terça-feira, julho 07, 2009

Solano Portela

Ainda a propósito dos 500 anos de Calvino

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O dia 10 de julho marca a data memorável dos 500 anos desde o nascimento de João Calvino. Contrário ao que muitos pensam, ele não criou ou formulou novas doutrinas, mas foi hábil sistematizador das verdades bíblicas, exemplo de devoção e exegeta preciso, deixando esse legado precioso, que já atravessa cinco séculos!

Calvino “está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que quaisquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”! Esse endosso entusiasmado de Calvino e de seus dons como comentarista e intérprete bíblico foi emitido por aquele que é considerado o seu grande inimigo: Jacobus Arminius! Charles Haddon Spurgeon, registra isso e classifica o comentarista Calvino como “príncipe entre os homens” e apresenta, ainda, a citação favorável de um Padre Católico Romano (Simon): “Calvino possui um gênio sublime”.

O que levaria Armínio, que divergiu com tanta intensidade da compreensão calvinista da soberania de Deus e da extensão da escravidão ao pecado na qual se encontra a humanidade; ou mesmo um católico romano, com sua discordância do modo de salvação defendido por Calvino, pronunciar tais elogios sobre João Calvino?

Certamente eles se rendem à precisão, devoção e seriedade com as quais João Calvino aborda a Palavra Sagrada, em seus escritos. Spurgeon destaca a sinceridade de Calvino e a tônica que o classifica como um exegeta, em paralelo a todas às suas demais qualificações. Ele disse, “a sua intenção honesta foi a de traduzir o texto original, do hebraico e do grego, com a maior precisão possível, partindo desse ponto para expor o significado contido nas palavras gregas e hebraicas: ele se empenhou, na realidade, em declarar não a sua própria mente acima das palavras do Espírito, mas a mente do Espírito abrigada naquelas palavras”. É por isso que Richard Baxter deu esse testemunho: “Não conheço outro homem, desde os dias dos apóstolos, que eu valorize e honre mais do que João Calvino. Eu me aproximo e tenho grande estima do seu juízo sobre todas as questões e sobre seus detalhes”.

É nessa linha e atribuindo esse valor, que devemos receber e apreciar os escritos de Calvino. Além do mais conhecido - As Institutas da Religião Cristã (tradução curiosa, que teria sido melhor vertida como: "Os Fundamentos da Religião Cristã"), temos a excelência dos seus comentários, como já apresentou o Dr. Mauro Meister, no seu post anterior.

Romanos foi o primeiro comentário escrito, em 1540, e, na seqüência, as demais cartas de Paulo. O comentário sobre a Segunda carta de Paulo aos Coríntios foi o terceiro livro escrito nessa série, concluído em agosto de 1546 (1 Coríntios foi concluído em janeiro de 1546; os comentários às demais epístolas de Paulo foram concluídos em 1548). Seu último comentário foi publicado em 1563. Todos esses livros foram originalmente escritos em latim. Para completar a totalidade da Bíblia, ficaram faltando: Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel. 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Nemias, Ester, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, 2 e 3 João e Apocalipse). Quando Calvino faleceu, ele estava escrevendo o comentário de Ezequiel.

Seguindo o seu costume, Calvino iniciou o Comentário da Segunda Carta aos Coríntios com uma dedicatória feita a Melchior Wolmar Rufus, um alemão muito famoso, professor de Direito Civil, alvo de sua profunda gratidão. Teodoro Beza (1519-1605) escreveu o seguinte sobre Melchior Wolmar, em sua “Vida de João Calvino”: “A sua erudição, piedade e outras virtudes; em conjunto com suas habilidades admiráveis como professor de jovens, não podem ser suficientemente destacadas. Em função de uma sugestão sua e por sua atuação, Calvino aprendeu a língua grega”. Assim, em meio aos seus estudos de advocacia, Calvino, aos 22 anos de idade, aprende a dominar uma das línguas originais da Bíblia, formando o alicerce de sua vida eclesiástica, como exegeta, hermeneuta e teólogo.

João Calvino é reconhecidamente um exegeta, um hermeneuta e um mestre em poimênica, mas ele é, antes de tudo, um Teólogo Sistemático. Certamente ele é mais famoso por seu tratado de teologia – As Institutas. Mas é nos comentários que ele escreveu ao longo de sua curta vida, que ele demonstra o apreço que tem para a fonte de sua sistematização teológica – a Bíblia. Os Comentários são importantíssimos, pois derrubam a pecha de que Calvino é um racionalista cujas ilações contrariam não somente o bom senso, mas o próprio ensino da Palavra de Deus. Não pode ser aceita, portanto, a visão propagada por oponentes de Calvino, de que ele deixa a visão orgânica do Reino para trás e embarca em um delírio racional, que o leva a conclusões sobre a soberania de Deus não encontradas nas Escrituras. Ora, é exatamente na Palavra de Deus, estudando texto a texto, onde Calvino encontrará a base para reafirmar e extrair todas as suas convicções e ensinamentos. Não deve nos surpreender que Calvino, o teólogo sistemático, começasse comentando Romanos (que ele considerava a chave para a interpretação correta das Escrituras) e as cartas de Paulo aos Coríntios. Estes livros são sistemáticos na apresentação de doutrinas fundamentais da Fé Cristã, interpretando e aplicando os ensinamentos dos Evangelhos; explicando os fundamentos veto-testamentários; firmando os passos da igreja de Cristo na Nova Aliança.

É interessante, também, que mesmo quando Calvino se envolve em um mergulho profundo nos livros da Bíblia, trecho por trecho, para desvendar o seu significado e na busca das lições supremas registradas por Deus, ele não perde a visão sistemática das doutrinas. Assim, em seus comentários ele não se contenta apenas em dar um resumo do livro que passará a examinar, mas também apresenta “o argumento” que norteou o autor na escrita do livro: o desenvolvimento sistemático do raciocínio do autor, e a lógica argumentativa dos pontos que necessitavam ser estabelecidos pela carta.

Na segunda carta de Paulo aos coríntios (possivelmente a terceira que escrevia aos Coríntios, pois 1 Co 5.9, faz referência a uma primeira – antes de 1 Coríntios, possivelmente não inspirada, no sentido canônico), temos a continuidade de instrução a uma igreja marcada por graves problemas de conduta, eivada de incompreensões doutrinárias, que havia motivado duras repreensões da parte do apóstolo. As notícias mais recentes, entretanto, são encorajadoras (7.5-7) e é nesse clima que Paulo, em meio às suas instruções práticas, abre o seu coração, defende a sua autoridade apostólica e prepara aqueles irmãos para uma futura visita.

Calvino penetra no espírito dessa carta à Igreja de Corinto. Explicando palavra a palavra, ou frase a frase, conforme a necessidade – recorrendo ao seu extenso conhecimento da língua grega e fazendo comparações elucidativas – ele vai nos auxiliando o entendimento. Através do comentarista, passamos a entender Paulo melhor, não somente os seus sentimentos, mas as doutrinas cabais que procura passar aos seus leitores, como a abnegação do “eu”, ensinada em 1.3-11. Em Calvino, neste Comentário, encontraremos exposições magistrais, como por exemplo o ensino da pureza da Igreja, registrado em 6.14-7.1, onde ele nos dá o contexto completo da situação de envolvimento com descrentes vivida por alguns daquela igreja. Nesse trecho ele mostra que Paulo trata de questões que transcendem a comum aplicação ao matrimônio (“jugo desigual”), referindo-se à perda de foco do Povo de Deus e à promiscuidade relacional deste, com o mundo.

Ao relembrarmos o nascimento desse gigante de Deus, com ação de graças pelo seu legado, devemos orar para que o Soberano Senhor, através da leitura dos textos de Calvino, produza fruto de santidade e luz em nossas vidas.

Solano Portela
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terça-feira, junho 30, 2009

Mauro Meister

Mais 500 anos de Calvino - Salmos, volume 4

Recentemente tive a oportunidade de passar por Genebra e verificar in loco como estão ocorrendo ali as comemorações dos 500 anos do nascimento do João Calvino (10 de julho). Logo na chegada fica óbvio que na cidade onde o reformador exerceu seu ministério a sua contribuição não foi esquecida. Folhetos, cartazes e folders estão expostos em vários lugares e quem vai ali com a curiosidade que eu fui, logo encontra os sinais da herança do reformador. Muito diferente de uma visita há mais de vinte anos quando nao era tão fácil encontrar todo este tipo de informação.

Peças de teatro tendo Calvino como foco estão em cartaz e uma exposição temporária no Musée international de la Réforme (Museu Internacional da Reforma) mostra "Um dia na vida de Calvino", tentanto trazer para perto do público o que teria sido um dia de atividades na vida do reformador. Muito interessante a mostra, feita em blocos de cenas com textos, orações e possíveis diálogos do reformador, começando com suas orações matinais (4:00h), aula, refeição, sua participação no julgamento de Miguel Serveto até a hora de deitar-se (21:00h). Não trata-se de 'louvação', mas de um retrato da 'vida diária' que traz bastante luz sobre a piedade, firmeza, controvérsia e relações de Calvino com seus amigos e a cidade de Genebra.


Tudo isto escrevo a título de introdução do real ponto desta postagem, que
é a publicação do quarto volume do Comentário de Salmos, o qual tive o privilégio de prefaciar. Os comentários de Calvino permanecem como uma rica fonte para a interpretação bíblica até os dias de hoje e creio que a publicação dos mesmos na língua portuguesa enriquece profundamente as nossas condições de aprender sobre a exegese bíblica e o método de interpretação desenvolvido pelo reformador. Abaixo, deixo o prefácio falar...

Ainda muitos livros serão escritos procurando entender todas as dimensões sobre as quais a Reforma Protestante deixou o seu legado e as mudanças que causou para a história da humanidade. Para que esta reforma acontecesse, vários pequenos e grandes movimentos foram postos em curso pelo Senhor da história. Um destes movimentos deu-se na área da interpretação das Escrituras, que foi libertada da interpretação alegórica e da força da tradição da igreja da Idade Média. Grandes intérpretes foram levantados por Deus e capacitados com várias sortes de dons e talentos para que um grande salto pudesse ser dado na história da interpretação. Neste contexto é que aparecem os comentários de João Calvino, um grande teólogo, pastor, lingüista, intérprete e comentarista do seu tempo.

