido, longe de ser um documentário "imparcial".

O pressuposto controlador do documentário com certeza é o racionalismo, para quem a Bíblia é um livro religioso igual aos demais das outras religiões, contendo elementos mitológicos e lendas. Temos também a natureza altamente especulativa das ferramentas críticas utilizadas para interpretar os achados aqueológicos.

Finalmente, não vou dizer que se realmente acharem o corpo de Jesus tudo continua como antes. Terei de clamar como Paulo, "se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé... somos os mais infelizes de todos os homens" (1Cor 15). Para mim, a ressurreição literal de Cristo de entre os mortos é o fundamento da fé cristã. Por isso, considero uma coisa muito séria o que esses cineastas estão tentando fazer. E não lamento nem um pouco o fracasso que vão experimentar, como todos antes deles.

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sábado, fevereiro 24, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Mitos da Pluralidade

Por     12 comentários:
Uma das palavras que caracteriza a época nova que estamos vivendo é “pluralidade”. É um dos conceitos ícones da nova geração. Eu tenho acompanhado a mudança da minha geração para essa presente, e confesso, não tem sido fácil para mim. Uma das coisas que me deixa perturbado é a facilidade com que “pluralidade” se tornou símbolo desse novo tempo, como pessoas trazem o termo na boca, prontos para usá-lo a torto e a direito, sem a menor reflexão sobre seu sentido.

Admito que há pluralidade no mundo, se entendermos pluralidade como diversidade. Nesse sentido, a criação de Deus é plural, a humanidade feita à Sua imagem é plural, as culturas são plurais, as idéias são plurais. Há uma enorme e fascinante diversidade na realidade que nos cerca. Com esse significado relativo e limitado, recebo e amo a pluralidade que encontramos num mundo que faz sentido e que se sustenta em cima de unidades, de princípios universais e absolutos. É, para mim, uma expressão da riqueza, poder e criatividade de nosso Deus.

Todavia, muita gente usa o termo no sentido absoluto, para negar toda e qualquer unidade, igualdade, harmonia e coerência que porventura existam no mundo, nas idéias, nas pessoas e nas culturas. Na verdade, o conceito subjacente que o termo pluralidade, usado modernamente, pretende desconstruir, é o de verdade absoluta, de conceitos e idéias e princípios que sejam válidos em qualquer lugar e a qualquer tempo. Nesse sentido, pluralidade é a testa-de-ferro do relativismo que infesta a mentalidade moderna: a existência coerente de verdades contraditórias que devem ser igualmente aceitas, sem o crivo do exame da veracidade.

Para mim, como cristão reformado, a pluralidade, entendida como diversidade, traz um monte de coisas boas. Se entendida como relativismo total ou variedade contraditória, tenho algumas dificuldades com ela.

1) Nenhum defensor da pluralidade consegue viver de forma coerente com sua crença de que tudo é relativo. Na prática, ele precisa compartilhar com os demais seres humanos determinados valores, convenções, costumes e leituras em comum, sob o risco de não conseguir se relacionar, comunicar e sobreviver. Todo relacionamento precisa de regras comuns e aceitas por todos, como contratos de trabalho, tabela do táxi, leis de trânsito e uma ética ainda que mínima. Mesmo os relativistas mais radicais são obrigados a capitular diante da inexorável realidade: a vida só pode ser organizada e levada à frente com base em princípios físicos e leis universais e que são observados e reconhecidos por todos.

2) Apesar de Raul Seixas ter preferido ser “uma metamorfose ambulante”, e “dizer agora o oposto do que disse antes”, tenho a impressão que dificilmente o ser humano consegue conviver em paz com a idéia da pluralidade. Existe uma busca interior em cada indivíduo por coerência, síntese e unidade de pensamento, sem o que ele não pode fazer sentido da realidade, encontrar o seu lugar no mundo e nem mesmo saber por onde caminhar. Acredito que este ímpeto é decorrente da imagem de Deus, um Deus de ordem, coerente, completo.

3) O conceito de pluralidade absoluta é internamente inconsistente. A afirmação “não existe uma única idéia certa, mas muitas” pode ser entendida simplesmente como apenas mais uma dessas muitas idéias, relativa e portanto não válida para todos ao mesmo tempo.

4) A defesa da pluralidade está longe de ser o discurso da tolerância, da igualdade e da convivência pacífica de idéias diferentes – ela esconde a busca pelo poder, pela instalação e dominação de uma única idéia e exclusão das outras. O melhor exemplo disso é a academia. Na universidade e nas escolas modernas, embora o discurso seja da convivência com o contraditório, o que existe na prática é a dominação ideológica por parte de um grupo que lentamente vai excluindo outras linhas de pensamento. Isso ocorre na psicologia, na biologia, no direito, na filosofia, etc.

5) O princípio subjacente à criação das universidades era exatamente procurar as verdades universais que pudessem unir as diferentes áreas do conhecimento e fazer uma síntese de tudo que existe. Daí o nome universidades. Infelizmente, hoje, as universidades viraram diversidades, abandonando a busca de um todo coerente, de uma cosmovisão que dê sentido e relacionamento harmônico a todos os campos de conhecimento. Quando as universidades surgiram, a cosmovisão cristã fornecia os pressupostos para essa busca da unidade do conhecimento. A teologia era considerada a rainha das disciplinas. Hoje, relegada a um departamento da filosofia, deixou um vácuo até agora não preenchido. A fragmentação do conhecimento tem sido o resultado na Academia, como se as diferentes disciplinas tratassem com mundos distintos, diferentes e contraditórios.

6) A pluralidade modernamente entendida está longe de ser um valor cristão. Muito embora a Bíblia reconheça a pluralidade no sentido de diversidade, quando se trata da revelação de Deus e da verdade, ela se torna intolerante. Outro Evangelho é anátema. O discurso em favor da pluralidade por vezes visa favorecer a legitimação de crenças e práticas que a experiência, a história, a consciência e especialmente a revelação bíblica ensinam que são incorretos, errados e equivocados – para não dizer pecaminosos.

7) Muita gente fala de pluralidade de idéias como se todas as idéias fossem diferentes entre si, ignorando que em muitos casos, elas não se contradizem, apenas se complementam, sendo uma faceta do mesmo diamante, o outro lado da mesma moeda. Em muitos outros casos, idéias que parecem antagônicas são apenas “antinomias” – termo que prefiro a paradoxo. Isto é, a contradição entre elas é apenas aparente, e a falta de harmonização entre elas se deve não a qualquer coisa intrínseca a elas, mas à nossa falta de capacidade de entendê-las e de relacioná-las. Num mundo criado por um Deus todo-poderoso, onisciente e infinitamente sábio é de se esperar que suas criaturas nem sempre entendam racionalmente como as coisas – e elas mesmas – funcionam. O mesmo se aplica à revelação que esse Deus fez de si mesmo nas Escrituras.

8) O conceito de pluralidade não legitima a diversidade de religiões. Apenas constata o óbvio, que existem religiões diferentes, e que dentro dos mesmos ramos religiosos existem diferentes interpretações e compreensões acerca de Deus, do homem, da realidade e do relacionamento destas coisas entre si. Todavia, a pluralidade funciona apenas como uma constatação e não como uma religião propriamente dita, embora muitos já tenham adotado a pluralidade como sua religião. Eles crêem em tudo e por isso mesmo, não crêem em nada.

9) É lamentável que muitos que se dizem seguidores de Jesus Cristo e da Bíblia insistam que a pluralidade é o caminho do cristão. Esquecem as posições firme e claras, e por vezes exclusivistas, que Jesus tomou com relação a outras posições e compreensões religiosas de sua época. Essa atitude foi seguida à risca pelos seus apóstolos. Os escritos neotestamentários denunciam falsos profetas, diferentes compreensões da vida e obra de Cristo e relegam ao campo das heresias aquelas idéias e conceitos que não se conformavam com o ensino original de Jesus e dos apóstolos. Não há qualquer amor à pluralidade – entendida como relativismo pleno e variedade contraditória – nos escritos do Novo Testamento.

Não me entendam mal. Reafirmo a existência e reconheço a realidade da diversidade, variedade, multiplicidade de idéias, conceitos, costumes, e que elas são resultado dos diferentes ambientes vivenciais, experiências e culturas dos indivíduos. Estou questionando o pensamento de que pluralidade implica na total relativização da verdade, na dissolução do conceito de que existem idéias e valores absolutos, princípios e verdades espirituais, éticas, morais, epistemológicas que são universais. Nesse ponto, continuo firme na convicção que o Cristianismo bíblico fornece o fundamento para se ver e entender a realidade como um todo coerente.
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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Sobre Neo-Libertinos

Os libertinos existem há muito tempo dentro da Igreja Cristã. Não vamos confundi-los com aqueles que procuram a liberdade da escravidão do pecado, da carne, do mundo e da lei, que é a liberdade cristã propriamente dita, encontrada em Cristo. Nesse sentido, todo crente verdadeiro é livre, ao mesmo tempo em que é escravo de Deus e servo dos seus semelhantes. Paulo fala disso em Romanos 6.

