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segunda-feira, abril 07, 2008

Augustus Nicodemus Lopes

Darwin no Banco dos Réus

Por     29 comentários:
Esse é o título do livro que será lançado essa semana durante a realização do I Simpósio Internacional Darwinismo Hoje, escrito por Philip Johnson, professor de direito da Universidade de Berkeley.

Apesar de ter sido publicado em 1993, o livro de Johnson continua atualíssimo. Pouca coisa surgiu nesse período que inovou a apologética antievolucionista além do que Johnson tem feito. O livro causou um grande impacto na comunidade científica por ocasião do seu lançamento, provocando reações, resenhas e contestações de grandes nomes do meio científico, como o renomado evolucionista Stephen Jay Gould. Muitos intelectuais consideraram essa obra como a primeira ameaça séria ao evolucionismo a aparecer nos últimos 40 anos. Johnson, graduado em Harvard e na Universidade de Chicago, escreve com maestria, lógica e domina a retórica.

O livro de Johnson não é o primeiro a questionar o dogma que a evolução é um fato científico inconteste. Em 1985 o pesquisador médico Michael Denton, um agnóstico australiano, agitou o meio científico com o livro Evolution: A Theory in Crisis [Evolução: Um a Teoria em Crise], cujo ponto era que o darwinismo estava em dificuldades diante das evidências contraditórias de campos diversos como paleontologia, biologia do desenvolvimento, biologia molecular e taxonomia. O livro de Johnson vai no mesmo caminho, embora partindo de diferentes premissas e usando um método distinto. A voz de Johnson se junta a muitas outras, em tempos recentes, que questionam o status de “fato” que o evolucionismo tem gozado na academia por quase duzentos anos.

Outra coisa interessante sobre esse livro é que seu autor não é um cientista cristão tentando mostrar com base na Bíblia e em dados científicos que o sistema darwinista está totalmente contrário aos primeiros capítulos do livro de Gênesis. Johnson é advogado e professor emérito de Direito da Universidade da Califórnia - Berkeley. Sua especialidade é análise lógica de argumentos e identificação dos pressupostos que estão por detrás desses argumentos. E é esse o alvo desse livro, trazer Darwin e o darwinismo, a um tribunal, por assim dizer, e examinar logicamente as suas a sserções e afirmações para verificar se são verdadeiras, e identificar os pressupostos filosóficos e os compromissos epistemológicos que estão subjacentes. Daí o nome do livro. Portanto, o que encontraremos aqui, nas palavras do próprio Johnson, é um exame criterioso, lógico, analítico, dos fundamentos teóricos, pressupostos e principais afirmações do darwinismo.

Mais uma coisa sobre esse livro. Ele é diferente de muitos outros que fazem parte da apologética antievolucionista – e é aqui, talvez, que resida em grande medida a sua eficácia. Muitos autores antievolucionistas empregam abertamente declarações e princípios fundamentados em suas crenças cristãs como base da sua argumentação, apresentando uma visão alternativa da realidade alicerçada na Bíblia. Johnson evita cuidadosamente esse tipo de abordagem, ainda que seja cristão, como se fosse um cético desinteressado do evolucionismo e que procura analisar seus argumentos à distância, para ver se os mesmos são apoiados pelas evidências. Essa falta de alusão aos argumentos bíblicos geralmente empregados pelos criacionistas faz com que a obra de Johnson tenha penetração em círculos universitários e acadêmicos, onde, via de regra, se pretende deixar o criacionismo fora da academia. Essa abordagem de Johnson é característica da abordagem do movimento do Design Inteligente, que permite reunir dentro do movimento inclusive cientistas e filósofos que não têm convicções cristãs ou religiosas, unidos, todavia, pela consciência de que o darwinismo, como paradigma científico, já não tem mais respostas para as questões levantadas por recentes descobertas, especialmente na área de bioquímica.

A estratégia de Johnson em Darwin no Banco dos Réus é dupla. Primeiro, ele procura demonstrar que o evolucionismo está profundamente comprometido com o naturalismo filosófico-ateísta. Esse ponto está desenvolvido em capítulos como “As Regras da Ciência,” “A religião darwinista,” “A educação darwinista” e “Ciência e pseudociência.” Como tal, o evolucionismo se sustenta sobre pressupostos filosóficos e metafísicos, como o ateísmo e o naturalismo filosófico, tornando-se assim uma religião do tipo fundamentalista, o que tinge a análise dos dados e das evidências. Segundo, ele analisa as evidências que os evolucionistas apresentam como prova científica da sua teoria. É aqui que o expertise de Johnson mais lhe serve. Com sua capacidade ímpar de detectar o que está por detrás de argumentos, ele analisa essas evidências nos capítulos “A seleção natural,” “As mutações grandes e pequenas,” “O problema do registro fóssil,” “A seqüência dos vertebrados,” entre outros. O veredito é sempre o mesmo. O compromisso da ciência evolucionista com a visão ateísta e naturalista de mundo compromete e vicia seus resultados.
O livro é publicado em português pela Editora Cultura Cristã e estará breve disponível para aquisição pelo site da editora.

[Essa postagem é uma adaptação da Apresentação do livro de Johnson, que tive o privilégio de fazer.]
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quarta-feira, março 05, 2008

Augustus Nicodemus Lopes

Ainda sobre Darwin...

Por     13 comentários:

A entrevista abaixo foi concedida ao jornal Brasil Presbiteriano. Trata da realização em abril do Simpósio "Darwinismo Hoje," assunto de post anterior nesse blog.


BP: O senhor foi o idealizador do simpósio sobre Darwinismo? De quem partiu a idéia inicial de propor essa discussão no Mackenzie?


