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quarta-feira, janeiro 14, 2015

Solano Portela

Mas as CRUZADAS não provam que o cristianismo é tão violento como o islamismo?

Será que as CRUZADAS provam que o cristianismo é tão violento quanto o islamismo?
Definitivamente, NÃO! Quem utiliza esse argumento não se aprofundou no que foram as CRUZADAS, nem entende o que é o verdadeiro cristianismo. Vejamos!

As Cruzadas fazem parte de um período marcante da história universal, que perdurou nos anos 1096 a 1291. Eram campanhas expedicionárias, de cunho militar, neste período da idade média, construídas em cima do intenso misticismo e do pano de fundo religioso da era. Elas entrelaçaram a igreja católica medieval e os regentes civis daquela época. Inicialmente, eram excursões de resgate e apoio a cristãos perseguidos, mas rapidamente se transformaram em sucessivas tentativas de tomar o poder da “Terra Santa” – especialmente da cidade de Jerusalém, das mãos dos maometanos, ou muçulmanos.

Por que esse período foi importantíssimo? Porque além de ter durado dois séculos, essas intensas campanhas e ações, chamadas de “Cruzadas” refletem o rumo equivocado que imperava na igreja conhecida como cristã. A essa altura a igreja, no sentido abrangente, já estava descaracterizada, pelo relacionamento incestuoso com o poder civil, pela assunção de uma hierarquia doentia e concentradora de poder e pela absorção de práticas e de uma cosmovisão pagã que a levaram à descabida idolatria. Todas essas situações levaram os líderes da igreja a desviarem ela da sua missão na terra, que é eminentemente espiritual e não temporal, passando a ações e arregimentações de caráter militar contra poderes temporais que ameaçavam e fustigavam os feudos do clero. Essa guerra “contra a carne e contra o sangue” em vez de contra “as potestades das hostes espirituais”, conquanto com fundo místico e linguajar religioso, reflete o mesmo mal-entendido dos discípulos retratado em Mt 20.20-28, quando confundem o reinado pregado por Cristo com os governos deste mundo.

Assim, a luta dos cavaleiros das Cruzadas era por reinados na terra, mesmo. Quatro séculos depois, com a permanência e aprofundamento dessas distorções religiosas, no seio do cristianismo – representadas, de um lado, por um monasticismo isolacionista e do outro pelo envolvimento com o poder político e militar deste mundo – os reformadores foram levantados e impelidos, pelo Espírito Santo, a soarem o brado de retorno à simplicidade e às verdades do Evangelho.  A Reforma do Século 16 levou a prédica e prática extraída tão somente da Palavra de Deus, abandonando a superstição, misticismo cego, engano e obscurantismo que caracterizaram a idade média, especialmente essa era das Cruzadas.

Historicamente, o início do período das Cruzadas é marcado por um apelo de Alexius I (1081-1118), regente em Constantinopla, que se sentia ameaçado pelo avanço dos maometanos, recebido pelo Papa Urbano II (1042-1099), em 1095. Urbano II lançou uma chamada geral a toda a "cristandade", prometendo plena indulgência (perdão de pecados) aos que participassem da expedição - só esse fato já demonstra como estava distorcida a Igreja medieval - pecados perdoados por decreto! O moto da convocação era – “É a vontade de Deus”! A partir de certo ponto o empreendimento mudou a sua feição original de resgatar Alexius e seu império, para a de uma campanha abrangente que visava resgatar os “lugares santos” ocupados pelos mulçumanos.

As Cruzadas foram largamente apoiadas pela nobreza européia, que via nelas a oportunidade igualmente econômica de adquirir territórios, espólios e riquezas. Alguns poucos nomes desta época, que se destacaram na história, foram idealistas religiosamente mal orientados. A primeira Cruzada reuniu em Constantinopla, os diversos exércitos que a compunham. Reorganizados, a partir de uma grande confusão inicial, partiram para conquistas, cidade após cidade (Nicéa, Dorileo, Icônio, Antioquia, Mosul), chegando, finalmente a Jerusalém em 1099. Godofredo de Bulhão foi nomeado “Protetor do Santo Sepulcro”. A “Terra Santa” torna-se, praticamente, um protetorado europeu e várias divisões políticas são estabelecidas, repartindo o território deste “Reino Latino” entre os conquistadores. Uma segunda Cruzada foi estabelecida recebendo sucessivas ondas de ordens rivais de cavaleiros, brasões e lealdades feudais típicas da idade média (Cavaleiros Templares, Cavaleiros de São João, Cavaleiros Teutônicos, etc.). Esses “cavaleiros” eram grupos organizados com leves características de expedições missionárias, compostos por monges, guerreiros, mercenários e, muitas vezes, apenas romeiros (peregrinos), que tinham como um dos propósitos “cristianizar” o oriente, se necessário pela força.

O relativo sucesso militar das Cruzadas até meados do século 12 deveu-se às constantes batalhas dos muçulmanos entre si mesmos. A fragmentação facilitava as vitórias e a manutenção das conquistas. A partir de 1171, entretanto, o Kurdo Saladim, que havia se declarado Mestre do Egito, começou a amealhar vitória após vitória unindo os maometanos. Esse exército unido ocupou Damasco e em 1183 ele sitiou o “Reino Latino”. Jerusalém foi invadida e derrotada. Este período de Saladim, entre a segunda e terceira Cruzada, é exatamente o que foi coberto pelo filme (2005) de Ridley Scott, chamado "Cruzada" (ironicamente, no original, Kingdom of Heaven, quando retrata guerras por Reinos na Terra).