Uma das fortes características do movimento reformado foi a busca do sentido literal, gramático e histórico do texto da Bíblia, e, neste sentido, João Calvino foi reconhecido como o “Rei dos Comentaristas”.[1] Há muitos aspectos introduzidos nos comentários de Calvino que são praticamente desconhecidos para a sua época. Isto não significa, é claro, que Calvino interpretou de forma absolutamente independente. Como acadêmico, ele buscou as fontes disponíveis em seu tempo e trabalhou seus comentários de forma contextualizada, comparando sua interpretação com os escritos dos rabinos, os Pais da Igreja e comentários de seus contemporâneos. É bem verdade que o período da Reforma foi um de florescimento do interesse sobre as línguas originais e o texto da Escritura, o que gerou uma grande quantidade de comentários. Calvino tirou toda a vantagem deste ambiente para desenvolver o conhecimento do grego e do hebraico e aplicá-los na interpretação. Com estas ferramentas Calvino destaca-se no século XVI por sua originalidade, profundidade e valor permanente dos seus escritos. Não são muitos os textos e comentários que sobrevivem ao tempo de seu autor e aqui estamos nós, quatro séculos e meio depois, dispensando grande energia e recursos, para que esta obra se faça disponível para os leitores de língua portuguesa.

A obra magna de Calvino, As Institutas da Religião Cristã, já demonstrou ao longo dos séculos a sua importância e relevância como teólogo. Aos poucos, os comentários de Calvino publicados nesta série vão descortinando o pastor e intérprete. Cabe dar conhecimento ao leitor sobre a forma como nasceram estes comentários. Tendo sido pastor durante duas décadas e meia em Genebra, Calvino adotou como forma de pregação o método de exposição consecutiva das Escrituras. Ele começava suas séries de pregação no primeiro verso do primeiro capítulo de um livro e caminhava até o último verso do último capítulo. Normalmente, quando terminava um livro, começava o próximo. Tendo feito a devida preparação em oração, subia ao púlpito portando apenas o texto hebraico ou grego e pregava extemporaneamente. Assim, produziu milhares de sermões, dos quais cerca de pouco mais de 2000 foram preservados e muitos ainda carecem de publicação. Estes foram compilados ipsissima verba, durante 11 anos, por um homem chamado Denis Raguenier, pago para tal pelo serviço de diaconia da igreja de Genebra.[2] Os comentários, escritos posteriormente, eram baseados em suas exposições para a congregação, fossem sermões, aulas ou palestras. Logo, a pregação e o ensino de Calvino à congregação serviam como o elemento fomentador de seus comentários, onde sua alma de pastor transparece com grande clareza. Não é incomum encontrar as belas orações de Calvino ao fim de algumas de suas exposições, deixando a todos face a face com Deus.[3] Na verdade, um motivador específico para a publicação dos comentários de Calvino era o seu temor de que suas pregações e palestras viessem a ser publicadas contra a sua vontade. Para que não viesse a acontecer, debruçou-se para completar os comentários que viriam a ser publicados conforme a sua vontade (vol 1, p.32).

Os comentários de Calvino cobrem pelo menos setenta e cinco por cento dos livros do Antigo Testamento e sabe-se que alguns deles foram escritos concomitantemente à pregação, entre eles o comentário em Salmos. Já na dedicatória, “Aos leitores piedosos e sinceros”, Calvino afirma que sua decisão final de escrever este comentário específico se deu em função dos “apelos dos meus irmãos”, o que até então ele julgava desnecessário em função do comentário de Salmos de seu contemporâneo, Martin Bucer.

Ao contrário da imagem rígida transmitida pelas gravuras que retratam a face de Calvino, somada à densidade das Institutas e as asseverações contundentes contra as heresias de todas as espécies e, especialmente o Catolicismo Romano[4], encontramos no comentário de Salmos de Calvino a face e voz de um homem que compreende profundamente os sentimentos da alma. Ele mesmo afirma na introdução aos Salmos que denomina este livro de “Uma anatomia de todas as partes da alma”, e, por certo, ele escrutina a sua própria alma em seus comentários. Aliás, é na dedicatória ao comentário dos Salmos que encontramos alguns raros e preciosos dados autobiográficos de Calvino. O tom de denúncia contra o erro nunca e esvaziado, mas a voz do pastor é presente.

Outra área que distingue Calvino em seus comentários é como hebraísta. É óbvio que não se pode esperar que usasse, anacronicamente, os conhecimentos e recursos que são posteriores à sua época. Mas, com certeza, não se pode deixar de observar que ele avança significativamente na aplicação do conhecimento da língua hebraica na interpretação. Uma de suas claras convicções é de que o conhecimento da língua original é fundamental para a compreensão do texto e para a boa exegese. Justamente no quesito exegese é que a habilidade de Calvino supera o que foi produzido em seu tempo. Ele mantinha a convicção de que compreensão gramatical precede a compreensão teológica. No comentário dos Salmos o uso do hebraico transita entre o trabalho lexical e a gramática. Comparando as traduções bíblicas e outros comentários, incluindo comentários rabínicos, faz acertadas propostas de tradução para o texto, discutindo com grande habilidade a relevância, por exemplo, a questão da tradução dos verbos, o significado específico de determinadas partículas e seu uso. Num tempo em que o estudo gramatical tendia pesadamente para o prescritivo, Calvino discute o uso contextual de palavras e expressões.

Como filho de seu tempo, lutando contra séculos de interpretação alegórica e tendenciosa, Calvino deu passos visíveis em direção contrária. Ele afirma que “O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é natural e óbvio”.[5] A habilidade em ir “da mera letra, além” e observar a intenção das palavras e seu autor é fundamental para qualquer intérprete e, principalmente, para aqueles que vão interpretar as Escrituras. Calvino, mais uma vez, destaca-se! Neste sentido, a leitura dos comentários de Calvino torna-se uma ferramenta importantíssima para aqueles que desejam compreender o texto com profundidade e desenvolver habilidade semelhante como intérpretes.

Deixo um alerta ao leitor que primeiramente aproxima-se dos comentários de Calvino: espere certos ‘saltos’ interpretativos, o que alguns podem considerar como interpretação alegórica. O fato é que Calvino, ao ler o Antigo Testamento com uma visão cristocêntrica, muitas vezes chega diretamente a aplicações neo-testamentárias no texto. Veja-se, por exemplo, a leitura de Calvino nos Salmos. Ele parte sempre do pressuposto cristão de que Israel corresponde à Igreja, o que, na teologia reformada, é perfeitamente aceitável e desejável. Entretanto, é importante notar a necessidade de uma leitura escalonada, na qual, primeiramente, deve-se ver o sentido pretendido pelo autor humano do texto e aplicado ao seu próprio tempo. Em vários de seus comentários, Calvino simplesmente segue para o próximo passo. Um exemplo claro encontra-se no Salmo 133, onde Israel é apontado como a Igreja e a unção com o óleo sobre a cabeça de Arão, que desce sobre a barba e gola da vestes do sacerdote, como Cristo, o cabeça, e a sua Igreja: “assim somos levados a entender que a paz que emana de Cristo como a cabeça é difusa por toda a extensão e amplitude da Igreja” (comentário no Salmo 133). Ainda que esta seja a conclusão final esperada, trata-se mais diretamente de uma aplicação do texto, o que, entendemos, é desejável em um sermão, mas, deve ser mais minuciosamente explicado em um comentário. Mas esperar que estes comentários se adaptem ao nosso formato contemporâneo de comentário, novamente, seria um desejo anacrônico. Por outro lado, observa-se em seus comentários uma percepção aguçada entre os aspectos de continuidade e descontinuidade entre o Antigo e Novo Testamentos, dando a base sobre a qual a teologia calvinista viria a desenvolver-se.

Estes comentários devem fazer parte da biblioteca daqueles que desejam desenvolver uma compreensão profunda e coerente do livro dos Salmos, tanto pela sua perspectiva histórica quanto pela capacidade que Calvino demonstra em tocar a alma dos “leitores piedosos e sinceros” na exposição da Palavra de Deus.

[1] Schaff, Phillip. “Calvin as a Commentator” em The Presbyterian and Reformed Review (3:11, 1892), p. 462: “Se Lutero foi o rei dos tradutores, Calvino foi o rei do comentaristas”

[2] Olson, Jeannine. Calvin and Social Welfare: Deacons and the bourse française. Selinsgrove, PA, EUA: Susquehanna University Press, 1989, p. 47.

[3] Além das orações mantidas em seus sermões, como parte da própria exposição, muitas orações estão também em seus comentários.

[4] Em Salmos, vol. 1, p. 39, Calvino revela a sua motivação em publicar as Institutas da Religião Cristã: “Meu objetivo era, antes de tudo, provar que tais notícias eram falsas e caluniosas, e assim defender meus irmãos, cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor; e meu próximo objetivo visava a que, como as mesmas crueldades poderiam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas, as nações estrangeiras fossem sensibilizadas, pelo menos, com um mínimo de compaixão e solicitude para com elas.”

[5] Citado em Lawson, Steven. A arte expositiva de João Calvino. S. J. Campos: Editora Fiel, 2008, p. 72. Do Comentário aos Gálatas, capítulo 4, verso 22.

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domingo, junho 21, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Xô, Satã!

Por     49 comentários:
Já passamos de meio milhão de acessos ao nosso blog. Todo tipo de gente passa por aqui, inclusive Satã, que desta feita resolveu postar um comentário no último post. Acho que ele ficou tão impressionado com a marca que não conseguiu ficar sem registrar a sua presença. Dei uma colher de chá (apesar da recomendação bíblica de “não dar lugar ao diabo”) e publiquei o comentário do coisa-ruim (veja aqui).