AUGUSTUS: "A idéia de propor essa discussão no Mackenzie partiu da Chancelaria mesmo. Ela nasceu da constatação de que sendo a Universidade o lugar apropriado para o debate dos contraditórios, precisamos refletir isto na prática. Mas o que acontece na realidade é que antigos paradigmas acabam por dominar o cenário acadêmico e não abrem espaço para este debate. É o caso com o Darwinismo, que como teoria científica e filosófica mais aceita acaba dominando o pensamento nas várias áreas da Academia, com pouco ou nenhum espaço para que se ouça o que cientistas que esposam outras teorias têm a dizer. Daí, a idéia de um Simpósio onde se possa ouvir o outro lado."




BP: O senhor imagina que, pelo Mackenzie ser uma instituição de caráter confessional, haverá, quanto a isso, alguma polêmica (além da que o assunto do simpósio, por si só, irá gerar)? Algo como o Mackenzie estar realizando um evento dessa natureza para promover o ponto de vista cristão a respeito da criação do mundo e das espécies?


AUGUSTUS: "É possível que surja alguma polêmica. Todavia, o Mackenzie está perfeitamente dentro do seu direito, pois como instituição de ensino superior confessional ela atende a uma ideologia específica, um direito que é garantido pelo Artigo 20 da Lei de Diretrizes e Bases: 'As instituições privadas de ensino se enquadrarão nas seguintes categorias: III - confessionais, assim entendidas as que são instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas jurídicas que atendem a orientação confessional e ideologia específicas'. Esse artigo dá ao Mackenzie o direito de ser uma universidade cristã. Como tal, dentro desse direito, a universidade pode apresentar alternativas ao modelo evolucionista, que por sinal, já anda bem desgastado."


BP: O pouco que sei sobre a Teoria do Design Inteligente é que defende que a natureza foi planejada, projetada, e que se deve empreender uma investigação prática sobre a origem desse projeto ou desse design: se ele é fruto de uma organização proposital, talvez de uma mente criadora, superior, ou fruto do acaso ou de leis naturais. O senhor poderia explicar melhor essa teoria e o que pensa a respeito dela?


AUGUSTUS: "Na verdade, o Design Inteligente não pretende postular uma teoria das origens. Boa parte dos teóricos do Design Inteligente nem religiosos são. O que eles pretendem é chamar a atenção do mundo científico para o fato de que o Darwinismo com sua teoria da evolução das espécies não consegue explicar de maneira satisfatória determinados mecanismos e processos naturais descobertos pela bioquímica e outras ciências. Tais mecanismos, como o motorzinho das células, são por demais completos e complexos, sendo praticamente impossível considerá-los como fruto de um processo evolutivo movido ao acaso. A evidência, segundo os teóricos do Design Inteligente, aponta para um design, um propósito por detrás do desenvolvimento desses processos e mecanismos. Eles não chegam a postular que o designer desse processo é Deus, pois não querem levar o debate para a área religiosa, mas mantê-lo dentro do escopo científico."


BP: Quanto ao darwinismo ou neodarwinismo, como alguns chamam, muitos cristãos tendem a rejeitar essa teoria sem conhecê-la ao menos um pouco, dizendo até que Darwin afirmou que os humanos descendem dos macacos, o que não é exato. Outros, por outro lado, tentam descobrir pontos em que o darwinismo e o criacionismo poderiam se encontrar e não se contradizer, dizendo que talvez a forma como Darwin descreve a evolução das espécies tenha sido a forma como Deus trabalhou na criação do Universo e do homem. O que o senhor pensa sobre o darwinismo e essas formas de muitos cristãos o encararem?


AUGUSTUS: "É verdade que muitos cristãos tomam conhecimento da teoria da evolução através da versão oficial triunfante e sem nenhum questionamento, o que é deplorável. Eu pessoalmente creio que não há problemas em aceitar o que se chama de micro-evolução, ou seja, que os organismos de uma mesma espécie, com o tempo, se adaptaram e se desenvolveram, sobrevivendo os mais aptos por meio de um processo natural de seleção embutido na própria natureza desde a sua criação por Deus. Creio que existe abundante evidência desse fato, que em nada contradiz o pensamento cristão. Não creio que os cristãos tenham problemas quanto à micro-evolução. A dificuldade maior é quanto à macro-evolução, que postula o surgimento de espécies novas a partir de outras, como o surgimento do homem a partir de espécies inferiores. É verdade que Darwin não defendeu diretamente que o homem descende do macaco. Ele não mencionou a evolução humana no “Origem das Espécies”. Todavia, na sua teoria de descendência comum defendida em seu outro livro The Descent of Man [“A Origem do Homem”] Darwin ensina que o homem traz na sua estrutura corporal traços nítidos de sua descendência de formas inferiores. Ele diz que seu objetivo é mostrar que não existe diferença fundamental entre o homem e os animais superiores nas suas faculdades mentais, e que a diferença na mente entre o homem e os animais superiores é de grau, e não de tipo. Logo, Darwin disse, ainda que indiretamente, que o homem descende do macaco.


Muitos têm procurado uma conciliação entre Moisés e Darwin, os chamados evolucionistas teístas, que geralmente consideram Moisés como poesia e mito e Darwin como a expressão correta da realidade. O fato é que existe uma incompatibilidade radical entre os dois. A teoria da seleção natural de Darwin rejeita uma causa sobrenatural para esse processo. Asa Gray, um botânico americano, cristão, foi um dos primeiros a sugerir um “plano divino” dentro da teoria da evolução. Darwin protestou veementemente, numa carta a Lyell. O processo de evolução darwinista é mecanicista e a seleção natural é um processo cego, aleatório, e sem nenhuma intenção. Isso contraria a posição criacionista onde Deus é a fonte e o sustento de toda a sua criação.