Só para encerrar essa âncora histórica, quando a notícia da derrota infligida por Saladim chegou à Europa, outras Cruzadas foram organizadas, com líderes famosos como Ricardo Coração de Leão, mas nenhuma Cruzada seguinte conseguiu reconquistar Jerusalém.

Credita-se às Cruzadas, e aos resultados desastrosos delas, o abandono nos séculos subseqüentes dessas aventuras religiosas secularizadas, levando à concentração da religiosidade católica em estudos mais aprofundados de seus dogmas, dos livros apócrifos e das Escrituras. Isso resultou no Escolasticismo, que, em vez de gerar um enraizamento de doutrinas nas Escrituras, sistematizou, ao contrário, práticas pagãs e idólatras e um afastamento maior ainda do cristianismo verdadeiro. Mas foi nesse solo fértil e concreto, eivado de paganismo e carente de verdades que Deus providenciou o desabrochar da Reforma do século 16. Um outro efeito das Cruzadas, foi que a Europa foi despertada à rica cultura do oriente, após ter-se mantido fechada, no seu desenvolvimento intelectual, comercial e humano, durante a idade média. Essa situação levou a um incremento do comércio do leste com o oeste e ao surgimento do iluminismo intelectual.

O contexto das Cruzadas, então, foi o misticismo reinante na época – muito distanciado da religião verdadeira, já esmaecida pela introdução supersticiosa das relíquias e pela prática da idolatria. A ética e a praxis das Cruzadas não é retrato de cristianismo bíblico. Querer apresentá-las como um movimento espontâneo e genuinamente oriundo dos ensinamentos da Bíblia, é pura distorção histórica e fraude intelectual.  No âmbito pessoal, lembremo-nos do chamado à participação nas Cruzadas – “É a vontade de Deus”. Até os dias de hoje, esse slogan tem sido utilizado para justificar as mais diversas ações, pessoais ou coletivas que não refletem preceitos divinos, mas ambição humana. Tenhamos cuidado e prendamo-nos à sua vontade revelada – A Bíblia – suficiente para nos guiar, nesta vida, em tudo que realmente agrada a Deus. E a violência, certamente desagrada a Deus, não faz parte da prática e da fé Cristã, é característica da falsa religiosidade.
-- Solano Portela
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domingo, janeiro 10, 2010

Solano Portela

O deslumbramento com a erudição católico-romana.

Recentemente, chamou-me atenção a utilização, por um pastor presbiteriano, de um livro texto de um autor católico-romano para ensinar ética cristã em um curso de Escola Dominical. Os alunos foram incentivados a adquiri-lo e a tê-lo como base de instrução. O caso é intrigante, pois existem diversas obras bem escritas e fundamentadas, no campo reformado e evangélico sobre ética cristã. Por que não utilizar essas? A questão é tão amorfa e indefinida assim, que qualquer base interpretativa serve de alicerce? As cabeças dos alunos, não estariam sendo confundidas, em vez de esclarecidas? Após verificar o livro, em detalhe, fiquei ainda mais espantado, pois a base fundamental dele era a apresentação da Bíblia como uma compilação meramente humana de escritos religiosos, que não retratavam, necessariamente, os fatos ou situações descritas com veracidade ou autoridade. [1] Como desenvolver a compreensão de uma ética bíblica, se a própria Bíblia é colocada em suspeição?

          A verdade é que há um deslumbramento em nossas instituições evangélicas de ensino, e em muitos pastores e líderes evangélicos, com a erudição católico-romana. Vários autores são pinçados a dedo como paradigmas da boa metodologia científica e erudição teológica (Croatto, Segundo, Mailhiot. Schökell, Lohfink, Schüssler-Fiorenza, e outros).[2] Há uma conseqüente importação de temas, por vezes já superados nas próprias academias que os originaram: a Alta Crítica (O Pentateuco não é da lavra de Moisés, mas obra de quatro redatores, identificados pelas primeiras letras dos nomes utilizados para designação da divindade ou do período nos quais foram escritos: JEDP), a Crítica da Forma, e – ainda a grande pérola querida da academia – a Crítica do Texto. Todas essas correntes presentes em alguns círculos teológicos do evangelicalismo têm em comum o descartar da Escritura Sagrada como texto inspirado; como revelação em forma objetiva, com proposições aferíveis (revelação proposicional) à humanidade, como Palavra de Deus confiável.

          Procura-se hoje a análise do discurso, como forma de se chegar a uma compreensão da verdadeira mensagem que o autor ou autores procuraram registrar, e que está confundida com mitos, adições e trabalhos redacionais. Segundao esta visão, não existe texto íntegro. Todos estão sujeitos ao escrutínio da mente e especulação humana, que reina soberana postulando e definindo o que deve ser aceito e o que deve ser rejeitado. A simples idéia de uma revelação proposicional – de um Deus que intervém e interage com a produção intelectual da humanidade, por meio das Escrituras, de forma sobrenatural, é tão repugnante à pseudo academia teológica contemporânea, quanto a aceitação prima facie dos milagres registrados nos textos sagrados.

          Interessantemente, enquanto as Escrituras são rejeitadas ipso facto como sendo Palavra de Deus, confiável e livre de erros, outros documentos, de cuja existência não se têm a mínima menção em autores antigos, nem a menor evidência de terem existidos, são aceitos, como por revelação divina. Assim, rejeitam-se diversas cartas de Paulo, como sendo epístolas do próprio (apesar de sua autoria ser declarada no texto), mas não se tem qualquer dúvida da existência de “Q”, como fonte primária dos evangelhos sinóticos (ao lado de “M” e de “L”), mesmo que esses textos sejam meras especulações. Gerados pelas similaridades que a verdadeira erudição cristã sempre identificou nos evangelhos sinóticos, com um razão tão simples quanto veraz: são todos documentos confiáveis, íntegros, ancorados nos fatos históricos da vida de Jesus, cerne de suas narrativas.

