quinta-feira, março 26, 2015

Carta a um jovem cristão que frequenta barzinho

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DATA: quinta, 26/03/2015
DE: Augustus Nicodemus
PARA: castilho@barzinho.com.ws
ASSUNTO: Re: Por que não posso continuar a frequentar casas de show?
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Caro Castilho,

Gostei da nossa conversa ontem, mas vejo que você continua com algumas dúvidas. Obrigado por mandar este e-mail para esclarecer o que talvez não tenha ficado claro.

Eu não sou contra ouvir boa música. E boa música nem sempre é feita por cristãos. Mas, com isto, eu não quis dizer que frequentar casas de shows, pubs e barzinhos para ouvir estas músicas, bebendo uma cervejinha, é a coisa certa a fazer. Você me perguntou no e-mail o que há de errado em fazer isto. Assim, de pronto, posso pensar em algumas razões.

Eu frequentei casas de show, pubs e barzinhos a maior parte da minha mocidade, antes de conhecer a Cristo. Eu sei muito bem o que rola numa boite e nestes lugares. O ambiente é voltado para sexo, bebida, drogas e algumas vezes a coisa acaba em discussão e brigas. É claro que isto nem sempre rola, mas o potencial está ali. O que se exalta ali é o ego humano, o prazer irrestrito e uma suposta liberdade sem limite. Paulo escreveu que devemos evitar “toda forma do mal” – inclusive aquilo que pode nos levar a ele ou que tem aparência do mal (1Tess 5:22).

Outra razão. Deus nos ensina na Bíblia que somos servos dos nossos irmãos em Cristo. Eu jamais deveria usar minha liberdade de forma a induzir, ocasionar, incentivar e levar um irmão em Cristo a cometer pecado. Paulo falou que se a comida ou a bebida levasse um irmão a tropeçar ele jamais comeria carne ou beberia vinho outra vez (Romanos 14:21; 1Coríntios 8:13).

Você pode se sentir tranquilo e seguro bebendo cerveja num pub. Mas imagine que um irmãozinho novo na fé lhe vê ali fazendo isto. Ele vai ser induzido a pensar que está de boa se fizer a mesma coisa. E vai imitar você, com o risco de embebedar-se, e fazer o que não deve, para não mencionar a culpa que vai sentir no "day after". É Paulo quem cita este exemplo, leia 1Coríntios 8:9-12. E ele diz que ao fazer isto, você está pecando contra Cristo. Por amor aos irmãos em Cristo, deveríamos nos abster destas coisas.

Mais uma razão que me ocorre. Sua atitude de querer curtir tudo o que o mundo oferece e ainda se considerar como cristão é idêntica à atitude de uma das primeiras e mais perigosas seitas que já apareceram na história do Cristianismo, que foi a seita dos libertinos. Eles se consideravam cristãos e diziam que tinham recebido um conhecimento especial da parte de Deus, de que poderiam desfrutar de tudo, que nada é pecado para quem crê e que Deus nos aceita livremente como somos. Assim, eles ensinavam que os cristãos eram livres para frequentar os templos pagãos, comer das carnes oferecidas aos ídolos ali e praticar a prostituição “sagrada” oferecida nestes templos. Os escritores das Bíblia enfrentaram estes cristãos libertinos firmemente. Judas, o irmão de Jesus, os considera ímpios e que eles negavam a Jesus (Judas 4). O próprio Jesus condenou severamente as igrejas de Pérgamo e Tiatira por abrigarem libertinos no seu rol de membros. Inclusive, havia uma profetisa chamada Jezabel que ensinava claramente que os cristãos podiam participar dos festivais pagãos nos templos de ídolos e se prostituir ali (Apocalipse 2:14-15 e 20). O que eu quero dizer é que sua atitude lhe empurra mais para perto dos libertinos do que dos cristãos.

Uma última coisa, e para mim, a mais importante. Acho que você está fazendo as perguntas erradas. Por que em vez de perguntar o quão longe você pode ficar do pecado e de tudo que leva a ele, você fica perguntando o quanto você pode ficar perto do pecado e de situações que podem levar a ele? Se você é nascido de novo, tem o Espírito Santo, é nova criatura, está arrependido de seus pecados e ama a Deus de todo coração – não deveria estar perguntando o que pode fazer para ficar mais perto dele e longe de tudo que pode entristecê-lo?

