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segunda-feira, junho 14, 2010

Augustus Nicodemus Lopes

Paganismo versus Cristianismo - ou, Acaso versus Planejado.

Por     36 comentários:
Será que tudo que nos acontece é por acaso? Os acontecimentos, quer sejam bons ou maus, ocorrem acidentalmente, de maneira aleatória, sem que haja uma finalidade neles? Os que pensam assim, acham que Deus não determinou, decretou, ou planejou absolutamente nada com relação aos seres humanos, seu futuro histórico ou eterno, e muito menos os acontecimentos diários. Nada foi previsto ou determinado por Deus, inclusive os eventos naturais como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, acidentes, quedas de aviões, enfim – nada foi previsto ou determinado por ele. Portanto, tudo é imprevisível como num jogo de futebol. Não se sabe o futuro, não se pode prever absolutamente nada quanto ao fim da história. Junto com seus seres morais, Deus constrói em parceria o futuro, que neste acaso é aberto, indeterminado e incognoscível. Inclusive para ele mesmo.

Ou, será que as coisas que nos acontecem, mesmo as menores e piores, têm um propósito, ainda que na maior parte das vezes desconhecido para nós? Os que pensam assim entendem que Deus criou o mundo conforme um plano, um propósito, um projeto, elaborado em conformidade com sua sabedoria, justiça, santidade, misericórdia e poder. Nada que acontece, mesmo as mínimas coisas, o fazem ao acaso e de forma aleatória, contingencial e casual, mas segundo este plano sábio. As decisões dos seres humanos são tomadas livremente por eles mesmos, mas, de uma forma que não compreendemos, elas acabam contribuindo para a concretização do propósito divino sem que Deus seja o autor do pecado. Tudo que ocorre, coisas boas ou ruins, estão dentro deste propósito concebido antes da fundação do mundo.

A melhor maneira de avaliarmos qual das duas é a visão correta é perguntarmos qual delas se aproxima mais da visão de Deus, do mundo e do homem que a Bíblia apresenta. Como os autores bíblicos concebiam o mundo, a história e os acontecimentos?

Ninguém que conheça a Bíblia poderá ter dúvidas quanto à resposta. Os judeus, ao contrário dos povos pagãos ao seu redor, não acreditavam em sorte, azar, acaso, acidente ou contingências. Eram os filisteus e não os israelitas que acreditavam que as coisas podiam acontecer ao acaso (veja 1Sm 6.9). Os israelitas, ao contrário dos pagãos, não acreditavam no acaso.

Para eles, Deus tinha traçado planos para os homens e as nações, e os mesmos iriam se cumprir inevitavelmente. Estes planos não poderiam ser frustrados por homem algum (Jó 42.2; Pv 19.21; Is 14.27; Is 43.13; Is 46.10b-11). Tais acontecimentos estavam tão inexoravelmente determinados que Deus dava conhecimento deles de antemão, através dos profetas. O fato de que os profetas de Israel eram capazes de predizer o futuro com exatidão era a prova de que o Deus de Israel era superior aos deuses pagãos (Is 46.9-10).

Os autores do Antigo Testamento sempre descrevem eventos que aconteceram aparentemente ao acaso como sendo o meio pelo qual Deus realizava seu propósito final. Assim, o arqueiro que atirou sua flecha “ao acaso” durante uma batalha acabou atingindo o rei de Israel e dessa forma cumpriu a profecia sobre sua morte (2Cr 18.33). A tempestade que atingiu o navio em que Jonas fugia para Társis não foi mera contingência, mas resultado da ação de Deus em levar o profeta a Nínive (Jn 1.4). O amalequita que vagueava “por acaso” nos montes de Gilboa foi o que encontrou Saul agonizante e o matou, cumprindo assim a determinação do Senhor de castigá-lo por ter consultado a pitonisa (2Sm 1.6-10; 1Cr 10.13). O encontro “casual” do profeta com um leão causou-lhe a morte e assim cumpriu a profecia contra ele (1Re 13.21-24). A visita casual que Acazias foi fazer a Jorão e o encontro fortuito com Jeú era tudo “a vontade de Deus” conforme o autor do livro das Crônicas, para que Acazias fosse morto (2Cr 22.7-9). Dezenas de outras passagens poderiam ser citadas para mostrar que na cosmovisão dos autores do Antigo Testamento nada acontecia por acaso, nem mesmo as pequenas coisas.

Até mesmo ações pecaminosas dos homens são atribuídas a Deus pelos autores do Antigo Testamento. O endurecimento do coração de Faraó para não deixar o povo de Israel sair é atribuído à Deus, que queria mostrar sua glória e seu poder sobre os deuses do Egito (Ex 7.3; 9.12). O endurecimento dos filhos de Eli para não se arrependerem do mal praticado é atribuído à Deus que os queria matar (1Sm 2.25). O endurecimento do rei Seom para não deixar Israel passar por sua terra é atribuído a Deus, que queria entregá-lo nas mãos de Israel (Dt 2.30), bem como o endurecimento de todas as nações cananitas (Js 11.20). Ao mesmo tempo, é preciso acrescentar, os israelitas não consideravam Deus como culpado do pecado humano. Ele era santo, justo, verdadeiro e não podia contemplar o mal (Hab 1.13). Todos estes mencionados acima foram responsabilizados por seus próprios pecados.

A visão de um mundo onde as coisas acontecem ao acaso, acidentalmente, sem propósito, é completamente estranha ao mundo dos israelitas conforme temos registrado na Bíblia.