          Mas essa verdade simples não serve, pois, partindo-se já da premissa da falta de integridade dos textos que dispomos, horas incontáveis de estudo e pseudo pesquisas são aplicadas no discernimento do pensamento das comunidades lucanas, petrinas, marcanas – supostamente grupos de cristãos responsáveis, como grupo, pelas idéias registradas nos livros que levam os nomes de autores bíblicos, que podem tão somente ser peças de ficção – tanto o texto final, como os autores.

          A Bíblia é, nessa abordagem, um livro meramente humano – cheio de mitos, falhas, contradições e divergências entre si. A teologia de Paulo difere daquela teologia retratada no evangelho de Mateus, pois representa um desenvolvimento adicional do pensamento. Não temos complementação de verdades, mas desenvolvimento de idéias, seguindo tramas e caminhos restritos apenas pela ousadia da imaginação dos autores.

         Qual a validade de tais estudos, então? Não representam a busca de um discernimento de proposições prescritivas, que podem auxiliar, como normativa, a postura dos Cristãos, em um caminhar que lhes dê paz, ou que agrade a Deus. Consistem apenas em exercícios acadêmicos; um fim em si mesmo; exercícios mentais de reconstrução historiográfica, partindo da premissa básica de que não existe palavra revelada, ou inspiração divina. Mesmo quando os textos, sob o escrutínio da crítica da forma (formgeschichte), estão estabelecendo modelos comportamentais – proibições e/ou permissões – eles são descartados por uma análise sociológica, ancorando tais prescrições nas condições vigentes, da era, invalidando qualquer aplicabilidade contemporânea. Essa visão segue, em coerência à rejeição da integridade dos textos, o entendimento da não existência de princípios absolutos, permanentes e de validade perene – relativizando todo inter-relacionamento social, às limitações comunitárias da época em que foram formuladas.

          Há também aqueles que não estão tão preocupados com as fontes, mas que se prendem à análise dos textos – quaisquer que sejam esses, porque a sua própria existência e sobrevida demonstram que possuem importância intrínseca. Não, segundo esses acadêmicos, como documentos históricos, de fatos aferíveis, confiáveis ou verificáveis; mas, tão somente, como reflexo de experiências humanas a coisas que aconteceram. Essas questões e fatos não são tão importantes assim – mas o reflexo delas, esse deve ser estudado. Não há validade prescritiva, mas apenas um trabalho, cheio de tédio e verborragia, descritivo dessas narrativas, entremeados com observações que militam contra a integridade do que é dito.

          Toda essa rejeição do texto sagrado está presente no livro ao qual me referi no início deste texto. Mas qual a validade dele, para o entendimento da Palavra de Deus? Como livro de ética, é uma mera coletânea descritiva dos discursos de Jesus, conforme o registro dos evangelhos, e de diretrizes encontradas nas cartas paulinas. No entanto, a integridade dos textos é descartada como premissa. De acordo com o autor deste livro, os evangelhos são mera produção humana, compilados de documentos primários, com trabalho de redação e adição aos eventos históricos, pelos compiladores – que podem até ter sido, mesmo, os evangelistas, Marcos, Mateus e Lucas. As cartas, não são necessariamente de Paulo (não interessa que comecem afirmando a autoria paulina, com uma mentira, dizendo que são – situação ética, que se fosse veraz, seria bem contraditória a qualquer ética, não acham?). Até as cartas que o autor considera que podem ser atribuídas a Paulo, foram embaçadas, na sua opinião, por um trabalho de composição e redação de possíveis escritos menores, com adições prováveis realizadas pelo redator.

         Um livro de ética como esse, ao qual me refiro, não irá derivar regras comportamentais do texto sagrado, pois todos os direcionamentos nele encontrados são pertinentes à era. Tudo pode (e até deve) ser modificado, de acordo com ele. A conscientização da humanidade, a interação social através dos séculos, tudo isso está acima do texto sagrado e justifica a quebra das diretrizes, que não são aceitas nem como divinas, nem como universais e absolutas. Por exemplo, quando Paulo compara a relação social do casamento, à relação espiritual de amor que Cristo tem com a igreja, e daí deriva uma norma universal e perenemente aplicável, o autor diz que: “O Paulo de Efésios com certeza não vai além da estruturas sociais de seu tempo que em geral exigiam que as esposas fossem submissas a seus maridos” (p. 290). Nessa compreensão não temos, mais a palavra normativa de Deus com prescrições sempre atuais, mas um mero “Paulo de Efésios”, cujas diretrizes podem ser descartadas como anacronicamente inaplicáveis, por razões sociológicas.

          É lamentável que tantos se afastem da simplicidade do evangelho e se enredem nessas vias complexas, que levam à confusão, ao ceticismo, ao descrédito da fé. É mais lamentável ainda que o povo de Deus receba esse tipo de ensino e orientação que mina a autoridade da Palavra inspirada do nosso Criador. O Tempora! O Mores!
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[1] MATERA, Frank J. Ética do Novo Testamento: os legados de Jesus e de Paulo. Tradução João Rezende Costa, do original: New Testament Ethics. São Paulo: Paulus, 1999, 379 pp. (professor de Novo Testamento na Catholic University, Washington, DC).

