domingo, março 14, 2010

Solano Portela

Palavrão – "só pra garantir esse refrão"?

Eu não tenho nada pra dizer

Eu não tenho mais o que fazer

Só pra garantir esse refrão

Eu vou enfiar um palavrão! ...


Com essa quadrinha, composta nos idos de 1997, a banda Ultraje a Rigor consolidava seu sucesso, junto com várias outras canções, que, renitentemente teimavam em se apegar à nossa memória (“vamos invadir sua praia”; “eu me amo, não posso mais viver sem mim”; “a gente somos inúteis”, etc.).


Nas apresentações ao vivo da música “Nada a Declarar” na qual a quadrinha está inserida, como refrão, logo após “eu vou enfiar um palavrão”, Roger, líder do grupo, “enfiava”, mesmo. O palavrão, na realidade uma palavrinha curta, chula, monossilábica, era proferido em uníssono e repetido em êxtase pela galera!


Bem, a Banda estava fazendo jus ao nome, ultrajando. A idéia era chocar, movimentar, agitar – sem nenhuma consideração quanto à propriedade ou impropriedade do termo; ou quanto à necessidade de recato; ou ainda, quanto ao caráter didático que esse linguajar “sublime” significaria para as jovens mentes e até criancinhas que cantarolavam e decoravam o refrão. O negócio, afinal, era tão somente faturar, o resto que vá às favas.


Mas o que choca, mesmo, não é o Ultraje a Rigor. É a facilidade com que palavrões, expressões grosseiras e chulas – quando não blasfemas – encontram guarida na boca de fiéis que, supostamente, procuram seguir os preceitos das Escrituras.


Não me refiro àqueles que, por treinamento intenso prévio (“exercitados”: 2 Pe 2.14) – na maioria das vezes antes de suas conversões, têm problemas e lutas nessa área, e se esforçam para abandonar velhos hábitos. Em minha vida tenho testemunhado a luta de vários cristãos para controlar a língua e as palavras. Muitos foram exercitados por anos de impiedade, ou ficaram submersos em empresas, escolas ou repartições onde o palavrão é a norma. Esses procuram de todas as maneiras mudar a linguagem – isso é visível a outros, para não entristecerem o Espírito Santo com a mesma boca que abençoam (Tiago 3.9-10).


O inusitado ocorre quando vemos alguns líderes cristãos, nos últimos tempos, seguindo mais o Ultraje a Rigor (“...eu não tenho nada pra dizer; também não tenho mais o que fazer...”) do que a Bíblia. Passaram a defender a instituição do Palavrão, junto com seus seguidores.


Um texto de um desses “pastores” foi-me enviado recentemente (apesar dele estar postado e circulando desde 25.09.2009). Ele foi escrito por conhecido líder, que hoje se ocupa bastante em disseminar vitupérios contra os que o “abandonaram”, em função de seu pecado, e a destilar amarguras, atribuindo hipocrisia genérica ao mundo cristão (não se preocupem, não vou dar o link, pois a sua peça, defendendo o linguajar chulo e grosseiro não merece divulgação adicional).


O texto responde a um consulente e seguidor fiel, que chama atenção para um vídeo de outro “líder cristão” que faz palestra em uma igreja. O palestrante é médico e o pretexto é a saúde e higiene dos ouvintes. Com esse objetivo, ele utiliza palavras grosseiras e, repetidamente, o famoso monossílabo, constrangendo e chocando alguns da platéia, enquanto a outra parte se delicia e gargalha (também não vou dar o link). O consulente, então, infere que não haveria motivo para aquele vídeo escandalizar nenhum crente. Compara, então, os que se escandalizam com os que engolem um camelo, mas se engasgam com um mosquito.


Provavelmente, o camelo, aqui, refere-se à violência ou mal tratos, enquanto que o mosquito seria o palavrão. A bandeira falaciosa de muitos, principalmente no campo secular, têm sido defender impropriedades, palavrões e até pornografia, dizendo que a pornografia verdadeira é a violência para com crianças, ou de pessoa contra pessoa. Ora, um não justifica nem anula o outro. Por que ambos não podem ser errados?


Pois bem, o pastor responde com uma ode ao palavrão. Indicando que quase morreu de rir, com o vídeo, não somente grafa o monossílabo várias vezes em seu texto, como acusa os que não o utilizam de hipócritas.


O ensino básico desse pensamento é que as barreiras de recato e moralidade são arcaicas, superadas. Que o exercício de uma suposta graça amorfa promove a verdadeira autenticidade e sinceridade; e o tráfego livre entre o impróprio e proibido, e o correto e socialmente defensável. Afinal, vivemos em uma matriz de convenções humanas. Para estes, a aproximação com Deus não cria a obrigação para com regras, mas a liberação dessas. Pelo que inferimos desses ensinos, não existem absolutos. Nos aproximamos de Deus e, no fluir dessa graça subjetiva, de uma maneira mística e indescritível, nada contradiz nossa forma e postura de vida. A única máxima, possivelmente, seria o “amor”, mas esse, fugindo ao sentido bíblico de procurar o interesse da pessoa amada, de “cumprimento dos mandamentos” (João14.15,21), passa a ser um termo vazio de significado, que abriga tudo sobre seu guarda-chuva, num reavivamento da Teologia Situacionista moribunda de Joseph Fletcher, tão popular na década de 60, do século passado.


Nesse universo imaginário, até o pecado é redefinido e a tolerância irrestrita é propagada. Ser contra palavrões, ou contra o palavrão-palavrinha, repetido ad nauseam no texto, é coisa de careta; de cristão retrógrado; de pessoas que ainda não atingiram esse patamar de pseudo-santidade estéril (pois não produz pureza), característica dessa nova ordem de iluminados.


Mas será que esse é o ensino da Palavra de Deus? Será que o derribar desses marcos regulatórios é a verdadeira missão e postura do cristão? Essa luz negra que projetam sobre minha vida procede mesmo da “lâmpada para os meus pés... e luz para os meus caminhos” (Sl 119.105)? Por certo que não. A Bíblia nos instrui que o recato ou pudor é virtude a ser cultivada. Especificamente ela alerta contra a falta de pudor (“impudiscícia”), que teima em se imiscuir na igreja, em Efésios 5.3: “Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos”.


É verdade que vivemos em uma era onde se fala cada vez menos nisso. As crianças se acostumam em um mundo onde a propriedade e modéstia no vestir e no proceder estão conspicuamente ausentes. Não é de espantar que a sexualidade precoce desponte como uma das grandes distorções e desvios do nosso século. Nossos ouvidos também vão se acostumando e a consciência se cauterizando com tantas impropriedades proferidas nos filmes, na televisão, nas rádios, nas músicas e no dia-a-dia da sociedade. No entanto, ver “líderes cristãos” rotulando o constrangimento perante a imoralidade de hipocrisia, leva-nos à vanguarda do absurdo. Para os tais o alvo é ser “liberado” das amarras incômodas, e comecemos essa jornada rumo à dissolução social e à devassidão moral, bem moderninhos e conectados, pelo linguajar. Por que exercer seletividade moral na palavra falada ou escrita?


Se não houvesse nenhuma outra razão, teríamos o exemplo dos escritores da própria Bíblia. Palavrões e linguagem chula sempre existiram na história da humanidade. Estão enraizados na natureza humana pecaminosa. Sempre houve uma forma apropriada e uma forma vulgar de se referir a tudo, especialmente a partes do corpo. Ora, por que então a Bíblia, que trata dos mais variados assuntos, utiliza palavras e expressões recatadas e apropriadas e não chulas, para se referir a elas? Certamente a comunicação adequada, preocupação do Autor da Bíblia, que a fez ser grafada na linguagem comumente falada, através das eras, não necessitava do emprego de linguagem imprópria. Falar com recato não impede a comunicação. Ou será que a utilização de palavrões, no seio do cristianismo, é nova forma de comunicação eficaz e grande descoberta; veículo de graça contemporânea, encontrado por essa nova casta de iluminados?


Mas a Bíblia vai além e fala especificamente da linguagem que deve caracterizar o servo de Deus:

  1. Em Tito 2.8, somos admoestados a ter “linguagem sadia e irrepreensível para que o adversário seja envergonhado não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito
  2. Efésios 4.29 diz categoricamente: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe e sim, unicamente, a que for boa para edificação...”
  3. Colossenses 3.8 mostra que o linguajar chulo é característica dos descrentes: “Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isso: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar”
  4. Tiago 1.26 parece falar aos que querem misturar religiosidade com linguajar impróprio: “Se alguém supõe ser religioso deixando de refrear a sua língua, antes enganando o próprio coração, a sua religião é vã”.
  5. Efésios 5.4 também, claramente, mostra como deve ser a comunicação do cristão. Gracejos e gozações grosseiras (chocarrices), palavras torpes e vãs não devem ter lugar em nosso falar: “...nem conversação torpe, nem palavras vãs, ou chocarrices, coisas essas inconvenientes...”.

Parece que o Roger, do Ultraje ao Rigor estava certo: na falta do que dizer; na falta do que fazer; defenda-se o palavrão. Mas o cristão tem o que falar e o que fazer. Não venham me enganar e dizer que tudo isso que a Bíblia condena deve estar presente na boca do cristão.

