sexta-feira, outubro 30, 2009

Mauro Meister

Organização e Desenvolvimento de Escolas Cristãs




Ainda há tempo para se inscrever e participar.

Ano passado a ACSI criou um minicurso sobre liderança e organização de escolas cristãs. Depois publicamos um livro com o mesmo título, que foi lançado no começo deste ano. Na próxima semana vamos repetir a dose e dar outro minicurso de dois dias. O público alvo são tanto os interessados em abrir uma escola cristã como aqueles que já estão envolvidos e gostariam trabalhar o cristianismo de forma mais consistente em sua escola. Veja os detalhes site da associação (www.acsibrasil.org)
Mauro


Leia Mais

quarta-feira, outubro 21, 2009

Solano Portela

Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador! É isso mesmo?

Podemos aceitar que existe um sentido genérico do amor de Deus. Ele demonstra e fala de amor ao mundo, à humanidade, à sua criação. Como calvinista, não tenho nenhuma dificuldade em aceitar isso. Temos que entender, porém, que no sentido salvífico (a salvação eterna da perdição e condenação do pecado) o amor de Deus é derramado exclusivamente sobre o seu povo e, individualmente, sobre os que ele eficazmente chama para si. Sobre aqueles que responderão, ao chamado eficaz, abraçando a Cristo como único e suficiente Salvador.

A frase "Deus odeia o pecado, mas ama ao pecador", entretanto, por mais que seja proferida e repetida, é uma forma simplista de expressar uma situação complexa, pois realmente é impossível separar o pecado do pecador, como se o pecado fosse uma entidade com vida independente, que apenas se utiliza do corpo e da mente do praticante.

Tiago (1.12-15) nos ensina que o pecado é gerado dentro das pessoas, partindo da própria concupiscência, externando sua prática em um relacionamento "simbiótico" (de dependência mútua) com o praticante. Sem barreiras e controles, enfim, sem a redenção, leva à morte.

O pecado é algo odioso em suas manifestações. Estas são verificáveis nas pessoas, pecadoras, sem as quais ele é indescritível e amorfo.

Em Romanos 9.11-18 a Bíblia fala do "aborrecimento" (ódio) de Deus contra Esaú, contrastando com o amor derramado sobre Jacó. Mas a Palavra de Deus expressa em outras ocasiões (além desse caso específico, de Esaú e Jacó) o ódio ("aborrecimento") de Deus a pecadores. Isso ocorre, porque ele é tanto JUSTIÇA como AMOR.

Por exemplo, no Salmo 11.5, lemos "O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência". Veja que ele não odeia somente a violência (inexistente, sem o praticante), mas "ao que ama a violência" - uma pessoa, o pecador.

Em Pv. 6.16-18 lemos sobre sete coisas que o senhor abomina (odeia): olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contenda entre irmãos. Quando lemos essa descrição das "coisas" que o Senhor odeia, vemos que elas não são especificamente "coisas", mas são pessoas que realizam certas ações; a descrição é a de pessoas que Deus abomina. Isso fica bem claro nas duas últimas "coisas" - uma pessoa, ou outra, que é: "testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos".

Não resta dúvida, portanto, que pelo menos nessas instâncias específicas Deus odeia pecadores. Consequentemente, isso deve nos fazer cautelosos de dar uma declaração genérica e abrangente de que ele não odeia pecadores, pois esse ensinamento não pode ser atribuído, dessa maneira, à Bíblia e carece de inúmeras qualificações.

Solano Portela
Leia Mais

terça-feira, setembro 29, 2009

Mauro Meister

D. A. Carson em São Paulo

O Dr. Donald Carson virá ao Brasil na próxima semana para pregar no XXV Encontro FIEL para pastores e líderes, em Águas de Lindóia. Em sua passagem por São Paulo pregará na igreja que tenho o privilégio de servir como um dos pastores, Igreja Presbiteriana da Lapa (Domingo, dia 4, 18:00h - Rua Roma, 465, Lapa) e no Seminário JMC (José Manoel da Conceição), no Campo Belo (Segunda, dia 5, 9:00h).

Será uma grande oportunidade ouvir o pregador e autor de várias obras consagradas, algumas delas já traduzidas para o português, como "Do Shabbath para o Dia do Senhor", "Um chamado à reforma espiritual", "A Exegese e suas falácias" e muitos outros.
Leia Mais

terça-feira, setembro 15, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Vale tudo para encher as igrejas

Por     90 comentários:
Esta semana saiu a notícia abaixo. Não deixem de abrir o link e ler, para entender meus comentários:
Noites de luta e reggae 'enchem igrejas evangélicas no Brasil', diz 'NYT' - Estadao.com.br

Quando li a notícia fiquei pensando nos dias em que eu era seminarista, evangelizando na cidade de Olinda, Pernambuco, em bairros famosos pelo alto índice de jovens e drogas. Eu costumava promover encontros com música "gospel" para reunir os jovens, realizar acampamentos e eventos onde sempre havia a pregação da Palavra e evangelização.

Mas, sempre nos deparávamos com um problema: onde arrebanhar os jovens que se "convertiam" nestes eventos? Eles estranhavam demais as igrejas tradicionais, para onde os enviávamos. E os membros destas igrejas também os estranhavam, pela maneira de se vestirem, tatuagens, brinquinhos, cabeludos... ficávamos diante de duas alternativas. A primeira, que nunca quisemos, de abrir uma igreja diferente para abrigar estes jovens. A segunda, que acabou não funcionando, que era convencer os pastores das igrejas tradicionais a se adaptarem ou criarem espaços em suas igrejas para receber estes jovens, uma espécie de ante-câmara preparativa para o ingresso nas igrejas.

Várias das igrejas históricas tradicionais, diante das rápidas e profundas mudanças culturais que estavam acontecendo na década de 80 e 90, preferiram ficar na zona de conforto cultural e se fecharam para um mínimo de abertura. Adaptações culturais poderiam ter sido feitas, para receber estas gerações, sem comprometer as doutrinas da graça, o culto a Deus, e o bom andamento destas igrejas.

Quando vejo hoje notícias como esta, que encabeça este post, percebo que criar novas igrejas fundadas em cima dos pressupostos, customes e práticas de uma geração -- como por exemplo, o movimento das igrejas emergentes nos Estados Unidos e suas similares aqui no Brasil -- acaba levando a isto que estamos vendo, como a Renascer, tendo que promover sempre novidades, como luta livre, para atrair jovens e mantê-los na comunidade. Por outro lado, lamento que as igrejas tradicionais têm tido dificuldade em fazer adaptações mínimas que possam tornar mais fácil o ingresso desta geração em suas fileiras, como música contemporânea de boa qualidade e teologicamente sadia, liturgias centradas em Deus que ao mesmo tempo engagem o povo em adoração e reflexão, programações sociais e encontros atrantes e relevantes, com conteúdo e diversão, pontes para evangelização que nos coloquem em contato com esta geração e nos permitam levar-lhes de maneira relevante e significativa a mensagem sempre atual do Evangelho de Cristo.

Luta-livre em igrejas evangélicas como método de crescimento de igreja, embora nos choque, é a conclusão lógica da teologia pragmática que sustenta o movimento de crescimento de igrejas, que se pensava que estivesse defunto, mas eis que ressurge pelas pesadas portas abertas das igrejas emergentes. Nesta visão, vale tudo para encher igrejas. E aquelas que não estão dispostas a encher seus salões a qualquer preço, são vistas como retrógradas, sem o Espírito Santo, fechadas, etc.

Comentando o assunto com Solano, ele me escreveu o seguinte: "os jovens precisam também entender que conversão e teologia correta envolvem várias mudanças comportamentais, considerações pelos outros, abnegação – para não forçar os direitos ou estilos de vida sobre os outros. Ou seja, nem toda tradição é careta – muitas coisas têm razão de ser. Uma igreja que se estruture só para jovens ou para abrigar um determinado tipo de cultura, se tiver a teologia correta, cedo verificará a necessidade de estar ministrando a famílias, a ter departamentos infantis, presbíteros, diáconos, etc."

Existem igrejas que têm feito tentativas de acolher a presente geração sem contudo prejudicar o serviço aos mais velhos e sem comprometer a boa teologia, como a de Mark Driscoll, em Seattle, que preza uma teologia correta e prega arrependimento, inerrância da Palavra, céu e inferno, mediação de Cristo e a soberania de Deus; mas que desenvolve uma abordagem contemporânea e assim pode cumprir funções evangelísticas cruciais no Corpo de Cristo, em seu sentido mais amplo.

Todavia, à medida que igrejas como esta do Driscoll envelhecem, e os jovens de hoje começarem a constituir famílias, ter filhos e envelhecer, elas terão de se adaptar outra vez para não perder o rebanho. E lá virão as reuniões de casais, cursos sobre famílias, encontros da terceira idade, reuniões de senhoras, etc. É inevitável. Esta síndrome de Peter Pan destas igrejas cedo esbarrará na realidade inexorável do envelhecimento.