[2] Alguns autores católicos muito utilizados e suas obras mais comuns – disponíveis em português:
• GIRARD, Marc. Como Ler o Livro dos Salmos: Espelho da vida do povo. São Paulo: Paulinas, 1992. (Frei Marc Girard, canadense, professor na Universidade de Quebec).
• MAILHIOT, Gilles-Dominique. Os Salmos: Rezar com as palavras de Deus. Trad. Odila Aparecida de Queiróz. São Paulo: Loyola, 2008. (Frei dominicano, falecido em 2008, ensinou no Colégio Universitário Dominicano de Otawa, no Canadá).
• ALONSO SCHÖKEL, Luis. O Espírito Santo e os Salmos. Salmos e Exercícios. Trad. Maurício Ruffier. São Paulo: Loyola, 1998. (Católico espanhol, falecido em 1988. Estudou no Pontifício Instituto Bíblico, do Vaticano).
• SCHÜSSLER-FIORENZA, Elisabeth. “Exemplificação do Método Exegético”. In: SCHREINER, Josef (ed.). Palavra e Mensagem: introdução teológica e crítica aos problemas do Antigo Testamento, pp. 497-526. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1978. (Elisabeth Schussler-Fiorenza é professora da Harvard Divinity School e identifica-se como católica).
• LOHFINK, Gerhard. Agora entendo a Bíblia. Para você entender a Crítica das Formas. Trad. Mateus Rocha. São Paulo: Paulinas, 1978. (ex-professor da Universidade de Tubinguen, na Alemanha. Católico, renunciou em 1986 para trabalhar com comunidades – livro escrito, nesse período: Jesus e Comunidade).
• BROOK, Wes Howard & Anthony GWYTHER. Desmascarando o Imperialismo: Interpretação do Apocalipse ontem e hoje. Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus e Loyola, 2003. (jesuíta, ex-advogado do Senado Norte-Americano, decidiu estudar teologia depois de uma carreira bem sucedida como advogado. Ensina na Seattle University)
• BEAUCHAMP, Paul & Denis VASSE. A violência na Bíblia. Trad. Maria Cecília M. Duprat. São Paulo: Paulus, 1994. (Exegeta francês, jesuíta, já falecido).
• SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos Sinóticos a Paulo. Trad. Magda Furtado de Queiroz. São Paulo: Paulus, 1997. (autor uruguaio, jesuíta, já falecido).
• CROATTO, J. Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa - uma introdução à fenomenologia da religião. Trad. de C. M. V. Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001. 513p. (Argentino, jesuíta).
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terça-feira, fevereiro 12, 2008

Augustus Nicodemus Lopes

Deus, o trabalho e a prosperidade

A prosperidade financeira obedece a normas, regras e métodos estabelecidos. Por outro lado, da perspectiva bíblica, a prosperidade é um dom de Deus. É ele quem concede saúde, oportunidades, inteligência, e tudo o mais que é necessário para o sucesso financeiro. E isso, sem distinção de pessoas quanto ao que crêem e quanto ao que contribuem financeiramente para as comunidades às quais pertencem. Deus faz com que a chuva caia e o sol nasça para todos, justos e injustos, crentes e descrentes, conforme Jesus ensinou (Mateus 5:45). Não é possível, de acordo com a tradição reformada, estabelecer uma relação constante de causa e efeito entre contribuições, pagamento de dízimos e ofertas e mesmo a religiosidade, com a prosperidade financeira. Várias passagens da Bíblia ensinam os crentes a não terem inveja dos ímpios que prosperam, pois cedo ou tarde haverão de ser punidos por suas impiedades, aqui ou no mundo vindouro.

Através dos séculos, as religiões vêm pregando que existe uma relação entre Deus e a prosperidade material das pessoas. No Antigo Oriente, as religiões consideradas pagãs estabeleceram milênios atrás um sistema de culto às suas divindades que se baseava nos ciclos das estações do ano, na busca do favor dessas divindades mediante sacrifícios de vários tipos e na manifestação da aceitação divina mediante as chuvas e as vitórias nas guerras. A prosperidade da nação e dos indivíduos era vista como favor dos deuses, favor esse que era obtido por meio dos sacrifícios, inclusive humanos, como os oferecidos ao deus Moloque. No Egito antigo a divindade e poder de Faraó eram mensurados pelas cheias do Nilo. As religiões gregas, da mesma forma, associavam a prosperidade material ao favor dos deuses, embora estes fossem caprichosos e imprevisíveis. As oferendas e sacrifícios lhes eram oferecidas em templos espalhados pelas principais cidades espalhadas pela bacia do Mediterrâneo, onde também haviam templos erigidos ao imperador romano, cultuado como deus.

A religião dos judeus no período antes de Cristo, baseada no Antigo Testamento, também incluía essa relação entre a ação divina e a prosperidade de Israel. Tal relação era entendida como um dos termos da aliança entre Deus e Abraão e sua descendência. Na aliança, Deus prometia, entre outras coisas, abençoar a nação e seus indivíduos com colheitas abundantes, ausência de pragas, chuvas no tempo certo, saúde e vitória contra os inimigos. Essas coisas eram vistas como alguns dos sinais e evidências do favor de Deus e como testes da dependência dele. Todavia, elas eram condicionadas à obediência e só viriam caso Israel andasse nos seus mandamentos, preceitos, leis e estatutos. Estes incluíam a entrega de sacrifícios de animais e ofertas de vários tipos, a fidelidade exclusiva a Deus como único Deus verdadeiro, uma vida moral de acordo com os padrões revelados e a prática do amor ao próximo. A falha em cumprir com os termos da aliança acarretava a suspensão dessas bênçãos. Contudo, a inclusão na aliança, o favor de Deus e a concessão das bênçãos não eram vistos como meritórios, mas como favor gracioso de Deus que soberanamente havia escolhido Israel como seu povo especial.

