sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

A Nova Perspectiva sobre Paulo

Por     38 comentários:
Quando a gente pensa que já viu de tudo nos círculos acadêmicos de estudos bíblicos é surpreendido com a chegada de uma abordagem potencialmente revolucionária sobre o apóstolo Paulo. Essa abordagem acaba trazendo um profundo impacto em uma das doutrinas mais preciosas para os evangélicos, especialmente aqueles que se identificam com a Reforma protestante do séc. XVI.

Estou falando da “Nova Perspectiva sobre Paulo,” um movimento que tem cerca de 20 anos de existência e que somente mais recentemente chegou ao Brasil, especialmente através dos escritos N. T. Wright, de quem falaremos mais adiante. A NPP (“Nova Perspectiva sobre Paulo”) desde cedo caiu sob fogo cerrado de estudiosos dentro do campo Reformado. Homens do calibre de John Piper, D. A. Carson, Lingon Duncan, Sinclair Ferguson, e muitos outros têm escrito livros e artigos e feito palestras manifestando preocupação com as implicações deste movimento (veja aqui um estudo meu em português).

O que é, então, a NPP? Quais as suas propostas e por que elas têm causado furor entre os estudiosos evangélicos reformados? De maneira sucinta, a NPP defende que desde a Reforma protestante nós temos lido as cartas de Paulo de maneira errada. Pensávamos que o centro da pregação dele era a justificação pela fé sem as obras da lei, quando na verdade Paulo estava polemizando contra aqueles pregadores judeus cristãos que não queriam a presença dos gentios na nascente igreja judaico-cristã. É preciso, então, abandonar a “velha” perspectiva, que teve origem em Lutero e demais Reformadores, e adotar uma nova, que faça justiça aos fatos da época do apóstolo.

Deixe-me tentar explicar melhor como tudo isto começou, se é que é possível fazê-lo num espaço curto e mais ou menos informal como este.

1) Primeiro, é necessário entender que antes de ser uma nova perspectiva sobre Paulo, esta abordagem é uma nova perspectiva sobre o Judaísmo da Palestina nos tempos de Paulo. Estudiosos como E. P. Sanders (Paul and Palestinian Judaism, 1977) conseguiram convencer a muitos que o Judaísmo do primeiro século não era uma religião legalista de busca de méritos para a salvação. Os judeus já se consideravam salvos e faziam as obras da lei para permanecer no povo de Deus. Os fariseus, apesar do seu apego às leis de Moisés, sabiam que a salvação não era pela obediência a estas leis, mas pela fidelidade de Deus à aliança feita com Abraão. Portanto, quando Paulo dizia que a salvação era pela fé sem as obras da lei ele não estava combatendo o legalismo ou a tentativa de salvação pelas obras. Ele estava simplesmente condenando a ênfase que os judeus davam a estas obras a ponto de não permitir que não-judeus convertidos ao Cristianismo fossem considerados parte do povo de Deus.

Apesar de sua importância, há vários problemas com a obra de Sanders. Um deles é que ele usou fontes do século III e IV (Talmude, Mishna, midrashes) para reconstruir o pensamento judaico do século I, algo que chamamos de anacronismo.

2) A nova perspectiva de Sanders sobre o Judaísmo trouxe uma nova perspectiva sobre a Reforma. Para os defensores da NPP, Lutero leu Paulo à luz da sua própria experiência e assim desviou as igrejas reformadas da correta interpretação do que o apóstolo havia escrito sobre salvação, justificação e obras da lei. Já em 1963 o luterano Krister Stendhal havia escrito um artigo influente (“Paulo e a Consciência Introspectiva do Ocidente”) em que ele acusava Lutero de ter imposto a Paulo o seu próprio drama existencial quanto à salvação. Paulo nunca teve problemas de consciência antes de sua salvação, disse Stendhal, nem qualquer outro judeu daquela época. Ninguém estava perguntando “o que posso fazer para ser salvo” – essa foi a pergunta de Lutero, mas não era a pergunta de Paulo e nem dos judaizantes com quem ele discutiu em Gálatas. Além disto, as Confissões de Agostinho também influenciaram em demasia a igreja no Ocidente, levando-a à introspecção e à busca individual da salvação. Isso fez Lutero ver na polêmica de Paulo contra as “obras da lei” em Gálatas e Romanos a sua própria luta em busca de salvação dentro da igreja católica – o que foi um erro. Os defensores da NPP criticam os reformados por terem defendido durante tanto tempo que o centro da pregação de Paulo, bem como do Novo Testamento, era a doutrina da justificação pela fé, quando esta, na verdade, era a agenda de Lutero e não de Paulo.

Todavia, como tem sido observado, não foram somente os luteranos que tiveram este entendimento – o protestantismo em geral, inclusive aquele não influenciado diretamente pelas obras de Lutero e demais reformadores, sempre entendeu, lendo sua Bíblia, que ela trata essencialmente deste assunto: de que maneira o homem pode ser justificado diante de um Deus santo e justo?

3) Na seqüencia, veio uma nova perspectiva sobre as “obras da lei”. A Reforma sempre entendeu que “obras da lei” em Gálatas e Romanos, contra as quais Paulo escreve, eram aqueles atos praticados pelos judeus em obediência aos mais estritos preceitos da lei de Moisés. Eles procuravam guardar tais preceitos visando acumular méritos diante de Deus. Foi contra tais obras que Paulo asseverou aos gálatas e aos romanos que a salvação é pela fé em Jesus Cristo, somente. Mas, James G. Dunn, em especial, argumentou que as “obras da lei” a que Paulo se refere em Gálatas e Romanos eram a circuncisão, a guarda do calendário religioso e as leis dietárias de Moisés – sinais identificadores da identidade judaica no século I. Paulo era contra aquelas coisas porque elas separavam judeus dos gentios e impediam que gentios convertidos se sentassem à mesa com judeus convertidos. Em outras palavras, a polêmica de Paulo não era contra o legalismo dos judaizantes, mas contra a insistência deles em manter os gentios distantes. A questão não era soteriológica, mas eclesiástica. A Reforma havia perdido este ponto de vista por causa de Lutero e Agostinho.

Mas, cabe aqui a observação, se as obras da lei não eram esforços meritórios fica muito difícil entender não somente Gálatas e Romanos, mas inclusive passagens de Atos, como esta: “Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos” (At 15:1). No fim tenho de escolher se acredito em Atos ou no que Dunn está dizendo.

4) Tudo isto trouxe o que James Dunn chamou de uma “nova perspectiva” sobre Paulo. Esse movimento se dividiu em duas linhas gerais. (a) Os mais radicais, que acham, como H-J Schoeps, que Paulo, por ser um judeu da Dispersão, não entendeu e portanto torceu inadvertidamente a soteriologia do Judaísmo da Palestina, atacando-o por julgar que era uma religião baseada em méritos, quando, na verdade, não era. Outros, como H. Räisänen, alegaram que Paulo era judeu por fora e gentio por dentro, o que lhe causava uma ambigüidade nunca vencida, que o levava a falar mal da lei em Gálatas e bem dela em Romanos. Nesta vertente, o problema é Paulo, que passou uma visão distorcida dos judeus e fariseus do primeiro século. Esta linha dentro da “nova perspectiva” não tem muitos defensores. A que ganhou mais aceitação foi a segunda, (2) aqueles que afirmam que o problema não é Paulo, mas os reformados que o leram com os óculos de Lutero. É preciso olhar Paulo de uma nova perspectiva, que leve em conta as descobertas de Sanders (Judaísmo não era legalista), Stendhal (Paulo era um fariseu sem problemas com a lei), Dunn (obras da lei são apenas marcadores de identidade judaicos). É preciso reler Gálatas e Romanos deste novo ponto de vista e tentar descobrir qual era realmente a polêmica de Paulo com os judeus, judaizantes e fariseus de sua época. Tem que ser outra coisa, mas não este assunto de salvação pela fé sem as obras da lei.

A pergunta que não quer calar é como a Igreja toda, mesmo contando com exegetas e teólogos do maior calibre, conseguiu se enganar por tanto tempo, do sécuilo XVI até hoje, em um assunto tão básico?

5) E por fim, tudo isto trouxe uma nova perspectiva sobre a justificação proposta pelos defensores da NPP. Os reformados sempre afirmaram, com base em Gálatas, Romanos e demais livros do Novo Testamento, que a mensagem central das cartas de Paulo é que os pecadores podem ser justificados de seus pecados mediante a fé em Jesus Cristo, sem obras pessoais e meritórias. E que esta justificação consiste em Deus nos imputar – isto é, atribuir – a própria justiça de Cristo. Lutero dizia que somos justificados com uma justiça alheia, a de Cristo, e não com uma justiça nossa, que procede de nossa obediência à lei de Deus (obras da lei). Lutero e demais reformadores entenderam que esse era exatamente o ponto de discussão entre Paulo e os judaizantes, que à sua época queriam exigir que os crentes não judeus guardassem a lei de Moisés para poderem ser salvos.

É aqui que entra em cena Nicholas Thomas Wright, bispo anglicano de Durham, Inglaterra, provavelmente hoje o estudioso mais conhecido e destacado que defende a “nova perspectiva” sobre Paulo. Ele ganhou a simpatia de muitos evangélicos por suas posições firmes contra o aborto e a eutanásia e as uniões civis de homossexuais dentro da Igreja Anglicana.

