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terça-feira, novembro 11, 2008

Solano Portela

Eleição – a americana e a de qualquer lugar...

Sob muitos aspectos a eleição de 2008, nos Estados Unidos, foi uma eleição histórica. O país do norte elegeu o seu primeiro presidente afro-americano. É, também, uma eleição que ocorre no meio de uma crise financeira mundial e com aquele país envolvido em duas frentes de batalha, no Afeganistão e no Iraque. Barack Hussein Obama está sendo considerado por seus eleitores norte-americanos como a grande solução a todos os problemas, a esperança de preenchimento de todas expectativas. A Europa o elevou a um patamar sobre-humano. A mídia mundial o idolatra. Nunca o caráter messiânico do governo esteve tão presente na vida de uma nação, como agora. Diogo Mainardi destaca esse aspecto quase religioso da eleição de Obama, comentando sobre a festa da vitória em Chicago: “Muita gente chora. Muita gente reza. Mais do que uma festa, trata-se de uma missa campal. Barack Obama é o sacerdote que pode perdoar os americanos de todos os seus pecados, da escravatura à guerra no Iraque” (VEJA, 2086, 12.11.2008, 102). Mais do que sacerdote – ele é recebido por muitos como um messias.

Não é questão de desmerecer ou desconhecer a carreira desse carismático e inteligente americano, nem suas brilhantes habilidades como comunicador, mas o que está por trás desta eleição? O que se pode esperar de suas ações, quando assumir o poder? O que caracterizou essa eleição e o que se pedia aos eleitores? A campanha norte-americana foi marcada por inúmeras promessas de lado a lado – a grande maioria delas apelando aos sentimentos egoístas de cada eleitor. “O que é que eu vou levar nessa”? ou, “o que é que vão levar de mim”? Nada muito diferente de nossas eleições, por aqui. Nada estranho a quem ouviu a cantilena dos postulantes às diversas prefeituras, prometendo coisas absurdas (como internet grátis para todos), aproveitando-se das necessidades dos cidadãos.
Charles Colson, em texto divulgado no dia anterior ao da eleição, chamou atenção para o fato de que nenhum dos candidatos americanos se empenhou no encaminhamento de suas plataformas a um governo que buscasse promover uma sociedade mais justa e praticante do bem. Se os eleitores tivessem essa motivação, diz ele, e os candidatos essa diretriz, aí sim, seria uma eleição realmente histórica. Mainardi, ainda comentando sobre a eleição americana, diz: “O eleitorado de Barack Obama quer ser amparado por ele, quer ser protegido por ele, quer ser mimado por ele”. Esse parece ser o desejo universal dos eleitores – depender mais e mais do governo e governantes, aos quais são atribuídos super-poderes (veja a pertinente análise do Dr. Alfredo de Souza, aqui).

Na minha avaliação, a questão vai além desse desejo egoísta de ter esses interesse pessoais satisfeitos, apontados por Colson. Nos “descolamos” muito das bases do governo. Ele hoje está sobejamente inchado e assustadoramente intervencionista. A visão egoista está presente, mas atrelada a uma falta de percepção do papel real do estado. Essa atitude e conceito se fazem presentes em todos os que são proponentes do "Grande Governo", quer eles sejam classificados como de “esquerda”, como democratas americanos, como “liberais” (no sentido americano), como socialistas. Estão presentes, também, nos programas e diretrizes de muitos que advogam um papel menor ao governo, classificados como de “direita”, como “neo-liberais” (no conceito europeu-brasileiro), como conservadores, ou como recebedores de outros rótulos semelhantes, pois já se acostumaram, igualmente, a ir comer no prato do governo, quando as coisas apertam, terminando por inchá-lo.

A conscientização de que o mundo está submerso em pecado nos leva à constatação de que uma sociedade “justa e boa”, nesta terra é algo utópico. No entanto, isso não muda o papel do governo. O estado não adquire magicamente um caráter messiânico, por mais que as pessoas assim dependam dele, tanto as que rejeitam o verdadeiro Messias; quanto as que, mesmo O aceitando, se rendem aos encantos estatais e chafurdam na escravidão da grande burocracia. Ao ser alimentado em sua voracidade de poder e de dinheiro, o estado se torna cada vez mais despótico; cada vez mais distanciado de sua finalidade. Essa finalidade é: punir a desordem; promover justiça (Rom. 13.1-7). De uma certa forma, o governo não vem “preservar a ordem”, pois ele compreende uma sociedade permeada de desordeiros, que precisam ser controlados e punidos, para realizar exatamente a “promoção da justiça” – a proteção aos bons.

Colson, acertadamente, chama atenção para um dos escritos de Agostinho (A Cidade de Deus), onde ele ensina que paz é a tranqüilidade produzida pela ordem. A primeira "ordem" dada, portanto, ao governo, é exatamente promover a ordem. Se retirada a ordem, temos o caos: não somente nas ruas, mas também, diz Colson, nos conselhos de administração, nos altos escalões executivos das empresas e, por extensão, nos mercados financeiros.