Os libertinos são diferentes. Eles também falam da liberdade cristã, da liberdade de consciência e da liberdade da lei, só que querem também ser livres de Deus e do próximo. Não percebem a liberdade dada por Cristo como estímulo para viver em obediência a Deus e serviço ao próximo, mas como uma licença para fazerem o que tiverem vontade.

Nós os encontramos em todos os períodos da Igreja. Quem não lembra de Balaão, o falso profeta que ensinou os filhos de Israel a se prostituir com as cananitas e a praticar a religião delas, como se fosse algo aceitável a Deus? (Num 31.16).

Encontramos os libertinos infiltrados nas comunidades cristãs primitivas, ensinando que a graça de Deus permitia ao cristão a participação nos sacrifícios pagãos oferecidos nos templos. Paulo encontrou um grupo de libertinos em Corinto, que achava que tudo era lícito ao crente, inclusive participar dos festivais pagãos oferecidos nos templos dos idólatras (1Cor 8—10). O livro de Apocalipse menciona os nicolaítas e os seguidores de Jezabel, grupos libertinos que ensinavam os cristãos a participar das “profundezas de Satanás” (Ap 2.24). Menciona também a “doutrina de Balaão”, que parece ter sido uma designação relativamente comum no séc. I para os libertinos (cf. Ap 2.14). Judas escreveu sua carta para denunciar e enfrentar “certos indivíduos que se introduziram com dissimulação... homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Judas 4).

Na época da Reforma, Calvino referiu-se em uma de suas cartas ao partidos dos libertinos na igreja de Genebra, que usava a “comunhão dos santos” para troca de esposas (mencionado no livro de Piper, Alegria Soberana).

Os libertinos modernos – vamos chamá-los de neo-libertinos – não são diferentes e mantém basicamente as mesmas características dos libertinos denunciados no Novo Testamento, particularmente na carta de Judas:

1. Os neo-libertinos estão introduzidos nas igrejas cristãs, mesmo não sendo verdadeiros crentes em Cristo Jesus, dissimulando suas crenças e práticas até se sentirem seguros para manifestar abertamente o que são. Eles estão presentes nas festividades das igrejas como “rochas submersas” (Jd 12), que representam um perigo para a navegação. Neo-libertinos costumam ficar em igrejas históricas e confessionais sem dar a mínima para o que elas acreditam.

2. São pessoas ímpias – isto é, sem piedade pessoal, sem temor a Deus e sem a verdadeira religião – que se apresentam travestidas de cristãos, usando a linguagem cristã e engajadas em práticas cristãs. São arrogantes e aduladores dos outros por interesses (Jd 16). São “sensuais” e “promovem divisões” no corpo de Cristo com suas idéias heréticas (Jd 19).

3. A doutrina neo-libertina é que a graça de Cristo faz com que tudo seja lícito ao cristão, inclusive a prática da imoralidade – que naturalmente não é chamada por esse nome, mas por eufemismos e outros nomes, como sexo livre, amor, etc. Essa doutrina transforma essa graça em libertinagem – é daí que vem o nome “libertinos”.

4. Em última análise, a doutrina dos neo-libertinos nega a Jesus Cristo, que sofreu na cruz para livrar seu povo não somente da culpa do pecado, mas do poder do pecado em suas vidas, conduzindo-os à santidade e pureza. Os libertinos vivem sem nenhum recato (Jd 12).

5. A fonte de autoridade para essa doutrina não é a Escritura, que em todo lugar condena a imoralidade, a concupiscência, a prostituição e o adultério, mas suas experiências pessoais. Judas chama os libertinos de “sonhadores alucinados que contaminam a carne” (Jd 8). A religião dos neo-libertinos não é oriunda da revelação de Deus nas Escrituras, mas é fruto da sua mente carnal, “instinto natural, como brutos sem razão” (Jd 10).

Falando claramente e sem rodeios, os neo-libertinos presentes nas igrejas evangélicas defendem o sexo antes do casamento, a multiplicidade de parceiros, as relações homossexuais, a troca de esposas e maridos, a pornografia, aventuras amorosas fora do casamento, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, a participação dos cristãos nas diversões mundanas e absorção dos valores desse mundo no vestir, trajar, viver e andar. A agenda neo-libertina é mais ampla do que essa e alguns neo-libertinos são mais radicais que outros. Mas no geral, neo-libertinos são contra qualquer sistema que tenha uma ética definida e clara e que defenda valores morais absolutos e fixos.

Neo-libertinos costumam construir uma imagem de Jesus como uma pessoa inclusivista, que amou a todos sem distinção, jamais condenou ninguém nem se pronunciou contra o pecado de ninguém. Todavia, o Jesus libertino é diferente do Jesus que o Cristianismo histórico vem acreditando faz dois mil anos. O Jesus libertino foi um fracasso, pois ninguém entendeu o que ele quis dizer em dois mil anos de história – só agora os neo-libertinos descobriram.

O Jesus libertino não conseguiu se fazer entender. Fracassou redondamente. Seus discípulos, as pessoas mais chegadas a ele, se tornaram o oposto do que ele queria: Pedro passou a ensinar que a vida nas paixões pecaminosas era pecaminosa (1Pedro 1:13-19), João passou a dizer que a paixão pelas coisas do mundo e da carne não procedem de Deus (1João 2.15-17), Tiago condenou o mundanismo (Tiago 4), o autor de Hebreus disse que temos que lutar até o sangue contra o pecado que nos rodeia (Hebreus 12.1-4) e Paulo declarou que os sodomitas e efeminados não entrarão no Reino de Deus (1Coríntios 6:9-11). Eles certamente não aprenderam essas coisas com o Jesus libertino.

Os neo-libertinos convenientemente calam-se sobre determinadas passagens nos Evangelhos onde Jesus, ao receber prostitutas, cobradores de impostos e pecadores em geral, os ensinava a segui-lo, não cometendo mais pecados, tomando a sua cruz, negando a si próprios e se tornando sal e luz desse mundo em trevas. Nenhuma prostituta, imoral, ladrão, que conheceu Jesus e se tornou seu discípulo continuou na sua vida imoral. Zaqueu, Mateus e Madalena que o digam.
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terça-feira, fevereiro 06, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Fé e Meio Ambiente

Por     7 comentários:
A geração que nos sucede receberá um legado ameaçador, que são os graves problemas ambientais que afligem o nosso planeta. Muito embora devamos ser críticos em relação ao tom catastrófico e apocalíptico com que organizações ambientalistas costumam se pronunciar sobre o futuro do planeta e de seus habitantes, existe pouca dúvida de que a crise é, de fato, real. Poluição dos rios, dos mares e do ar, desmatamento, redução da camada de ozônio, não só a ameaça, mas a extinção de espécies animais, aquecimento global – são apenas alguns dos itens na pauta de ambientalistas, governos e religiosos. Essas preocupações têm a ver com a sobrevivência da raça humana num planeta cujas reservas estão sendo exauridas a passos largos.

Acredito que exista uma relação inseparável entre os conceitos de “cosmovisão” e “ecologia”. O primeiro, como Solano tem mostrado claramente em posts anteriores, é uma maneira peculiar de entender nossa relação com Deus, com o próximo e com o mundo; e o segundo é o estudo das interações dos seres vivos entre si e com o meio-ambiente. Em outras palavras, aquilo que acreditamos acerca de nós mesmos, de Deus e do mundo onde vivemos determinará nossas decisões quanto ao nosso planeta.

O Cristianismo tem promovido através dos séculos uma cosmovisão coerente e abrangente que tem interagido com a ciência e o progresso. Estudiosos têm reconhecido a necessidade de uma base religiosa na área da ecologia. “A ecologia humana é profundamente condicionada pelas crenças sobre nossa natureza e nosso destino – isto é, pela religião”.[1]

É um fato que encontramos entre os grandes poluidores do planeta alguns paises que nasceram sob a égide do Cristianismo. Tal constatação não invalida os ensinamentos bíblicos sobre o cuidado com a natureza. No máximo, sugerem que esses ensinamentos não permearam suficientemente a cultura e a mentalidade dessas sociedades. Ou ainda, que os referenciais cristãos, que num passado distante foram adotados por elas, são agora rejeitados ou distorcidos, no todo ou em parte, em nome dos interesses econômicos.
Os seguintes pontos tirados da fé cristã reformada podem servir de base para a formação de uma mentalidade ecológica cristã.