Quando chegamos na pessoa de Jesus, encontramos exatamente a mesma visão de mundo, de Deus e da história, que é refletida no Antigo Testamento. Para Jesus, até mesmo coisas tão insignificantes como o número de cabelos da nossa cabeça (Mt 10.30) e a morte de pardais (Mt 10.29) estavam sob o controle da vontade de Deus. Ele era capaz de profetizar acontecimentos futuros tão triviais quanto o local onde se encontrava uma jumenta e seu jumentinho (Mt 21.2), que Pedro iria achar moedas na boca de um peixe (Mt 17.27) e que um homem estaria em determinado momento entrando na cidade com um cântaro na cabeça (Lc 22.10-12). Obviamente estas coisas não aconteceram por acaso.

Jesus se referiu à vontade de Deus e ao plano dele inúmeras vezes, como por exemplo, ao ensinar aos seus discípulos que tinha vindo ao mundo para morrer na cruz para salvar pecadores (Mt 17.22-23). As parábolas que Jesus contou sobre o futuro de Israel e sobre o dia do juízo deixavam pouca dúvida de que, para Ele, a história caminhava para um fim já traçado e determinado por Deus. No sermão escatológico Jesus predisse com exatidão a queda de Jerusalém, a fuga dos discípulos, o surgimento dos falsos profetas, as catástrofes, terremotos, secas, pestes e guerras que haveriam de suceder à raça humana e as perseguições que sobreviriam a seus discípulos antes de sua vinda (Mt 24).

Os discípulos de Jesus, os autores do Novo Testamento, tinham exatamente a mesma visão de um mundo onde nada ocorre por acaso. Tudo o que havia acontecido com Jesus, como o local do seu nascimento (Mt 2.5-6), sua ida ao Egito (Mt 2.15), sua vinda a Nazaré (Mt 2.23), seus milagres (Mt 8.16-17), sua traição (Jo 17.12), seu sofrimento e sua morte na cruz (At 3.18) – inclusive detalhes como beber vinagre (Jo 19.28-29), ter sua túnica rasgada (Jo 19.24) e seu corpo furado por uma lança (Jo 19.34-36) – tudo isto havia sido determinado por Deus em detalhes, a ponto de Deus ter revelado estes fatos cerca de seiscentos anos antes dos mesmos terem acontecido por meio dos profetas de Israel. Pensemos na probabilidade de atos, decisões e eventos acidentais, aleatórios, ao acaso, contingenciais, acontecerem de tal forma que estas coisas aconteceram exatamente como os profetas tinham dito!

Não só os fatos ocorridos com Jesus haviam sido planejados, inclusive aqueles que cercaram o nascimento da igreja cristã. A substituição de Judas (At 1.16-26), o dia de Pentecoste (At 2.14-17), a rejeição de Israel (At 13.40), a inclusão dos gentios na Igreja (At 15.15-20) – tudo aquilo havia sido determinado por Deus e previsto nas Escrituras pelos profetas. Veja a quantidade de vezes que no livro de Atos se menciona que a história de Cristo e da igreja haviam sido determinadas por Deus e anunciada pelos profetas: Atos 3.18,21-25; 10.43; 13.27,40; 18.28; 26.22.

Nas cartas que escreveram às igrejas, os autores do Novo Testamento jamais, em qualquer lugar, ensinaram os crentes que as coisas acontecem por acaso. Ao contrário, eles ensinaram os crentes que a conversão deles era resultado da vontade de Deus. Eles foram predestinados (Rm 8.29-30; Ef 1.5,11), escolhidos antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Os crentes são ensinados a buscar a vontade de Deus, a se submeter a ela e a entender que a vontade de Deus controla a história (Rm 8.27; 12.2; Ef 6.6; Cl 4.12; 1Ts 4.3; 5.18; Hb 10.36; 1Pd 2.15). Até o sofrimento por causa do Evangelho era visto como sendo pela vontade de Deus (1Pd 3.17; 4.19). Eles foram ensinados a ver uma santa conspiração divina em tudo que acontece em favor do bem deles (Rm 8.28), a ponto de serem exortados a dar graças em tudo (1Ts 5.18). Eles são exortados a dizer sempre “se Deus quiser” farei isto ou aquilo (Tg 4.15). Paulo sempre dizia que “se for a vontade de Deus” ele iria a este ou aquele local (Rm 1.10; 15.32). Ele sempre começa suas cartas dizendo que foi chamado “pela vontade de Deus” para ser apóstolo (1Co 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; 2Tm 1.1).

Os cristãos são encorajados a enfrentar firmes as provações e tentações, pois Deus não permitirá que eles sejam provados além de suas forças (1Co 10.31). Eles devem sofrer com paciência em plena confiança que o Deus que está no controle de todas as coisas lhes dá a vida eterna e que ninguém poderá arrancar seus filhos de suas mãos. Eles são consolados com a certeza de que Deus haverá de cumprir todas as suas promessas, e que há um final feliz para todos os que confiam nele e crêem em Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador. Eles são exortados a permanecer firmes pois o bem haverá de triunfar sobre o mal, a justiça prevalecerá e a verdade haverá de vencer. E isto só é possível porque Deus está no controle, porque Ele conduz a história para o fim que Ele mesmo determinou, de uma maneira sábia e misteriosa, na qual os seres humanos e os anjos são responsáveis por seus atos, decidem fazer o que querem e tomam as escolhas que desejam.

