terça-feira, maio 22, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Um Pé na Porta

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É assim que cientistas darwinistas em todo mundo têm definido o Design Inteligente, movimento que recentemente vem causando nos Estados Unidos certa inquietação e reação nos círculos acadêmicos da biologia, química, física e astronomia.

É um pé na porta, dizem os darwinistas, porque a deixa entreaberta para outras definições de realidade entrarem, como o Criacionismo, por exemplo. As críticas ao darwinismo feitas pelo Design Inteligente funcionariam como uma cunha, abrindo caminho no mundo científico para o regresso das noções sobrenaturais de um ser inteligente que criou o mundo com propósito e inteligência – Deus, em outras palavras. É esse o terror dos darwinistas. Num ambiente dominado há 200 anos pelo naturalismo e o evolucionismo, a própria idéia do retorno de Deus à academia é o pior dos pesadelos.
Em 2005 a discussão ganhou ares políticos quando o Presidente George Bush deu grande publicidade ao Design Inteligente ao declarar que o mesmo deveria ser ensinado nas escolas públicas, para que as crianças fossem expostas a modelos alternativos ao evolucionismo. A declaração provocou uma discussão do assunto na mídia e na academia americanas e mesmo fora dela.
Esse ano, foi a vez do papa Bento XVI. Ele publicou um livro na Alemanha, Criação e Evolução, onde faz declarações sobre as origens da vida e do universo que ecoaram na mídia mundial. O livro é um apanhado de palestras que Ratzinger fez ano passado sobre o darwinismo, durante um retiro. Ele basicamente descarta a posição do Papa anterior, que era extremamente simpática ao darwinismo, e favorece o criacionismo teísta, afirmando que existe espaço para explanações que extrapolam o campo científico quando se trata da origem da vida e do Universo. Já no ano passado o Papa havia dito que o mundo era “um projeto inteligente”.

Essa semana ouvi de um amigo, cientista, brasileiro, que é adepto do movimento do Design Inteligente, que existe uma grande expectativa de que em breve um novo paradigma surgirá em substituição ao velho, cansado e desacreditado darwinismo no que tange à capacidade da seleção natural de guiar de forma não intencional o processo evolutivo dos seres vivos. Bom, será muito bem vindo. Especialmente agora quando o mundo se prepara para comemorar os duzentos anos de Darwin e a mídia colabora intensamente para manter a chama acesa.
O Design Inteligente defende basicamente que certas características do universo e das coisas vivas são mais bem explicadas por causas inteligentes empiricamente detectadas na natureza, em lugar de um processo não-intencional e não-dirigido, como a seleção natural. O Design Inteligente é assim uma discordância científica da reivindicação central da teoria evolutiva de que o desígnio aparente dos sistemas vivos é uma ilusão. Num sentido mais amplo, Design Inteligente é simplesmente a ciência da descoberta de intencionalidade em padrões complexos e organizados. Os teoristas do Design Inteligente acreditam que é possível testar e avaliar cientificamente se uma certa informação biológica é o produto de causas inteligentes, da mesma maneira como cientistas fazem testes diários para detecção de propósito em outras ciências.

Algumas reflexões sobre esse movimento polêmico que tem ganhado mais e mais aceitação de cientistas e dos cristãos.

1) A crítica de que o Design Inteligente é ciência ruim não procede, e nem aquela que diz que é também religião ruim. Não é ciência ruim porque está procurando dar respostas para o silêncio do darwinismo sobre complexidade irredutível e outros fenômenos que ainda não são explicados pela seleção natural. Além disso, seus proponentes são cientistas premiados e conhecidos, pessoas sérias, cujos argumentos nem sempre têm recebido refutação convincente. Também, o Design Inteligente não é religião ruim. Na verdade, não é nem religião, embora seja evidente que suas conclusões inevitavelmente terão um impacto religioso. Se existe inteligência por detrás do surgimento da vida, de onde ela procede? Não é à toa que cristãos conservadores receberam com entusiasmo o surgimento do Design Inteligente. Todavia, o movimento do Design Inteligente não me parece necessariamente um pé na porta para a entrada posterior do Criacionismo. Muitos teoristas do Design Inteligente acreditam no Big Bang e na macroevolução. Outros são agnósticos. E por outro lado, alguns criacionistas são extremamente críticos do Design Inteligente, como Henry Morris.

2) Dizem que o Design Inteligente é resultado da incompetência de seus proponentes, que desistiram cedo demais de achar explicações naturalísticas para o desenvolvimento dos complexos irredutíveis, como o motorzinho celular. “Dêem-nos mais tempo,” pedem os darwinistas, “e descobriremos como a seleção natural foi capaz de preparar independentemente as mais de 35 partes do motorzinho da célula e colocá-las juntas de maneira a funcionar perfeitamente”. Os darwinistas não podem culpar os teoristas do Design Inteligente de prática científica malsã simplesmente porque estão apresentando hipóteses e teorias alternativas ao modelo padrão, diante da falta de respostas dele.

3) O Design Inteligente, estritamente considerado como pesquisa científica, não conseguirá se manter neutro na questão religiosa. Muito embora seu foco e sua ponta-de-lança seja a pesquisa científica que detecta a presença de inteligência, o movimento enfrenta uma encarniçada guerra que é movida por diferentes visões de mundo. Eu sempre acreditei que o darwinismo tem todas as características de uma religião e demanda muita fé de seus adeptos. E querendo ou não, o Design Inteligente acaba tendo profundas implicações religiosas. É um conflito religioso, no final, em que duas cosmovisões religiosas se enfrentam. Cedo ou tarde o Design Inteligente terá de enfrentar a questão que tem zelosamente evitado até agora, que é a identidade do agente inteligente, responsável pelo design encontrado na natureza.

4) O Design Inteligente pode ser uma maneira eficiente de questionar o domínio darwinista na academia já por dois séculos. O evolucionismo tem se tornado uma teoria muito desgastada depois das descobertas de fraudes em seus principais ícones, na falta de evidências concretas para a macroevolução, na falta de respostas até agora para os complexos irredutíveis. Está mais que na hora de abrirmos as portas e as mentes para explorar outras alternativas. Tem muita gente capacitada academicamente ao lado do Design Inteligente. Não está sendo proposto por incompetentes, despreparados, fanáticos ou religiosos.

Não sei ao certo onde esse movimento vai parar. Seus principais proponentes são cientistas renomados e internacionalmente conhecidos, como William Dembski, Michael Behe e Phil Johnson, para citar os mais conhecidos. Todavia, a guerra contra o Design Inteligente é muito intensa e se trava na mídia e nos meios acadêmicos, e nem sempre os termos são os mais cordatos. A academia, que tanto preza o contraditório, tem fugido deste quando percebe o perigo de que sejam afetados os seus mais diletos dogmas.
Certa feita, um evolucionista disse que se os cientistas chegarem à conclusão de que existe inteligência por detrás da origem da vida, serão como alpinistas que chegam ao topo da montanha e lá encontram os teólogos acampados, esperando por eles há séculos. Esse era o pior pesadelo dele.

Mas, para nós, não será surpresa alguma. Afinal, a mesma visão de mundo judaico-cristã que permitiu que Tomé examinasse empiricamente o corpo de Jesus após a ressurreição é a mesma visão de mundo que ensejou o surgimento da ciência (Rick Pearcey).
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sábado, maio 19, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

O Retorno de Pé na Cova

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Estou surpreso com o recrudescimento do liberalismo teológico em nosso país. Na Europa onde nasceu, o método histórico-crítico, a hipótese documentária quanto à formação do Antigo Testamento, as críticas da fonte e literária, foram há muito abandonadas, embora substituídas por métodos e perspectivas igualmente perniciosas para a fé evangélica. Aqui no Brasil todavia, as idéias de Wellhausen, Strauss, Bultmann e um monte de alemães do século passado continuam a ser ensinadas nos seminários e escolas de teologia como se fossem a última novidade, a expressão máxima da “exegese científica”. O que é de estranhar, pois liberais sempre detestaram coisas antigas e sempre defenderam que cada geração deve fazer sua própria teologia.

Acredito que a difusão do velho liberalismo aqui em nossas terras se deve em primeiro lugar ao pentecostalismo, que providenciou a clientela para os cursos de teologia e ciências da religião moribundos e deficitários das denominações evangélicas históricas e das universidades públicas. Após terem crescido e conquistado o Brasil, pentecostais e neopentecostais resolveram estudar – e à semelhança de Israel no passado, que adorava os deuses dos povos conquistados por ele, foram buscar os mestres, os cursos e os livros das denominações evangélicas numericamente inexpressivas, sem se perguntar por que elas estavam se esvaziando no decorrer dos anos.

A possibilidade de reconhecimento pelo MEC dos cursos de teologia dos seminários maiores das denominações aumentou ainda mais a procura pelos estudos formais. Pastores e obreiros evangélicos passaram a ser instruídos por professores de teologia que nunca foram pastores de igrejas, nunca cuidaram de almas, e que não tinham o menor escrúpulo em acabar com a “fé inocente” dos que acreditavam em tudo que a Bíblia dizia.

Não sou contra a educação teológica – acho que nem precisava dizer isso, depois de ter obtido três graus na área de teologia, escrito mais de uma dezena de livros acadêmicos, ensinado em escolas de teologia e universidade e ter sido diretor de seminário e de uma escola de pós-graduação em teologia. Todavia, sou contra a propaganda enganosa feita pelos adeptos do método histórico-crítico de que o mesmo é científico; sou contra a premissa deles de que para realmente entendermos a Bíblia temos de nos livrar do pressuposto da fé; sou contra a representação falaciosa que fazem dos conservadores, como idiotas e burros sem capacidade intelectual; sou contra a zombaria e escárnio deles contra a doutrina da inspiração, infalibilidade e inerrância das Escrituras; sou contra a hipocrisia dos que não acreditam em nada e que aos domingos, para manter um emprego em uma igreja, pregam como se a Bíblia fosse a Palavra de Deus.

As coisas nem sempre acontecem da mesma forma em todos os lugares. Se acontecessem, não seria difícil profetizar quanto ao futuro do evangelicalismo brasileiro, a continuar como vai, e na direção que vai: a secularização das escolas de teologia e a morte de suas igrejas.

Todavia, tenho esperança, pois ao mesmo tempo em que o liberalismo teológico penetra profundamente nos maiores grupos evangélicos, cresce o interesse de outros desses grupos pela fé reformada. Nunca houve tanta demanda e tanta procura da parte dos evangélicos por livros, sermões, eventos e material reformado como hoje. A semeadura do trigo irá de alguma forma contrabalancear aquela do joio. Essa é a minha oração.
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sexta-feira, maio 11, 2007

Solano Portela

Sou Contra a Pílula! Reflexões Sobre Frei Galvão.