O Cristianismo, mesmo se entendendo como a extensão dessa aliança de Deus com Abraão, o pai da fé, deu outro enfoque ao papel da prosperidade na relação com Deus. Para os primeiros cristãos, a evidência do favor de Deus não eram necessariamente as bênçãos materiais, mas a capacidade de crer em Jesus de Nazaré como o Cristo, a mudança do coração e da vida, a certeza de que haviam sido perdoados de seus pecados, o privilégio de participar da Igreja e, acima de tudo, o dom do Espírito Santo, enviado pelo próprio Deus ao coração dos que criam. A exultação com as realidades espirituais da nova era que raiou com a vinda de Cristo e a esperança apocalíptica do mundo vindouro fizeram recuar para os bastidores o foco na felicidade terrena temporal, trazida pelas riquezas e pela prosperidade, até porque o próprio Jesus era pobre, bem como os seus apóstolos e os primeiros cristãos, constituídos na maior parte de órfãos, viúvas, soldados, diaristas, pequenos comerciantes e lavradores. Havia exceções, mas poucas. Os primeiros cristãos, seguindo o ensino de Jesus, se viam como peregrinos e forasteiros nesse mundo. O foco era nos tesouros do céu.

A Idade Média viu a cristandade passar por uma mudança nesse ponto (e em muitos outros). A pobreza quase virou sacramento, ao se tornar um dos votos dos monges, apesar de Jesus Cristo e os apóstolos terem condenado o apego às riquezas e não as riquezas em si. Ao mesmo tempo, e de maneira contraditória, a Igreja medieval passou a vender por dinheiro as indulgências, os famosos perdões emitidos pelo papa (como aqueles que fizeram voto de pobreza poderiam comprá-los?). Aquilo que Jesus e os apóstolos disseram que era um favor imerecido de Deus, fruto de sua graça, virou objeto de compra. Milhares de pessoas compraram as indulgências, pensando garantir para si e para familiares mortos o perdão de Deus para pecados passados, presentes e futuros.

A Reforma protestante, nascida em reação à venda das indulgências, entre outras razões, reafirmou o ensino bíblico de que o homem nada tem e nada pode fazer para obter o favor de Deus. Ele soberana e graciosamente o concede ao pecador arrependido que crê em Jesus Cristo, e nele somente. A justificação do pecador é pela fé, sem obras de justiça, afirmaram Lutero, Calvino, Zwinglio e todos os demais líderes da Reforma. Diante disso, resgatou-se o conceito de que o favor de Deus não se pode mensurar pelas dádivas terrenas, mas sim pelo dom do Espírito e pela fé salvadora, que eram dados somente aos eleitos de Deus. O trabalho, através do qual vem a prosperidade, passou a ser visto, particularmente nas obras de Calvino, como tendo caráter religioso. Acabou-se a separação entre o sagrado e o profano que subjaz ao conceito de que Deus abençoa materialmente quem lhe agrada espiritualmente. O calvinismo é, precisamente, a primeira ética cristã que deu ao trabalho um caráter religioso. Mais tarde, esse conceito foi mal compreendido por Max Weber, que traçou sua origem à doutrina da predestinação como entendida pelos puritanos do século XVIII. Weber defendeu que os calvinistas viam a prosperidade como prova da predestinação, de onde extraiu a famosa tese que o calvinismo é o pai do capitalismo. As conclusões de Weber têm sido habilmente contestadas por estudiosos capazes, que gostariam que Weber tivesse estudado as obras de Calvino e não somente os escritos dos puritanos do séc. XVIII.

Atualmente, em nosso país, a idéia de que Deus sempre abençoa materialmente aqueles que lhe agradam vem sendo levada adiante com vigor, não pelos calvinistas e reformados em geral, mas pelas igrejas evangélicas chamadas de neopentecostais, uma segunda geração do movimento pentecostal que chegou ao Brasil na década de 1900. A mensagem dos pastores, bispos e “apóstolos” desse movimento é que a prosperidade financeira e a saúde são a vontade de Deus para todo aquele que for fiel e dedicado à Igreja e que sacrificar-se para dar dízimos e ofertas. Correspondentemente, os que são infiéis nos dízimos e ofertas são amaldiçoados com quebra financeira, doenças, problemas e tormentos da parte de demônios. Na tentativa de obter esses dízimos e ofertas, os profetas da prosperidade promovem campanhas de arrecadação alimentadas por versículos bíblicos freqüentemente deslocados de seu contexto histórico e literário, prometendo prosperidade financeira aos dizimistas e ameaçando com os castigos divinos os que pouco ou nada contribuem.

O crescimento vertiginoso de igrejas neopentecostais que pregam a prosperidade só pode ser explicado pela idéia equivocada que o favor de Deus se mede e se compra pelo dinheiro, pelo gosto que os evangélicos no Brasil ainda têm por bispos e apóstolos, pela idéia nunca totalmente erradicada que pastores são mediadores entre Deus e os homens e pelo misticismo supersticioso da alma brasileira no apego a objetos considerados sagrados que podem abençoar as pessoas. Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas e procurando obter prosperidade material por meio de pagamento de dízimos e ofertas me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro e sua teologia da prosperidade não são, na verdade, filhos da Igreja medieval, uma forma de neo-catolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma medieval.
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quarta-feira, julho 11, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Liberais Levam Cano dos Católicos

Por     47 comentários:
Lembro-me de uma moça que durante dez anos foi noiva de um rapaz conhecido meu. Todo mundo sabia que ela era louca por ele. Todavia, os anos foram passando e o rapaz não dava sinais de que realmente pretendia casar. Todo mundo achava estranho, menos ela, cega que estava de paixão. Chegaram a marcar a data por duas ou três vezes, mas sempre na hora do “vamos ver”, o rapaz acabava achando um motivo para adiar o casamento. E assim ele foi levando durante os dez anos. Finalmente, deu-lhe um cano. Acabou o noivado definitivamente e saiu da cidade. Numa conversa comigo ele comentou, “Era ela que vivia insistindo nesse casamento, eu concordei no noivado por causa da importunação, mas nunca prometi nada a ela”.