À semelhança dos autores do Antigo Testamento, os escritores do Novo também atribuem a Deus o fato de que os ímpios e pecadores impenitentes se afundam cada vez mais no pecado. Paulo por três vezes em Romanos 1 declara que Deus entregou os incrédulos de sua geração à corrupção de seus próprios corações, para que eles se afundassem ainda mais no pecado e na iniqüidade (Rm 1.24,26,28). Aos tessalonicenses, ele declara que Deus manda a operação do erro para que os que rejeitam a verdade e creiam na mentira (2Ts 2.11). Igualmente, à semelhança do Antigo Testamento. O Novo responsabiliza os seres humanos por seus próprios pecados e condenação.

É evidente que não será na Bíblia que encontraremos esta visão de um mundo onde as coisas acontecem por mero acaso, onde tudo é casual e contingencial. Mas, vamos encontrá-la na mentalidade pagã, nas religiões idólatras, de deuses pequenos, impotentes, egoístas. Vamos encontrar esta visão de um mundo onde as coisas ocorrem de maneira aleatória nas idéias dos maniqueístas e gnósticos, ateus e agnósticos, especialmente os evolucionistas, que defendem que tudo surgiu e acontece como resultado de uma combinação fortuita de tempo e de acaso.

Os verdadeiros cristãos, todavia, cantam “acasos para mim não haverá”.

Se tudo acontece por acaso, que combinação inimaginável de ações livres, aleatórias e catástrofes naturais fortuitas poderão unir-se numa conspiração impessoal e totalmente ao acaso para produzir o final que Deus prometeu na Bíblia? Se Deus não é Deus, então o acaso se torna Deus e não temos qualquer garantia de que o final feliz prometido na Bíblia haverá de acontecer.

Não nos enganemos. A discussão entre acaso versus planejamento não é uma disputa teológica entre cristãos arminianos e calvinistas, pois os arminianos e os calvinistas concordam que Deus tem um plano, que ele controla a história, que não existe acaso e que Ele conhece o futuro. Ambos aceitam a Bíblia como Palavra de Deus e querem se guiar por ela. O confronto, na verdade, é entre duas visões de mundo completamente antagônicas, a visão pagã e a visão bíblica, entre as religiões pagãs e a religião bíblica. Posso não entender tudo sobre este assunto, mas prefiro mil vezes ficar ao lado dos autores da Bíblia do que ao lado de filósofos, teólogos e poetas ateus, agnósticos e racionalistas.
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segunda-feira, maio 05, 2008

Augustus Nicodemus Lopes

Filosofia e Cristianismo no Mackenzie

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Nos dias 21 a 23 de outubro o Mackenzie estará promovendo o IV Congresso Internacional de Ética e Cidadania, desta feita versando sobre o tema "Filosofia e Cristianismo". O convidado internacional é Dr. Merold Westhpal, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de Yale (veja www.fordham.edu/philosophy/faculty/westphal.htm). Ele falará sobre os seguintes temas:


  • Os Usos Religiosos do Ateísmo

  • Como é Deus?

  • Fé e Conhecimento

  • Oração e o Eu Pós-Moderno

Haverá uma mesa redonda da qual participarão, além de Dr. Westphal, o Dr. José Carlos Estêvao, mestre e doutor em Filosofia pela USP e Dr. Davi Charles Gomes, doutor em teologia contemporânea pelo Westminster Theological Seminary.


O evento será transmitido ao vivo pela Internet a partir do site do Mackenzie.


As inscrições estarão abertas a partir de Julho. Serão aceitos trabalhos de estudantes e professores para mesas de comunicações.


Uma boa oportunidade para reflexão sobre a interação entre filosofia e fé cristã, à luz de questões atuais e polêmicas, como ateísmo, oração, pós-modernidade e epistemologia.

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quinta-feira, abril 10, 2008

Augustus Nicodemus Lopes

Por Que Falar Disso

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Estou familiarizado com a posição de que fé e ciência são magistérios distintos, dois campos diferentes com linguagem própria e que não devem ser misturados. Essa postura parece bastante atraente, pois propõe uma convivência pacífica da religião e da ciência, marcada pelo respeito, sem que uma interfira na outra.

É interessante que tenho conhecido não somente criacionistas que pensam assim, mas até evolucionistas. Ouvi esse conceito sendo proferido em público recentemente por destacado darwinista.

Aqui no blog temos recebido comentários de nossos amigos leitores questionando por que damos atenção a essa antiga polêmica entre fé e ciência, religião e academia, criacionismo, Design inteligente e evolucionismo. Bem, a resposta é que a ciência, hoje praticamente dominada pelo pensamento darwinista, está longe de se restringir somente a fazer pesquisas, elaborar teorias e experimentos comprobatórios. O cientificismo darwinista é uma visão de mundo totalmente abrangente, que pretende explicar toda a existência humana, sem deixar uma única área sem uma explicação natural, desde a moral, o comportamento social até o próprio fenômeno religioso. Assim, não se trata apenas de uma polêmica entre duas opiniões diferentes quanto a questões relacionadas com a origem do mundo e do homem.

A antiga discussão criacionismo versus evolucionismo é mais profunda do que pode parecer a alguns. Trata-se de um confronto abrangente entre duas visões de mundo que pretendem explicar a totalidade da realidade. A fé cristã, particularmente a evangélica reformada, é uma cosmovisão, uma visão de mundo (Weltanschaaung), que oferece uma compreensão da realidade a partir dos pressupostos bíblicos, como a existência de um Deus criador, que fez sua obra com propósito e inteligência, a qual pode ser estudada e compreendida pelo homem. O cientificismo darwinista, semelhantemente, é uma visão de mundo controlada pelo conceito do surgimento espontâneo da vida, da ancestralidade comum de todos os seres vivos e da seleção natural como mecanismo responsável pela evolução, variedade e complexidade dos seres vivos.