Solano Portela

-----------------------------------------------------

Sobre este assunto, sem representar endosso completo à totalidade do site, leia também: “Crente Boca Suja” em: http://www.sandrobaggio.com/2009/09/23/crente-boca-suja/

e

“O Falar Cristão”, em:

http://nasprofundezasdasimplicidade.blogspot.com/2009/06/o-falar-cristao.html

e, o excelente,

"Reflexão Óbvia Sobre os Palavrões", da Norma Braga. Sobre este post, de 2007, a autora diz o seguinte: "Hoje em dia o óbvio é novidade para muita gente, mesmo na igreja, que está entrando na onda do 'falar palavrão é legal' e, com isso, participam da atmosfera destrutiva que tem sustentado reviravoltas morais na sociedade".

Leia Mais

sexta-feira, março 12, 2010

Mauro Meister

DEREK W.H. THOMAS - CONVITE

Enquanto as coisas estão calmas por aqui, aproveito para um rápido convite.
O Dr. Derek Thomas, professor do Reformed Theological Seminary estará no Brasil para um curso no programa de Doutorado em Ministério do CPAJ e deverá pregar no próximo domingo, dia 14 de março, na Igreja Presbiteriana da Lapa, onde sou um dos pastores. Apresento o pregador:

Natural do País de gales, o Dr. Derek Thomas é professor de Teologia Sistemática do Reformed Theological Seminary, Jackson, MS. Após pastorear a Igreja Presbiteriana em Belfast, Irlanda do Norte, por 17 anos, o Dr. Thomas retornou aos Estados Unidos onde tem atuado ativamente como professor de seminário, pastor assistente na Primeira Igreja Presbiteriana de Jackson (PCA) e conferencista internacional. Dr. Thomas tem sido preletor principal nas seguintes conferências: Ligonier Conference (R. C. Sproul) e Shepherd’s Conference (Dr. John MacArthur), dentre outras. Além do mais, Dr. Thomas esteve no Brasil para a Conferência da Fiel em 1999.

Além de suas atividades ministeriais nos Estados Unidos Dr. Thomas atua como editor do Evangelical Presbyterian, uma revista mensal com circulação internacional. Dentre os vários livros por ele escrito podemos mencionar: The Storm Breaks:  Job Simply Explained, Wisdom:  the Key to Living God’s Way, and God Strengthens:  Ezekiel Simply ExplainedMaking the Most of Your Devotional Life based on the Ascent Psalms, Praying the Savior’s Way (uma exposição da Oração do Senhor). Recentemente Dr. Thomas publicou Let’s Study Revelation (Banner of Truth), Let’s Study Galatians (Banner of Truth) e Calvin’s Teaching on Job: Proclaiming the Incomprehensible God (Christian Focus). Finalmente ele atuou como co-editor da obra Give Praise To God: A Vision for Reforming Worship (P & R).

Derek é casado com Rosemary por quase 30 anos e eles têm dois filhos adultos: Ellen e Owen.
Dia: 14/03/2010
Horário: 18:00h

Esperamos sua visita.
Igreja Presbiteriana da Lapa (Rua Roma 465, Lapa, SP - Fone: 11-3864-6974)
Leia Mais

quinta-feira, março 04, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Impressões do Congresso de Teologia do Mackenzie

Por     47 comentários:
Acabou ontem a noite o Congresso Internacional de Teologia, realizado no Mackenzie e tendo como principal preletor Dr. Michael Horton, com mais de uma dezena de livros publicados em português. A freqüência às palestras de Dr. Horton e dos demais preletores superou a expectativa dos organizadores do evento. Diversas oficinas foram oferecidas durante as tardes, e as salas reservadas ficaram pequenas para a grande afluência de interessados. Na noite da abertura havia perto de 800 pessoas no auditório Ruy Barbosa. As palestras foram também transmitidas ao vivo pela internet. Juntamente com o fato de que a maioria do público participante era composta de pastores, professores e alunos de teologia, a transmissão ao vivo aumentou bastante o potencial multiplicador do Congresso.

Um stand de livros teológicos selecionados ofereceu obras até com 50% de desconto, de diversas publicadoras, com vendas recorde em eventos anteriores realizados no Mackenzie. Na última noite, tivemos o lançamento do último título do Dr. Horton no Brasil, Cristianismo sem Cristo.

Acho que a causa da grande procura pelo evento foi seu objetivo principal, de identificar, analisar e mostrar os prejuízos do antigo liberalismo teológico e das teologias modernas que ainda seguem em sua esteira no Brasil. As palestras principais do evento mostravam claramente esta tendência. Além daquelas de Dr. Horton mostrando as falácias do liberalismo e da neo-ortodoxia, tivemos outras como "O fim do método histórico-crítico", que tive o prazer de apresentar, e "Teologia e Academia: Os opostos se atraem?" por Dr. Hermisten Costa.

As oficinas também foram nesta direção, explorando as origens, falácias e perigos do liberalismo teológico, antigo e novo.

Uma oficina que chamou a atenção foi a de Franklin Ferreira, onde ele mostrou que o "Cristianismo positivo" professado por Hitler e seu partido nazista era resultado do liberalismo teológico dos séculos 19 e 20. O anti-semitismo, a rejeição do Antigo Testamento, a negação de Jesus como judeu e de Paulo como rabi, e tudo mais, encontra ressonância nas obras de liberais como Schleiermacher, Wellhausen, Harnack. Dr. Franklin usou entre outras fontes a obra recente lançada no Brasil, O santo reich, de Richard Steigmann-Gall, publicada pela Imago, onde essa associação entre o protestantismo liberal e o nazismo é claramente documentada. O prestigiado jornal americano Sunday Times endossou a tese do livro dizendo "… connects Nazism to liberal Protestantism in a convincing way" (... [o livro] conecta o Nazismo ao Protestantismo liberal de maneira convincente").

No geral, vejo o Congresso como parte do movimento crescente no Brasil em busca de uma teologia bíblica, que respeite as Escrituras como a infalível Palavra de Deus, que leve a sério seus ensinamentos como um todo, ao mesmo tempo em que rejeita cada vez mais o liberalismo teológico que, apesar da negação de muitos, continua sendo ensinado e disseminados nos seminários e escolas de teologia do Brasil.
Leia Mais

segunda-feira, março 01, 2010

Mauro Meister

Michael Horton ao Vivo

Para assistir as palestras do Dr. Horton ao vivo, vá até a página principal do Mackenzie e procure por este link (está logo no topo da página):

 
Todas as palestras na programação do evento serão transmitidas e posteriormente disponibilizadas para download. Bom congresso a todos os internautas!

Leia Mais

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Mauro Meister

Matemática Teológico-eclesiástica

Como estes são temas recorrentes em nosso blog, e andamos um pouco 'parados' nos posts, vou lançar um desafio sério aos leitores (motivação para o fim de semana):

Completarem a série de cálculos usando fórmulas.

A série inicial retirei de um livro de Mark Driscoll, Confissões de um pastor da reformissão (Rio de Janeiro: Editora Tempo de Colheita, 2009):


Evangelho + Cultura - Igreja = organização para eclesiástica


Cultura + Igreja - Evangelho = Liberalismo


Igreja + Evangelho - Cultura = Fundamentalismo


Evangelho + Cultura + Igreja = Reformissão

As fórmulas podem ser mais elaboradas e ir além das duas operações básicas acima. Imagine-as com multiplicação e divisão, em alguns casos, números não inteiros, a necessidade de encontrar o MDC, etc.

Vejamos os resultados...
Leia Mais

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Carta a Jean Martin Ulrico

[O Rev. Jean Martin Ulrico é um pastor fictício. A correspondência, por sua vez, se baseia em fatos bem reais]