Isto me lembrou que minha tarefa não é ser o editor do maligno, mas de expor quem ele é e alertar meus irmãos e irmãs contra as suas ciladas. Aproveitei uma tarde livre aqui em Colatina, ES, num acampamento da bela 3a. Igreja Presbiteriana, e fiz algumas reflexões sobre o assunto, seguindo aquela idéia genial de C. S. Lewis de que o tinhoso gosta de dois tipos de gente: aqueles que não acreditam que ele existe e aqueles que lhe dão demasiada atenção.

Não é que entre os evangélicos tenha muita gente que não acredita que Satã exista – ele existe, sim, até colocou um comentário no Tempora-Mores! Mas a verdade é que dentro do campo dos conservadores existem aqueles que lhe negam a existência na prática, embora, por causa do compromisso com a inerrância da Bíblia, tenham que admitir a sua realidade.

Esta negação prática se dá de várias maneiras. Nos púlpitos, em reação aos exageros neopentecostais, os pregadores conservadores quase não alertam os crentes acerca da ação satânica e excluem a atividade maligna como parte da causa dos males que existem no mundo. Na ação pastoral são poucos os pastores conservadores que estão dispostos a considerar a expulsão de demônios como a resposta para determinadas situações, embora biblicamente tenham de admitir que a possessão e a opressão malignas são uma possibilidade sempre presente. A tendência é sempre identificar a origem dos problemas e crises que acontecem com as pessoas como decorrentes unicamente das corrupções do coração humano. Todavia, se por um lado não devemos dar demasiada atenção ao mundo das trevas, por outro, não podemos viver ignorando-o, na prática.

Do outro lado do espectro, estão aqueles que acabam caindo no erro oposto, conforme a máxima de Lewis, e dão ao diabo mais prestígio do que realmente merece. Pastores, bispos, apóstolos, missionários evangélicos ficam perguntando o tempo todo “qual é sua graça?” aos demônios que supostamente infernizam a vida das pessoas que aparecem em seus cultos – uma prática erroneamente baseada num incidente da vida de Jesus, quando indagou o nome da legião de demônios que possuía o gadareno, antes de expulsá-los inexoravelmente (Mc 5.9). Pior, acabam dando o microfone a estas supostas entidades, como se o depoimento delas fosse algo que pertencesse ao culto a Deus ou que interessasse ao crente. Acho que estão dando crédito demais ao cão. Apesar de Jesus ter dito que ele é mentiroso e o pai da mentira, os neopentecostais continuam interessados no que Lúcifer tem a dizer e acreditam no que ele supostamente diz. Escrevem livros inteiros com base em informações obtidas dos demônios que tiveram a língua amarrada para dizer a verdade durante sessão de exorcismo!

É verdade que Paulo se refere aos demônios como “principados e potestades” (Ef 6.12) e que Jesus disse que o diabo é o “príncipe deste mundo” (Jo 14.30). Todavia, estão hoje enchendo a bola do coisa-ruim indevidamente, atribuindo-lhe mais poder do que ele realmente tem. Falam o tempo todo da sua autoridade. Falam dele como se ele fosse onisciente e conhecesse nossos pensamentos e lesse o nosso coração, como Deus faz. Reagem a ele como se ele fosse todo-poderoso e responsável por tudo de ruim que acontece no mundo, inclusive pelos pecados que as pessoas cometem, a ponto de criarem a idéia de que existem demônios do câncer, da erisipela, da AIDS, do desemprego, da luxúria, etc. Nunca consegui ver isto na Escritura. Para mim, prostituição, lascívia, idolatria, feitiçaria e outros são “obras da carne” nas palavras de Paulo (Gl 5.19-21), muito embora os demônios estejam por detrás dos ídolos, usando-os para corromper a mente das pessoas (1Co 10.20). Satã é um anjo caído, uma criatura deformada moral e espiritualmente. Isto não o torna mais poderoso do que os demais anjos de Deus e muito menos lhe confere algum poder extra. A autoridade que ele tem é limitada pela vontade de Deus, como ficou claro no episódio de Jó.

Também não acho que o tinhoso é tão inteligente assim. As Escrituras nos revelam que há uma certa astúcia em Satanás (2Co 10.3); todavia, esta astúcia é a astúcia de uma mente corrompida e depravada. Satanás é megalomaníaco e arrogante (1Tm 3.6) e obcecado por receber adoração dos seres humanos (Mt 4.9). A mente de um ser torcido como este não pode funcionar direito. O próprio Jesus disse ao diabo que cogitações dele eram apenas das coisas do homem, e não de Deus (Mt 16.23). Falta-lhe verdadeira inteligência e entendimento, além de sabedoria. Por exemplo, ele nunca conseguiu decidir direito o que fazer com Jesus. Num momento, ele tentou afastá-lo da cruz, tentando-o no deserto com riquezas e poder (Mt 4.1-11) e mais tarde através de sugestões feitas à mente de Pedro (Mt 16.21-23). Depois, contrariando este plano de ação, entra em Judas, que trai Jesus, levando-o à cruz (Lc 22.3-5; Jo 13.27). O tiro saiu pela culatra e com isto o demônio decretou sua própria derrota. Mas, ele não aprendeu a lição. O ódio que o domina e consome é tal que afeta seu entendimento e discernimento. Ele não percebeu que quanto mais instiga o mundo contra a Igreja, levando milhares ao martírio, mais a Igreja cresce e se multiplica, pois “o sangue dos mártires é a sementeira da Igreja”. Sua mente torcida pelo ódio não consegue ver claramente, só pensa em roubar, matar e destruir (Jo 10.10). É como um leão velho, faminto, matreiro, capaz de fazer truques, iludir e enganar, mas incapaz de realmente planejar com discernimento e entendimento sua guerra contra Deus e seu povo. É verdade que ele é astuto o bastante para derrotar e destruir muitos. Mas não o suficiente para ganhar esta guerra, vencer a Deus e impedir a sua Igreja.

Ele nem é muito criativo. Não consegue improvisar e criar coisas novas. No máximo, faz imitações toscas da ação de Deus. Não é sem razão que Lutero o chamou de “o macaco de Deus”. Deus mandou seu Filho ao mundo assumindo uma natureza humana? O tinhoso reagiu imitando a encarnação, mas o máximo que conseguiu foi a possessão. Isto explica porque apareceu tanta gente endemoninhada quando Jesus esteve entre nós, conforme o relato dos Evangelhos (Mt 4.24; etc.). Deus concedeu dons miraculosos à sua Igreja para realizar sinais e prodígios com o propósito de autenticar a mensagem apostólica (Hb 2.4)? Satanás parte para a imitação desta estratégia e seus ministros realizam sinais e prodígios da mentira (2Ts 2.9; Mt 24.24), através de demônios operadores de sinais (Ap 16.13-14). Acho que Satanás é bastante previsível e que os evangélicos erram em lhe atribuir mais inteligência do que ele realmente tem.

Acho que os evangélicos esquecem que ele é um espírito atormentado, amaldiçoado por Deus (Gn 3.14), que não conhece um minuto de paz em sua alma em trevas. Se os seres humanos sem Deus, que foram criados à sua imagem, sentem angústia e vazio por que lhes falta comunhão com Deus, muito maior é a dor, o sofrimento, a angústia e o vazio na alma deste anjo, criado para ser de Deus. É nesse sentido que as Escrituras nos dizem que ele está amarrado em algemas eternas para o juízo daquele dia (Jd 6). Ele e seus capangas vivem em constante terror diante da expectativa da chegada do dia do juízo, quando serão lançados no lago de fogo e enxofre para sempre (Mt 25.41). Foi por isto que aqueles pobres diabos, vencidos diante da majestade onipotente do Filho de Deus, rastejaram aos seus pés implorando “não nos mande sair para o abismo” (Lc 8.31).

Não estou dizendo isto para despertar pena e compaixão pelo cão. Ele é assassino e mentiroso. Não há redenção para ele, pois Deus, na sua soberania, decidiu socorrer aos homens e não aos anjos. Cristo não veio para redimir os anjos caídos, mas a descendência de Abraão (Hb 2.16). Estou dizendo estas coisas em reação à idéia popular de que o demo é um ser livre, que mora no inferno e ali reina supremo, atormentando as almas dos homens e tendo imenso prazer em fazer isto. A realidade é outra. Ele ainda não foi ao inferno, embora já viva em tormentos, e quando for, não será para reinar e atormentar os homens, mas para ser atormentado eternamente com eles (Ap 20.10).

Portanto, xô, Satanás!
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segunda-feira, junho 15, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Carta a Bonfim: Deus e as tragédias

Por     96 comentários:
Meu caro Bonfim,(*)

Foi realmente uma surpresa agradável encontrá-lo este fim de semana em Campos do Jordão, durante o feriado. Embora nossa conversa tenha sido breve, foi suficiente para relembrarmos os bons tempos que passamos quando éramos jovens na Igreja do Recife. Foi uma pena que não deu para aprofundarmos nossa discussão sobre Deus e as tragédias que ocorrem no mundo. Mas, como prometi, estou enviando este email para dar seqüência ao que pude apenas começar a dizer.

Fiquei preocupado com o jeito que você está querendo entender a tragédia que foi a queda do vôo 447 da Air France na semana passada. Você me deu a entender que está revoltado com o fato de que centenas de pessoas boas, desprevenidas, cidadãos de bem, foram apanhados numa tragédia e morreram de forma terrível, deixando para trás famílias, filhos, entes queridos. Você perguntou aflito, “Onde estava Deus quando tudo isto aconteceu?”

Eu entendo a sua preocupação com o dilema moral que tragédias representam quando vistas a partir do conceito cristão histórico e tradicional de Deus. Se Deus é pessoal, soberano, todo-poderoso, onisciente, amoroso e bom, como então podemos explicar a ocorrência das tragédias, calamidades, doenças, sofrimentos, que atingem bons e maus ao mesmo tempo?

Creio que qualquer tentativa que um cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus faça para entender as tragédias, desastres, catástrofes e outros males que sobrevêm à humanidade, não pode deixar de levar em consideração dois componentes da revelação bíblica, que são a realidade da queda moral e espiritual do homem e o caráter santo e justo de Deus.