Na minha opinião, é uma ilusão pensar que a melhor coisa para a paz é deixar fé e ciência em domínios distintos, que não se cruzam. Essa paz é ilusória. Quem sai perdendo é a fé, com as incursões constantes do cientificismo darwinista na subjetividade, no metafísico e em outras áreas fora da sua competência. Por exemplo, muitos evolucionistas ateus afirmam que a ciência leva naturalmente ao ateísmo, à conclusão de que Deus não existe. Quer mais invasão de magistérios do que essa?


Por esse motivo, continuaremos a falar do assunto. Quem acha que é perda de tempo realmente ainda não entendeu o que está em jogo.
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quarta-feira, novembro 28, 2007

Augustus Nicodemus Lopes

Pluralidade e Verdade -- Reflexões sobre a Universidade Moderna

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A pluralidade é um dos conceitos ícones da nossa geração e uma das marcas da moderna Universidade.[1] A idéia de diversidade está presente na sua história desde o início, mas ganhou novas conotações depois do Iluminismo.

As universidades surgiram graças a diferentes fatores, como atender à crescente demanda de pessoas em busca de educação, o desejo idealista de obter conhecimento, a resistência ao monopólio do saber pelos mosteiros, a vitalidade das escolas mantidas pelas catedrais e o desejo de reformar o ensino.[2] Todavia, elas tinham um objetivo comum, uma mesma missão, que era a busca do conhecimento unificado que permitisse a compreensão da realidade.

Universitas, na Idade Média, era um termo jurídico que, empregado para as escolas, significava um grupo inteiro de pessoas engajadas em ocupações científicas, isto é, professores e alunos. Só mais tarde o termo viria a significar uma instituição de ensino onde essas atividades ocorriam. Essa designação já aponta para a tarefa que pessoas diferentes tinham em comum: a busca da verdade em meio à pluralidade de compreensões. Esse alvo requeria uma síntese das diferentes visões e compreensões de mundo, um campo integrado que desse sentido aos mais diversos saberes. O princípio subjacente à criação das universidades, portanto, era procurar as verdades universais que pudessem unir as diferentes áreas do conhecimento. Daí o nome “universidade”.

Quando as universidades surgiram, a cosmovisão cristã que dominava a Europa fornecia os pressupostos para essa busca da unidade do conhecimento. Hoje, essa visão de mundo é excluída a priori em muitas universidades pelos pressupostos naturalistas, humanísticos e racionalistas que passaram a dominar o ambiente acadêmico depois do Iluminismo. Tais pressupostos não têm conseguido até o presente suprir uma base comum para as diferentes áreas do saber. A fragmentação do conhecimento tem sido um resultado constante na Academia, como se as diferentes disciplinas tratassem com mundos distintos, diferentes e contraditórios. Lamentavelmente, hoje, muitas universidades viraram multiversidades ou diversidades, abandonando a busca de um todo coerente, de uma cosmovisão que dê sentido e relacionamento harmônico a todos os campos de conhecimento.

Conforme Allan Harman escreve:
As universidades em geral não mais possuem um fator integrador. A palavra universidade” tem a idéia de unidade de conhecimento ou de abordagem. Derivada Do latim “universum” refere-se à totalidade ou integração. Claramente o conceito era de que, dentro de uma universidade, havia aderência a uma base comum de conhecimento que interligava o ensino em todas as escolas.[3]

Edgar Morin, intelectual francês contemporâneo, percebeu corretamente essa fragmentação do conhecimento e da educação nas diversas obras que tem publicado. Para ele,

... o sistema educativo fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade... As disciplinas como estão estruturadas só servem para isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo. Eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem. Caso contrário, será sempre ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro.[4]

É evidente que existe uma grande pluralidade ou diversidade no mundo. A criação de Deus é plural, a humanidade feita à imagem dele é plural, as culturas são plurais, as idéias são plurais. Há uma enorme e fascinante diversidade na realidade que nos cerca. Para nós, essa impressionante variedade da existência deveria ser vista como uma expressão da riqueza, do poder e da criatividade de Deus, em nada comprometendo nossa busca na academia por verdades absolutas e universais.

As dificuldades surgem quando se confunde pluralidade com relativismo radical e absoluto. Esse último nega os conceitos de unidade, igualdade, harmonia e coerência que existem no mundo, entre idéias, pessoas e culturas. O relativismo total pretende desconstruir o princípio implícito de verdade absoluta, de valores, conceitos e idéias que sejam válidos em qualquer lugar e a qualquer tempo. Nesse sentido, a pluralidade se confunde com o relativismo que domina a mentalidade contemporânea, sendo entendida como a convivência de idéias e concepções contraditórias que devem ser igualmente aceitas, sem o crivo do exame da veracidade e sem que uma prevaleça sobre a outra, visto serem consideradas todas verdadeiras.

A pluralidade, entendida como diversidade, é muito bem-vinda. A enorme variedade que caracteriza nosso mundo não anula de forma alguma a existência de verdades gerais e universais. Quando a pluralidade é entendida como relativismo absoluto, surgem diversos problemas de natureza prática, como, por exemplo, a dificuldade de se viver o dia a dia de forma coerente com a crença de que tudo é relativo. Mesmo os relativistas mais radicais são obrigados a capitular diante da inexorável realidade: a vida só pode ser organizada e levada à frente com base em princípios, valores e leis universais que sejam observados e reconhecidos por todos.