Meu caro Jean Martin Ulrico,
Somente hoje pude ler sua mensagem. Lamento que os atritos entre você e o Conselho da igreja tenham piorado. Todavia, era esperado que a liderança de sua igreja, bem como grande parte dela, estranhassem as mudanças que você vem tentando fazer no culto nos últimos meses, como fruto da mudança que ocorreu em sua vida depois que você abraçou o “neo-puritanismo”.
É com pesar, Jean Martin, que acompanhei sua adesão gradual a estas idéias nos últimos meses, e as suas tentativas de impor estas idéias em sua igreja, tendo como resultado o atual conflito em que vive. Receio que este conflito venha a minar seu pastorado e prejudicar a boa abertura que você vinha tendo para difundir a fé reformada em sua Igreja.
Eu me recordo quando o termo “neo-puritano” passou a ser usado aqui no Brasil. Acho que você nem estava ainda no seminário. Foi quando um grupo de irmãos reformados passou a defender zelosamente certas práticas litúrgicas que vieram a considerar essenciais para a reforma do culto e da adoração correta a Deus, como a abolição dos instrumentos musicais, corais e grupos de louvor no culto, bem como a abolição de qualquer outro louvor que não fosse os salmos, e de preferência, aqueles metrificados do Saltério Genebrino. A isto, acrescentou-se a proibição da mulher cristã orar no culto e a ensinar qualquer outra classe que não fosse das crianças. Alguns deles chegam a defender o uso do véu ou chapéus por parte das mulheres durante o culto, como em algumas igrejas neo-puritanas modernas em países de fala inglesa. Outros chegaram até mesmo a proibir que a mulher orasse em família, se o marido estivesse presente. Começaram a classificar o culto prestado nas igrejas reformadas e suas co-irmãs como corrompido e desfigurado.
Quando eu escrevi na semana passada que você estava virando neo-puritano, você reclamou, dizendo que rotulações são injustas e cobrou que eu definisse o rótulo “neo-puritano”. OK, vamos lá. Esse designativo surgiu da necessidade de se deixar claro que aquilo que este grupo novo estava disseminando não era a essência da Reforma protestante, e nem mesmo o consenso entre os reformados e antigos puritanos. Era preciso evitar que os sentimentos de forte rejeição aos ensinamentos deste grupo se estendessem às próprias doutrinas da Reforma e descolá-los das grandes doutrinas da graça características da Reforma.
O título “neo-puritanos” passou a ser usado, então, para identificar os aderentes destas práticas como um movimento distinto dentro das igrejas reformadas, que, por um lado, quer ter ligações com os antigos puritanos – no que os reformados em geral concordam –, mas que, por outro, representa o ressurgimento das práticas de alguns grupos radicais de entre os puritanos. Ou seja, elas nunca foram consenso entre eles e nem foram jamais aceitas por denominações presbiterianas e reformadas ao redor do mundo. Quando muito, está restrita a algumas pequenas comunidades reformadas na Europa e nos Estados Unidos.
Eu sei que nenhuma rotulação é boa, mas às vezes, infelizmente, acaba se tornando útil. A utilidade neste caso foi de permitir que se diga “sou Reformado, porém, não sou neo-puritano”. Também estou ciente de que você e outros rejeitam veementemente esta rotulação e não se entendem como tais. Antes, se vêem como os verdadeiros presbiterianos, estando todos os demais errados, inclusive aqueles que comungam com vocês de posições teológicas bíblicas e conservadoras, o que torna o diálogo e o esclarecimento das idéias ainda mais difícil. Eu mesmo tenho um bom relacionamento com vários destes irmãos neo-puritanos, mas tenho experimentando esta dificuldade.
Não nego, meu caro Jean Martin, que você está correto em vários pontos. Concordo com você que igrejas reformadas e denominações históricas no Brasil têm admitido no culto a Deus elementos estranhos às Escrituras e tornado este culto em um exercício antropocêntrico. Também concordo que é preciso purificar o serviço divino destes acréscimos humanos. Você também está certo quando me lembra de nossa herança puritana. É fato histórico de que a Confissão de Fé de Westminster, adotada como padrão doutrinário por todas as igrejas presbiterianas do mundo, foi escrita pelos puritanos. Todavia, pondere no que vou dizer em seguida.
Primeiro, lembre que o Brasil, infelizmente, ainda está longe de conhecer a Reforma protestante e suas principais doutrinas, resumidas nos solas ou nos cinco pontos do Calvinismo. Se em vez de pregar estas idiossincrasias de alguns grupos puritanos, e em vez de querer impô-las em sua igreja, você tivesse se concentrado em pregar as grandes doutrinas da graça, prestaria um enorme serviço ao Reino de Deus. Como está, infelizmente, você só conseguiu provocar polêmicas, discórdias e dissensões dentro da sua igreja, criando uma eclesiola in eclesia (igrejinha dentro da igreja).
Segundo, não esqueça que você é pastor de uma denominação (a IPB) que adota decisões de seus concílios como regra para todas as igrejas e membros. Há muitas decisões da IPB que deixam claro que a denominação aceita corais, orquestras, instrumentos de música, o ministério não-ordenado das mulheres, o cântico de hinos e outras composições, as celebrações das datas do calendário eclesiástico. Em e-mails anteriores, você reclamou de pastores e presbíteros liberais e pentecostais dentro da IPB que não honram os votos que fizeram na ordenação, quais sejam: aceitar a Confissão de Fé de Westminster como fiel exposição da Palavra de Deus, aceitar o governo da IPB, sua constituição e Princípios de Liturgia. Todavia, você também jurou aceitar o governo da IPB e sua Constituição, que inclui os nossos Princípios de Liturgia e as decisões dos concílios. Não há uma incoerência nisto?
Jean, meu conselho é que você não vá adiante nessa tentativa de mudar as coisas a ferro e fogo. Se suas convicções o impedem realmente de acatar a liturgia da IPB, trate deste assunto com seu presbitério e busque orientação quanto ao que fazer junto aos concílios. Receba meus conselhos como de um pai – afinal, tenho idade para isto.

Um grande abraço,
Augustus
Leia Mais

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Mauro Meister

Michael Horton no Brasil em Março (2010)

          Prezados leitores do tempora-mores, vejam quem estará conosco no mês de março! O Dr. Michael Horton.
          Ele virá ao Brasil para participar do Congresso Internacional de Religião, Teologia e Igreja, focando suas falas no tema do liberalismo teológico. Junto com ele, mantendo a tradição do debate, estarão outros palestrantes.

Quem é Michael Horton:
B.A., Biola University; M.A., Westminster Seminary California; Ph.D., University of Coventry e Wycliffe Hall, Oxford.

Professor de apologética e teologia no Westminster Theological Seminary na Califórnia, nos EUA, é presidente do White Horse Media – que promove programas de rádio que analisam questões da teologia reformada no contexto norte-americano –, e editor chefe da revista Modern Reformation. É autor de vinte livros, sendo que vários já foram publicados em português.



          Dr. Horton tem 10 livros traduzidos para o português pela editora Cultura Cristã, dentre os quais
  • O Cristão e a Cultura 
  • A Face de Deus 
  • As doutrinas da maravilhosa graça 
  • Um Caminho Melhor 
  • A Lei da Perfeita Liberdade
  • Creio
AGENDA:
  • Dia 28 de fevereiro, domingo: culto na Igreja Presbiteriana da Lapa, 18:00h
  • Dia 01 de março, segunda: palestra, 20:00h, Mackenzie
  • Dia 02 de março, terça: palestra, 10:30h, Mackenzie
  • Dia 03 de março, quarta: palestra, 10:30h e 19:30h, Mackenzie
  • Dia 04 de março, quinta: aula especial em curso do CPAJ, período da manhã (somente para alunos).
Veja a programação completa do congresso no site: http://www.mackenzie.br/congresso_religiao.html.


Acesse o site do congresso e inscreva-se. As CEM primeiras inscrições são gratuitas.  O prazo final para inscrições é dia 23/02/2009.

Esperamos vê-lo por lá.
Leia Mais

sábado, janeiro 16, 2010

Solano Portela

Chorando pelo Haiti e por nossas tragédias domésticas – reflexões a partir de Lucas 13.1-9


          As lembranças das inundações de 2008, em Santa Catarina, ainda estavam bem presentes conosco, quando testemunhamos as mortes e prejuízos resultantes de deslizamentos, desmoronamentos e alagamentos nesta transição 2009/2010, em nosso Brasil. Depois, nos últimos dias, estamos sendo impactados com o terremoto no Haiti. Temos testemunhado e chorado com o conseqüente sofrimento chocante, intenso e extremamente abrangente, que nos remete ao Tsunami de 26.12.2004, no Oceano Índico, quando pereceram cerca de 220 mil pessoas.

         Não sabemos ainda a extensão da tragédia causada pelo terremoto no Haiti. Alguns falam em 200 mil mortos, sem contar aqueles que ainda enfrentarão as doenças e conseqüências da falta de higiene, alimentos e cuidados médicos. A desagregação de famílias e daquela sociedade, já tão fragmentada pela miséria e ausência de governo, corta o nosso coração. Enquanto vemos as cenas de dor e tristeza, e avaliamos tudo isso, procurando aferir o que podemos e devemos fazer, somos levados às Escrituras para procurar alguma compreensão trazida pelo próprio Deus, para esses desastres.

          Acima de tudo, devemos resistir à tentação de procurar respostas que diminuem a bíblica soberania e majestade de Deus, e consequentemente a sua pessoa. Tais “explicações”, “conclusões” e “construções” aparentam ser plausíveis, mas revelam-se meramente humanas, pois contrariam a revelação das Escrituras. Esse tipo de resposta sempre aparece, quando ocorrem tais acontecimentos; elas não são novidade nem têm surgido apenas em nossos dias.

          Por exemplo, em novembro de 1755 a cidade de Lisboa foi praticamente arrasada por um grande terremoto. A conclusão emitida por padres jesuítas foi a de que: “Deus julgou e condenou Lisboa, como outrora fizera com Sodoma”. Voltaire (François Marie Arouet), que era um deísta, escreveu em 1756 “Poemas sobre o desastre em Lisboa”. Ali, ele culpa a natureza e a chama de malévola, deixando no ar questionamentos sobre a benevolência de Deus. Jean Jacques Rousseau, respondeu com “Carta sobre a providência”. Nela ele culpa “o homem” como responsável pela tragédia. Ele aponta que, em Lisboa, existiam “20 mil casas de seis ou sete andares” e que o homem “deveria ter construído elas menores e mais dispersas”. Ou seja, procurando “inocentar a Deus e a natureza” ele coloca a agência da tragédia no desatino dos homens.[1]


          Sobre o terremoto no Haiti, à semelhança do que ocorreu no Tsunami, vi alguns depoimentos de pastores, falando sobre a “mão pesada de Deus, em julgamento”; opinião semelhante à emitida quando do acidente com o avião que transportava o grupo “Mamonas Assassinas”, em 1996.

          Ainda outros, procuram uma teologia estranha às Escrituras, para “isolar” Deus da regência da história. São os mesmos que, quando da ocorrência do Tsunami e do acidente ocorrido com o Vôo 447 da Air France em junho de 2009, emitiram a seguinte conclusão: “Diante de uma tragédia dessa magnitude, precisamos repensar alguns conceitos teológicos” (veja as excelentes reflexões sobre esse último desastre, no post do Augustus Nicodemus, neste mesmo blog). No entanto, em vez de formularmos nossa teologia pelas experiências, voltemo-nos ao ensinamento do próprio Jesus.