Essa semana a Igreja Católica deu o cano nos liberais. Não vai ter casamento. No, sir. Pode tirar o cavalinho da chuva. “Somos a única igreja verdadeira, a única igreja genuinamente cristã, e os protestantes... bem, são comunidades cristãs, sem os sacramentos e sem o apostolado, igrejas incompletas, se é que podem ser chamadas de igreja”. É esse, em resumo, o pronunciamento do papa Bento XVI quanto às igrejas protestantes.

Ratzinger está certo. Foram os liberais que começaram esse namoro e são eles que vivem insistindo nesse casamento, ou no mínimo, em manter esse namoro prolongado. A Igreja Católica, por sua vez, nunca prometeu nada. Embora tenha suas comissões que tratem de assuntos inter-religiosos, nunca deu, de fato, um passo oficial na direção de reconhecer os protestantes como igrejas verdadeiramente cristãs. O mais perto que chegaram disso foi dizer que eram “irmãos separados”, num arroubo politicamente correto do Vaticano II. A verdade é que a Igreja Católica sempre foi distante em seu interesse pelos protestantes. Às vezes falava claramente que não queria nada, como Pio XI na encíclica Mortalium Animos. Às vezes parecia se interessar mais, quando convidou observadores protestantes para o Concílio Vaticano II.



Essa idéia católica de ser a igreja verdadeira é muito antiga. Em 1302 o papa Bonifácio VIII disse: "Declaramos, dizemos e determinamos que cada criatura humana deve se submeter à autoridade de Pontífice de Roma, para sua salvação.” De lá até hoje a Igreja Católica nunca revogou outras declarações e dogmas similares, como por exemplo, os pronunciamentos do Papa Pio IX em 1864. "Não há salvação fora da Igreja de Deus [a Católica]” e “A Igreja Católica é a única verdadeira religião."

Permanece em vigor o Cânone 9, da Sexta Sessão do Concílio de Trento (1545-1564), convocado após a Reforma, que condenou a doutrina da justificação pela fé somente:




Se alguém diz que o pecador é justificado pela fé somente, significando que nada mais é requerido para cooperar a fim de obter a graça da justificação, e que não é de forma alguma necessário que ele seja preparado e disposto pela ação de sua
própria vontade, que seja anátema.


A Igreja Católica nunca revogou essa declaração. Os protestantes são oficialmente anatematizados (malditos) pela Igreja Católica, pois insistem que o homem é justificado pela fé somente e que nada mais é requerido para sua salvação.

Os reformados históricos e conservadores sempre souberam da verdadeira postura da Igreja Católica. E por sua vez, também nunca reconheceram a Igreja Católica como sendo a Igreja cristã verdadeira. Para nós, a verdadeira Igreja de Cristo é invisível e não pode ser identificada exclusivamente com uma ou outra igreja visível, organizada e terrena. Cremos que uma igreja visível e organizada é mais representativa da verdadeira Igreja à medida que as marcas da verdadeira Igreja nela se manifestam, que são a pregação genuína da Palavra de Deus e a celebração correta dos sacramentos. Como, em nossa avaliação, essas marcas faltam na Igreja Católica, ela não é considerada como parte da verdadeira Igreja nas grandes confissões reformadas, onde, por exemplo, o Papa é identificado como o anticristo.

São somente os liberais que sempre andaram às cegas, correndo atrás da Igreja Católica, como aquela mulher que quer casamento de todo jeito, sem ver que o suposto pretendente nunca realmente deu qualquer sinal de levá-la a sério. No fim, tinha que dar em cano mesmo. O pronunciamento de Ratzinger coloca um ponto final nas esperanças ecumênicas dos liberais.
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segunda-feira, julho 09, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Dúvidas que Tenho Sobre os Liberais

Por     25 comentários:


