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domingo, junho 21, 2009

Augustus Nicodemus Lopes

Xô, Satã!

Por     50 comentários:
Já passamos de meio milhão de acessos ao nosso blog. Todo tipo de gente passa por aqui, inclusive Satã, que desta feita resolveu postar um comentário no último post. Acho que ele ficou tão impressionado com a marca que não conseguiu ficar sem registrar a sua presença. Dei uma colher de chá (apesar da recomendação bíblica de “não dar lugar ao diabo”) e publiquei o comentário do coisa-ruim (veja aqui).

Isto me lembrou que minha tarefa não é ser o editor do maligno, mas de expor quem ele é e alertar meus irmãos e irmãs contra as suas ciladas. Aproveitei uma tarde livre aqui em Colatina, ES, num acampamento da bela 3a. Igreja Presbiteriana, e fiz algumas reflexões sobre o assunto, seguindo aquela idéia genial de C. S. Lewis de que o tinhoso gosta de dois tipos de gente: aqueles que não acreditam que ele existe e aqueles que lhe dão demasiada atenção.

Não é que entre os evangélicos tenha muita gente que não acredita que Satã exista – ele existe, sim, até colocou um comentário no Tempora-Mores! Mas a verdade é que dentro do campo dos conservadores existem aqueles que lhe negam a existência na prática, embora, por causa do compromisso com a inerrância da Bíblia, tenham que admitir a sua realidade.

Esta negação prática se dá de várias maneiras. Nos púlpitos, em reação aos exageros neopentecostais, os pregadores conservadores quase não alertam os crentes acerca da ação satânica e excluem a atividade maligna como parte da causa dos males que existem no mundo. Na ação pastoral são poucos os pastores conservadores que estão dispostos a considerar a expulsão de demônios como a resposta para determinadas situações, embora biblicamente tenham de admitir que a possessão e a opressão malignas são uma possibilidade sempre presente. A tendência é sempre identificar a origem dos problemas e crises que acontecem com as pessoas como decorrentes unicamente das corrupções do coração humano. Todavia, se por um lado não devemos dar demasiada atenção ao mundo das trevas, por outro, não podemos viver ignorando-o, na prática.

Do outro lado do espectro, estão aqueles que acabam caindo no erro oposto, conforme a máxima de Lewis, e dão ao diabo mais prestígio do que realmente merece. Pastores, bispos, apóstolos, missionários evangélicos ficam perguntando o tempo todo “qual é sua graça?” aos demônios que supostamente infernizam a vida das pessoas que aparecem em seus cultos – uma prática erroneamente baseada num incidente da vida de Jesus, quando indagou o nome da legião de demônios que possuía o gadareno, antes de expulsá-los inexoravelmente (Mc 5.9). Pior, acabam dando o microfone a estas supostas entidades, como se o depoimento delas fosse algo que pertencesse ao culto a Deus ou que interessasse ao crente. Acho que estão dando crédito demais ao cão. Apesar de Jesus ter dito que ele é mentiroso e o pai da mentira, os neopentecostais continuam interessados no que Lúcifer tem a dizer e acreditam no que ele supostamente diz. Escrevem livros inteiros com base em informações obtidas dos demônios que tiveram a língua amarrada para dizer a verdade durante sessão de exorcismo!

É verdade que Paulo se refere aos demônios como “principados e potestades” (Ef 6.12) e que Jesus disse que o diabo é o “príncipe deste mundo” (Jo 14.30). Todavia, estão hoje enchendo a bola do coisa-ruim indevidamente, atribuindo-lhe mais poder do que ele realmente tem. Falam o tempo todo da sua autoridade. Falam dele como se ele fosse onisciente e conhecesse nossos pensamentos e lesse o nosso coração, como Deus faz. Reagem a ele como se ele fosse todo-poderoso e responsável por tudo de ruim que acontece no mundo, inclusive pelos pecados que as pessoas cometem, a ponto de criarem a idéia de que existem demônios do câncer, da erisipela, da AIDS, do desemprego, da luxúria, etc. Nunca consegui ver isto na Escritura. Para mim, prostituição, lascívia, idolatria, feitiçaria e outros são “obras da carne” nas palavras de Paulo (Gl 5.19-21), muito embora os demônios estejam por detrás dos ídolos, usando-os para corromper a mente das pessoas (1Co 10.20). Satã é um anjo caído, uma criatura deformada moral e espiritualmente. Isto não o torna mais poderoso do que os demais anjos de Deus e muito menos lhe confere algum poder extra. A autoridade que ele tem é limitada pela vontade de Deus, como ficou claro no episódio de Jó.