          Em Lucas 13.1-9 temos instrução pertinente sobre vários tipos de tragédias. A primeira tragédia tratada é aquela gerada por homens (Vs 1-3). Certos galileus haviam sido mortos por soldados de Pilatos. A Bíblia diz que “alguns” colocaram-se como críticos e juízes (a resposta de Jesus infere isso); deduziram que aqueles que haviam sofrido violência humana, sangue derramado por armas (em paralelo às situações que vivemos nos nossos dias) seriam mais pecadores do que os demais. O ensino ministrado é o seguinte: Não vamos nos colocar no lugar de Deus. Não vamos nos concentrar em um possível juízo ou julgamento sobre as vítimas. Jesus, em essência diz: cuidem de si mesmos! Constatem os seus pecados! Arrependam-se!

          Mas ele nos traz, também, um segundo tipo de tragédias. Esta que é referida é semelhante, guardadas as proporções, à ocorrida no Haiti. São tragédias geradas por “fatalidades”. Ele fala da Torre de Siloé. O texto (Vs 4-5) diz que ela desabou, deixando 18 mortos. Jesus sabia que mesmo quando, aos nossos olhos, mortes ocorrem como conseqüência de acidentes, isso não impede que rapidamente exerçamos julgamento; não impede que tentemos nos colocar no lugar de Deus. E Jesus pergunta: “Acham que eram mais culpados do que todos os demais habitantes da cidade”? O ensino é idêntico: Não se coloquem no lugar de Deus; não se concentrem em um possível juízo ou julgamento sobre as vítimas; cuidem de si mesmos! Constatem a sua culpa! Arrependam-se!

         O surpreendente é que Jesus passa a ilustrar o seu ensino com uma parábola (Vs.6-9). Ele fala de uma figueira sem fruto. Aparentemente, a parábola não teria relação com as observações prévias, mas, na realidade, tem. Ela nos ensina que vivemos todos em “tempo emprestado” pela misericórdia divina.

Figueiras existem para dar frutos - o homem vinha procurar frutos - essa era sua expectativa natural. Todos nós fomos criados para reconhecer a Deus e dar frutos. Esse é o nosso propósito original.

Figueiras sem frutos “ocupam inutilmente a terra”. O corte é iminente, e justificado a qualquer momento.

O escape: É feito um apelo para que se espere um pouco mais, na esperança de que, bem cuidada e adubada, a figueira venha a dar fruto e escape do corte.• Lições para o vizinho? Jesus não apresenta a figueira como um paralelo para comparação com outras pessoas – cujas existências foram ceifadas como vítimas de violência ou fatalidades. Ele quer que nos concentremos em nós mesmos, em nossas próprias vidas, pecados e na necessidade de arrependimento.

Tempo emprestado: O que ele está ensinando e ilustrando, aqui, é que nós, você e eu, como os habitantes do Haiti, vivemos em tempo emprestado; vivemos pela misericórdia de Deus; vivemos com o propósito de frutificar, de agradar o nosso proprietário e criador.

          Creio que a conclusão desse ensino, é que, conscientes da soberania de Deus e de que ele sabe o que deve ser feito, não devemos insistir em procurar grandes explicações para as tragédias e fatalidades. Jesus nos ensina que teremos aflições neste mundo (João 1.33) - essa é a norma de uma criação que geme na expectativa da redenção. 1 Pe 4.19 fala dos que sofrem segundo a vontade de Deus. Lemos que não devemos ousar penetrar nos propósitos insondáveis de Deus; não devemos “estranhar” até o “fogo ardente” (1 Pe 4.12).

          Assim, as tragédias, desde as locais pessoais até as gigantescas, de características nacionais e internacionais, são lembretes da nossa fragilidade; de que a nossa vida é como vapor; de que devemos nos arrepender dos nossos pecados; de que devemos viver para dar frutos.

          Também, não cometamos o erro de diminuir a pessoa de Deus, indicando que ele está ausente, isolado, impotente. Como tantas vezes já dissemos, “Deus continua no controle”. Lembremos-nos de Tiago 4.12: “um só é legislador e juiz - aquele que pode salvar e fazer perecer”. Não sigamos, portanto, nossas “intuições”, no nosso exame dos acontecimentos, mas a Palavra de Deus. Como nos instrui 1 Pe 4.11: “ se alguém falar, fale segundo os oráculos de Deus”.

          Em paralelo, não podemos cometer o erro de ser insensíveis às tragédias - Pv 17.5 diz: “o que se alegra na calamidade, não ficará impune”; mesmo perplexos, sabendo que não somos juízes nem videntes. Devemos nos solidarizar com as vítimas, na medida do possível. Um dos nossos comentaristas, em outro post, falou em começarmos uma campanha para auxílio às vítimas do Haiti. Não temos estrutura para fazer isso, como Blog e como blogueiros. No entanto existem aqueles que, chamados para tal, estão estruturados. De nossa parte, estamos procurando motivar os funcionários e alunos da instituição na qual trabalhamos (um total de 47 mil pessoas) a auxiliar de duas maneiras:


1. Para auxiliar os atingidos pela inundação de São Luís do Paraitinga, a mais próxima a nós, trazendo à capelania universitária (Prédio 50, do Mackenzie) doações de não-perecíveis, roupas e produtos de higiene.

2. Para auxiliar as vítimas do terremoto no Haiti: Ajuda através da organização de raízes cristãs, Visão Mundial (CNPJ: 18.732.628/0001-47), por depósito nas contas - Bradesco (Ag.: 3206-9 / CC: 461666-9), ou Banco do Brasil (Ag.: 0007-8 / CC: 16423-2).

“Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade” ( 1 João 3.17-18).

Solano Portela



[1] Folha de S. Paulo 28/12/2004; Jornal do Commércio - Recife - 2/1/2005, de onde foram extraídas as citações desse trecho.
-------------------------------------------------
Adaptado de estudos e sermões proferidos em 2005
Leia Mais

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Solano Portela

O deslumbramento com a erudição católico-romana.

Recentemente, chamou-me atenção a utilização, por um pastor presbiteriano, de um livro texto de um autor católico-romano para ensinar ética cristã em um curso de Escola Dominical. Os alunos foram incentivados a adquiri-lo e a tê-lo como base de instrução. O caso é intrigante, pois existem diversas obras bem escritas e fundamentadas, no campo reformado e evangélico sobre ética cristã. Por que não utilizar essas? A questão é tão amorfa e indefinida assim, que qualquer base interpretativa serve de alicerce? As cabeças dos alunos, não estariam sendo confundidas, em vez de esclarecidas? Após verificar o livro, em detalhe, fiquei ainda mais espantado, pois a base fundamental dele era a apresentação da Bíblia como uma compilação meramente humana de escritos religiosos, que não retratavam, necessariamente, os fatos ou situações descritas com veracidade ou autoridade. [1] Como desenvolver a compreensão de uma ética bíblica, se a própria Bíblia é colocada em suspeição?

          A verdade é que há um deslumbramento em nossas instituições evangélicas de ensino, e em muitos pastores e líderes evangélicos, com a erudição católico-romana. Vários autores são pinçados a dedo como paradigmas da boa metodologia científica e erudição teológica (Croatto, Segundo, Mailhiot. Schökell, Lohfink, Schüssler-Fiorenza, e outros).[2] Há uma conseqüente importação de temas, por vezes já superados nas próprias academias que os originaram: a Alta Crítica (O Pentateuco não é da lavra de Moisés, mas obra de quatro redatores, identificados pelas primeiras letras dos nomes utilizados para designação da divindade ou do período nos quais foram escritos: JEDP), a Crítica da Forma, e – ainda a grande pérola querida da academia – a Crítica do Texto. Todas essas correntes presentes em alguns círculos teológicos do evangelicalismo têm em comum o descartar da Escritura Sagrada como texto inspirado; como revelação em forma objetiva, com proposições aferíveis (revelação proposicional) à humanidade, como Palavra de Deus confiável.

          Procura-se hoje a análise do discurso, como forma de se chegar a uma compreensão da verdadeira mensagem que o autor ou autores procuraram registrar, e que está confundida com mitos, adições e trabalhos redacionais. Segundao esta visão, não existe texto íntegro. Todos estão sujeitos ao escrutínio da mente e especulação humana, que reina soberana postulando e definindo o que deve ser aceito e o que deve ser rejeitado. A simples idéia de uma revelação proposicional – de um Deus que intervém e interage com a produção intelectual da humanidade, por meio das Escrituras, de forma sobrenatural, é tão repugnante à pseudo academia teológica contemporânea, quanto a aceitação prima facie dos milagres registrados nos textos sagrados.

          Interessantemente, enquanto as Escrituras são rejeitadas ipso facto como sendo Palavra de Deus, confiável e livre de erros, outros documentos, de cuja existência não se têm a mínima menção em autores antigos, nem a menor evidência de terem existidos, são aceitos, como por revelação divina. Assim, rejeitam-se diversas cartas de Paulo, como sendo epístolas do próprio (apesar de sua autoria ser declarada no texto), mas não se tem qualquer dúvida da existência de “Q”, como fonte primária dos evangelhos sinóticos (ao lado de “M” e de “L”), mesmo que esses textos sejam meras especulações. Gerados pelas similaridades que a verdadeira erudição cristã sempre identificou nos evangelhos sinóticos, com um razão tão simples quanto veraz: são todos documentos confiáveis, íntegros, ancorados nos fatos históricos da vida de Jesus, cerne de suas narrativas.

          Mas essa verdade simples não serve, pois, partindo-se já da premissa da falta de integridade dos textos que dispomos, horas incontáveis de estudo e pseudo pesquisas são aplicadas no discernimento do pensamento das comunidades lucanas, petrinas, marcanas – supostamente grupos de cristãos responsáveis, como grupo, pelas idéias registradas nos livros que levam os nomes de autores bíblicos, que podem tão somente ser peças de ficção – tanto o texto final, como os autores.

