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sexta-feira, abril 14, 2017

Solano Portela

Por que a Páscoa?

Na Páscoa, procuramos relembrar o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz do Calvário e a sua gloriosa ressurreição, vencendo a morte e assegurando a salvação para o seu povo. É verdade que a páscoa é, na realidade, um feriado judaico e não cristão. Remonta à lembrança de como, no Egito, o Anjo passou “por cima” (de onde vem o nome Páscoa) das casas dos Israelitas, poupando os primogênitos que viviam naquelas residências em que os umbrais das portas tinham o sangue do cordeiro espargido sobre eles. O significado e lembrança era, portanto, de libertação, de salvação; No entanto, a ocasião está intimamente ligada à celebração da Santa Ceia e nos remete à morte e ressurreição de Cristo, ao derramar do seu próprio sangue, que cobre e salva o seu povo, e às promessas de sua segunda vinda.

É nesse sentido que a Páscoa tem feito parte de calendários cristãos de um grande segmento do povo de Deus, inclusive de reformadores, como Calvino. Em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd. John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].

Menção à Páscoa é também feita em outros documentos reformados como no Catecismo de Heidelberg (Pergunta 45) e na decisão do Sínodo de Dordt (1578), onde lemos: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão à congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”.

Em adição a essa questão histórica, a celebração da Páscoa tem fornecido aos evangélicos oportunidades para a veiculação da mensagem cristã, mencionando a morte e a ressurreição de Cristo, em ações de evangelização e através de mensagens cantadas.

É verdade que a época é também caracterizada por diferentes símbolos, guloseimas e celebrações seculares, que nada têm a ver com a vida, morte e ressurreição de Cristo. Como cristãos, devemos ter uma filosofia de vida (uma cosmovisão) pela qual o mundo e as realidades espirituais são compreendidas; uma visão de vida sempre firmada na revelação especial – a Palavra de Deus. Nesse sentido, devemos procurar nos divorciar do apoio aos apelos consumistas (nessas e em outras datas) e de simbologias que podem ser aberrantes, ainda que tradicionais.

Entendendo esta época e ocasião biblicamente, no espírito da Teologia da Reforma, celebremos com alegria a Ressurreição de Cristo; a morte da morte, na morte de Cristo! Feliz Páscoa!
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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

A sepultura de Jesus


A foto acima é da tradicional entrada do túmulo de Jesus em Jerusalém. Embora o lugar seja apontado pela Igreja Católica e outras igrejas cristãs como sendo o lugar certo, a verdade é que não há certeza absoluta de que Jesus foi sepultado aqui mesmo. Para os cristãos reformados, o exato local -- e mesmo, um local -- não faz muita diferença. Para eles, Jesus morreu no monte Gólgota e foi sepultado em algum lugar nos arredores de Jerusalém, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e subiu aos céus, conforme o relato dos Evangelhos.

Agora, o Discovery Channel anuncia documentário "imparcial" a ser veiculado 18 de março, com o título "O Sepulcro Esquecido de Jesus". Segundo o site do Discovery, é "o provável achado mais importante da história". O documentário, dirigido pelo diretor de "Titanic", James Cameron, é sobre uma caverna encontrada em 1980 ou 1990 [tenho essas duas datas na mídia] num bairro ao norte de Jerusalém contendo dez caixões que guardariam os restos mortais de Jesus de Nazaré, de sua mãe Maria e de Maria Madalena. Afirmará o documentário que a caverna é o local do enterro de Jesus. "Se for comprovado que é verdadeiro, este será o mais importante achado arqueológico da história do mundo cristão", afirma notícia do Globo online.

A diferença entre o local tradicional e esse apontado pelo Discovery é que o primeiro está vazio, enquanto que o último, supostamente, contém os restos mortais de Jesus. Se os reformados não se importam com o local exato, agora o assunto é diferente. Faço as seguintes observações sobre a notícia e o fato em si.


1) Tem se tornado comum nos últimos anos a veiculação de matérias anti-cristãs pela mídia internacional durante as datas tradicionais da Cristandade, como Natal e Páscoa. O documentário da Discovery irá ao ar exatamente no período da Páscoa. Nos anos anteriores foi o Código da Vinci, o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Judas, a sepultura de um irmão de Jesus, etc. Agora é a vez da descoberta do corpo de Jesus.