Lamento pelas duas coisas. Primeiro, pela baixaria a que determinados segmentos considerados "evangélicos" pela mídia chegou para encher templos. Segundo, pela aparente incapacidade de uma parte das igrejas históricas de se comunicarem de maneira mais relevante com a atual geração jovem e recebê-la em suas comunidades, sem jamais comprometer ou diluir a boa doutrina e prática do Evangelho.

Leia Mais

sexta-feira, setembro 11, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Vergonha de ser virgem

Por     47 comentários:
Alguns anos passados fiquei estarrecido com uma estatística publicada por uma revista evangélica após entrevistas feitas com jovens evangélicos de 22 denominações. Estes jovens, a grande maioria composta de solteiros, haviam nascido em lar evangélico e eram freqüentadores regulares de igrejas. De acordo com a pesquisa, 52% deles já haviam tido sexo. Destes, cerca da metade mantinha uma vida sexual ativa com um ou mais parceiros. A idade média em que perderam a virgindade era de 14 anos para os rapazes e de 16 anos para as moças.

Essa reportagem foi publicada em setembro de 2002. Desconfio que os números são ainda mais estarrecedores se forem atualizados para 2009.

Não vou aqui gastar muito tempo defendendo o que, acredito, a maioria dos nossos leitores já sabe que é nossa posição: sexo é uma bênção a ser desfrutada somente no casamento. Namorados que praticam relações sexuais estão pecando contra a Palavra de Deus. Mesmo que não tenhamos um versículo que diga "é proibido o sexo pré-marital" (desnecessário à época em que a Bíblia foi escrita, visto que na cultura do antigo Oriente não existia namoro, noivado, ficar, etc.), é evidente que a visão bíblica do casamento é de uma instituição divina da qual o sexo é uma parte integrante e essencial.

Alguns textos que mostram que contrair matrimônio e casar era uma instituição oficial entre o povo de Deus, e o ambiente próprio para desfrutar o sexo:

"...nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações" (Dt 7.3).

"...Majorai de muito o dote de casamento e as dádivas, e darei o que me pedirdes; dai-me, porém, a jovem por esposa" (Gn 34.12).
"... e lhe dará uma jovem em casamento..." (Dn 11.17).

"... Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles?" (Mt 9.15).

"... nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento" (Mt 24.38).

"... Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento" (Jo 2.1-2).

"... Estás livre de mulher? Não procures casamento" (1Cor 7.27).

"... Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento..." (1Tim 4.1-3).

"... Se um homem casar com uma mulher, e, depois de coabitar com ela, a aborrecer, e lhe atribuir atos vergonhosos, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Casei com esta mulher e me cheguei a ela, porém não a achei virgem..." (Dt 22.13-14)

"... qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério" (Mt 5.32).

"... Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar" (Mt 19.10).

"... Caso, porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado" (1Cor 7.9).

"... Mas, se te casares, com isto não pecas; e também, se a virgem se casar, por isso não peca" (1Cor 7.28).

"... A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor" (1Cor 7.39).

"... ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade" (Jo 4.17-18).

"... alguém (o presbítero e/ou pastor) que seja irrepreensível, marido de uma só mulher..." (Tito 1.6).

"... quanto ao que me escrevestes, é bom que o homem não toque em mulher; mas, por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido." (1Cor 7:1-2)

"... Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros" (Heb 13.4).

"... que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus; e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão; porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos claramente, é o vingador, porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação" (1Tes 4.4-7).

As passagens acima (e haveriam muitas outras) mostram que casar, ter esposa, contrair matrimônio é o caminho prescrito por Deus para quem não quer ficar solteiro ou permanecer viúvo. O casamento era, sim, uma instituição oficial em meio ao povo de Deus. As relações sexuais fora do casamento nunca foram aceitas, quer em Israel, quer na Igreja Primitiva, a julgar pela quantidade de leis contra a fornicação e a impureza sexual e pelas leis e exemplos que fortalecem o casamento como instituição para o povo de Deus em todas as épocas.

O ônus de provar que namorados podem ter relações sexuais como uma coisa normal é dos libertinos. Posso me justificar biblicamente diante de Deus por viver com minha namorada como se ela fosse minha esposa, não sendo casados? Como eu lido com essa evidência massiva de que o casamento é a alternativa bíblica para quem não quer ficar solteiro ou viúvo?

O que existe na verdade é aquilo que Judas menciona em sua carta, sobre pessoas ímpias que transformam a graça de Deus em libertinagem (Judas 4). Os argumentos do tipo, "quem casou Adão e Eva" demonstram o grau de má vontade e a disposição do coração de continuar na prática da fornicação, mesmo diante da resposta: "O caso de Adão e Eva não é nosso paradigma, a não ser que você tenha sido feito diretamente do barro por Deus e sua namorada tenha sido tirada de sua costela. Se não foi, então você deve se sujeitar ao paradigma que Deus estabeleceu para toda a raça humana, para os descendentes de Adão e Eva, que é contrair matrimônio, casar-se, um compromisso público diante das autoridades civis".

Os demais argumentos - "é melhor que os namorados cristãos tenham sexo responsável entre si do que procurar prostitutas, etc." nem merecem resposta. O que falta realmente é domínio próprio, castidade, submissão à vontade de Deus, amor à santificação.

Chegamos ao ponto em que os rapazes e as moças cristãos têm vergonha de dizer, até mesmo em reuniões de mocidade e de adolescentes, que são virgens.

Tenho compaixão dos jovens e adolescentes de nossas igrejas. Mas sinto uma santa ira contra os libertinos, que pervertem a graça de Deus, pessoas ímpias, que desviam nossa juventude para este caminho. "A vingança pertence ao Senhor" (Rom 12.19).
Leia Mais

segunda-feira, setembro 07, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Estou com vergonha de ser evangélico

Leiam o que escreveu Reinaldo Azevedo por conta da presença do "apóstolo" Hernandes, a "bispa" Sônia, junto com outros "bispos" evangélicos, em cerimônia com Lula e Dilma, quando da institucionalização do dia da Marcha para Jesus. Mais importante, leiam os mais de cem comentários. Vocês vão acabar como eu, com vergonha de ser evangélico.

Os apóstolos evangélicos modernos -- bem como o católico -- são um desvio do Evangelho, uma desvalorização da autoridade dos verdadeiros apóstolos cujo ensino se encontra nas Escrituras. Eu sei que nem todos que se arrogam de apóstolo hoje foram apanhados contrabandeando dólares, mas é difícil não pensar que todos eles têm sede de mais poder e mais autoridade na hierarquia que eles mesmos criaram.

"Apóstolos" e "bispos" não representam os evangélicos, são representantes dos neopentecostais, igrejas pós-evangélicas ou neo-evangélicas, das quais os evangélicos históricos, pentecostais, tradicionais, sérios e bíblicos, se distanciam arrepiados, horrorizados e com vergonha. Apesar disto, somos confundidos com eles e sempre sobra para nós. Lula e Dilma têm o direito de receber quem quiserem. Mas, ainda assim, é triste, lamentável, vergonhoso, que "apóstolos" e "bispos", inclusive presos e processados, vão "representando" os evangélicos.

O que está se formando no Brasil é outra coisa diferente de uma igreja evangélica, bíblica, saudável, séria. Conheci na África do Sul a igreja zionista (nada a ver com o movimento pró-Israel), um sincretismo de igreja cristã com religião animista de invocação dos ancestrais. Não se podia dizer que eram realmente cristãos, tal a quantidade de elementos estranhos, pagãos, misturados na sua teologia e prática. É a mesma coisa que está acontecendo aqui no Brasil com estas igrejas neopentecostais. Não tenho a menor idéia onde isto vai parar, mas uma coisa eu sei: a não ser que haja uma profunda interferência da parte de Deus, um movimento de purificação e reforma, dias difíceis estão por vir aos que ainda aderem ao Evangelho puro e simples da graça.


[Sobre a Marcha para Jesus veja aqui post sobre o assunto]
[E sobre apóstolos hoje, veja aqui a Carta ao Apóstolo Juvenal]

Leia Mais

domingo, setembro 06, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Gays e Lésbicas praticantes agora podem ser Ministros do Evangelho na Igreja Luterana Americana

Por     52 comentários:

Leiam aqui a notícia sobre a decisão recente da maior Igreja Luterana dos Estados Unidos de confirmar gays e lésbicas praticantes como pastores e bispos luteranos. Antes, eles eram aceitos somente se permanecessem no celibato. A reunião foi presidida pelo bispo Mark Hanson (foto).

Não pretendo neste post entrar na questão da homossexualidade como uma quebra do padrão bíblico para a família, indivíduo e sexualidade. Quem quiser ler sobre isto, faça uma busca aqui no blog da palavra "homossexual" e encontrará diversos posts sobre o assunto. O que eu quero destacar é que a Igreja Luterana dos Estados Unidos, ao decidir pela maioria de seus representantes que gays e lésbicas podem ser ministros do Evangelho, estava simplesmente levando o liberalismo teológico às suas últimas conseqüências lógicas.