Hoje, 11.05.2007, é o dia em que o Papa declara formalmente a canonização de Antonio de Sant’Anna Galvão (1739-1822), ou, como diz a manchete da Folha de São Paulo, torna “Frei Galvão 1º Santo do país”. Estranha visão religiosa onde um “santo” divino, no sentido de receptador e intermediador de petições a Deus, é instalado por esforço humano, através de um decreto após um longo processo. Na cerimônia da manhã deste dia, o papa leu textualmente que o “inscrevia no registro dos Santos”.

Entre os supostos feitos registrados do Frei Galvão: a construção do Mosteiro da Luz com as próprias mãos, o dom da bilocação (estar em dois lugares ao mesmo tempo) e diversos casos de cura. A causa destas curas? A pílula que inventou, para ministrar aos enfermos que o procuravam – um pedacinho de papel enrolado no qual estavam escritas algumas frases em latim.

Desde essa época para cá, as pílulas vêm sendo consumidas com avidez por pessoas doentes e a continuidade de “fabricação” e fornecimento das mesmas foi assegurada pelas freiras, no Mosteiro da Luz. Ultimamente, segundo reportagem da Folha, com o interesse despertado pela visita do papa, o consumo está na casa das 30 mil pílulas por dia. Uma freira ouvida pela reportagem garante que o “papel da pílula é finíssimo e ‘dissolve facilmente na água’. A tinta usada é também comestível”.

Essas garantias podem aplacar a fúria das autoridades sanitárias, que deveriam estar preocupadas com a considerável ingestão de papel e tinta, mas aguçaram minha curiosidade teológica para ver o que estaria escrito nos papelotes. Que mantra católico romano tão poderoso seria este, que realiza a cura dos consumidores?

Verifico que a pílula traz encapsulada a essência do dogma romano da intermediação de Maria – exatamente o ponto principal que, no entendimento dos evangélicos, vai contra a mediação singular e exclusiva de Cristo. O texto escrito no papel de cada pílula diz o seguinte, em latim: “Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta! Mãe de Deus, intercedei por nós”!

Assim, além das objeções lógicas e gastronômicas, tenho fortes razões eclesiásticas e teológicas para ser contra a pílula e contra processos de canonização:

  1. Postular a virgindade perpétua de Maria é uma necessidade do catolicismo romano, para dar um caráter supra-humano a ela e por possuir uma visão distorcida da sexualidade. Durante séculos o envolvimento sexual, mesmo nos limites bíblicos do casamento, foi considerado pelos romanos como algo não necessariamente saudável, mas que contaminava o corpo – ser virgem seria pré-requisito à santidade (daí o dogma do celibato compulsório ao clero e às freiras). Tal informação não procede das Escrituras, que apresentam Maria como especial, abençoada e devotada, alvo do nascimento virginal de Cristo, mas como uma pessoa plenamente humana e comum, mãe de vários outros filhos como fruto do seu casamento com José. A primeira frase da pílula se ocupa disso.
  2. A segunda frase, claramente indica Maria como mediadora e se harmoniza com sua classificação como co-redentora da humanidade – posição sustentada pelos católicos romanos. Tal crença contradiz vários textos bíblicos, entre os quais 1 Timóteo 2.5 e 6: “Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos...”.
  3. Por último, não encontro respaldo bíblico para a enormidade de santos que povoa o panteão da igreja católica – todos ali instalados por decretos e processos humanos. Esses, via de regras, tornam-se, igualmente, co-mediadores, alvo de adoração e de recepção das orações dos fiéis, quando o próprio Senhor Jesus nos ensina a dirigir nossas súplicas e orações a Deus (Mt 6.7-13) unicamente através de Sua pessoa (João 14.13). Ele é o nosso intercessor e advogado (1 João 2.1). Frei Galvão torna-se mais um desses santos intermediadores, trazendo um orgulho singelo, mas destituído de qualquer substância, ao nosso já sofrido e tão enganado povo brasileiro.

Observo, agora, a missa campal no Campo de Marte, em São Paulo. O papa acaba de dizer que “não há fruto da salvação que não tenha a intermediação da Virgem Maria”, comprovando exatamente a figura da mediação para Maria, quando ela é exclusiva de Cristo. Para nós, evangélicos, estas cenas, apesar de impressionantes, bem-montadas e até sinceras, devem trazer grande tristeza ao coração por estar enaltecendo um caminho que levará ao lugar onde o Pai não será encontrado. Jesus disse: “EU sou o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6).

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terça-feira, maio 08, 2007

Mauro Meister

A bagagem de Bento, Beckwith e as contradições...


Caso você ainda não tenha ouvido, o Papa Bento XVI chega ao Brasil esta semana. Ele traz muitas coisas na bagagem. Não estou falando do “papa-móvel” ou de guardas suíços. Nem de suas roupas, inspiradas nas do sumo-sacerdote vetero-testamentário, que carregam quilômetros de fios de ouro e prata (aliás, o catolicismo tem tudo a ver com o livro de Levítico). Refiro-me aos séculos de tradição romanista.


Alguns volumes da sua bagagem, entretanto, apresentam um conteúdo, para os protestantes, no mínimo conflitantes:
1. O papa traz na bagagem a defesa de alguns valores que prezamos profundamente, como evangélicos, e que cada vez vemos menos protestantes históricos dispostos a defender: a defesa do casamento como instituição divina, a exclusividade da atividade sexual no casamento, o valor da vida intra-uterina, a defesa da heterossexualidade bíblica. Nestes termos, e somente nestes, mantemos uma certa simpatia à bagagem papal. Ficamos curiosos se a sua vinda não pode ser utilizada por Deus para despertar a consciência da sociedade à trajetória suicida na qual embarcou, com o abraçar da secularização desvairada.

2. Por outro lado, o papa traz consigo uma mala cheia de alimentos para a idolatria: vem ao Brasil para ser idolatrado e oficializar a idolatria ao Frei Galvão. A vinda do papa é uma super dose de esteróides para todas estas manifestações místicas que veremos acontecer nos próximos dias, incluindo mais um feriado na nossa nação moderna e laica onde observamos a clara distinção entre Igreja e Estado... ou não?! Tem sido interessante observar a Rede Globo e demais emissoras (incluindo a Record, que no passado “chutou a santa” e agora tem contrato de cobertura...) dedicar dezenas de minutos, a cada intervenção “jornalística”, para exaltar o catolicismo romano.
3. Vem junto na bagagem a esperança de revitalizar a fé católica na América Latina, que na década de 50 era de 93% e hoje anda em 64% (Data Folha) ou 74% (FGV) – quem diria, nossos institutos de pesquisa andam discordando na variação de 2%... será que tem ‘maquiagem’ por ai?


E Beckwith? Quem é ele? Provavelmente você ainda não ouviu falar do recente caso de ‘conversão’ de Francis J. Beckwith ao catolicismo romano. O fato passaria despercebido do público evangélico se este Beckwith não fosse o presidente da Evangelical Theological Society (ETS), a maior associação de acadêmicos evangélicos na América do Norte. O mais interessante no caso da conversão de Beckwith é o fato de que ele, conforme descreve no blog Right Reason, mesmo tendo mudado suas convicções e decidido afiliar-se à Igreja Romana, pretendia continuar como presidente da ETS até o final de seu mandato, em novembro deste ano (veja quem já foi presidente da ETS). A razão básica para esta decisão estaria no fato de que, na sua compreensão, a mudança de lealdade eclesiástica não o impediria de assinar a declaração de fé da ETS:


“Somente a Bíblia, e a Bíblia toda, é Palavra Escrita de Deus e é, portanto, inerrante em seus autógrafos. Deus é uma Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, cada um é uma pessoa não criada, uma em essência, iguais em poder e glória.”


Isto nos faz refletir sobre alguns pontos interessantes:


1. Uma declaração de fé tão sucinta não é suficiente base para se manter uma sociedade do porte e propósito da ETS, principalmente no que diz respeito aos diferenciais das convicções evangélicas. O fato é que vivemos num mundo religioso cada vez menos confessional e há uma tendência crescente ao linguajar vago e impreciso. Aparentemente, dentro do contexto atual, mesmo para um filósofo falante do calado de Beckwith, precisão não importa. A expressão “somente a Bíblia” (Sola Scriptura), de fato, pode significar muita coisa, inclusive a aceitação do “Magistério da Igreja” e toda a sua bagagem de tradição (aquela mesma do Bento) que leva à diminuição da intermediação singular de Cristo, dos postulados contra a idolatria e da exclusividade da justificação pela fé. Será que o real contraditório ficou tão difícil de enxergar?

2. O passo de Beckwith faz parte de um ethos religioso crescente, o da ‘jornada espiritual’. Segundo ele, nascido em um lar católico e tendo sido batizado e crismado antes dos 14 anos de idade, seu passo de retorno a ICAR é simples: “basta fazer a confissão, ser recebido de volta na Igreja e receber absolvição.” Para alguém que durante tempos conheceu ‘Sola Gratia’, parecem passos, no mínimo, estranhos. No entanto, tudo isto vai ficando muito comum no contexto pós-moderno da igreja emergente. Cada vez mais veremos isto acontecer.

3. Dentro deste mesmo espírito, é importante lembrar que falar em religião ou confissão é démodé. Hoje, fala-se em ‘espiritualidade’, outro termo vago que pode abrigar as contradições dos tempos pós-modernos. Muito desejaram a Beckwith “felicidades em sua caminhada”. Pessoalmente, oro para que sua decisão tenha volta. Aliás, segundo Nancy Pearcey, seis palavras têm se tornado o mantra do novo milênio: “Gosto de espiritualidade, não de religião”. (Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, CPAD, 2006, p. 133). Num pais tão ‘debochado’ como o nosso e com uma crise ética tremenda, 97% dos brasileiros dizem acreditar em Deus, com letra maiúscula, segundo pesquisa do último sábado, do Data Folha... percebe-se, por ai, mais uma imensa contradição.

4. Mas vejam o outro lado da coisa: à semelhança de Bento, os valores morais e a cosmovisão defendidos por Beckwith em seus livros ainda são os que muito apreciamos: anti-aborto, pró-família, intelligent design, etc. e é possível que Beckwith fuja para o campo que está menos eticamente relativista e mais claramente definido quando comparado com a configuração amorfa dos evangélicos contemporâneos. Mesmo com uma ética mais definida, a opção de Beckwith carrega prejuízos soteriológicos reais.