Concordamos com Edgar Morin quanto à sua percepção da complexidade da vida e da existência.[5] Não negamos a grande contribuição que ele e outros autores trouxeram à compreensão da complexidade. Todavia, entendemos que o reconhecimento de que todas as áreas de atividades e conhecimento são complexamente interligadas reflete um propósito unificado e uma origem única, apontando para o Criador. É evidente que essa interligação das partes com o todo, e vice-versa reforça a possibilidade de se buscar princípios e valores universais que permeiam e regulam o universo de conexões e aderências.

Apesar de muitos preferirem ser “uma metamorfose ambulante”, como o Raul Seixas, dificilmente o ser humano consegue conviver em paz com o relativismo absoluto. Existe uma busca interior em cada indivíduo por coerência, síntese e unidade de pensamento, sem o que não se pode encontrar sentido na realidade, um lugar no mundo e nem mesmo saber por onde caminhar. Acreditamos que este ímpeto é decorrente da imagem de Deus no homem, um Deus de ordem, de propósitos, coerente e completo.

Para muitos, o ideal do pluralismo de idéias no ensino significa simplesmente que a Universidade deveria ser o local neutro onde todas as idéias e seus contraditórios tivessem igualdade de expressão, cabendo aos alunos uma escolha, ou não, daquelas que lhe parecerem mais corretas. Todavia, conforme bem escreveu Robert P. Wolff, a neutralidade da Universidade diante dos valores é um mito.[6] É inevitável o posicionamento ideológico diante das questões da vida e do conhecimento. Esse ponto é inclusive reconhecido, ainda que timidamente, pela Lei de Diretrizes e Bases, quando define as universidades confessionais como aquelas que “atendem a orientação confessional e ideologia específicas.”[7]

Algumas universidades de orientação confessional cristã têm procurado desenvolver um modelo acadêmico em que a busca da verdade seja feita a partir da visão de mundo cristã em constante diálogo com a pluralidade de idéias e com a diversidade de visões e entendimentos. Não é tarefa fácil diante do mundo pluralista em que vivemos, a ponto de que alguns têm defendido que as próprias universidades confessionais desistam desse ideal.

Diante do quadro de fragmentação do saber e do relativismo que domina, em várias instâncias, a mentalidade universitária, afirmamos a existência, a realidade e a importância da verdade, de conceitos que são universalmente válidos em todas as áreas do conhecimento e da vida. Aqui, afirmamos as seguintes “verdades sobre a verdade":[8]
  1. A verdade é descoberta e não inventada. Ela existe independentemente do conhecimento que uma pessoa tenha dela.
  2. A verdade é transcultural. Se algo é verdadeiro, será verdadeiro para todas as pessoas, em todos os lugares.
  3. A verdade é imutável, embora a nossa crença sobre ela possa mudar. Ela permanece a mesma, o que é relativo é nossa percepção dela.
  4. As crenças das pessoas não podem mudar a verdade, por mais honestas e sérias que sejam.
  5. A verdade não é afetada pela atitude de quem a professa ou de quem a nega.

Reconhecemos a existência da diversidade, variedade, multiplicidade de idéias, conceitos, costumes, e que elas resultam dos diferentes ambientes vivenciais, experiências e culturas dos indivíduos. Todavia, questionamos a idéia de que pluralidade implica na total relativização da verdade, na dissolução do conceito de que existem idéias e valores absolutos, princípios e verdades espirituais, éticas, morais, epistemológicas universais.

Creio que o Cristianismo bíblico fornece o fundamento para a compreensão da realidade como um todo coerente, sempre levando em conta a fabulosa variedade da existência humana. A pluralidade, entendida como saudável diversidade, dentro de referenciais e sem a negação da verdade, enriquece o conhecimento humano e leva à melhor percepção de nós mesmos, de nosso mundo e de nosso Criador.

NOTAS

[1] O pluralismo de idéias é um dos princípios de ministração do ensino na Universidade, de acordo com o Art. 206, inciso III da Constituição Federal.
[2] Stephen C. Ferruolo, The Origins of the University: the Schools of Paris and Their Critics, 1100-1215 (Stanford University Press, 1985), pp.7-8.
[3] Allan Harman, “Vision and Reality: The Challenges Facing Christian Higher Education Today,” palestra inaugural na Universidade Presbiteriana da Coréia em 1998, pp. 24-25.
[4] Entrevista dada em dezembro de 2003, acessada em novembro de 2007 em http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/168_dez03/html/falamestre.
[5] A complexidade em Morin significa que nada existe isoladamente, mas que tudo está conectado, e que as coisas existem em relação a outras. Envolve o paradoxo do uno e da multiplicidade ao mesmo tempo. Cf. Introducción Al Pensamiento Complejo (Barcelona: Gedisa, 1994), p. 23.
[6] Robert Paulo Wolff, O Ideal de Universidade (São Paulo: UNESP, 1993), pp. 101-108.
[7] Lei de Diretrizes e Bases, Art. 20, inciso III.
[8] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu (Vida Acadêmica: São Paulo, 2004) p.38.
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sábado, outubro 13, 2007

Solano Portela

Edir Macêdo: aborto, homossexualismo e a cosmovisão da IURD

Agora está claro! Aquilo que era apenas uma inferência e suspeita ficou confirmado com o lançamento da biografia do Edir Macedo (um recorde no mercado editorial brasileiro: 700 mil cópias, na primeira edição) e com a entrevista que ele deu à Folha de São Paulo, em 13 de outubro de 2007. Na entrevista Macedo confirma sua defesa do aborto e apresenta sua visão sobre a questão da homossexualidade. Este exemplar da Folha dedica três páginas do primeiro caderno (A11 a A13) às notícias sobre a igreja de Edir Macedo, e de como ela está envolvida em uma campanha para mudar a sua imagem. Podemos deduzir, também pela entrevista, alguns pontos chaves que compõem a cosmovisão e teologia da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), contidas nessas palavras de seu pontífice máximo.