O nosso problema, e o dos americanos também, é, portanto, um problema de conceito do papel do governo e um problema de ética do povo, e essas questões estão atreladas uma à outra. O que produzirá Obama? Ainda é possível que ele, tendo que lidar com realidades, e não mais com promessas de campanha, faça um governo razoável. No entanto, pelas idéias que tem expresso até agora; por seu partido e por seu programa de governo, certamente irá incrementará o poder do estado e o intervencionismo deste sobre o dia a dia das pessoas. Promessas de redenção não podem fluir de falsos messias, e Obama é bem humano. Essa falsa redenção resultará em perdas de liberdades, sob a isca de estar atendendo desejos imediatos da população. Programas assistencialistas somente perenizarão a dependência e escravidão do todo-poderoso governo.
Estamos vendo isso por aqui, em nosso Brasil. Para quem acha que não temos futuro, somos os americanos de amanhã. Emulamos também os americanos na dissolução do ethos. Nosso governo além de assistencialista, piegas e ingênuo nas relações internacionais (querem melhor exemplo do que as pífias reações à postura agressiva e beligerante da Bolívia, Equador e, agora, do Paraguai – descartando os interesses nacionais?), também está na vanguarda da destruição das barreiras éticas que mantém uma sociedade coesa. Como nos Estados Unidos – já somos campeões na promoção do aborto, e da oficialização do homossexualismo como modo superior de vida e imune às críticas. Obama já declarou que suas primeiras medidas no governo envolverão a revogação da lei que proíbe o subsídio governamental ao aborto e às pesquisas com células tronco de embriões humanos, produzidos nas fábricas de aborto norte-americanas, ou em certas clínicas de fertilização onde embriões são tratados como refugo reciclável. A continuar nessa pisada, mais barreiras éticas serão quebradas, enquanto a população continua extasiada em transe romântico com os carismáticos eleitos.
Se, por um lado, vivo na consciência de que testemunho uma transição histórica importante, não posso me animar muito com as perspectivas – principalmente sob o prisma dos princípios éticos universais encontrados na Bíblia, pois vejo eles serem quebrados por Obama e todos esses outros “salvadores da pátria” – tupiniquins, ou do “primeiro mundo”.
Como seria diferente se tivéssemos estadistas reais, que elevassem os olhos além dos interesses dos seus grupos, ou até de sua própria geração, mas que estivessem dispostos a pagar o preço por um retorno às funções básicas do governo, da qual tanto carecemos e que vai sendo empurrada cada vez para mais longe de nós. Como seria diferente, se tivéssemos eleitores, que se empenhassem em eleger aqueles que, se aproximando dessa visão, se ocupassem não em destruir a sociedade, quebrando seus valores éticos, mas em fortificar a família – célula mãe da formação de um povo.
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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Sobre Neo-Libertinos

Os libertinos existem há muito tempo dentro da Igreja Cristã. Não vamos confundi-los com aqueles que procuram a liberdade da escravidão do pecado, da carne, do mundo e da lei, que é a liberdade cristã propriamente dita, encontrada em Cristo. Nesse sentido, todo crente verdadeiro é livre, ao mesmo tempo em que é escravo de Deus e servo dos seus semelhantes. Paulo fala disso em Romanos 6.

Os libertinos são diferentes. Eles também falam da liberdade cristã, da liberdade de consciência e da liberdade da lei, só que querem também ser livres de Deus e do próximo. Não percebem a liberdade dada por Cristo como estímulo para viver em obediência a Deus e serviço ao próximo, mas como uma licença para fazerem o que tiverem vontade.

Nós os encontramos em todos os períodos da Igreja. Quem não lembra de Balaão, o falso profeta que ensinou os filhos de Israel a se prostituir com as cananitas e a praticar a religião delas, como se fosse algo aceitável a Deus? (Num 31.16).

Encontramos os libertinos infiltrados nas comunidades cristãs primitivas, ensinando que a graça de Deus permitia ao cristão a participação nos sacrifícios pagãos oferecidos nos templos. Paulo encontrou um grupo de libertinos em Corinto, que achava que tudo era lícito ao crente, inclusive participar dos festivais pagãos oferecidos nos templos dos idólatras (1Cor 8—10). O livro de Apocalipse menciona os nicolaítas e os seguidores de Jezabel, grupos libertinos que ensinavam os cristãos a participar das “profundezas de Satanás” (Ap 2.24). Menciona também a “doutrina de Balaão”, que parece ter sido uma designação relativamente comum no séc. I para os libertinos (cf. Ap 2.14). Judas escreveu sua carta para denunciar e enfrentar “certos indivíduos que se introduziram com dissimulação... homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Judas 4).