Lemos em Gênesis 1—3 que Deus criou o homem, macho e fêmea, à sua imagem e semelhança, e que os colocou no jardim do Éden, com o mandamento para que não comessem do fruto proibido. O texto relata como eles desobedeceram a Deus, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, e decaíram assim do estado de inocência, retidão e pureza em que haviam sido criados. As conseqüências, além da queda daquela retidão com que haviam sido criados, foram a separação de Deus, a perda da comunhão com ele, e a corrupção por inteiro de suas faculdades, como vontade, entendimento, emoções, consciência, arbítrio. Pior de tudo, ficaram sujeitos à morte, tanto espiritual, que consiste na separação de Deus, como a física e a eterna, esta última sendo a separação de Deus por toda a eternidade.

Este fato, que chamamos de “queda,” afetou não somente a Adão e Eva, mas trouxe estas conseqüências terríveis a toda a sua descendência, isto é, à humanidade que deles procede, pois eles eram o tronco e a cabeça da raça humana. Em outras palavras, a culpa deles foi imputada por Deus aos seus filhos, e a corrupção de sua natureza foi transmitida por geração ordinária a todos os seus descendentes. Desde cedo na história da Igreja cristã esta doutrina, que tem sido chamada de “pecado original”, foi questionada por gente como Pelágio, que afirmava que o pecado de Adão e Eva afetou somente a eles mesmos, e que seus filhos nasciam isentos, neutros, sem pecado, e sem culpa e sem corrupção inata. Tal idéia foi habilmente rechaçada por homens como Agostinho, Lutero, Calvino e muitos outros, que demonstraram claramente que o ensino bíblico é o que chamamos de depravação total e transmitida, culpa imputada e corrupção herdada. As conseqüências práticas para nós hoje são terríveis. Por causa desta corrupção inata, com a qual já nascemos, somos totalmente indispostos para com as coisas de Deus; somos, por natureza, inimigos de Deus e, portanto, filhos da ira. É desta natureza corrompida que procedem os nossos pecados, as nossas transgressões, as desobediências, as revoltas contra Deus e sua Palavra.

Agora chegamos no ponto crucial e mais relevante para nosso assunto. Entendo que a Bíblia deixa claro que os nossos pecados, tanto o original quanto os pecados atuais que cometemos, por serem transgressões da lei de Deus, nos tornam culpados e portanto sujeitos à ira justa de Deus, à sua justiça retributiva, pela qual ele trata o pecador de acordo com o que ele merece. Ou seja, a humanidade inteira, sem exceção – visto que não há um único justo, um único que seja inocente e sem pecado – está sujeita ao justo castigo de Deus, o que inclui – atenção! – a morte, as misérias espirituais, temporais (onde se enquadram as tragédias, as calamidades, os desastres, as doenças, o sofrimento) e as misérias espirituais (que a Bíblia chama de morte eterna, inferno, lago de fogo, etc.).

A Bíblia revela com muita clareza, e sem a menor preocupação de deixar Deus sujeito à crítica de ser cruel, déspota e injusto, que ele mesmo é quem determinou tragédias e calamidades sobre a raça humana, como parte das misérias temporais causadas pelo pecado original e as transgressões atuais. Isto, é claro, se você acredita realmente que a Bíblia é a Palavra de Deus, e não uma coleção de idéias, lendas, sagas, mitos e estórias politicamente motivadas e destinadas a justificar seus autores. De acordo com a Bíblia, foi Deus quem condenou a raça humana à morte no jardim (Gn 2.17; 3.19; Hb 9.27). Foi ele quem determinou a catástrofe do dilúvio, que aniquilou a raça humana com exceção da família de Noé (Gn 6.17; Mt 24.39; 2Pe 2.5). Foi ele quem destruiu Sodoma, Gomorra e mais várias cidades da região, com fogo caído do céu (Gn 19.24-25). Foi ele quem levantou e enviou os caldeus contra a nação de Israel e demais nações ao redor do Mediterrâneo, os quais mataram mulheres, velhos, crianças e fizeram prisioneiros de guerra (Dt 28.49-52; Hab 1.6-11). Foi ele quem levantou e enviou contra Israel povos vizinhos para saquear, matar e fazer prisioneiros (2Re 24.2; 2Cr 36.17; Jr 1.15-16). Foi ele quem ameaçou Israel com doenças, pestes, fomes, carestia, seca, pragas caso se desviassem dos seus caminhos (Dt 28). Foi ele quem enviou as dez pragas contra o Egito, ferindo, matando e trazendo sofrimento a milhares de egípcios, inclusive matando os seus primogênitos (Ex 9.13-14). Foi o próprio Jesus quem revelou a João o envio de catástrofes futuras sobre a raça humana, como castigos de Deus, próximo da vinda do Senhor, conforme o livro de Apocalipse, tais como guerras, fomes, pestes, pragas, doenças (Apocalipse 6—9), entre outros. Foi o próprio Jesus quem profetizou a chegada de guerras, fomes, terremotos, epidemias (Lc 21.9-11) e a destruição de Jerusalém, que ele chamou de “dias de vingança” de Deus contra o povo que matou o seu Filho, nos quais até mesmo as grávidas haveriam de sofrer (Lc 21.20-26). E por fim, Deus já decretou a catástrofe final, a destruição do mundo presente por meio do fogo, no dia do juízo final (2Pe 3.7; 10-12).

Isto não significa, na Bíblia, que o sofrimento das pessoas é sempre causado por uma culpa individual e específica. Há casos, sim, em que as pessoas foram castigadas com sofrimentos temporais em virtude de pecados específicos que cometeram, como por exemplo o rei Uzias que foi ferido de lepra por causa de seu pecado (2Cr 26.19; cf. também o caso de Miriã, Nm 12.10). O rei Davi perdeu um filho por causa de seu adultério (2Sm 12.14). Mas, em muitos outros casos, as tragédias, catástrofes, doenças e sofrimentos não se devem a um pecado específico, mas fazem parte das misérias temporais que sobrevêm à toda a raça humana por conta do estado de pecado e culpa em geral em que todos nós nos encontramos. Deus traz estas misérias e castigos para despertar a raça humana, para provocar o arrependimento, para refrear o pecado do homem, para incutir-lhe temor de Deus, para desapegar o homem das coisas desta vida e levá-lo a refletir sobre as coisas vindouras. Veja, por exemplo, a reflexão atribuída a Moisés no Salmo 90, provavelmente escrito durante os 40 anos de peregrinação no deserto. Veja frases como estas:

Tu reduzes o homem ao pó e dizes: Tornai, filhos dos homens... Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca. Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento...

Não devemos pensar que aquelas pessoas que ficam doentes, passam por tragédias, morrem em catástrofes – como os passageiros do AF 447 – eram mais pecadoras do que as demais ou que cometeram determinados pecados que lhes acarretou tal castigo. Foi o próprio Jesus quem ensinou isto quando lhe falaram do massacre dos galileus cometido por Pilatos e a tragédia da queda da torre de Siloé que matou dezoito (Lc 13.1-5). Ele ensinou a mesma coisa no caso do cego relatado em João 9.3-4. Os seus discípulos levantaram o problema do sofrimento do cego a partir de um conceito individualista de culpa, ponto que foi rejeitado por Jesus. A cegueira dele não se deveu a um pecado específico, quer dele, quer de seus pais. As pessoas nascem cegas, deformadas, morrem em tragédias e acidentes, perdem tudo que têm em catástrofes, não necessariamente porque são mais pecadoras do que as demais, mas porque somos todos pecadores, culpados, e sujeitos às misérias, castigos e males aqui neste mundo.

No caso do cego, Jesus disse que ele nascera assim “para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3). Sofrimento, calamidades, etc., não são somente um prelúdio do julgamento eterno de Deus; há também um tipo de sofrimento no qual Deus é glorificado por meio de Cristo em sua graça, e assim se torna, portanto, um exemplo e um prelúdio da salvação eterna. As tragédias servem para levar as pessoas a refletir sobre a temporalidade e fragilidade da vida, e para levá-las a refletir nas coisas espirituais e eternas. Muitos têm encontrado a Deus no caminho do sofrimento.

O que eu quero dizer, Bonfim, é que, diante de acidentes como a queda do AF 447, devemos nos lembrar que eles ocorrem como parte das misérias e castigos temporais resultantes das nossas culpas, de nossos pecados, como raça pecadora que somos. Poderia ser eu que estava naquele avião. Ou, alguém muito melhor e mais reto diante de Deus. Ainda assim, Deus não teria cometido qualquer injustiça, ainda que aquele avião estivesse cheio dos melhores homens e mulheres que já pisaram a face da terra. Pois mesmo estes são pecadores. Não existem inocentes diante de Deus, Bonfim. Pense nisto, antes de ficar indignado contra Deus diante do sofrimento humano.

Por último, preciso deixar claro duas coisas para você. Primeira, que nada do que eu disse acima me impede de chorar com os que choram, e sofrer com os que sofrem. Somos membros da mesma raça, e quando um sofre, sofremos com ele. Segunda, é preciso reconhecer que a revelação bíblica é suficiente, mas não exaustiva. Não temos todas as respostas para todas as perguntas que se levantam quando um acidente destes acontece. Não sabemos, por exemplo, porque foi o vôo AF 447 e não outro que caiu no oceano matando todos os seus ocupantes. Não conhecemos a vida de seus passageiros e nem os propósitos maiores e finais de Deus com aquela tragédia. Só a eternidade o revelará. Temos que conviver com a falta destas respostas neste lado da eternidade. Mas, é preferível isto a aceitar respostas que venham a negar o ensino claro da Bíblia sobre Deus, como por exemplo, especular que ele não é soberano e nem onisciente e onipotente. Posso não saber os motivos específicos, mas consola-me saber que Deus é justo, bom e verdadeiro, e que todas as suas obras são perfeitas e retas, e que nele não há engano.

No mais, termino com meu apelo para que você esteja sempre pronto a ser chamado à presença de Deus a qualquer instante. Somente em Cristo encontramos perdão para nossos pecados e reconciliação com Deus.

Um grande abraço,
Augustus

(*) Bonfim é um amigo fictício, embora os fatos não o sejam.
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quarta-feira, junho 10, 2009

Mauro Meister

Semana Calvino

Encontram-se disponíveis os vídeos das palestras da "Semana Calvino", realizada na Universidade Presbiteriana Mackenzie em celebração aos 500 anos do nascimento do Reformador de Genebra.