1) O mundo foi criado por Deus. “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1.1). O mundo é obra de suas mãos, mesmo que não saibamos, em termos científicos, a maneira pela qual a sua Palavra trouxe todas as coisas à existência. A origem divina de tudo o que existe não significa que nosso planeta é uma extensão de Deus ou muito menos que mereça nossa adoração. Significa que ele merece nosso respeito e nosso cuidado, como o lar que Deus preparou para nós e os demais seres vivos. Significa também que Deus é o soberano Senhor da criação, como disse Davi, rei de Israel, muito tempo atrás: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24.1).

2) O mundo foi criado bom. “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31a). “Muito bom” é o veredito do Criador sobre a natureza. Ela foi declarada boa tanto pelo seu valor intrínseco quanto por sua perfeita adequação às necessidades humanas. Isso difere da visão do antigo dualismo entre matéria e espírito, que equiparava a matéria à desordem. De acordo com essa visão, a matéria é má e pecaminosa. Perspectivas que têm uma visão negativa do mundo físico ou que o separam da sua origem transcendente dificilmente podem nos dar alguma esperança de achar soluções racionais e abrangentes para nossos problemas ambientais.

3) O mundo funciona de acordo com leis e princípios estabelecidos por Deus. A convicção fundamental da ciência é que o mundo funciona de acordo com leis e princípios regulares e constantes e, portanto, previsíveis. Essa base é dádiva da visão cristã de que o mundo foi criado de forma ordenada por um único Deus, um Deus de ordem, e não por vários deuses ambíguos, contraditórios, incoerentes e caprichosos, a partir da matéria caótica, como acreditam alguns. Foram cientistas com as convicções acima, no todo ou em parte, que lançaram as bases da moderna ciência e da tecnologia, como os astrônomos Kepler e Galileu, os químicos Paracelso e Van Helmont, os físicos Newton e Boyle e os biólogos Ray, Lineu e Cuvier, para citar alguns. Somente com esses referenciais podemos entender o funcionamento do meio-ambiente, do mundo e seus recursos, perceber os desastres que estamos causando por violarmos essas leis e prever soluções.

4) O ser humano é único. De acordo com o Cristianismo, o ser humano foi criado por Deus juntamente com a natureza e os demais seres vivos. Nesse sentido, é parte integrante dela. Todavia, ele foi feito de forma única, à imagem e semelhança de Deus, o que o distingue do restante da criação. A imagem de Deus implica, entre outras coisas, que o ser humano foi dotado de inteligência e, portanto, pode interpretar as leis do mundo e prover os meios de preservá-lo. Em algumas cosmovisões o ser humano, a natureza e Deus estão em níveis idênticos e fazem parte de uma mesma substância, o que torna impossível ao ser humano transcender a natureza para poder analisá-la, dominá-la e ajudá-la.

5) O ser humano é mordomo da criação. “Tomou o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2.15). Deus o colocou no mundo como seu gerente e lhe deu alguns mandatos: cuidar da criação, de onde tiraria seu sustento, protegê-la e preservá-la, conhecê-la, estudá-la, para assim conhecer melhor a si mesmo e a Deus. O ser humano é o mordomo de Deus. Não é o soberano senhor, dono e déspota, mas o responsável diante de Deus pelo emprego correto dos recursos naturais, pelo seu próprio desenvolvimento de forma sustentável e pela preservação dos demais seres vivos.

6) Vivemos num mundo afetado pelo pecado. De acordo com a Bíblia, quando o ser humano colocado no jardim se revoltou contra o Criador, precipitou no caos a si mesmo e a criação pela qual era responsável. “Maldita é a terra por tua causa” (Gênesis 3.17) foi a sentença do Criador ao ser humano, agora sujeito à morte, a retornar ao pó de onde fora tirado. Tensões se estabeleceram entre Deus e o ser humano, entre o ser humano e seus semelhantes, e entre o ser humano e a natureza. A crise que vivemos hoje se deve a estas tensões:

  • Separado espiritualmente de Deus, o ser humano perdeu a referência da sua existência e da relação criatura-Criador. Essa última perda, em especial, afetou profundamente a sua maneira de ver o mundo, que ele ora agride e exaure, ora venera e teme como a um deus.

  • Vivendo em tensão emocional em relação aos seus semelhantes, o indivíduo dedica-se a buscar seus próprios interesses, mesmo que à custa do próximo. A exploração egoísta e desenfreada dos recursos naturais é feita sem levar em consideração que os mesmos faltarão à próxima geração.

  • Em tensão com a natureza, o ser humano a explora, agride e exaure, em nome do poder, do lucro e do progresso. O meio ambiente é para ele somente um bem de consumo.

Diante do exposto, entendemos que os problemas ambientais são primeiramente de origem moral e espiritual. Entendemos ainda que a solução passa pela transformação interior das pessoas, uma mudança de mentalidade com relação a Deus, ao próximo e à natureza. Em suma, é esse o apelo e o chamado do Evangelho.


Uma abordagem ecológica que tenha os fundamentos acima como referência poderá escapar dos extremos de algumas perspectivas populares:


1) Uma visão mística, em que o ser humano não mais é entendido como mordomo de Deus encarregado de cuidar, desenvolver e usar a natureza com sabedoria. Ao contrário, é entendido como servo dela, com a obrigação de preservá-la, como se ela fosse sagrada e como se o ser humano devesse manter uma atitude de adoração para com ela. Essa visão impede o uso inteligente e racional dos recursos naturais, a busca de soluções para os graves problemas humanos e o desenvolvimento do ser humano em geral.


2) Uma visão sentimentalista da natureza, que tem como ideal a vida rural. Por mais atraente que tal visão seja, ela não faz justiça à vocação e à responsabilidade do ser humano. O progresso do ser humano, conforme a Bíblia, é do jardim para cidade, e não necessariamente de volta para o campo. Essa visão, à semelhança da anterior, impede que o ser humano explore com sabedoria e responsabilidade os enormes recursos naturais à sua disposição e que podem promover seu progresso e bem-estar, e isso sem a depredação da natureza.


3) Uma visão antropocêntrica, que coloca o ser humano no centro e recorre a soluções tecnológicas para a crise ecológica que, além de serem extremamente caras, acabam mantendo a atitude de desprezo para com o meio-ambiente. Essa visão tende a agravar a crise e a lançar o ser humano cegamente no caminho da autodestruição.


Cremos que a fé cristã-reformada provê as premissas epistemológicas, morais, espirituais e éticas para que possamos lutar pelo meio ambiente e em prol do nosso planeta, fazendo ecologia de forma coerente e integral.

[1] Lynn White Jr., “The Historical Roots of Our Ecological Crisis”, In: Science, vol. 155, pp. 1203-1207, 10 de março de 1967.

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sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Camisinhas, Refrigerantes e Doces

Por     31 comentários:
As camisinhas, antes distribuídas pelo governo em postos de saúde, estarão disponíveis gratuitamente aos adolescentes nas próprias escolas, por meio de máquinas semelhantes às de refrigerantes e doces. Os ministérios da Educação e da Saúde se uniram num projeto para levar preservativos ao ambiente escolar e, assim, reforçar as campanhas de prevenção à Aids e demais doenças sexualmente transmissíveis” (A Tribuna, janeiro de 2007).

Pois é, agora os nossos adolescentes vão poder comprar camisinhas na escola da mesma forma que rotineiramente compram refrigerantes e doces. Parece que estou vendo: “Filhinha, aqui está o dinheiro para o lanchinho de hoje na escola e com o troco, compre uma camisinha, caso hoje você vá ‘ficar’ com alguém...”

Parece que para muita gente as relações sexuais entre adolescentes são tão naturais e normais quanto fazer um lanchinho no intervalo da aula. Uma máquina de camisinhas no banheiro da escola – que apelo essa imagem passa ao adolescente que passa no banheiro para um rápido pipi?

Eu estou perfeitamente consciente dos altos números da AIDS, da gravidez e das DST entre crianças e adolescentes no Brasil. Sei que alguma coisa precisa ser feita. Também sei das publicações oficiais que mostram que o Brasil está entre aqueles países que conseguiram diminuir o avanço da AIDS. Todavia, me recuso a aceitar soluções para esses problemas que partem da premissa que a relação sexual entre adolescentes é um ato normal de satisfação de uma necessidade fisiológica, como matar a sede ou a fome.

