segunda-feira, janeiro 15, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (13)


Os Cristãos e a Cultura
O relacionamento dos cristãos com a cultura na qual estão inseridos sempre representou um grande desafio para eles. Opções como amoldar-se, rejeitar a cultura, idolatrá-la ou tentar redimi-la têm encontrado adeptos em todo lugar e época. Em nosso país, com uma cultura tão rica, variada e envolvente, o desafio parece ainda maior nos dias atuais.
Existem muitas definições disponíveis e parecidas de cultura. No geral, define-se como o conjunto de valores, crenças e práticas de uma sociedade em particular, que inclui artes, religião, ética, costumes, maneira de ser, divertir-se, organizar-se, etc.
Os cristãos acrescentam um item a mais a qualquer definição de cultura, que é a sua contaminação. Não existe cultura neutra, isenta, pura e inocente. Ela reflete a situação moral e espiritual das pessoas que a compõem, ou seja, uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe.
Não é de se estranhar, portanto, que aqueles cristãos que levam a Bíblia a sério sempre tiveram uma atitude, no mínimo, cautelosa em relação à cultura, por perceberem nela traços da corrupção humana - ou seja, do mundo.
Ao mesmo tempo em que a Bíblia define o mundo de maneira negativa, ela admite que existem coisas boas na sociedade em decorrência do homem ainda manter a imagem de Deus – em que pese a Queda – e em decorrência de Deus agir na humanidade em geral de maneira graciosa. Deus concede às pessoas, sendo elas cristãs ou não, capacidade, habilidades, perspicácia, criatividade, talentos naturais para as artes em geral, para a música – enfim, aquilo que chamamos de graça comum. É interessante que os primeiros instrumentos musicais mencionados na Bíblia aparecem no contexto da descendência de Caim (Gênesis 4.21) bem como os primeiros ferreiros (4.22) e fazedores de tendas (4.20). Paulo conhecia e citou vários autores da sua época, que certamente não eram cristãos (Epimênides, Tito 1.12; Menander, 1Coríntios 15.32; Aratus, Atos 17.28). Jesus participou de festas de casamento (João 2) e Paulo não desencorajou os crentes de Corinto a participar de refeições com seus amigos pagãos, a não ser em alguns casos de consciência (1Co 10.27-28).
Portanto, a grande questão sempre foi aquela do limite – onde eu risco a linha de separação? Até que ponto os cristãos podem desfrutar deste mundo, até onde podem se amoldar à cultura deste mundo e fazer parte dela?
Dá para ver porque ao longo da história a Igreja cristã foi considerada algumas vezes como obscurantista, reacionária, um gueto contra-cultural. Nem sempre os seus inimigos perceberam que os cristãos, boa parte do tempo, estavam reagindo ao mundo, àquilo que existe de pecaminoso na cultura, e não à cultura em si. Quando missionários cristãos lutam contra a prática indígena de matar crianças, eles não estão querendo acabar com a cultura dos índios, mas redimi-la dos traços que o pecado deixou nela. Eles estão lutando contra o mundo. Quando cristãos criticam Darwin, não estão necessariamente deixando de reconhecer sua contribuição para nosso conhecimento dos processos naturais, mas estão se posicionando contra a filosofia naturalista que controlou seu pensamento. Quando torcem o nariz para Jacques Derrida, não estão negando sua correta percepção das ambiguidades na linguagem, mas sua conclusão de que não existe sentido num texto.
É preciso reconhecer que nem sempre os cristãos conseguiram perceber a distinção entre mundo e cultura. Historicamente, grupos cristãos têm sido contra a ciência, a arte, a música e a literatura em geral, sem fazer qualquer distinção. Todavia, estes grupos fundamentalistas não representam a postura cristã para com a cultura e nem refletem o ensino bíblico quanto ao assunto. Os reformados, em particular, caracteristicamente sempre se mostraram sensíveis às artes e viam nelas uma manifestação da graça comum de Deus à humanidade. Apreciavam a pintura, a música, a poesia e a literatura.