2) Os ataques da mídia e documentários como esse são dirigidos primariamente contra a Igreja Católica. Note que não é só o corpo de Jesus que pretensamente foi achado, mas também de Maria -- que a Igreja Católica defende que foi assunta aos céus. De tabela, o documentário atinge os protestantes, pelo menos os que acreditam no relato bíblico da ressurreição de Jesus. Os neo-liberais e neo-ortodoxos não serão muito atingidos se descobrirem o corpo de Jesus, pois, como Bultmann já disse, a única coisa realmente histórica (que aconteceu de fato) no Credo Apostólico é a frase "Cristo... padeceu sob Pôncio Pilatos". Os demais itens -- nascimento virginal, ressurreição, ascenção e segunda vinda -- é tudo fruto da fé criadora dos discípulos e não têm a menor importância para o Cristianismo.

3) Não é a primeira vez que aparece gente para derrubar a fé cristã na ressurreição de Jesus. Já os judeus do primeiro século disseminaram a versão de que os discípulos roubaram o corpo de Jesus e inventaram a história que ele ressuscitou. Fala-se também que Jesus não morreu de fato, mas ficou em coma, do qual se recuperou posteriormente. As idéias são muitas e engenhosas. Recomendo a leitura da "Busca do Jesus Histórico" de Albert Schweitzer para os interessados no assunto. Apesar de todos os ataques, os fatos permanecem os mesmos: o túmulo vazio, a ausência do corpo de Jesus, a mudança radical dos discípulos, o testemunho dos 4 Evangelhos e de Paulo, um judeu convertido a Cristo, que afirma tê-lo visto ressurreto.

4) Apesar da propaganda de que o documentário foi montado por pesquisadores, especialistas, etc., estou simplesmente curioso para ver as evidências que vão apresentar de que os restos mortais dos dez caixões são de Jesus e de sua mãe. Pelo que li, Cameron e Jacobovici, o co-produtor, "dizem ter encontrado sarcófagos com a legenda 'Jesus, filho de José', 'Maria' e 'Judá' (que, segundo os cineastas, seria filho de Jesus)". É essa a prova que vai destruir a evidência oriunda do século I e que tem sido crida por 2 mil anos? Como sabem se as inscrições são autênticas? Segundo alguns, "a inscrição parecia duvidosa, pelo conteúdo, a caligrafia e o revestimento que o cobria". Mesmo que fossem autênticas, só havia um Jesus, um José e uma Maria em Israel no século I? São nomes extremamente comuns naquela época.

5) À semelhança das demais tentativas anuais para desacreditar o Cristianismo, essa vai para o esquecimento em breve, como também já está indo o Código da Vinci e o Evangelho de Judas. É claro que os incrédulos continuarão a se apegar teimosamente a qualquer coisa que prometa comprovar que os Evangelhos são uma grande mentira. E mesmo que o Discovery diga que é um "provável" achado, muitos verão o documentário como prova absoluta de que Jesus não ressuscitou.

Uma falha imperdoável destes documentários – compreensível por terem sido escritas por cineastas, e não por peritos em crítica histórica do Novo Testamento – é que não consultam a opinião de pesquisadores e arqueólogos bíblicos de convicções conservadoras. São reportagens unilaterais e preconceituosas. O documentário da Discovery está, num sentido, longe de ser um documentário "imparcial".

O pressuposto controlador do documentário com certeza é o racionalismo, para quem a Bíblia é um livro religioso igual aos demais das outras religiões, contendo elementos mitológicos e lendas. Temos também a natureza altamente especulativa das ferramentas críticas utilizadas para interpretar os achados aqueológicos.

Finalmente, não vou dizer que se realmente acharem o corpo de Jesus tudo continua como antes. Terei de clamar como Paulo, "se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé... somos os mais infelizes de todos os homens" (1Cor 15). Para mim, a ressurreição literal de Cristo de entre os mortos é o fundamento da fé cristã. Por isso, considero uma coisa muito séria o que esses cineastas estão tentando fazer. E não lamento nem um pouco o fracasso que vão experimentar, como todos antes deles.

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