O ponto mais controverso da posição de Wright sobre Paulo é sua tentativa de redefinir a doutrina da justificação pela fé. Wright abraça a “nova perspectiva”, seguindo Stendahl, Sanders e Dunn. A principal obra de Wright, que o marcou como um defensor da “nova perspectiva” é What St. Paul Really Said (1997). Segundo ele, para Paulo a justificação não significa que Deus transfere a sua própria justiça ao pecador, como ensina a doutrina da imputação; Deus, à semelhança do que se faz num tribunal, considera vindicado o pecador, sem, todavia, imputar-lhe a sua própria justiça. Segundo Wright, é esse o caso nos tribunais gregos – nenhum juiz imputa ao acusado a sua própria justiça pessoal, simplesmente o absolve. A conclusão é que Paulo nunca ensinou a doutrina da imputação da justiça. Não é isso o que Paulo entende por justificação, justificar e justificado. Deus absolve o pecador por causa de sua fidelidade ao pacto, à aliança. É isso que significa a sua justiça.

Tem coisa boa na NPP? Tem, sim. O movimento nos desperta para estudarmos o contexto de Paulo mais profundamente. Os estudos de Sanders nos trouxeram muitas informações sobre o pensamento rabínico dos séculos III e IV quanto à salvação. As observações de Stendhal nos ajudam a ter uma visão mais correta sobre a relação pessoal de Paulo para com a lei – ele realmente não era um fariseu em crise existencial antes de se converter. E Dunn chama nossa atenção para o aspecto missiológico e social da polêmica de Paulo contra as obras da lei. Todavia, estes aspectos positivos não anulam as sérias implicações do movimento, especialmente quanto à doutrina da justificação.

Isso pode soar como mais uma daquelas questiúnculas irrelevantes que ocupam os teólogos a maior parte do tempo. Todavia, não é. O que a NPP coloca em jogo são duas das mais importantes doutrinas da fé cristã, que são a morte substitutiva de Cristo e a imputação da sua justiça aos que crêem. Mesmo que Wright fale que os crentes terão seus pecados perdoados, fica a pergunta: com base em que, se a morte de Cristo não é substitutiva e nem seus méritos são transferíveis?

Prefiro a velha perspectiva. Nem sempre o vinho novo é o melhor.
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terça-feira, fevereiro 01, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Mackenzie promove mais um Congresso Internacional de Religião, Teologia e Igreja

O palestrante este ano será Dr. Wayne Grudem. Vejam os demais participantes e as oficinas, e façam inscrição no site. Acessem o link abaixo.

Portal Mackenzie: Congresso Internacional de Religião, Teologia e Igreja:

Abraços,
Augustus
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quarta-feira, janeiro 26, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Um Credo para os Fundamentalistas

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É só uma sugestão. Acho que posso sugerir, pois fui criado numa denominação fundamentalista e mesmo que não pertença a ela hoje, continuo a ser chamado assim. Portanto, segundo meus críticos, devo entender razoavelmente do assunto.

Creio na inerrância das Escrituras. Isto não quer dizer que eu creio que a Bíblia foi ditada mecanicamente por Deus, que ela caiu pronta do céu, que sua linguagem é científica, que não há erros nas cópias, que as traduções são inerrantes (especialmente a King James), que as cópias em manuscritos existentes são inerrantes, que a Bíblia é exaustiva e que tudo que está na Bíblia é fácil de entender e interpretar. Quer dizer que eu acredito que os manuscritos originais foram infalivelmente inspirados por Deus e que, em conseqüência, a Bíblia é verdadeira em tudo o que afirma. Creio que pelas cópias existentes podemos ter certeza quase plena do que havia nos originais e que muitas das partes polêmicas e difíceis de interpretar não afetam a compreensão correta do todo.

Creio na divindade de Jesus Cristo. Isso não quer dizer que eu negue sua plena humanidade, a realidade de suas tentações, a sua preocupação com os pobres e as questões sociais. Não quer dizer que eu negue que ele foi gente de verdade, capaz de rir, de chorar, que passou por perplexidades e que aprendeu muita coisa gradativamente como as outras pessoas. Quer dizer tão somente que creio que ele era verdadeiro Deus e verdadeiro homem, muito embora eu não tenha todas as respostas para as perguntas levantadas pela doutrina das suas duas naturezas. Creio que sua morte na cruz tem eficácia para perdoar meus pecados, visto que não era um mero homem morrendo por suas próprias faltas. Sua vida, suas ações e seus movimentos podem servir de modelo para mim, embora sua religião não possa, pois ele não era cristão, como eu já disse em outra postagem aqui no blog.

Creio em todos os milagres que a Bíblia relata. Isso não quer dizer que eu acredite que milagres acontecem todos os dias, que milagres contemporâneos são indispensáveis para que eu acredite em Jesus Cristo, que Deus cura somente pela fé e que tomar remédio e ir ao médico é pecado. Também não quer dizer que eu acredite que os milagres narrados na Bíblia foram coincidências com fenômenos naturais, interpretados pelos antigos como ações de Deus, como uma enchente de barro vermelho no Nilo que parecia sangue, um tremor de terra exatamente no mesmo momento em que Josué mandou tocar as trombetas em Jericó ou um eclipse na hora que ele mandou o sol parar. Quer dizer que eu creio que os milagres bíblicos realmente aconteceram conforme estão escritos, que não são mitos, lendas, sagas, estórias ou midrashes. Creio que Deus, se quisesse, poderia fazê-los todos de novo hoje apesar de que, mesmo assim, os incrédulos continuariam a procurar outras explicações.

Creio na ressurreição física de Cristo de entre os mortos. Isso não quer dizer que eu coloque o corpo acima do espírito e nem que eu seja um ingênuo que ignora o fato que cadáveres não revivem cotidianamente. Também não quer dizer que eu ignore as tentativas de explicações alternativas existentes para o túmulo vazio, a falta do corpo de Jesus até hoje e a mudança de atitude dos discípulos. Também não quer dizer que eu acredito que Jesus hoje apareça diariamente às pessoas. Quer dizer que eu creio que ele realmente ressurgiu dos mortos e que vive eternamente com aquele corpo ressurreto e glorioso, com o qual retornará em data não sabida a esse mundo, para buscar os seus e julgar os demais. Creio que a ressurreição de Cristo é essencial para o Cristianismo. Se Cristo não ressuscitou fisicamente dos mortos, o Cristianismo é uma farsa.

Creio que somente mediante a fé em Jesus Cristo como único Senhor e Salvador é que as pessoas podem ser perdoadas e salvas. Isto não quer dizer que eu desconheça o fato de que existem pessoas de bem, honestas, sinceras e de boa conduta entre aqueles que não acreditam em Deus e muito menos em Cristo. Tampouco quer dizer que todos aqueles que têm fé em Jesus Cristo são perfeitamente bons, justos e santos. O que eu quero dizer é que somos todos pecadores, uns mais, outros menos, uns ostensivamente, outros em oculto, e que somente pela confiança no que Cristo fez por nós é que poderemos ser aceitos por Deus – e não por méritos pessoais. Neste sentido, acredito que fora da fé em Cristo não há salvação, perdão ou reconciliação com Deus.

Creio em verdades absolutas. Isto não quer dizer que eu ignore que as pessoas têm diferentes compreensões de um mesmo fato. Quer dizer apenas que, para mim, quando não se complementam, tais diferentes compreensões são contraditórias e uma delas – ou várias – devem estar erradas. Acredito em absolutos morais, em leis espirituais de natureza universal, em declarações unívocas e também que Deus se revelou de maneira proposicional nas Escrituras.

Creio em tolerância. Isto não quer dizer que eu seja inclusivista e relativista, mas simplesmente que não deixarei de me relacionar com uma pessoa simplesmente porque considero que ela está equivocada teologicamente. Para mim, a tolerância pregada pelo mundo moderno é aquela característica de pessoas que não têm convicções, que não têm opiniões formadas sobre nada e que vivem numa perpétua metamorfose ambulante. Eu acredito que é possível, sim, ter convicções profundas – especialmente na área de religião – e ainda assim se manter o diálogo com quem diverge.

Tem mais coisa a ser incluída neste credo fundamentalista, mas tá bom. O que eu quero mostrar é que tem muita gente que tem o mesmo credo acima, e que é fundamentalista sem saber. Alguns ultra-fundamentalistas vão achar que eu sou liberal.
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domingo, janeiro 23, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

O Apóstolo Pródigo

Por     28 comentários:
Estudando Paulo para dar aulas esta semana, percebi mais um aspecto interessante do apóstolo que o distancia dos apóstolos modernos. Ao contrário dos tais apóstolos que se lançam para fazer carreira solo e ter seu próprio ministério, Paulo sempre fez questão de mostrar que ele fazia parte do grupo apostólico de sua época, embora tivesse sido chamado para ser apóstolo quando o prazo de matrícula já tinha expirado ("nascido fora de tempo", 1Co 15:8).

Se alguns têm uma visão de Paulo como um individualista que seguiu carreira e ministério próprios, isto se deve, em parte, à Igreja Católica que colocou Pedro acima dos demais apóstolos e portanto longe de Paulo. Os liberais também contribuíram para isto, quando fizeram de Pedro o líder do Cristianismo judaico da Palestina e Paulo o líder do Cristianismo gentílico de Antioquia, em constante tensão e hostilidade mútuas.

De todos os apóstolos, Paulo era o mais culto, o mais preparado intelectualmente e com maior experiência intercultural. Nascido em Tarso da Cilícia, em território grego, educado no que havia de melhor e mais refinado na erudição judaica, de família rica o suficiente para lhe dar o status de cidadão romano, Paulo se destacava dos pescadores, cobradores de impostos, artesãos e ex-guerrilheiros galileus que compunham o quadro dos Doze apóstolos de Jesus Cristo ("iletrados", At 4:13). Com facilidade ele poderia ter iniciado um movimento independente e ter seu próprio ministério e até mesmo fundar uma religião. Todavia, ele se negou a fazer isto e até mesmo repreendeu os seus fãs que queriam começar o "partido de Paulo" (veja 1Co 3:4-9).