          A Bíblia é, nessa abordagem, um livro meramente humano – cheio de mitos, falhas, contradições e divergências entre si. A teologia de Paulo difere daquela teologia retratada no evangelho de Mateus, pois representa um desenvolvimento adicional do pensamento. Não temos complementação de verdades, mas desenvolvimento de idéias, seguindo tramas e caminhos restritos apenas pela ousadia da imaginação dos autores.

         Qual a validade de tais estudos, então? Não representam a busca de um discernimento de proposições prescritivas, que podem auxiliar, como normativa, a postura dos Cristãos, em um caminhar que lhes dê paz, ou que agrade a Deus. Consistem apenas em exercícios acadêmicos; um fim em si mesmo; exercícios mentais de reconstrução historiográfica, partindo da premissa básica de que não existe palavra revelada, ou inspiração divina. Mesmo quando os textos, sob o escrutínio da crítica da forma (formgeschichte), estão estabelecendo modelos comportamentais – proibições e/ou permissões – eles são descartados por uma análise sociológica, ancorando tais prescrições nas condições vigentes, da era, invalidando qualquer aplicabilidade contemporânea. Essa visão segue, em coerência à rejeição da integridade dos textos, o entendimento da não existência de princípios absolutos, permanentes e de validade perene – relativizando todo inter-relacionamento social, às limitações comunitárias da época em que foram formuladas.

          Há também aqueles que não estão tão preocupados com as fontes, mas que se prendem à análise dos textos – quaisquer que sejam esses, porque a sua própria existência e sobrevida demonstram que possuem importância intrínseca. Não, segundo esses acadêmicos, como documentos históricos, de fatos aferíveis, confiáveis ou verificáveis; mas, tão somente, como reflexo de experiências humanas a coisas que aconteceram. Essas questões e fatos não são tão importantes assim – mas o reflexo delas, esse deve ser estudado. Não há validade prescritiva, mas apenas um trabalho, cheio de tédio e verborragia, descritivo dessas narrativas, entremeados com observações que militam contra a integridade do que é dito.

          Toda essa rejeição do texto sagrado está presente no livro ao qual me referi no início deste texto. Mas qual a validade dele, para o entendimento da Palavra de Deus? Como livro de ética, é uma mera coletânea descritiva dos discursos de Jesus, conforme o registro dos evangelhos, e de diretrizes encontradas nas cartas paulinas. No entanto, a integridade dos textos é descartada como premissa. De acordo com o autor deste livro, os evangelhos são mera produção humana, compilados de documentos primários, com trabalho de redação e adição aos eventos históricos, pelos compiladores – que podem até ter sido, mesmo, os evangelistas, Marcos, Mateus e Lucas. As cartas, não são necessariamente de Paulo (não interessa que comecem afirmando a autoria paulina, com uma mentira, dizendo que são – situação ética, que se fosse veraz, seria bem contraditória a qualquer ética, não acham?). Até as cartas que o autor considera que podem ser atribuídas a Paulo, foram embaçadas, na sua opinião, por um trabalho de composição e redação de possíveis escritos menores, com adições prováveis realizadas pelo redator.

         Um livro de ética como esse, ao qual me refiro, não irá derivar regras comportamentais do texto sagrado, pois todos os direcionamentos nele encontrados são pertinentes à era. Tudo pode (e até deve) ser modificado, de acordo com ele. A conscientização da humanidade, a interação social através dos séculos, tudo isso está acima do texto sagrado e justifica a quebra das diretrizes, que não são aceitas nem como divinas, nem como universais e absolutas. Por exemplo, quando Paulo compara a relação social do casamento, à relação espiritual de amor que Cristo tem com a igreja, e daí deriva uma norma universal e perenemente aplicável, o autor diz que: “O Paulo de Efésios com certeza não vai além da estruturas sociais de seu tempo que em geral exigiam que as esposas fossem submissas a seus maridos” (p. 290). Nessa compreensão não temos, mais a palavra normativa de Deus com prescrições sempre atuais, mas um mero “Paulo de Efésios”, cujas diretrizes podem ser descartadas como anacronicamente inaplicáveis, por razões sociológicas.

          É lamentável que tantos se afastem da simplicidade do evangelho e se enredem nessas vias complexas, que levam à confusão, ao ceticismo, ao descrédito da fé. É mais lamentável ainda que o povo de Deus receba esse tipo de ensino e orientação que mina a autoridade da Palavra inspirada do nosso Criador. O Tempora! O Mores!
----------------------------------

[1] MATERA, Frank J. Ética do Novo Testamento: os legados de Jesus e de Paulo. Tradução João Rezende Costa, do original: New Testament Ethics. São Paulo: Paulus, 1999, 379 pp. (professor de Novo Testamento na Catholic University, Washington, DC).

[2] Alguns autores católicos muito utilizados e suas obras mais comuns – disponíveis em português:
• GIRARD, Marc. Como Ler o Livro dos Salmos: Espelho da vida do povo. São Paulo: Paulinas, 1992. (Frei Marc Girard, canadense, professor na Universidade de Quebec).
• MAILHIOT, Gilles-Dominique. Os Salmos: Rezar com as palavras de Deus. Trad. Odila Aparecida de Queiróz. São Paulo: Loyola, 2008. (Frei dominicano, falecido em 2008, ensinou no Colégio Universitário Dominicano de Otawa, no Canadá).
• ALONSO SCHÖKEL, Luis. O Espírito Santo e os Salmos. Salmos e Exercícios. Trad. Maurício Ruffier. São Paulo: Loyola, 1998. (Católico espanhol, falecido em 1988. Estudou no Pontifício Instituto Bíblico, do Vaticano).
• SCHÜSSLER-FIORENZA, Elisabeth. “Exemplificação do Método Exegético”. In: SCHREINER, Josef (ed.). Palavra e Mensagem: introdução teológica e crítica aos problemas do Antigo Testamento, pp. 497-526. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1978. (Elisabeth Schussler-Fiorenza é professora da Harvard Divinity School e identifica-se como católica).
• LOHFINK, Gerhard. Agora entendo a Bíblia. Para você entender a Crítica das Formas. Trad. Mateus Rocha. São Paulo: Paulinas, 1978. (ex-professor da Universidade de Tubinguen, na Alemanha. Católico, renunciou em 1986 para trabalhar com comunidades – livro escrito, nesse período: Jesus e Comunidade).
• BROOK, Wes Howard & Anthony GWYTHER. Desmascarando o Imperialismo: Interpretação do Apocalipse ontem e hoje. Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus e Loyola, 2003. (jesuíta, ex-advogado do Senado Norte-Americano, decidiu estudar teologia depois de uma carreira bem sucedida como advogado. Ensina na Seattle University)
• BEAUCHAMP, Paul & Denis VASSE. A violência na Bíblia. Trad. Maria Cecília M. Duprat. São Paulo: Paulus, 1994. (Exegeta francês, jesuíta, já falecido).
• SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos Sinóticos a Paulo. Trad. Magda Furtado de Queiroz. São Paulo: Paulus, 1997. (autor uruguaio, jesuíta, já falecido).
• CROATTO, J. Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa - uma introdução à fenomenologia da religião. Trad. de C. M. V. Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001. 513p. (Argentino, jesuíta).
Leia Mais

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Mauro Meister

“O Deus que intervém não existe”



          Renato Vargens publicou um post sobre o deus do teísmo aberto: Eu não acredito no Deus do teísmo aberto. É uma crítica à teologia do inglês Tom Honey. Como Vargens, também não acredito nesse deus, mas parece que ele está se tornando popular. Recentemente foi divulgado no Brasil um texto trazendo a expressão que "o Deus que intervem não existe", defendendo um Deus que lamenta, se solidariza, mas não intervem no curso da história. Essa é mais uma investida do teísmo aberto com ares tupiniquins, trazida por pensadores brasileiros que têm recebido fama e acolhida em muitas revistas evangélicas e circuitos de palestras.

          O "Deus que intervém" (tradução do título de um livro de Francis Schaeffer para o português – "The God Who Is There") é o Deus da Bíblia e só posso supor que o deus do teísmo aberto não é o Deus da Bíblia. Fico pensando que esse deus é um outro deus e não o Deus que ao longo da história mostrou-se, ao intervir, o Senhor dela, apesar da visível dor humana que tanto nos marca. O problema do deus do teísmo aberto é a sua incapacidade de intervir.

          Mas, segundo a Escritura, a intervenção de Deus, no que podemos conhecer dela, começa na criação, ainda que tenha nos amado antes da própria fundação do mundo. A partir de então, não parou de intervir, seja falando, agindo, alterando, mudando, fazendo tudo o que condiz com os seus propósitos eternos. Se a Escritura é de fato a Palavra de Deus, sua revelação, então o Deus que intervém existe e foi o Deus de Jó, homem que sofreu profundamente para aprender quem Deus é e que, finalmente, pode ver a Deus. Mesmo tendo sofrido, viu a graça do Deus que intervém restaurando-lhe.