O assunto tem tudo a ver com a questão do sexo antes do casamento. A minha opinião é aquela do Cristianismo histórico conservador, ou seja, que o sexo é uma bênção dada por Deus para ser usufruída numa relação de compromisso e responsabilidade dentro do casamento. O sexo é mais do que o envolvimento físico de um homem de uma mulher, tem dimensões mais complexas que só podem ser entendidas plenamente no ambiente do casamento. O sexo antes e fora do casamento nunca pode ser total, pois lhe falta o elemento do compromisso moral, psicológico e espiritual que faz com que ele seja completo. Por estes motivos, considero sexo antes do casamento – e especialmente entre adolescentes – um desvirtuamento da intenção original de Deus quanto à sexualidade.

Pessoalmente, não vejo problemas com campanhas de prevenção contra DST e educação sexual feita de maneira adequada. Apenas lamento a idéia de que a distribuição cada vez maior de camisinhas – ainda que acompanhada de alguma orientação sobre sexualidade – vá resolver o problema. Como muitos, temo que na verdade acabe por fomentar ainda mais a promiscuidade sexual entre adolescentes, que são despertados e se sentem seguros para ter uma vida sexual ativa com vários parceiros de toda orientação sexual disponível no mercado.

E aqui tocamos em outro tema afim, a questão da educação sexual. Acho que os adolescentes deveriam ter educação sexual em suas famílias, desde cedo. É tarefa dos pais instruírem os filhos sobre a sexualidade e as questões relacionadas ao sexo. Mas, porque essa acabou virando uma tarefa quase que exclusiva das escolas? Creio que isso se deve ao fato que muitos pais são omissos, muitas famílias estão destroçadas, muitos pais não têm exemplo para dar e nem autoridade para ensinar qualquer coisa aos filhos nessa área. OK, dos males o menor... mas, e na escola?
A educação sexual na escola não deveria ficar entregue nas mãos de pedagogos, psicólogos e médicos que podem não ter uma formação moral e ética que permita uma visão mais integral do assunto e a inserção de valores morais e éticos que sempre fizeram parte da tradição cristã ocidental. Via de regra, o que se ensina hoje em grande parte das escolas é o "ficar” como sendo normal e desejável, o sexo antes do casamento como se fosse a coisa mais natural do mundo, quer seja hetero ou homo. Só para dar um exemplo, segundo a cartilha “Sexualidade, Saúde e Bem-Estar” da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, escrita com ajuda da coordenadora de seu Programa da Adolescência, o ato de "ficar" – que pode acabar em relações sexuais – é desejável entre adolescentes, pois não traz obrigações, compromissos e rejeições e dá "oportunidade de adquirir mais experiência, antes de eleger alguém como parceiro definitivo". Não sei se essa visão é representativa da visão oficial, mas imagine o que isso representa ao ser lido ao lado de uma máquina de camisinhas!

A causa básica do crescimento da AIDS, da fragmentação da família, do aumento do número de adolescentes grávidas e de mães solteiras, da falta de controle da natalidade, é o impacto, ainda hoje, do movimento de liberação sexual que teve início na década de 60. O movimento derrubou todas as restrições morais com relação ao sexo, desvalorizando o casamento e a virgindade e transformando o sexo numa experiência fisiológica desconectada de valores como compromisso, fidelidade e amor autêntico. Esta é a verdadeira causa da explosão de doenças venéreas, da AIDS, e dos graves problemas sociais resultantes da promiscuidade entre os jovens dessa geração. E o que mais nos dói é saber que há grupos dentro das igrejas evangélicas que defendem o sexo antes do casamento como coisa normal entre adolescentes e jovens. O uso de camisinhas numa situação dessas é um remendo, é usar um band-aid para curar um câncer.

A promoção de uma educação sexual liberal, a campanha e a instalação de máquinas de camisinhas, na minha opinião, terão efeitos contrários, considerando o ambiente erotizado de nosso país, erotizado pela mídia de todos os tipos, pelos artistas, pelas novelas, que atingem nossos filhos até dentro de casa. Estaremos empurrando ainda mais os adolescentes para as relações sexuais.

Não sou contra a campanha oficial para uso da camisinha. Sou contra a falta de uma campanha que atinja o cerne do problema, de uma campanha de educação sexual que enfoque os benefícios e vantagens da abstinência até o casamento. Eu sei que uma campanha dessas é politicamente incorreta e absolutamente impensável para o nosso Estado comprometido com valores seculares e liberais. Contudo, penso que é o caminho correto, pois vai na raiz do problema.

Sei que há quem pense que essa posição acaba por afastar os adolescentes do Cristianismo evangélico. Todavia, não considero essa posição como "fechada". A posição "aberta" só tem trazido problemas de toda sorte a esta geração. Além do mais, o pensamento da Igreja deve se guiar pelo que diz a Bíblia, a Palavra de Deus, e não por objetivos pragmáticos. Os padrões morais revelados por Deus na Bíblia não devem ser diminuídos em nome de se manter as igrejas cheias de adolescentes e jovens. Os jovens gostam da verdade. Se dissermos a verdade a eles em amor, clareza e gentileza, não se afastarão, ao contrário, se sentirão atraídos, pois buscam sempre um ponto de referência.
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segunda-feira, janeiro 29, 2007

Solano Portela

Cosmovisão para Leigos (3) - Áreas de Conhecimento

Sociedade, Governo, Economia, Cultura, Arte e Tecnologia.

No post anterior iniciamos uma tratamento resumido de áreas da atividade em que estamos envolvidos ou de conhecimento, com a Palavra de Deus. A forma como observamos, abordamos ou procuramos entender essas esferas, se constitui em nossa Cosmovisão.

Sociedade
Na cosmovisão cristã, o estudo das sociedades, ou sociologia, começa com a pessoa de Deus, que subsiste em um relacionamento social eterno na trindade. A Bíblia enfatiza que Deus é unidade e pluralidade, bem como causa final de todas as coisas. Por isso, nas Escrituras, não encontramos nem o indivíduo nem a sociedade corporativa, um acima do outro. O cristianismo representa a única solução aos problemas gerados pelo humanismo que postula uma luta constante entre individualismo e coletivismo.

Em sua sabedoria infinita, Deus instituiu o relacionamento social primário e fundamental – a família, desde a criação. Esta é a célula principal de todas as demais ordens sociais, que foram se desenvolvendo conforme a providência divina. Procedem de Deus a formação do estado, da igreja e da família. Cada uma dessas áreas representa uma esfera de atividades e competências, com regras e limites específicos, sendo responsáveis perante Deus, na pessoa de seus líderes designados, para funcionarem dentro da esfera de autoridade específica que cada uma possui, como dádiva recebida de Deus. Esses direitos e responsabilidades foram adequadamente delineados e registrados na Lei santa de Deus. Deus criou o homem, portanto, como uma criatura social, à sua imagem.

A Bíblia também nos apresenta fatos sociais que devem ser ensinados. Por exemplo, existe extremo valor didático e muitos princípios a serem extraídos do estudo de como Deus se relacionou com o seu povo, em uma época e situação específica, no Antigo Testamento. Como aquela sociedade foi estruturada, por Deus, para resistir a fragmentação gerada pelo pecado. Quais os contrastes e similaridades daquela sociedade com os povos sem Deus que a rodeavam. A apresentação bíblica da ordem social é necessária para nos ensinar como Deus lida com a corrução moral e social em diversas ocasiões. A legislação moral encontrada na Palavra de Deus é uma ferramenta de análise das diversas estruturas sociais das nações e povos.

Quando analisamos a ordem social proveniente de Deus e a perversão dessa ordem, pelo homem pecador, compreendemos as diretrizes divinas para constituição de uma sociedade alternativa que verdadeiramente o glorifique. O que é distorcido pelo pecado, é restaurado pela graça de Deus. Cristo e a redenção nele encontrada, não somente restaura o relacionamento entre Deus e os seus chamados, mas, como resultado, o relacionamento entre homens, mulheres, crianças, raças e nações é também restaurado. A família cristã e a comunidade cristã – a igreja – deveriam sempre ser modelos firmes de um relacionamento social adequado no meio do caos do mundo contemporâneo – submerso em pecado.

