segunda-feira, setembro 26, 2011

Solano Portela

Protesto contra o genocídio da raça negra!

O pastor Walter Hoy é uma voz constante que se levanta na defesa dos cidadãos norte-americanos de pele negra. O articulista Charles Colson, cristão proeminente naquele país, informa que ele foi preso no ano passado por protestar em frente a uma das “clínicas de aborto”, que proliferam naquela terra. Hoy organizou a Fundação Questões da Vida (Issues for Life Foundation), contra o aborto generalizado que vem causando o que ele chama de “genocídio negro”.


Ele calculou que desde 1973, ano da controvertida autorização do aborto pela Corte Suprema Norte-Americana, 14.500.000 bebês afro-americanos foram assassinados pela prática do aborto. A cada dia 1.200 bebês são dizimados dessa forma e isso significa que metade das crianças negras concebidas são abortadas. Sua trágica conclusão é que, pelas estatísticas, uma criança negra está mais segura nas vizinhanças violentas de qualquer grande cidade ou gueto de pobreza e violência, do que no ventre de sua mãe!


Um outro dado, apresentado por Hoy, é que a abominável Ku Klux Klan, entre 1882 e 1968, matou 3.446 negros, e os bárbaros modernos atingem esse número em menos de três dias; mais do que aquela organização fora da lei matou em 86 anos!


Os números ficam ainda mais cruéis quando levamos em conta que os afro-descendentes, nos Estados Unidos, compreendem 12% da população, mas 37% de todos os abortos daquele país são realizados em mulheres negras. Considerando a taxa de natalidade da população negra, de 1,9% (abaixo da taxa de reposição, que seria 2,1), Hoy diz que em algumas décadas os afro-americanos serão uma raça em extinção.


Colson lembra que as elites estão sempre prontas à promoção do aborto, como um procedimento simples e eticamente ascético; uma forma das mulheres melhorarem a qualidade de suas vidas. Mas a verdade feia e mesquinha é a que Hoy apresenta: o aborto está se tornando uma ferramenta racista, dizimando o seu povo.


É essa ferramenta genocida que os “esclarecidos” europeus e americanos se esforçam para divulgar e exportar para o terceiro mundo. É essa acolhida ao assassinato de infantes que muitos dos nossos legisladores e vários que integram o poder executivo querem implantar aqui no Brasil.


Resista e proteste!
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segunda-feira, setembro 19, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Reprimir o Desejo Sexual faz Mal?

Sempre recebo comentários de alguns leitores de que a abstinência sexual defendida por mim e outros escritores e pastores provoca nos jovens evangélicos traumas e neuroses. Ou seja, passar a adolescência e a mocidade sem ter relações sexuais faz com que os evangélicos fiquem traumatizados, perturbados mental e espiritualmente, reprimidos e recalcados.

Esse raciocínio tem sua origem mais recente nas idéias do famoso Sigmund Freud. Para ele, o sexo era o fator dominante na etiologia das neuroses e o desejo sexual era a motivação quase que exclusiva para o comportamento das pessoas. No início, Freud falava que o ser humano, até biologicamente (todos os seres vivos, no final), viveria sua existência na tensão entre dois princípios, ou instintos, primordiais: o princípio do prazer (instintivo e ligado ao id, às vezes relacionado como a libido) e o princípio da realidade (a limitação do prazer para tornar a vida possível, princípio ligado mais ao amadurecimento e, às vezes, ao superego). Mais tarde (na publicação de Além do Princípio do Prazer, 1920), ele passou a falar em outros dois princípios mais amplos, o princípio de vida e o princípio de morte, os quais ele denominou eros e tanatos, como os dois princípios que geram a tensão que move o ego. De qualquer modo, tanto o princípio do prazer quanto eros (princípio de vida) eram, para Freud, princípios instintivos, ligados à preservação da vida e da espécie, e sempre conectados ao apetite sexual (ver Os Instintos e Suas Vicissitudes, 1915).

Nem as crianças estariam livres desse apetite sexual instintivo – elas desejavam sexualmente seus pais. Freud apelou aqui para o complexo de Édipo, em que o filho deseja sexualmente a mãe e o complexo de Eletra, a inveja que a menina tem do pênis do menino. Naturalmente, quando esses desejos sexuais eram interrompidos, resistidos, negados, o resultado eram as neuroses, os traumas. As obras mais conhecidas onde ele sustenta seus argumentos são Sobre as Teorias Sexuais das Crianças (1908) e Uma criança é espancada - uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais (1919), onde ele defende o surgimento das neuroses como resultado da repressão do desejo sexual.

Em que pese a importância de Freud, seu modelo e suas idéias têm sido largamente criticados e rejeitados por muitos estudiosos competentes. Todavia, algumas de suas idéias – como essa de que a repressão sexual é a causa de todas as neuroses e distúrbios – acabou se popularizando e é repetida por muitos que nunca realmente se preocuparam em examinar o assunto mais de perto.

Vou dizer por que considero esse argumento apenas como mais uma desculpa dos que procuram se justificar diante de Deus, da igreja e de si mesmos pelo fato de terem relações sexuais antes e fora do casamento. Ou pelo menos, por defenderem essa idéia.

1. Esse argumento parte do princípio que os evangélicos conservadores são contra o sexo. Contudo, essa idéia é uma representação falsa da visão cristã conservadora sobre o assunto. Nós não somos contra o sexo em si. Somos contra o sexo fora do casamento, pois entendemos que as relações sexuais devem ser desfrutadas somente por pessoas legitimamente casadas (ah, sim, cremos no casamento também). Foi o próprio Deus que nos criou sexuados. E ele criou o sexo não somente para a procriação, mas como meio de comunhão, comunicação e prazer entre marido e mulher. Há muitas passagens na Bíblia que se referem às relações sexuais entre marido e mulher como sendo fonte de prazer e alegria. O livro de Cantares trata abertamente desse ponto. Em Provérbios encontramos passagens como essa:

Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias (Pv 5.18-19).

Não, não acredito que o sexo é somente para a procriação. Não, não sou contra planejamento familiar e o uso de meios preventivos da gravidez, desde que não sejam abortivos. Sim, o sexo é uma bênção, desde que usado dentro dos limites colocados pelo Criador.

2. Esse argumento, no fundo, acaba colocando a culpa em Deus, na Bíblia e na Igreja de serem uma fábrica de neuróticos reprimidos. Sim, pois a Bíblia ensina claramente a abstinência, a pureza sexual e a virgindade para os que não são casados, conforme argumentei no post Carta a Um Jovem Evangélico que Faz Sexo com a Namorada. Se a abstinência sexual antes do casamento traz transtornos mentais e emocionais, então, de acordo com os libertinos, deveríamos considerar esses ensinamentos da Bíblia como radicais, antiquados e inadequados. E, portanto, como meras idéias humanas de pessoas que viveram numa época pré-Freud – e como tais, devem ser rejeitadas e descartadas como palavra de homem e não Palavra de Deus. Ao fim, a contenção dos libertinos é mesmo contra a Bíblia e contra Deus.