Além disso, considerar os capítulos iniciais de Gênesis como lenda e mito cria um problema enorme para os cristãos, pois coloca como mito não somente as origens do mundo e do homem, mas também outros fatos como a queda do homem, tirando as bases históricas e teológicas para a antropologia e a soteriologia bíblicas. Dessa forma, se abre a porta para considerar como mito todo o restante da chamada "pré-história" de Gênesis, que são os capítulos de 1 a 12. Muitos evolucionistas teístas acham que Adão, Abraão, Moisés, etc. são figuras mitológicas, criadas pela imaginação religiosa dos judeus. Na hora que abrirmos a porteira em Gênesis 1-3, ela estará aberta para considerarmos como mito o resto da Bíblia."


BP: Sobre o criacionismo, os que nele acreditam são muitas vezes chamados de ingênuos ou crédulos, pois não há, até onde eu sei, suficientes evidências científicas que o comprovem. Há até entre os cristãos pessoas que defendem que a descrição da criação do mundo e do ser humano em Gênesis é uma figura ou faz parte de uma mitologia encontrada também em outras religiões antigas. O que o senhor acha dessa forma de pensar e qual é sua opinião sobre a origem do mundo e do homem?


AUGUSTUS: "Existem diferentes linhas criacionistas. Entre elas, existe o chamado criacionismo científico que tenta provar cientificamente que o mundo foi criado por Deus conforme relatado em Gênesis 1-2. Todavia, a linha criacionista predominante é que as origens do universo não podem ser descobertas por meio dos métodos empíricos da ciência moderna, e são mais uma questão filosófica e teológica. Dessa forma, os cientistas deveriam se ocupar em entender como o mundo funciona, deixando a questão das origens para filósofos e teólogos. Quanto à existência de relatos da criação do mundo na literatura religiosa de outras religiões, isso pode ser explicado pela necessidade fundamental que o homem tem de buscar as origens; seu espírito idólatra o leva a conceber a criação no âmbito da imaginação mitológica. Ainda que existam centenas de 'mitos da criação', em quase todas as culturas, nenhum se aproxima do relato bíblico. Não há evidência alguma de que Moisés teria copiado relatos babilônicos ou egípcios da criação do mundo, mesmo que vários deles sejam anteriores ao relato mosaico."
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sábado, junho 16, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Diálogo Inacabado entre um Pastor e um Cientista cristão sobre a linguagem de Gênesis 1-3

Por     42 comentários:
Esse diálogo de fato aconteceu. Durante cerca de uma semana troquei e-mails com um querido amigo meu que além de cristão comprometido, é um renomado cientista. O ponto central foi a natureza da linguagem de Gênesis 1 a 3. O diálogo terminou inacabado. Mesmo assim, até onde ele foi, desafiou-me bastante a refletir sobre essas questões. Pedi permissão para reproduzir o diálogo, editado em parte por causa do espaço, omitindo o nome dele.

CIENTISTA:

Precisamos encorajar os jovens cristãos a ter uma visão alternativa da criação que possa combater mais eficazmente o naturalismo. A Bíblia não é um livro científico e precisamos ter cuidado para não usá-lo da forma errada. Entre os pontos de uma visão alternativa, eu menciono que Gênesis é primariamente a proclamação de que Deus é o Criador dos céus e da terra. Gênesis 1-2 está proclamando a mensagem da atividade de Deus que é incompreensível aos seres humanos. A proclamação foi colocada em linguagem e imagens humanas para acomodar-se às limitações do entendimento humano, como criaturas finitas que somos. Portanto, qualquer tentativa de leitura de Gênesis 1-2 como se a passagem fosse descritiva equivale a colocar a atividade de Deus dentro das limitações da compreensão humana.

PASTOR:

Muito interessante. Todavia, uma pergunta apenas: por que você só se referiu a Gênesis 1-2 e deixou de fora Gênesis 3, que relata a Queda do homem? Não deveríamos ler Gênesis 3 também dessa forma, como não descritivo, e como se referindo a algo acima da nossa compreensão? Ou seja, você está dizendo que devemos ler Gênesis 1-2 de forma figurada, mas Gênesis 3 como história real?

CIENTISTA:

Há! Estou vendo sua pergunta capciosa! Eu diria que a Queda do homem presume que a Criação já havia sido realizada. Eu também não usei a palavra "figurada" – o que estou dizendo é que o relato não é científico. Eu estou falando de "verdade". Gênesis 1, 2 e 3 é um relato fiel da criação, mas não descrição científica. Faz sentido?


Aqui vai uma citação de Herman Bavinck: "Não existe separação inerente de ciência e religião. Da mesma forma, não deveria haver um biblicismo ingênuo que confunda a linguagem da Escritura com a linguagem da ciência". Eu gostaria de ouvir, agora, onde é que estou sendo herético!


PASTOR:

Bela citação, concordo integralmente com ela. Você concorda que, apesar da Bíblia não ter uma linguagem científica, nada do que ela diz contradiz a realidade das coisas? Em outras palavras, que a Bíblia não tem erros naquilo que ela afirma sobre o mundo, a realidade, a humanidade, a história, a geografia, por exemplo, mesmo que essas coisas sejam ditas de maneira fenomenológica e descritiva? Ah! Não fui eu quem usou a palavra "herético", nem mesmo sugeri que você fosse herético.


CIENTISTA:


Eu estava brincando com esse negócio de heresia! Creio plenamente em Adão e Eva, mas não aprecio muito as teorias criacionistas que defendem uma terra jovem – acho que elas prestam um desserviço ao Cristianismo.