Pela Palavra de Deus, a sociedade cristã é igualmente equipada a coexistir e sobreviver - fortalecida em Deus e por ele - em um mundo que pode ser hostil intelectualmente, ou até fisicamente violento contra o cristianismo e os cristãos. Nessas situações, a sociedade cristã não "joga a toalha" e se amolda aos valores e percepções anti-cristãs, mas permanece, como sal da terra e luz do mundo, testemunhando dos valores de Deus, procurando influenciar, em vez de ser influenciada, na expectativa de que ele, por sua graça comum, conceda momentos de vitórias onde tais valores venham a permear segmentos, bolsões, ou grande parte da sociedade. A história registra que Deus, por vezes, tem concedido tais tempos de refrigério ao seu povo.

Governo
O estudo correto do governo, ou das ciências políticas, na cosmovisão cristã, deve ser fundamentado na Palavra de Deus. O estudo da lei civil e do governo torna necessário a compreensão do padrão infalível de Deus, para uma adequada percepção do que é justiça e do que é injustiça. O governo civil se ocupa da promulgação da lei. Isso significa que sua esfera de atuação abrange a definição do certo e do errado. Certo e errado, entretanto, são conceitos que não podem ser divorciados de moralidade e moralidade está na essência da religião. Assim, governo civil é, por sua própria natureza, uma instituição religiosa – no sentido de que se rege pela religião (verdadeira, ou humanista) e presta contas a Deus (ou deixa de prestá-las, atuando como se fosse autônoma, para sua própria destruição.

O Antigo Testamento revelou o sistema legislativo para um governo civil. Deus, através de Moisés, supriu todo um povo, civilização e sociedade com um sistema completo de legislação civil e de governo. O decálogo, estabelece a base moral do governo. O exemplo do governo civil do Povo de Deus no AT, nos ensina separação de poderes; sistema de apelos e recursos; e um sistema de aferições contínuas entre os poderes.

Essa compreensão da teocracia veto-testamentária nos possibilita a análise comparativa de governos humanos, do passado e do presente, bem como de suas estruturas, leis e políticas. A cosmovisão cristã e o estudo desta área, leva aquele que estuda e se aplica nos princípios bíblicos a uma participação responsável no seu governo, exercitando cidadania responsável, tornando-se arauto da lei de Deus a uma sociedade sem Deus.

Reconhecemos que Deus trabalha de formas diferentes em eras diferentes (Hb 1.1-4) e que a legislação civil do Antigo Testamento foi promulgada para um povo específico, com propósitos específicos e com caráter temporal, não sendo normativa em seus detalhes à nossa sociedade. No entanto, a cosmovisão cristã procura estudar os princípios e valores contidos por trás daquelas legislações específicas e reconhece o aspecto didático desse estudo.

O entrelaçamento do governo (ou do estado) com a pessoa de Deus é claramente delineado no textus maximus dessa área - Rm 13.1-7, onde temos reafirmado o ensinamento de que Deus é a fonte da autoridade, que ela a delega a governantes humanos, mas que nem por isso eles deixam de ser responsáveis perante Deus e os homens, pelo desempenho correto de suas responsabilidades. Ali aprendemos, em adição, que tais responsabilidades são limitadas e não atribuidas para o exercício do despotismo; que elas são circunscritas a áreas específicas de manutenção da ordem, e não representam uma carta branca para a intromissão em todas as áreas das vidas dos cidadãos.

Em um post subsequente, deverei expandir um pouco mais essa visão bíblica do governo, ou do conceito do estado.

Economia
Deus é o proprietário da terra, a fonte de toda a riqueza. Ele é o dono de tudo e delega tal propriedade a quem lhe apraz. De Deus procedem, também, leis que governam a esfera da economia humana. Deus concedeu ao homem o direito de possuir propriedade privada, de ocupá-la ou desenvolvê-la, de objetivar a lucratividade e de definir como o a receita deve ser aplicada. No entanto, pelo próprio fato de que Deus é o Senhor de tudo e de todos, somos ensinados a exercitar todos esses direitos responsavelmente, como mordomos de Deus.

De acordo com as Escrituras, não faz parte das atribuições governamentais a regulamentação excessiva ou detalhada da economia, exceto na dádiva de garantias contra roubos e fraudes. A Palavra de Deus especifica a dignidade do trabalho e o direito do trabalhador de usufruir economicamente do seu trabalho. O exercício desses direitos deve se processar debaixo de diretrizes contidas na Palavra que produzem um sistema econômico que glorifica a Deus e demonstra sensibilidade às necessidades alheias. Esse sistema deve englobar e levar em consideração: o trabalho com afinco; a competitividade; os riscos do mercado. Esses fatores impelem os produtores e vendedores a utilizarem suas habilidades e recursos econômicos com muito cuidado, gerando produtos de qualidade crescente a preços mais razoáveis. O papel do governo, nessa esfera, é o de servir de árbitro – louvando os bons e punindo os maus – também na mercantilização, de acordo com os padrões da lei de Deus.

Riqueza não é uma conseqüência única de brutalidade econômica. A prosperidade econômica é possível vir como resultado das bênçãos divinas sobre o uso correto do trabalho empregado e da aplicação do lucro obtido. Harmonia produtiva, na esfera comercial, é fruto da graça comum de Deus, possibilitando as pessoas a seguirem suas leis (mesmo descrentes, que não as têm em suas mentes e corações). O cristianismo deve servir de intensa influência salutar na vida econômica construida em justiça, em uma sociedade; promovendo o respeito mútuo às leis; a obediência aos contratos firmados; a consideração ao bem alheio, o uso comedido do poder, a ausência de egoísmo desvairado nas realizações e a sensibilidade aos necessitados e carentes.

Cultura e Arte
As artes e a cultura são dons concedidos aos homens pelo Espírito Santo. Quando um artista compõe uma música, pinta um quadro de qualidade, um arquiteto projeta um edifício – cada um desses aplica, em sua específica esfera, o talento recebido de Deus. Na cosmovisão cristã, cada dom será utilizado para refletir a glória e sabedoria do doador e imitar a beleza e utilidade da obra criativa de Deus.[1]

A cosmovisão humanista vê a cultura e a arte como se existissem apenas para se auto-expressarem, ou para o divertimento das pessoas, ou por vaidade egoísta. As pessoas sem Deus utilizam, muitas vezes, a cultura como uma forma de expressar a sua revolta contra Deus e de glorificarem-se a si mesmas. Quando o homem cria, não está criando algo do nada, mas descobrindo a potencialidade em si, ali colocada por Deus. O uso correto da cultura e das artes representa uma bênção de Deus e resulta no benefício da humanidade e na validade da apreensão estética das coisas. O uso ou desenvolvimento incorreto, torna-se em uma maldição contribuindo para a destruição e dissolução moral da humanidade.

As artes e a cultura criam obras que expressam pensamentos e emoções. Conseqüentemente, influenciam a moralidade e o comportamento de muitos. Em muitas situações, providenciam comunhão e experiências praticamente religiosas aos apreciadores, criando um magnetismo e atratividade intensa entre artistas e espectadores. Isso representa uma grande responsabilidade ao cristão e quer dizer que não devemos nos envolver e desfrutar das artes que promovem pensamentos, emoções e comportamentos contrários à Palavra de Deus (2 Co 6.14).

Reconhecendo a manifestação da graça comum de Deus nessas esferas; reconhecendo o que é de mérito e qualidade; o cristão deve utilizar-se dessas áreas para a promoção do Reino de Deus. Os talentos devem ser desenvolvidos em harmonia com a lei moral de Deus, para sua honra e glória.

Tecnologia
Uma maneira de entender tecnologia, é considerando-a como a ciência aplicada à mecânica da vida, à multiplicação do potencial humano de realização. Ela tem algo de arte e cultura, pois é a interação da criatividade humana com as decobertas do funcionamento da criação de Deus (por exemplo: as chamadas leis físicas e químicas, o código do genoma, etc.), resultando em construções ou produtos colocados a serviço do homem. Se "fazer ciência" é algo que compreendemos como possível exatamente pela existência de Deus, como âncora metafísica maior, que estruturou e mantém uma criação em harmonia - não caótica, a tecnologia só é possível em função dessa mesma harmonia.

O avanço da tecnologia é uma evidência da operação do que conhecemos como graça comum de Deus. Ele possibilita a facilitação da jornada humana, através de obras que, como nas artes e na cultura, possuem mérito e qualidade intrinseca, independentemente se foram produzidas conscientemente para a glorificação do Criador. Ou seja, a cosmovisão cristã reconhece, sim, que o descrente produz obras de mérito e qualidade - mesmo em sua rejeição ao Deus que as possibilita. Descrentes projetam e constroem pontes seguras, elevadores que não falham, prédios que não caem, computadores que funcionam. Semelhantemente, são competentes na realização de cirurgias complicadas (e as simples, também), no estudo e controle de condições climáticas. A diferença é que os crentes no Deus da criação que são competentes nessas áreas têm a capacidade de exercitar seus dons e treinamentos conscientemente na glorificação do Criador e reconhecem que essas habilidades procedem dele.