3. Bom, para esse argumento ser verdadeiro, teríamos de verificá-lo estatisticamente, na prática. Pesquisa alguma vai mostrar que existe uma relação direta de causa e efeito entre abstinência antes do casamento e distúrbios mentais, neuroses e coisas afins. Da mesma forma que pesquisa alguma vai mostrar que os jovens que praticam sexo livre antes do casamento são equilibrados, sensatos, sábios e inteligentes. Pode ser que até se prove o contrário. Os tarados, estupradores e maníacos sexuais não serão encontrados no grupo dos virgens e abstinentes.Talvez fosse interessante mencionar nesse contexto o estudo conduzido na Universidade de Minessota por Ann Meir. De acordo com as pesquisas, o sexo estava associado a auto-estima baixa e depressão em garotas que iniciaram as relações sexuais (idade média de início 15-17 anos) sem relacionamento afetivo ou romântico.

4. A coisa toda é muito estranha. Funciona mais ou menos assim. Os libertinos tendem a considerar todo distúrbio que encontram como resultado de repressão dos desejos sexuais. Mas eles fazem isso não porque têm estatísticas, experiências ou históricos que provam tal teoria – mas porque Freud explica. Em vez de considerarem que esses distúrbios podem ter outras causas, seguem sem questionar a tese de Freud que tudo é sexo, desde o menininho de um ano chupando dedo até o complexo de Édipo.

O próprio Freud, na fase mais amadurecida de sua carreira, se questiona na obra Além do Princípio do Prazer (1920):

A essência de nossa investigação até agora foi o traçado de uma distinção nítida entre os “instintos do ego” e os instintos sexuais, e a visão de que os primeiros exercem pressão no sentido da morte e os últimos no sentido de um prolongamento da vida. Contudo, essa conclusão está fadada a ser insatisfatória sob muitos aspectos, mesmo para nós.


5. Embora a decisão de preservar-se para o casamento vá provocar lutas e conflitos internos no coração e mente dos jovens evangélicos, esses conflitos nada mais são que a luta normal que todo cristão verdadeiro enfrenta para viver uma vida reta e santa diante de Deus, mortificando o pecado e se revestindo diariamente de Cristo (Romanos 3; Colossenses 3; Efésios 4—5). Fugir das paixões da mocidade foi o mandamento de Paulo ao jovem Timóteo (2Timóteo 2:22). Essa luta contra a nossa natureza carnal não provoca traumas, neuroses, recalques e distúrbios. Ao contrário, nos ensina paciência, perseverança, a amar a pureza, a apreciar as virtudes e o que significa tomar diariamente a cruz, como Jesus nos mandou (Lucas 9:23). Os que não querem tomar o caminho da cruz, entram pela porta larga e vivem para satisfazer seus desejos e instintos.

Por esses motivos acima e por outros que poderiam ser acrescentados considero esse argumento – de que a abstenção das relações sexuais antes do casamento provoca complexos, neuroses, recalques – como nada mais que uma desculpa para aqueles que querem viver na fornicação. Não existe realmente substância e fundamento para essa idéia, a não ser o desejo de justificar-se ou desculpar-se diante de uma consciência culpada, da opinião contrária de outros ou dos ensinamentos da Escritura.

Os interessados em estudar mais esse assunto poderão aproveitar bastante o livro Sexo Não é problema – Lascívia, Sim – de Joshua Harris, pela Editora Cultura Cristã.
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terça-feira, setembro 06, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

O liberalismo teológico morreu?

Por     42 comentários:

De vez em quando leio em algum lugar gente reclamando que eu fico ressuscitando defunto ao criticar os liberais. “O liberalismo teológico já morreu,” dizem eles, “não há mais liberais hoje”. A acusação implícita é que eu teimo em manter viva a polêmica entre o fundamentalismo e o liberalismo teológico do início do séc. XX nos Estados Unidos que já faz parte de uma história vencida e passada.

Bom, para mim o liberalismo teológico está bem vivo, sim, em nossos dias e no Brasil. Deixe-me explicar.

1. Como movimento acadêmico, teológico e filosófico, o liberalismo de fato já terminou historicamente – fato este nunca desconhecido e muito menos negado por mim. Já em 2007 eu escrevi um post, “O Retorno de Pé na Cova,” comentando o renascimento do velho liberalismo nas academias teológicas brasileiras.

Vejam o que escrevi em outro post, desta feita sobre o barthianismo:

“Após a Reforma, durante os séculos dezessete e dezoito, a Igreja protestante foi largamente influenciada por idéias originadas do Iluminismo. O racionalismo desejava submeter todas as coisas ao crivo da análise racional. Lentamente a razão humana começou a triunfar sobre a fé. O filósofo L. Feuerbach tentou transformar a teologia em antropologia, dizendo que tudo que se diz sobre Deus, na verdade, é dito sobre o homem. Ele influenciou grandemente K. Marx, S. Freud, R. Bultmann e F. Schleiermacher. Esse último desvinculou a fé cristã da história e da teologia, reduzindo a experiência religiosa ao sentimento de dependência de Deus. Somente depois ficaria evidente que era impossível construir uma teologia em cima de um terreno tão subjetivo, mas na época, e por mais de um século, Schleiermacher foi seguido por muitos e sua influência continua até hoje.

Na mesma época, surgiu o método histórico-crítico de interpretação da Bíblia, que negava a inspiração divina de seus livros e tratava-a como meros registros humanos falíveis e contraditórios da fé de Israel e dos primeiros cristãos. A confiança na Bíblia foi tremendamente abalada.

Esses desenvolvimentos dentro da Igreja e o movimento que surgiu associado a eles foi chamado de liberalismo. O liberalismo tinha uma perspectiva elevada do homem e acalentava a esperança de que o Reino de Deus poderia ser implantado nesse mundo mediante os novos conhecimentos científicos e tecnológicos trazidos pelo Iluminismo. Com isso, o Evangelho perdeu a sua exclusividade e força. A Igreja começou a secularizar-se, particularmente na Europa.

Então veio a I Guerra Mundial. As esperanças do liberalismo teológico e do humanismo em geral foram esmagadas. Perplexidade e confusão dominaram os cristãos da Europa. Surge a teologia da crise”.