A lição que aprendo diante da vinda de Bento e da ‘desconversão’ de Beckwith: quem esquece de ser somente co-beligerante para se tornar aliado em causas comuns corre o risco de ‘caminhar espiritualmente’ por trilhas que o Evangelho encontrado na Palavra de Deus desaprova e de buscar conforto em um caminho místico e aconchegante, mas alienado da verdade.
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quinta-feira, abril 26, 2007

Mauro Meister

MENSAGEM PRESBITERIANA SOBRE ABORTO E HOMOFOBIA

NOTE: este post é informativo e não pretendemos discuti-lo. Se quiser entrar no debate da questão vá aos posts anteriores que discutem sobre o assunto:
A Sociedade Refém da Visão Homossexual de Vida / A lei da homofilia, para leigos...

Mensagem do Rev. Roberto Brasileiro sobre aborto e homofobia.
Na qualidade de Presidente do Supremo Concílio da IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, diante do momento atual em que as forças organizadas da sociedade manifestam sua preocupação com a possibilidade da aprovação de leis que venham labutar contra a santidade da vida e a cercear a liberdade constitucional de expressão das igrejas brasileiras de todas as orientações, venho a público MANIFESTAR quanto à prática do aborto e a criminalização da homofobia.

I – Quanto à prática do ABORTO, a Igreja Presbiteriana do Brasil reconhece que muitos problemas são causados anualmente pela prática clandestina de abortos, trazendo a morte de muitas mulheres jovens e adultas. Todavia, entende que a legalização do aborto não solucionará o problema, pois o mesmo é causado basicamente pela falta de educação adequada na área sexual, a exploração do turismo sexual, a falta de controle da natalidade, a banalização da vida, a decadência dos valores morais e a desvalorização do casamento e da família.

Visto que:
(1) Deus é o Criador de todas as coisas e que, como tal, somente Ele tem direito sobre as nossas vidas;
(2) ao ser formado o ovo (novo ser), este já está com todos os caracteres de um ser humano, e que existem diferenças marcantes entre a mulher e o feto;
(3) os direitos da mulher não podem ser exercidos em detrimento dos direitos do novo ser;
(4) o nascituro tem direitos assegurados pela Lei Civil brasileira, e sua morte não irá corrigir os males já causados no estupro e nem solucionará a maternidade ilegítima.

Por sua doutrina, regra de fé e prática, a Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a legalização do aborto, com exceção do aborto terapêutico, quando não houver outro meio de salvar a vida da gestante.

II – Quanto à chamada LEI DA HOMOFOBIA, que parte do princípio que toda manifestação contrária ao homossexualismo é homofóbica, e que caracteriza como crime todas essas manifestações, a Igreja Presbiteriana do Brasil repudia a caracterização da expressão do ensino bíblico sobre o homossexualismo como sendo homofobia, ao mesmo tempo em que repudia qualquer forma de violência contra o ser humano criado à imagem de Deus, o que inclui homossexuais e quaisquer outros cidadãos.

Visto que:
(1) a promulgação da nossa Carta Magna em 1988 já previa direitos e garantias individuais para todos os cidadãos brasileiros;
(2) as medidas legais que surgiram visando beneficiar homossexuais, como o reconhecimento da sua união estável, a adoção por homossexuais, o direito patrimonial e a previsão de benefícios por parte do INSS foram tomadas buscando resolver casos concretos sem, contudo, observar o interesse público, o bem comum e a legislação pátria vigente;
(3) a liberdade religiosa assegura a todo cidadão brasileiro a exposição de sua fé sem a interferência do Estado, sendo a este vedada a interferência nas formas de culto, na subvenção de quaisquer cultos e ainda na própria opção pela inexistência de fé e culto;
(4) a liberdade de expressão, como direito individual e coletivo, corrobora com a mãe das liberdades, a liberdade de consciência, mantendo o Estado eqüidistante das manifestações cúlticas em todas as culturas e expressões religiosas do nosso País;
(5) as Escrituras Sagradas, sobre as quais a Igreja Presbiteriana do Brasil firma suas crenças e práticas, ensinam que Deus criou a humanidade com uma diferenciação sexual (homem e mulher) e com propósitos heterossexuais específicos que envolvem o casamento, a unidade sexual e a procriação; e que Jesus Cristo ratificou esse entendimento ao dizer, “. . . desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Marcos 10.6); e que os apóstolos de Cristo entendiam que a prática homossexual era pecaminosa e contrária aos planos originais de Deus (Romanos 1.24-27; 1Coríntios 6:9-11).

Ante ao exposto, por sua doutrina, regra de fé e prática, a Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a aprovação da chamada lei da homofobia, por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos, ao mesmo tempo em que minimiza, atrofia e falece direitos e princípios já determinados principalmente pela Carta Magna e pela Declaração Universal de Direitos Humanos; e por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas orientações de falarem, pregarem e ensinarem sobre a conduta e o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais.

Portanto, a Igreja Presbiteriana do Brasil, não pode abrir mão do seu legítimo direito de expressar-se, em público e em privado, sobre todo e qualquer comportamento humano, no cumprimento de sua missão de anunciar o Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo.

Patrocínio, Abril de 2007 AD.
Rev. Roberto Brasileiro
Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil
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segunda-feira, abril 23, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Meu Caro Ricardo Gondim,

Por     55 comentários:
Alguns amigos me disseram que você tinha feito referência a meu artigo “Teologia Relacional – Um Novo Deus no Mercado” publicado no site Teologia Brasileira. A referência – na verdade, várias críticas – foram feitas em um artigo recente seu, “Teologia Relacional – Que Bicho é Esse”. Fui dar uma olhada, e era verdade mesmo.

Ricardo, acho que você escolheu o artigo errado para criticar em defesa de suas idéias já bem conhecidas do povo evangélico brasileiro. Meu artigo é pequeno e irrelevante diante de obras de maior peso prestes a serem lançadas no mercado brasileiro que analisam e expõem as falácias da teologia que você adotou, quer a chame de teísmo aberto ou relacional. Você deveria ter guardado sua artilharia para “Não sei mais em quem tenho crido,” organizado por Douglas Wilson, e “Não Há Outro Deus” de John Frame (a serem lançadas pela Cultura Cristã). E enquanto esses livros não saem, poderia ter atacado “Soberania Banida” do Wright ou o excelente artigo do Dr. Heber Campos, “O teísmo aberto – um ensaio introdutório” na revista Fides Reformata, ou mesmo o livro “O Teísmo Aberto”, de John Piper (Vida). Quando você refutar os argumentos de obras desse calibre, se conseguir, sua teologia poderá ficará mais fortalecida e quem sabe você volte a ter o reconhecimento que costumava ter entre os evangélicos brasileiros, embora eu imagine que você não se interessa, pois já escreveu que não se importa com o impacto de suas palavras.

Bom, mas o fato é que você, certo ou errado, resolveu escolher-me como representante dos seus críticos, pelo menos nesse artigo seu. No artigo você promete esclarecer a diferença entre teologia relacional, termo criado por você e um amigo, e o teísmo aberto. O artigo fica devendo, pois não faz nenhuma diferença entre as duas coisas. Você pode ter inventado o termo “teologia relacional” (o que eu tenho dúvidas, pois Pinnock usa o termo "relational theology" no mesmo sentido de "open theism" -- veja http://www.ctr4process.org/affiliations/ort/ORTPinnock.pdf), mas o conteúdo continua o mesmo do teísmo aberto. Se sobrou originalidade na cunhagem do termo, ela faltou no preenchimento do conceito. Logo fica claro, quando essa distinção não é feita, que o objetivo do artigo é desacreditar partes do que eu escrevi.

Eu poderia responder seu artigo ponto a ponto, a começar pelo estranho fato de que na tentativa de resgatar o caráter relacional de Deus você acaba tornando-o num Deus distante e ausente. Mas, vou concentrar-me apenas nas partes do seu artigo em que sou mencionado.

1. Você diz que “infelizmente, pela fragilidade de seus argumentos, parece que ele [Nicodemus] nunca leu as obras originais de Clark Pinnock, John Sanders ou Gregory Boyd, apenas o que seus críticos publicaram na internet”. O “argumento” a que você se refere é a declaração que eu fiz em meu artigo:

Os pontos principais [da Teologia Relacional] podem ser resumidos desta forma: 1) O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.
Obviamente, não li todas as obras deles (você as leu?), mas li o suficiente para formar a minha opinião. E conheço a posição de outros que você nem menciona, como Richard Rice, outro proponente do Teísmo Aberto. Em seu artigo “Biblical Support for a New Perspective”, publicado num livro de teístas abertos, ele cita um leque eclético de neo-ortodoxos e liberais, tais como Heschel, Barth, Brunner, Kasper e Pannenberg para apoiá-lo na afirmação que o amor “é mais importante que todos os outros atributos de Deus”, até mesmo “mais fundamental… O amor é a essência da realidade divina, a fonte básica da qual se originam todos os atributos de Deus” (o artigo está no livro The Openness of God [A Abertura de Deus], com capítulos de Clark H. Pinnock, John Sanders, William Hasker e David Basinger, de 1994. A citação que estou fazendo é da página 21). Se quiser uma citação de Pinnock, nessa mesma obra, aqui vai:

Podemos entender Deus como sendo um pai que se preocupa, com atributos de amor e receptividade, generosidade e sensibilidade, abertura e vulnerabilidade, uma pessoa (ao invés de um princípio metafísico) que se aventura no mundo, reage ao que lhe sucede, se relaciona conosco e interage dinamicamente com os humanos (num artigo na obra citada acima, página 103).

Pinnock faz essa declaração apresentando o modelo de Deus-amor em contraste com o modelo cristão tradicional (que ele caricaturiza). Acho que você mesmo deixou claro em seu artigo que a Teologia Relacional começa pelo amor de Deus para daí justificar sua ausência, seu auto-esvaziamento, etc. Talvez você possa dar uma lida em tudo isso, para ver que o meu resumo é bastante fiel.

2. Ricardo, você diz “Portanto, Nicodemus fez uma afirmação inconsistente com a revelação judaico-cristã de Deus como Pessoa, nunca defendida pelos escritores do teísmo aberto ou por qualquer outro teólogo que eu já tenha lido.” Eu não fiz afirmação alguma a não ser reproduzir o que defensores do Teísmo Aberto dizem sobre o amor de Deus. Se há inconsistência, é entre os que eles declaram e a revelação judaico-cristã de Deus como Pessoa. Como eu mostrei acima, teólogos do teísmo aberto (que você cita como se fosse a mesma coisa que teologia relacional, contradizendo a afirmação prévia que as duas coisas seriam diferentes) defendem, sim, o amor de Deus como atributo mais importante. A verdade, Ricardo, é que você aparentemente leu poucos teólogos, ou somente os que lhe interessam.