A cosmovisão cristã não rejeita a tecnologia, mas não a considera um fim em si, nem que a sua servitude se exaure no melhoramento da humanidade. Enxerga a fonte e o destino dela - o Deus do Universo. Sabe que ela pode ser utilizada tanto para o bem como para o mal, e que isso é uma consequência do fator pecado, que deixa suas marcas em todas as áreas de realizações humanas.

Conclusão
Diversas outras áreas de conhecimento poderiam ser apresentadas sob o prisma de uma cosmovisão cristã. Nosso propósito, é o de que você se convença que as Escrituras são pertinentes ao todo da nossa vida. Isso tem uma conseqüência dupla: (1) Torna legítima as múltiplas esferas de conhecimento, ao cristão, que deve dominá-las para a Glória de Deus; (2) Desenvolve o nosso pensar como cristãos, objetivando a verdadeira transformação de nossa mente, em vez da conformação com o pensamento do mundo, fazendo-nos ávidos inquiridores e pesquisadores da Palavra de Deus, para ver o que ela tem a nos ensinar em cada segmento do conhecimento humano.

[1] Ver o meu artigo “Cultura – A Fé Cristã é Contra ou a Favor?”, postado em: http://www.solanoportela.net/artigos/cultura.htm
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segunda-feira, janeiro 22, 2007

Solano Portela

Cosmovisão para Leigos (2) - Áreas de Conhecimento

Gostaria de dar um tratamento resumido sobre o relacionamento da fé cristã com algumas áreas do conhecimento humano. Isso, obviamente, não tem qualquer pretensão de esgotar a questão - meramente arranhamos a superfície. [1]

Matemática
Deus é trino – uma trindade. Ele é, igualmente, um único Deus. Nisso entendemos porque temos tanto unidade como diversidade na criação. Podemos ver nisso uma base para unidade e diferenciação na matemática.

A Bíblia nos ensina que o criador é Deus de ordem (1 Co 14.33 – “... Deus não é Deus de confusão...”). Quando estudamos o universo, criação de Deus, verificamos a ordem matemática das estruturas. A criação é governada por leis matemáticas, por seqüências lógicas (Sl. 19.1-2), que refletem o caráter daquele que a formou. Muitas leis da criação são definidas em termos da matemática. Observamos uma precisão maravilhosa na natureza e na física. Isso deve nos levar a exaltar a pessoa de Deus, constatando que essa precisão só é possível porque emana dela.

Os princípios matemáticos não variam; as fórmulas e equações demonstram coerência a toda prova. A matemática é, portanto, uma ferramenta básica ao estudo da obra criativa de Deus. A matemática nos auxilia a descobrir as leis físicas da criação e os modelos nela colocados por Deus. É impossível, para nós, entendermos a criação divina, sem a dádiva da matemática. Sem ela não teríamos como medir o mundo de Deus. A matemática é uma das ferramentas que Deus deu ao homem para que ele exercesse o seu domínio sobre a criação (Gn 1.28). Todos os campos de conhecimento demandam planejamento, cálculo de percurso e avaliação de resultados – no sentido de que as responsabilidades recebidas de Deus sejam bem desempenhadas. A matemática tem papel fundamental, quer seja em negócios, engenharia, arte, ciências, governo, economia, etc.

O estudante cristão, ao dominar a matemática, está contribuindo para o avanço do Reino de Deus, na terra, quando exercita esse conhecimento para a glória dele e se empenha no cumprimento do mandato cultural, de dominar a terra e sujeitá-la, recebido no início da criação.


Ciência
Ciência é o estudo próprio da criação de Deus. Os fatos da criação somente podem ser entendidos apropriadamente, quando olhados através das lentes das Escrituras. A Palavra de Deus nos ensina que a questão das origens, mesmo se constituindo uma base para ciências, é, acima de tudo, uma questão de fé, de pressupostos, de postulados. Hb 11.3, ensina: “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê”. Mas quando a ciência, os fenômenos observáveis da criação, são estudados partindo da informação Bíblica de que Deus é o criador, tudo adquire sentido, coerência e forma.

O estudo das ciências revela a glória de Deus (Sl 19.1), o poder de Deus, a beleza da obra de suas mãos e a arquitetura, com similaridades, nas suas criaturas – indicando procedência criativa de um ser todo-poderoso, pensante. A criação foi efetivada pela sabedoria divina e o homem é parte dela, tendo sido chamado a subjugá-la para a glória de Deus. Ainda no Jardim do Édem, Deus assinalou ao homem a tarefa de regência sobre os animais e plantas, na guarda da terra. Sob a autoridade de Deus, ele deveria cultivar a terra, cuidar dela e desenvolver cada aspecto do conhecimento sobre esta mesma terra, para a glória de Deus. Certamente o conhecimento das ciências esteve presente em Adão, para o cultivo da flora e classificação da fauna.

Para que dominemos a terra, como Deus nos comanda, temos de adquirir o conhecimento científico sistematizado e organizado. Pelo estudo tanto das leis físicas como das demais criaturas, aqueles que assim o fazem na compreensão de que procedem de Deus, aprendem a utilizar esse conhecimento segundo os preceitos de Deus. Cada nova descoberta sobre o mundo e o universo criado por Deus, deve levar ao reconhecimento de que Jeová é único. Deve levar, igualmente, a um cuidado maior por essa criação divina. Para que isso ocorra, o estudo da ciência tem que estar subordinado à Palavra de Deus. Não é que a Bíblia virá suprir a todo o conhecimento necessário nesses campos, mas a criação nunca deve ser vista como algo que é independente do seu criador.

O cristão, e a cosmovisão cristã, vêem a criação como impossível de ser estudada – em coerência e verdade – sem considerações ao papel fundamental da pessoa de Deus (na criação e manutenção dela) e sem que sejam traçados os elos, de propósito e utilidade, aos preceitos das Escrituras. Quando essa conexão se faz ausente, caímos na falsa ciência (1 Tm 6.20) e na cosmovisão evolucionista que domina os círculos intelectuais contemporâneos descrentes, chegando a influenciar fortemente e confundir aos próprios cristãos.


Saúde
O propósito do estudo da saúde e da educação física é o cuidado dos nossos corpos para a glória de Deus. Essa perspectiva da cosmovisão cristã difere da compreensão contemporânea do chamado “culto do corpo”. Somente Deus é para ser cultuado e o fazemos com nossas mentes e corpos. Um corpo saudável nos possibilita o serviço diligente à causa do mestre e realizar os deveres que nos são comandados. Assim, os princípios de termos dietas saudáveis, o exercício sistemático, o descanso apropriado – são todas áreas de ênfase, nesta esfera de conhecimento, para que nossa saúde se mantenha em excelência, para a glória de Deus. Devido ao pecado as pessoas têm a tendência à preguiça e indolência. O exercício físico e os esportes, combinados com a santificação do caráter interno, condicionam o corpo ao comando da mente; encorajam o desenvolvimento da auto-disciplina.

A participação em competições encoraja as pessoas a se manterem dentro das regras estabelecidas e a aceitarem o direcionamento de pessoas em posição de autoridade, bem como ao trabalho em grupo e ao desenvolvimento das habilidades, pela prática constante. Praticadas sob princípios cristãos de comportamento, as competições esportivas ensinam a manifestar graça tanto na vitória como na derrota. Na cosmovisão cristã, as atividades relacionadas com a saúde e educação física, nunca são um fim em si, nem se sobrepõem a outros deveres humanos, mas são áreas que compõem e servem de base ao desenvolvimento de uma vida de serviço a Deus.


Geografia
Para que o homem exerça o domínio sobre a terra, como Deus comanda, ele necessita ter um conhecimento prático de geografia. Nesse estudo ele deve levar em consideração os dados da Palavra de Deus, bem como os relatos históricos do grande cataclismo que foi o dilúvio e seus efeitos sobre a aparência e configuração da terra. Ignorar este evento e suas implicações, é o caminho seguido pelos eruditos descrentes contemporâneos, mas as conclusões a que chegam divergem consideravelmente da realidade e veracidade à qual pode chegar aquele que possui uma cosmovisão cristã.