          O Deus da Bíblia é o Deus que é todo amor e justiça, verdade e misericórdia. É o Deus que ama e que é ofendido pelo pecado humano, ao contrário da caricatura criada pelo teísmo aberto, e que pode estar impregnada na mente de muitas pessoas. Aliás, o pecado é a grande ofensa contra Deus e não há como ler a Escritura sem perceber isto. É interessante notar que os teólogos do teísmo aberto tentam usar a Bíblia para provar o improvável por meio dela: 'o deus que intervém não existe.
Aliás, há uma ironia aqui: O livro de Schaeffer que teve o título traduzido como "O Deus que intervém", literalmente chama-se "O Deus que está lá", o que não faria tanto sentido na língua portuguesa. Schaeffer escreveu o livro com este nome exatamente para mostrar que na cultura do final do século XX, influenciada pelos muitos anos do desenvolvimento científico e cultural do ocidente, Deus tornou-se uma construção ideológica e não o Deus da Bíblia. O Deus que intervém e revelou-se em Jesus Cristo foi transformado pelo racionalismo humanista em um deus impotente, facilmente substituído pela capacidade humana.
Na sequência da famosa trilogia de Schaeffer, ele escreveu "He is there and He is not Silent" ("Ele está lá e não está calado"), traduzido no Brasil como "O Deus que se revela", exatamente para mostrar que este Deus todo poderoso, o El-Shaddai, sempre controlou a história e se revela, trazendo esperança ao homem. O livro de Schaeffer trata a respeito deste Deus fazendo uma defesa da epistemologia do cristianismo histórico e bíblico, de "como podemos vir a saber e como podemos saber que sabemos". O deus do teísmo aberto, aparentemente se revela só no sofrimento, é fraco, incapaz de alterar qualquer coisa na história. Quando esse deus vê o sofrimento e a tragédia humana, como os acontecimentos recentes das mortes em Ilha Grande, Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, só pode chorar, sem fazer nada. A meu ver, é a Morte da Razão tentar defender um deus como esse (o terceiro livro na trilogia de Schaeffer).

          O Deus da Bíblia é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó; o Deus de Moisés, Davi, Isaías e Jeremias; o Deus de milhares que foram levados para o cativeiro, anonimamente, sofrendo e, ao mesmo tempo, consolados pela sua presença e certeza de que os traria de volta, senão eles mesmos, os seus filhos, porque ele disse que os traria; o Deus de Daniel, um cativo 'de elite' que, ao perceber que havia chegado a hora que Deus disse que iria intervir, orou reconhecendo os seus pecados e os de seu povo e rogando que Deus agisse de acordo com sua eterna aliança (Daniel 9). Se o sofrimento do povo de Israel na ida para o cativeiro não foi para cumprir os propósitos de Deus, vamos ter que arrancar a metade dos escritos dos profetas da Bíblia (Isaías, Jeremias, Habacuque, etc.). Mas o Deus que intervém ordena a sua bênção para sempre (Salmo 133), bênção esta iniciada na ordem Edênica (Gênesis 1.28) e alcançada em Cristo, sempre para cumprir o seu eterno propósito.

          O deus do teísmo aberto não passa de uma imagem construída por homens e, como caricatura, é uma péssima obra de arte. Mas, o Deus da Bíblia já enviou a sua imagem perfeita (Hebreus 1.3) para que conhecêssemos o perdão dos pecados, a sua intervenção na história e, finalmente, a redenção de todos os seus eleitos. Assim como fez no passado, continua a intervir hoje, pois ele sempre foi, é, e será o mesmo Deus, queiram os homens ou não.

          O deus do teísmo aberto não é o deus da Bíblia e não é o deus daqueles que de fato creem nela. O eterno propósito desse deus é chorar com os homens. Pobre deus, pobres homens que acreditam nele.
Para saber mais sobre o teísmo aberto, recomendo o livro de John Frame, "Não há outro Deus" (Cultura Cristã) e também o artigo na Fides Reformata, A TEOLOGIA RELACIONAL: SUAS CONEXÕES COM O TEÍSMO ABERTO E IMPLICAÇÕES PARA A IGREJA CONTEMPORÂNEA. (Valdeci Santos)
Leia Mais

terça-feira, dezembro 29, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

O Tempora, O Mores! - ainda em 2010.

Por     45 comentários:

          Em 15 de dezembro de 2005 Solano Portela inaugurou o nosso blog com o texto "Qual a visão estética correta?" A idéia do blog veio de Norma Braga, nossa amiga e irmã em Cristo, que nos encorajou a utilizar esta ferramenta, para criar um espaço onde pudéssemos livremente, sem compomisso com datas e prazos, ir postando nossas idéias sobre virtualmente qualquer assunto que nos interessasse.

          Tímido a princípio, o Tempora-Mores, nesses quatro anos, aos poucos foi se tornando mais do que um hobby para Solano, Mauro e eu. Virou praticamente um ministério, embora ainda relutemos a aceitar qualquer compromisso emocional e moral de escrever regularmente. Escrevemos quando nos dá na telha e sobre o que quisermos.

          O blog se tornou um espaço visitado por muitos interessados no que calvinistas teriam a dizer sobre política, aborto, homossexualismo, teologia, natal, sucessos do cinema, best sellers, casos atuais e polêmicos, bem como sobre outras correntes teológicas como liberalismo, neo-ortodoxia, neopentecostalismo e neopuritanismo. O volume de acessos e de referências em outros blogs e sites, foi muito além de qualquer expectativa nossa.

          Algumas das postagens aqui provocaram mais de uma centena de reações e comentários, como "Deus odeia o pecado mas ama o pecador - é isso mesmo?" de Solano, ou o nosso texto com uma "Carta a Bultman". Dá para perceber claramente que os nossos leitores que acabam comentando se dividem entre os que apreciam a teologia calvinista e os que a detestam. Entre estes últimos encontramos os que conseguem aproveitar a oportunidade que damos, para que os leitores comentem, para expressar suas divergências de maneira bem educada e respeitosa. Outros, acham que aqui é um espaço público e que eles têm direito de réplica ou de dizer o que pensam quantas vezes quiserem e da forma como quiserem.

          Na verdade, optamos pela moderação de comentários desde o início. Publicamos os comentários que acharmos por bem. Temos geralmente recusado os chamados "hate-mails", aqueles comentários de pessoas que evidentemente querem apenas discutir e polemizar, que foram escritos de maneira insultuosa e ofensiva, visando nada mais que a polêmica. Geralmente preferimos que as pessoas se identifiquem, mas temos publicado vários comentários anônimos que nos parecem úteis.

         E existem aqueles que querem ganhar espaço aproveitando a popularidade do Tempora-Mores. São pessoas que discordam visceralmente de nós e que ficam nos chamando de covardes por não publicarmos os comentários delas, além de outros insultos não publicáveis. Mas, o raciocínio é o seguinte: se eles acham que estão certos e com a verdade, abram seu próprio blog e exponham suas idéias. Nós é que não vamos dar plataforma e espaço ilimitado para liberais, libertinos, neo-ortodoxos, neopuritanos e coisas afins. No máximo teremos uma troca de comentários e pronto.

        Às vezes alguém coloca um comentário contrário enorme a ponto de dividi-lo em dois ou três. Não temos tempo para ler, pesquisar e responder item por item. Muitos desses publicamos; outros deixamos sem resposta; alguns, sem pertinência, simplesmente rejeitamos. Na realidade, gostaríamos de reciprocar e comentar muito mais do que fazemos, ou até de escrever sobre mais assuntos pertinentes, mas temos muitas outras atividades e não podemos ficar escravizados do blog. Em outras ocasiões, alguém levanta um assunto que eu simplesmente não tenho a menor vontade de discutir. Solano e Mauro são menos temperamentais neste ponto.

        A verdade é que ao final não existe uma regra rígida, fixa e imutável sobre publicação de textos ou comentários. No meu caso, vai muito do momento. Já exclui comentários e me arrependi depois, pois perdi um ótima chance de mostrar, com um exemplo concreto, a falácia do raciocínio de liberais e libertinos.

       A grande maioria dos comentaristas, todavia, é bem humorada, interessada e temos aprendido bastante com eles. Eles nos têm dado dicas, apontado caminhos, sugerido links e com sua discordância, tem nos ajudado a amadurecer as idéias. Obrigado a todos vocês.

       Pretendemos continuar em 2010 a publicar o que quisermos, quando quisermos e ainda abrir o espaço para nossos leitores comentarem. E as regras para publicação serão as mesmas.

       Agradecemos a todos que nos lêem e nos acessam. Um Feliz 2010!

Augustus, pela equipe do Tempora-Mores
Leia Mais

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Não Sou Totalmente contra o Natal

Por  
[Republicação por causa da pertinência. Publicado pela primeira vez em Dezembro de 2006]