Dentre os palestrantes, tivemos o Dr. John Hesselink, autoridade reconhecida no campo de estudos de João Calvino e calvinismo. Temas como "Calvino e Educação", "Em Busca do Calvino histórico", "Calvino e Lutero, Convergências e Divergências", "Calvino e a Oração", entre outros, foram tratados nas palestras do evento. Clique nos links abaixo para assistir ou baixar as palestras no formato que desejar.


"Em Busca do Calvino histórico"
Prof. Dr. Alderi Souza de Matos

FLV

MP4

WMV







"Calvino e Lutero, Convergências e Divergências"
Prof. Dr. Ricardo Willy Rieth

FLV

MP4

WMV







"Calvino e Expiação"
Dr. John Hesselink

FLV

MP4

WMV






"Calvino e a Oração"
Prof. Dr. Hermisten M. P. Costa

FLV

MP4

WMV







"Calvino e o Espírito Santo"
Prof. Dr. John Hesselink

FLV

MP4

WMV







"Calvino: Sobre este Mundo e o Próximo"
Prof. Dr. John Hesselink

FLV

MP4

WMV

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segunda-feira, maio 11, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

VÍDEOS DO SIMPÓSIO BOMBAM NA INTERNET

Por     22 comentários:

Até o dia de hoje às 13h, tivemos perto de 95 mil acessos aos vídeos do II Simpósio Darwinismo Hoje disponíveis no site do Mackenzie. Os técnicos tiveram que trocar o Servidor que hospeda os vídeos, de forma a comportar o número de acessos simultâneos nestes últimos dias.

As estatísticas de acesso até hoje (11/05/09, até 13hs00) aos vídeos publicados no site do Simpósio são:

- Vídeos no formato iPod (MP4): 14.704 acessos
- Vídeos no formato Flash (FLV): 5.343 acessos
- Vídeos no formato Windows Media (WMV): 74.742 acessos

Total: 94.789 acessos.

Esses números representam os acessos por download e por visualização direta nos navegadores web.

É sem dúvida o evento de maior repercussão e divulgação pela internet que já tivemos no Mackenzie em anos recentes – mesmo que a grande mídia tenha resolvido ignorá-lo, à exceção do Estadão, que publicou de página inteira uma entrevista com John Lennox.

Mas, nossa alegria não é tanto pelo sucesso do evento. É pelo fato que as palestras sobre Design Inteligente estarão sendo assistidas por milhares de pessoas, de várias partes do mundo, que serão no mínimo provocadas a pensar que existe vida inteligente fora dos círculos do naturalismo filosófico que impregna as teorias de Darwin.
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sexta-feira, maio 01, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

No ar os vídeos das palestras do II Simpósio Darwinismo Hoje

Por     16 comentários:
Já estão disponíveis em diversos formatos para download e para assistir direto as palestras do II Simpósio Darwinismo Hoje no site do Mackenzie.

Link: http://www.mackenzie.br/2_darwinismo_videos.html

Formatos:

- Flash Video - FLV - 640x480 - 640Kbps
- Windows Media - WMV - 320x240 - 320Kbps
- IPhone/iPod touch - MP4 - 320X480

Estão disponíveis as palestras de

- Dr. John Lennox
- Dr. Paul Nelson
- Dr. Marcos Eberlin
- Dr. Aldo Mellender
- Dr. Gustavo Caponi
- Prof. Maurício Tuffani

E o debate na Mesa Redonda.

DIVULGUEM!
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quarta-feira, abril 29, 2009

Solano Portela

Tortura Mineira

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Nota Histórica: Há pouco mais de dez anos, trabalhei em um grupo do ramo automotivo. Eu havia sido colocado no lugar de um senhor que, mesmo desligado formalmente, prestava ainda alguma consultoria e se fez presente, durante alguns anos, nas empresas da organização. Os meus contatos com o referido senhor, que era de Minas Gerais, nunca eram muito agradáveis. Ele se empenhava em ressaltar as suas realizações, em creditar tudo que estava certo às suas decisões, e em definir tudo que estava errado como sendo incompetência de outras pessoas. Referia-se com freqüência ao “seu tempo”; como fazia todas as coisas de forma diferentemente mais eficiente; como era mais perspicaz e inteligente e como tinha feito uma diferença significativa por onde passara.

Hoje, fazendo um balanço de minha carreira de mais de 30 anos de trabalho, em vários tipos de organizações, verifico que esse tipo se faz presente em todas as eras, ocasiões e instituições. Uma pessoa, ao ler o texto, disse: "conheço de quem você está falando"! Será? A verdade é que a descrição se aplica a muitos, de qualquer estado ou região. A quantidade de pessoas que considera a auto-exaltação um mecanismo de sobrevivência e modelo de vida, nunca terá fim. Assim, estou fazendo este “post” por considerar que o texto abaixo, escrito em 06 de fevereiro de 1998, captura momentos que são vividos por muitos de nós e ainda é pertinente:

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Fui dormir com dor de cabeça. No final da tarde uma sessão de verborrágica megalomania capitaneada por um ex-integrante (o torturador) do grupo empresarial ao qual me acho ligado chamuscou a ponta dos meus neurônios. Durante mais de duas horas fui submetido à mais cruel das torturas mineiras, na qual o ponto crucial da dor subsiste em infligir ao infeliz ouvinte (o torturado) um extenso monólogo, acompanhado de amplos gestos ilustrativos, pegadas de braço, contato fisico para chamada de atenção e intermitentes — mas generosas — cusparadas, algumas das quais atingem a região próxima aos ouvidos e olhos do torturado, sem dó ou misericórdia.

O propósito do monólogo, é desfilar um rosário de pseudo-realizações, no qual as qualificações, verdadeiras ou não, do super homem que está a falar, sejam expressas e fiquem indelevelmente marcadas na mente da pessoa encurralada. Não é importante se as realizações já foram formuladas no passado, se as qualidades do torturador já foram alvo de auto-divulgação pública, se os fatos relatados são distorcidos e exagerados. O importante para o torturador é que ele possa magnificar ad nauseam as suas realizações, transmitindo a impressão de quão agraciado é o torturado, por estar tendo esses raros momentos em sua presença. O objetivo da tortura é promover uma lavagem cerebral completa, finda a qual o torturado chegará à surpreendente convicção de que o torturador é, realmente, a dádiva de Deus à raça humana.

Um acessório fundamental, à sessão de tortura, é a comparação dos feitos do torturador, de forma velada ou explícita, com as infinitésimas, desprezíveis, incompetentes, inadequadas, errôneas e equivocadas realizações do torturado. Se fatos puderem ser levantados, nos quais haja alusão a perdas substanciais monetárias, causadas pela suposta ignorância do torturado ou por sua falta de ação, a tortura adquire mais eficácia. Obviamente todas essas serão contrapostas aos incríveis lucros gerados pelo torturador ao grupo empresarial do torturado, quando o torturador dele ainda fazia parte. O torturador é exímio no levantamento das incríveis oportunidades empresariais que descobriu, nos mirabolantes negócios imobiliários que aconselhou e na esperteza dos contratos que formulou. No final da sessão o torturado é pressionado a chegar à assombrosa conclusão de que o império econômico que lhe paga os honorários não é devido perspicácia, competência ou senso de negócios do fundador, mas aos atos do torturador.

O torturador tem certeza que o minúsculo cérebro do torturado não consegue enxergar a necessidade de auto-afirmação que motiva as suas colocações. Com o bom senso totalmente cauterizado, fruto de bem sucedidas e incontestadas sessões intermináveis de tortura, o torturador segue à frente na sua missão. Torturados em potencial apressam-se em bajular e exaltar de pronto a pessoa do torturador, na esperança de escapar da sessão que se avizinha. Gestores de maior escalão, empurram o torturador em reuniões de negociação com futuros parceiros de negócios, no sentido de mais rapidamente minar a resistência desses e de enfraquecer a oposição. O torturador não percebe que é manipulado naquilo que aparentemente é sua maior fortaleza - a empáfia, e que a cada passo de sua vida fica mais inchado em si, mais distanciado da realidade, mais cruel, mais mentiroso e cada vez mais só.
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segunda-feira, abril 13, 2009

Mauro Meister

Darwinismo Hoje. HOJE!

Começa hoje, dia 13, o II Simpósio Internacional Darwinismo Hoje. A Primeira palestra será com John Lennox, professor da Universidade de Oxford.


Você pode assistir a palestra AO VIVO, neste link a partir das 19h (todas as palestras no Auditório Ruy Barbosa serão transmitidas, assim como o debate).


Maiores informações, com a programação completa das palestras durante a semana, clique aqui.


Prof. Dr. John Lennox – Doutor em Matemática Pura (1970) e licenciado em Bioética, sendo natural da Irlanda. Professor e pesquisador em Matemática e Filosofia da Ciência. Autor de vários livros sobre as relações da ciência com a religião e ética e publicou mais de setenta artigos sobre matemática. Professor da Universidade de Oxford.


Veja o debate entre Lennox e Dawkins, o famoso cientísta inglês em www.dawkinslennoxdebate.com.