Na realidade, o retrato que temos de Paulo em suas cartas e no livro de Atos é de um apóstolo que não se via tendo um ministério solo nem próprio, mas em perfeita harmonia e cooperação com os demais. Para ele a igreja está edificada sobre o fundamento "dos apóstolos e dos profetas" (Ef 2:20). Ele não se vê como um fundamento à parte. Ele honrou os apóstolos antes deles, visitando-os em Jerusalém e procurando comunhão e harmonia com eles (Gal 1:18). Foi provavelmente nesta ocasião que ele aprendeu com eles acerca de várias tradições originadas em Jesus (1Co 11:2; 15:3-7). Paulo declara que eles eram importantes e colunas da igreja, apesar de terem uma condição humana muito humilde - o que realmente não importava, pois Deus não olha para o exterior (Gal 2:6). Os sinais e prodígios que ele realizava eram "credenciais do apostolado" (2Co 12:12), isto é, sinais que eram operados por todos os que eram apóstolos. Paulo não teve problemas em se submeter às instruções de Tiago quando esteve em Jerusalém (At 21:18-26).

E quando é obrigado a dizer que trabalhou até mais que eles, Paulo logo acrescenta que é somente pela graça (1Co 15:10). E quando teve de repreender a Pedro por sua inconsistência (Gal 2:11-21), isto não fez com que se separasse dele - na verdade, Pedro mais tarde até mesmo recomenda as cartas que Paulo escreveu como se fossem Escritura! (2Pe 3:15-16).

A melhor maneira de descrever como Paulo se via entre os demais apóstolos é aquela do filho pródigo, que disse ao pai, ao regressar, "não sou digno de ser chamado teu filho" (Lc 15:21). Por ter perseguido a Igreja, Paulo fala de seu apostolado como uma honra nunca merecida, um favor especial concedido por Deus: "Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus" (1Co 15:9) [- devo este parágrafo a J. Van Bruggen].

Fico com a impressão que a inspiração dos modernos apóstolos evangélicos não é Paulo ou um dos Doze, mas o atual bispo de Roma.
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terça-feira, janeiro 18, 2011

Solano Portela

KING - O Homem e o Mito


Na revista Ultimato, de novembro/dezembro de 2000, um articulista escreveu o seguinte, sobre Martin Luther King: “Em 4 de abril de 1968. uma bala assassina silenciou esse profeta de Deus. Contudo. sua vida continua inspirando milhões de homens e mulheres. Martin Luther King Jr. não pode ser esquecido pela geração evangélica deste novo milênio. Que ele nos inspire a desejar mais profetas na igreja. Precisamos de homens e mulheres que não nos deixem acostumados com a ordem natural das coisas. Precisamos de gente cuja voz troveje ira contra a iniquidade e a injustiça, mas que nunca fale sem a ternura de Deus”.

Há décadas, esse é o mito criado ao redor de Martin Luther King: um profeta, um cristão comprometido, um exemplo para as gerações futuras. Não há dúvidas de que ele foi um hábil político, um orador excepcional, um articulador poderoso, um líder de massas e até um provocador de mudanças necessárias. Mas partir desse ponto, “canonizá-lo evangelicamente”, só deliberadamente ignorando alguns fatos que claramente comprometem o seu testemunho cristão. É verdade que a grande mídia estabeleceu a santidade de King a um ponto em que ninguém levanta qualquer questionamento sobre a auréola de pureza idealista criada em torno de sua pessoa. Apresentar a lembrança de suas falhas equivale a suicídio político e é o ápice do politicamente incorreto. Os evangélicos entraram na onda; hoje ele é capitaneado como sendo um líder cristão de primeira estirpe. Uma editora, no campo presbiteriano, chegou a lançar uma coleção de “Heróis da Fé”, na qual sua biografia ocupa um volume inteiro, ao lado de outros volumes dedicados a Martinho Lutero e outros verdadeiros baluartes cristãos.

Oferecemos aqui outro aspecto, geralmente esquecido, sobre Martin Luther King, não para apagar suas conquistas, mas para colocá-lo e posicioná-las dentro do contexto completo. Estas observações abaixo são públicas e estão disponíveis em livros e na internet, para quem quiser se certificar de sua autenticidade.

1. O destaque de Martin Luther King foi evidente na esfera político-social, mas no campo eclesiástico ele não se sobressaiu: nunca teve um pastorado produtivo de uma igreja; nunca trafegou na esfera teológica com pertinência; não deixou legado expositivo da Palavra de Deus.

2. Na esfera acadêmica, King tem sido constantemente acusado de ter plagiado sua tese de doutorado – isso é fato, e não calúnia, para quem quiser verificar. Um dos mais intensos pesquisadores (mas não o único), desse viés de Martin Luther King, foi Theodore Pappas (The Martin Luther King, Jr., Plagiarism Story). Ele prova categórica e comparativamente (com os originais) que King plagiou não apenas a sua tese de doutorado, mas diversos ensaios em vários cursos da Universidade de Boston. Na análise que fez da tese de King, Pappas demonstra a identidade em dúzias de trechos de uma tese de doutorado anterior, da mesma universidade, de autoria de Jack Boozer.

3. No campo matrimonial, infelizmente, ele envolveu-se com outras mulheres, mesmo sendo casado. A sua infidelidade conjugal não foi pontual, mas perene, enquanto se dedicava à causa política que abraçou. Quem comprovou isso, além de outros, foi o próprio Ralph Albernathy, um dos seus companheiros constantes e o seu sucessor à frente da AACP (Association for Advancement of Colored People). No seu livro de 1989, And the Walls Came Tumbling Down, Albernathy, afirma que no próprio dia em que foi assassinado, em um motel, Luther King “participou de uma pequena orgia com duas mulheres”. Teria ainda agredido e abusado de uma terceira.

4. Na esfera teológica ele pode ser classificado como liberal. James H. Cone é um de seus biógrafos, identificando-se com ele tanto pela cor da pele, como no abraçar do liberalismo teológico. Na página 29 do seu livro, além de apontar a grande influência de Paul Tillich na teologia e na vida de King, ele afirma que “King... se firmou no liberalismo teológico que dominava a Universidade de Boston”.

5. Seu maior pronunciamento ("I Have a Dream"), em que pese o anseio e a visão tão patentes por um tempo melhor e mais justo, é ao final, do ponto de vista cristão, um libelo existencialista que não passaria num teste de ortodoxia bíblica (o que não era, obviamente, sua preocupação). Leia esse discurso cuidadosamente e verá, que mesmo empolgante, do ponto de vista social e no contexto em que foi proferido, ele acena para situações inatingíveis na terra e constrói uma visão humanista da sociedade. Na realidade, por mais empolgante que seja o texto e a retórica, deveria ser evidente aos cristãos que King substitui escatologia por utopia.
Em última análise, King virou mito, tanto por seu ativismo político-social, como em função de seu brutal e injustificado assassinato (nenhum assassinato é justificado), por James Earl Ray, e todos passaram a bater palmas à sua memória, criando-se até um feriado específico para ele, nos Estados Unidos. Até aí, tudo bem. Mas, o que espanta, é que o mito é deglutido de forma indolor pelos cristãos que passam a compará-lo com os baluartes da fé. Pouquíssimos levantam a voz para dizer, ou pelo menos pesquisar, como foi o seu caminhar como crente. Quem quiser admirá-lo como expoente político, que o faça – ele merece. Mas, seria ir longe demais colocá-lo como exemplo de cristão.

Solano Portela
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quinta-feira, janeiro 13, 2011

Solano Portela

Ainda chorando (e agindo) por nossas tragédias!

Estamos ainda em estado de choque pelos terríveis acontecimentos no Rio de Janeiro, onde as avalanches de terra e enchentes ceifaram mais de 400 vidas, testemunhando enchentes em São Paulo e Minas, também com perdas de vidas e de bens básicos, amealhados com grande sacrifício. Lembramos que, mais uma vez, as últimas viradas de anos têm sido marcada por tragédias. Em 2008/2009 foram inundações e deslizamentos assoladores em Santa Catarina. Na transição 2009/2010 tivemos também mortes e prejuízos causados pelas águas, no sudeste do Brasil. Naquela ocasião escrevíamos, também, sobre o terremoto no Haiti e choramos com o conseqüente sofrimento chocante e intenso daquele evento que dizimou cerca de 200 mil pessoas. Um ano depois, aquele povo ainda geme com a orfandade, dissolução social, promessas não cumpridas pela "comunidade internacional" e com a extrema e endêmica corrução arragaida naquela terra. Isso porque ainda não nos saiu da memória o Tsunami de 26.12.2004, no Oceano Índico, quando pereceram cerca de 220 mil pessoas.

Enquanto vemos as cenas de dor e tristeza, e avaliamos tudo isso, procurando aferir o que podemos e devemos fazer, somos levados às Escrituras para procurar alguma compreensão trazida pelo próprio Deus, para esses desastres. É no meio dessas circunstâncias que decidimos recolocar aqui alguns pensamentos que já foram expressos neste Blog, há um ano.