Também não acho que o tinhoso é tão inteligente assim. As Escrituras nos revelam que há uma certa astúcia em Satanás (2Co 10.3); todavia, esta astúcia é a astúcia de uma mente corrompida e depravada. Satanás é megalomaníaco e arrogante (1Tm 3.6) e obcecado por receber adoração dos seres humanos (Mt 4.9). A mente de um ser torcido como este não pode funcionar direito. O próprio Jesus disse ao diabo que cogitações dele eram apenas das coisas do homem, e não de Deus (Mt 16.23). Falta-lhe verdadeira inteligência e entendimento, além de sabedoria. Por exemplo, ele nunca conseguiu decidir direito o que fazer com Jesus. Num momento, ele tentou afastá-lo da cruz, tentando-o no deserto com riquezas e poder (Mt 4.1-11) e mais tarde através de sugestões feitas à mente de Pedro (Mt 16.21-23). Depois, contrariando este plano de ação, entra em Judas, que trai Jesus, levando-o à cruz (Lc 22.3-5; Jo 13.27). O tiro saiu pela culatra e com isto o demônio decretou sua própria derrota. Mas, ele não aprendeu a lição. O ódio que o domina e consome é tal que afeta seu entendimento e discernimento. Ele não percebeu que quanto mais instiga o mundo contra a Igreja, levando milhares ao martírio, mais a Igreja cresce e se multiplica, pois “o sangue dos mártires é a sementeira da Igreja”. Sua mente torcida pelo ódio não consegue ver claramente, só pensa em roubar, matar e destruir (Jo 10.10). É como um leão velho, faminto, matreiro, capaz de fazer truques, iludir e enganar, mas incapaz de realmente planejar com discernimento e entendimento sua guerra contra Deus e seu povo. É verdade que ele é astuto o bastante para derrotar e destruir muitos. Mas não o suficiente para ganhar esta guerra, vencer a Deus e impedir a sua Igreja.

Ele nem é muito criativo. Não consegue improvisar e criar coisas novas. No máximo, faz imitações toscas da ação de Deus. Não é sem razão que Lutero o chamou de “o macaco de Deus”. Deus mandou seu Filho ao mundo assumindo uma natureza humana? O tinhoso reagiu imitando a encarnação, mas o máximo que conseguiu foi a possessão. Isto explica porque apareceu tanta gente endemoninhada quando Jesus esteve entre nós, conforme o relato dos Evangelhos (Mt 4.24; etc.). Deus concedeu dons miraculosos à sua Igreja para realizar sinais e prodígios com o propósito de autenticar a mensagem apostólica (Hb 2.4)? Satanás parte para a imitação desta estratégia e seus ministros realizam sinais e prodígios da mentira (2Ts 2.9; Mt 24.24), através de demônios operadores de sinais (Ap 16.13-14). Acho que Satanás é bastante previsível e que os evangélicos erram em lhe atribuir mais inteligência do que ele realmente tem.

Acho que os evangélicos esquecem que ele é um espírito atormentado, amaldiçoado por Deus (Gn 3.14), que não conhece um minuto de paz em sua alma em trevas. Se os seres humanos sem Deus, que foram criados à sua imagem, sentem angústia e vazio por que lhes falta comunhão com Deus, muito maior é a dor, o sofrimento, a angústia e o vazio na alma deste anjo, criado para ser de Deus. É nesse sentido que as Escrituras nos dizem que ele está amarrado em algemas eternas para o juízo daquele dia (Jd 6). Ele e seus capangas vivem em constante terror diante da expectativa da chegada do dia do juízo, quando serão lançados no lago de fogo e enxofre para sempre (Mt 25.41). Foi por isto que aqueles pobres diabos, vencidos diante da majestade onipotente do Filho de Deus, rastejaram aos seus pés implorando “não nos mande sair para o abismo” (Lc 8.31).

Não estou dizendo isto para despertar pena e compaixão pelo cão. Ele é assassino e mentiroso. Não há redenção para ele, pois Deus, na sua soberania, decidiu socorrer aos homens e não aos anjos. Cristo não veio para redimir os anjos caídos, mas a descendência de Abraão (Hb 2.16). Estou dizendo estas coisas em reação à idéia popular de que o demo é um ser livre, que mora no inferno e ali reina supremo, atormentando as almas dos homens e tendo imenso prazer em fazer isto. A realidade é outra. Ele ainda não foi ao inferno, embora já viva em tormentos, e quando for, não será para reinar e atormentar os homens, mas para ser atormentado eternamente com eles (Ap 20.10).

Portanto, xô, Satanás!
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