13/04/2009 (Segunda-Feira)

10h – 18h
Auditório Ruy Barbosa
Credenciais
19h – 20h
Auditório Ruy Barbosa
Abertura Oficial
Dr. Adilson Vieira / Dr. Manasses Claudino Fontelles
20h – 21h30m
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 1
Dr. John Lennox
“A Origem da Vida e os Novos Ateus”

14/04/2009 (Terça-Feira)

8h – 10h
Credenciais
10h – 12h
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 2
Dr. Aldo Mellender de Araujo
“Darwin Ontem e Hoje – 150 anos de Origem das espécies”
15h – 17h
Auditório Ruy Barbosa
Mini-Curso
Ms. Adauto J. B. Lourenço – “Criacionismo”
Dr. Gustavo Caponi – “Evolucionismo”
19h – 21h
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 3
Dr. Paul Nelson
“A Árvore da Vida de Darwin”

15/04/2009 (Quarta-Feira)

8h – 9h
Credenciais
9h – 10h
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 4
Dr. Gustavo Caponi
“A Origem das Espécies – O livro”
10h – 10h30min
Coffee-break
10h30min – 12h
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 5
Dr. John Lennox
“Fundamentos da Moralidade”
13h – 18h
Credenciais
14h – 16h
Oficinas
Dr. Aldo Mellender de Araújo – ”Debates dentro do Darwinismo”
Dr. Marcos Eberlin – “Design Inteligente”
19h – 22h
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 6
Dr. Marcos Eberlin
“Fomos Planejados – A maior descoberta de todos os tempos”

16/04/2009 (Quinta-Feira)

8h – 9h
Credenciais
9h – 11h
Auditório Ruy Barbosa
Conferência 7
Dr. Paul Nelson
“Implicações Morais e Intelectuais do Naturalismo Filosófico”
14h – 16h
Oficina
Jornalista Maurício Tuffani
“Tendências da Mídia quanto ao ensino de Design Inteligente nas Escolas e Universidades Públicas e Privadas”.
19h – 22h
Auditório Ruy Barbosa
Mesa Redonda
Moderador: Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes
Dr. Aldo Mellender de Araújo
Dr. Gustavo Caponi
Dr. John Lennox
Dr. Marcos Nogueira Eberlin
Encerramento
Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes
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domingo, abril 12, 2009

Solano Portela

Presságio: reflexões existenciais e escatológicas, a partir do filme

O filme Presságio (Knowing), com Nicholas Cage e Rose Byrne, lançado neste mes de abril de 2009, é intenso, interessante e intrigante. A história revolve em torno da vida de um professor de astrofísica do Massachusetts Institute of Techonoloy (MIT), John Koestler (Nicholas Cage) filho de pastor protestante (possivelmente pentecostal). Provavelmente em função do seu treinamento na área de ciências, Koestler possui uma visão cética, na qual não enxerga propósito e ordem, mas sim aleatoriedade e um desenvolvimento da vida e da natureza em função do acaso. Uma tragédia, a perda da esposa em um acidente, o faz recrudescer nessas convicções, inclusive no afastamento de quaisquer relacionamentos com o seu pai. Koestler toma conta do seu filho, Caleb (Chandler Canterbury) uma brilhante criança de uns 10 anos, sozinho. Um acontecimento vai mudar a sua compreensão da vida e seus relacionamentos: um papel colocado em uma “cápsula do tempo”, por uma garotinha, há 50 anos, contendo indicações de tragédias iminentes. O enredo leva John Koestler a interagir com essas tragédias, algumas ainda no futuro, já tentando impedi-las.

Presságio não é um filme evangélico, classificando-se mais como uma história de suspense e até de algum, bem arquitetado, terror. Sua história, bem desenvolvida e com hábil direção, prende a atenção do início ao fim do filme. Os efeitos especiais são de tirar o fôlego, demonstrando como a tecnologia nessa área, vai sempre superando as últimas apresentações, mesmo quando aparenta que tudo o que podia ser aperfeiçoado já foi conseguido. A história do filme, entretanto, se descortina em cima de temas evangélicos e se presta a uma boa discussão de grupo. Os seguintes pontos podem refletir temas cristãos e fornecem a oportunidade de apresentá-los corretamente, como a Bíblia os revela:

1. Há propósito no universo? Koestler possui uma visão nihilista da vida. Para ele as coisas acontecem sem qualquer relação de causa e efeito, randomicamente. Não há propósito maior no universo. Não há causa inicial e não há destino final. Isso ele ensina tanto ao seu filho (apesar de deixar a opção, politicamente correta, mas mal acomodada: “se você quiser acreditar, acredite”), como à sua classe de universitários sedentos. O interessante é que ele próprio, apresentando o ponto de vista do projeto inteligente, indica as evidências cósmicas para tal. Pegando modelos de madeira dos componentes do sistema solar, diz algo assim: “o que terá colocado esse pequeno planeta azul exatamente na distância correta do Sol, de tal forma que a vida é possibilitada, nele, com a temperatura e condições exatas”? No entanto, descartando a própria evidência que apresenta (e que tem como resposta a existência de um Criador), ele declara acreditar na aleatoriedade e pura chance desse posicionamento da terra, e ausência de propósito não só para o universo, mas para as vidas que o habitam. Retrata, dessa maneira, os milhares de cientistas, cuja profissão e atividades só se fazem possíveis, pela sistematização, ordem e propósito do universo, mas que descartam a existência do Deus Criador Inteligente, como origem de tudo e de todos, e como Aquele que dá sentido e propósito à vida.

2. Profecias provam que há algo mais por trás do que se enxerga. John Koestler irá mudar de idéia, e modificará sua cosmovisão, admitindo que existe muito mais do que a sua percepção finita e imperfeita da vida e das circunstâncias o fizeram concluir, até então. Não, isso não se dá por uma conversão, no sentido cristão, nem por leitura da Bíblia, mas pelo contato que tem com as profecias que se constituem no tema do filme (não vamos contar tudo, para não estragar o suspense dos que ainda não conhecem a história). No entanto, nós cristãos cremos exatamente que as profecias Bíblicas – tanto as que já se cumpriram, como as que ainda estão por si cumprir, emanam do Deus todo poderoso. Elas revelam que ele está em controle.

Na teologia reformada aprendemos que o conhecimento prévio não se constitui na base do plano de Deus (capítulo III, seções 1 e 2, da Confissão de Fé de Westminster), mas exatamente porque ele planejou tudo, na eternidade, com perfeição, ele conhece o que acontecerá, e assim revela (Is 14.24 e 46.9-10), quando lhe apraz. As profecias são grande evidência de que existe muito mais, por trás do que os nossos sentidos apreendem. É verdade, também, que somos alertados a não dar crédito a falsas profecias, e, no caso do filme, temos uma história inventada, que recorre a profecias “auxiliares e extemporâneas”. Como cristãos, crentes nas Escrituras, devemos ter a percepção e convicção que a Bíblia traz tudo que é necessário ao nosso conhecimento religioso e de projeção de vida, tanto no que diz respeito ao passado, como quanto às que ainda haverão de vir. Em vez de ansiedade e preocupação, somos alertados a estar sempre preparados para o nosso encontro com Deus.

3. O fim vem! Durante a maior parte do filme a preocupação maior é em decifrar as indicações das tragédias passadas, bem como as que ainda estão por vir, mas vai ficando claro que o problema à frente é bem maior! Estamos lidando com a destruição da vida na terra – e essa virá em grande paralelo ao que a Bíblia declara: com os elementos ardendo (2 Pe 3.10-12). O filme leva o enredo a uma situação de grande tensão, quando o fim é projetado por circunstâncias cósmicas (que deixaremos de detalhar). Há um período de desagregação social, onde a frágil matiz de justiça da sociedade se desvanece, e, logo a seguir, vem o fim. Prepare-se para uma das mais perfeitas seqüências de efeitos especiais. Elas nos dão um vislumbre de como poderá ser, realmente, o final dos tempos. Ainda que nunca venhamos conseguir a ter a percepção completa do horror daquele momento, é uma boa ocasião para discutir a iminência do julgamento divino e a certeza das profecias escatológicas. Talvez até essa parte possa ser projetada em um grupo de estudo, ou classe de Escola Dominical, para inicio de um debate escatológico.

Além desses três, vários outros temas evangélicos permeiam a história. Outros pontos de contato podem ser os anjos (ruins ou bons?), que aparecem na história e, eventualmente, interagem com os demais personagens; o pai do John Koestler, pastor, com o seu sermão anual centralizado no tema “não desprezeis profecias” (1 Ts 5.20); o reatamento das relações entre pai e filho; as referências às profecias de Ezequiel; uma magistral reconstrução, por efeitos especiais, das rodas concêntricas dos “seres viventes” (Ez 1.15-21 e 10.6-17); e a idéia e visão de “novos céus e de uma nova Terra”. Todos esses, podem resultar em proveitosas discussões, sempre convergindo a atenção e exame sobre o que a Bíblia realmente tem a dizer, quanto a essas questões, e qual a aplicação prática das verdades bíblicas às nossas vidas.

Muitos outros filmes, além de Presságio, têm apresentado uma visão do final dos tempos, como, por exemplo, “O Dia depois de Amanhã” (2004); no entanto, esses outros filmes apresentam o fim de forma diferente dos registros da Bíblia (no “Dia depois de Amanhã” – a catástrofe final é um dilúvio e uma nova era glacial). O que chama atenção, em Presságio, é exatamente o paralelismo sobre a forma do fim. No entanto, devemos estar alertas exatamente para a grande diferença e para a ausência de elementos cruciais à representação das Escrituras: não há qualquer menção à segunda vinda de Cristo; consequentemente não há mensagem, palavra ou esperança de salvação. A esperança, no filme, não é expectativa de certeza de livramento, do cristão, mas apenas um tênue e frágil desejo de que tudo termine bem. E, enquanto o filme fala de “eleitos”, o seu numero e representação, no “novo céu e na nova terra”, muito difere do que a Bíblia nos ensina sobre essa questão, em Ap. 7.9: “... vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos”.

Solano Portela
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quarta-feira, março 25, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Estamos crescendo, mas temos nossos problemas

Por     50 comentários:

Como todos sabem, o Calvinismo em sua versão mais moderna (neo-Calvinismo) tem recebido atenção da mídia secular e foi até mesmo considerado pela revista TIME como uma das dez idéias que está mudando o mundo (veja a tradução aqui e um comentário sobre essa reportagem aqui). Lamentavelmente, ainda não podemos dizer que isso é verdade também no Brasil, mas talvez seja apenas uma questão de tempo...

Bom, estou aqui em Jacarta, Indonésia, onde posso ver ao vivo e em cores a pujança da fé Reformada (que estou usando aqui como sinônimo de calvinismo) no mundo todo.

Vim participar da reunião da World Reformed Fellowship, da qual a minha denominação, a IPB, é membro fundador, para falar numa conferência sobre educação teológica, para dar uma palestra num encontro sobre os 500 anos de Calvino e para dar aulas de interepretação bíbica no Instituto Reformado, um seminário da Igreja Reformada de Jacarta.