Na ocorrência de tragédias devemos resistir à tentação de procurar respostas que diminuem a bíblica soberania e majestade de Deus, e conseqüentemente não fazem justiça à sua pessoa. Tais “explicações”, “conclusões” e “construções” aparentam ser plausíveis, mas revelam-se meramente humanas, pois contrariam a revelação das Escrituras. Esse tipo de resposta sempre aparece, quando ocorrem desastres; quando diversas vidas são ceifadas e pessoas que estavam entre nós desaparecem, de uma hora para outra. Interpretações estranhas dessas circunstâncias não são novidade e nem têm surgido apenas em nossos dias.

Por exemplo, em novembro de 1755 a cidade de Lisboa foi praticamente arrasada por um grande terremoto. A conclusão emitida por padres jesuítas foi a de que: “Deus julgou e condenou Lisboa, como outrora fizera com Sodoma”. Voltaire (François Marie Arouet), que era um deísta, escreveu em 1756 “Poemas sobre o desastre em Lisboa”. Ali, ele culpa a natureza e a chama de malévola, deixando no ar questionamentos sobre a benevolência de Deus. Jean Jacques Rousseau, respondeu com “Carta sobre a providência”. Nela ele culpa “o homem” como responsável pela tragédia. Ele aponta que, em Lisboa, existiam “20 mil casas de seis ou sete andares” e que o homem “deveria ter construído elas menores e mais dispersas”. Ou seja, procurando “inocentar a Deus e a natureza” ele coloca a agência da tragédia no desatino dos homens, de maneira bem semelhante à que os especialistas contemporâneos e comentaristas da mídia adoram fazer.[1]

Quando do terremoto no Haiti, à semelhança do que ocorreu no Tsunami, alguns depoimentos de pastores, que li, falavam sobre a “mão pesada de Deus, em julgamento”; opinião semelhante à emitida quando do acidente com o avião que transportava o grupo “Mamonas Assassinas”, em 1996. Ninguém tem essa capacidade de julgamento, que reflete apenas orgulho e prepotência.

Mas outros procuram uma teologia estranha às Escrituras, para “isolar” Deus da regência da história. São os mesmos que, quando da ocorrência do Tsunami e do acidente ocorrido com o Vôo 447 da Air France em junho de 2009, emitiram a seguinte conclusão: “Diante de uma tragédia dessa magnitude, precisamos repensar alguns conceitos teológicos” (veja as excelentes reflexões sobre esse último desastre, no post do Augustus Nicodemus, neste mesmo blog). No entanto, em vez de formularmos nossa teologia pelas experiências, voltemo-nos ao ensinamento do próprio Jesus.

Graças a Deus que temos, em Lucas 13.1-9, instrução pertinente sobre como refletir sobre desastres e tragédias. A primeira tragédia tratada é aquela gerada por homens (Vs 1-3). Certos galileus haviam sido mortos por soldados de Pilatos. A Bíblia diz que “alguns” colocaram-se como críticos e juízes (a resposta de Jesus infere isso); deduziram que aqueles que haviam sofrido violência humana, sangue derramado por armas (um paralelo às situações que vivemos nos nossos dias) seriam mais pecadores do que os demais. No entanto, o ensino ministrado pelas Escrituras é o seguinte: Não vamos nos colocar no lugar de Deus. Não vamos nos concentrar em um possível juízo ou julgamento sobre as vítimas. Jesus, em essência diz: cuidem de si mesmos! Constatem os seus pecados! Arrependam-se!

Mas ele nos traz, também, um segundo tipo de tragédias. Esta que é referida é semelhante, guardadas as proporções, a essas enchentes e deslizamentos, ou ao terremoto do Haiti. São tragédias classificadas como “fatalidades”. Jesus fala da Torre de Siloé. O texto (Vs 4-5) diz que ela desabou, deixando 18 mortos. Jesus sabia que mesmo quando, aos nossos olhos, mortes ocorrem como conseqüência de acidentes, isso não impede que rapidamente exerçamos julgamento; não impede que tentemos nos colocar no lugar de Deus. E Jesus pergunta, sobre os que pereceram: “Acham que eram mais culpados do que todos os demais habitantes da cidade”? O ensino é idêntico: Não se coloquem no lugar de Deus; não se concentrem em um possível juízo ou julgamento sobre as vítimas; cuidem de si mesmos! Constatem a sua culpa! Arrependam-se!

O surpreendente é que Jesus passa a ilustrar o seu ensino com uma parábola (Vs.6-9). Ele fala de uma figueira sem fruto. Aparentemente, a parábola não teria relação com as observações prévias, mas, na realidade, tem. Ela nos ensina que vivemos todos em “tempo emprestado” pela misericórdia divina. O texto nos ensina que:

Figueiras existem para dar frutos - o homem vinha procurar frutos - essa era sua expectativa natural. Todos nós fomos criados para reconhecer a Deus e dar frutos. Esse é o nosso propósito original.

Figueiras sem frutos “ocupam inutilmente a terra”. O corte é iminente, e justificado a qualquer momento.

O escape: É feito um apelo para que se espere um pouco mais, na esperança de que, bem cuidada e adubada, a figueira venha a dar fruto e escape do corte.

Lições para o vizinho? Jesus não apresenta a figueira como um paralelo para fazermos uma comparação com outras pessoas – cujas existências foram ceifadas como vítimas de violência ou fatalidades. Ele quer que nos concentremos em nós mesmos, em nossas próprias vidas, pecados e na necessidade de arrependimento.

Tempo emprestado: O que ele está ensinando e ilustrando, aqui, é que nós, você e eu, como os habitantes das regiões serranas do Rio, de Franco da Rocha, em São Paulo, ou do Haiti, vivemos em tempo emprestado; vivemos pela misericórdia de Deus; vivemos com o propósito de frutificar, de agradar o nosso proprietário e criador.

Creio que a conclusão desse ensino, é que, conscientes da soberania de Deus e de que ele sabe o que deve ser feito, não devemos insistir em procurar grandes explicações para as tragédias e fatalidades. Jesus nos ensina que teremos aflições neste mundo (João 1.33) - essa é a norma de uma criação que geme na expectativa da redenção. 1 Pe 4.19 fala dos que sofrem segundo a vontade de Deus. Lemos que não devemos ousar penetrar nos propósitos insondáveis de Deus; não devemos “estranhar” até o “fogo ardente” (1 Pe 4.12).

Assim, as tragédias, desde as locais pessoais até as gigantescas, de características nacionais e internacionais, são lembretes da nossa fragilidade; de que a nossa vida é como vapor; de que devemos nos arrepender dos nossos pecados; de que devemos viver para dar frutos.

Também, não cometamos o erro de diminuir a pessoa de Deus, indicando que ele está ausente, isolado, impotente. Como tantas vezes já dissemos, “Deus continua no controle”. Lembremos-nos de Tiago 4.12: “um só é legislador e juiz - aquele que pode salvar e fazer perecer”. Não sigamos, portanto, nossas “intuições”, no nosso exame dos acontecimentos, mas a Palavra de Deus. Como nos instrui 1 Pe 4.11: “ se alguém falar, fale segundo os oráculos de Deus”.

Em adição a tudo isso, não podemos cometer o erro de ser insensíveis às tragédias - Pv 17.5 diz: “o que se alegra na calamidade, não ficará impune”; mesmo perplexos, sabendo que não somos juízes nem videntes. Devemos nos solidarizar com as vítimas, na medida do possível. E o que podemos fazer para auxiliar e agir a favor daqueles que foram severamente atingidos nesses desastres causados pelas águas, entre os quais estão vários dos nossos irmãos na fé? A Igreja Presbiteriana do Brasil possui um Conselho de Ação Social (CAS). Contatado, obtive a seguinte informação, sobre o que pode ser feito:

1. Um pastor da região, o Rev. Carlos Augusto, da Igreja Presbiteriana de Magé, presidente do Presbitério de Magé, está responsável pelos esforços de coleta e distribuição de auxílio aos sobreviventes, que se encontram em dificuldade. Eles esperam doações de roupas em perfeito estado, roupas íntimas novas; roupas de cama, mesa e banho; alimentos não perecíveis, velas, material de higiene pessoal, limpesa, etc. Esse tipo de material pode ser entregue ou remetido para o seguinte endereço: Avenida 02, No. 21, Jardim Novo Mundo, Magé.

2. Para doações em dinheiro
a. Igreja Presbiteriana do Brasil (CNPJ 00.118.331.0002/01) - doações terminando em R$2,00
Banco do Brasil, Agência: 4442-3, Conta Corrente - 6000-3
Exemplo: R$ 202,00.

b. Presbitério de Magé (CNPJ 01.264.150-0001/75),
Banco Bradesco, Agência 1546-6, conta corrente, 7806-9.

“Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade” ( 1 João 3.17-18).

Solano Portela

[1] Folha de S. Paulo 28/12/2004; Jornal do Commércio - Recife - 2/1/2005, de onde foram extraídas as citações desse trecho.
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Adaptado de estudos e sermões proferidos em 2005, e de POST de janeiro de 2010
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Augustus Nicodemus Lopes

Como assim, "livre pensador"?

Por     16 comentários:
Se com isto você quer dizer que quer "pensar" sem levar em conta pressupostos teológicos como Deus, as Escrituras e a teologia cristã, tudo bem. Mas se com isto você quer dizer que consegue pensar livre de qualquer pressuposto ou de maneira isenta ou neutra, é a maior bobagem que já vi. Todos, sem exceção, pensam a partir de referenciais. Se não for o Cristianismo histórico, será o liberalismo teológico, o naturalismo filosófico, o existencialismo, ou qualquer outra cosmovisão. Portanto, tire este arzinho se superioridade da cara, como se um "livre pensador" fosse alguém superior, mais inteligente ou liberto das peias do obscurantismo, ao qual todos os que confessam a fé cristã estão presos.
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quarta-feira, janeiro 12, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

É gente?