Portanto, fica claro que faço a distinção entre o liberalismo teológico como movimento histórico – este, sim, já acabado – e o liberalismo teológico como conjunto de idéias, pressupostos e convicções sobre a Bíblia e a teologia. Este último está vivinho, sim...

2. Essas idéias do liberalismo teológico continuam presentes e sendo defendidas em sala de aula por pastores, professores e teólogos. Se não vejamos. Segue abaixo uma relação de algumas destas idéias:
  • O sobrenatural não invade a história. Milagres não acontecem como fatos no tempo e no espaço, mas são explicações ou projeções das pessoas na tentativa de descrever suas experiências ou entender Deus.
  •  A história se desenrola numa relação natural de causas e efeitos.
  • Milagres como o nascimento virginal de Cristo, os milagres que o próprio Cristo realizou, sua ressurreição física dentre os mortos, os milagres do Antigo e Novo Testamentos nunca aconteceram na história. No máximo, na heilsgeschichte (história santa, ou história salvífica), diferente do mundo da história bruta, real, factível.
  • Temas como criação, Adão, queda, milagres, ressurreição, entre outros, pertencem à história salvífica e não à história real e bruta. Adão e Eva não foram pessoas reais.
  •  Não interessa o que realmente aconteceu no túmulo de Jesus no primeiro dia da semana, mas, sim, a declaração dos discípulos de Jesus que diz que Jesus ressuscitou.
  • Os relatos bíblicos dos milagres são invenções piedosas do povo judeu e dos primeiros cristãos, mitos e lendas oriundos de uma época pré-científica, quando ainda não havia explicação racional e lógica para o sobrenatural.
  • A Escritura contém erros e contradições, lado a lado com aquelas palavras que provêm de Deus. Nossa tarefa é tentar separar as duas coisas.
  • Interpretar a Bíblia historicamente significa reconhecer que ela contém contradições. Qualquer abordagem hermenêutica deixa de ser histórica se não aceitar essas contradições.
  • A Igreja Cristã se perdeu na interpretação da Bíblia através dos séculos e somente com o advento do Iluminismo, do racionalismo e das filosofias resultantes é que se começou a analisar criticamente a Bíblia e a teologia cristã, expurgando-as dos alegados mitos, fábulas, lendas, acréscimos, como, por exemplo, os mitos da criação e do dilúvio e de personagens inventados como Adão e Moisés, etc.
  • O sentimento religioso é algo universal, isto é, cada ser humano é capaz de experimentá-lo. É esse sentimento que dá validade às experiências religiosas e que torna o ecumenismo possível. 
Agora, eu gostaria de saber se os que dizem que o liberalismo teológico já morreu serão honestos o suficiente para responder a esta indagação, a saber, se estas idéias estão totalmente ausentes nos cursos de teologia em nosso país e se não existe nenhum professor de teologia ou de Bíblia ensinando estas coisas hoje nos seminários, institutos bíblicos, escolas de teologia ou universidades teológicas.

3. Eles dizem que o liberalismo foi suplantado pela neo-ortodoxia, movimento que veio em seguida. Todavia, estou convencido de que a neo-ortodoxia, preservou, perpetuou e continuou algumas das principais ênfases do liberalismo teológico, especialmente o entendimento liberal quanto às Escrituras. Tratei deste assunto neste post: “A Voz é de Jacómas as Mãos são de Esaú”.

Num outro post, intitulado “Carta a Bultman,”eu escrevi o seguinte, dirigindo-me numa carta hipotética ao falecido liberal:

Eu gostaria de poder lhe dizer que suas idéias morreram e que hoje praticamente não tem mais ninguém que seriamente as defenda. Mas, não, não posso dizer isto. Lembra do Karl Barth, que viveu na sua época, e com quem você trocou correspondências por mais de 30 anos? Vocês dois tinham muita coisa em comum, embora também diferenças. Pois é, acho que ele acabou levando a melhor, pois muitos de teus discípulos acabaram virando bartianos ou neo-ortodoxos – é assim que os chamamos – e embora falem a língua dos ortodoxos (daí o nome neo-ortodoxia) ainda conservam em grande parte aquele seu ceticismo radical para com a veracidade e historicidade do Novo Testamento. Estes neo-ortodoxos detestam ser identificados como liberais, mas ao final, não sendo realmente uma nova ortodoxia, o melhor nome para eles deveria ser neo-liberais mesmo.”

Portanto, não acho que estou ressuscitando defunto quando critico os liberais. Se liberal é quem defende aqueles pontos acima e fundamentalista é quem os contesta, então, a polêmica continua, sim. Não creio que o cerne da controvérsia entre fundamentalistas e liberais já tenha se encerrado historicamente, como querem alguns.

O curioso, entretanto, é que eles se esquecem deste argumento quanto me chamam de fundamentalista... a rigor, também não deveriam mais existir fundamentalistas hoje...
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sexta-feira, setembro 02, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Por Quê Não Abraço a Espiritualidade

Por     47 comentários:
Existe em todo mundo um movimento entre católicos e protestantes que visa resgatar a mística medieval, especialmente as práticas e as disciplinas espirituais dos cristãos da Idade Média como modelo para uma nova espiritualidade hoje, em reação à frieza, carnalidade e mundanismo da cristandade moderna. Esse movimento é geralmente conhecido como “espiritualidade” e tem atraído não poucos líderes católicos e protestantes. Apesar do nome, é bom lembrar que existem importantes diferenças entre esse movimento e a busca tradicional de uma vida espiritual mais profunda por parte do Cristianismo histórico.

Que esse movimento tenha adeptos entre os católicos, não é de admirar, pois é entre eles que está a sua origem e se encontram seus ícones. O que espanta é sua presença entre os protestantes, e mesmo aqueles de convicções mais conservadoras.

Eu até entendo o motivo pelo qual o movimento de espiritualidade tem conseguido atrair pastores e líderes das igrejas históricas e conservadoras em nosso país. Primeiro, porque existe uma decepção justificada da parte desses líderes diante da falta das práticas devocionais em boa parte dos que são teologicamente mais conservadores. Infelizmente, os quartéis conservadores abrigam pastores assim, que não oram, não jejuam, não gastam tempo lendo a Palavra e meditando nela, buscando uma comunhão mais profunda com Deus e a plenitude do seu Espírito Santo.