Já tivemos a conferência sobre educação teológica e estamos no meio da reunião da WRF. Ontem começou a conferência sobre Calvino. Durante a conferência tivemos pastores, teólogos e líderes reformados de várias partes do mundo falando sobre a situação da fé Reformada na América Latina, Brasil, África do Sul, Coréia, China, Indonésia, Sri Lanka, Índia, Europa (vários países), Estados Unidos, Austrália, entre outros. Alguns pontos me chamaram a atenção, que coloco aqui nessa breve postagem.

Primeiro, o crescimento fenomenal do Cristianismo na Ásia e com ele, a fé Reformada. Só na China, assim nos informou um teólogo reformado chinês, Y. Carver, há perto de 100 milhões de cristãos, e esse número vem crescendo cada vez mais rápido. A grande maioria dessas igrejas é em casas e elas não são reconhecidas pelo governo. Há uma necessidades desesperadora de treinamento teológico mínimo para os líderes dessas casas-igrejas. O mesmo fenômeno ocorre no Vietnã, Cambodja e outros países mais próximos da China. Aqui mesmo na Indonésia, país de maioria muçulmana, a fé reformada tem crescido de forma impressionante. Só para dar um exemplo, estou escrevendo da Katedral Mesias (Catedral do Messias), provavelmente a maior igreja cristã da Indonésia (ver foto acima), com um templo para 5 mil pessoas (vou pregar aqui no domingo que vem, embora num templo menor onde o culto é em inglês). Na cúpula do templo estão gravados na abóbada os cinco slogans da Reforma (sola Scriptura, sola gratia, sola fide, solus Christus, soli Deo gloria) de forma a poderem ser lidos de uma grande distância por todos que passam nas ruas e avenidas próximas dessa mega igreja. O pastor Stephen Tong, que fundou esse trabalho e construiu essa igreja, é Reformado firme, pregador apaixonado, de coração pastoral.

Isso me leva ao segundo ponto. Ouvi de vários obreiros, líderes, pastores de países asiáticos que nós, Reformados no ocidente, nos tornamos intelectualizados, esfriamos no fervor e na fé, construimos cercas de proteção em torno de nós mesmos e nos isolamos do mundo. Tive que concordar, com o coração compungido, que aquilo era verdadeiro com respeito a vários reformados no Brasil. Há exceções, sim -- seria muito injusto dizer que todos os reformados no Brasil são intelectualizados, frios na fé e desinteressados em evangelismo e missões. Essa semana estive com autênticos reformados cheios de fé, zelo, fervor e paixão pela obra missionária, pela plantação de novas igrejas e pelo avanço do Reino no mundo. Mais uma comprovação, para mim, de algo que eu já sabia: não existe contradição entre a fé reformada e a prática intensa e fervorosa da piedade bíblica.

Um outro ponto. Um líder de um desses países onde o Cristianismo é perseguido contou-nos que uma alta autoridade teria dito aos seus subordinados que se perseguissem o Cristianismo, ele cresceria e se multiplicaria. Que era melhor deixar os cristãos em paz, pois eles terminariam por brigar entre si mesmos e se destruiriam. Quão verdadeiras são essas palavras, lamentavelmente!

Em resumo. A fé reformada cresce rapidamente em todas as partes do mundo. E com ela, vêm alguns dos pecados que costumam acompanhar os calvinistas, como intelectualismo e divisionismo. Não precisamos cair nesses pecados. Podemos aprender com a história.
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segunda-feira, março 16, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Por Que Não Abraço a “Espiritualidade”

Por     72 comentários:
Existe em todo mundo um movimento entre católicos e protestantes que visa resgatar a mística medieval, especialmente as práticas e as disciplinas espirituais dos cristãos da Idade Média como modelo para uma nova espiritualidade hoje, em reação à frieza, carnalidade e mundanismo da cristandade moderna. Esse movimento é geralmente conhecido como “espiritualidade” e tem atraído não poucos líderes católicos e protestantes. Apesar do nome, é bom lembrar que existem importantes diferenças entre esse movimento e a busca tradicional de uma vida espiritual mais profunda por parte do Cristianismo histórico.

Que esse movimento tenha adeptos entre os católicos, não é de admirar, pois é entre eles que está a sua origem e se encontram seus ícones. O que espanta é sua presença entre os protestantes, e mesmo aqueles de convicções mais conservadoras.

Eu até entendo o motivo pelo qual o movimento de espiritualidade tem conseguido atrair pastores e líderes das igrejas históricas e conservadoras em nosso país. Primeiro, porque existe uma decepção justificada da parte desses líderes diante da falta das práticas devocionais em boa parte dos que são teologicamente mais conservadores. Infelizmente, os quartéis conservadores abrigam pastores assim, que não oram, não jejuam, não gastam tempo lendo a Palavra e meditando nela, buscando uma comunhão mais profunda com Deus e a plenitude do seu Espírito Santo.

Ainda hoje estava falando com outro colega pastor que se queixava de colegas de ministério que ficam na cama até perto do meio dia, que gastam a maior parte do tempo na internet, que não trabalham, não evangelizam, não gastam tempo com Deus e com o rebanho, e que vão levando o ministério nessa farsa. Não é de espantar que suas igrejas sejam minúsculas, problemáticas e que eles não se demorem muito tempo em um mesmo local. E que, quando saem, deixam atrás de si um rastro de destruição, confusão, insatisfação e problemas não resolvidos. É lógico que esses não representam a totalidade dos pastores conservadores, e muito menos a teologia reformada, que tradicionalmente sempre valorizou a vida de piedade ao lado do cultivo intelectual da mente. Todavia, o fato de que permanecem anos a fio em seus presbitérios e convenções, enterrando igrejas, criando problemas, sem que sejam questionados ou confrontados, dá aos demais conservadores ares de cumplicidade e abre portas para que movimentos como esse da espiritualidade encontre mentes e corações ávidos, cansados da frieza, carnalidade e politicagem que encontram entre os conservadores.

Segundo, existe no próprio meio conservador um desencanto com a piedade pentecostal que já teve melhores dias entre nós. Muitos pastores conservadores que um dia se sentiram atraídos pelas ofertas do pentecostalismo, de batismo com o Espírito Santo, falar em línguas, sonhos e visões, profecias, sinais e prodígios, têm recuado diante da aparente superficialidade e da ênfase desmedida nas experiências, que são características desse movimento. Eles querem uma piedade mais solidamente enraizada nas Escrituras e que ofereça alguma salvaguarda para os exageros, falsificações e eventuais interferências humanas nas experiências. É quando surge o movimento de espiritualidade, que se distancia do pentecostalismo em vários aspectos e promete aquilo que todos desejam, uma proximidade com Deus nunca dantes experimentada mediante as práticas devocionais, sem os abusos da experiência pentecostal.

Outro atrativo no movimento é que ele se reveste de um misticismo que apela profundamente às almas que por natureza são mais piedosas e religiosas, as quais também se encontram dentro dos limites da tradição mais conservadora. Para tais pessoas, a idéia de se gastar tempo em silêncio contemplando o divino, ouvindo a voz de Deus, penetrando os tabernáculos celestes, tocando nas vestes de Cristo, mortificando a carne e suas paixões mediante o jejum e abstinência de alguns confortos terrenos e físicos, é um atrativo poderoso, como sempre foi através da história da Igreja.

Eu confesso, todavia, que nunca me senti realmente atraído por esse tipo de espiritualidade. Não gostaria de pensar que isso é porque eu sou um daqueles pastores frios e sem o Espírito Santo que mencionei em algum parágrafo acima. Há quem concorda totalmente com essa avaliação a meu respeito. Mas, deixarei nas mãos de Deus o veredicto sobre isso. Conscientemente, não me sinto interessado nessa espiritualidade, acima de tudo, pelo fato de que ela é defendido por padres e leigos católicos e que, entre os protestantes, ganhou muitos adeptos e defensores da parte dos liberais. Desconfio de tudo que os liberais apóiam e defendem.

Não estou dizendo que todos os protestantes que adotaram ou aderiram ao movimento de espiritualidade são liberais. Conheço uma meia dúzia que não é. Deve haver muitos outros. O que estou dizendo é que, para mim, é no mínimo intrigante que os liberais, que sempre se disseram progressistas e amantes do novo, defendam com tanto interesse um modelo de espiritualidade que tem como ícones monges e freiras católicos da Idade Média e o tipo de práticas espirituais deles.

Não discordo de tudo que os defensores da espiritualidade pregam. Quebrantamento, despojamento, mortificação, humildade, amor ao próximo são conceitos bíblicos. E encontramos vários desses conceitos defendidos pelos seguidores da espiritualidade. Meu problema não é tanto o que eles dizem – embora eu pudesse apontar um ou outro ponto de discordância conceitual, mas o que eles não dizem ou dizem muito baixinho, a ponto de se perder no cipoal de outros conceitos.

Sinto falta, por exemplo, de uma ênfase na justificação pela fé em Cristo, pela graça, sem as obras ou méritos humanos, como raiz da espiritualidade. Uma espiritualidade que não se baseia na justificação pela fé e que nasce dela está fadada a virar, em algum momento, uma tentativa de justificação pela espiritualidade ou piedade pessoal. Não estou dizendo que os defensores da espiritualidade negam a justificação pela fé somente – talvez os defensores católicos o façam, pois a doutrina católica de fato anatematiza quem defende a salvação pela fé somente. O que estou dizendo é que não encontro essa ênfase à justificação pela fé em Cristo nos escritos que defendem a espiritualidade.

Sinto falta, igualmente, de uma declaração mais aberta e explícita que a espiritualidade começa com a regeneração, o novo nascimento, e que somente pessoas que nasceram de novo e foram regeneradas pelo Espírito Santo de Deus, que são uma nova criatura, um novo homem, é que podem realmente se santificar, crescer espiritualmente e ter comunhão íntima com Deus. A ausência da doutrina da regeneração no movimento pode dar a impressão de que por detrás de tudo está a idéia de que a religiosa natural, inata, do ser humano, por causa da imago dei, é suficiente para uma aproximação espiritual em relação a Deus mediante o emprego das práticas devocionais.