Por     14 comentários:
Recebi esta semana. Réplica de plástico de um feto de 12 semanas feito pelo pessoal pró-vida da Espanha, chamado de Bebè Aido. Usado para ajudar as mães que pretendem abortar com 12 semanas de gravidez a entender que não estão apenas "extraindo" uma "coisa" de seu ventre.
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terça-feira, janeiro 11, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Decisões da IPB sobre o culto público

Por     30 comentários:

Em novembro de 2010 o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil se reuniu extraordinariamente para examinar diversos documentos que não puderam ser analisados em sua reunião ordinária em julho do mesmo ano. Entre eles havia vários documentos oriundos de presbitérios e sínodos acerca de questões relacionadas com o culto público a Deus.

Para alguns, pode parecer estranho que o concílio maior de uma denominação tão antiga e séria como a IPB se dedique a discutir por horas assuntos litúrgicos, quando existem outros assuntos "mais sérios e importantes" a serem tratados. A verdade, todavia, é que para os presbiterianos o culto público é um dos assuntos mais sérios e importantes na vida de uma igreja local e de uma denominação. No âmago da Reforma protestante estava um desejo profundo de reformar o culto a Deus dos acréscimos feitos pela Igreja Católica durante a Idade Média e retornar ao culto simples e teocêntrico ensinado na Bíblia. E hoje, quando outra vez a pureza do culto é ameaçada pela intrusão de elementos e práticas estranhas trazidos pelo neopentecostalismo e outras tendências, os presbiterianos entendem que é preciso se debruçar sobre o assunto, discutir o mesmo e tomar posicionamentos.

Foi isto, numa certa medida, que foi feito na reunião de novembro do ano passado. Alguns dos tópicos sobre culto analisados foram os seguintes.

1 - Havia uma consulta sobre a proibição de culto de gratidão a Deus no domingo a noite - ao que parece, alguns pastores estavam defendendo que o culto público nos domingos à noite deveriam sempre ser cultos regulares, sem a possibilidade da celebração de cultos em ações de graça, como é comum acontecer nas igrejas. A decisão do Supremo Concílio foi "não proibir as ações de graças como parte do culto no dia do Senhor", e que o culto deve ter Deus como centro. Ou seja, declarou que as ações de graças fazem parte do culto a Deus, como está na Confissão de Fé da IPB (Westminster) e que o culto não deve virar culto à personalidade, mas Deus é sempre o centro do mesmo.

2. Outra consulta tratava do título de apóstolo, diante do uso cada vez mais freqüente do mesmo por parte de líderes de igrejas e grupos neopentecostais. O Supremo Concílio respondeu que reconhece apenas os Doze Apóstolos e Paulo e que não cabe o uso do título a nenhum líder cristão contemporâneo.

3. O Supremo Concílio aprovou uma Carta Pastoral sobre Liturgia que trata de danças litúrgicas, coreografias e bater palmas durante os cultos. Esta Pastoral será preparada em formato de livro e publicada pela Editora Cultura Cristã, órgão oficial da IPB, e enviada a todas as igrejas locais sob sua jurisdição. Em linhas gerais, o Supremo Concílio declara na Pastoral que as danças e coreografias não fazem parte do culto público oferecido a Deus conforme revelado na Bíblia e que, portanto, as igrejas devem excluir tais práticas de suas liturgias. Bater palmas fica a critério de cada igreja local.

4. As comemorações do Natal por parte das igrejas também foi alvo de consulta. Como é sabido, há reformados que consideram cultos natalinos como corrupção do culto a Deus e  uma prática pagã sem fundamento bíblico. A decisão do Supremo Concílio, todavia, foi ratificar várias decisões anteriores que não proibiam as celebrações natalinas, embora colocassem limites e orientações e exigissem a fiscalização direta dos conselhos contra abusos.

5. Houve também a reafirmação de uma decisão anterior quanto às chamadas "práticas neopuritanas". Em termos gerais, o Supremo Concílio considera que tais práticas, como o cântico exclusivo dos salmos, a proibição de mulheres cristãs orarem nos cultos da Igreja, a proibição do uso de instrumentos musicais e de corais nos cultos, "não encontram amparo nos símbolos de fé da Igreja e nem nos seus Princípios de Liturgia," e que os concílios devem repelir a restrição de genuínos atos litúrgicos bem como os acréscimos de práticas antropocêntricas.

6. Uma decisão muito debatida foi sobre cantatas com representações teatrais. A decisão do Supremo Concílio declarou que "não há qualquer incompatibilidade da encenação teatral ou representativa de cantatas" com os elementos de culto público da IPB. Ou seja, continuam a ser permitidas - e felizmente, não obrigatórias - as cantatas com teatralização no culto. Se eu entendi correto, a decisão está permitindo teatro ou encenação durante o culto somente durante cantatas - o que normalmente se faz somente na época da Páscoa e do Natal. Assim mesmo, fica a dúvida se esta decisão não contraria a decisão mencionada no item 3 acima, e que foi tomada antes desta, que proibe coreografias durante o culto.

Tomadas como um todo, as decisões confirmam a tendência da maioria dos pastores e presbíteros da IPB em anos recentes de nos firmarmos mais e mais como uma igreja liturgicamente reformada, que rejeita as práticas neopentecostais sem, contudo, ceder aos excessos no neopuritanismo.

Quanto à implementação e observância destas decisões no cotidiano das igrejas locais, dependerá completamente da honestidade, fidelidade e zelo dos pastores, presbíteros e conselhos. Quem viver, verá...

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quarta-feira, dezembro 29, 2010

Solano Portela

Retrospectiva de 2010 e uma palavra de solidariedade

Se existem duas palavras que não se aplicam ao ano de 2010 são, tédio e monotonia. Ele foi repleto de ação, surpresas, acontecimentos marcantes e, sobretudo, de muitas bênçãos divinas e de confirmação dos nossos caminhos. Queremos (Solano e Mauro) fazer uma retrospectiva temática do que aconteceu em 2010, mencionando os posts que foram aqui colocados (note os diversos links, no texto) e dando destaque a um dos últimos acontecimentos, ao qual registramos uma palavra de profunda solidariedade.

1. Tragédias "naturais" – O ano começou com diversas tragédias. O mundo, e não somente o Haiti, foi abalado com o terremoto que ocorreu em 12.01.2010 naquele pequeno país já devastado por décadas de governantes despreparados e aproveitadores. Mais de 200 mil pessoas pereceram e, apesar da massiva ajuda internacional, e em função de promessas de auxílio não cumpridas, agravou-se o caos social, que perdura até hoje. Um post nosso procurou trazer o acontecimento e nossas responsabilidades a um contexto bíblico, ao mesmo tempo em que lembrava as tragédias domésticas, provocadas pelas chuvas, com menor perda de vidas, mas não menos dramáticas e intensas. No mesmo mês de janeiro, a cidade de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, teve o seu centro histórico e outras partes praticamente destruídas. O ano ainda registraria a surpreendente implosão do Morro do Bumba, no Rio, em abril, e as terríveis enchentes no nordeste (Pernambuco e Alagoas), no final de junho.

De menor monta, mas igualmente impactantes e relacionadas com este Blog, tivemos uma nevasca na costa leste dos Estados Unidos (bem mais intensa do que a que está ocorrendo desde 26 de dezembro de 2010, na mesma região) e a erupção do vulcão, na Islândia, de nome tão impronunciável que deveria ser proibido, Fimmvorduhals, que fica na geleira de Eyjafjallajoekull. Esses dois eventos ocorreram no mês de março. A nevasca pegou o blogueiro Solano de surpresa em Nova Jersey. Vôos foram cancelados e ele ficou preso pela neve por três dias na "pitoresca e bela" cidade de Newark. A erupção do vulcão islandês durou meses e fez com que os vôos na Europa fossem interrompidos por vários dias, em abril, perturbando a vida do Mauro e do Augustus, que se encontravam e ficaram retidos na Escócia. Graças a Deus, esses dois últimos acontecimentos, apesar de conturbarem a ordem das coisas em escala mundial, trouxeram apenas prejuízos materiais.

2. Distorções e desvios teológicos – Uma das marcas registradas do nosso Blog tem sido a análise e tratamento, à luz da Bíblia, de distorções e desvios teológicos. Nesse sentido, publicamos seis textos em 2010. Em janeiro, Mauro tratou da Teologia Relacional, que postula um "Deus que não Intervém" e Solano apontou o deslumbramento de certos segmentos evangélicos com a erudição católico-romana, insensíveis às grandes diferenças doutrinárias que nos separam. Em junho, Augustus com sua pena afiada, postou dois textos. O primeiro, com um título instigante, levanta a questão de que Jesus não era cristão, demonstrando que considerar Jesus apenas como exemplo, à custa de sua obra e vida milagrosa, como o verdadeiro Deus, é exatamente o erro dos liberais, e que muitos evangélicos estão caindo na mesma vala. O segundo tratou da providência de Deus, abordando a negação, também sempre presente na teologia relacional, de que Deus não tem controle sobre as chamadas "causas naturais", sendo essas obra do acaso. Augustus rotula essa compreensão, simplesmente, de paganismo. Em agosto ele voltaria ao tema, repercutindo a morte do Dr. Clark Pinnock, com um texto que demonstra o relacionamento íntimo entre o liberalismo e a teologia relacional, sendo o ponto de convergência a negação da inerrância bíblica. Por fim, nessa categoria, Augustus em setembro trataria a Teologia da Libertação, que hoje, apesar de se metamorfosear sob outros títulos, ainda empolga algumas mentes.