3. Você diz “Não conheço ninguém que, ao tentar descrever uma pessoa, consiga catalogá-la, como dona de um ‘atributo mais importante’, como: honestidade, justiça, bondade ou amor”. Pois é, Ricardo, então deixa eu te apresentar os seguintes teólogos, filósofos e estudiosos que defenderam um ou outro atributo mais importante em Deus:

- Duns Scotus: infinitude
- Gordon Clark: asseidade
- Cornelius Jansenius: veracidade
- Saint-Cyran: onipotência
- Socinianos: vontade
- Hegel: razão
- Jacobi, Lotze, Dorner e outros: personalidade absoluta
- Ritschl: amor

Outros, mesmo não apontando um atributo mais importante como os acima, puseram ênfase em um único atributo de Deus, como Barth sobre “amor na liberdade”, Buder e Brunner na “pessoa”, e Moltmann na “futuridade”. Como você vê, o fato de você não conhecer alguma coisa não quer dizer que não exista. Quando os teólogos relacionais e/ou abertos destacam o amor de Deus acima de sua, por exemplo, onisciência, estão fazendo a mesma coisa que outros teólogos já fizeram antes deles, com outros atributos de Deus.

4. Você faz uma representação totalmente falsa do que eu escrevi quando diz “Sua próxima frase [de Nicodemus] vai negar noções intuitivamente percebidas pela grande maioria dos evangélicos: Deus é afetuoso, sim”. E em seguida, apresenta a prova do crime: “III) “Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas humanos”. Para que os leitores julguem se eu realmente neguei que Deus se comove com os dramas humanos e que defendo a passividade divina, reproduzo aqui outra vez minha frase no contexto:


Os pontos principais [da Teologia Relacional] podem ser resumidos desta forma: (1) O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.

Vou lhe dar crédito porque nesse ponto do meu artigo, em que me limito a reproduzir o pensamento da teologia relacional, não disse se concordo ou discordo que Deus é sensível e se comove com suas criaturas. Na verdade, eu concordo, sim. Não poderia ser diferente, diante da revelação bíblica. O que eu não posso é tomar a sensibilidade, a ternura e o amor de Deus para anular sua onisciência, sua onipotência, sua imutabilidade e sua soberania, todos igualmente revelados na mesma Bíblia. Eu leio o que você escreve, mas aparentemente você não lê o que eu escrevo. Se lesse, saberia que eu jamais negaria o que a Bíblia diz sobre o amor, a sensibilidade e a ternura de Deus. Se você tiver tempo, enquanto luta com suas dúvidas intermináveis, leia um artigo meu aqui no blog Tempora-Mores, intitulado “Mais de Cinco Pontos do Meu Calvinismo”, do qual reproduzo apenas um parágrafo:

Creio que Deus é soberano e bom, mas não tenho respostas lógicas e racionais para a contradição que parece haver entre um Deus soberano e bom que governa totalmente o universo, por um lado, e por outro, e a presença do mal nesse universo. Diante da perversidade e dos horrores desse mundo, alguns dizem que Deus é soberano mas não é bom, pois permite tudo isto. Outros, que ele é bom mas não é soberano, pois não consegue impedir tais coisas. Para mim, a Bíblia diz claramente que Deus não somente é soberano e bom – mas que ele é santo e odeia o mal. Ao mesmo tempo, a Bíblia reconhece a presença do mal do mundo e a realidade da dor e do sofrimento que esse mal traz. Ainda assim, não oferece qualquer explicação sobre como essas duas realidades podem existir ao mesmo tempo. Simplesmente pede que as recebamos, creiamos nelas e que vivamos na certeza de que um dia ele haverá de extinguir completamente o mal e seus efeitos nesse mundo.

No início de seu artigo você disse que errou em expor suas dúvidas diante de teólogos com “convicções fortes,” uma “fé inabalável” e “afirmações irredutíveis”. Não acho que esse foi o seu erro. Todos temos muitas dúvidas e poucas respostas em diversos pontos, conforme você leu acima. E se você leu meu artigo até o fim, terá percebido meu último parágrafo:

Com certeza a visão tradicional de Deus adotada pelo cristianismo histórico por séculos não é capaz de responder exaustivamente a todos os questionamentos sobre o ser e os planos de Deus. Ela própria é a primeira a admitir este ponto. Contudo, é preferível permanecer com perguntas não respondidas a aceitar respostas que contrariem conceitos claros das Escrituras.
Seu erro não foi externar suas dúvidas, mas a natureza dessas dúvidas. Além do mais, será sempre questionável tentar passar às pessoas essas dúvidas como se elas fossem o padrão do cristianismo bíblico. Enquanto que eu e os evangélicos tradicionais – calvinistas e arminianos – sabemos em que temos crido, você atravessa um período em que questiona o conceito cristão de Deus quanto à sua onisciência, onipotência e soberania. Suas dúvidas o levaram muito além do antigo debate entre calvinistas e arminianos, a questionar a concepção cristã histórica de Deus.

Sinceramente,
Augustus
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sexta-feira, março 30, 2007

Solano Portela

A Sociedade Refém da Visão Homossexual de Vida

Nossa sociedade anda refém de vários segmentos dela própria. Obviamente, o mais recente e renitente é o dos controladores de vôos, que jogaram o país e o transporte aéreo em um caos. Sobre isso já nos pronunciamos anteriormente (Lidando com o Caos - que tal um pouco de história?) e ainda acho que o exemplo que apresentamos naquele post, tem muito a nos ensinar quanto à situação atual, principalmente perante a ausência de ação e de autoridade real dos nossos governantes.

No entanto, nosso assunto de hoje ainda é a imposição do ponto de vista dos homossexuais sobre o restante da sociedade, procurando torná-la mais refém ainda do que já está. Nos últimos anos os grupos organizados de homossexuais e representantes políticos que abraçaram as idéias da agenda homossexual têm procurado passar várias leis que apresentam o relacionamento homossexual como alternativa de vida, não somente aceitável, mas, por vezes, desejável e até superior. A sociedade vai sendo pressionada a aceitar o homossexualismo não como uma distorção da diferença entre os sexos, colocada por Deus nos seres humanos desde a criação, mas como apenas uma opção pessoal. Uma crítica à pregação homossexual, meramente do ponto de vista sociológico, é que nenhuma forma de relacionamento é mais destrutiva e suicida à sociedade do que esta – se praticada na escala que se pretende, levará simplesmente à extinção da raça humana por pura ausência e impossibilidade de procriação. O cristão, entretanto; aquele que aceita a Palavra de Deus como fonte de entendimento da vida e normativa às convicções éticas, não tem outra alternativa coerente a não ser a identificação da prática como pecado. Ela é assim apresentada em trechos tais como: Lv 18.22; Rm 1.22-27; Mt 19.4-6; 1 Co 6.9-10. A verdade é que a Bíblia sempre apresenta o homossexualismo como vergonha, abominação e perversão.

Não é possível fugir deste entendimento, se acreditarmos que a Bíblia é inspirada por Deus, palavra por palavra. Se começarmos a duvidar de alguns textos e excluir ou até condená-los, que base sobrará para argumentarmos qualquer outra doutrina que nos é preciosa—como o plano da redenção que igualmente permeia estas Escrituras—desde Gênesis a Apocalipse?

Nos dias de Sodoma e Gomorra (Gn 13.13; 19.1-25) – cidades identificadas pela grande depravação e impiedade, e que por isso foram destruídas por Deus, a promiscuidade sexual, inclusive entre pessoas do mesmo sexo (daí a origem do nome sodomia, para a prática homossexual) tornou-se lugar comum. Aparentemente toda a sociedade foi envolvida nessa forma de dissolução social e atacou visitantes formosos, como o registro bíblico indica. A leitura do texto mostra isso como uma coisa comum que envolvia muitos cidadãos. Acompanhem, entretanto, os últimos eventos em nossa sociedade e vejam que não estamos muito longe de dias semelhantes:


  • A presença intensa na mídia de homossexuais, que propagam seus estilos de vida já se faz presente há umas três décadas – inicialmente como “jurados” de programas de auditório e personalidades da “alta” sociedade; depois como entrevistadores; e sempre como entrevistados constantes.



  • A aceitabilidade social progrediu mais um passo, quando começaram a aparecer em anúncios (uma marca de automóveis, a FIAT, trouxe vários anúncios classificando de “antiquados” os que se espantavam com relacionamentos homossexuais retratados como se fosse algo extremamente normal); quando começaram a integrar a classe política; quando programas destinados a jovens, principalmente na MTV, começaram a retratar e apresentar relações homossexuais como modo alternativo de vida, envolvendo vidas até de adolescentes, em formação.



  • A forma de vida que era reconhecidamente vergonhosa, apreciada apenas pelos de mente desviada, passa a ser demonstrada explicitamente, sem qualquer pudor ou vergonha. As paradas de “orgulho gay”, macaqueando o que acontecia em Sydney, na Austrália e em San Francisco, nos Estados Unidos, passam a ser realizadas em várias capitais e em cidades importantes, como Juiz de Fora. Em São Paulo, a prefeita, na ocasião, veio a público dizer que um dia era pouco e que iria lutar para transformar o dia na semana ou no mês do “orgulho gay”, com múltiplos eventos e shows destinados a propagar o distorcido estilo de vida. Agora, como Ministra do Turismo do nosso Brasil, será que abandonou esses planos?



  • Com o seu e o meu dinheiro de impostos, independentemente do partido que se encontra no poder, testemunhamos já há mais de uma década, anúncios supostamente sexualmente “educativos”, mas que são promotores da promiscuidade desenfreada. Alguns explicitamente encorajam os relacionamentos homossexuais, todos evidenciando intenso mau-gosto e falta de bom senso (quem não se lembra do “Bráulio”?). Debaixo do mesmo guarda-chuva, distribuição gratuita e em profusão de “camisinha”. A alternativa da abstinência e sexo dentro do casamento nunca é pregada ou propagada – é considerada restritiva das liberdades, antiquada, ultrapassada.



  • Mais recentemente, leis foram passadas legitimando a adoção de crianças por casais de homossexuais – uma violência sem par aos direitos da criança (que deveriam estar sendo protegidos) que é sacrificada a um ambiente de promiscuidade ou inversão sexual, em prol dos supostos direitos homossexuais.