Aprendemos nas escrituras, igualmente, a origem das nações, no incidente da Torre de Babel. Considerando esse fato, o estudo terá um direcionamento mais adequado. O estudo da geografia possibilitará entender como as diferentes configurações, climas, limites e recursos afetam a vida e a economia das nações. Em uma cosmovisão cristã, estaremos vendo Deus como regente da história e das nações operando o seu plano soberano de forma linear, na terra. O estudo da geografia também nos possibilita o acompanhamento do avanço do Reino de Deus, na terra, e como podemos nos empenhar ao avanço das missões a cada terra e nação.


História
A Bíblia revela, claramente, que Deus é Senhor da história. Ele governa os povos e nações por intermédio de sua providência. Ele age tanto direta, como indiretamente na história, derramando bênçãos e executando julgamentos sobre a terra (Dt 28). A Palavra de Deus registra profecias e muitas dessas já foram cumpridas, demonstrando que não somente a história foi planejada por Deus, mas se desenrola de acordo com o seu propósito. Todos os aspectos da história (antiga, medieval, moderna e contemporânea) devem ser vistos como a regência soberana de Deus sobre os atos dos homens, na terra. Tantos os indivíduos como as nações devem prestar contas a Deus. A história e os atos de Deus, nela, nos ensinam a viver o presente.

Estudar a história, sem a perspectiva da cosmovisão cristã, leva a um conceito errôneo de que as seqüências de eventos são aleatórias e sem propósito. Deus se entrelaça com a história da forma mais intensa. Não somente regendo-a de forma transcendente, mas interagindo poderosamente com ela, em Cristo Jesus. Esse é o ponto chave da criação. Um estudo da história que considere a vinda e vida de Cristo apenas um pequeno incidente a ser (imperfeitamente) relatado, é um estudo distorcido e inconseqüente. O fato da queda, é histórico, e também um ponto chave na compreensão dos incidentes históricos subseqüentes, da maldade humana motivadora das guerras e dissensões, bem como na necessidade do Messias redentor.

A teologia verdadeiramente relacional, é a reformada, que apresenta o Deus soberano verdadeiramente se relacionando com a sua criação. História é o registro desses relacionamentos. O plano de Deus é convergir todas as coisas em Cristo (Ef 1.10). A história tem, conseqüentemente, um propósito. O seu significado e interpretação se acham na compreensão de Cristo.

História é mais do que uma crônica de nomes, datas, lugares e eventos. História é o estudo da moral e do pacto feito entre Deus e o homem. Todos os eventos anteriores à crucificação, levam a ela e apontam a ela. Todos os subseqüentes, levam à vitória final, profetizada e à exaltação de Cristo. O estudo da história, sob a cosmovisão cristã, revelará as tentativas fúteis de homens que procuraram estabelecer o reino dos homens, em vez de procurarem o Reino de Deus.


No próximo post, pretendo dar continuidade ao que entendo como Cosmovisão Bíblica, desta vez nas áreas - Sociedade, Governo, Economia, Cultura, Arte e Tecnologia.

[1] Para um aprofundamento nesse relacionamento das diversas áreas com a Palavra de Deus, procure adquirir a Enciclopédia das Verdades Bíblicas, de Ruth C. Haycock – excelente livro recém-traduzido para o português, pela ACSI. Também utilizamos bastante material do Biblical Worldview Curriculum.
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quinta-feira, janeiro 18, 2007

Solano Portela

Afinal, que bicho é esse de que tanto se fala? COSMOVISÃO para leigos (1).

Você vai ouvir cada vez mais a palavra Cosmovisão. Apesar dela não fazer parte de nosso vocabulário diário, ela sempre foi muito usada nos meios teológicos e filosóficos e é imprescindível que o resto de nós, leigos, tenhamos a compreensão do que ela representa. É um pássaro? É um avião (até rima)? É um bicho exótico - e será que ele morde?

Simplificadamente, cosmovisão é a compreensão que uma pessoa tem do mundo, do universo que a cerca, da vida. O alemão expressa esse significado com a palavra weltanschauung. O inglês, como worldview, ou com a combinação: world and life view. O significado, principalmente no alemão, abrange mais do que simplesmente a visão do universo físico. É nesse sentido que a devemos utilizar. Para o cristão, a cosmovisão cristã vai colocar o entendimento do universo como criação de Deus, e todas as esferas de conhecimento, possíveis de estarem presentes na humanidade, como procedentes do Deus único e verdadeiro, Senhor do universo, comunicadas a nós por Cristo “...no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3)”.

Disse que você vai ouvir cada vez mais esta palavra, porque está em andamento uma movimentação muito intensa, no meio evangélico, para estabelecimento de escolas evangélicas, que ensinem todas as matérias a partir da perspectiva cristã da vida. Para isso, há a necessidade de que se ensine e se dissemine uma cosmovisão cristã. A fé cristã deixa de ser uma “questão religiosa” para o domingo, mas volta a assumir o seu posto original, e que havia sido resgatado pela reforma do século 16.

O curioso, é que esse movimento por escolas cristãs, tem características interdenominacionais. A fé reformada sempre enfatizou a questão da cosmovisão cristã. Agora, esse tesouro está sendo procurado por segmentos que até pouco tempo rejeitavam qualquer coisa que tivesse o mais remoto relacionamento com o calvinismo. O que pregadores e autores, durante anos, não conseguiram, Deus, em sua soberania, está fazendo – com a absorção, pela necessidade, dos conceitos transmitidos na idéia de uma cosmovisão cristã.

Nesse sentido, Deus tem sido pregado como soberano real do universo em comunidades teologicamente arminianas. Escolas de igrejas que “fogem” da teologia reformada, não piscam quando livros tais como: Calvinismo (de Abraham Kuyper) e E Agora, Como Viveremos (que tem como co-autora Nancy Pearcey – que estudou com o filósofo e teólogo calvinista, Francis Schaeffer), são recomendados, apresentados e suas idéias ensinadas. Tais círculos têm compreendido que é impossível se praticar a verdadeira educação das esferas de conhecimento, sem a coesão proporcionada por uma cosmovisão cristã reformada, na qual Deus é verdadeiramente regente do universo, e não um mero espectador, que reage às circunstâncias, procurando “consertar” as coisas.

Por isso é necessário que o pastor e líder cristão, e até nós, leigos, tenhamos uma boa compreensão deste tema. Porque precisamos também orientar os irmãos e familiares nesse entendimento. Cosmovisão cristã, também, tem tudo a ver com o estudo de Governo e Economia, e outras áreas de conhecimento e de atividades humanas que, para serem adequadamente compreendidas e exercitadas, não podem ser divorciadas dos princípios contidos nas Escrituras.

É óbvio que para o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã é crucial a pertinência e a necessidade da Palavra de Deus, para compreensão e envolvimento nosso, com o mundo em que vivemos. Mas, nesses posts, agora, quero focalizar a nossa atenção no conceito de cosmovisão, mostrando como existe um relacionamento de todas as atividades humanas, com o rumo traçado nas Escrituras para a criação.

Falar em cosmovisão no singular ou sem qualificá-la, somente, não resolve. Cada filosofia, cada forma de ver e entender as coisas, é uma cosmovisão em si. Norman Geisler diz que a “cosmovisão é análoga à lente intelectual através da qual as pessoas vêem a realidade. A cor da lente é um fato fortemente determinante para contribuir o que elas crêem acerca do mundo”. Ele continua, indicando que toda cosmovisão “procura explicar como os fatos da realidade se relacionam e se ajustam uns aos outros”. Além disso, a cosmovisão se preocupa com “as conseqüências lógicas associadas a viver de acordo com as convicções” sustentadas como verdadeiras.[1]

Por isso, devemos considerar sempre a cosmovisão cristã. Nossa lente são as nossas premissas. Nossas premissas são verdadeiras, porque se fundamentam na revelação de Deus ao homem – As Escrituras. Não precisamos pedir desculpas por nossas pressuposições, apenas devemos reconhecê-las claramente e demonstrar que todas as demais cosmovisões possuem suas próprias pressuposições. Quando falamos de cosmovisão cristã, portanto, já expressamos o entrelaçamento de nossa visão do universo e da vida, com as premissas da nossa fé cristã, reveladas de forma objetiva e proposicional nas Escrituras.

No próximo post vou dar um tratamento resumido sobre o relacionamento da fé cristã com algumas áreas do conhecimento humano.


[1] Norman Geisler, Fundamentos Inabaláveis, p. 53.
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sábado, janeiro 13, 2007

Solano Portela

E agora, o MEU comercial…

Caros amigos:

Chega aquele momento inexorável da mídia onde nos empenhamos em mostrar as qualidades daqueles que nos apóiam, cuidam de nós, e em fazer a devida propagandazinha. Não pensem que estavam imunes disso, neste BLOG!