PASTOR:


Tem mais um caso. Jesus podia transformar água em vinho numa fração de segundos e ao mesmo tempo fazer com que esse vinho "jovem" fosse tão velho como o melhor vinho. Ou seja, ele fez um vinho novo, mas com "aparência" de velho.


Estou feliz que você, quanto à questão da realidade (verdade), mantém a posição teológica reformada.


CIENTISTA:


Meu problema com sua declaração é que quando você usa o argumento que Jesus fez vinho com aparência de velho para justificar a criação da terra já com aparência de velha. Ao fazer isso, você está dizendo que os cientistas não deveriam examinar a terra com o objetivo de descobrir as leis de Deus na natureza, porque ele criou as coisas de forma a nos confundir. Isso quer dizer que nunca entenderemos o que vemos. Não se esqueça que a mesma física que descreve o comportamento astronômico do universo é a mesma que tem permitido a produção de imagens por ressonância magnética (MRI) e outras tecnologias redentivas maravilhosas.

PASTOR:

Entendo. Mas, responda-me. Se um cientista achasse Adão poucas horas após ter sido criado por Deus do pó da terra, qual seria sua conclusão acerca da idade de Adão? Adão teria poucas horas de vida, mas foi criado como um ser humano completo, adulto, e teria aparência adulta.

CIENTISTA:

Agora você está inferindo os detalhes técnicos de como Deus criou Adão. Prefiro não tocar nesse ponto. Quando eu digo que acredito que Deus criou Adão, acredito que ele tornou-se plenamente humano em um certo momento do tempo – eu não especulo se Deus aguardou pelo barro secar antes de soprar o espírito nele, ou se usou um método diferente para trazer o corpo de Adão a essa condição.

PASTOR:

Meu problema não é com a idade do universo, mas com seu argumento de que Deus não poderia ter criado uma terra jovem com aparência de velha pois isso seria iludir e desencaminhar os cientistas. Se Deus não pode criar coisas já crescidas, amadurecidas e com aparência de velha, o que dizer da criação de Adão e do vinho com sabor de velho? Deus não seria igualmente desonesto?


CIENTISTA:

Não!!!! Não vejo esse paralelo. Lembre-se de Gênesis 2.5, etc., as plantas e as florestas levaram tempo para crescer à medida que a água veio... Portanto, eu acho que existe uma diferença entre as diferentes classes de coisas criadas.


PASTOR:


Ainda não é o meu ponto. Se Deus estaria iludindo os cientistas ao criar a terra com aparência de velha, como se tivesse bilhões de anos, não estaria igualmente iludindo os cientistas criando um ser humano já crescido, amadurecido, aparentando mais idade do que realmente tinha? Eu acho que existe um paralelo, sim.


Além do mais, você esquece que de acordo com Gênesis "plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado." (Gn 2.8) Ou seja, não somente você tem um homem crescido (criado em uma fração de segundos) mas também um jardim inteiro com as árvores carregadas de frutas criadas em uma questão de segundos, senão Adão e Eva não teriam o que comer. Agora, temos não somente Adão e Eva e o vinho com gosto de velho, mas um jardim inteiro, todos criados já plenamente amadurecidos, completos, com aparência de terem muito mais tempo do que realmente tinham.


CIENTISTA:

É por isso que não penso que Deus nos ilude. Quando dizemos, a partir de observações astronômicas, por exemplo, que o universo tem bilhões de anos, essa declaração deveria ser aceita, em vez de encontrar explicações para a não-validade das leis físicas para satisfazer uma teoria criacionista do universo jovem.


Veja abaixo um sumário do professor Hooykaas sobre esse ponto. Ele era Reformado e foi um dos maiores historiadores da ciência. Leiam o que ele diz sobre o comentário de Calvino nas Institutas e digam-me onde Calvino e Hooykaas estão errados:


"Calvino percebeu, como talvez ninguém antes dele, a discrepância entre a astronomia nada ingênua do século XVI e a visão de mundo dos tempos bíblicos. Ainda assim, a despeito de sua reverência pela Escritura, ele não rejeitou a astronomia de seus dias... De acordo com Calvino, o Espírito Santo abre uma mesma escola para o ignorante e o erudito, e escolhe o que seja inteligível a todos. Se Moisés tivesse falado de uma forma científica, o ignorante poderia apresentar a desculpa de que estas coisas estão além de sua compreensão. Calvino diz, 'A Bíblia é um livro para o leigo; aquele que desejar aprender astronomia e outras artes recônditas, que vá aprender em outros lugares'. Evidentemente, Calvino sustenta que Deus deseja que as pessoas de todas as épocas compreendam a sua revelação e, portanto, se acomodou a nós."


PASTOR:


Estou feliz que você cita Calvino e reconhece a autoridade dele. Então, ouçamos Calvino também quando comenta sobre a criação do mundo (Gn 1.5):


"Aqui se refuta claramente o erro daqueles que dizem que o mundo foi criado em um único momento. Pois é muita violência contender que Moisés distribuiu por seis dias a obra que Deus realizou num só momento simplesmente com o objetivo de nos instruir. É preferível concluir que o próprio Deus levou o espaço de seis dias com o objetivo de acomodar suas obras à capacidade do homem".


Agora, diga-me, cientista: quais das duas citações de Calvino devemos seguir para que sejamos de fato calvinistas? Essa acima, em que Calvino diz que Deus criou o mundo em seis dias, ou aquela que você mencionou, de Hooykaas citando Calvino, que a linguagem da Bíblia é não científica?