  • No ano de 2006 o Ministério da Educação financiou e promoveu diversos cursos para professores do ensino fundamental destinados a disseminar a aceitação da homossexualidade. Sob o pretexto de ser uma iniciativa contra o ódio e preconceito, o treinamento se destinava, na realidade, a impedir qualquer direcionamento ou encaminhamento correto à sexualidade da criança, fazendo com que se apresentasse a alunos do ensino fundamental a idéia de que “ser gay é ok”. Chegamos ao ponto de influenciar as criancinhas, sob o selo da aprovação estatal, a uma vida dissoluta e às distorções sexuais, desde à tenra idade.



  • Enquanto escrevemos este post, o Senado está prestes a votar um projeto lei que equaciona a rejeição do homossexualismo com racismo. Este projeto (5003/01), que já foi aprovado por voto de liderança na Câmara dos Deputados (sem discussão em plenário) concede, abertamente, a prática afetiva entre homossexuais, em locais públicos, sem qualquer possibilidade de restrição ou chamada de atenção, sob pena de prisão aos que objetarem ou procurarem impedir. Veja o post anterior do Mauro, sobre este assunto.

Verdadeiramente, a sociedade está se tornando refém de uma visão que age suicidamente contra ela própria, e que abertamente contraria os ideais para a raça humana delineados pelo Criador. Por legislação está sendo criada uma classe privilegiada, não censurável, não disciplinável e de pessoas não demissíveis.


Uma história conhecida fala de um observador dessas tendência da nossa sociedade que disse: “vou embora daqui”. Ao ser perguntado o por quê, disse, referindo-se a esse estilo de vida: “há trinta anos era condenável; há vinte, virou aceitável; há dez, foi legitimado; há cinco, virou desejável e superior; antes que se torne obrigatório, vou para outro país”. Só que isso não resolve. Precisamos orar pelo nosso país, e pelos que estão ao nosso redor, pois não diferem muito em sua dissolução social e moral.


É necessário frisar que não somos “homofóbicos”. O homossexualismo é apenas uma das coisas condenadas por Deus. Mas o que a sociedade precisará perceber, daqui em diante, é que a mesma fé que agora nos dá coragem de descordar do status quo, continua sendo a fé proveniente do seu amor ao Deus da Bíblia. Um amor desprendido que tem levado cristãos a se sacrificar pelos doentes, órfãos, presos, abandonados (e agora aidéticos) em ministérios ao redor do mundo, através dos séculos.

Que Deus seja servido convencer aos nossos legisladores que não ajam contra a própria sociedade e que, pela sua graça, proteja a nossa família e nossas igrejas.

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terça-feira, março 27, 2007

Mauro Meister

A lei da homofilia, para leigos...

Antes que se torne proibido comentar e se expressar sobre matéria, vamos falar... (depois, só na cadeia). Parece que com tanto escândalo de homossexualidade no meio evangélico nos últimos tempos, ficou difícil falar sobre o assunto (veja o post A anatomia de uma queda). Já tem, no entanto, bastante material publicado sobre o assunto, principalmente a reação cristã e conservadora ao PROJETO DE LEI nº 5003/ 2001, que foi aprovado pela câmara em dezembro de 2006. Minha intenção é mostrar na linguagem comum so que trata este projeto de lei, o tanto quanto possível, e fazer uma breve análise.

O que é este projeto de lei?

Autor DEPUTADO - Iara Bernardi

Ementa
Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, dá nova redação ao § 3º do art. 140 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, e ao art. 5º da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e dá outras providências.

A primeira lei mencionada, Lei nº 7.716, é a lei brasileira anti-discriminação que "Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor" (dos tempos de Sarney). A nova proposta não mais trataria apenas de raça ou cor, mas passa a ter a seguinte ementa:

“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”

Logo, a idéia é aumentar o escopo da lei na luta contra a discriminação. Creio que a lei contra a discriminação é justa e necessária quando o pecado do racismo se manifesta em meio à depravação total do ser humano. No entanto, a lei extrapola, em função de pressões de grupos chamados minoritários, o que é natural e criado, acrescentando "orientação sexual e identidade de gênero. Segundo as Escrituras, e todo o bom senso, só existem dois gêneros: macho e fêmea, "assim Deus o fez". Mas agora, por força de lei, serão aumentados! Além de "macho e fêmea", serão incluídos os cidadãos que se denominam GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais), liderados pela Cidadania GLBT, do Partido dos Trabalhadores. Atualmente a lei diz:

"Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor."

E passaria a ser:

“Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”

Mais adiante fica claro que a minha palavra neste post passaria a ser considerada discriminatória. Os cidadãos perderiam o direito da livre expressão de opinião e manifestação de conceitos emanados da Escritura, como cremos. Pessoalmente, não mais poderei pregar o que creio no púlpito da minha igreja ou declarar o que penso neste blog. Esta situação se estende e toma proporções enormes em vários outros artigos do PL.

O artigo 4º da Lei nº 7.716 diz:

Art. 4º Negar ou obstar emprego em empresa privada.
e passaria a ser:

“Art. 4º-A Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta: Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Pensemos neste caso na perspectiva eclesiástica: um funcionário, devidamente registrado, trabalhando como zelador ou secretária em uma igreja, revela-se um transexual. Segundo a lei, praticar a dispensa, ou, ainda, recusar-se a empregar tal pessoa, implica em ato de discriminação (prepare-se para 2 a 5 anos). Onde fica o direito reservado de manter padrões morais nos quais cremos e que vão além da nossa esfera íntima e adentram na esfera pública? O mesmo se aplica a uma escola confessional ou à babá de seus filhos.

Os artigos 5º, 6º e 7º também trazem implicações à manutenção de valores morais em espaços privados abertos ao público. O artigo 5º diz que é crime:

“Art. 5º Impedir, recusar ou proibir o ingresso ou a permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público:

Some-se a este artigo o 8º:

“Art. 8ºA — Impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público, em virtude das características previstas no art. 1º desta Lei. Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”
“Art. 8º-B - Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs. Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

De forma prática, observe o que o Projeto de Lei (PL) propõe: você está tomando uma refeição com sua família em um estabelecimento privado de acesso público (um restaurante) e um "casal" GBLT assenta-se na mesa à frente e começa a 'manifestar afetividade' que seja permitida aos demais cidadãos. Nem o proprietário, você, ou a autoridade policial, poderia se manifestar contra. Isto até poderia acontecer com um casal heterossexual, afinal, não há lei que proíba. O proprietário do lugar poderia pedir recato ao casal heterossexual e até mesmo pedir que se retirassem do estabelecimento. Mas o "casal" BGLT estaria protegido por lei! Na prática, isto aconteceu há alguns anos em shopping de São Paulo. Um "casal" homossexual foi abordado por um segurança a respeito de sua 'manifestação de afetividade' pública. Em resposta, a comunidade homossexual promoveu um 'beijaço', fazendo com que o shopping, inclusive, ficasse conhecido com outro nome.

Mas não fica por ai a mordaça pretendida. Observe os seguinte artigos propostos para a redação da Lei nº 7.716:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero: ..............................................
§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.”(NR)

Imagine um pregador relatando o que a Escritura fala sobre o homossexualismo e suas conseqüências... cai na prática de "incitar a discriminação de... orientação sexual e identidade de gênero. "

Por último, nesta lei, veja quem pode denunciar, além daquele que sentir-se diretamente ofendido:

“Art. 20-A. A prática dos atos discriminatórios a que se refere esta Lei será apurada em processo administrativo e penal, que terá início mediante:
I – reclamação do ofendido ou ofendida;
II – ato ou ofício de autoridade competente;
III – comunicado de organizações não governamentais de defesa da cidadania e direitos humanos.”

Sem comentários!

A segunda lei alterada pelo PL, no Código Penal, sobre o crime de Injuria, diz o seguinte:

Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro.

No § 3º diz:
Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: (Redação dada pela Lei nº 10.741, de 2003) / Pena - reclusão de um a três anos e multa. (Incluído pela Lei nº9.459, de 1997).

A redação passa a ser:

§ 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos e multa.”(NR)

Reflita sobre a situação quanto à igreja: um casal heterossexual pede a afiliação como membros da igreja. Baseado na Escritura e assegurados pela constituição que garante a liberdade religiosa, é possível recusar o recebimento do casal. No entanto, no caso do "casal" GBLT, a lei poderia ser acionada como recurso para acusar a igreja, pastor ou conselho de injúria. Aliás, qualquer palavra 'desagradável' poderia terminar como processo de injúria. Não mais se poderia pregar contra a homossexualidade como um padrão de vida reprovável por Deus (2 a 5 anos!). [Aliás, sei de um colega pastor que está respondendo a processo por denúncia de uma ONG gay por ter postado um artigo bíblico sobre o homossexualismo no site de sua igreja - a liberdade de pensar e expressar-se foi para o saco!].

Eudes Oliveira, em artigo no Jornal Pequeno, afirma:

Apesar da dificuldade, conseguimos pescar alguns artigos que causam preocupação. O art. 4º diz que a dona de casa que dispensar uma babá, por exemplo, por causa de sua opção sexual, poderá ser penalizada com 2 a 5 anos de prisão. O Art. 5º pune com 3 a 5 anos de prisão ao reitor de seminário (naturalmente cristão) que se recusar a aceitar um aluno homossexual. ... O art. 8º criminaliza o sacerdote ou pastor que, em homilia, condenar o homossexualismo, seria, segundo a lei, ação constrangedora de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.

A terceira lei vem da famosa CLT, de 1943 (dos tempos de Getúlio), ainda vigente:

Art. 5º - A todo trabalho de igual valor corresponderá salário igual, sem distinção de sexo.

A proposta de redação é a seguinte:

“Art. 5º..............................
Parágrafo único. Fica proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a relação de emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, orientação sexual e identidade de gênero, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade, ressalvadas, neste caso, as hipóteses de proteção ao menor previstas no inciso XXXIII do caput do art. 7º da Constituição Federal.”(NR)

Esta, obviamente, seria uma mudança essencial para garantir o acesso do "cidadão homossexual, bissexual ou transgênero" a qualquer posto de trabalho na indústria, comércio, serviços e educação, fazendo com que se torne quase impossível a sua demissão.

Em suma, este PL não está buscando direitos constitucionais iguais para os homossexuais, e sim, buscando direitos exclusivos que nenhum outro cidadão brasileiro tem. Esta se torna a 'minoria' super protegida, que abusa da palavra preconceito para ter mais direitos do que os outros.

Conforme o promotor de justiça Cláudio da Silva Leiria,

"Os homossexuais usam e abusam do termo 'preconceito', com que rotulam qualquer opinião que recrimine sua conduta sexual. No entanto, a simples expressão de condenação moral, filosófica ou religiosa ao homossexualismo não se constitui em discriminação, mas exercício da liberdade de consciência e opinião. Os gays não têm qualquer direito de exigir que sua conduta sexual seja mais digna de respeito e consideração que as crenças alheias a respeito da homossexualidade."