3. Teologia da reforma – Obviamente, sendo este um Blog escrito por calvinistas, a exposição direta da teologia da reforma recebeu cinco posts. Em abril, Mauro, apresentou a visão bíblica da Páscoa e o entendimento abraçado pelos reformadores e pela igreja histórica, em suas celebrações. Na tradição dos títulos provocativos, Augustus, em maio, indica que ele mudou. Na realidade, ele tanto mudou de arminiano para uma convicção reformada, mas também substanciou que ser reformado não significa ser refratário a mudanças, quando estamos alicerçados nos pilares imutáveis da fé e nas convicções do que as Escrituras ensinam. É dele também, em junho, uma exposição bem pessoal do calvinismo. Em julho Augustus nos deu um resumo da doutrina reformada "Sola Fides" e em outubro apontou a diferença entre mudar por mudar e reformar de verdade, com "Sempre reformando, ou sempre mudando?".

4. Usos e costumes e questões contemporâneas – As questões contemporâneas receberam nove textos. Em março Solano tratou do descaso com o linguajar, observado no meio evangélico, em um post (Palavrão – "só prá garantir esse refrão?"), que dava como exemplo o que havia escrito um líder de muitos. Como resultado foram recebidos muitos comentários irados de seguidores dele. 63 desses comentários não foram publicados exatamente por conterem inúmeros palavrões, provando o ponto do texto. Na seqüência, no mesmo mês, Solano tratou do pluralismo da era pós-moderna e da intolerância dos adeptos, para com aqueles que não o abraçam.

Em abril, Augustus, abordou uma tendência preocupante no cenário evangélico contemporâneo – o crescimento do número dos desigrejados, que defendem a ausência da necessidade de estarem ligados a uma igreja local, como parte integral das determinações bíblicas aos fiéis. Em maio, Solano repercutiu reportagem da Folha de São Paulo, na qual Daniel Dennett, famosos entre os ateus contemporâneos, inverte os papéis e choraminga que eles estão sendo perseguidos e discriminados. Em junho, Augustus coloca um link para texto seu, expondo 1 Coríntios 1 a 4, tratando a questão das divisões nas igrejas e do culto às personalidades. A problemática do divórcio foi abordada por Augustus em duas ocasiões, no mês de julho, repercutindo reportagens sobre as recentes decisões que facilitam o processo e pesquisa realizada entre pessoas religiosas. Sintonizado com divulgações da grande imprensa, ainda em julho, Augustus escreveu post esclarecedor sobre reportagem da revista Época, sobre os Novos Evangélicos. Em dezembro, republicou texto de Solano, tratando do curioso movimento observado no meio evangélico contra a celebração do Natal de Cristo Jesus.

5. Cartas – O Tempora abrigou quatro artigos em forma de cartas, em 2010. Todas elas foram escritas a personagens fictícios (assim garante o autor) pelo Augustus, tratando de temas da atualidade de maneira humorada, mas penetrante. Receberam essas cartas, em fevereiro o Jean Martin Ulricho, um pastor envolvido com o neo-puritanismo; em junho, a Bispa Evônia, defensora ferrenha da ordenação feminina; em julho, o Rev. Van Diesel, um pastor que decidiu lubrificar o seu ministério introduzindo a unção com óleo como prática litúrgica; e, em setembro, um jovem agoniado por que se encontra ilhado, cercado de liberais por todos os lados, lutando pela preservação de sua fé.

6. Educação escolar cristã – O tema da Educação Cristã está muito próximo ao coração de todos os três blogueiros, que, de uma forma ou de outra, se encontram envolvidos na promoção do ensino de todas as áreas de conhecimento, partindo de uma cosmovisão bíblica. Uma das atividades que mais tem nos animado é o curso de pós-graduação (Lato Sensu) realizado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie – Fundamentos Cristãos da Educação. Em paralelo, interagimos com o desenvolvimento e disponibilização do Sistema Mackenzie de Ensino – produção de livros escolares que já são adotados por uma centena de escolas. Esse trabalho de edição continuou em 2010, já cobrindo desde o maternal até o término do Ensino Fundamental I. Nesse tema tivemos três posts, em 2010, todos de autoria do Mauro. Em março ele deu, em uma entrevista reproduzida no blog, um panorama da educação escolar cristã, no Brasil, destacando várias instituições que a promovem, inclusive a ACSI. Em abril, ele notificou sobre a participação no programa de televisão "Vejam Só!", no qual abordou o papel da igreja e das escolas, apontando formas de cooperação e os limites, entre essas instituições. Em maio ele informou sobre encontro de educadores cristãos, na cidade de Belo Horizonte. Aproveitando para dar a notícia em primeira mão, o próximo congresso da ACSI será em São Paulo, de 23 e 24 de junho de 2011.

7. Denominação – A nossa denominação, a Igreja Presbiteriana do Brasil, foi grandemente abençoada neste ano. O Supremo Concílio, a maior reunião conciliar dela, ocorreu em Curitiba no mês de julho e em Aracruz, ES, em sessão extraordinária, no mês de novembro de 2010. No mês de julho, Augustus escreveu dois posts, sobre a IPB, substanciando as decisões conservadoras que emanaram do Supremo Concílio, mostrando os rumos da denominação, que se recusa a abandonar os padrões doutrinários firmados nas Escrituras Sagradas e não se apega aos modismos eclesiásticos que têm contaminado tantas denominações e estruturas religiosas ao redor do mundo. Além disso, testemunhamos, com alegria, a nossa denominação firmando relacionamentos e abrindo portas de comunicação com outras denominações reformadas de várias nações, que, à semelhança da IPB, prezam a Bíblia, como inerrante Palavra de Deus, e reconhecem na teologia da Reforma do Século 16 as verdades e ensinamentos sistematizados das Escrituras Sagradas.

8. Conferências e eventos internacionais – em 2010 continuamos envolvidos com a organização, promoção ou participação em diversos eventos e conferências, alguns dos quais encontraram divulgação neste blog. Em janeiro a presença do Michael Horton no Brasil, que ocorreria em março, foi registrada pelo Mauro, bem como a própria divulgação no mês da conferência, enquanto que o Augustus deu um relato do congresso. Ainda em março, Mauro divulgou a presença do Derek Thomas, professor do Reformed Theological Seminary, que ministrou entre nós. Em abril recebeu atenção o Encontro da Fraternidade Reformada Mundial, onde vários companheiros, junto com o Mauro e o Augustus, reencontraram diversos amigos e ex-palestrantes internacionais, que vieram ao Brasil em anos anteriores, como o Os Guiness, encontro devidamente registrado pelo Mauro. Ele também divulgou, em abril, o III Simpósio Internacional – Darwinismo Hoje, que ocorreu no final daquele mês, com excelentes palestras e ótima repercussão de público e de mídia. Por último, o Mauro registrou, em julho, a presença de Lou Priolo, que trouxe palestras na Palavra da Vida de Caldas Novas, Goiás, no início de agosto, sob o tema: "Em busca de restauração: o papel do aconselhamento bíblico na igreja e na família".

9. Política e as eleições – Em um ano de eleições a política e o tema do governo e a Bíblia não poderiam estar ausentes dos nossos assuntos. Três posts do Solano trataram dessa área. Em setembro ele discorreu sobre a Eleição e os Políticos. Em outubro, com a realidade do segundo turno, a questão se tornou mais específica e foram dadas razões para a percepção e persuasão do autor, perante a conjuntura eleitoral. Ainda em outubro, um último texto procurou trazer a visão bíblica do governo e dos governantes, perguntando: "Afinal, quando começou e para que serve o governo"?

10. Notas sociais e humor – Em agosto Augustus registrou o evento social do ano – o casamento da Norma e do André, ocorrido em 31 de julho de 2010. Ele também postou, neste mês de dezembro, as felicitações de final de ano aos nossos leitores. Apesar de tratarmos de coisas sérias, procuramos permear de humor os nossos posts, quando não estamos excessivamente cáusticos e a dieta de limão fica fora do cardápio, por algumas semanas. Nem sempre funciona, ou somos mal entendidos. Para completar as 43 postagens do ano, anotamos que, em fevereiro, um descontraído post, do Mauro, trouxe uma matemática eclesiástica que desafiou as mentes mais argutas dos nossos amigos leitores e trouxe uma variedade de sugestões e equações religiosas, nos comentários.

11. As coisas que não comentamos – Na frase abaixo do nome do nosso blog, "Reflexões fortuitas de alguns calvinistas sobre praticamente tudo, com destaque a temas de religião, cultura e valores morais", chama atenção o "praticamente tudo". Muitos sugeriram ou pediram comentários em situações que não foram abordadas em nossos textos. E é verdade que gostaríamos de ter escrito sobre muito mais coisas do que conseguimos. Por exemplo, nos mantivemos fora da arena futebolística, nem sequer chegamos a comentar, em junho, o desastre da Copa do Mundo, na África do Sul – desastre para o Brasil, mas que deixou uma bela infra-estrutura àquele país, da qual usufruí (Solano), no mês seguinte ao dos jogos.

Outro post que ficou nas intenções, apenas, foi o relato de minha (Solano) abençoada viagem a Moçambique. Viajei para lá em julho, onde tive a oportunidade não somente de interagir com outra cultura extremamente simpática e paralela à nossa, mas prezar da comunhão dos irmãos da Editora FIEL, enquanto trazia a Palavra de Deus a quase 400 participantes, na 11ª conferência anual de pastores e líderes que esses irmãos promovem naquele país irmão.