Os liberais gostam de se apresentar como pessoas que não têm certeza de coisa alguma. Fiéis à incerteza, a qual consideram a essência da erudição, e convencidos de que a dúvida é a única postura intelectual e espiritual aceitável, olham com um misto de desprezo e piedade para os simplórios que manifestam ter certeza de alguma coisa no âmbito espiritual e teológico.
Concordo com os liberais que há muitas coisas no âmbito espiritual e teológico que permanecem em aberto e sobre as quais só é possível tecer conjecturas. Eu mesmo tenho muitas dúvidas. Uma parte delas é sobre as dúvidas dos liberais. Menciono algumas delas aqui:
  1. Tenho dúvida se os crentes do Antigo e do Novo Testamento viviam nessa atitude de constante dúvida, sem jamais ter certeza das coisas relacionadas a Deus. Pelo que lemos, profetas e apóstolos falaram com plena convicção “Assim diz o Senhor” e estavam dispostos a morrer com essa declaração em seus lábios. Semearam a certeza que Deus havia falado e que sua vontade havia sido manifestada, e que era tão clara que o povo podia obedecê-la.
  2. Eu tenho dúvidas se os liberais sabem direito o que fazer com passagens da Bíblia onde se encontram testemunhos de certeza, convicção e fé. Paulo, como os profetas do Antigo Testamento, estava absolutamente certo de muitas coisas acerca de Deus. Ele sabia em quem tinha crido, estava totalmente seguro de que sua mensagem era a mensagem definitiva da parte de Deus (Gálatas 1), sabia que ao morrer estaria com Jesus Cristo (Filipenses 1), para mencionar apenas uns exemplos que me ocorrem agora. João, por sua vez, escreveu seu Evangelho e suas cartas para que os leitores soubessem que tinham a vida eterna, aqueles que criam em Jesus Cristo (João 21; 1João 5). Já o escritor de Hebreus constantemente enfatiza a certeza dos cristãos (Hebreus 6.11; 10.22; 11.1).
  3. Tenho dúvida se os liberais, quando assumem a cátedra em uma instituição de ensino teológico, tenham como objetivo contribuir humildemente para a formação teológica de seus alunos. Tenho dúvidas se a sua primeira ocupação não seja a de arrancar as certezas que porventura seus alunos crentes e ingênuos ainda tenham. Ao que parece, já que estão convencidos de que a certeza é fruto da ignorância, os liberais têm como alvo principal desconstruir a fé de seus pupilos, com o objetivo de torná-los eruditos, educados e acadêmicos, para que saiam das trevas da convicção para a luz das incertezas perpétuas. Não são poucos os relatos que conheço de crentes que após ingressarem em certos seminários e em cursos de teologia, passaram a não acreditar mais em nada – ou a viver em constante estado de dúvida quanto aos pontos fundamentais do Cristianismo, e sem referências morais.
  4. Tenho dúvida se os liberais realmente acreditam em qualquer das verdades ensinadas pelo Cristianismo histórico. Uma vez instalados nas cátedras, os liberais começam explicando aos seus alunos que a ciência já demonstrou que a criação do mundo, os milagres e a ressurreição relatados na Bíblia nunca de fato existiram da forma como narrados. Ensinam que a exegese científica já detectou que os relatos dos Evangelhos refletem mais a fé das comunidades que os produziram do que a realidade dos fatos. Declaram ainda que as grandes doutrinas do Cristianismo, como a Trindade e a divindade de Cristo, são resultado da influência da filosofia grega, particularmente a platônica, no pensamento dos grandes teólogos cristãos que elaboraram os credos que servem de base para a Cristandade.
  5. Também tenho dúvidas se após todo esse trabalho de demolição dos fundamentos da fé e da certeza, os liberais tenham alguma coisa para oferecer a seus alunos a não ser a sua própria dúvida e incerteza. Semeando a dúvida, fazem discípulos duas vezes mais cheios de dúvidas e incertezas do que eles.
  6. Tenho dúvidas ainda quanto ao motivo pelo qual os liberais insistem em ficar dentro das denominações evangélicas, além da sobrevivência financeira, é claro. Talvez seja somente a tradição protestante. Talvez se considerem cristãos porque fazem parte de instituições que historicamente estão ligadas ao movimento cristão. Eles mesmos não estão certos quanto ao que a Bíblia ensina sobre Jesus Cristo, mas para eles isso não é importante. O que importa é pertencer à comunidade que historicamente vem se associando ao nome dele.
  7. Será por isso que os liberais são ecumênicos? Eles acham que o Catolicismo romano, desde o período medieval até hoje, é uma expressão legítima do verdadeiro Cristianismo. Talvez a Reforma protestante, pela qual parecem pedir desculpas aos católicos por ter ocorrido, represente para eles um movimento dissidente motivado por questões políticas, econômicas e pessoais. Tenho dúvida se faça alguma diferença para os liberais o que os reformadores acreditaram ou não. Para eles, católicos e protestantes estão unidos pela tradição e pela história, e as diferenças doutrinárias entre eles, como a justificação pela fé, é resultado da ignorância e da arrogância daqueles que acham que podem alcançar a verdade com algum grau de certeza nesse mundo. Isso faz sentido, já que os liberais consideram toda certeza como fruto da ignorância e da arrogância. Somente os ignorantes e os arrogantes professam confiantemente pontos doutrinários acerca de Deus, de Cristo e do mundo e resolvem brigar por eles. Eles é que são os responsáveis pelas grandes divisões que existem no Cristianismo.
  8. Duvido da dúvida dos liberais. Acho que está mais para falsa humildade e incredulidade travestida de postura acadêmica e científica. No final, os liberais têm um monte de certezas e convicções, a começar de que sua missão na vida é extirpar toda certeza. Duvido também que a dúvida deles um dia os conduza à verdade. Quem duvida em busca da verdade, quando a encontrar deve por coerência duvidar se realmente a encontrou. A sua busca nunca terá fim.
  9. Tenho dúvidas se na raiz dessa atitude de incerteza perene se encontra uma atitude científica ou a nossa velha e conhecida incredulidade. Os que realmente contribuíram para a construção do Cristianismo foram aqueles que estavam certos daquele em quem tinham crido. Os semeadores da dúvida nunca deram realmente qualquer contribuição para o crescimento do Reino de Deus, para a plantação de mais igrejas, para a abertura de novos campos missionários, para a conversão de pecadores e para a reforma da sociedade.
  10. Duvido da integridade intelectual de quem adota a dúvida como método para encontrar a verdade quando antes já tem alguma certeza – inclusive da existência de Deus. Somente agnósticos podem usar esse método de forma coerente. Teólogos cristãos, especialmente reformados, que adotam essa postura, são uma contradição em si mesmos.
Essas são minhas dúvidas quanto à eterna recusa dos liberais de afirmar alguma coisa com convicção. Não estou dizendo que podemos ter plena certeza de todas as coisas e que é possível ter uma explicação para tudo. Afirmar isso seria realmente arrogância e ignorância. Não estou negando a necessidade de termos uma mentalidade crítica e de submeter à análise todas as proposições e declarações na área de teologia. Por outro lado, há muita coisa da qual podemos ter certeza, se formos observar o testemunho seguro dos crentes do Antigo e do Novo Testamento.