Um amigo me chamou a atenção para um artigo de Célio Borja (ex-presidente da câmara e ministro do STF), no Jornal do Brasil, dia 14/03/2007 e reproduzido no Jornal do Senado onde o autor expõe o cerne do problema sobre o PROJETO DE LEI nº 5003/ 2001 da Câmara dos Deputados. Aparentemente, por pressão dos movimentos pró BGLT o projeto original sofreu várias modificações que o fizeram inconstitucional. Ele diz:

Mas fixo-me no conflito da matéria, tal como emendada na Câmara, com os mais veneráveis princípios de todas as Constituições democráticas do nosso tempo: o que garante as liberdades de pensamento e de consciência e o que torna inviolável o direito de religião (Const., art. 5º, VI, VIII e IX). Atropelando essas franquias, o projeto nº 122/2006 (numeração do Senado) restabelece o delito de opinião que é uma das formas mais execráveis de opressão. O parágrafo 5º, do artigo 20, do projeto em tramitação no Senado, equipara a manifestação ou expressão de inconformidade ou reprovação da homofilia, "de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica" à "ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória". Portanto, o direito de não considerar natural, próprio e conveniente, ou de qualificar como moral, filosófica ou psicologicamente inaceitável o comportamento homossexual não seria mais tolerado. Os juízos morais, filosóficos ou psicológicos já não poderiam mais ser externados, embora a Constituição assegure a livre manifestação do pensamento (art. 5º, IV). Essa norma poderia impedir que os pais eduquem seus filhos de acordo com o que entendem ser o comportamento mais natural e socialmente próprio. Esse temor se justifica porque o substitutivo diz que "para os fins de interpretação e aplicação desta Lei, serão observados, sempre que mais benéficas em favor da luta antidiscriminatória, as diretrizes traçadas pelas Cortes Internacionais de Direitos Humanos, devidamente reconhecidas pelo Brasil". Ora, nenhuma lei pode incitar ou compelir pessoas a engajarem-se em qualquer tipo de luta, a não ser a guerra externa para a defesa do Brasil. Esse jargão é incompatível com o direito, cuja finalidade é a paz. E, depois, observe-se que as relações do direito interno e do internacional são reguladas pela Constituição (art. 5º, LXXVIII, §§ 1º, 2º, 3º), não cabendo ao legislador ordinário dispor diferentemente. Andaria bem o Senado se desse preferência ao projeto original. Garantiria, assim, a liberdade de pensamento e a de instruir, educar e formar os filhos e os discentes de acordo com sua consciência moral. E a de manifestar publicamente os juízos de valor inerentes aos credos religiosos.

Em que pé andam as coisas?

Segundo a Agência Senado a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) aprovou, no dia da votação do projeto naquela casa (15 de março), requerimento de autoria do senador Flávio Arns (PT-PR) de criação de grupo de trabalho destinado para discutir o projeto sendo assim retirado da pauta de votações, a pedido da relatora Fátima Cleide (PT-RO). A razão alegada é a discussão mais profunda da matéria.

No dia 20 foi instalada esta comissão e os debates foram iniciados. O site da senadora Fátima Cleide relata:

Sob a coordenação da senadora Fátima Cleide, relatora da proposta na Comissão de Direitos Humanos, o ato de instalação do Grupo contou com a presença dos senadores Flávio Arns(PT-PR) e Geraldo Mesquita (PMDB-AC) e de representantes do movimento gay no Brasil, dentre eles o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais,Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis... Além dos senadores citados, compõem o Grupo de Trabalho os senadores Demóstenes Torres, Siba Machado, Patrícia Saboya, Gilvan Borges, Paulo Paim e Marcelo Crivela.

Fica óbvio que o defensor dos direitos homossexuais será o presidente da ABGLT. Resta saber se os demais, incluindo Marcelo Crivela, serão defensores a altura do direto constitucional dos brasileiros.

Fica mais uma vez demonstrado que o homem, na busca de leis que libertam, se torna escravo do próprio pecado. Definitivamente, este não é um PL contra a homofobia, mas uma lei tirana a favor da homofilia.

O que fazer?

Não se cale. Milhares de cidadãos se expressaram escrevendo para os Senadores da República, a ponto de fazer com que o projeto, creio que por medo de que não fosse aprovado no Senado, voltasse a uma comissão de estudos. Ore, escreva e fale. O email dos Senadores encontra-se na página do Senado Federal.

O próximo post, do Solano, vai falar sobre esta mesma situação, de maneira mais abrangente e bem humorada.

PS1. Se a ministra disse "'Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco" não há quem possa impedir uma ONG BGLT de dizer: "'Não é discriminação quando um BGLT se insurge contra um hetero." Aliás, é isto que o PL ensina.

PS2. Para uma visão cristã a respeito do homossexualismo, indico o livro do Dr. Valdeci Santos, Homossexualidade, uma perspectiva cristã, editora Cultura Cristã.

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segunda-feira, março 26, 2007

Solano Portela

Celebrando 10.03.1557 e a Confissão de Fé da Guanabara


O dia 10 de março marca o dia do primeiro culto evangélico em solo brasileiro (1557). Ele aconteceu com os refugiados huguenotes, que buscavam um lugar no qual tivessem liberdade religiosa de cultuar biblicamente, segundo a teologia redespertada pelo Reforma do Século 16, o soberano Senhor, bem como proclamar a salvação na pessoa de Jesus Cristo.

Foram esses mesmos cristãos corajosos que nos legaram  a Confissão de Fé da Guanabara. Este documento suscita sempre curiosidade e várias perguntas. A primeira surpresa é quanto à sua antiguidade e a verificação de que essa Confissão antecede as nossas mais famosas confissões reformadas históricas, pois foi lavrada no ano 1558.

O outro ponto de curiosidade, é que ela joga luz em um período pouco conhecido de nossa história. Quando eu era criança e, depois, adolescente (faz muito tempo...), estudei bastante sobre o que os nossos livros chamam (ou chamavam) de “Invasão Francesa”. Pouco se falava que em vez de “Invasão” tínhamos um grupo escorraçado, perseguido e atribulado de cristãos reformados franceses, os “huguenotes”, que haviam sido expulsos de sua terra natal pela fé que professavam e ansiavam por um local no qual pudessem gozar da liberdade de cultuar. Em vez de um exército infernal de franceses, esse grupo militarmente mal articulado, era liderado pelo inescrupuloso aventureiro e mercenário Nicolas (ou Nicolau) Durand de Villeigagnon. Simulando uma “conversão” ele procurou organizar a expedição de huguenotes franceses ao Novo Mundo, no que seria a “França Antártica”.

O grupo extremamente misto – no final contava com católicos, huguenotes e vários malfeitores presos “recrutados” para completar o número almejado para a expedição – começou com 600 homens e chegou ao Brasil, após uma sucessão de eventos, com 88, em agosto de 1555.

Nos três anos seguintes, outras expedições vieram, principalmente enviadas por Calvino que atendia aos pedidos de Villegaignon. Ficaram, basicamente, aportados em uma ilha na costa do Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, onde foi construído o Forte Coligny. Assim esse primeiro culto evangélico no solo brasileiro aconteceu com esses huguenotes. Antes de serem confrontados pelos portugueses, em 1560, experimentaram muitos incidentes de trabalho forçado, fugas, escaramuças com os índios (e algumas alianças) e inúmeros conflitos internos.

Nesse meio tempo, Villeigaignon ia mostrando o seu real caráter e ia retornando às práticas católicas. Os huguenotes terminaram separando-se dele. Uma grande parte retornou, em 1558, em um navio francês, mas alguns que ficaram foram hostilizados por Villeigaignon. Receberam várias perguntas, às quais deveriam responder, com questões relacionadas com a sua fé e práticas litúrgicas.

A Confissão de Fé da Guanabara representa essas respostas. Ela não é, portanto, um tratado completo e sistemático de teologia, mas é específica e direcionada às questões da época. Obviamente, no que diz respeito à fé e à salvação, expressa princípios bíblicos e eternos. Foi redigida por Jean Du Bourdel, por ser o mais letrado dentre eles. Villeigagnon, irado porque os subscritores se recusavam a abjurar a Confissão, mandou matar três homens. São os chamados “mártires da Guanabara”.

A história detalhada desse período, com todos os seus componentes eclesiásticos, que geralmente ficam de fora, bem como com o texto completo da Confissão de Fé da Guanabara, em português, pode ser visto no excelente artigo do Franklin Ferreira (FIDES – A Presença dos Reformados Franceses no Brasil Colonial), que poder ser acessado no site do Felipe Sabino www.monergismo.com, clicando aqui.

Solano Portela, celebrando 10.03.1557
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terça-feira, março 20, 2007

Mauro Meister

Em meio ao caos aéreo a IGREJA EMERGENTE faz seu pouso oficial no Brasil

Acabo de receber em mãos uma amostra, contendo o primeiro capítulo, de A Mensagem Secreta de Jesus: desvendando a verdade que poderia mudar tudo, de Brian McLaren, o guru do movimento que se intitula Igreja Emergente (uma das primeiras publicações da Thomas Nelson Brasil). Para saber mais sobre o movimento, lhe remeto ao meu post Neo-ortodoxia emergente. Naquela ocasião, junho de 2006, pouco ou nada havia escrito em português, e, agora, já temos o primeiro livro do guru.

Para termos uma dimensão mais precisa do tema do livro, veja a apresentação:

Seria possível que a Igreja tenha entendido tudo errado e perdido a essência da mensagem de Jesus? McLaren nos convida para uma reflexão profunda que poderá mudar radicalmente nossas idéias e práticas espirituais.
O capítulo inicial de McLaren faz muitas perguntas honestas, do tipo 'pergunta que não quer calar'. Tudo parece que vai nos levar na direção de uma profunda reflexão bíblica e confrontadora. No entanto, não é o que vai acontecer no livro, não por causa dos temas propostos, mas por causa dos pressupostos adotados...