          Como todos os cristãos em geral, eu sou contra a secularização do Natal, o comércio que se faz em torno da data, as festas e bebedeiras que ocorrem na época. Todos sabemos que Papai Noel, árvores de Natal, guirlandas, bolinhas brilhantes e coloridas, bengalinhas de açúcar e anjinhos pendurados nas árvores, nada disso faz parte do Natal. São acréscimos culturais e pagãos feitos ao longo dos séculos e certamente não pelos verdadeiros cristãos.
          Por isto, acho que não deveríamos ter nos cultos de Natal qualquer desses símbolos, desde Papai Noel até a árvore. Há quem pense diferente. Ellen White, profetiza mor do Adventismo, ensinava que se deveria ter uma árvore de Natal no culto e que a mesma poderia ser enfeitada durante a celebração. "Deus muito Se alegraria se no Natal cada igreja tivesse uma árvore de Natal sobre a qual pendurar ofertas, grandes e pequenas, para essas casas de culto”. [2] Sou veementemente contra essa idéia.
         Também sou contra fazer de 25 de dezembro uma espécie de dia “santo”. Para nós, há somente um dia “santo”, por assim dizer, que é o dia do Senhor, o domingo. A maioria dos cristãos esclarecidos sabe que a data 25 de dezembro foi escolhida depois do período dos apóstolos, por três razões: para substituir as celebrações pagãs da Saturnália, substituir as celebrações do solstício do inverno, quando era adorado o Sol Invicto e por ser a data de aniversário do imperador Constantino. Todos estão conscientes de que Jesus pode não ter nascido – e provavelmente não nasceu – nessa data. Ela é uma convenção apenas, aceita pela Cristandade desde tempos antigos.
         Por causa dos abusos, dos acréscimos pagãos e do desvirtuamento do sentido, muitos têm se posicionado contra as celebrações natalinas no decorrer dos séculos. Posso entender perfeitamente seus argumentos. Um bom número de seitas, por exemplo, insiste que o Natal é uma festa pagã e que todos os verdadeiros cristãos deveriam afastar-se dela. As Testemunhas de Jeová estão entre as que atacam de maneira mais ferrenha as festividades natalinas. Num artigo intitulado Crenças e Costumes que Desagradam a Deus as Testemunhas de Jeová argumentam: "Jesus não nasceu em 25 de dezembro. Ele nasceu por volta de 1° de outubro, época do ano em que os pastores mantinham seus rebanhos ao ar livre, à noite (Lucas 2:8-12). Jesus nunca ordenou que os cristãos celebrassem seu nascimento. Antes, mandou que comemorassem ou recordassem sua morte (Lucas 22.19,20)".[1] Todavia, considerando a rejeição aberta e agressiva que as TJs mantém contra a Encarnação e a divindade de Jesus Cristo, não se poderia esperar outra atitude deles.

         Mais recentemente, igrejas e pregadores neopentecostais passaram a atacar duramente os cultos natalinos. Os argumentos são similares aos das seitas contra o Natal, só que com mais ênfase no caráter pagão-satânico do bom velhinho. O ataque é resultado da visão dicotomizada de mundo que costuma caracterizar os pentecostais (não a todos, obviamente) e faz parte das críticas que fazem aos programas de Disney, às cartas de baralho, às mensagens satânicas subliminares em músicas de rock, etc., o que enfraquece bastante a força dos seus ataques ao Natal.

         Os abusos e distorções também têm provocado reação contrária de pastores e estudiosos reformados. Os argumentos são basicamente os mesmos empregados pelas seitas e pelos neopentecostais, sem que com isso queiramos comparar ou assemelhar esses grupos: falta de prescrição bíblica, incerteza da data exata do nascimento, origem pagã da festa e introdução de elementos pagãos ao longo do tempo.
          Estou de acordo com as críticas feitas aos abusos e distorções. Todavia, acredito que precisamos jogar fora somente a água suja da banheirinha, e não o bebê. Penso que a realização de um culto a Deus em gratidão pelo nascimento de Jesus Cristo nessa época do ano, como parte do calendário de ocasiões especiais da Cristandade, se encaixa no espírito cristão reformado.
          Além do que, alguns dos argumentos usados para a cessação total da realização de cultos dessa ordem não me parecem persuasivos.
          Por exemplo, o argumento do silêncio da Bíblia, usado quanto às prescrições de comemorar o nascimento de Jesus, para mim não é definitivo. A Bíblia silencia quanto a muita coisa que é praticada nos cultos das seitas, dos neopentecostais e mesmo dos reformados. Se formos interpretar e aplicar o chamado "princípio regulador" de modo estrito, teremos de abolir não somente os cultos natalinos, mas práticas como batizar membros durante o culto (não há um único caso de alguém que foi batizado durante um culto no Novo Testamento), só para dar um exemplo. Eu sei que a celebração dos anjos e pastores na noite do nascimento de Jesus, bem como a atitude dos magos posteriormente, não são argumentos suficientes para estabelecermos cultos natalinos, mas pelo menos mostra que não é errado nos alegrarmos com o nascimento do Salvador.

         Os argumentos de que os Reformadores, puritanos e presbiterianos antigos eram contra o Natal também não é final. A começar pela falibilidade das opiniões deles, especialmente em áreas onde as Escrituras não tinham muita coisa a dizer. Há muita manipulação das opiniões desses antigos heróis da fé pelos seus seguidores hoje (entre os quais me incluo, mas não na categoria de seguidor cego). Quando eles concordam, são citados. Quando discordam, são esquecidos. Aliás, não tenho certeza que Calvino era contra cultos em ocasiões especiais do calendário cristão. Ao que parece, ele era favorável. Estou aguardando um post de Solano exclusivamente sobre esse ponto.

         A questão toda, ao final, é quanto ao calendário litúrgico, isto é, a validade ou não das igrejas reformadas realizarem cultos temáticos alusivos às datas tradicionais da Cristandade, como o nascimento de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição, Pentecostes, etc. Nenhum Reformado realmente coloca 25 de dezembro como um dia santo, em mesmo pé de igualdade com o domingo. Trata-se de uma data do calendário litúrgico cristão, que pode ou não ser usado como uma ocasião propícia. As grandes confissões reformadas consentem com o uso dessas datas. A Confissão de Fé de Westminster diz que "... são partes do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso." [3] A Segunda Confissão Helvética de 1566, produzida sob supervisão de Bullinger, discípulo de Calvino, declara (XXIV): "Ademais, se na liberdade cristã, as igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do Senhor, a circuncisão, a paixão, a ressurreição e Sua ascensão ao céu, bem como o envio do Espírito Santo sobre os discípulos, damos-lhes plena aprovação". A velha Igreja Reformada Holandesa, no famoso Sínodo de Dort (1618-1619), adotou uma ordem para a igreja que incluía a observância de vários dias do calendário cristão, inclusive o nascimento de Jesus (art. 67). Isso mostra que, no mínimo, muitos Reformados eram favoráveis à celebração de datas especiais do calendário litúrgico cristão.
         Por fim, creio, também, que a celebração do Natal no calendário cristão encaixa-se perfeitamente com a celebração dos grandes eventos da redenção pela oportunidade de esclarecer a doutrina da Encarnação (João 1.1-4,14). Afinal, o que deve ser celebrado não é simplesmente o nascimento de Jesus, mas a encarnação do Verbo de Deus, a vinda do Emanuel para a libertação do seu povo. Pode-se argumentar que esta doutrina (e outras quaisquer), podem ser ensinadas e celebradas regularmente pelo povo Deus, em qualquer domingo. Mas o argumento contrário também poderia ser usado: deveríamos parar de celebrar qualquer culto que não seja no domingo?
         Agradeço a colaboração dos colegas blogueiros Mauro e Solano, bem como de outros colegas, no material desse post.
NOTAS

[1] http://www.watchtower.org/t/rq/article_11.htm

[2] Review and Herald, 11 de dezembro de 1879. Citado em http://www.cacp.org.br/Natal_e_os_adventistas.htm

[3] Confissão de Fé de Westminster, XXI, 5.
Leia Mais

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Saúde!

           O Natal chegou e já me trouxe um problema. Após repassar a lista dos amigos e dos presentes de Natal que pretendo dar a cada um, sobraram quatro conhecidos e uma garrafa de vinho do Porto que eu trouxe de Portugal. Preciso escolher a quem deles vou dar a garrafa e é aqui que o problema começa, pois só poderei dar a garrafa a quem gosta de vinho, celebra o Natal e o faz pelo motivo certo, isto é, a encarnação do Filho de Deus, sua concepção virginal e nascimento – que é o verdadeiro sentido do Natal e a razão da celebração.

          O problema é que um deles é liberal. Celebra o Natal como festa cultural, toma vinho, mas, como seu mestre Rudolf Bultmann, não acredita no milagre da concepção virginal de Jesus Cristo no ventre de Maria. Para Bultmann, o nascimento virginal de Jesus faz parte daquela estrutura mitológica da qual o Evangelho vem revestido, e que foi uma estória inventada pelos cristãos helenistas com base em estórias similares de reis e heróis que eram filhos das divindades com virgens (Die Geschichte der Synoptischen Tradition, 1970, p. 291-292). Este meu conhecido é fã do grande liberal americano, Harry Emerson Fosdick, por sua vez discípulo de Bultmann, que num sermão pregado na Primeira Igreja Presbiteriana de Nova York, 1922, afirmou que existe muita gente cristã honesta que “acha que o nascimento virginal não deve ser aceito como fato histórico, mas como uma das maneiras familiares pelas quais o mundo antigo expressava a superioridade incomum de algumas pessoas”. Ou seja, Jesus Cristo realmente não nasceu de uma virgem e seu nascimento foi igual ao dos demais seres humanos. Não vou dar uma garrafa de vinho, especialmente do Porto, a quem realmente não tem o que celebrar no Natal, a não ser o nascimento de um homem como outro qualquer.

          O outro conhecido, por sua vez, é pentecostal. Ele crê na concepção miraculosa de Jesus Cristo pelo poder do Espírito Santo, celebra o Natal, mas não toma vinho. Para ele, a Bíblia ensina a total abstinência e considera pecado até um crente beber uma taça de vinho em família. Para mim, o que a Bíblia proíbe é a embriaguês e o escândalo, mas respeito a posição dele. Se eu lhe der a garrafa, vai se sentir provocado.

          A coisa se complica ainda mais com o outro conhecido, que é neopuritano. Crê no milagre da concepção de Cristo no ventre de Maria, toma vinho, mas não celebra o Natal. Ele considera o Natal como uma festa apócrifa, de origem pagã e antibíblica; o dia 25 de dezembro era a data da antiga festa pagã da Saturnália e foi transformada pelo Imperador Constantino no Natal. Seria, então, um desperdício dar a ele essa excelente garrafa de vinho do Porto.