Imperdoavelmente, não comentamos sobre o resgate dos Mineiros (alguns acharam que era um plano para o Clube Atlético Mineiro ganhar o Campeonato Brasileiro...) no Chile; emocionante e incrível – 69 dias no ventre da terra! O incidente, além de expor as perigosas condições de trabalho dos mineiros, resultou em uma história que uniu determinação, persistência, tecnologia e solidariedade, dando uma clara demonstração do que a graça comum de Deus possibilita que a humanidade realize.

Depois de falar consideravelmente sobre política, ainda não comentamos a eleição da nova presidente do Brasil – mas isso faremos logo no início de 2011!

Também não comentamos vários assassinatos bárbaros, que ocorreram em 2010. Entre esses, o da Eliza Samúdio, cujo maior suspeito é o ex-goleiro do Flamengo, Bruno. Esse crime ocorreu em um contexto de vidas desregradas alimentadas pelo excesso de dinheiro e escassez de moralidade: situação presente na vida de tantas pessoas afluentes que povoam nossa sociedade. Outro assassinato, digno de comentário, foi o do Glauco Vilas Boas, cartunista famoso da Folha de São Paulo, ocorrida no bojo da demência provocada pelo Santo Daime e outras tantas drogas – que são condenadas da boca para fora por expoentes sociais e pela grande imprensa, como instituição, mas consumidas avidamente, por muitos dos que a fazem e nela atuam.

Semelhantemente nada comentamos sobre as aventuras e bravatas de Hugo Chavez, o bufão par excellence da América Latina, que tira um coelho comunista da cartola todo o mês, culminando, neste dezembro, com a assunção de mais poderes ditatoriais que resultarão em mais agonia e tristeza a esse país irmão.

Não chegamos, igualmente, a repercutir os trágicos acontecimentos no Rio, em novembro; tanto o desvario da criminalidade desenfreada, como as ocupações dos morros do Cruzeiro e do complexo do Alemão. Reconhecemos que essa situação é por demais importante no caldeirão social em ebulição em que estamos inseridos, mas os acontecimentos nos apanharam em meio a outras batalhas e na intensidade de responsabilidades funcionais.

Nem tocamos no lançamento do iPad no Brasil, até porque dois dos blogueiros já estão viciados nele, apesar de só um dos dois tê-lo fisicamente, em mãos!

12. Um registro necessário e uma palavra de solidariedade – No mês de novembro o nosso companheiro Augustus Nicodemus foi alvo de intensos ataques pessoais por homossexuais e simpatizantes da causa, numa demonstração da injustiça e intolerância que têm marcado a militância desse segmento da sociedade. O que ele fez, neste mês, para despertar a ira e furor que levaram o seu nome a ser propagado em diversos sites e na imprensa, culminando com um pequeno protesto realizado nas cercanias da instituição que trabalha? Especificamente, nada! Desde 2007 um registro na sua página funcional apontava a posição pública tomada pela Igreja Presbiteriana do Brasil, contra o aborto e contra o PL 122/2006, que procura impingir a toda sociedade uma mordaça na emissão de opiniões que são contrárias ao estilo de vida dos GLTB. Esse texto foi "descoberto" por homossexuais, neste novembro de 2010, gerando movimento e falatórios, na internet. O texto foi capciosamente apresentado como uma expressão "a favor da homofobia". Os sentimentos heterofóbicos foram então aguçados pela militância e nosso companheiro foi alvo de baixaria e de virulentos ataques, dos quais nem mesmo a sua família esteve protegida: muito curioso, para os pretensos defensores da liberdade de expressão, da suposta paz e do suposto amor.

Em nosso blog existem, já há vários anos, de autoria dos que subscrevem este post, alguns pronunciamentos contra a aprovação do malfadado PL 122. Não queríamos colocar "lenha no fogo", na ocasião, e mantivemos um silêncio planejado durante as semanas nas quais a controvérsia atingia o ápice. Mas os textos continuam aqui, para quem quiser acessá-los.

Com prazer constatamos que várias pessoas e muitos evangélicos se levantaram em defesa desse direito de liberdade de expressão e do nosso companheiro. Diversas manifestações pessoais foram emitidas, e aquelas de procedência externa validaram ainda mais a justiça da causa, restaurando a verdade de fatos que estavam sendo distorcidos. Um manifesto específico foi rapidamente publicado em mais de 8 mil sites, sendo referido, no Google, em mais de 30 mil citações. O texto foi traduzido para o inglês, alemão, holandês, espanhol e francês e divulgado extensamente no exterior. Posteriormente, outro texto, igualmente traduzido e publicado internacionalmente, deu um fecho verdadeiro nos relatos. Surpreendentemente, até a Folha de São Paulo, a propósito dos incidentes, publicou um editorial, em 30.11.2010, defendendo a liberdade de expressão e demonstrando a necessidade de que vozes contraditórias ao PL 122 não fossem silenciadas. Em 04.12.2010 a mesma Folha publicou um artigo do vereador Carlos Apolinário, igualmente contra o PL 122, também defendendo a posição e a pessoa do Augustus. Ainda outra voz que saiu em sua defesa, na esfera da grande mídia, foi a do repórter e escritor Reinaldo Azevedo em dois textos de ampla circulação.

Neste final de ano, portanto, queremos deixar registrada nossa solidariedade irrestrita ao Augustus, por ter sido atacado e vilipendiado na medida em que registrou padrões bíblicos de justiça e de comportamento. Sem promover o ódio, a discórdia e sem dar acolhida a qualquer forma de violência física contra qualquer pessoa, ele simplesmente exerceu a livre expressão garantida por nossa constituição, proclamando valores eternos de proteção da família e da moralidade, tão desprezados por muitos dos nossos contemporâneos.

Em 2011 esperamos continuar refletindo nossa compreensão do mundo em que vivemos, sem obrigações e comprometimentos para com prazos ou com assuntos específicos, até porque nossas atividades diárias não nos permitirão abordar tudo o que gostaríamos.

Solano e Mauro
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sexta-feira, dezembro 24, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Feliz 2011

Por     17 comentários:
Caros amigos e leitores do Tempora-Mores,

Este fim de ano foi cheio demais. Além da intensificação das atividades e compromissos profissionais, tivemos de enfrentar controvérsias, escrever artigos, responder centenas de emails e, obviamente, dar atenção às nossas famílias e nossas igrejas. Por este motivo simplesmente não conseguimos produzir muita coisa para o blog nesta época.

Esperamos voltar com as forças renovadas em 2011, com mais artigos e comentários e discussões.

Agradecemos a todos que nos apoiaram e sustentaram com suas orações durante este ano, e que contribuiram aqui no blog. Aos que nos detestam mas que não conseguem ficar longe de nós, vocês continuam a ser bem vindos, desde que continuem a ser educados e polidos ao manifestar suas opiniões.

Feliz Natal e um abençoado 2011.

Augustus, Mauro e Solano

[Foto: Solano, Wilson Porte, Augustus e Mauro, no Congresso da Fiel 2010]
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quinta-feira, dezembro 16, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Calvino contra o Natal?

Por     35 comentários:
[Este post de Solano foi originalmente publicado em 25/12/2006 e republicamos aqui pela pertinência, tanto do assunto quanto da data.]

Cristãos Contra o Natal!

Como bem observou o Augustus, em seu último post, o impossível está acontecendo: temos um movimento crescente de “Cristãos Contra o Natal”! A chamada “festa máxima da cristandade” está sob ataque cerrado de vários flancos e desta vez a luta é interna! Multiplicam-se os textos e os posicionamentos não apenas contra as características eminentemente comerciais do feriado (esse viés sempre foi um legítimo campo de batalha dos cristãos), mas somos alertados que o Natal não é nada mais do que um feriado pagão assimilado pela igreja medieval, e que persiste no campo evangélico apenas por desconhecimento do seu histórico. Essa origem, além da exploração comercial, inviabilizaria a sua observância religiosa pelos cristãos sendo fútil a tentativa de se resgatar o conceito abrigado no desgastado chavão do “verdadeiro sentido do Natal” (postei algo sobre isso em 20 de dezembro de 2005).

A literatura já nos brindou com alguns exemplos de personagens que não gostavam do Natal. Temos Charles Dickens, no livro Um Conto de Natal (teria sido melhor traduzido como “Um Cântico de Natal”),[1] trazendo a história de Ebenezer Scrooge, durante um período de festividades natalinas. Scrooge era um homem rico, não ligava para ninguém; desprezava as crianças pobres; era avarento e egoísta. Teve, entretanto, um sonho no qual empobrece, modificando sua atitude para com a data. A mensagem de Dickens é que a “essência” do Natal conseguiu derreter aquele coração endurecido. Outro personagem famoso é o Grinch – da pena do escritor Dr. Seuss, que publicava seus contos em rimas. Ele escreveu Como Grinch Roubou o Natal,[2] que virou, anos atrás, um filme com o ator Jim Carey. A história retrata Grinch como uma criatura mal-humorada que tem o coração bem pequeno. Ele odeia o Natal – pois não consegue ver ninguém demonstrando felicidade – e planeja roubar todos os presentes e ornamentos para impedir a celebração do evento em uma aldeia perto de sua moradia. Para seu espanto, a celebração ocorre de qualquer maneira. A mensagem de Seuss é que a “essência” do Natal não estava nos presentes ou nos ornamentos – transcendia tudo isso.