CIENTISTA:

Minha posição está perfeitamente dentro da tradição dos cientistas Reformados. Mais umas linhas de Hooykaas:


"Existiam muitos, como o ministro zelandês Philips van Lansbergen, um famoso astrônomo, que era opinião que a Escritura não fala de assuntos de astronomia 'de acordo com a situação real, mas de acordo com as aparências.' De acordo com ele, o testemunho das Escrituras é verdade em si mesmo, mas sua autoridade é erroneamente empregada para demonstrar o movimento dos corpos celestes."


PASTOR:


Estamos andando em círculo aqui. Você citou Calvino como autoridade quanto à questão do caráter não científico da Escritura e nos desafiou a sermos calvinistas consistentes. Eu respondi com uma citação de Calvino, em que ele claramente diz que Deus criou o mundo em seis dias, para provar que o fato dele acreditar que a Bíblia não tem linguagem científica não o impediu de acreditar que o mundo foi criado em seis dias por Deus.


Diga-me: de acordo com Calvino, é possível para quem reconhece que a linguagem da Bíblia não tem caráter científico acreditar que Deus fez o mundo em seis dias?


CIENTISTA:


Eu vou parar o diálogo por aqui dizendo que eu creio que Deus criou os céus e a terra como um ser humano perfeito, mas não posso imaginar que o universo tem somente 6 mil anos e 6 dias, no sentido de um dia literal de 24 horas. Isso está além da minha compreensão. Penso também que Calvino concordaria com as recentes teorias concernentes à distância, propagação da luz e expansão do universo.


PASTOR:


Você ainda não respondeu minha indagação.


CIENTISTA:


Eu diria que apesar da Bíblia ser divinamente inspirada, sua humanidade está também aqui. O resultado não é que ela é a Palavra de Deus no sentido de que cada passagem, em si mesma, traz ciência e história de forma impecável. A Bíblia traz a Palavra de Deus. Se Deus escolheu expressar-se através da fragilidade das palavras humanas, da mesma forma que escolheu revelar-se através da forma humana frágil, quem somos nós para questionar sua sabedoria? A Bíblia não tem linguagem científica.


PASTOR:


Nós podemos (e devemos) admitir que a língua da Bíblia não é científica. Mas isto é diferente de dizer que ela contém erros. Por exemplo: a Bíblia não explica a rota da terra em torno do sol da perspectiva das forças gravitacionais que controlam os corpos cósmicos. A Bíblia indica simplesmente que o sol se levanta e se deita diariamente - que é a linguagem da perspectiva de quem vive na terra. Não é um erro. Este é o ponto que Hooykaas e Calvino estão fazendo.


Na mesma maneira, quando a Bíblia descreve a criação de Adão, não é linguagem científica. Moisés não diz como Deus adicionou a água ao barro e nem implantou os condutores elétricos em seus nervos. Não obstante, permanece o fato que Deus criou o homem do pó da terra e soprou o espírito nele. Quando a Bíblia diz que o sol parou no céu metade de um dia, não se preocupa em explicar como Deus poderia fazer aquilo sem causar uma tremenda bagunça na ordem celestial e no movimento dos planetas de nosso sistema solar. Apesar da falta da explanação científica, permanece um fato que o sol realmente parou esse dia durante esse período de tempo.


Não vamos confundir estas duas coisas: linguagem científica e verdade. Algo pode ser verdadeiro mesmo se não for vazado em jargão científico. Meu problema é que você não está fazendo esta distinção claramente e que você ainda parece sugerir, cada vez que diz que a Bíblia não tem nenhuma linguagem científica, que a história da criação não poderia ter acontecido na maneira como é descrita em Gênesis 1-2.


CIENTISTA:


Esse ponto sobre algo ser verdadeiro mesmo sem estar em linguagem científica é o que venho dizendo desde o início. Acho que você não me entendeu. Em essência, acredito no que a Bíblia diz – porque é verdade. Mas, Deus não intencionou que a linguagem dela fosse científica. Calvino aceitava a astronomia moderna e ao mesmo tempo não perdeu o respeito pela mensagem da Bíblia. A astronomia corrente tem implicações que rejeitam completamente o conceito de um universo com 6 mil anos e 6 dias de idade. Por que é tão difícil aceitar isso e ainda continuar crendo que a Bíblia contém a Palavra de Deus?


PASTOR:


Fico feliz em ver que concordamos em muitas coisas. Todavia, só mais uma observação. A Bíblia não contém a Palavra de Deus, ela é a Palavra de Deus. Dizer que contém a palavra de Deus, e assim fazer uma distinção entre Escritura e Palavra, é a posição de Karl Barth. Para ele, a Bíblia estava cheio dos erros - especialmente científicos - mas o milagre era que Deus nos falava através deste livro imperfeito. Você soa um bocado como Barth neste ponto, a menos que eu o entendi mal.


CIENTISTA:


Eu não sou barthiano, não quero nada com liberais. Segue minha última citação de Hooykaas sobre biblicismo. E ele não era um liberal:


"Minha tese é que a liberdade interna necessária ao trabalho científico está garantida inteiramente por uma religião biblica. Isto pode parecer um paradoxo. Todos sabem o quanto uma exegese de textos bíblicos impediu o desenvolvimento livre da teoria científica. Os textos de Josué e dos Salmos tornaram impossível para muitos ortodoxos aceitarem a teoria do movimento da terra; textos de Genesis impediram o desenvolvimento livre da geologia enquanto pareceram limitar o tempo geológico a 6.000 anos e corroboraram a opinião sobre um dilúvio universal. Genesis foi usado também a fim manter a constância das espécie..."