--> O grande desafio que Jesus e os apóstolos deixaram para os cristãos foi exatamente este, de estar no mundo, ser enviado ao mundo, mas não ser dele (João 17.14-18). Implica em não se conformar com o presente século, mas renovar-se diariamente (Rm 12.1-3), de não ir embora amando o presente século, como Demas (2Timóteo 4.10). É ser sal e luz.
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segunda-feira, janeiro 08, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (12)

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (12)
Uma Visão Cristã Crítica da Tecnologia

Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade” (Gênesis 11.1-8).
A tecnologia deixou sua marca na cultura ocidental e se tornou um sistema que circunda o mundo. Basta suprimir a tecnologia e toda a nossa cultura se desmorona. A palavra “tecnologia” vem do grego, e significa em termos bem amplos o estudo ou a aplicação da técnica ou da arte. É usada pra descrever a aplicação do conhecimento técnico e científico e a produção de processos e materiais com este conhecimento. Devemos à tecnologia as máquinas, processos, métodos e materiais que facilitam a nossa vida e nos ajudam na resolução dos problemas que encontramos. Fica claro, portanto, porque somos tão dependentes dela.
O que eu gostaria de lembrar nesta postagem é que a tecnologia é fruto da ciência moderna, que por sua vez procedeu da visão cristã do mundo. Já vimos este ponto em postagens anteriores. A cosmovisão cristã nos fala da criação do mundo e do homem à imagem de Deus e defende que o alvo maior da ciência e consequentemente da tecnologia é ser instrumento para o bem do homem e para a glória de Deus.
Na cosmovisão cristã, a tecnologia é um instrumento pelo qual o ser humano cumpre sua missão dada por Deus de conquistar o mundo, dominá-lo e usá-lo para seu proveito e do próximo. A tecnologia tem trazido muitas bênçãos para a humanidade. Menciono aqui algumas delas, enumeradas por Egbert Schuurman (Religião e Tecnologia, 2006):
  • A expectativa de vida aumentou.
  • A canalização de esgotos e os sistemas de tratamento de água melhoram o ambiente.
  • A mecanização, a automação e a robotização aliviaram os seres humanos do árduo trabalho manual e repetitivo.
  • Tratamentos médicos que curam doenças.
  • A fome de muitos foi abrandada.
  • Os modernos meios de comunicação nos proporcionam amplas informações e a possibilidade da educação à distância de milhares de pessoas ao mesmo tempo.
Todavia, por causa da propensão inata do ser humano ao mal, existem perigos e desafios por detrás do uso da tecnologia. Aquilo que deveria ser um instrumento do bem de todos acaba sendo usado de maneira errada.
No trecho bíblico que lemos no início desse post temos o relato bíblico da construção da torre de Babel. Embora para muitos se trate de uma lenda, os cristãos oriundos da Reforma protestante e que permanecem fiéis aos seus princípios, consideram o relato como histórico. E dele podemos aprender algumas coisas.
Desde cedo na sua história o ser humano aprendeu a usar a tecnologia para conseguir seus desejos e construir seu mundo. Aqui no caso, conforme o relato de Gênesis, aprendeu como construir cidades, edifícios, torres. As descobertas arqueológicas mostram que a tecnologia é quase tão antiga quanto nossa raça.
Também desde cedo o ser humano começou a usar a tecnologia como instrumento para propósitos egoístas. O alvo dos construtores da torre de Babel era simplesmente deixar o seu nome para a posteridade. No entanto, Deus havia mandado que eles se espalhassem por toda a terra, que a colonizassem e civilizassem. Num desafio claro à orientação divina, usaram seus conhecimentos técnicos para erigir um monumento à autonomia humana.
A avaliação de Deus quanto ao que estava acontecendo estava correta: “isto é só o começo – agora não haverá mais limites para o que os homens planejam fazer.” A história mostra quão acertada foi a avaliação divina. Cada vez mais o homem supera limites e estende as fronteiras do conhecimento e da tecnologia e nem sempre para buscar o bem do próximo e garantir um futuro melhor para a humanidade.
Fica claro, portanto, que a tecnologia não é neutra. Aliás, nem poderia ser, pois sua mãe, a ciência, também não é. Por “neutra,” queremos dizer isenta de preconceitos ideológicos. É evidente que nem uma e nem a outra estão livres da infiltração e da influência de ideologias, uma vez que cientistas e técnicos são seres humanos movidos por pressupostos que antecedem suas pesquisas.
Aqui é importante mencionar o trabalho do famoso filósofo francês Jacques Ellul, que dedicou boa parte de seus esforços para mostrar que a tecnologia moderna representa uma ameaça à liberdade humana e se constitui, em si mesma, uma religião. Ele declara no sua obra clássica, The Technological Bluff (1990): “a técnica é neutra; a tecnologia traz ideologias por detrás”.