Ainda hoje estava falando com outro colega pastor que se queixava de colegas de ministério que ficam na cama até perto do meio dia, que gastam a maior parte do tempo na internet, que não trabalham, não evangelizam, não gastam tempo com Deus e com o rebanho, e que vão levando o ministério nessa farsa. Não é de espantar que suas igrejas sejam minúsculas, problemáticas e que eles não se demorem muito tempo em um mesmo local. E que, quando saem, deixam atrás de si um rastro de destruição, confusão, insatisfação e problemas não resolvidos. É lógico que esses não representam a totalidade dos pastores conservadores, e muito menos a teologia reformada, que tradicionalmente sempre valorizou a vida de piedade ao lado do cultivo intelectual da mente. Todavia, o fato de que permanecem anos a fio em seus presbitérios e convenções, enterrando igrejas, criando problemas, sem que sejam questionados ou confrontados, dá aos demais conservadores ares de cumplicidade e abre portas para que movimentos como esse da espiritualidade encontre mentes e corações ávidos, cansados da frieza, carnalidade e politicagem que encontram entre os conservadores.

Segundo, existe no próprio meio conservador um desencanto com a piedade pentecostal que já teve melhores dias entre nós. Muitos pastores conservadores que um dia se sentiram atraídos pelas ofertas do pentecostalismo, de batismo com o Espírito Santo, falar em línguas, sonhos e visões, profecias, sinais e prodígios, têm recuado diante da aparente superficialidade e da ênfase desmedida nas experiências, que são características desse movimento. Eles querem uma piedade mais solidamente enraizada nas Escrituras e que ofereça alguma salvaguarda para os exageros, falsificações e eventuais interferências humanas nas experiências. É quando surge o movimento de espiritualidade, que se distancia do pentecostalismo em vários aspectos e promete aquilo que todos desejam, uma proximidade com Deus nunca dantes experimentada mediante as práticas devocionais, sem os abusos da experiência pentecostal.

Outro atrativo no movimento é que ele se reveste de um misticismo que apela profundamente às almas que por natureza são mais piedosas e religiosas, as quais também se encontram dentro dos limites da tradição mais conservadora. Para tais pessoas, a idéia de se gastar tempo em silêncio contemplando o divino, ouvindo a voz de Deus, penetrando os tabernáculos celestes, tocando nas vestes de Cristo, mortificando a carne e suas paixões mediante o jejum e abstinência de alguns confortos terrenos e físicos, é um atrativo poderoso, como sempre foi através da história da Igreja.

Eu confesso, todavia, que nunca me senti realmente atraído por esse tipo de espiritualidade. Não gostaria de pensar que isso é porque eu sou um daqueles pastores frios e sem o Espírito Santo que mencionei em algum parágrafo acima. Há quem concorda totalmente com essa avaliação a meu respeito. Mas, deixarei nas mãos de Deus o veredicto sobre isso. Conscientemente, não me sinto interessado nessa espiritualidade, acima de tudo, pelo fato de que ela é defendido por padres e leigos católicos e que, entre os protestantes, ganhou muitos adeptos e defensores da parte dos liberais. Desconfio de tudo que os liberais apóiam e defendem.

Não estou dizendo que todos os protestantes que adotaram ou aderiram ao movimento de espiritualidade são liberais. Conheço uma meia dúzia que não é. Deve haver muitos outros. O que estou dizendo é que, para mim, é no mínimo intrigante que os liberais, que sempre se disseram progressistas e amantes do novo, defendam com tanto interesse um modelo de espiritualidade que tem como ícones monges e freiras católicos da Idade Média e o tipo de práticas espirituais deles.

Não discordo de tudo que os defensores da espiritualidade pregam. Quebrantamento, despojamento, mortificação, humildade, amor ao próximo são conceitos bíblicos. E encontramos vários desses conceitos defendidos pelos seguidores da espiritualidade. Meu problema não é tanto o que eles dizem – embora eu pudesse apontar um ou outro ponto de discordância conceitual, mas o que eles não dizem ou dizem muito baixinho, a ponto de se perder no cipoal de outros conceitos.

Sinto falta, por exemplo, de uma ênfase na justificação pela fé em Cristo, pela graça, sem as obras ou méritos humanos, como raiz da espiritualidade. Uma espiritualidade que não se baseia na justificação pela fé e que nasce dela está fadada a virar, em algum momento, uma tentativa de justificação pela espiritualidade ou piedade pessoal. Não estou dizendo que os defensores da espiritualidade negam a justificação pela fé somente – talvez os defensores católicos o façam, pois a doutrina católica de fato anatematiza quem defende a salvação pela fé somente. O que estou dizendo é que não encontro essa ênfase à justificação pela fé em Cristo nos escritos que defendem a espiritualidade.

Sinto falta, igualmente, de uma declaração mais aberta e explícita que a espiritualidade começa com a regeneração, o novo nascimento, e que somente pessoas que nasceram de novo e foram regeneradas pelo Espírito Santo de Deus, que são uma nova criatura, um novo homem, é que podem realmente se santificar, crescer espiritualmente e ter comunhão íntima com Deus. A ausência da doutrina da regeneração no movimento pode dar a impressão de que por detrás de tudo está a idéia de que a religiosa natural, inata, do ser humano, por causa da imago dei, é suficiente para uma aproximação espiritual em relação a Deus mediante o emprego das práticas devocionais.

O caráter progressivo na santificação também está faltando na pregação do movimento. Quando não mantemos em mente o fato de que a santificação é imperfeita nesse mundo, que nunca ficaremos aqui totalmente livres da nossa natureza pecaminosa e de seus efeitos, facilmente podemos nos inclinar para o perfeccionismo, que ao fim traz arrogância ou frustração.
Também gostaria de ver mais claramente explicado o que significa imitar a Jesus como uma das características da vida cristã. Pois, até onde sei, Jesus não era cristão. A religião dele era totalmente diferente da nossa. Nós somos pecadores. Jesus não era. Logo, ele não se arrependia, não pedia perdão, não mortificava uma natureza pecaminosa, não lamentava e chorava por seus pecados. Ele não orava em nome de alguém e nem precisava de um mediador entre ele e Deus. Ele não tinha consciência de pecado e nem sentia culpa – a não ser quando levou sobre si nossos pecados na cruz. Ele não precisava ser justificado de seus pecados e nem experimentava o processo crescente e contínuo de santificação. A religião de Jesus era a religião do Éden, a religião de Adão e Eva antes de pecarem. Somente eles viveram essa religião. Nós somos cristãos. Eles nunca foram. Jesus nunca foi. Como, portanto, vou imitá-lo nesse sentido?

É esse tipo de definição e esclarecimento que sinto falta na literatura da espiritualidade, que constantemente se refere à imitação de Cristo sem maiores qualificações. Quando vemos Jesus somente como exemplo a ser seguido, podemos perdê-lo de vista como nosso Senhor e Salvador. Quando o Novo Testamento fala em imitarmos a Cristo, é sempre em sua disposição de renunciar a si mesmo para fazer a vontade de Deus, sofrendo mansamente as contradições (Filipenses 2:5; 1Pedro 2:21). Mas nunca em imitarmos a Jesus como cristão, em suas práticas devocionais e na sua espiritualidade.