PASTOR:


Eu já li o livro de Hooykaas sobre a contribuição do Cristianismo para o surgimento da ciência moderna. Também não creio que ele seja um liberal, mas questiono algumas de suas opiniões.

Por exemplo, concordo quando ele diz que a liberdade interna é necessária para o trabalho científico, mas eu gostaria de acrescentar "desde que você mantenha os pressupostos de que Deus criou o mundo e o homem".

Ele também não faz uma importante distinção entre o catolicismo romano e a Reforma, quando diz que a exegese bíblica impediu que ortodoxos aceitassem o heliocentrismo (que a terra gira em torno do sol). Da mesma forma, acho que ele não foi exato ao dar a impressão que teólogos em geral sempre afirmaram com base nos textos de Gênesis que o mundo não poderia ter mais de 6 mil anos. Essa idéia é de um grupo que tentou calcular a idade da terra através das genealogias, algo infundado. Acho que Hooykaas acaba passando uma imagem incorreta da posição Reformada.

Ele pode não ser liberal, mas parece que não acredita num dilúvio universal. Isso faz dele o que? Reformado ou liberal? Outra coisa: ele diz que Gênesis tem sido usado para manter a constância das espécies. Isso é muito controverso. A microevolução (mudança dentro das espécies) está bem provada e atestada, mas a macroevolução (mudança de uma espécie em outra) ainda não foi provada. As espécies são estáveis e estabelecidas, até onde sei.

CIENTISTA:


Concordo com quase tudo que você disse, só acho que é muita coragem dizer que Hooykaas, um dos maiores historiadores da religião, passa uma imagem errada da posição reformada.

PASTOR:

Tem razão. Eu quis apenas dizer que nesse ponto ele equivocou-se.

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terça-feira, maio 22, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Um Pé na Porta

Por     51 comentários:
É assim que cientistas darwinistas em todo mundo têm definido o Design Inteligente, movimento que recentemente vem causando nos Estados Unidos certa inquietação e reação nos círculos acadêmicos da biologia, química, física e astronomia.

É um pé na porta, dizem os darwinistas, porque a deixa entreaberta para outras definições de realidade entrarem, como o Criacionismo, por exemplo. As críticas ao darwinismo feitas pelo Design Inteligente funcionariam como uma cunha, abrindo caminho no mundo científico para o regresso das noções sobrenaturais de um ser inteligente que criou o mundo com propósito e inteligência – Deus, em outras palavras. É esse o terror dos darwinistas. Num ambiente dominado há 200 anos pelo naturalismo e o evolucionismo, a própria idéia do retorno de Deus à academia é o pior dos pesadelos.
Em 2005 a discussão ganhou ares políticos quando o Presidente George Bush deu grande publicidade ao Design Inteligente ao declarar que o mesmo deveria ser ensinado nas escolas públicas, para que as crianças fossem expostas a modelos alternativos ao evolucionismo. A declaração provocou uma discussão do assunto na mídia e na academia americanas e mesmo fora dela.
Esse ano, foi a vez do papa Bento XVI. Ele publicou um livro na Alemanha, Criação e Evolução, onde faz declarações sobre as origens da vida e do universo que ecoaram na mídia mundial. O livro é um apanhado de palestras que Ratzinger fez ano passado sobre o darwinismo, durante um retiro. Ele basicamente descarta a posição do Papa anterior, que era extremamente simpática ao darwinismo, e favorece o criacionismo teísta, afirmando que existe espaço para explanações que extrapolam o campo científico quando se trata da origem da vida e do Universo. Já no ano passado o Papa havia dito que o mundo era “um projeto inteligente”.

Essa semana ouvi de um amigo, cientista, brasileiro, que é adepto do movimento do Design Inteligente, que existe uma grande expectativa de que em breve um novo paradigma surgirá em substituição ao velho, cansado e desacreditado darwinismo no que tange à capacidade da seleção natural de guiar de forma não intencional o processo evolutivo dos seres vivos. Bom, será muito bem vindo. Especialmente agora quando o mundo se prepara para comemorar os duzentos anos de Darwin e a mídia colabora intensamente para manter a chama acesa.
O Design Inteligente defende basicamente que certas características do universo e das coisas vivas são mais bem explicadas por causas inteligentes empiricamente detectadas na natureza, em lugar de um processo não-intencional e não-dirigido, como a seleção natural. O Design Inteligente é assim uma discordância científica da reivindicação central da teoria evolutiva de que o desígnio aparente dos sistemas vivos é uma ilusão. Num sentido mais amplo, Design Inteligente é simplesmente a ciência da descoberta de intencionalidade em padrões complexos e organizados. Os teoristas do Design Inteligente acreditam que é possível testar e avaliar cientificamente se uma certa informação biológica é o produto de causas inteligentes, da mesma maneira como cientistas fazem testes diários para detecção de propósito em outras ciências.

Algumas reflexões sobre esse movimento polêmico que tem ganhado mais e mais aceitação de cientistas e dos cristãos.

1) A crítica de que o Design Inteligente é ciência ruim não procede, e nem aquela que diz que é também religião ruim. Não é ciência ruim porque está procurando dar respostas para o silêncio do darwinismo sobre complexidade irredutível e outros fenômenos que ainda não são explicados pela seleção natural. Além disso, seus proponentes são cientistas premiados e conhecidos, pessoas sérias, cujos argumentos nem sempre têm recebido refutação convincente. Também, o Design Inteligente não é religião ruim. Na verdade, não é nem religião, embora seja evidente que suas conclusões inevitavelmente terão um impacto religioso. Se existe inteligência por detrás do surgimento da vida, de onde ela procede? Não é à toa que cristãos conservadores receberam com entusiasmo o surgimento do Design Inteligente. Todavia, o movimento do Design Inteligente não me parece necessariamente um pé na porta para a entrada posterior do Criacionismo. Muitos teoristas do Design Inteligente acreditam no Big Bang e na macroevolução. Outros são agnósticos. E por outro lado, alguns criacionistas são extremamente críticos do Design Inteligente, como Henry Morris.