Obviamente os “Cristãos Contra o Natal” não têm relação com qualquer desses personagens, ou com aquele outro, registrado nas páginas das Escrituras Sagradas, que também odiou o Natal – o Rei Herodes,[3] mas parece que está virando moda termos cristãos contra o Natal. Além das razões relacionadas com as origens e da distorção comercial já mencionada, temos cristãos que apresentam algumas razões teológicas firmadas em suas convicções do que seria ou não apropriado ao culto e celebrações na Igreja de Cristo.

Cristãos Reformados Contra o Natal!No campo reformado, principalmente entre presbiterianos e batistas históricos, os argumentos contra o Natal são ampliados com uma veia histórica. Pretende-se provar que a verdadeira teologia da reforma e, principalmente, os reformadores e seus seguidores próximos, foram avessos à celebração do Natal. Argumenta-se que a celebração do Natal fere o “princípio regulador do culto”, defendido pela ala reformada da igreja. Conseqüentemente, se desejamos ser seguidores da reforma, teríamos que, coerentemente, rejeitar a celebração desta data. Nessa linha de entendimento, muitos artigos têm sido escritos[4] presumindo uma linha uniforme de pensamento nos teólogos reformados e correntes denominacionais reformadas no que diz respeito à rejeição da comemoração do Natal. Normalmente, também, o raciocínio se estende a outras datas celebradas no seio da cristandade, tais como a páscoa, que seriam igualmente condenáveis no calendário cristão. Por vezes, a defesa apaixonada deste ponto de vista tem resultado em dissensões e desarmonia no seio da igreja, ou de demonstração de um espírito de superioridade espiritual e auto-justiça, com críticas mordazes e ferinas aos que não se convenceram do embasamento teológico, histórico ou bíblico para a rejeição.

Deixando de lado a questão das origens – se elas têm a força de determinar a correção de uma observância religiosa – o que seria um ensaio à parte, será que a opinião dos reformadores foi sempre uniforme com relação à celebração do Natal e de outras datas importantes ao cristianismo? Será que houve sempre tanta harmonia assim, nas denominações reformadas, com relação à rejeição da comemoração do Natal resultando nessa tradição monolítica? Será que Calvino, realmente, se posicionou contra o Natal? Será que procede o que me escreveu uma vez um irmão reformado, dizendo que a rejeição do Natal seria “coerente com a fé cristã bíblica e reformada, principalmente com a posição presbiteriana histórica, a partir de Calvino e Knox”?

Calvino Contra o Natal?
A primeira coisa que temos a observar é que essa hipotética concordância entre Calvino e Knox não existiu. Nem há uma visão monolítica, sobre a questão, no seio reformado histórico, como muitos pretendem transmitir. Aquele irmão, em sua carta, desafiava: “por favor cite uma fonte primaria de onde Calvino aprova o Natal ou recomenda o mesmo”.

Bom, se é isso que vai ajudar, vamos a ela: uma das fontes primárias é uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551 (Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858). Nela, Calvino escreveu: “Priusquam urbem unquam ingrederer, nullae prorsus erant feriae praeter diem Dominicum. Ex quo sum revocatus hoc temperamentum quae sivi, ut Christi natalis celebraretur”.

Para alguns, isso bastaria para resolver a questão, mas para o resto de nós – entre os quais me incluo, a versão ao vernáculo é necessária. Possivelmente, uma tradução razoável para o português, seria (agradecimentos ao Rev. Elias Medeiros): “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação afim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”.

Uma outra carta, de março de 1555, para os Magistrados (Seigneurs) de Berna, que aderentemente eram contra a celebração do Natal, diz o seguinte: “Quanto ao restante, meus escritos testemunham os meus sentimentos nesses pontos, pois neles declaro que uma igreja não deve ser desprezada ou condenada porque observa mais festivais do que outras. A recente abolição de dias de festas resultou apenas no seguinte: não se passa um ano sem que haja algum tipo de briga e discussão; o povo estava dividido ao ponto de desembainharem as suas espadas” (mesma fonte). No contexto, Calvino parece indicar que os oficiais que haviam abolido a celebração tinham boas intenções de eliminar a idolatria (vamos nos lembrar da situação histórica), mas parece igualmente claro que ele indica que, se a definição estivesse em suas mãos teria agido de forma diferente.

Historicamente, Knox e a igreja a Igreja Escocesa seguiram a opinião dos oficiais de Genebra. Ou seja, em seu contexto histórico de se dissociar de tudo que era catolicismo, reforçou a abolição das festividades, nas igrejas. Mas não esqueçamos que ele também rejeitou instrumentos musicais, cânticos, e várias outras formas de adoração – os “Reformados Contra o Natal” estão dispostos a segui-lo em tudo, como parâmetro infalível?

Ocorre que Calvino é sempre apontado como uma força instigadora e radical, na gestão de Genebra. Na realidade, entretanto, ele agiu, em muitos casos (como no incidente de Serveto) como um pólo de moderação e encaminhamento, mas nem sempre sua opinião prevaleceu. O governo de Genebra era conciliar e fazia valer a visão da maioria. Por exemplo, o Rev. Hérmisten Maia Pereira da Costa aponta que a persuasão de Calvino era a de que a Santa Ceia devia ser celebrada semanalmente, enquanto que nas cidades de Berna e Genebra, no máximo era celebrada quatro vezes por ano. Calvino deu até o que poderíamos chamar de um “jeitinho reformado” ou de um “jogo de cintura” notável. Hérmisten cita: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais freqüente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha” [William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141] Costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].

Hérmisten aponta também que em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd. John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141]. A conclusão óbvia é a citada pelo Hérmisten: “As cinco festas da Igreja Reformada eram: Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa, Assunção e Pentecostes” (Cf. Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 28)]. Podemos dizer que não havia, na essência da questão, celebração do Natal, em Genebra?

A suposta unidade monolítica e histórica dos reformados, sobre esta questão das celebrações de festividades do chamado “calendário cristão” é mais um mito do que verdade. Ousaríamos rotular o Sínodo de Dordrecht (Dordt) de “não reformado” – justamente de onde extraímos os Cinco Pontos do Calvinismo (em 1618)? Pois bem, em 1578, temos a seguinte decisão: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão a congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”. Assim, as igrejas reformadas procedentes do ramo holandês comemoram várias dessas datas até em dose dupla (incluindo o dia seguinte). Augustus mencionou não somente este trecho, mas adicionou a admissão dessa visão na Confissão de Fé de Westminster (Cap. 21) e na Confissão Helvética (XXIV). Não ve, igualmente, dano na celebração do Natal, um outro ícone reformado, Turretin (1623-1687)[5]. Ou seja, a rejeição do Natal, atualmente “ressuscitada”, não tem o respaldo histórico-teológico que pretende ter.

Obviamente todos esses referenciais históricos são importantes, mas o que firma a nossa convicção é a Palavra de Deus e nela aprendemos que a questão das origens não determina a propriedade, ou não, de uma coisa ou situação, mas sim a atitude de fé do utilizante. Isso pode ser extraído de um estudo de 1 Coríntios 8.1-13; ou examinando como os artefatos e itens preciosos, surrupiados pelos Israelitas dos Egípcios (imediatamente antes do Êxodo), muitos dos quais com certeza utilizados em cultos e festividades pagãs, foram utilizados em consagração total (e sem restrições) no Tabernáculo (Ex 35 a 39). Das Escrituras, podemos inferir, possivelmente, que Jesus participou de celebrações de festividades que não procediam das determinações explícitas da Lei Mosaica, mas que refletiam ocorrências históricas importantes na história do Povo de Deus – como as festas de Purim[6] e Hanucah[7] – deixando implícita a propriedade dessas celebrações, como algo que, provém “de fé”, não sendo, portanto, pecado. Romanos 14 e 15 trazem considerações sobre tais questões, demonstrando a necessidade da consciência pura, ao lado da preocupação com os irmãos na fé, para que procuremos “as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua” (14.19). É lá igualmente que lemos (14.5): “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias; cada um esteja inteiramente convicto em sua própria mente”. Se Deus decidiu não disciplinar condenatoriamente a questão, não o façamos nós.

Um Feliz Natal Reformado a todos!

Solano
[1] Charles Dickens, Um Conto de Natal (S. Paulo: Rideel, 2003), 32 pp.[2] Dr. Seuss, Como Grinch Roubou o Natal (S. Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000), 64 pp.[3] Mt 2.1-18. Herodes, conhecido como “o Grande” e “Rei dos Judeus”, nasceu em 73 a.C. Filho de Antipater II – era da região chamada induméia e foi indicado pelo imperador romano Júlio César como “governador da Judéia”.[4] Veja, por exemplo, Brian Schwertley e seu artigo “The Regulative Principle of Worship and Christmas”, postado, entre outros sites, em: http://www.swrb.com/newslett/actualnls/CHRISTMAS.htm (acessado em 18.12.2003).[5] Turretin admite as celebrações de dias especiais pelas igrejas, desde que estes não sejam impostos por elas como matéria de fé, ou considerados mais santos do que os demais. Referindo-se à censura de igrejas que haviam escolhido não celebrar o Natal e outras datas, sobre outras igrejas cristãos, ele escreve: “não podemos aprovar o julgamento rígido daqueles que acusam essas igrejas de idolatria” (Institutes of Elenctic Theology (Philipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, 1994), vol 2 p. 100.[6] Possivelmente a festividade relatada em João 5 – relacionada com os incidentes narrados no livro de Ester.[7] Ou “Chanukah” – festividade originada na época dos Macabeus, em celebração ao livramento físico do Povo Judeu. Jesus estava em Jerusalém na época da celebração (João 10.23-30).
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