Faltam ainda outras definições em pontos cruciais. Por exemplo, o que realmente significa “ouvir a voz de Deus”, algo que aparece constantemente no discurso dos defensores da espiritualidade? Quando fico em silêncio, meditando nas Escrituras, aberto para Deus, o que de fato estou esperando? Ouvir a voz de Deus com esses ouvidos que um dia a terra há de comer? Ouvir uma voz interior, como os Quackers? Sentir uma presença espiritual poderosa, definida, que afeta inclusive meu corpo, com tremores, arrepios? Ver uma luz interior, ou até mesmo ter uma visão do Cristo glorificado e manter diálogos com ele, como Teresa D’Ávila, Inácio de Loyola, a freira Hildegard e mais recentemente Benny Hinn? Ou talvez essa indefinição do que seja “ouvir a voz de Deus” seja intencional, visto que a indefinição abriga todas as coisas mencionadas acima e outras mais, unindo por essas experiências vagas pessoas das mais diferentes persuasões doutrinárias e teológicas, como católicos e evangélicos, conservadores e liberais?

Por fim, entendo que biblicamente os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo comunica à sua Igreja os benefícios de sua mediação, de seu sacrifício e de sua ressurreição, são a Palavra, os sacramentos e a oração. Outros meios, como, silêncio, meditação, contemplação, isolamento, mortificação asceta do corpo, não são reconhecidos como meios de graça, embora possam ter algum valor temporal acessório às ordenanças de Cristo. Como ensinou Paulo, seguir uma lista daquilo que podemos ou não podemos manusear, tocar e provar tem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Col 2:20-23).

Por todos esses motivos acima, nunca realmente me senti interessado na espiritualidade proposta por esse movimento. Parece-me uma tentativa de elevação espiritual sem a teologia bíblica, uma tentativa de buscar a Deus por parte de quem já desistiu da doutrina cristã, das verdades formuladas nas Escrituras de maneira proposicional. Prefiro a espiritualidade evangélica tradicional, centrada na justificação pela fé, que enfatiza a graça de Deus recebida mediante a Palavra, os sacramentos e a oração e que vê a santidade como um processo inacabado nesse mundo, embora tendo como alvo a perfeição final.

Franklin Ferreira, conversando comigo sobre esse assunto, escreveu o que se segue, que reproduzo literalmente por retratar de forma sintética e profunda o que considero o principal problema com a espiritualidade defendida pelo movimento que leva esse nome:


Acho que você conhece a distinção que Lutero fez entre a "teologia da glória" e a teologia da cruz". Muito do movimento de espiritualidade moderno cai, justamente, no que Lutero chamou de "teologia da glória", a tentativa de chegar a Deus de forma imediata, ou por meio de legalismo (mortificação, flagelação da carne, etc.), especulação teológica (como no liberalismo de Tillich ou no misticismo (as escadas da ascensão da alma para o céu, com a necessária purgação, mortificação e iluminação). Note que nessas três escadas, o que se fala é da união da alma de forma imediata com Deus, sem a mediação de Cristo crucificado. Para Lutero, o fiel só encontra Deus não nas manifestações de poder que supostamente cercam as três escadas, mas em fraqueza, na cruz, pois por meio dela somos justificados.
Enfim. Deus me guarde de ir contra a busca de uma vida cristã superior, de desenvolver a vida interior. Que Ele igualmente me guarde de qualquer tentativa de alcançar isso que não esteja solidamente embasada em Sua Palavra.
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domingo, agosto 28, 2011

Mauro Meister

Sutilezas da teologia


Túmulo vazio - jardim da tumba, Jerusalém
Prezado leitor,

Alguém me mandou o texto Adão e Eva somos nós. Título que chama a atenção e conecta imediatamente quem conhece a história bíblica com a realidade, afinal, como descendentes de Adão e Eva carregamos todos os dias as marcas do seu pecado em nossa natureza e herdamos a 'originalidade do pecado' (a doutrina do pecado original afirma a verdade bíblica da universalidade do pecado - Rm 5:12-14).   Entretanto, fiquei  incomodado com algumas afirmações feitas no texto. Ainda que eu seja como Adam, formado como ele e caído como ele, culpado como ele e sujeito aos mesmos erros e condenação, não sou Adão. Ele foi um personagem na história da humanidade, o primeiro ser humano criado por Deus,  assim como Jesus, a segunda pessoa da Trindade, encarnou-se e veio ao mundo num lugar, dia e hora específicos. Não é uma questão de ótica e ideia a respeito da humanidade, mas o relato da história da criação e queda, por mais embaraçoso que possa ser para qualquer um.  Diante disso, pensei se algo semelhante não poderia ser escrito a respeito de Cristo e dos Evangelhos. Veja como fica:

Você pode interpretar a história de Jesus como uma descrição de como as coisas aconteceram. Mas pode também interpretar como descrição de como as coisas acontecem. Pode ser uma história que conta como as coisas foram, ou como as coisas são. Pessoalmente, opto pela segunda alternativa. Não me interesso tanto em saber se as coisas foram daquele jeito ou não, não estou preocupado com a literalidade da narrativa, que aliás, me traz mais embaraços que esclarecimentos: houve mesmo um menino nascido de uma virgem e concebido pelo Espírito Santo? e aquela história da estrela e dos sábios do oriente?  e aqueles milagres e expulsões de demônios? alguns pães e peixes para alimentar 5000 pessoas? o que será que fizeram do que sobrou? andar sobre as águas? túmulo vazio e ressurreição dentre os mortos? anjos anunciando a ressurreição e depois Jesus atravessando paredes e comendo junto do mar? será que a comida não atravessou direto? 

A história de Jesus, sua morte e ressurreição, visa a comunicar a ótica cristã da necessidade humana de se relacionar com Deus por meio do sacrifício pessoal e do dar-se aos pobres e necessitados. O autor bíblico não está preocupado em descrever o processo mecânico de um sacrifício para cumprir a justiça do Deus daquela cultura antiga. Seu texto não tem a pretensão das religiões pagãs, que tratam de um Deus que foi ofendido pelo pecado de Adão e Eva, mas de uma religião do amor, que têm por objeto a complexidade do humano e suas relações.
Jesus Cristo somos nós quando nos entregamos ao próximo, sem tentar definir o bem e o mal, o certo e o errado, sem ambição e auto-suficiência, buscando o bem dos outros e suas necessidades. Somo Jesus Cristo quando não optamos pela competição em detrimento da cooperação, deixamos a violência e damos lugar ao diálogo...