Sim, a ELCA (Igreja Evangélica Luterana da América) é outra daquelas igrejas históricas oriundas da Reforma que abandonaram a visão dos Reformadores quanto às Escrituras e sua autoridade e adotou o método crítico de interpretação. Para os que lêem inglês, vejam o que a ELCA pensa sobre a Bíblia. Em resumo, para os que não lêem inglês, a ELCA acredita que:

1) A Bíblia é o mais importante meio de Deus revelar seu ser e sua presença. Não é sua revelação exclusiva, uma vez que a ELCA é ecumênica e acredita que existe salvação em outras religiões.

2) A Bíblia contém a história da interação de Deus com os homens. Nada mais que isto. Ela não é a Palavra de Deus, mas o registro humano daquilo que os judeus e os cristãos acreditavam sobre Deus.

3) Como tal, este registro é falível e contém erros. Nele encontramos o reflexo dos preconceitos da época em que a Bíblia foi escrita. Este registro é por vezes contraditório internamente, pois os escritores da Bíblia registraram idéias diferentes e contraditórias sobre Deus, sua palavra, caminhos e vontade.

4) Quem pode dizer o que é certo ou errado dentro da Bíblia é a Igreja, a comunidade do Cristo. Este é o critério os luteranos americanos para aceitar ou rejeitar partes da Bíblia. Se alguma coisa edifica e leva a Cristo, então é de Deus. Se não, é coisa humana. E se perguntarmos qual o critério para decidirmos, por exemplo, que a homoafetividade edifica e leva à Cristo, a resposta será “aquilo que a Igreja decidir”.

5) Nos gêneros literários da Bíblia temos lendas de heroísmo e "estórias", outro nome para mitos. Entre estes a ELCA certamente coloca o nascimento virginal de Jesus -- assunto que ela declara estar aberto para discussão -- e a ressurreição de Jesus, que para eles não é um fato da história.

Quando uma igreja adota esta visão liberal da Bíblia é só uma questão de tempo até começar a rejeitar o ensino bíblico sobre o homossexualismo. Todas as igrejas ditas cristãs e que hoje aceitam que homossexuais praticantes sejam pastores e bispos são também igrejas que adotaram o método crítico e o liberalismo teológico em primeiro lugar: A Metodista Unida dos Estados Unidos, a Presbiteriana dos Estados Unidos, a Episcopal americana e agora a Luterana, também nos Estados Unidos. Na Europa, o padrão é o mesmo.

É preciso ressalvar que nem todos os pastores e membros destas igrejas concordam com isto. Houve rachas, dissensões, protestos, por parte das minorias discordantes. Todavia, estas minorias não têm força para lutar dentro de denominações que já rejeitaram a idéia de um cânon definido, inspirado, autoritativo e infalível, única regra de fé e prática.

É fácil ver que a ordenação de gays e lésbicas como ministros do Evangelho é fruto do liberalismo teológico. Uma vez que boa parte da sociedade já aceita o homossexualismo como algo natural, normal e até desejável, resolve-se que aquelas partes da Bíblia que caracterizam a homossexualidade como desvio moral e abominação sejam consideradas como mais um reflexo do preconceito cultural da época, a opinião pessoal dos escritores, mas jamais como uma norma, um conceito ou uma verdade de Deus, válida para todas as épocas e culturas. E assim a Igreja passa a julgar a Bíblia e decidir o que vale e o que não vale para hoje, a partir do seu entendimento da sociedade, da cultura e da época.

É claro que há coisas na Bíblia que são reflexo da cultura do Antigo Oriente, onde ela foi escrita, como saudar com beijos, usar véu, a escravidão e a poligamia. Contudo, saudação com ósculo santo e uso do véu não estão na mesma categoria de relações sexuais. A poligamia já é claramente abolida no Novo Testamento, onde também estão plantadas as sementes para a abolição da escravidão. O tema da homossexualidade, contudo, é tratado uniformemente, no Antigo Testamento e no Novo Testamento como uma questão moral e espiritual que tem raízes na natureza corrompida e decaída do ser humano.

O liberalismo teológico está firmemente plantado no coração de várias denominações históricas no Brasil. As sementes estão lá. Cedo ou tarde elas amadurecerão e seu fruto não será diferente do que tem acontecido com as igrejas nos Estados Unidos e Europa, que durante décadas ensinaram o método histórico-crítico em seus seminários. Já ficou claro historicamente quais as conseqüências morais uma vez que se rejeita a autoridade e infalibilidade da Escritura: não existem valores morais que sejam absolutos e intocáveis.

[Vejam aqui o meu comentário quando a PCUSA (Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos) passou a aceitar gays e lésbicas como membros comungantes de suas igrejas locais.]

Leia Mais

segunda-feira, agosto 17, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Ainda o Culto: Elementos e Circunstâncias

Por     56 comentários:
Não pretendo me estender mais sobre este assunto. Já devo ter deixado claro o meu pensamento sobre as danças litúrgicas. Publiquei quase todos os comentários que me mandaram sobre o assunto, à exceção daqueles que visivelmente queriam apenas bater boca. Tentei responder alguns comentários e interagir com nossos leitores. Prometo que vou parar por aqui.

Lembro um outro post meu que trata do assunto do culto e do louvor, que pode ser lido aqui, onde coloco algumas considerações sobre grupos de louvor e instrumentos musicais.

Este post é uma tentativa de atender ao pedido de um querido amigo no post anterior: qual a diferença entre danças e instrumentos de música? Entre danças e corais? Se pode um, por que não pode o outro? Por que proibir danças e permitir instrumentos e corais?

Vou dar meu entendimento sobre esse assunto. Para mim, as danças litúrgicas são vistas como elemento de culto, enquanto que corais, instrumentos de música, são meras circunstâncias deste culto. Deixem-me elaborar um pouco mais neste assunto difícil.

1) Os elementos de culto -- são aquelas atividades determinadas pelas Escrituras nas quais o povo de Deus se engaja durante o culto, com o propósito de adorar a Deus, render-lhe graças e louvor, edificar-se internamente e anunciar o Evangelho ao mundo.

Nem todas as atividades das quais os seres humanos são capazes são próprias, adequadas ou eficazes para estes fins elevados, embora não sejam intrinsecamente erradas para outros propósitos. Por este motivo, o próprio Deus nos revelou em Sua Palavra quais atividades são apropriadas para o culto que Ele nos determinou. Historicamente, as igrejas cristãs têm considerado como elementos de culto (embora nem sempre tenha havido unanimidade), a leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos, hinos e cânticos espirituais com graças no coração, a administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo, votos, jejuns solenes, ações de graças em ocasiões especiais, e ofertas.

Devemos cuidar para que o culto oferecido a Deus por nossas igrejas contenham somente aqueles elementos prescritos na Bíblia, quer de maneira clara, direta, ou mediante inferência legítima. Todavia, considerando que não temos uma liturgia fixa prescrita na Bíblia, e que nosso conhecimento do culto cristão apostólico é fragmentado, a uniformidade nos cultos das igrejas cristãs é alvo impossível de atingir. Por outro lado, as igrejas cristãs devem estar empenhadas em sempre reformar seus cultos, em busca da simplicidade bíblica, em vez de se empenhar para adicionar elementos e formas de culto estranhos à Palavra de Deus em nome da modernidade, contextualização e agradar os homens.

2) As circunstâncias de culto -- se fizermos esta distinção entre elementos de culto e as circunstâncias que atendem estes elementos talvez possamos eliminar boa parte das dificuldades que cercam algumas das questões relacionadas com o culto público.

Enquanto que a Igreja deve se restringir zelosamente aos elementos prescritos na Palavra de Deus, existem determinadas circunstâncias referentes ao bom andamento do culto público que foram deixados a critério da Igreja decidir, usando bom senso, sabedoria e os princípios gerais da Palavra.

Tais circunstâncias estão relacionadas com o ambiente de culto, e envolvem decisões quanto à amplificação do som, uso de mídia, arrumação do salão, mobiliário adequado e sua disposição no local, a iluminação e decoração do ambiente, entre outros. Outras, relacionadas com o culto propriamente dito, tais como o horário do culto, a sua ordem (seqüência), o acompanhamento do louvor com instrumentos musicais, o cântico através de coros e grupos de louvor.

O que diferencia estas circunstâncias dos elementos do culto é que os elementos são parte essencial do culto a Deus e foram por Ele prescritos em Sua Palavra, sendo meios pelos quais recebemos a Sua graça e lhe prestamos adoração e louvor. As circunstâncias, por sua vez, dizem respeito aos passos envolvidos na implementação e aplicação dos elementos – são dependentes destes. Destarte, as circunstâncias não se referem as parte do culto e nem são meios de graça, podendo ou não estar presentes. A presença das circunstâncias não torna um culto mais ou menos espiritual ou aceitável a Deus.