Na época da Reforma, Calvino referiu-se em uma de suas cartas ao partidos dos libertinos na igreja de Genebra, que usava a “comunhão dos santos” para troca de esposas (mencionado no livro de Piper, Alegria Soberana).

Os libertinos modernos – vamos chamá-los de neo-libertinos – não são diferentes e mantém basicamente as mesmas características dos libertinos denunciados no Novo Testamento, particularmente na carta de Judas:

1. Os neo-libertinos estão introduzidos nas igrejas cristãs, mesmo não sendo verdadeiros crentes em Cristo Jesus, dissimulando suas crenças e práticas até se sentirem seguros para manifestar abertamente o que são. Eles estão presentes nas festividades das igrejas como “rochas submersas” (Jd 12), que representam um perigo para a navegação. Neo-libertinos costumam ficar em igrejas históricas e confessionais sem dar a mínima para o que elas acreditam.

2. São pessoas ímpias – isto é, sem piedade pessoal, sem temor a Deus e sem a verdadeira religião – que se apresentam travestidas de cristãos, usando a linguagem cristã e engajadas em práticas cristãs. São arrogantes e aduladores dos outros por interesses (Jd 16). São “sensuais” e “promovem divisões” no corpo de Cristo com suas idéias heréticas (Jd 19).

3. A doutrina neo-libertina é que a graça de Cristo faz com que tudo seja lícito ao cristão, inclusive a prática da imoralidade – que naturalmente não é chamada por esse nome, mas por eufemismos e outros nomes, como sexo livre, amor, etc. Essa doutrina transforma essa graça em libertinagem – é daí que vem o nome “libertinos”.

4. Em última análise, a doutrina dos neo-libertinos nega a Jesus Cristo, que sofreu na cruz para livrar seu povo não somente da culpa do pecado, mas do poder do pecado em suas vidas, conduzindo-os à santidade e pureza. Os libertinos vivem sem nenhum recato (Jd 12).

5. A fonte de autoridade para essa doutrina não é a Escritura, que em todo lugar condena a imoralidade, a concupiscência, a prostituição e o adultério, mas suas experiências pessoais. Judas chama os libertinos de “sonhadores alucinados que contaminam a carne” (Jd 8). A religião dos neo-libertinos não é oriunda da revelação de Deus nas Escrituras, mas é fruto da sua mente carnal, “instinto natural, como brutos sem razão” (Jd 10).

Falando claramente e sem rodeios, os neo-libertinos presentes nas igrejas evangélicas defendem o sexo antes do casamento, a multiplicidade de parceiros, as relações homossexuais, a troca de esposas e maridos, a pornografia, aventuras amorosas fora do casamento, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, a participação dos cristãos nas diversões mundanas e absorção dos valores desse mundo no vestir, trajar, viver e andar. A agenda neo-libertina é mais ampla do que essa e alguns neo-libertinos são mais radicais que outros. Mas no geral, neo-libertinos são contra qualquer sistema que tenha uma ética definida e clara e que defenda valores morais absolutos e fixos.

Neo-libertinos costumam construir uma imagem de Jesus como uma pessoa inclusivista, que amou a todos sem distinção, jamais condenou ninguém nem se pronunciou contra o pecado de ninguém. Todavia, o Jesus libertino é diferente do Jesus que o Cristianismo histórico vem acreditando faz dois mil anos. O Jesus libertino foi um fracasso, pois ninguém entendeu o que ele quis dizer em dois mil anos de história – só agora os neo-libertinos descobriram.

O Jesus libertino não conseguiu se fazer entender. Fracassou redondamente. Seus discípulos, as pessoas mais chegadas a ele, se tornaram o oposto do que ele queria: Pedro passou a ensinar que a vida nas paixões pecaminosas era pecaminosa (1Pedro 1:13-19), João passou a dizer que a paixão pelas coisas do mundo e da carne não procedem de Deus (1João 2.15-17), Tiago condenou o mundanismo (Tiago 4), o autor de Hebreus disse que temos que lutar até o sangue contra o pecado que nos rodeia (Hebreus 12.1-4) e Paulo declarou que os sodomitas e efeminados não entrarão no Reino de Deus (1Coríntios 6:9-11). Eles certamente não aprenderam essas coisas com o Jesus libertino.

Os neo-libertinos convenientemente calam-se sobre determinadas passagens nos Evangelhos onde Jesus, ao receber prostitutas, cobradores de impostos e pecadores em geral, os ensinava a segui-lo, não cometendo mais pecados, tomando a sua cruz, negando a si próprios e se tornando sal e luz desse mundo em trevas. Nenhuma prostituta, imoral, ladrão, que conheceu Jesus e se tornou seu discípulo continuou na sua vida imoral. Zaqueu, Mateus e Madalena que o digam.
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