Pois é leitor, afirmações sutis podem parecer belas, mas destroem a fonte de autoridade bíblica na revelação registrada e a doutrina reformada do Tota Scriptura. Não estou afirmando que o autor do texto citado no início vá concordar com a paródia acima. Mas estou apontando o fato de que desprestigiar a autoridade do texto bíblico pode nos colocar em posição estranha com relação à Escritura. Esta tem sido a proposta, tanto do antigo liberalismo como da mais piedosa e moderna neo-ortodoxia.
 
Pois eu, entre as duas leituras, fico com a primeira, fico com a narrativa das Escrituras, suas consequências e seu embaraço!
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quinta-feira, agosto 25, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Ué... e igreja tradicional cresce no Brasil?

Por     30 comentários:
Eu não havia ainda reparado para um detalhe que me parece muito interessante no "Novo Mapa das Religiões" no Brasil, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A pesquisa foi publicada esta semana e trouxe grande repercussão em vários setores da mídia.

Há muitos pontos de interesse na pesquisa, que podem ser objeto de comentário e reflexão em outra ocasião. No momento, quero me referir somente a este, que é a constatação de que entre 2003 e 2009 o crescimento percentual dos evangélicos tradicionais (presbiterianos, batistas, luteranos, etc.) foi maior do que o crescimento percentual dos pentecostais (Assembléia de Deus, Universal do Reino de Deus, etc.). De acordo com o Estadão,

"A pesquisa também apontou estagnação da proporção de evangélicos pentecostais (de igrejas como Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus), que teve grande crescimento nos anos 1990, e aumento do evangélicos tradicionais (batistas, presbiterianos, luteranos, etc)."
A notícia comenta ainda:

"Neri [o pesquisador responsável] associa os avanços econômicos na última década ao aumento de 38,5% dos evangélicos tradicionais (de 5,39% a 7,47%), enquanto os pentecostais tiveram crescimento ínfimo, de 12,49% em 2003 a 12,76% em 2009".
Entendo que há um erro conceitual da pesquisa, que é colocar a Universal do Reino de Deus como sendo pentecostal, ao lado da Assembléia de Deus. Isso pode ter puxado o resultado para baixo, pois enquanto é sabido que a Universal de fato vem perdendo membros, pensava-se que a Assembléia continuava a crescer como sempre fez. A queda da Universal pode ter superado o crescimento da Assembléia e empurrado o percentual para menor. Reconheço também que o pesquisador identifica como a causa deste crescimento a melhoria econômica dos brasileiros. A lógica é esta, quanto maior o poder aquisitivo, maior a preferência pelas igrejas tradicionais. A conferir.

De qualquer forma, está registrada a retomada do crescimento do Cristianismo evangélico tradicional no Brasil, fato que já havíamos pressentido a partir da nossa observação informal do cenário brasileiro pelas redes sociais, encontros, grande mídia, eventos, etc.

Em termos absolutos, os pentecostais são muito maiores. Resta saber se os tradicionais serão capazes de fazer a diferença, agora que estão começando a crescer.
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domingo, agosto 21, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Vamos esclarecer as coisas!

Por     48 comentários:
Os tempos ficarão difíceis, não para a Igreja Evangélica, mas para aqueles evangélicos que:
  • insistirem que a Bíblia é inerrante; 
  • acreditarem que foi Deus que criou o mundo e não a evolução; 
  • afirmarem que o casamento é entre um homem e uma mulher; 
  • declararem que só Jesus Cristo salva e que o Cristianismo é a única religião verdadeira; 
  • acreditarem na necessidade da Igreja; 
  • se recusarem a negar qualquer das posições acima.
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sexta-feira, agosto 19, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Para Quem Pensa Estar em Pé (III)

Por     10 comentários:
Eu não poderia deixar de incluir nessa série sobre santificação um post que trabalhasse a relação entre a santidade bíblica e a neo-ortodoxia. Acredito que uma das maiores vulnerabilidades da neo-ortodoxia é exatamente na área de santificação. Com isso não quero generalizar, dizendo que todo neo-ortodoxo inevitavelmente tem problemas sérios para viver uma vida santa. Apenas estou dizendo que os princípios operantes da neo-ortodoxia tendem a relegar a santificação a um papel secundário na vida cristã.
 