Por causa de sua natureza circunstancial e secundária, estas providências que atendem o culto não devem tornar-se um fim em si mesmas, assumir caráter religioso, tomar o lugar dos elementos ou impedir que os mesmos sejam utilizados de forma própria, eficaz e correta pelo povo de Deus. Seu objetivo é exatamente permitir que o culto a Deus aconteça de maneira adequada, apropriada, facilitando a sua realização e maximizando o potencial dos elementos.

No meu entendimento, danças litúrgicas são vistas como elemento de culto pelas igrejas que as adotam. A começar do nome, “dança litúrgica”, isto é, uma dança que faz parte da liturgia do culto. Criou-se um novo dom espiritual para este “ministério”, que é o dom da dança e até mesmo a associaram com a profecia, surgindo a dança profética. As danças litúrgicas se tornam uma parte do culto, como a pregação, a Ceia, etc.

Já instrumentos de músicas, como piano, guitarra, bateria, são meras circunstâncias, que podem ou não estar presentes, e que não agregam a si qualquer conteúdo espiritual ou teológico, ao contrário das danças, que são vistas como manifestações espirituais.

Os conjuntos corais também não são elementos de culto, são uma circunstância daquele elemento que é o louvor. Trata-se de transmitir pela música, de maneira inteligível e numa linguagem que todos entendem, a mensagem da Palavra de Deus. As danças litúrgicas, ao contrário, não esclarecem a mensagem, antes a confundem, pois gestos, movimentos, por mais graciosos e harmônicos que sejam, não têm como transmitir de forma inteligente e compreensível a Palavra de Deus, e assim ferem aquele princípio que Paulo recomenda em 1Coríntios 14, que as manifestações no culto devem ser entendidas por todos. É por isto que ele não permite o falar em línguas no culto, a não ser que sejam interpretadas, para que os demais possam receber edificação.

Ao mesmo tempo, preciso dizer que corais e grupos de louvor só deveriam ser permitidos se tiverem este caráter de circunstância: que auxiliem o louvor, tornando-o melhor, mais inteligível, e sem se tornarem o centro das atenções. Quando corais e grupos de louvor viram apresentação, não deveriam ser admitidos no culto.

Termino reafirmando, mais uma, que este assunto não está na essência da fé evangélica, embora por isto não deva ser menosprezado. Continuo desejando comunhão com todo vero irmão em Cristo, ainda que ele seja parte do grupo de dança litúrgica de sua igreja.
Leia Mais

quinta-feira, agosto 13, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Liberdade do Espírito e Danças no Culto

Por     39 comentários:
Vou aproveitar um comentário feito no post anterior por uma de nossas leitoras para abordar mais um argumento freqüentemente usado para justificar danças no culto. Na verdade, não somente danças, mas as coisas das mais estranhas têm sido justificadas no culto, como cair no Espírito, trenzinho de Jesus, tremedeiras, salto mortal, usando-se as palavras de Paulo em 2Coríntios 3:17:

Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.

O argumento vai mais ou menos assim: quando o Espírito de Deus está agindo num culto, Ele impele os adoradores a fazerem coisas que aos homens podem parecer estranhas, mas que são coisas do Espírito. Se há um mover do Espírito no culto, as pessoas têm liberdade para fazer o que sentirem vontade, já que estão sendo movidas por Ele, não importa quão estranhas estas coisas possam parecer. E não se deve questionar estas coisas, mesmo sendo diferentes e estranhas. Não há regras, não há limites, somente liberdade quando o Espírito se move no culto.

Assim, um culto onde as coisas ocorrem normalmente, onde as pessoas não saltam, não pulam, não dançam, não tremem e nem caem no chão, este é um culto frio, amarrado, sem vida. O argumento prossegue mais ou menos assim: o Espírito é soberano e livre, Ele se move como o vento, de forma misteriosa. Não devemos questionar o mover do Espírito, quando Ele nos impele a dançar, pular, saltar, cair, tremer, durante o culto. Tudo é válido se o Espírito está presente.

Bom, tem algumas coisas nestes argumentos com as quais concordo. De fato, o Espírito de Deus é soberano. Ele não costuma pedir nossa permissão para fazer as coisas que deseja fazer. Também é fato que Ele está presente quando o povo de Deus se reúne para servir a Deus em verdade. Concordo também que no passado, quando o Espírito de Deus agiu em determinadas situações, a princípio tudo parecia estranho. Por exemplo, quando Ele guiou Pedro a ir à casa do pagão Cornélio (Atos 10 e 11). Pedro deve ter estranhado bastante aquela visão do lençol, mas acabou obedecendo. Ao final, percebeu-se que a estranheza de Pedro se devia ao fato que ele não havia entendido as Escrituras, que os gentios também seriam aceitos na Igreja.

Mas, por outro lado, esse raciocínio tem vários pontos fracos, vulneráveis e indefensáveis. A começar pelo fato de que esta passagem, "onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (2Cor 3:17) não tem absolutamente nada a ver com o culto. Paulo disse estas palavras se referindo à leitura do Antigo Testamento. Os judeus não conseguiam enxergar a Cristo no Antigo Testamento quando o liam aos sábados nas sinagogas pois o véu de Moisés estava sobre o coração e a mente deles (veja versículos 14-15). Estavam cegos. Quando porém um deles se convertia ao Senhor Jesus, o véu era retirado. Ele agora podia ler o Antigo Testamento sem o véu, em plena liberdade, livre dos impedimentos legalistas. Seu coração e sua mente agora estavam livres para ver a Cristo onde antes nada percebiam. É desta liberdade que Paulo está falando. É o Senhor, que é o Espírito, que abre os olhos da mente e do coração para que possamos entender as Escrituras.

A passagem, portanto, não tem absolutamente nada a ver com liberdade para fazermos o que sentirmos vontade no culto a Deus, em nome de um mover do Espírito.

E este, aliás, é outro ponto fraco do argumento, pensar que liberdade do Espírito é ausência de normas, regras e princípios. Para alguns, quanto mais estranho, diferente e inusitado, mais espiritual! Mas, não creio que é isto que a Bíblia ensina. Ela nos diz que o fruto do Espírito é domínio próprio (Gálatas 5:22-23). Ela ensina que o Espírito nos dá bom senso, equilíbrio e sabedoria (Isaías 11:2), sim, pois Ele é o Espírito de moderação (2Tim 1:7).

Além do uso errado da passagem, o argumento também parte do pressuposto que o Espírito de Deus age de maneira independente da Palavra que Ele mesmo inspirou e trouxe à existência, que é a Bíblia. O que eu quero dizer é que o Espírito não contradiz o que Ele já nos revelou em sua Palavra. Nela encontramos os elementos e as diretrizes do culto que agrada a Deus.
Liberdade no Espírito não significa liberdade para inventarmos maneiras novas de cultuá-lo. Sem dúvida, temos espaço para contextualizar as circunstâncias do culto, mas não para inventar elementos. Seria uma contradição do Espírito levar seu povo a adorar a Deus de forma contrária à Palavra que Ele mesmo inspirou.

Um culto espiritual é aquele onde a Palavra é pregada com fidelidade, onde os cânticos refletem as verdades da Bíblia e são entoados de coração, onde as orações são feitas em nome de Jesus por aquelas coisas lícitas que a Bíblia nos ensina a pedir, onde a Ceia e o batismo são celebrados de maneira digna. Um culto espiritual combina fervor com entendimento, alegria com solenidade, sentimento com racionalidade. Não vejo qualquer conexão na Bíblia entre o mover do Espírito e piruetas, coreografia, danças, gestos. A verdadeira liberdade do Espírito é aquela liberdade da escravidão da lei, do pecado, da condenação e da culpa. Quem quiser pular de alegria por isto, pule. Mas não me chame de frio, formal, engessado pelo fato de que manifesto a minha alegria simplesmente fechando meus olhos e agradecendo silenciosamente a Deus por ter tido misericórdia deste pecador.
Leia Mais

segunda-feira, agosto 10, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Salmo 150: Dançando no Santuário?

Por     58 comentários:

Um dos textos do Antigo Testamento mais usados para defender as danças litúrgicas é o Salmo 150. Ele é lido como prova incontestável que havia danças como parte da liturgia dos cultos no Antigo Testamento realizados no templo de Deus em Jerusalém. Como conseqüência, dançar, ter grupos de coreografia e ministério de dança profética durante os cultos das igrejas evangélicas de hoje não somente é permitido, como também ordenado por Deus.
Eis o Salmo 150 de acordo com a versão Almeida Atualizada, provavelmente a mais popular no Brasil:



1 Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento, obra do seu poder.

2 Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza.

3 Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e com harpa.

4 Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.

5 Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes.

6 Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!
A argumentação é a seguinte. O verso 1 manda que louvemos a Deus no seu “santuário”, isto é, no templo terreno, o local oficial da adoração a Deus, onde se realizava o culto por Ele determinado. Em seguida, vem uma descrição deste culto, e em meio à relação dos instrumentos utilizados, se menciona no verso 4 as “danças”. A conclusão aparente é que as danças faziam parte do culto oferecido a Deus no seu templo em Jerusalém. Pronto, temos aqui a base para as danças litúrgicas no culto hoje.