2) Dizem que o Design Inteligente é resultado da incompetência de seus proponentes, que desistiram cedo demais de achar explicações naturalísticas para o desenvolvimento dos complexos irredutíveis, como o motorzinho celular. “Dêem-nos mais tempo,” pedem os darwinistas, “e descobriremos como a seleção natural foi capaz de preparar independentemente as mais de 35 partes do motorzinho da célula e colocá-las juntas de maneira a funcionar perfeitamente”. Os darwinistas não podem culpar os teoristas do Design Inteligente de prática científica malsã simplesmente porque estão apresentando hipóteses e teorias alternativas ao modelo padrão, diante da falta de respostas dele.

3) O Design Inteligente, estritamente considerado como pesquisa científica, não conseguirá se manter neutro na questão religiosa. Muito embora seu foco e sua ponta-de-lança seja a pesquisa científica que detecta a presença de inteligência, o movimento enfrenta uma encarniçada guerra que é movida por diferentes visões de mundo. Eu sempre acreditei que o darwinismo tem todas as características de uma religião e demanda muita fé de seus adeptos. E querendo ou não, o Design Inteligente acaba tendo profundas implicações religiosas. É um conflito religioso, no final, em que duas cosmovisões religiosas se enfrentam. Cedo ou tarde o Design Inteligente terá de enfrentar a questão que tem zelosamente evitado até agora, que é a identidade do agente inteligente, responsável pelo design encontrado na natureza.

4) O Design Inteligente pode ser uma maneira eficiente de questionar o domínio darwinista na academia já por dois séculos. O evolucionismo tem se tornado uma teoria muito desgastada depois das descobertas de fraudes em seus principais ícones, na falta de evidências concretas para a macroevolução, na falta de respostas até agora para os complexos irredutíveis. Está mais que na hora de abrirmos as portas e as mentes para explorar outras alternativas. Tem muita gente capacitada academicamente ao lado do Design Inteligente. Não está sendo proposto por incompetentes, despreparados, fanáticos ou religiosos.

Não sei ao certo onde esse movimento vai parar. Seus principais proponentes são cientistas renomados e internacionalmente conhecidos, como William Dembski, Michael Behe e Phil Johnson, para citar os mais conhecidos. Todavia, a guerra contra o Design Inteligente é muito intensa e se trava na mídia e nos meios acadêmicos, e nem sempre os termos são os mais cordatos. A academia, que tanto preza o contraditório, tem fugido deste quando percebe o perigo de que sejam afetados os seus mais diletos dogmas.
Certa feita, um evolucionista disse que se os cientistas chegarem à conclusão de que existe inteligência por detrás da origem da vida, serão como alpinistas que chegam ao topo da montanha e lá encontram os teólogos acampados, esperando por eles há séculos. Esse era o pior pesadelo dele.

Mas, para nós, não será surpresa alguma. Afinal, a mesma visão de mundo judaico-cristã que permitiu que Tomé examinasse empiricamente o corpo de Jesus após a ressurreição é a mesma visão de mundo que ensejou o surgimento da ciência (Rick Pearcey).
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quarta-feira, janeiro 03, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

A Religião dos Liberais-Esquerdistas

Por     75 comentários:
Em 1923 J. Gresham Machen publicou Cristianismo e Liberalismo, em que mostrou claramente que o liberalismo era uma religião, e uma bem diferente do Cristianismo. Apesar da denúncia, a religião dos liberais cresceu e permeou todas as áreas do mundo ocidental moderno cristão, particularmente a política. Uma obra recente que delineia a religião do liberalismo e sua influência é Godless -- The Church of Liberalism [Sem Deus -- A Igreja do Liberalismo] de Ann Coulter. Comprei o livro (ainda não traduzido) e aproveitei minhas férias aqui em Recife para lê-lo (foto). Já estou chegando ao fim e também a algumas considerações sobre o seu conteúdo.

Ann Coulter é uma cristã que freqüenta com alguma regularidade a Redeemer Church, do Tim Keller, pastor presbiteriano conhecido nosso nos Estados Unidos. Republicana, conservadora, Coulter é advogada, jornalista, colunista de diversos periódicos americanos e escritora de sucesso, com vários livros na lista de best-sellers do The New York Times, inclusive esse último. Ann Coulter é uma crítica mordaz, ferrenha e destemida dos democratas-liberais esquerdistas americanos, aos quais se refere abertamente como retardados, traidores, covardes e inimigos de Deus, do Cristianismo e da América.

Godless é voltado para o público americano e expõe a falácia e incoerência dos principais pontos defendidos pelos liberais democratas americanos, naquilo que Coulter chama de "a Igreja do liberalismo". Podemos ter alguma dificuldade no entendimento de suas teses porque para a maioria dos brasileiros todos os americanos são apoiadores do Bush, direitistas e retardados. Apesar da linguagem ácida e debochada (eu provavelmente não liberaria comentários dela aqui no blog...) Coulter é extremamente bem informada e usa essas informações com muita inteligência – apesar de ser loura e usar uma mini-saia – e com uma ironia fina que arranca risadas freqüentes dos leitores (que concordam com ela, é claro). Tudo isso é empregado de maneira eficaz para detonar a religião do liberalismo político e expor seus defensores. Entre as risadas que dei lendo o livro na rede à beira-mar, aprendi que existe uma extraordinária semelhança entre a religião dos democratas-liberais esquerdistas de lá e aquela dos esquerdistas daqui. Menciono algumas, lembrando que aqueles que ela chama de liberais no contexto americano equivale mais ou menos aos esquerdistas do Brasil. Também não preciso dizer que apesar de generalizar, estou consciente de que há várias exceções.