O caráter progressivo na santificação também está faltando na pregação do movimento. Quando não mantemos em mente o fato de que a santificação é imperfeita nesse mundo, que nunca ficaremos aqui totalmente livres da nossa natureza pecaminosa e de seus efeitos, facilmente podemos nos inclinar para o perfeccionismo, que ao fim traz arrogância ou frustração.
Também gostaria de ver mais claramente explicado o que significa imitar a Jesus como uma das características da vida cristã. Pois, até onde sei, Jesus não era cristão. A religião dele era totalmente diferente da nossa. Nós somos pecadores. Jesus não era. Logo, ele não se arrependia, não pedia perdão, não mortificava uma natureza pecaminosa, não lamentava e chorava por seus pecados. Ele não orava em nome de alguém e nem precisava de um mediador entre ele e Deus. Ele não tinha consciência de pecado e nem sentia culpa – a não ser quando levou sobre si nossos pecados na cruz. Ele não precisava ser justificado de seus pecados e nem experimentava o processo crescente e contínuo de santificação. A religião de Jesus era a religião do Éden, a religião de Adão e Eva antes de pecarem. Somente eles viveram essa religião. Nós somos cristãos. Eles nunca foram. Jesus nunca foi. Como, portanto, vou imitá-lo nesse sentido?

É esse tipo de definição e esclarecimento que sinto falta na literatura da espiritualidade, que constantemente se refere à imitação de Cristo sem maiores qualificações. Quando vemos Jesus somente como exemplo a ser seguido, podemos perdê-lo de vista como nosso Senhor e Salvador. Quando o Novo Testamento fala em imitarmos a Cristo, é sempre em sua disposição de renunciar a si mesmo para fazer a vontade de Deus, sofrendo mansamente as contradições (Filipenses 2:5; 1Pedro 2:21). Mas nunca em imitarmos a Jesus como cristão, em suas práticas devocionais e na sua espiritualidade.

Faltam ainda outras definições em pontos cruciais. Por exemplo, o que realmente significa “ouvir a voz de Deus”, algo que aparece constantemente no discurso dos defensores da espiritualidade? Quando fico em silêncio, meditando nas Escrituras, aberto para Deus, o que de fato estou esperando? Ouvir a voz de Deus com esses ouvidos que um dia a terra há de comer? Ouvir uma voz interior, como os Quackers? Sentir uma presença espiritual poderosa, definida, que afeta inclusive meu corpo, com tremores, arrepios? Ver uma luz interior, ou até mesmo ter uma visão do Cristo glorificado e manter diálogos com ele, como Teresa D’Ávila, Inácio de Loyola, a freira Hildegard e mais recentemente Benny Hinn? Ou talvez essa indefinição do que seja “ouvir a voz de Deus” seja intencional, visto que a indefinição abriga todas as coisas mencionadas acima e outras mais, unindo por essas experiências vagas pessoas das mais diferentes persuasões doutrinárias e teológicas, como católicos e evangélicos, conservadores e liberais?

Por fim, entendo que biblicamente os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo comunica à sua Igreja os benefícios de sua mediação, de seu sacrifício e de sua ressurreição, são a Palavra, os sacramentos e a oração. Outros meios, como, silêncio, meditação, contemplação, isolamento, mortificação asceta do corpo, não são reconhecidos como meios de graça, embora possam ter algum valor temporal acessório às ordenanças de Cristo. Como ensinou Paulo, seguir uma lista daquilo que podemos ou não podemos manusear, tocar e provar tem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Col 2:20-23).

Por todos esses motivos acima, nunca realmente me senti interessado na espiritualidade proposta por esse movimento. Parece-me uma tentativa de elevação espiritual sem a teologia bíblica, uma tentativa de buscar a Deus por parte de quem já desistiu da doutrina cristã, das verdades formuladas nas Escrituras de maneira proposicional. Prefiro a espiritualidade evangélica tradicional, centrada na justificação pela fé, que enfatiza a graça de Deus recebida mediante a Palavra, os sacramentos e a oração e que vê a santidade como um processo inacabado nesse mundo, embora tendo como alvo a perfeição final.

Franklin Ferreira, conversando comigo sobre esse assunto, escreveu o que se segue, que reproduzo literalmente por retratar de forma sintética e profunda o que considero o principal problema com a espiritualidade defendida pelo movimento que leva esse nome:


Acho que você conhece a distinção que Lutero fez entre a "teologia da glória" e a teologia da cruz". Muito do movimento de espiritualidade moderno cai, justamente, no que Lutero chamou de "teologia da glória", a tentativa de chegar a Deus de forma imediata, ou por meio de legalismo (mortificação, flagelação da carne, etc.), especulação teológica (como no liberalismo de Tillich ou no misticismo (as escadas da ascensão da alma para o céu, com a necessária purgação, mortificação e iluminação). Note que nessas três escadas, o que se fala é da união da alma de forma imediata com Deus, sem a mediação de Cristo crucificado. Para Lutero, o fiel só encontra Deus não nas manifestações de poder que supostamente cercam as três escadas, mas em fraqueza, na cruz, pois por meio dela somos justificados.

Enfim. Deus me guarde de ir contra a busca de uma vida cristã superior, de desenvolver a vida interior. Que Ele igualmente me guarde de qualquer tentativa de alcançar isso que não esteja solidamente embasada em Sua Palavra.

Sobre isso, relembro os seguintes posts aqui no Tempora-Mores:

Sobre Espiritualidade, Místicos e Neoliberais


Para quem Pensa Estar em Pé (I) -- Versão para Pentecostais e Neopentecostais


Para Quem Pensa Estar em Pé (II) – versão para reformados e neopuritanos


Para Quem Pensa Estar em Pé (III) – versão para neo-ortodoxos

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sábado, março 07, 2009

Solano Portela

A Tragédia do Recife!

Todos têm acompanhado o caso da menina de 9 anos, em Pernambuco, que foi abusada e estuprada pelo padastro. Com a gravidez, o crime veio à tona e o criminoso está preso. A menina teve a gravidez interrompida por aborto induzido, realizado por médicos, com o apoio da justiça. O caso tem recebido ampla divulgação e repercussão. Alguns blogs cristãos têm escrito sobre o triste assunto, como o "mastigue", de jovens, para jovens, e o do Rev. Dr. Alfredo de Souza. Neste último, coloquei um comentário, que posto abaixo, em versão expandida e corrigida.
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Infelizmente as decisões éticas da nossa terra não se pautam por quaisquer considerações sobre os princípios de Deus, mas meramente por considerações antropocêntricas. Por princípio, pela consideração à vida, ensinada na Escritura, sou contra o aborto. No entanto, a complexidade desse caso me intriga.

Não tenho condição de fazer as avaliações médicas (essas são fruto, também, da dádiva divina do conhecimento, possibilitado pela Graça Comum de Deus, àqueles que são chamados a esse campo), nem de avaliar o quanto a vida da menina estaria em risco. Confiar em outros, em questões tão cruciais, é temeroso. Mas há outro curso viável? As coisas correram rápido demais, alguém tomou uma decisão do dia para a noite e somos confrontados com o fait accompli e deixados às nossas considerações morais quanto à tragédia.

Com olhar de leigo, muito pesaroso, vi as fotos e a situação dela - tão jovem e tão destituída e roubada de sua inocência, por aqueles próximos dela. Um corpo de criança carregando duas vidas, às quais não estava fisiológicamente preparada(no desenvolvimento natural divino), ainda, para carregá-las. O quanto de risco à vida dela, já tão massacrada e abusada, traria a continuidade de tal gravidez? Não sei.

Isso leva a um dilema ético. Não seria ele comparável ao que é enfrentado por um enfermeiro que trabalha em um hospital superlotado, que está com os doentes espalhados pelo corredor, alguns em estado terminal, e que vê apenas um leito sendo aberto, na ala de cirurgia? Como ele vai selecionar quem vai viver e quem vai morrer?
  1. Pela cronologia da entrada ("Deus mandou esse primeiro do que aquele, então vou atender na ordem de chegada")?

  2. Ou seria por uma compreensão subjetiva da gravidade do caso ("acho que esse aqui, que chegou depois, está morrendo mais rápido que o outro, que chegou antes")?

  3. Ou pela idade ("Esse, que está morrendo já está idoso, vou salvar o mais jovem que tem uma vida toda pela frente")?

No caso da menina grávida, vejamos, em duas ações (matar ou deixar), 5 possibilidades de resultados:

  1. Matar 2, deixar 1; salvar 1: abortam-se os fetos, salva-se a mãe (situação decidida pelos médicos).

  2. Matar 0, deixar 3; salvar 0: não se faz nada, morrem todos (situação considerada a mais provável pelos médicos).

  3. Matar 0, deixar 3; salvar 2: não se faz nada, morre a mãe, salvam-se as crianças (situação considerada improvável pelos médicos).

  4. Matar 0, deixar 3; salvar 1: não se faz nada, morrem os fetos, salva-se a mãe(situação considerada possível, pelos médicos, mas com alto risco para a mãe).

  5. Matar 0, deixar 3, salvar 3: não se faz nada, salvam-se as crianças e a mãe (situação considerada impossível, pelos médicos).

A única coisa clara para mim, nessa questão e nesse estágio, é o merecimento da morte por parte do padastro; a quem imputo, igualmente, a responsabilidade pela morte das crianças que foram geradas. E, se fosse esse o curso, essa execução deveria ser feita pelo estado, com julgamento e sentença, e não por outros presidiários, como provavelmente ocorrerá.

A posição do arcebispo lá da terrinha, não veio embasada de considerações bíblicas, mas de um apelo “à lei canônica”. No dia que essa mudar, ele muda, também. Precisamos, realmente de muita humildade e aprofundamento nas Escrituras para discernir o curso, em casos como esse. Aos que desejarem pesquisar mais um pouco, sugiro a leitura do livro de Norman Geisler, Ética Cristã: alternativas e questões contemporâneas, Cap. 12. Vejam as opiniões do autor, que ele procura embasar na Palavra, sobre a questão do aborto, e outras situações, como a dessa tragédia, no Recife.

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