Nem Tomé pode ser considerado o primeiro liberal, pois, tendo duvidado a princípio, afinal veio a crer na revelação de Jesus. A mente liberal, em contraste, é como uma boca aberta, que nunca se fecha sobre algo sólido para mastigar e alimentar-se. Afinal, a fé não é de todos.
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sexta-feira, maio 11, 2007

Solano Portela

Sou Contra a Pílula! Reflexões Sobre Frei Galvão.



Hoje, 11.05.2007, é o dia em que o Papa declara formalmente a canonização de Antonio de Sant’Anna Galvão (1739-1822), ou, como diz a manchete da Folha de São Paulo, torna “Frei Galvão 1º Santo do país”. Estranha visão religiosa onde um “santo” divino, no sentido de receptador e intermediador de petições a Deus, é instalado por esforço humano, através de um decreto após um longo processo. Na cerimônia da manhã deste dia, o papa leu textualmente que o “inscrevia no registro dos Santos”.

Entre os supostos feitos registrados do Frei Galvão: a construção do Mosteiro da Luz com as próprias mãos, o dom da bilocação (estar em dois lugares ao mesmo tempo) e diversos casos de cura. A causa destas curas? A pílula que inventou, para ministrar aos enfermos que o procuravam – um pedacinho de papel enrolado no qual estavam escritas algumas frases em latim.

Desde essa época para cá, as pílulas vêm sendo consumidas com avidez por pessoas doentes e a continuidade de “fabricação” e fornecimento das mesmas foi assegurada pelas freiras, no Mosteiro da Luz. Ultimamente, segundo reportagem da Folha, com o interesse despertado pela visita do papa, o consumo está na casa das 30 mil pílulas por dia. Uma freira ouvida pela reportagem garante que o “papel da pílula é finíssimo e ‘dissolve facilmente na água’. A tinta usada é também comestível”.

Essas garantias podem aplacar a fúria das autoridades sanitárias, que deveriam estar preocupadas com a considerável ingestão de papel e tinta, mas aguçaram minha curiosidade teológica para ver o que estaria escrito nos papelotes. Que mantra católico romano tão poderoso seria este, que realiza a cura dos consumidores?

Verifico que a pílula traz encapsulada a essência do dogma romano da intermediação de Maria – exatamente o ponto principal que, no entendimento dos evangélicos, vai contra a mediação singular e exclusiva de Cristo. O texto escrito no papel de cada pílula diz o seguinte, em latim: “Depois do parto, ó Virgem, permaneceste intacta! Mãe de Deus, intercedei por nós”!

Assim, além das objeções lógicas e gastronômicas, tenho fortes razões eclesiásticas e teológicas para ser contra a pílula e contra processos de canonização:

  1. Postular a virgindade perpétua de Maria é uma necessidade do catolicismo romano, para dar um caráter supra-humano a ela e por possuir uma visão distorcida da sexualidade. Durante séculos o envolvimento sexual, mesmo nos limites bíblicos do casamento, foi considerado pelos romanos como algo não necessariamente saudável, mas que contaminava o corpo – ser virgem seria pré-requisito à santidade (daí o dogma do celibato compulsório ao clero e às freiras). Tal informação não procede das Escrituras, que apresentam Maria como especial, abençoada e devotada, alvo do nascimento virginal de Cristo, mas como uma pessoa plenamente humana e comum, mãe de vários outros filhos como fruto do seu casamento com José. A primeira frase da pílula se ocupa disso.
  2. A segunda frase, claramente indica Maria como mediadora e se harmoniza com sua classificação como co-redentora da humanidade – posição sustentada pelos católicos romanos. Tal crença contradiz vários textos bíblicos, entre os quais 1 Timóteo 2.5 e 6: “Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos...”.
  3. Por último, não encontro respaldo bíblico para a enormidade de santos que povoa o panteão da igreja católica – todos ali instalados por decretos e processos humanos. Esses, via de regras, tornam-se, igualmente, co-mediadores, alvo de adoração e de recepção das orações dos fiéis, quando o próprio Senhor Jesus nos ensina a dirigir nossas súplicas e orações a Deus (Mt 6.7-13) unicamente através de Sua pessoa (João 14.13). Ele é o nosso intercessor e advogado (1 João 2.1). Frei Galvão torna-se mais um desses santos intermediadores, trazendo um orgulho singelo, mas destituído de qualquer substância, ao nosso já sofrido e tão enganado povo brasileiro.

Observo, agora, a missa campal no Campo de Marte, em São Paulo. O papa acaba de dizer que “não há fruto da salvação que não tenha a intermediação da Virgem Maria”, comprovando exatamente a figura da mediação para Maria, quando ela é exclusiva de Cristo. Para nós, evangélicos, estas cenas, apesar de impressionantes, bem-montadas e até sinceras, devem trazer grande tristeza ao coração por estar enaltecendo um caminho que levará ao lugar onde o Pai não será encontrado. Jesus disse: “EU sou o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6).

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