Começo recordando o que já disse aqui no blog (faz tempo!) sobre a neo-ortodoxia (veja os links para os posts ao final). Ela foi uma tentativa de síntese entre a ortodoxia da Igreja e o liberalismo teológico no século passado, síntese em que não somente o liberalismo perdeu sua força, como também a própria ortodoxia, que já não seria a mesma. Contudo, a neo-ortodoxia continuou a se apresentar usando os termos e o vocabulário da ortodoxia histórica, embora com conteúdo diferente e que pouca coisa tem em comum com a ortodoxia histórica da Igreja. Aos neo-ortodoxos brasileiros eu diria o seguinte quanto à necessidade de santificação.
1. A santidade é visível aos olhos humanos – Ela não acontece nas regiões celestiais apenas, no âmbito das relações invisíveis entre os crentes e Deus. Se por um lado já fomos santificados e glorificados em Cristo nas regiões celestiais – coisa que não podemos sentir nem ver – somos exortados a nos santificar diariamente pela mortificação da natureza pecaminosa e pelo revestimento das virtudes cristãs (cf. Colossenses 3.1-6). A neo-ortodoxia tem a tendência de colocar como transcendentes as manifestações práticas e visíveis da operação da graça de Deus no ser humano, interpretando conversão e santificação em termos psicológicos, apenas. Talvez seja por esse motivo que alguns neo-ortodoxos – note que não estou generalizando – consideram como sem importância fazer sexo antes do casamento, ir aos bailes e baladas, separar-se e casar de novo mais de uma vez, e usar palavrões e linguagem chula. Eles acabam esvaziando de sentido as declarações bíblicas sobre a necessidade diária e prática de uma vida separada do pecado e apegada aos valores cristãos.
2. A santidade é sinal da eleição – Muitos neo-ortodoxos negam isso, afirmando que os puritanos modificaram a doutrina da segurança da fé ensinada por Calvino. Os puritanos, com seu legalismo, teriam conectado a certeza de salvação à santidade e não á fé salvadora, como Calvino supostamente acreditava. Essa tese falsa já foi convincentemente refutada por muitos autores (recomendo o artigo de Paulo Anglada na revista Fides Reformata). Não precisamos dos puritanos para ver que a Bíblia ensina claramente que fomos eleitos para a santificação, e que sem santificação, ninguém verá ao Senhor (Hb 12.14). A santidade de vida – não estou falando de perfeição – é parte integrante da fé salvadora (Romanos 6). Santidade e fé salvadora são dois lados de uma mesma moeda. Tiago que o diga: “Fé sem obras é morta”. E no contexto, ele não estava falando de dar esmolas, mas de obedecer a Deus mesmo ao custo do que nos é mais precioso, como os exemplos de Abraão e Raabe demonstram (Tiago 2). Deixando de considerar a santificação como sinal da eleição para a vida eterna e adotando a fé como esse sinal, adotam uma base subjetiva para a segurança de salvação e correm o risco de se enganarem quanto à sua experiência religiosa, pois desta forma, podem se considerar salvos mesmo que não haja sinais visíveis da santificação entre eles.
3. A santidade é experimental – com isso quero dizer que podemos experimentá-la. Podemos viver, sentir e experimentar a vitória sobre as tentações interiores e exteriores. Sentimos e experimentamos grande gozo, alegria e deleite nas coisas de Deus. Sei que muitos vão se espantar com isso, mas declaro acreditar que reações físicas como tremer, chorar, emocionar-se, são perfeitamente válidas, se são resultado da pregação da Palavra de Deus na mente e no coração. Neo-ortodoxos tendem a considerar toda manifestação religiosa emocional como pentecostalismo, esquecidos de que a tradição reformada à qual dizem pertencer reconhece que a ação graciosa do Espírito na santificação por vezes produz efeitos profundos em nossa estrutura emocional. Eu sou contra emocionalismo e a manipulação e exploração das emoções. Mas, já chorei de alegria diante de Deus ao meditar na sua graça, já solucei amargamente, prostrado, por causa dos meus pecados, já senti uma paz que ultrapassa qualquer descrição ao enfrentar grandes tentações. O processo de santificação inevitavelmente passa pelas emoções – não é somente uma coisa da mente. E isso não é pietismo e nem pentecostalismo, como geralmente os neo-ortodoxos pensam.
4. A santidade precisa da prática devocional – Eu ainda acredito, depois de todos esses anos de crente, de pastor e professor de interpretação bíblica, que a leitura bíblica diária, junto com meditação e oração a Deus, são meios indispensáveis para nos santificarmos (Salmo 1). Não sei como muitos conseguem passar dias e dias sem ler a Palavra de Deus, sem meditar nela e buscar a Deus em oração. Quando por algum motivo deixo de fazer minhas devoções diárias, sinto o velho Adão fortalecer-se dentro em mim. Perco a alegria e o deleite na oração. Meu coração começa a se endurecer, meus sentidos espirituais começam a se embotar. O pecado deixa de ser odioso e começa a ser mais atraente. Eu nunca havia entendido até alguns anos passados porque neo-ortodoxos adotam uma ordem de culto extremamente litúrgica. Hoje, penso que descobri. Se não temos prática devocional e se tiramos o poder prático do Evangelho em nossas vidas, temos de transferir a dinâmica da santificação para outra esfera – e no caso, um culto extremamente formal e litúrgico. Não sou contra um culto litúrgico. Sou contra o “liturgismo” que aparece como substituto de uma vida devocional diária e do processo de santificação.
5. A santificação pressupõe que Deus fez e faz milagres neste mundo – A santificação bíblica pressupõe a realidade de três milagres. Primeiro, a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte, mediante sua ressurreição física, literal e histórica de entre os mortos. É somente mediante nossa união com o Cristo ressurreto e exaltado que temos o poder para vencer o pecado em nós. Segundo, a operação do Espírito regenerando o pecador, dando-lhe uma nova natureza e implantando nele o princípio da nova vida em Cristo. Sem regeneração, não pode haver santificação. A velha natureza pecaminosa não pode santificar-se. É preciso uma nova natureza e somente um ato miraculoso, criador, de Deus a implanta no pecador. Terceiro, a ação da Providência de Deus, que diariamente impede que sejamos tentados mais do que podemos resistir, subjugando Satanás, subjugando nossas paixões e nos mantendo no caminho da santidade. A neo-ortodoxia tende a lançar todos os atos miraculosos de Deus para a heilsgeschichte, um nível de existência que eles inventaram, que é fora desse mundo. Portanto, quem realmente não crê na ação miraculosa de Deus na historie, no mundo real, não conhece o que é a regeneração, a união mística com Cristo e a vitória diária sobre o pecado.
6. A santificação precisa de referenciais morais objetivos e fixos -- Sem eles, a santificação descamba para o misticismo, pragmatismo, e paganismo. O referencial seguro do caminho da santidade é a Palavra de Deus, nossa única regra de fé e prática. Ela é lâmpada para meus pés e luz para meus caminhos (Salmo 119.105). A neo-ortodoxia vê a Bíblia, não como a Palavra de Deus, mas como o testemunho humano escrito e falível a essa revelação. Deus só me fala pela Bíblia num encontro existencial, cujo conteúdo será determinado pela minha necessidade naquele momento. Fica difícil dizer não ao pecado, mortificar as paixões, rejeitar as tentações, buscar a verdade, a pureza e a justiça quando não temos certeza que essas coisas são certas e que são a vontade de Deus para nós a todo momento. Uma Bíblia falível, muda, cheia de erros, é um guia inseguro e não-confiável na senda do Calvário.
“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14).
Veja esses posts sobre a Neo-Ortodoxia

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quarta-feira, agosto 17, 2011

Augustus Nicodemus Lopes

Para Quem Pensa Estar em Pé (II)

Por     9 comentários:
Aqui vai o novo post desta série "Para quem pensa estar em pé". O primeiro abordou vários princípios sobre santificação. Aqui trato de outros igualmente importantes.