Por ser claramente um defensor da pós-modernidade e de uma leitura do cristianismo à luz da mesma, McLaren, apesar de propor 'clareza', é contraditório. Já citei anteriormente a forma como o autor pinta seu auto-retrato:

Por que eu sou um cristão missional, evangélico, pós protestante, liberal/conservador, místico/poético, bíblico, carismático/contemplativo, fundamentalista/calvinista, anabatista/anglicano, metodista, católico, verde, incarnacional, depressivo-mas-esperançoso, emergente e não-acabado. (Subtítulo do livro Generous Orthodoxy)

Logo, a reposta à apresentação do livro é: Sim, a igreja entendeu errado e perdeu a mensagem de Jesus. Concordo que, tanto ao longo da história quanto no presente momento, a igreja e as instituições que se chamam cristãs perderam muito da essência do ensino de Cristo, ao ponto de ser necessário avaliar tudo o que se chama 'cristão' com lupa antes de poder aceitar. No entanto, a proposta de McLaren é que o cristianismo verdadeiro só se manifesta quando 'emerge', no conceito pluralista, e, interessantemente, emerge no século XXI. Até então, a igreja não havia corretamente compreendido esta mensagem ou havia falsificado a mesma. Para explicar este fenômeno, McLaren afirma que na história antiga da igreja, logo no segundo século, "...a fé cristã teve uma virada fatal".
Segundo ele, no segundo século, a igreja deixou de ser uma seita judaica de continuidade e passou a ser uma religião gentílica anti-semita. Isto fez com que o cristianismo perdesse seu caminho (p. 211 da versão em inglês - como eu disse, só recebi o primeiro capítulo em português). O segundo erro da igreja teria sido o seu romance (um caso) com a filosofia grega, o que fez com que a mensagem de Jesus se perdesse em meio a uma série de abstrações. Em terceiro lugar, depois do divórcio com o judaismo e do romance com a filosofia, a igreja, então, casou-se, com o império de Constantino. A igreja perdeu a sua condição de ler os ensinos de Jesus como crítica do império (p. 212), afinal, estava casada com ele. Com este casamento, afirma McLaren, a igreja passou a assinar em baixo de todo o tipo de violência contra vários povos... E assim vai, são oito razões, ao todo, explicando a razão da igreja, ao longo de 18 séculos, não ter encontrado a mensagem secreta de Jesus.

A linha de pensamento de McLaren não deixa de ter sua lógica e despertar interesse no leitor. Apesar da aparente humildade, com a frases do tipo 'estamos sobre os ombros de gigantes', McLaren, carimba toda a história da igreja como uma sucessão de erros. Até agora, a Igreja só errou e o Senhor da Igreja, o Deus soberano, nada fez.Fica a clara impressão de que os filósofos emergentes estão bebendo diretamente da mesma fonte que os 'relacionais' ou do teísmo aberto, o pós-modernismo. Uns descobrem uma nova teologia, uma nova mensagem de Jesus ou outro deus...

Não posso negar que várias acusações históricas tem alguns ou vários pontos de verdade. Também não posso negar que as acusações presentes quanto a igreja em suas várias 'manifestações' sejam fundamentadas na realidade. O que não posso concordar é que 'tudo está errado' e que não há nada de bom na igreja histórica. Me parece um cântico que vem sendo entoado nos cultos nos últimos anos, por cristãos, a meu ver, não regenerados:

"Porque tudo o que há dentro de mim
Necessita ser mudado Senhor"
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sábado, março 17, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Fraternidade Mundial Reformada no Brasil

Por     14 comentários:
Desde sexta-feira o Comitê Executivo da Fraternidade Mundial Reformada (World Reformed Fellowship) está reunido nas instalações da Universidade Presbiteriana Mackenzie, à convite da Igreja Presbiteriana do Brasil. Trata-se da reunião anual da Fraternidade. Ano passado, ela se reuniu em Johanesburgo, África do Sul, e ano que vem, deve se reunir na Coréia.
A minha denominação, a Igreja Presbiteriana do Brasil, é um dos membros fundadores da Fraternidade, juntamente com a Iglesia Nacional de Mexico e a Presbyterian Church of America (PCA). Como membro do Comitê Executivo, tem sido um privilégio para mim trabalhar com esses irmãos e ver como minha denominação, contrário ao que tem sido veiculado após a decisão de separar-se de outro organismo internacional, procura manter laços com igrejas e instituições que adotam uma visão clara sobre a inerrância bíblica e respeitam os pontos fundamentais da fé reformada.
A reunião continua nesssa segunda-feira, desta feita somente com os membros do Comitê Teológico, do qual também faço parte. Há teólogos reformados da França, Itália, Kenia, Estados Unidos, Coréia, Indonesia, Irlanda, Brasil, Escócia e Austrália. O objetivo central da reunião é a elaboração de uma nova declaração de fé que seja fiel à tradição das grandes confissões reformadas e que aborde questões que se tornaram relevante para a Igreja após o tempo em que essas confissões foram escritas, como sexualidade, feminismo, paganismo, questões ambientais, a relação entre ciência e fé, fundamentalismo islâmico, pluralismo religioso e sincretismo, problemas sociais, etc. O alvo é terminar a declaração em 2010, na reunião programada para a Escócia. Essa declaração será oferecida às igrejas reformadas do mundo como base de relacionamento fraterno e de mútuo reconhecimento. Pedimos as orações de todos.
Uma nota interessante: o Solano Portela passou a noite de ontem para hoje traduzindo para inglês a Confissão da Guanabara, que foi recebida hoje com grande entusiasmo pela Comissão, como uma das primeiras confissões reformadas produzidas no mundo. Obrigado, Solano!
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segunda-feira, março 12, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Liberalismo e Fundamentalismo Outra Vez

Por     32 comentários:
[A entrevista abaixo foi elaborada por Elvis Brassaroto Aleixo e será publicada em breve na revista Defesa da Fé. Eu sei que já escrevi bastante sobre esse assunto, mas é que achei as perguntas bem diretas e relevantes.]

Defesa da Fé – O liberalismo teológico não surgiu do nada. Quais foram os acontecimentos históricos que preparam o caminho para o seu surgimento?

Profº Nicodemus – O liberalismo é, de muitas maneiras, um fruto do Iluminismo, movimento surgido no início do século 18 que tinha em seu âmago uma revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral. As pressuposições filosóficas do movimento eram, em primeiro lugar, o Racionalismo de Descartes, Spinoza e Leibniz, e o Empirismo de Locke, Berkeley e Hume. Os efeitos combinados dessas duas filosofias — que, mesmo sendo teoricamente contrárias entre si, concordavam que Deus tem de ficar de fora do conhecimento humano — produziu profundo impacto na teologia cristã. Como resultado da invasão do Racionalismo na teologia, chegou-se à conclusão de que o “sobrenatural não invade a história”. A história passou a ser vista como simplesmente uma relação natural de causas e efeitos. O conceito de que Deus se revela ao homem e de que intervém e atua na história humana foram logo excluídos. A fé cristã histórica sempre acreditou que os milagres bíblicos realmente ocorreram como narrados. Milagres como o nascimento virginal de Cristo, os milagres que o próprio Cristo realizou, sua ressurreição física dentre os mortos, os milagres do Antigo e Novo Testamentos, de maneira geral, são todos considerados fatos. O teólogo liberal, por sua vez, e os neo-ortodoxos fazem distinção entre historie (história, fatos brutos) e heilsgeschichte (história santa, ou história salvífica), criando dois mundos distintos e não conectados: o mundo da história bruta, real, factível e o mundo da fé, da história da salvação. Temas como criação, Adão, queda, milagres, ressurreição, entre outros, pertencem à história salvífica e não à história real e bruta. Para os liberais e os neo-ortodoxos, não interessa o que realmente aconteceu no túmulo de Jesus no primeiro dia da semana, mas, sim, a declaração dos discípulos de Jesus que diz que Jesus ressuscitou. Assim, o que eles querem afirmar com isso é bastante diferente daquilo que a fé cristã histórica acredita. Na verdade, eles consideram que os relatos bíblicos dos milagres são invenções piedosas do povo judeu e dos primeiros cristãos, mitos e lendas oriundos de uma época pré-científica, quando ainda não havia explicação racional e lógica para o sobrenatural.

Defesa da Fé – O alemão J. Solomon Semler distinguiu a “Palavra de Deus” da “Escritura”, e esse é um dos princípios que norteiam o liberalismo teológico. O senhor poderia nos esclarecer um pouco mais sobre essa distinção?

Profº Nicodemus – Por detrás desta declaração de Semler está a crença de que a Escritura contém erros e contradições, lado a lado com aquelas palavras que provêm de Deus. Desta declaração, percebe-se também os pressupostos racionalistas do Iluminismo quanto à impossibilidade do sobrenatural na história. Partindo desses pressupostos teológicos, os críticos iluministas se engajaram na busca da Palavra de Deus que, supostamente, estava dentro da Escritura, misturada com erros e contradições. Essa busca se tornou o objetivo do método histórico-crítico, que é fazer a separação entre essas duas coisas, por meio da exegese “científica”, e descobrir a Palavra de Deus dentro do cânon da Bíblia. O subjetivismo inerente aos critérios utilizados para reconhecer a Palavra de Deus dentro do cânon fez que os resultados fossem completamente díspares. Até hoje, não existe um consenso do que seria a Palavra de Deus, dentro do cânon, reconhecida e aceita pelos próprios críticos.

Defesa da Fé – Quais são as implicações mais prejudiciais dessa diferença para o cristianismo?

Profº Nicodemus – O problema que os evangélicos e conservadores sempre tiveram com essa diferenciação e com o método histórico-crítico que surgiu dela é que ambos pressupõem, desde o início, o direito que o crítico tem de emitir juízos sobre as afirmações bíblicas como sendo ou não verdadeiras. Para os críticos liberais, interpretar a Bíblia historicamente significava, quase que por definição, reconhecer que a Bíblia contém contradições. Para eles, qualquer abordagem hermenêutica deixa de ser histórica se não aceitar essas contradições. Em resumo, concordar que a Bíblia não era totalmente confiável se tornou um dos princípios operacionais do liberalismo e de seu “método histórico-crítico”. Tal desconfiança se percebe, por exemplo, nas declarações de Ernest Käsemann, um dos críticos recentes mais proeminentes. Seu desejo é “distanciar-se da superstição incompreensível de que no cânon [bíblico] somente a fé genuína se manifesta”. Para ele, “a Escritura, à qual as pessoas se rendem de maneira não-crítica, não leva somente à multiplicidade de confissões, mas também a uma confusão indistinguível entre fé e superstição”. Essas declarações de Käsemann representam bem o pensamento liberal sobre a Bíblia.

Defesa da Fé – Em face disso tudo, quem é Jesus para os teólogos liberais? É Deus salvador?

Profº Nicodemus – Segundo Bultmann, um dos maiores liberais de épocas recentes, a única coisa histórica no credo apostólico é a declaração “Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos”. As demais declarações são todas invenções da fé criativa da Igreja primitiva. O Jesus histórico foi uma pessoa normal, filho de Maria e, talvez, de José, que ganhou status de Salvador, Messias e Deus por meio da fé dos discípulos e, particularmente, de Paulo. Na realidade, segundo os liberais, Jesus teria sido um profeta, um contador de histórias, um lutador contra as desigualdades, um homem sábio, entre outras versões. Todas elas concordam, porém, que Jesus não era divino, não ressuscitou dos mortos e nunca se proclamou Filho de Deus e Messias.