Cito três perguntas e respostas extraídas da entrevista:



FOLHA: Em sua biografia, o Sr. defende o aborto. Atualmente, a Record e a Record News exibem campanha pelo aborto, por que?
Macedo: Sou favorável à descriminalização do aborto por muitas razões. Porém aí vão algumas das mais importantes:
1. Muitas mulheres têm perdido a vida em fundo de quintal. Se o aborto fosse legalizado, elas não correriam risco de morte.
2. O que é menos doloroso? Aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades, sem infância, sem saúde, sem escola, sem alimentação e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor? E o que dizer das comissionadas pelos traficantes de drogas?
3. A quem interessa uma multidão de crianças sem pais, sem amor e sem ninguém?
4. O que, os que são contra o aborto, têm feito pelas crianças abandonadas?
5. Por que a resistência ao planejamento familiar?
Acredito, sim, que o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, haja vista não haver uma política séria voltada para a criançada.




FOLHA: “Deus deu a vida e só Ele pode tirá-la”, segundo a Bíblia (sic). Não é contraditório um líder cristão defender o aborto?
Macedo: A criança não vem pela vontade de Deus. A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus! Ela simplesmente é gerada pela relação sexual e nada mais além disso. Deus deu a vida ao primeiro homem e à primeira mulher. Os demais foram gerados por estes. O que a Bíblia ensina é que se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz (Eclesiastes 6.3). Não acredito que algo informe, seja uma vida.



FOLHA: Qual seria sua reação se descobrisse que tem um filho homossexual?
Macedo: Decepcionado. Mas não o rejeitaria de forma alguma. Tentaria ajudá-lo da melhor forma possível. Porque, se Deus respeita a livre opção de vida da criatura humana, por que não o faria eu?



Este post não tem o objetivo de ser uma exposição completa da posição cristã sobre (e contra) o aborto, mas comento, com base nas declarações de Macedo, esses três temas – aborto, homossexualismo e a cosmovisão da IURD:

1. Aborto: Não há base bíblica para as convicções éticas. Elas são formadas a partir de slogans e bandeiras sociológicas do liberalismo. Macedo cita a Bíblia apenas uma vez, fora de contexto, para provar um ponto que o texto não procura substanciar. A lógica de Macedo é falsa e traça conexões e ilações que não se sustentam:
a. Macedo afirma que mulheres morrem ao tentar o aborto (essa premissa, é constantemente repetida, mesmo sem comprovação), portanto é legítimo assassinar crianças com tecnologia (conclusão moralmente errada), para que as mães não morram.

b. Ele apresenta as crianças abandonadas como sendo fruto da ausência de aborto, em vez de uma conseqüência da irresponsabilidade dos pais (a sociedade que quer se preservar agirá nesse último ponto, educando todos os cidadãos a serem bons pais; criando oportunidades de sustento e emprego; etc.).

c. Macedo infere que o repúdio ao abandono das crianças, leva necessariamente à aceitação do aborto (conclusão falsa, de que o aborto é a única opção a este mal social, e de que ele é moralmente neutro, e não condenável).

d. Ele acusa que quem é contra o aborto não faz nada pelas crianças abandonadas (afirmação totalmente falsa: historicamente, os grandes orfanatos; os projetos de adoção; a assistência às mães jovens e solteiras foram implantados por segmentos da sociedade que são contra o aborto e não pelos que são a favor). Para Macedo, eliminar as crianças abandonadas, matando-as antes que nasçam seria a solução. Entretanto, essa é a forma mais cruel e imoral de resolver essa situação de abandono.

e. Macedo diz que aborto é igual a planejamento familiar (essa é uma forma asséptica e indolor, de se referir ao aborto, favorita dos seus proponentes, porque anestesia a consciência e torna a questão acadêmica e palatável, em vez de ética. Os dois termos não são equivalentes).


2. Homossexualismo: Edir Macedo, procurando dar a resposta que agrada à mídia, demonstra, na realidade, a própria rejeição que é enraizada em preconceito, porque não tem nem oferece base metafísica maior (bíblica) para sua posição. Quer ser politicamente correto e diz que aceita o homossexualismo, no entanto, ficaria “decepcionado”, se fosse um filho seu; e procuraria “ajudá-lo” (ajudar em que sentido? A ser aceito pelos demais? A se recuperar? Por que, se ele seria “aceitável”?). O cristão que firma suas convicções a partir das Escrituras, da Palavra de Deus, rejeita a prática porque a identifica como pecado, como disfunção de comportamento – e é claro nisso. Não a chama de “livre opção de vida” aceita por Deus, como faz Macedo; mas reconhece como uma “opção de vida” condenada por Deus – como várias outras o são.