          Restou o neo-ortodoxo. No caso, este conhecido é da linha de Karl Barth. Ele diz que acredita na concepção miraculosa de Cristo, como o famoso teólogo suíço, e portanto tem motivos para celebrar o Natal. Todavia, eu confesso que nunca entendi direito o que Barth quis dizer ao afirmar acreditar no nascimento virginal. Para ele, este nascimento virginal indica o caráter sobrenatural de Jesus, é um sinal do julgamento de Deus sobre a raça humana, pois a mesma não pode produzir seu próprio Redentor e também um sinal de que Jesus Cristo é um novo começo (Church Dogmatics, I, 2, 196, 181, 177, 188, 191). Mas, ele desconsidera um conseqüência importante do nascimento virginal, que é a impecabilidade de Cristo. Barth afirmava que Cristo assumiu uma natureza pecaminosa, decaída, corruptível, e que portanto, não era perfeito e sem pecado (Church Dogmatics, I, 2, 154). Por causa disto, e porque li em algum lugar que Barth jamais bebericou vinho em sua vida pois preferia cerveja (veja os comentários a este post), é que também não posso dar o Porto ao conhecido que é bartiano.

          Só me resta tomar o vinho com minha esposa e brindar aos amigos que lêem nosso blog.

          Saúde!

[PS: Eu de fato trouxe de Portugal uma garrafa de vinho do Porto, mas a situação descrita acima é fictícia]
Leia Mais

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Os Motoboys e Eu

Como a grande maioria dos motoristas de São Paulo, sempre detestei os motoboys. Até voltar a pilotar um moto nos dois últimos anos.

          Tive minha primeira moto aos dezoito anos, uma Honda 450 importada, muito antes das CBs 400 e 450 nacionais chegarem ao mercado. Tive várias outras, até minha esposa ficar grávida de nossa primeira filha. Vinte anos depois, já morando em São Paulo, comprei uma Honda Shadow 750 e logo depois troquei por uma Harley Davidson Dyna de 1.600 cilindradas.

          Minha intenção era rodar somente aos fins de semana. Afinal, quem era louco de pilotar uma Harley todo dia para ir ao trabalho (moro a 25 kms do local de trabalho). Mas, após ter sido assaltado duas vezes no táxi, a caminho de casa, resolvi que andar de moto era mais seguro em São Paulo, especialmente se vestisse uma camisa do Corinthians, hehehe!
          Foi quando tive que encarar os motoboys. Há cerca de 250 mil deles em São Paulo, a quase totalidade usando motos de 125 a 250 cilindradas, pequenas, ágeis, econômicas embora não velozes. As 125 mal chegam a 110 km/h. As 250 podem chegar a 130 km/h. Mas, no trânsito de São Paulo, por causa dos longos e constantes congestionamentos, não existe nada mais rápido do que os motoboys. São mais rápidos inclusive que os carros de polícia e ambulâncias e chegam a ficar irritados quando têm que ficar presos atrás deles no trânsito.
          A maioria dos motoboys é composta de jovens entre 18 e 25 anos (alguns não têm nem carta de motorista) que nunca tiveram um carro e não sabem como um motorista pensa. A maioria trabalha por entrega. Isto quer dizer que quanto mais rápido fizerem uma entrega, mais ganharão.
Há várias categorias de motoboys. Há os que trabalham para firmas de entrega, com carteira assinada e vários benefícios, e que costumam se comportar relativamente bem no trânsito por não serem tão pressionados na entrega das encomendas. Depois, há os “cachorros loucos”, aqueles que trabalham por pacote entregue e que não têm este apelido à toa... e tem os entregadores de pizza, que costumam estar entre os mais loucos.
          Motoboys andam entre os carros a 80 a 100 km/h nas marginais, quando o trânsito trava e os carros formam uma longa avenida entre as duas primeiras filas do lado esquerdo. O terror dos motoboys são carros que resolvem mudar de faixa sem avisar, ou que avisam em cima da hora, ou que simplesmente apertam a faixa deles, ocupando a meia pista onde eles transitam. As reações são diversas, mas incluem buzinadas, aceleradas, xingamentos, chutes no espelho e em casos mais graves, capacetadas no capô ou no pára-brisa dos carros infratores. Há ainda os que descem da moto para brigar. E neste caso, geralmente nunca vão sozinhos – os demais motoboys param as motos, fecham o trânsito e cercam o carro azarado e a coisa pode ficar feia.
          Os motoboys, como se vê, são muito solidários entre si. Quando um deles se envolve num acidente e vai ao chão – segundo as estatísticas, morrem entre 2 a 3 motoboys por dia e dezenas de outros dão entrada no pronto-socorro – os demais fecham a faixa de rolamento, chamam o resgate e a ambulância. Mas, são hostis a motociclistas, aqueles que pilotam motos acima de 500 cilindradas, os "tiozões" de meia idade que ficam passeando em motos estradeiras enormes na faixa de rolamento entre os carros, fechando o trânsito e andando devagar. Também são rivais dos carros em geral, especialmente os táxis, com quem mantém hostilidade constante.
          A relação entre os motoboys e os caminhões também não é nada boa. Os caminhões costumam atropelar e passar por cima de motoboys nas marginais, em parte por causa da imprudência dos meninos.
Foi nesta guerra que me vi envolvido há cerca de alguns meses, quando decidi usar a Harley todo dia para ir ao trabalho. As vantagens eram muitas, a principal sendo o tempo: de táxi eu levava uma hora para chegar no trabalho. De moto, trinta minutos, se eu andasse junto com os motoboys, na faixa entre os carros e no ritmo deles. Foi o que resolvi fazer, preferindo isto a ser assaltado uma terceira vez.
          A Dyna é a moto ideal para isto. Curta e estreita, apesar de ter o maior motor original fabricado pela Harley, a Dyna é muito ágil, potente, freia bem além de ser uma Harley – a marca, o ronco, o visual sempre chamam a atenção em qualquer lugar. Desisti de manter a minha limpa e brilhando. Ela vive suja e só toma banho a cada duas semanas.
Minha tática de sobrevivência se resume a algumas poucas regras que adotei (e que nem sempre consigo cumprir):

Respeitar os motoboys – apesar da Harley ser dezenas de vezes mais potente, no trânsito eu não tenho como competir e ganhar deles. Portanto, procuro dar passagem e não acuar o motoboy quando está na minha frente e eu poderia facilmente passar por cima dele.

Achar um batedor – de preferência um motoboy numa 250 que seja cachorro louco, que vá na minha frente, abrindo caminho, buzinando e xingando. Quando me vejo sozinho no corredor, diminuo a velocidade e espero ser alcançado por um destes, a quem dou passagem e em seguida, colo feito carrapato na traseira e só largo quando chego ao destino.

Não aceitar provocação – muitos motoboys que acabam encostando na minha traseira na fila pensam que sou um daqueles tiozões, que colocam duas malas de lado na moto e fecham o corredor a 40 por hora. E aí tentam desesperadamente me passar, chegando a cometer imprudências perigosas. Já fui praticamente atropelado por uma 125 que simplesmente se jogou na minha frente. Quando reclamei, logo vi que fiz besteira, pois uns dez motoboys me cercaram olhando para ver qual seria minha reação. Fiquei quieto e deixei barato. Pensei na mulher e nos quatro filhos. Aprendi minha lição e hoje aceito as fechadas, prensadas, sem reagir. Para extravasar, uma vez perdida, naqueles raros momentos em que a pista abre em nossa frente, enrolo o cabo da Dyna e deixo os meninos comendo fumaça, inclusive o meu batedor...

Fazer a distinção entre eles – como em toda profissão, tem aqueles que são irresponsáveis e mal educados. Mas, grande parte, senão a maioria, é de jovens que estão tentando ganhar a vida honestamente. De manhã quando saio para o trabalho, percebo dezenas deles levando a esposa na garupa, para o trabalho ou escola, geralmente com o capacete rosinha. Muitos são atenciosos e solícitos, dispostos a ajudar e dizer como chegar num endereço. Depois que coloquei um GPS na Dyna não precisei mais pedir informações, mas antes disso, fui muito ajudado por motoboys.

Andar no meio da fila – não no início e não no fim, mas é no meio que me sinto mais seguro. Dificilmente um carro vai mudar de faixa quando tem um comboio de motos passando a toda velocidade ao seu lado. Procuro ir bem no meio deste comboio. Tem dado certo até agora.
Passei a apreciar os motoboys. Muita coisa que se diz deles é exagero, como que eles gostam de chutar espelhos por nada. Neste tempo andando com eles não me lembro de ter visto um caso destes (mas, minha esposa está me dizendo que ela já viu). Eu mesmo já bati em vários espelhos ao passar entre os carros, mas sempre toques pequenos, que não chegaram a quebrar ou desencaixar os espelhos, no máximo desregulá-los. Gostaria de, cada vez, parar e pedir desculpas, mas ai seria atropelado pelos "cachorros loucos", hehehehe! Outra lenda sobre eles é que todos são maus motoristas e quebram as regras. Também não é verdade. Há muitos que fazem isto – da mesma forma que motoristas de carros, mas grande parte respeita as leis.

          Ainda tenho medo quando passo a 90 por hora na marginal com os motoboys, entre os carros parados ou andando devagar. Diariamente peço ao Senhor que me guarde, que me livre de acidentes e que me dê tranqüilidade para não aceitar provocações. E especialmente que me livre da tentação de acelerar, pois nas veias até mesmo do mais disciplinado motociclista corre um pouquinho de sangue de "cachorro louco"...

[Veja esta entrevista engraçada no Jô Soares com o Jackson Five, poeta dos motoboys]
Leia Mais