Mas, será que é isto mesmo que o Salmo está dizendo? Ou ainda, será que podemos inferir do Salmo que as danças faziam parte da liturgia do templo? E mais ainda, se de fato é isto mesmo que o Salmo está mostrando, temos aqui uma base para as danças litúrgicas e grupos de coreografia em nossos cultos?

Já disse no post anterior “Davi dançou, eu também quero dançar” que não considero o dançar em si como algo pecaminoso, e que não tenho problemas com danças nas comunidades cristãs como expressão cultural e social em ambientes outros que não o culto a Deus. O que pretendo aqui neste post é mostrar que o Salmo 150 não pode ser tomado como base incontestável para a prática das danças litúrgicas e coreográficas nos cultos cristãos.

Vou começar admitindo, por um momento, que o Salmo 150 está falando do templo em Jerusalém e de danças durante o culto. A pergunta, que deveria ter sido feita desde o início, é se o culto cristão toma sua inspiração, gênese e formato do culto do Antigo Testamento. Para mim, a resposta é negativa, embora com qualificações.

O culto do templo é geralmente visto no Novo Testamento como parte da lei cerimonial, cumprida em Cristo e portanto abolida. A carta aos Hebreus trata deste assunto. Um dos melhores professores de Antigo Testamento que conheço me escreveu recentemente, falando deste assunto, "O que acontecia no Templo não passa nem perto do que acontece nos melhores dos nossos cultos hoje, pois o serviço no Templo encenava a expiação".
Os sacrifícios de animais, as cerimônias de purificação, a ordem dos levitas e dos sacerdotes, os rituais de oferecimentos das ofertas, a queima de incenso, a oferta diária dos pães, tudo isto é considerado como parte da antiga dispensação, que era simbólica, típica, e que foi plenamente cumprida em Cristo: não temos mais sacrifícios – o Senhor Jesus ofereceu de uma vez um sacrifício completo, que não precisa ser renovado e repetido; não temos mais sacerdotes e levitas – os cristãos, todos eles, são sacerdotes e levitas. A queima de incenso é substituída pelo louvor que procede nossos lábios. O templo, que era santo e sagrado, agora é a Igreja de Cristo, a comunidade dos eleitos de Deus, e não os templos de nossas igrejas locais.

Ao que tudo indica, os cristãos deram continuidade ao culto no Antigo Testamento apenas no que se refere aos princípios espirituais: a idéia de encontro com Deus, de adoração, de louvor, de solenidade, de alegria, de serviço espiritual como povo do Senhor... mas foram buscar nas sinagogas o formato para este culto mais simples e despojado. Nas sinagogas, instituição onde cresceram o Senhor Jesus e todos os apóstolos, havia leitura e pregação da Palavra, orações, cânticos e bênção.

Portanto, devemos ter cautela em transferir para o culto cristão aquilo que era feito no templo de Jerusalém – admitindo por um instante que havia danças no culto ali. Por falta deste cuidado, a Igreja Católica tem um culto em muito similar ao do Antigo Testamento: eles têm o sacrifício da missa, sacerdotes que são mediadores entre Deus e homens e que perfazem este sacrifício, estolas sacerdotais e mitra, queima de incenso, etc.

Mas, na verdade, não é certo que o Salmo 150 esteja falando de danças no templo. Em primeiro lugar, a palavra “santuário” mencionada no verso 1 nem sempre significa o local da adoração em Jerusalém, onde o culto determinado por Deus era realizado de acordo com todos os seus preceitos. A palavra
b’kadoshu,
significa literalmente “em seu santo”. Logo, sua tradução primeira seria “em seu santuário” e não “em seu Templo”. Precisamos, portanto, considerar a possibilidade de que o santuário de Deus aqui referido não é o local físico do templo, mas o local da sua santa habitação, ou seja, os céus.

Uma evidência a favor desta tradução e interpretação é que no mesmo verso somos chamados a adorar a Deus no “firmamento”, que declara o seu poder. Se considerarmos que aqui no verso 1 temos um caso de paralelismo, tão comum na poesia hebraica, conclui-se que aqui santuário e firmamento são a mesma coisa:
Louvai a Deus no seu santuário;
Louvai-o no firmamento, obra de seu poder.


Encontramos o mesmo paralelismo no Salmo 11.4:
O Senhor está no seu santo templo;
Nos céus tem o Senhor seu trono
;

Fica evidente que o santo templo de que fala o salmista são os céus, onde Deus tem o seu trono. Outra passagem é o Salmo 102.20:
O Senhor observa do alto do seu santuário;
do céu ele olha para a terra.


Mais uma vez, é evidente que o santuário referido é o céu, de onde Deus observa os homens. Levando em consideração o escopo do Salmo 150, o paralelismo hebraico e estes outros salmos que identificam o santuário de Deus com os céus, é perfeitamente possível concluir que aqui no Salmo 150 “santuário” se refere à morada celestial de Deus e não ao templo físico de Jerusalém. E logo, o apelo do verso 1 pode ser entendido como dirigido aos homens e anjos para que louvem a Deus, que habita em sua morada celestial.

Em segundo lugar, a palavra que a Almeida Atualizada traduziu como "danças" tem outros significados, alguns dos quais se encaixam muito melhor no contexto. A palavra mahol que aparece no verso 4 e é traduzida como “danças” pela Almeida Atualizada pode significar “flauta”. A própria Almeida Atualizada traduziu mahol como “flauta” no Salmo 149, “louvem-lhe o nome com flauta; cantem-lhe salmos com adufe e harpa”. Admito que os contextos são diferentes, pois no Salmo 150 mahol vem precedido dos adufes, tamborins, que marcam o ritmo. De qualquer forma, se vê que a palavra pode ter outro sentido que não dançar.

Várias traduções do Salmo 150:4 traduziram mahol como “flauta”, como a Almeida Corrigida, a Bíblia de Genebra 1599, a Reina Valera 1909, entre outras (“coral”, Douay-Rheims).

Calvino, em seu comentário dos Salmos, preferiu traduzir como “flauta”.

Temos que admitir que a maioria das traduções preferiu “danças”. Em minha opinião, é perfeitamente possível. Todavia, se o salmista estiver se referindo a um instrumento musical, como “flauta”, se encaixa perfeitamente no contexto, pois os versos 3-5 estão mencionando instrumentos musicais usados em Israel, como trombeta, saltério, harpa, adufes, instrumentos de cordas, flautas, címbalos sonoros e címbalos retumbantes. Estes versos não estão dando uma descrição do que se fazia no culto a Deus executado no templo ou no templo, mas apenas enumerando os instrumentos musicais de toda espécie, todos eles convocados para o louvor de Deus.

Se levarmos em consideração as variáveis acima, o Salmo 150 pode ser simplesmente um chamado universal a anjos, homens e animais, para que louvem a Deus. E que os homens o façam com toda sorte de instrumentos musicais. Não está falando do culto no templo terreno e nem de danças.
Alguém poderia legitimamente indagar: "se Deus aceita as danças no seu alto e sublime lugar, no santuário celestial, será que Ele se desagradaria das danças no local da adoração terrena?" A única resposta que eu tenho para isto é que a maneira que temos de saber o que agrada a Deus ou não em seu culto hoje é mediante o estudo do Novo Testamento. O que Deus prescreve para o culto dos cristãos? Certamente não encontraremos uma liturgia detalhada, uma seqüência dos atos de culto. Mas encontraremos os princípios espirituais que governam este culto e os elementos que dele devem constar. E entre estes, nao acharemos as danças.

Mas, não quero insistir demais neste ponto. O que eu gostaria apenas de deixar claro neste post é que o Salmo 150 não pode ser usado como uma prova cabal e final de que as danças faziam parte do culto a Deus oferecido em seu templo ou seu templo em Jerusalém e que em conseqüência devemos ter danças nos cultos cristãos de hoje.

Não considero este assunto tão central à fé que eu tenha que me separar de quem pensa diferente. Se você quer dançar no culto, dance. Não vou considerá-lo um pagão por isto. Mas não me venha dizer que é bíblico e que aqueles que pensam diferente de você serão condenados como Mical, que criticou Davi quando dançava.
Leia Mais

quinta-feira, julho 30, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Davi dançou, eu também quero dançar!

Por     69 comentários:
Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem ao lado de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot).

Não consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.

Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.

Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?

Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12:3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que serviu a Deus em sua própria geração (Atos 13:36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11:32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.

Uma segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15:20), a filha de Jefté (Juízes 11:34), as mulheres de Judá (1Sam 18:6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21:21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.

Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.

Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.

Por último, acho que este tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Cor 10:31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.

Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.

Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos jovens e adolescentes de nossas igrejas (sobre boate evangélica, falaremos em outra oportunidade). Mas o culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia".

Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender esta prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.

Leia Mais

segunda-feira, julho 20, 2009

Solano Portela

O que os Reformados Entendem por Livre Arbítrio?

          A questão e as controvérsias sobre a existência ou não do livre arbítrio são antigas. A discussão se faz presente, com freqüência, no meio presbiteriano, porque somos reformados. Esse termo, reformados, significa que entendemos que as doutrinas resgatadas pela reforma do século 16, e expressas nos documentos e escritos históricos dos reformadores e dos que seguiram em suas pisadas, expressam da melhor maneira os ensinamentos da Palavra de Deus.

          Ocorre que nem sempre os que defendem, ou os que negam o livre arbítrio, se preocupam em um entendimento maior do conceito, nem em uma abordagem mais ampla dos textos bíblicos pertinentes ao tema compreendido nessa “liberdade”. Nesse sentido, tanto a defesa, como o ataque, podem levar a uma distorção do ensinamento bíblico e por isso é importante examinarmos em maior detalhe o que realmente entendemos por livre arbítrio.
          Podemos fazer isso indo até o nosso símbolo de fé – a Confissão de Westminster (CFW: 1642-47), não porque tenhamos ali a palavra final, mas porque a Confissão nos direciona à Escritura, sistematizando, em proposições concisas, as doutrinas chaves da fé cristã. É nela que encontramos exatamente todo um trecho exatamente sobre o livre arbítrio. O capítulo 9 da CFW tem cinco seções. Nelas lemos que a Bíblia nos ensina que:
1. A natureza humana não possui determinação intrínseca (natural) para o bem ou para o mal. Essa é a liberdade da natureza humana, procedente da estrutura da criação, e a Bíblia, com freqüência e naturalidade, faz referência a essa situação, apelando ao “querer” das pessoas (“te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas” – Dt 30.19; “... não quereis vir a mim para terdes vida” – Jo 5.40; “... Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram” – Mt 17.12).
2. Entretanto, essa plena liberdade existiu no que a CFW chama de “estado de inocência”, ou seja, até a queda em pecado. No Cap. 4, seção 2, falando “da Criação”, a CFW indica que nossos primeiros pais foram “deixados à liberdade da sua própria vontade, que era mutável”. Voltando ao Cap. 9, quando o pecado entrou no mundo o homem perdeu essa “liberdade e poder” (“...Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” – Ec 7.29).
3. O livre arbítrio, portanto, faz parte da natureza criada, mas não subsiste na natureza caída. Como pecadores, não podemos realizar qualquer “bem espiritual” que leve à salvação. Nesse sentido, toda a raça humana está morta “no pecado”. As pessoas são incapazes, cegas pelo pecado, de converter-se, ou mesmo “de preparar-se para isso”. Perdemos, portanto, o livre arbítrio, com a queda em pecado (“... o pendor da carne é inimizade contra Deus... os que estão na carne não podem agradar a Deus” – Ro 8.7-8; “... Não há justo, nem um sequer... não há quem busque a Deus; todos se extraviaram...” – Ro 3.10 a 12; “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” – Jo 6.44).
4. A situação atual da humanidade, sem livre arbítrio, é de escravidão ao pecado, mas a conversão, operada pelo toque regenerador do Espírito Santo é a libertação dessa escravidão. É a graça de Deus que habilita o homem a querer fazer o que é espiritualmente bom. Como permanecemos ainda pecadores e vivemos em um mundo que é pecado em pecado, não podemos realizar o bem perfeito, e eventualmente caímos também em pecado, mesmo depois de salvos ( “... todo o que comete pecado é escravo do pecado... Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” – Jo 8.34 e 36; “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” – Cl 1.13; “... uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” – Ro 6.18; “... nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto” – Ro 7.15),.
5. Somente na eternidade, em nossa glorificação, é que a nossa vontade “se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só” ( “Ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele” – 1 Jo 3.2).
          Esses pontos estabelecem o significado teológico da expressão livre arbítrio – a possibilidade de querer realizar o bem, que tem validade espiritual. Nesse sentido, as pessoas não o possuem em função do pecado e da natureza pecaminosa, que as conservam sob escravidão, fazendo-as escolher o pecado.
          A CFW ainda faz outras referências ao livre arbítrio, por exemplo, diz que Deus executa o seu plano “segundo o seu arbítrio” (Cap. 5, seção 3); diz ainda que a perseverança dos santos, ou seja a segurança dos crentes em um estado de salvação “não depende do livre arbítrio deles”, mas “do livre e imutável amor de Deus Pai” (Cap. 17, seção 2). Simultaneamente, uma liberdade de ação, e conseqüentes responsabilidades, é reconhecida, na CFW. No Cap. 20, seção 1, ela indica que os crentes procuram seguir os preceitos de Deus “... não movidos de um medo servil, mas de amor filial e espírito voluntário”. Por último, a CFW fala da liberdade de consciência (Cap. 20, seção 2), registrando que “só Deus é o senhor da consciência”; fala da “verdadeira liberdade de consciência”, e avisa contra “destruir a liberdade de consciência”, bem como contra nunca utilizar essa liberdade como pretexto para cometer “qualquer pecado” ou concupiscência, pois o propósito dela é servir “ao Senhor em santidade e justiça, diante dele todos os dias da nossa vida”.
          Devemos entender, assim, que quando indicamos que não possuímos livre arbítrio, não significa que somos robôs, agindo mecanicamente em um teatro da vida. Esse é o grande mistério: como Deus consegue nos dar essas faculdades decisórias, mas, ainda assim, cumprir o seu plano de forma imutável. Mais uma vez, é a CFW, que nos esclarece (Cap 3, seção 1 – “Dos eternos de Deus”), indicando que Deus “ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece”, porém “nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias”.
          Como reformados, precisamos cuidar, portanto, ao contestarmos o livre arbítrio, de não suprimirmos esse aspecto – de que decidimos organicamente as questões da nossa vida, mas Deus, soberanamente cumpre seus propósitos. Se assim fizermos, reduzimos os atos de Deus a um modus operandi que não é o dele, nem é o ensinado na Bíblia. Talvez uma distinção que pode auxiliar a nossa compreensão e dar maior precisão ao tratamento desse conceito, é a utilização do termo livre agência. Livre arbítrio, no sentido já explicado, foi perdido. Esteve presente em Adão e Eva, mas não se encontra na humanidade caída. Livre agência seria a capacidade recebida de Deus de planejarmos os nossos passos (Ti 4.13), de decidirmos o nosso caminhar. Quando entendemos bem esse aspecto, nunca vamos achar que essas decisões são autônomas, ou “desligadas” do plano de Deus (Ti 4.14-15). É ele que opera em nós “tanto o querer como o realizar” (Fl 2.13) e o faz milagrosamente, imperceptivelmente, sem “violentar a vontade da criatura”. Longe de ser uma contradição, esse entendimento reformado, retrata Deus em toda sua majestade, ao lado de criaturas preciosas. Livres agentes, que perderam a possibilidade de escolha do bem (livre arbítrio), mas continuam formadas à imagem e semelhança da divindade, necessitadas da redenção realizada em Cristo Jesus e aplicada nas vidas dos que constituirão o Povo de Deus, pelo seu Espírito Santo.
Solano Portela
Leia Mais

terça-feira, julho 07, 2009

Solano Portela

Ainda a propósito dos 500 anos de Calvino

--------------------------------------

O dia 10 de julho marca a data memorável dos 500 anos desde o nascimento de João Calvino. Contrário ao que muitos pensam, ele não criou ou formulou novas doutrinas, mas foi hábil sistematizador das verdades bíblicas, exemplo de devoção e exegeta preciso, deixando esse legado precioso, que já atravessa cinco séculos!

Calvino “está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que quaisquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”! Esse endosso entusiasmado de Calvino e de seus dons como comentarista e intérprete bíblico foi emitido por aquele que é considerado o seu grande inimigo: Jacobus Arminius! Charles Haddon Spurgeon, registra isso e classifica o comentarista Calvino como “príncipe entre os homens” e apresenta, ainda, a citação favorável de um Padre Católico Romano (Simon): “Calvino possui um gênio sublime”.

O que levaria Armínio, que divergiu com tanta intensidade da compreensão calvinista da soberania de Deus e da extensão da escravidão ao pecado na qual se encontra a humanidade; ou mesmo um católico romano, com sua discordância do modo de salvação defendido por Calvino, pronunciar tais elogios sobre João Calvino?

Certamente eles se rendem à precisão, devoção e seriedade com as quais João Calvino aborda a Palavra Sagrada, em seus escritos. Spurgeon destaca a sinceridade de Calvino e a tônica que o classifica como um exegeta, em paralelo a todas às suas demais qualificações. Ele disse, “a sua intenção honesta foi a de traduzir o texto original, do hebraico e do grego, com a maior precisão possível, partindo desse ponto para expor o significado contido nas palavras gregas e hebraicas: ele se empenhou, na realidade, em declarar não a sua própria mente acima das palavras do Espírito, mas a mente do Espírito abrigada naquelas palavras”. É por isso que Richard Baxter deu esse testemunho: “Não conheço outro homem, desde os dias dos apóstolos, que eu valorize e honre mais do que João Calvino. Eu me aproximo e tenho grande estima do seu juízo sobre todas as questões e sobre seus detalhes”.