3. Cosmovisão da IURD:
a. Visão deista/semi-intervencionista – Ao dizer que as crianças “não vêm pela vontade de Deus” e que “a criança gerada de um estupro” estaria fora do controle de Deus (“Não do meu Deus”, diz ele); e ao segregar a ação de Deus na doação da vida apenas “ao primeiro homem e à primeira mulher” sendo as demais crianças meramente “geradas por estes”; Macedo está na realidade adotando uma cosmovisão deista, ou seja: Deus iniciou a criação e deixou as situações e fenômenos naturais se desenrolando. Isso coloca Deus distante e não envolvido (supostamente resolvendo o dilema da responsabilidade) com as questões humanas. Mas como explicar a ênfase nos milagres e nas intervenções divinas, da IURD? É que esse “deismo seletivo”, não construído a partir dos dados da Bíblia, é limitado às situações convenientes. Ocasionalmente, Deus intervém, aqui e ali, consertando as coisas que o homem faz de errado, curando, restaurando relacionamentos. Para motivar Deus a fazer isso, é necessário, entretanto, intenso clamor e bastante fé, senão as coisas continuam como estão.

b. Dualismo espiritual: Macedo diz, na mesma entrevista: “não tenho ódio de ninguém, senão do Diabo e de seus espíritos”. Entretanto, o reconhecimento de um Reino das Trevas, pela IURD, não se prende ao que as Escrituras revelam sobre o assunto. Há a absorção da visão popular de duas esferas que se degladiam, uma vez vencendo uma, outra vez a outra. Para se contrapor às hostes do mal, a IURD utiliza-se do procedimento de exorcismo e de outras atividades que emulam as encontradas exatamente pelos que são classificados como dominados pelos demônios.

c. Práticas religiosas místicas: Na IURD, outros meios de conhecimento religioso são tão importantes quanto as Escrituras, daí as práticas estranhas à Palavra de Deus se misturarem com tanta intensidade na forma cúltica dos seus templos (peças de roupa, lugares santos, essencialidade da cura física, prosperidade como sinal inequívoco de aceitação divina, etc.). O resultado não é a religião verdadeira, mas um misticismo pagão com roupagem cristã.

d. Pragmatismo: Como demonstrado nas palavras do Macedo, na entrevista, as convicções éticas, na IURD, são essencialmente pragmáticas. Avança-se aquilo que é considerado a tarefa messiânica do segmento com quaisquer parâmetros, afirmações, conexões ou práticas, desde que funcionem. Princípios não regem a prática, mas os objetivos, sim. Não há âncora metafísica maior (revelação) para estabelecimento da verdade. Daí a conformação com o que é politicamente correto, com o que agrada às massas.


Estamos testemunhando, portanto, não uma convergência da IURD com o evangelicalismo, mas um afastamento gradativo ainda maior, exatamente porque o que está ditando a agenda daquela Igreja, não é o estudo e exposição da Bíblia (que seria o possível ponto de convergência), mas a sede e busca do poder; o envolvimento fisiológico (e não transformador) com a política e políticos; e uma ação de relações públicas, que a leva a abraçar, sem qualquer pejo, posições claramente contraditadas pela Palavra de Deus.
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domingo, setembro 16, 2007

Solano Portela

Como Conviver com Diferenças Profundas? Guinness no Mackenzie

Neste mês de setembro de 2007 o sociólogo, erudito palestrante internacional e pensador Os Guinness, esteve proferindo conferências na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em Brasília e em São Paulo. Em uma das palestras ele apresentou a necessidade de ordem e paz no mundo como sendo um dos problemas cruciais da atualidade. Nesse sentido, chamou a atenção para o fato de que a quebra dessa ordem e paz nos legou, só no último século, cerca de 300 milhões de pessoas mortas: 1/3 em guerras declaradas; 1/3 em repressões políticas e 1/3 em função de violência étnica e religiosa. Assim, essa questão estaria acima até de outros problemas modernos, tais como a disseminação do HIV e a criminalidade desenfreada em nossas metrópoles.

De acordo com Os Guiness a busca de uma sociedade harmônica – ou a resposta à pergunta: “Como conviver com nossas profundas diferenças?” – têm se alinhado em três vertentes ou visões principais:

  • O Universalismo Progressivo

  • O Relativismo Multicultural

  • A Aliança Cívica Plural

O Universalismo Progressivo seria o caminho advogado por aqueles que, partidários de forte ideologia ou crenças, procuram progressivamente universalizar o pensamento comum dos cidadãos. Essa busca pela universalização superaria até considerações éticas; os valores devem ser impostos; os métodos a serem aplicados seriam aqueles que funcionam.

Os Guinness aponta que muitos procuram incluir o cristianismo nesta vertente, mas isso é um erro, pois o cristianismo verdadeiro não se alicerça, se espalha ou se amplia por coação ou força externa, e sim por persuasão interna. A “espada” brandida por Jesus e seus seguidores é poder persuasivo da Palavra (Ef. 6.12 e Ap. 2.16) e não uma luta militar “contra carne e sangue”. O cristianismo de Constantino – que decretou pela espada a conversão de todos os habitantes do império, não é a expressão real dos proclamadores das boas novas, mas uma distorção. Reconhece-se, entretanto, que é verdade que ao longo da história outros movimentos sob bandeiras “cristãs” (como as Cruzadas) têm emulado essa mesma distorção.

Nessa categoria, do universalismo progressivo, na realidade, se incluiriam o comunismo, o islamismo, os movimentos étnicos e tribais geradores de genocídios na África (como o massacre dos Tutsis pelos Hutus, em Ruanda, que resultou na morte de 500 mil pessoas; e o massacre dos Zurgas, em Dafur, no Sudão, que resultou em um milhão de mortos, já neste século 21), e outros semelhantes. Certamente tal universalização por coação não é a resposta. A suposta “harmonia” gerada vem à custa da liberdade de consciência e da liberdade individual. As pessoas são reduzidas a meras peças de um jogo de xadrez no qual se busca a supremacia pela aniquilação do contraditório.