Quero divulgar o site “Crônicas do Cotidiano”, cujo link está aí ao lado, escrito por escritora que conheço há 37 anos e com a qual estou casado há 33! Betty Portela, tem escrito um artigo trimestral em revista da Igreja Presbiteriana. Mesclando realidade com ficção, ela entrelaça o nosso cotidiano com princípios extraídos da Escritura. Se você gosta de uma crônica, de boa literatura e se preocupa em refletir as questões do dia-a-dia à luz da Palavra, pode gostar muito do que vai encontrar lá.

Dêem uma passadinha por lá e, se gostarem, deixem um comentário. Isso irá motivar a autora e fará maravilhas à manutenção da harmonia conjugal!!

Um abraço,

Solano
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quarta-feira, janeiro 03, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

A Religião dos Liberais-Esquerdistas

Por     83 comentários:
Em 1923 J. Gresham Machen publicou Cristianismo e Liberalismo, em que mostrou claramente que o liberalismo era uma religião, e uma bem diferente do Cristianismo. Apesar da denúncia, a religião dos liberais cresceu e permeou todas as áreas do mundo ocidental moderno cristão, particularmente a política. Uma obra recente que delineia a religião do liberalismo e sua influência é Godless -- The Church of Liberalism [Sem Deus -- A Igreja do Liberalismo] de Ann Coulter. Comprei o livro (ainda não traduzido) e aproveitei minhas férias aqui em Recife para lê-lo (foto). Já estou chegando ao fim e também a algumas considerações sobre o seu conteúdo.

Ann Coulter é uma cristã que freqüenta com alguma regularidade a Redeemer Church, do Tim Keller, pastor presbiteriano conhecido nosso nos Estados Unidos. Republicana, conservadora, Coulter é advogada, jornalista, colunista de diversos periódicos americanos e escritora de sucesso, com vários livros na lista de best-sellers do The New York Times, inclusive esse último. Ann Coulter é uma crítica mordaz, ferrenha e destemida dos democratas-liberais esquerdistas americanos, aos quais se refere abertamente como retardados, traidores, covardes e inimigos de Deus, do Cristianismo e da América.

Godless é voltado para o público americano e expõe a falácia e incoerência dos principais pontos defendidos pelos liberais democratas americanos, naquilo que Coulter chama de "a Igreja do liberalismo". Podemos ter alguma dificuldade no entendimento de suas teses porque para a maioria dos brasileiros todos os americanos são apoiadores do Bush, direitistas e retardados. Apesar da linguagem ácida e debochada (eu provavelmente não liberaria comentários dela aqui no blog...) Coulter é extremamente bem informada e usa essas informações com muita inteligência – apesar de ser loura e usar uma mini-saia – e com uma ironia fina que arranca risadas freqüentes dos leitores (que concordam com ela, é claro). Tudo isso é empregado de maneira eficaz para detonar a religião do liberalismo político e expor seus defensores. Entre as risadas que dei lendo o livro na rede à beira-mar, aprendi que existe uma extraordinária semelhança entre a religião dos democratas-liberais esquerdistas de lá e aquela dos esquerdistas daqui. Menciono algumas, lembrando que aqueles que ela chama de liberais no contexto americano equivale mais ou menos aos esquerdistas do Brasil. Também não preciso dizer que apesar de generalizar, estou consciente de que há várias exceções.

1. Os liberais-esquerdistas são contra a punição de malfeitores como estupradores, assassinos, assaltantes a mão-armada e terroristas. Por não acreditarem no estado de queda e depravação moral e espiritual em que os homens vivem, defendem a possibilidade de reabilitação dos piores criminosos mediante a melhoria da auto-estima deles, programas de reabilitação administrados pelo Estado e psicólogos profissionais. São contra prisão perpétua, pena de morte, e a construção de mais prisões e detenções. São a favor de indultos, diminuição de pena e de devolver à sociedade bandidos perigosos para que se reintegrem e se tornem bons cidadãos. Esse seria um dos mandamentos da religião do liberalismo: “não punirás o malfeitor”.

2. Os mártires da religião liberal-esquerdista são geralmente esse pessoal. Nos Estados Unidos, assassinos seriais como Ted Bundy ganham fã-clube e seguidores, além de defensores entre homens e mulheres públicos. Recentemente, o estuprador e assassino Willie Horton ganhou notoriedade e milhares de defensores por que seus crimes foram considerados como armação de brancos preconceituosos – Horton é afro-descendente. Na mídia mundial liberal, Saddam Hussein já começa a tomar os contornos de herói e mártir.

3. O ponto de honra da religião liberal-esquerdista é o aborto, equivalente a um sacramento. Liberais-esquerdistas fazem o seu principal cavalo de batalha do direito da mulher abortar em qualquer período da gestação. Coulter diz que a razão é que os liberais odeiam os seres humanos e querem destruir o maior número possível de fetos. Nessa mesma linha, defendem o casamento gay porque gays não se reproduzem.

4. Os templos da Igreja liberal-esquerdista são as escolas públicas e os sacerdotes são os professores. Os liberais conseguiram transformar a rede pública de ensino em templos onde sua religião secularista-humanista-evolucionista é ensinada, onde o Cristianismo é proibido, onde nossos filhos aprendem desde cedo que a sexualidade precoce é natural, que ser gay é OK, que é legal usar camisinha e o “liberou-geral”, tudo isto à custa dos impostos pagos inclusive por aqueles que não mandam filhos para as escolas públicas e nem aceitam essas premissas ou a religião dos liberais. Aqui no Brasil, isso se estende à esfera governamental, com seus anúncios permissivos pagos com nossos impostos, bem como às universidades públicas.

5. Os liberais-esquerdistas são inimigos da ciência que considera as realidades de Deus, e se pudessem, queimariam todos os livros verdadeiramente científicos, como no passado houve queima de Bíblias. A religião liberal só aprecia a ciência quando ela aparenta contradizer o Cristianismo histórico. Toda vez que a ciência contradiz algum dogma da sua religião, os liberais estão prontos a reagir, protestar, desautorizar e renegar o valor das pesquisas e conclusões. Fizeram isso quando pesquisas científicas feitas por cientistas de Harvard, Cambridge e outros, mostraram que o QI das pessoas é genético (isso desbanca o dogma da igualdade de todas as raças por causa da evolução), que os homens são mais aptos para ciência e engenharia do que as mulheres (isso ataca o dogma da igualdade plena homens e mulheres), que o vírus da AIDS discrimina mesmo, atacando gays em 90% dos casos comprovados de AIDS (isso ameaça o dogma que ser gay é normal e natural e até desejável), que o aquecimento global não é tão sério como os ambientalistas – geralmente liberais-esquerdistas – propagam (isso ataca o dogma de que a vida humana tem menos valor que o meio-ambiente), que células-tronco de adultos são eficazes e têm já produzido efeito na cura de doenças graves, muito mais que o uso de células tronco de embriões (isso ataca o sacramento liberal de exterminar com o maior número possível de fetos), e por ai vai.

6. A premissa fundamental da religião liberal é a teoria da evolução. Apesar de 150 anos terem decorrido desde a publicação de Origem das Espécies os liberais continuam sem evidências fósseis da seleção natural e da evolução de uma espécie em outra mais adaptada. Quanto mais mergulhamos no conhecimento profundo do mundo e suas maravilhas, menos e menos plausível o evolucionismo se torna, a ponto de cientistas ateus, que rejeitam a evolução, procurarem outras alternativas para a origem da vida (que tal incluir Deus entre as opções?). Apesar de tudo, evolucionismo é dogma intocável e não passível de discussão nos templos liberais do ensino público. A única religião e a única fé que os liberais realmente desejam excluir das escolas e universidades é o Cristianismo. A religião que continua a defender pela fé o evolucionismo é mantida, nutrida e ensinada aos nossos filhos, usando nossos impostos.

Posso não concordar com o estilo mordaz de Coulter e nem com algumas colocações bem mais radicais do que estou pronto a endossar, mas estou impressionado com a percepção clara que ela tem daquilo que está realmente em jogo. A Igreja do liberalismo-esquerdista está no Brasil também, com seus templos, sacerdotes, dogmas e sacramentos. Em contraste com os Estados Unidos, cristãos históricos no Brasil ainda não são bem articulados, organizados e têm pouco acesso à mídia. Todavia, temos esperança de que, considerando as inconsistências internas do liberalismo, o crescente interesse pelo Cristianismo histórico e os esforços pequenos porém constantes de indivíduos em mostrar o outro lado, dias melhores poderão chegar.
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