É nessa linha e atribuindo esse valor, que devemos receber e apreciar os escritos de Calvino. Além do mais conhecido - As Institutas da Religião Cristã (tradução curiosa, que teria sido melhor vertida como: "Os Fundamentos da Religião Cristã"), temos a excelência dos seus comentários, como já apresentou o Dr. Mauro Meister, no seu post anterior.

Romanos foi o primeiro comentário escrito, em 1540, e, na seqüência, as demais cartas de Paulo. O comentário sobre a Segunda carta de Paulo aos Coríntios foi o terceiro livro escrito nessa série, concluído em agosto de 1546 (1 Coríntios foi concluído em janeiro de 1546; os comentários às demais epístolas de Paulo foram concluídos em 1548). Seu último comentário foi publicado em 1563. Todos esses livros foram originalmente escritos em latim. Para completar a totalidade da Bíblia, ficaram faltando: Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel. 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Nemias, Ester, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, 2 e 3 João e Apocalipse). Quando Calvino faleceu, ele estava escrevendo o comentário de Ezequiel.

Seguindo o seu costume, Calvino iniciou o Comentário da Segunda Carta aos Coríntios com uma dedicatória feita a Melchior Wolmar Rufus, um alemão muito famoso, professor de Direito Civil, alvo de sua profunda gratidão. Teodoro Beza (1519-1605) escreveu o seguinte sobre Melchior Wolmar, em sua “Vida de João Calvino”: “A sua erudição, piedade e outras virtudes; em conjunto com suas habilidades admiráveis como professor de jovens, não podem ser suficientemente destacadas. Em função de uma sugestão sua e por sua atuação, Calvino aprendeu a língua grega”. Assim, em meio aos seus estudos de advocacia, Calvino, aos 22 anos de idade, aprende a dominar uma das línguas originais da Bíblia, formando o alicerce de sua vida eclesiástica, como exegeta, hermeneuta e teólogo.

João Calvino é reconhecidamente um exegeta, um hermeneuta e um mestre em poimênica, mas ele é, antes de tudo, um Teólogo Sistemático. Certamente ele é mais famoso por seu tratado de teologia – As Institutas. Mas é nos comentários que ele escreveu ao longo de sua curta vida, que ele demonstra o apreço que tem para a fonte de sua sistematização teológica – a Bíblia. Os Comentários são importantíssimos, pois derrubam a pecha de que Calvino é um racionalista cujas ilações contrariam não somente o bom senso, mas o próprio ensino da Palavra de Deus. Não pode ser aceita, portanto, a visão propagada por oponentes de Calvino, de que ele deixa a visão orgânica do Reino para trás e embarca em um delírio racional, que o leva a conclusões sobre a soberania de Deus não encontradas nas Escrituras. Ora, é exatamente na Palavra de Deus, estudando texto a texto, onde Calvino encontrará a base para reafirmar e extrair todas as suas convicções e ensinamentos. Não deve nos surpreender que Calvino, o teólogo sistemático, começasse comentando Romanos (que ele considerava a chave para a interpretação correta das Escrituras) e as cartas de Paulo aos Coríntios. Estes livros são sistemáticos na apresentação de doutrinas fundamentais da Fé Cristã, interpretando e aplicando os ensinamentos dos Evangelhos; explicando os fundamentos veto-testamentários; firmando os passos da igreja de Cristo na Nova Aliança.

É interessante, também, que mesmo quando Calvino se envolve em um mergulho profundo nos livros da Bíblia, trecho por trecho, para desvendar o seu significado e na busca das lições supremas registradas por Deus, ele não perde a visão sistemática das doutrinas. Assim, em seus comentários ele não se contenta apenas em dar um resumo do livro que passará a examinar, mas também apresenta “o argumento” que norteou o autor na escrita do livro: o desenvolvimento sistemático do raciocínio do autor, e a lógica argumentativa dos pontos que necessitavam ser estabelecidos pela carta.

Na segunda carta de Paulo aos coríntios (possivelmente a terceira que escrevia aos Coríntios, pois 1 Co 5.9, faz referência a uma primeira – antes de 1 Coríntios, possivelmente não inspirada, no sentido canônico), temos a continuidade de instrução a uma igreja marcada por graves problemas de conduta, eivada de incompreensões doutrinárias, que havia motivado duras repreensões da parte do apóstolo. As notícias mais recentes, entretanto, são encorajadoras (7.5-7) e é nesse clima que Paulo, em meio às suas instruções práticas, abre o seu coração, defende a sua autoridade apostólica e prepara aqueles irmãos para uma futura visita.

Calvino penetra no espírito dessa carta à Igreja de Corinto. Explicando palavra a palavra, ou frase a frase, conforme a necessidade – recorrendo ao seu extenso conhecimento da língua grega e fazendo comparações elucidativas – ele vai nos auxiliando o entendimento. Através do comentarista, passamos a entender Paulo melhor, não somente os seus sentimentos, mas as doutrinas cabais que procura passar aos seus leitores, como a abnegação do “eu”, ensinada em 1.3-11. Em Calvino, neste Comentário, encontraremos exposições magistrais, como por exemplo o ensino da pureza da Igreja, registrado em 6.14-7.1, onde ele nos dá o contexto completo da situação de envolvimento com descrentes vivida por alguns daquela igreja. Nesse trecho ele mostra que Paulo trata de questões que transcendem a comum aplicação ao matrimônio (“jugo desigual”), referindo-se à perda de foco do Povo de Deus e à promiscuidade relacional deste, com o mundo.

Ao relembrarmos o nascimento desse gigante de Deus, com ação de graças pelo seu legado, devemos orar para que o Soberano Senhor, através da leitura dos textos de Calvino, produza fruto de santidade e luz em nossas vidas.

Solano Portela
Leia Mais

terça-feira, junho 30, 2009

Mauro Meister

Mais 500 anos de Calvino - Salmos, volume 4

Recentemente tive a oportunidade de passar por Genebra e verificar in loco como estão ocorrendo ali as comemorações dos 500 anos do nascimento do João Calvino (10 de julho). Logo na chegada fica óbvio que na cidade onde o reformador exerceu seu ministério a sua contribuição não foi esquecida. Folhetos, cartazes e folders estão expostos em vários lugares e quem vai ali com a curiosidade que eu fui, logo encontra os sinais da herança do reformador. Muito diferente de uma visita há mais de vinte anos quando nao era tão fácil encontrar todo este tipo de informação.

Peças de teatro tendo Calvino como foco estão em cartaz e uma exposição temporária no Musée international de la Réforme (Museu Internacional da Reforma) mostra "Um dia na vida de Calvino", tentanto trazer para perto do público o que teria sido um dia de atividades na vida do reformador. Muito interessante a mostra, feita em blocos de cenas com textos, orações e possíveis diálogos do reformador, começando com suas orações matinais (4:00h), aula, refeição, sua participação no julgamento de Miguel Serveto até a hora de deitar-se (21:00h). Não trata-se de 'louvação', mas de um retrato da 'vida diária' que traz bastante luz sobre a piedade, firmeza, controvérsia e relações de Calvino com seus amigos e a cidade de Genebra.


Tudo isto escrevo a título de introdução do real ponto desta postagem, que
é a publicação do quarto volume do Comentário de Salmos, o qual tive o privilégio de prefaciar. Os comentários de Calvino permanecem como uma rica fonte para a interpretação bíblica até os dias de hoje e creio que a publicação dos mesmos na língua portuguesa enriquece profundamente as nossas condições de aprender sobre a exegese bíblica e o método de interpretação desenvolvido pelo reformador. Abaixo, deixo o prefácio falar...

Ainda muitos livros serão escritos procurando entender todas as dimensões sobre as quais a Reforma Protestante deixou o seu legado e as mudanças que causou para a história da humanidade. Para que esta reforma acontecesse, vários pequenos e grandes movimentos foram postos em curso pelo Senhor da história. Um destes movimentos deu-se na área da interpretação das Escrituras, que foi libertada da interpretação alegórica e da força da tradição da igreja da Idade Média. Grandes intérpretes foram levantados por Deus e capacitados com várias sortes de dons e talentos para que um grande salto pudesse ser dado na história da interpretação. Neste contexto é que aparecem os comentários de João Calvino, um grande teólogo, pastor, lingüista, intérprete e comentarista do seu tempo.