1. Os liberais-esquerdistas são contra a punição de malfeitores como estupradores, assassinos, assaltantes a mão-armada e terroristas. Por não acreditarem no estado de queda e depravação moral e espiritual em que os homens vivem, defendem a possibilidade de reabilitação dos piores criminosos mediante a melhoria da auto-estima deles, programas de reabilitação administrados pelo Estado e psicólogos profissionais. São contra prisão perpétua, pena de morte, e a construção de mais prisões e detenções. São a favor de indultos, diminuição de pena e de devolver à sociedade bandidos perigosos para que se reintegrem e se tornem bons cidadãos. Esse seria um dos mandamentos da religião do liberalismo: “não punirás o malfeitor”.

2. Os mártires da religião liberal-esquerdista são geralmente esse pessoal. Nos Estados Unidos, assassinos seriais como Ted Bundy ganham fã-clube e seguidores, além de defensores entre homens e mulheres públicos. Recentemente, o estuprador e assassino Willie Horton ganhou notoriedade e milhares de defensores por que seus crimes foram considerados como armação de brancos preconceituosos – Horton é afro-descendente. Na mídia mundial liberal, Saddam Hussein já começa a tomar os contornos de herói e mártir.

3. O ponto de honra da religião liberal-esquerdista é o aborto, equivalente a um sacramento. Liberais-esquerdistas fazem o seu principal cavalo de batalha do direito da mulher abortar em qualquer período da gestação. Coulter diz que a razão é que os liberais odeiam os seres humanos e querem destruir o maior número possível de fetos. Nessa mesma linha, defendem o casamento gay porque gays não se reproduzem.

4. Os templos da Igreja liberal-esquerdista são as escolas públicas e os sacerdotes são os professores. Os liberais conseguiram transformar a rede pública de ensino em templos onde sua religião secularista-humanista-evolucionista é ensinada, onde o Cristianismo é proibido, onde nossos filhos aprendem desde cedo que a sexualidade precoce é natural, que ser gay é OK, que é legal usar camisinha e o “liberou-geral”, tudo isto à custa dos impostos pagos inclusive por aqueles que não mandam filhos para as escolas públicas e nem aceitam essas premissas ou a religião dos liberais. Aqui no Brasil, isso se estende à esfera governamental, com seus anúncios permissivos pagos com nossos impostos, bem como às universidades públicas.

5. Os liberais-esquerdistas são inimigos da ciência que considera as realidades de Deus, e se pudessem, queimariam todos os livros verdadeiramente científicos, como no passado houve queima de Bíblias. A religião liberal só aprecia a ciência quando ela aparenta contradizer o Cristianismo histórico. Toda vez que a ciência contradiz algum dogma da sua religião, os liberais estão prontos a reagir, protestar, desautorizar e renegar o valor das pesquisas e conclusões. Fizeram isso quando pesquisas científicas feitas por cientistas de Harvard, Cambridge e outros, mostraram que o QI das pessoas é genético (isso desbanca o dogma da igualdade de todas as raças por causa da evolução), que os homens são mais aptos para ciência e engenharia do que as mulheres (isso ataca o dogma da igualdade plena homens e mulheres), que o vírus da AIDS discrimina mesmo, atacando gays em 90% dos casos comprovados de AIDS (isso ameaça o dogma que ser gay é normal e natural e até desejável), que o aquecimento global não é tão sério como os ambientalistas – geralmente liberais-esquerdistas – propagam (isso ataca o dogma de que a vida humana tem menos valor que o meio-ambiente), que células-tronco de adultos são eficazes e têm já produzido efeito na cura de doenças graves, muito mais que o uso de células tronco de embriões (isso ataca o sacramento liberal de exterminar com o maior número possível de fetos), e por ai vai.

6. A premissa fundamental da religião liberal é a teoria da evolução. Apesar de 150 anos terem decorrido desde a publicação de Origem das Espécies os liberais continuam sem evidências fósseis da seleção natural e da evolução de uma espécie em outra mais adaptada. Quanto mais mergulhamos no conhecimento profundo do mundo e suas maravilhas, menos e menos plausível o evolucionismo se torna, a ponto de cientistas ateus, que rejeitam a evolução, procurarem outras alternativas para a origem da vida (que tal incluir Deus entre as opções?). Apesar de tudo, evolucionismo é dogma intocável e não passível de discussão nos templos liberais do ensino público. A única religião e a única fé que os liberais realmente desejam excluir das escolas e universidades é o Cristianismo. A religião que continua a defender pela fé o evolucionismo é mantida, nutrida e ensinada aos nossos filhos, usando nossos impostos.

Posso não concordar com o estilo mordaz de Coulter e nem com algumas colocações bem mais radicais do que estou pronto a endossar, mas estou impressionado com a percepção clara que ela tem daquilo que está realmente em jogo. A Igreja do liberalismo-esquerdista está no Brasil também, com seus templos, sacerdotes, dogmas e sacramentos. Em contraste com os Estados Unidos, cristãos históricos no Brasil ainda não são bem articulados, organizados e têm pouco acesso à mídia. Todavia, temos esperança de que, considerando as inconsistências internas do liberalismo, o crescente interesse pelo Cristianismo histórico e os esforços pequenos porém constantes de indivíduos em mostrar o outro lado, dias melhores poderão chegar.
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