A tecnologia tem a ver com o controle do mundo, concebido como um enorme mecanismo onde tudo pode ser ponderado e mensurado. Ela representa a possibilidade de dar forma à realidade segundo nossos anseios. Não há limites religiosos ou éticos para a busca desse controle. O limite é aquilo que é possível.
A tecnologia também se propõe a trazer a prosperidade e o bem estar do ser humano, garantindo o seu futuro – e isso mesmo ao preço da natureza e do próprio homem. Em seu livro Religião e Tecnologia (2006), Egbert Schuurman, pensador holandês, lamenta que não é somente o homem que é ameaçado pela tecnologia, mas a natureza também é explorada e a sociedade humana é desintegrada. Segundo ele, fala-se de ameaças nucleares de armas ou outros resíduos radioativos das centrais nucleares, do esgotamento dos recursos naturais, da extinção de muitas espécies vegetais e animais, o desmatamento, assoreamento e desertificação - com a perda de solos e de alimentos ricos - o esgotamento da camada de ozônio, a emissão de gases de escape com consequências de longo alcance para a vida e clima, a destruição rápida e em larga escala e a poluição da natureza, e a ameaça acelerada da superestimação de técnicas de manipulação genética, tendo como desdobramento a possibilidade técnica da clonagem e manipulação genética de seres humanos, etc.
Existe também o risco de que a tecnologia se torne a religião do homem moderno. David Noble fala da tecnologia como uma religião, em que o homo tecnicus se comporta como Deus, criando e resolvendo os problemas e assegurando o futuro (The Religion of Technology, 1997). Isto porque a tecnologia é vista como a solução para todos os problemas e doenças do homem. Sua tendência é colocar a ideia de um Deus que intervém para fora do círculo da realidade. Quem precisa dele, quando a tecnologia resolve nossos problemas e assegura nosso futuro?
Nossa geração tem crescido sob o domínio da tecnologia em todas as áreas da vida. O impacto se faz através da mídia de todos os tipos, do estilo de vida, da sociedade em geral e da cultura. É um paradigma cultural. É um tipo de estrutura dentro da qual muitas pessoas pensam e agem.
Ela tem um significado normativo. As razões, valores e normas da nossa cultura e sociedade são derivados dela. Assim, ela também forma uma estrutura ética. A tecnologia tem marcado cada vez mais o desenvolvimento do Ocidente, deixando sua marca também na atual globalização, e gerando materialismo, egoísmo, desejo de controle e poder, falta de sensibilidade para com as pessoas e a natureza.
Como resultado da absolutização do pensamento tecnológico, grande parte da realidade foi perdida. O que não se enquadra no modelo tecnológico é desconsiderado ou esquecido. A geração atual cresce, então, sob o relativismo absoluto e acaba elegendo a tecnologia como referencial utilitarista. O materialismo e pragmatismo dos nossos dias acabam entrando na mistura, deixando-nos com uma cultura dominada por uma visão técnico-utilitarista de mundo.
Entendo que a tarefa dos educadores e desenvolvedores da tecnologia, especialmente aqueles que professam a fé cristã, não é deixar nossa geração à mercê dessas influências tecnológicas, sociais e éticas. A tendência para o mal inerente na humanidade certamente penderá a balança para o lado errado.
A visão cristã de mundo serve de fundamento para uma educação sólida, relevante, atenta para as questões atuais e para a tomada de decisões equilibradas e sensatas. O cristianismo vê o ser humano como tendo sido criado por Deus, à sua imagem, e colocado no mundo de Deus, para viver para sua glória e para fazer o bem ao seu próximo. Vê também que a humanidade sempre tem escolhido caminhos que a afastam de Deus e que nos afastam uns dos outros, por causa de nossa sede de poder. Vê também que os recursos que Deus nos deu são poderosos para fazer o bem, se cuidarmos de usá-los corretamente.
Uma visão cristã da tecnologia prioriza as necessidades básicas da humanidade, como vencer a fome e as doenças, promover o conhecimento e a educação. Da mesma forma, assume responsabilidade ecológica, que leve à busca de tecnologias que não destruam o meio ambiente. Também, coloca o foco na busca de soluções para os problemas fundamentais do homem, como fome, doença, trabalho árduo, sofrimento, ignorância e falta de educação, sem se deixar dominar pelas demandas do mercado e pelo domínio econômico. O foco são as pessoas e não o lucro.
Na visão cristã de mundo, a tecnologia deveria ser uma serva da humanidade e não sua dominadora. Não ser uma religião, mas um instrumento. Desta forma, deveria contribuir para que as pessoas conheçam melhor a si mesmas e assim, a Deus.