Uma das fortes características do movimento reformado foi a busca do sentido literal, gramático e histórico do texto da Bíblia, e, neste sentido, João Calvino foi reconhecido como o “Rei dos Comentaristas”.[1] Há muitos aspectos introduzidos nos comentários de Calvino que são praticamente desconhecidos para a sua época. Isto não significa, é claro, que Calvino interpretou de forma absolutamente independente. Como acadêmico, ele buscou as fontes disponíveis em seu tempo e trabalhou seus comentários de forma contextualizada, comparando sua interpretação com os escritos dos rabinos, os Pais da Igreja e comentários de seus contemporâneos. É bem verdade que o período da Reforma foi um de florescimento do interesse sobre as línguas originais e o texto da Escritura, o que gerou uma grande quantidade de comentários. Calvino tirou toda a vantagem deste ambiente para desenvolver o conhecimento do grego e do hebraico e aplicá-los na interpretação. Com estas ferramentas Calvino destaca-se no século XVI por sua originalidade, profundidade e valor permanente dos seus escritos. Não são muitos os textos e comentários que sobrevivem ao tempo de seu autor e aqui estamos nós, quatro séculos e meio depois, dispensando grande energia e recursos, para que esta obra se faça disponível para os leitores de língua portuguesa.

A obra magna de Calvino, As Institutas da Religião Cristã, já demonstrou ao longo dos séculos a sua importância e relevância como teólogo. Aos poucos, os comentários de Calvino publicados nesta série vão descortinando o pastor e intérprete. Cabe dar conhecimento ao leitor sobre a forma como nasceram estes comentários. Tendo sido pastor durante duas décadas e meia em Genebra, Calvino adotou como forma de pregação o método de exposição consecutiva das Escrituras. Ele começava suas séries de pregação no primeiro verso do primeiro capítulo de um livro e caminhava até o último verso do último capítulo. Normalmente, quando terminava um livro, começava o próximo. Tendo feito a devida preparação em oração, subia ao púlpito portando apenas o texto hebraico ou grego e pregava extemporaneamente. Assim, produziu milhares de sermões, dos quais cerca de pouco mais de 2000 foram preservados e muitos ainda carecem de publicação. Estes foram compilados ipsissima verba, durante 11 anos, por um homem chamado Denis Raguenier, pago para tal pelo serviço de diaconia da igreja de Genebra.[2] Os comentários, escritos posteriormente, eram baseados em suas exposições para a congregação, fossem sermões, aulas ou palestras. Logo, a pregação e o ensino de Calvino à congregação serviam como o elemento fomentador de seus comentários, onde sua alma de pastor transparece com grande clareza. Não é incomum encontrar as belas orações de Calvino ao fim de algumas de suas exposições, deixando a todos face a face com Deus.[3] Na verdade, um motivador específico para a publicação dos comentários de Calvino era o seu temor de que suas pregações e palestras viessem a ser publicadas contra a sua vontade. Para que não viesse a acontecer, debruçou-se para completar os comentários que viriam a ser publicados conforme a sua vontade (vol 1, p.32).

Os comentários de Calvino cobrem pelo menos setenta e cinco por cento dos livros do Antigo Testamento e sabe-se que alguns deles foram escritos concomitantemente à pregação, entre eles o comentário em Salmos. Já na dedicatória, “Aos leitores piedosos e sinceros”, Calvino afirma que sua decisão final de escrever este comentário específico se deu em função dos “apelos dos meus irmãos”, o que até então ele julgava desnecessário em função do comentário de Salmos de seu contemporâneo, Martin Bucer.

Ao contrário da imagem rígida transmitida pelas gravuras que retratam a face de Calvino, somada à densidade das Institutas e as asseverações contundentes contra as heresias de todas as espécies e, especialmente o Catolicismo Romano[4], encontramos no comentário de Salmos de Calvino a face e voz de um homem que compreende profundamente os sentimentos da alma. Ele mesmo afirma na introdução aos Salmos que denomina este livro de “Uma anatomia de todas as partes da alma”, e, por certo, ele escrutina a sua própria alma em seus comentários. Aliás, é na dedicatória ao comentário dos Salmos que encontramos alguns raros e preciosos dados autobiográficos de Calvino. O tom de denúncia contra o erro nunca e esvaziado, mas a voz do pastor é presente.

Outra área que distingue Calvino em seus comentários é como hebraísta. É óbvio que não se pode esperar que usasse, anacronicamente, os conhecimentos e recursos que são posteriores à sua época. Mas, com certeza, não se pode deixar de observar que ele avança significativamente na aplicação do conhecimento da língua hebraica na interpretação. Uma de suas claras convicções é de que o conhecimento da língua original é fundamental para a compreensão do texto e para a boa exegese. Justamente no quesito exegese é que a habilidade de Calvino supera o que foi produzido em seu tempo. Ele mantinha a convicção de que compreensão gramatical precede a compreensão teológica. No comentário dos Salmos o uso do hebraico transita entre o trabalho lexical e a gramática. Comparando as traduções bíblicas e outros comentários, incluindo comentários rabínicos, faz acertadas propostas de tradução para o texto, discutindo com grande habilidade a relevância, por exemplo, a questão da tradução dos verbos, o significado específico de determinadas partículas e seu uso. Num tempo em que o estudo gramatical tendia pesadamente para o prescritivo, Calvino discute o uso contextual de palavras e expressões.

Como filho de seu tempo, lutando contra séculos de interpretação alegórica e tendenciosa, Calvino deu passos visíveis em direção contrária. Ele afirma que “O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é natural e óbvio”.[5] A habilidade em ir “da mera letra, além” e observar a intenção das palavras e seu autor é fundamental para qualquer intérprete e, principalmente, para aqueles que vão interpretar as Escrituras. Calvino, mais uma vez, destaca-se! Neste sentido, a leitura dos comentários de Calvino torna-se uma ferramenta importantíssima para aqueles que desejam compreender o texto com profundidade e desenvolver habilidade semelhante como intérpretes.

Deixo um alerta ao leitor que primeiramente aproxima-se dos comentários de Calvino: espere certos ‘saltos’ interpretativos, o que alguns podem considerar como interpretação alegórica. O fato é que Calvino, ao ler o Antigo Testamento com uma visão cristocêntrica, muitas vezes chega diretamente a aplicações neo-testamentárias no texto. Veja-se, por exemplo, a leitura de Calvino nos Salmos. Ele parte sempre do pressuposto cristão de que Israel corresponde à Igreja, o que, na teologia reformada, é perfeitamente aceitável e desejável. Entretanto, é importante notar a necessidade de uma leitura escalonada, na qual, primeiramente, deve-se ver o sentido pretendido pelo autor humano do texto e aplicado ao seu próprio tempo. Em vários de seus comentários, Calvino simplesmente segue para o próximo passo. Um exemplo claro encontra-se no Salmo 133, onde Israel é apontado como a Igreja e a unção com o óleo sobre a cabeça de Arão, que desce sobre a barba e gola da vestes do sacerdote, como Cristo, o cabeça, e a sua Igreja: “assim somos levados a entender que a paz que emana de Cristo como a cabeça é difusa por toda a extensão e amplitude da Igreja” (comentário no Salmo 133). Ainda que esta seja a conclusão final esperada, trata-se mais diretamente de uma aplicação do texto, o que, entendemos, é desejável em um sermão, mas, deve ser mais minuciosamente explicado em um comentário. Mas esperar que estes comentários se adaptem ao nosso formato contemporâneo de comentário, novamente, seria um desejo anacrônico. Por outro lado, observa-se em seus comentários uma percepção aguçada entre os aspectos de continuidade e descontinuidade entre o Antigo e Novo Testamentos, dando a base sobre a qual a teologia calvinista viria a desenvolver-se.

Estes comentários devem fazer parte da biblioteca daqueles que desejam desenvolver uma compreensão profunda e coerente do livro dos Salmos, tanto pela sua perspectiva histórica quanto pela capacidade que Calvino demonstra em tocar a alma dos “leitores piedosos e sinceros” na exposição da Palavra de Deus.

[1] Schaff, Phillip. “Calvin as a Commentator” em The Presbyterian and Reformed Review (3:11, 1892), p. 462: “Se Lutero foi o rei dos tradutores, Calvino foi o rei do comentaristas”

[2] Olson, Jeannine. Calvin and Social Welfare: Deacons and the bourse française. Selinsgrove, PA, EUA: Susquehanna University Press, 1989, p. 47.

[3] Além das orações mantidas em seus sermões, como parte da própria exposição, muitas orações estão também em seus comentários.

[4] Em Salmos, vol. 1, p. 39, Calvino revela a sua motivação em publicar as Institutas da Religião Cristã: “Meu objetivo era, antes de tudo, provar que tais notícias eram falsas e caluniosas, e assim defender meus irmãos, cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor; e meu próximo objetivo visava a que, como as mesmas crueldades poderiam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas, as nações estrangeiras fossem sensibilizadas, pelo menos, com um mínimo de compaixão e solicitude para com elas.”

[5] Citado em Lawson, Steven. A arte expositiva de João Calvino. S. J. Campos: Editora Fiel, 2008, p. 72. Do Comentário aos Gálatas, capítulo 4, verso 22.

Leia Mais