A segunda visão, o Relativismo Multicultural, se apresenta como sendo um caminho muito atraente. Esse ponto de vista está intensamente presente no mundo acadêmico e nas culturas ocidentais e é avidamente defendida pelos antropólogos. Ela parte da observação correta da existência de muitas culturas e especifica uma tolerância abrangente e eclética. Todos devem demonstrar tolerância às expressões da multiculturalidade, ou seja, aos valores e práticas específicas das diversas culturas, em suas áreas de manifestação, presença e influência.

Acontece que esse caminho pode ser até gerador de uma convivência harmônica, mas esta é tão somente aparente, pois traz em si um enorme perigo latente: é calcada em um relativismo ético e ausência de absolutos de tal forma que conclama as sociedades a fecharem os olhos ao mal explícito, rotulando suas ocorrências como legítimas, válidas e inquestionáveis expressões culturais.

O forçado “respeito cultural” e a tolerância multicultural que gera a tão solicitada harmonia, para que possamos conviver com as diferenças, vem ao custo, mais uma vez, da dignidade do ser humano. Ela acolhe situações e ações que, por serem “culturais” devem permanecer ocorrendo, mesmo quando são inequivocamente condenáveis e erradas. Um exemplo disso seria a aceitação acrítica da mutilação genital feminina (a Anistia Internacional apresenta uma lista de 28 países africanos onde ela é normalmente praticada). Sendo que essas “manifestações culturais” não somente não devem ser questionadas, como, por vezes, devem até ser “protegidas”. Ou seja, mesmo as pessoas de “outra cultura” que não possuem tais práticas, em prol da harmonia, devem se empenhar em defender a “liberdade” de quem as praticam. Tal harmonia sacrifica a ética inerente à própria humanidade.


A terceira visão e resposta à questão da convivência social com diferenças profundas é, o que chama Os Guinness de Aliança Cívica Plural. Ele esboça a metáfora de uma praça pública, na qual pessoas de diferentes persuasões, ideologias e opiniões se aproximam para o diálogo e o debate. No entanto, essas interações acontecem debaixo de uma estrutura na qual se reconhecem absolutos mínimos que regem a convivência e que protegem certos direitos básicos e inalienáveis das pessoas. Consequentemente, fica ausente a possibilidade de opressão e coação, enquanto que se garante a mais primária das liberdades: a de consciência, de crença, de exercício da fé.

Guinness pergunta, de que adianta termos liberdade de ajuntamento, se nada pode ser expresso livremente em tal ajuntamento? E ainda, de que adianta ter liberdade de expressão, se ao expressar você for condenado pelo que expressa, sendo subtraída a sua liberdade de consciência? Assim ele substancia que o livre pensar é a primeira das liberdades, apesar de segmentos da civilização terem considerado, erroneamente, as de ajuntamento e expressão como sendo mais importantes.

A nossa luta deve ser, portanto, pelo reconhecimento desses absolutos e pelo estabelecimento dessas regras de convivência, para que subsista harmonia real, ainda que com diferenças profundas de crença e ideologias. Essa Aliança Cívica Plural não significa a adoção de um “mínimo denominador comum” – onde as crenças e valores são reduzidos àquilo que todos acreditam, porque isso não respeitaria a liberdade de consciência e de pensar, nem seria uma visão realista que levasse em conta a profundidade das convicções de cada um. Não está sendo advogada a construção de uma sociedade amorfa, sem convicções. É, simplesmente, um reconhecimento que você tem direito de pensar diferentemente de mim, e eu de achar que você está errado, sem a sanção de coagi-lo a pensar como eu. Ao mesmo tempo; aquilo que é realmente bom (“o bem”) deve ser tanto bom para você como para mim – deve respeitar uma estrutura mínima de valores universais que se constituem a moldura e estrutura necessária à convivência civilizada. Tudo aquilo que ferir a dignidade da pessoa humana, não pode ser aceito nessa “praça pública” de debates. As idéias são apresentadas, debatidas e espera-se persuasão, convencimento, mas nunca coação.

Infelizmente vivemos em um mundo onde muitos estão envolvidos pelo Universalismo Progressivo e outros tantos com o Relativismo Multicultural – ambos ceifando vidas e fechando os olhos ao mal explícito que campeia na humanidade. Mentes lúcidas se dedicarão à construção dessa praça pública de debates. O verdadeiro cristianismo, pelo menos, deveria defendê-la e propagá-la na confiança da Soberania de Deus, que nos ensina a transmitir as boas novas e que nos ilustra, na história, como o evangelização foi abençoada onde floresceu a liberdade estruturada de consciência.

Não temos que concordar com tudo, nem que aceitar que existem apenas três avenidas para responder à pergunta da convivência pacífica e civilizada. Talvez existam quatro, cinco ou seis. Mas o importante é que Os Guinness nos faz pensar e, se somos honestos, temos que admitir que o que temos ouvido constantemente, quer na sociedade, mídia ou academia, nem é verdade inquestionável nem é necessariamente lógico. Existem outras maneiras de análise e outras respostas a serem dadas. De qualquer maneira, essa estrutura apresentada nos auxilia a algumas análises de situações que estão sendo correntemente discutidas. Em um próximo post gostaría de focar a intensa presença do Relativismo Multicultural no Brasil, especialmente à luz do debate corrente relacionado com o infanticídio praticado por várias tribos indígenas do nosso país.

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