Embora eu tenha sido criado num lar presbiteriano e numa igreja presbiteriana onde as doutrinas características do presbiterianismo reformado eram pregadas com certa regularidade, revoltei-me contra essas doutrinas quando retornei ao Evangelho em 1977, depois de vários anos afastado de Deus e da Igreja. Influenciado pela leitura das obras de Charles Finney e João Wesley, combati a ferro e fogo, com zelo de novo convertido, não somente os cinco, mas todos os pontos do calvinismo.
Foi um batista reformado, Charles Spurgeon, com sua exposição bíblica da doutrina da eleição, quem abriu meus olhos para que eu passasse a aceitar com regozijo a fé reformada. Faminto, passei a devorar a literatura reformada disponível. Mais tarde, fazendo meu mestrado na África do Sul, conheci a obra de Martyn Lloyd-Jones e dela para a literatura puritana, foi um breve salto.
Amo a literatura produzida pelos antigos puritanos. Sólida, bíblica, profunda, muito pastoral e prática. A santidade defendida e pregada pelos puritanos aqueceu meu coração e se tornou o ideal que eu decidi perseguir até hoje. Um breve resumo do pensamento puritano sobre a santidade está na Confissão de Fé de Westminster, no capítulo SANTIFICAÇÃO:
I. Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita; o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais é mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.
II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável - a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne.
III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.
Era esse conceito de santificação que eu gostaria de ver difundido como sendo o conceito reformado. Contudo, recentes influências dentro do campo reformado, algumas delas chamadas de “neopuritanismo”, têm criado alguma confusão sobre o assunto.
Conforme escrevi num post anterior, o termo “neopuritanos” tem sido usado para designar os adeptos de um movimento recente no Brasil que inicialmente visava apenas resgatar a literatura dos puritanos e difundir seus ensinamentos em nosso país. Com o tempo, o movimento passou a usar determinadas doutrinas e práticas como identificadoras dos verdadeiros reformados, tais quais o cântico exclusivo de salmos sem instrumentos musicais no culto, o silêncio total das mulheres no culto, a interpretação de “o perfeito” em 1Coríntios 13.8 como se referindo ao cânon do Novo Testamento (posição contrária à de Calvino), uma aplicação rigorosa e inflexível do princípio regulador do culto e outros distintivos semelhantes. Nem todos os que adotam alguns destes pontos podem ser considerados neopuritanos, para ser justo. Mas, sempre há o grande risco de que se caia na tentação de associar a santidade com esses pontos. Sinto que os seguintes comentários poderiam ajudar a esclarecer o assunto.
1. A santidade deve ser buscada ardorosamente sem, contudo, perder-se de vista que a salvação é pela fé, e não pela santidade – Muitos seguidores modernos dos puritanos tendem à introspecção e a buscar a certeza da salvação dentro de si próprios, analisando as evidências da obra da graça em si para certificar-se que são eleitos. Não estou dizendo que isso está errado. A salvação é pela fé e, no meu entendimento, a certeza dela está ligada ao processo de santificação. Contudo, puritanos de todas as épocas correm o risco de confundir as duas coisas. Se a busca contínua pela santidade não for feita à luz da doutrina da justificação pela graça, mediante a fé, levará ao desespero, às trevas e à confusão. Quanto mais olhamos para dentro de nós, mais confusos ficaremos. “Enganoso é o coração, mais que todas as coisas; e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9) Não estou descartando o exame próprio e a análise interior de nossos motivos. Apenas estou insistindo que devemos fazer isso olhando para Cristo crucificado e morto pelos nossos pecados. Somente conscientes da graça de Deus é que podemos prosseguir na santificação, reconhecendo que esse processo é evidência da salvação.
2. A santidade não se expressa sempre da mesma forma; ela tem elementos culturais, temporais e regionais – Sei que não é fácil distinguir entre a forma e a essência da santidade. Para mim, adultério é pecado aqui e na China, independentemente da visão cultural que os chineses tenham da infidelidade conjugal. Contudo, coisas como o uso do véu pelas mulheres me parecem claramente culturais. Quero insistir nesse ponto. A santidade pode se expressar de maneira contemporânea e cultural, não está presa a uma época ou a um local – Sei que muitos modernos puritanos negarão que desejam recuperar o estilo dos antigos puritanos da Inglaterra, Escócia, Holanda e Estados Unidos. Contudo, pontos como a insistência no uso do véu, no silêncio absoluto das mulheres no culto, no cântico de salmos à capela, na extrema seriedade dos cultos e do comportamento, a aversão ao humor, me parecem muito mais traços de uma época já passada do que essenciais teológicos. Especialmente quando a argumentação exegética para defendê-los carece de melhor fundamentação.
3. A santidade pessoal pode existir mesmo em um ambiente não totalmente puro – Eu acredito que chega um momento em que devemos nos separar daqueles que se professam irmãos, mas que vivem na prática da iniqüidade (1Coríntios 5). Não creio que devamos sacrificar a verdade no altar da pretensa unidade da Igreja. Se queremos a santidade, devemos estar prontos para arrancar de nós o olho, a mão e o pé que nos fazem tropeçar. Contudo, creio que há um caminho a ser percorrido antes de empregarmos a separação como meio de preservar a santidade bíblica. Sei que os santos são chamados a se separar de todo mal, inclusive dos pecadores (Salmo 1). Mas a separação bíblica é bem diferente daquela defendida por alguns puritanos modernos, que têm dificuldade de conviver inclusive com outros reformados dos quais discordam em questões que considero absolutamente secundárias. Podemos ser santos dentro de uma denominação ou de uma igreja local que não sejam, de acordo com as marcas da Igreja, uma igreja completamente pura. Sei que não é fácil, mas teoricamente posso ser santo dentro de Sodoma e Gomorra. Posso ser santo na minha denominação, mesmo que ela abrigue gente de pensamento divergente do meu. Não preciso necessariamente me separar como indivíduo para poder ser santo, especialmente se as alternativas de associação forem raras ou inexistentes.
4. A santidade pode ocorrer mesmo onde não haja plena ortodoxia – Sei que esse ponto é difícil para alguns puritanos modernos. Por incrível que pareça, a tolerância e a misericórdia marcaram os puritanos ingleses do século XVII. Foi somente a fase posterior do puritanismo que lhe deu a fama de intolerância. John Owen, o famoso puritano, pregou em 1648 um extenso sermão no Parlamento Britânico, na Câmara dos Comuns, intitulado “Sobre Intolerância”, no qual defendeu, mais uma vez, a demonstração do amor cristão e a não-intervenção dos poderes governamentais nas diferenças de opiniões eclesiásticas (Works, VIII, 163-206). O neo-puritanismo tende a ver com desconfiança a genuinidade da experiência cristã de arminianos e pentecostais. Para mim, a graça de Deus é muito maior do que imaginamos e o Senhor tem eleitos onde menos pensamos. Assim, creio que exista santidade genuína além do arraial puritano. Não estou negando a relação entre doutrina correta e santidade. O Cristianismo bíblico enfatiza as duas coisas como necessárias e existe uma relação entre elas. Contudo, por causa da incoerência que nos aflige a todos, é possível vivermos mais santamente do que a lógica das nossas convicções teológicas permitiria. Cito Owen mais uma vez:
A consciência de nossos próprios males, falhas, incompreensões, escuridão e o nosso conhecimento parcial, deveria operar em nós uma opinião caridosa para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro, assim estão com os corações sinceros e retos, com postura semelhante aos que estão com a verdade (Works, VIII, 61).
Acredito que a teologia reformada é a que tem melhores condições de oferecer suporte doutrinário para a espiritualidade, a santidade e o andar com Deus. Os reformados brasileiros são responsáveis por mostrar que a teologia reformada é prática, plena de bom senso, brasileira e cheia de misericórdia.
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