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O grande desafio das escolas, colégios e universidades confessionalmente cristãs é preparar profissionais que, além de competentes em suas respectivas áreas de conhecimento, sejam igualmente guiados pelos referenciais morais e éticos da visão cristã de mundo.
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terça-feira, janeiro 02, 2018

Augustus Nicodemus Lopes
CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (11)

Para Quê Entender o Mundo?

De acordo com as Escrituras, Salomão, rei de Israel, foi um dos maiores pesquisadores da Antiguidade oriental. Conforme o registro, ele “discorreu sobre todas as plantas, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que brota do muro; também falou dos animais e das aves, dos répteis e dos peixes”. Seu conhecimento se tornou famoso, a ponto de vir gente de todos os povos beber de sua vasta erudição (1 Reis 4. 29-34).
Entretanto, durante a maior parte de sua vida, este notável pesquisador esteve frustrado quanto ao que havia aprendido. Ele manifestou esta frustração em diversas falas dirigidas ao seu povo, e que foram registradas em um livro, chamado Eclesiastes, ou O Pregador, que posteriormente foi incluído no cânon bíblico.
Algumas das suas frustrações estão reveladas no parágrafo abaixo:
“Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém. Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; este enfadonho trabalho impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir. Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento. Aquilo que é torto não se pode endireitar; e o que falta não se pode calcular. Disse comigo: eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém; com efeito, o meu coração tem tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento. Apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a saber o que é loucura e o que é estultícia; e vim a saber que também isto é correr atrás do vento. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta ciência aumenta tristeza” (Eclesiastes 1.12-18).
O pesquisador Salomão considerou a busca do conhecimento como algo enfadonho, uma espécie de trabalho imposto por Deus ao homem. O enfado provavelmente era decorrente do fato que o conhecimento não era capaz de endireitar o que era torto. A impotência do conhecimento diante da realidade da vida deve ter levado o pesquisador ao desânimo, quando escreveu estas palavras: “quem aumenta ciência aumenta tristeza”. Quanto mais ele veio a conhecer, a acumular sabedoria e ciência, mais descobriu sua impotência em mudar a realidade humana. Daí sua tristeza.
Além disto, Salomão percebeu que todo seu conhecimento não fazia a menor diferença em termos práticos: o que acontecia com o sábio pesquisador, acontecia com o ignorante e tolo. Qual a vantagem, pois, de ser sábio, pergunta ele:
“Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o estulto anda em trevas; contudo, entendi que o mesmo lhes sucede a ambos. Pelo que disse eu comigo: como acontece ao estulto, assim me sucede a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então, disse a mim mesmo que também isso era vaidade. Pois, tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento” (Eclesiastes 2.14-17).
À medida que se enfiava ainda mais em suas pesquisas, Salomão refletia sobre o motivo pelo qual as pessoas buscam o conhecimento e a sabedoria. E chegou a uma conclusão desalentadora:
“Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento” (Eclesiastes 4.4).
Num certo sentido, Salomão estava antevendo o que hoje chamamos “as vaidades da academia”. No fundo, é a mesma coisa: na academia há pessoas que procuram avançar e distinguir-se em suas carreiras, ajuntando mais e mais títulos e construindo currículos quilométricos, por causa da competição, da inveja em relação aos outros. É claro que esta seria uma generalização injusta. Mas, sem dúvida, ela toca em um nervo exposto, que fica no mais íntimo do coração, no âmbito das motivações. A falta do verdadeiro espírito do pesquisador entristeceu Salomão, ao perceber que muito se faz por causa da inveja.
Mas o desânimo do nosso pesquisador judeu não terminou ai. A conclusão a que chegou foi esta:
“Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” (Eclesiastes 12.12).
O que teria levado um pesquisador tão brilhante a considerar o resultado de seu trabalho enfadonho, tristeza e vaidade? É que ele percebeu que a busca do conhecimento e da ciência per si não é capaz de satisfazer os anseios mais profundos da alma humana. Quando, porém, percebeu que o conhecimento deve ser buscado dentro de um contexto maior, em que Deus é o referencial, conseguiu perceber sentido na vida e achar o seu fator unificador:
“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer. De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Eclesiastes 12.1 e 13-14).
Salomão concluiu que a suma de todo o conhecimento é o temor a Deus, que se expressa em obediência voluntária à sua vontade. É preciso explicar que este temor não é a mesma coisa que medo, mas um respeito profundo que parte de um coração agradecido e confiante.
A tabela abaixo, tirada da Bíblia de Genebra (p. 777) resume de maneira clara e inteligente o ensino do sábio Salomão sobre este ponto:
O Caminho da Verdadeira Ciência (sabedoria) (Eclesiastes 12.14)
Suma: sem temor (respeito) a Deus, tudo é vaidade.
Aprendizado sem Deus
Cinismo (1.7-8)
Grandeza sem Deus
Tristeza (1.16-18)
Prazer sem Deus
Desapontamento (2.1-2)
Trabalho sem Deus
Ódio pela vida (2.17)
Filosofia sem Deus
Vazio (3.1-9)
Eternidade sem Deus
Falta de realização (3.11)
Vida sem Deus
Depressão (4.2-3)
Religião sem Deus
Medo (5.4-7)
Riqueza sem Deus
Tribulações (5.12)
Existência sem Deus
Frustração (6.12)
Sabedoria sem Deus
Desespero (11.1-8)
TEMOR A DEUS                                                        REALIZAÇÃO (12.13-14)
A experiência do sábio Salomão não pode ser tomada como paradigmática para todos aqueles envolvidos em pesquisa e que se empenham na busca do conhecimento acerca da natureza, das origens e da vida. Há muitos que não acreditam em Deus e que contestariam cada um dos itens mencionados acima. Para eles, a ciência traz todas as respostas e satisfaz as questões mais profundas que perturbam, ainda hoje, a mente humana. Todavia, a persistência destes questionamentos mesmo em face aos avanços da ciência levantam a pergunta que não quer calar, “por que a ciência não consegue enterrar Deus”?[1] Faríamos bem em lembrar o que Salomão e muitos outros cientistas teístas nos dizem, que o ponto de partida da sabedoria é o temor a Deus.






[1] Aliás, título da obra do matemático de Oxford John Lennox, Por Que a Ciência Não Consegue Enterrar a Deus (São Paulo: Editora Mackenzie e Editora Mundo Cristão, 2011).
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