Defesa da Fé – Há, também, a questão do mito fundante que afirma que Adão não existiu. Mito esse que, às vezes, tenta conciliar evolucionismo com criacionismo. Como o liberalismo lida com o livro de Gênesis?

Profº Nicodemus – Os liberais acreditam que a Igreja Cristã se perdeu completamente na interpretação da Bíblia através dos séculos e que somente com o advento do Iluminismo, do racionalismo e das filosofias resultantes é que se começou a analisar criticamente a Bíblia e a teologia cristã, expurgando-as dos alegados mitos, fábulas, lendas, acréscimos, como, por exemplo, os mitos da criação e do dilúvio e de personagens inventados como Adão e Moisés, etc. Por considerar os relatos da criação, da formação de Adão e sua queda como mitos, os liberais tratam o livro de Gênesis como uma produção da fé de Israel escrita com o propósito de legitimar a posse e a permanência de Israel na terra. Acreditam que Gênesis foi redigido em sua forma final no período do exílio babilônico, por um editor que colecionou e colou juntos relatos díspares sobre a criação, a história do dilúvio, etc. Por não considerarem histórico o relato da criação, os liberais são, por via de regra, evolucionistas. Alguns acreditam que Deus criou o mundo mediante o processo da evolução. Mas, no geral, descartam completamente a idéia de uma criação do mundo e do homem ex nihilo, do nada, pela palavra do seu poder.

Defesa da Fé – Em sua avaliação, o liberalismo pode ser apontado como um dos fatores responsáveis pela adesão às causas pró-homossexualidade que adentraram em muitas igrejas dos EUA e que já começaram a grassar no Brasil?

Profº Nicodemus – Sim, mas sem generalizar. Uma vez que a Bíblia é vista como reflexo da fé e da crença do povo de Israel e dos primeiros cristãos, e não como Palavra infalível de Deus, os valores e os conceitos que ela traz são vistos como culturalmente condicionados e irrelevantes aos tempos modernos, em que os valores são outros. Dessa forma, o que a Bíblia diz, por exemplo, sobre a prática homossexual, é interpretado pelos liberais como fruto da cultura da época, que não sabia que a homossexualidade é uma opção sexual, e também que as pessoas nascem geneticamente determinadas à homossexualidade. Em igrejas onde a ética da Bíblia é vista como ultrapassada, fica aberta a porta para a conformação da ética da Igreja à ética do mundo.

Defesa da Fé – Em que sentido podemos dizer que a teologia liberal promoveu o (macro) ecumenismo? O liberalismo chega a ponto de validar sistemas de crenças díspares do cristianismo?

Profº Nicodemus – Para o liberalismo clássico, inspirado por F. Schleiermacher, religião era simplesmente “o sentimento e o gosto pelo infinito” e consistia, primariamente, em emoções. A experiência humana marcava os limites do que se podia especular acerca da realidade. O essencial do sentimento religioso é o senso de dependência de Deus, que produz consciência ou intuição da sua realidade. Fé e ação eram coisas secundárias. O sentimento religioso é algo universal, isto é, cada ser humano é capaz de experimentá-lo. É esse sentimento que dá validade às experiências religiosas e que torna o ecumenismo possível. Uma vez que se entende que religião é basicamente o gosto pelo infinito, e que encontramos esse gosto em todas as religiões, temos aí a base para dizer que todas as religiões são iguais e querem a mesma coisa, diferindo apenas na maneira como pretendem alcançar esse alvo. O macroecumenismo é filho do liberalismo teológico.

Defesa da Fé – Considerando o ciclo da criação e recepção teológica (Europa, América do Norte e América do Sul), o senhor julga que o liberalismo pode ter decretado a decadência da Igreja evangélica na Europa?

Profº Nicodemus – Creio que esse seja um dos fatores, mas outros poderiam também ser apontados, como, por exemplo, a secularização da vida e da sociedade européia, o materialismo e o abandono dos princípios do cristianismo em todas as áreas da vida. Até mesmo igrejas que não são liberais têm dificuldade em se manter na Europa de hoje. Todavia, o liberalismo teológico é responsável pelo esvaziamento das igrejas históricas e tradicionais, mas não necessariamente pela secularização do continente como um todo.

Defesa da Fé – Já é possível mencionar alguns de seus efeitos mais notáveis na América Latina e, mais especificamente, no Brasil?


Profº Nicodemus – Sim, sem dúvida. Mas o liberalismo teológico que chegou em nosso país já chegou com formas e propostas diferentes, associado, por exemplo, com a teologia da libertação. Os cursos de teologia oferecidos em universidades seculares ou em universidades teológicas sem nenhum compromisso com a infalibilidade das Escrituras são a porta de entrada do liberalismo em nosso país. O que se percebe claramente é a busca, por parte dos evangélicos, da respeitabilidade acadêmica oferecida pela academia secular. Isso tem feito que o “evangelicalismo” submeta suas instituições teológicas de formação pastoral aos padrões educacionais do Estado e das universidades. Esses padrões, ao contrário do que se pensa, não são cientificamente neutros. São comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo. Os cursos de teologia e ciências da religião oferecidos pelas universidades são, geralmente, dominados pelo liberalismo teológico e pelo método histórico-crítico. Com a busca acentuada por um diploma de teologia reconhecido, os evangélicos correm o risco de sacrificar seu compromisso com as Escrituras em troca de qualidade científica prometida e oportunidade de emprego.

Defesa da Fé – Muito dessa discussão permeou as denominações de confissão histórica. Seria correto afirmar que as denominações pentecostais ficaram isentas de problemas com o liberalismo?


Profº Nicodemus – Absolutamente não. Hoje, um dos maiores defensores do teísmo aberto em nosso país – ideologia que nega a soberania de Deus e a sua onisciência – é pentecostal. Por não terem investido, no passado, em uma boa educação teológica de seus pastores e obreiros, muitas igrejas pentecostais, hoje, têm um tremendo passivo teológico. Várias delas têm sucumbido ao liberalismo teológico quando enviam seus obreiros para serem preparados em cursos de teologia e ciências da religião comprometidos com o método histórico-crítico. Esses obreiros voltam para as igrejas com a cabeça completamente virada e, às vezes, não crêem em mais nada. Julgo que o liberalismo foi nocivo e atingiu tanto os tradicionais como os pentecostais.

Defesa da Fé – Falando, agora, sobre o fundamentalismo, em que termos essa corrente contribuiu para promover a apologética, na medida em que se opôs ao liberalismo?


Profº Nicodemus – O fundamentalismo histórico nasceu em defesa da fé cristã, ameaçada, na época, pelo liberalismo teológico. Portanto, o fudamentalismo foi um movimento apologético de defesa da fé, porque entendia que a tarefa da Igreja cristã era defender a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Nesse aspecto, é positiva a disposição de se lutar em favor da fé bíblica, identificando inimigos potenciais do cristianismo, como o liberalismo teológico, o humanismo, o evolucionismo e o “evangelicalismo”, que tem, gradualmente, abandonado a doutrina da infalibilidade da Escritura e adotado o ecumenismo e o evolucionismo teísta.

Defesa da Fé – Em sua análise, é impossível encontrar algum legado positivo do liberalismo à Iigreja evangélica?


Profº Nicodemus – Citaria que muitos estudiosos liberais contribuíram bastante para o avanço do nosso conhecimento acerca do mundo do Antigo e do Novo Testamento e para a nossa consciência da importância da cosmovisão oriental na formação do mundo dos autores da Bíblia. Liberais como Bultmann contribuíram para o estudo das religiões do período neotestamentário, quando do surgimento do cristianismo, embora suas conclusões sejam inaceitáveis para estudiosos comprometidos com a infalibilidade da Bíblia. Essas contribuições, todavia, ajudam a Igreja evangélica apenas indiretamente. Em termos de contribuição direta para a Igreja evangélica, a resposta é negativa. O liberalismo nunca plantou igrejas, nunca aumentou número de membros e muito menos a receita financeira das igrejas. Só conseguiu reproduzir outros liberais, os quais, por sua vez, precisavam, também, sobreviver. O liberalismo teológico sempre teve de achar um hospedeiro que pudesse sugar até que o mesmo morresse, drenado. O liberalismo sobreviveu muitos anos à custa do esforço missionário, do zelo expansionista e do sacrifício financeiro dos cristãos bíblicos, que fundaram igrejas, criaram organizações, ajuntaram fundos missionários e abriram escolas teológicas, e todas elas, depois, foram ocupadas pelos liberais. O liberalismo plenamente desenvolvido não fundou novas denominações, não abriu novas igrejas, não inaugurou novos campos missionários e não abriu novas escolas. Não conheço nenhum curso de teologia hoje nos Estados Unidos e na Europa que seja liberal e que funcione numa universidade que tenha sido criada por liberais. Harvard, Union, Princeton, Yale, Amsterdã, Oxford... todas foram criadas por conservadores das mais diferentes linhas. O caráter parasitário do liberalismo teológico se deveu ao fato de que os liberais não acreditavam em evangelismo e missões. Os liberais sugaram a herança organizacional eclesiástico-financeira de Calvino, Lutero, Wesley e dos puritanos.

Defesa da Fé – E o que dizer do fundamentalismo? O senhor mencionaria algo nesse movimento que consideraria prejudicial?


Profº Nicodemus – Sim, cito negativamente o fundamentalismo como movimento separatista do erro teológico como único meio de preservar a verdade cristã. Sob esse aspecto, o fundamentalismo crê que não pode haver associação com igrejas, denominações e indivíduos que neguem os pontos fundamentais do cristianismo. O separatismo nem sempre é o caminho para batalharmos pela fé histórica. O fundamentalismo nem sempre consegue conviver com diferentes opiniões, mesmo em questões que não afetam os pontos fundamentais da fé, e acaba tratando com desconfiança irmãos conservadores que concordam com os pontos fundamentais, mas divergem em outras questões. Penso que setores do fundamentalismo desenvolveram uma síndrome de conspiração mundial para o surgimento do reino do anticristo por meio do ocultismo, da tecnologia, da mídia, dos eventos mundiais, das superpotências, além de uma mentalidade de censura e apego a itens periféricos como se fossem o cerne do evangelho e critério de ortodoxia (por exemplo, só é bíblico e conservador quem usa versões da Bíblia baseadas no Texto Majoritário; quem não assiste desenhos da Disney e não vê Harry Potter).
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