Castilho, estas coisas nunca vêm sozinhas. Por vezes a frequência à casas de show, bebidas e curtição de shows acaba em sexo entre jovens cristãos que não são casados. Sobre isto falaremos outra vez. Mas lembre do que diz a Palavra de Deus: “um abismo chama outro abismo” (Salmo 42:7).

Fico por aqui. Longe de mim querer privá-lo de sua liberdade em Cristo. Meu único interesse é que você a use da forma correta. Existem dezenas de maneiras sadias de fazer novos amigos, curtir os atuais e se divertir. Por que seguir o caminho do que é duvidoso, polêmico e potencialmente perigoso para sua vida espiritual?

Um abraço amigo,
Pr. Augustus

[Este e-mail é fictício. "Castilho" é uma personagem fictícia, embora as circunstâncias mencionadas neste e-mail não sejam]

quarta-feira, março 18, 2015

A APOSTASIA CRESCENTE DA PCUSA

A Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) redefiniu nesta terça 17/03/2015 o seu entendimento sobre o que é casamento. Por maioria dos seus presbitérios, alterou a sua constituição, que agora diz que o casamento é “tradicionalmente” entre um homem e uma mulher.

O que houve, na verdade, foi a adequação da constituição da PCUSA à prática já em vigor. Os pastores desta denominação (que para nós é apóstata) já estavam autorizados a realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo faz já algum tempo.

Como é sabido de todos, a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) não tem nenhum relacionamento com esta “igreja” americana, da qual se desligou faz décadas por causa das posturas liberais da mesma, muito antes dela aprovar o casamento gay. A PCUSA é uma denominação liberal que já abandonou faz tempo os principais pontos da Reforma, como a autoridade e infalibilidade das Escrituras.

Muitos não sabem que o termo “presbiteriana” define apenas um sistema de governo, não uma teologia. A rigor, uma igreja presbiteriana é aquela que é governada por presbíteros. Assim, há igrejas que se dizem presbiterianas mas que são renovadas ou de linha pentecostal. No caso da PCUSA, é uma igreja governada por presbíteros e que adota uma teologia liberal.

A IPB é conservadora na sua doutrina e mantém o conceito da inerrância das Escrituras. Como tal, não reconhece o “casamento” gay e certamente repudia tal decisão da PCUSA de redefinir o casamento desta forma.

Já escrevi antes sobre casamento gay na PCUSA. Os artigos sobre o assunto estão no blog Tempora-Mores:

http://tempora-mores.blogspot.com.br/2014/06/agora-gays-podem-casar-na-igreja.html
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2011/02/pcusa-prestes-se-dividir.html
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2012/01/decepcionados-com-ordenacao-de.html
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/07/denominao-americana-finalmente-aprova.html
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2011/05/por-que-igrejas-presbiterianas-pelo.html

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Encontro Consciência Cristã - Campina Grande


Vídeo de apoio ao grande encontro de evangélicos em Campina Grande, chamado Consciência Cristã. Nos dias em que o país para e se dedica ao Carnaval, existem muitos que procuram aprender mais da Palavra de Deus, em retiros e acampamentos, ou em encontros, como este, que congrega dezenas de milhares de pessoas, no nordeste do país. Clique aqui, para assistir ao vídeo!


terça-feira, janeiro 20, 2015

Tarifaço: Alimentando novamente o Estado Voraz!

Contribuintes irados, cidadãos espoliados e até petistas abismados observam com uma sensação de impotência as últimas medidas governamentais para aumentar a arrecadação governamental – O Tarifaço, que só começou, neste janeiro de 2015. O objetivo é arrecadar mais de 20 bilhões de Reais por ano. Com umas poucas canetadas, todos nós vamos pagar mais impostos: o preço da gasolina cai no resto do mundo, mas nós vamos ter aumento dela, além da sobretaxa de R$0,22 por litro (aumento de PIS, COFINS e CIDE); o IOF dos empréstimos passa, para as pessoas físicas, de 1,5 para 3,0% - ou seja, quem precisa mais vai pagar mais; o PIS/COFINS dos importados passa de 9,25 para 11,75% - a “globalização” fica mais cara! Como se não bastasse, a presidente VETOU a correção da tabela do Imposto de Renda e TODOS vão ter que pagar mais – um artifício imoral de confisco suplementar.

Somos defensores do equilíbrio fiscal – o governo tem que gastar o que arrecada. Mas na estrutura econômica mais elementar – que é a nossa vida pessoal, ou o nosso lar, se a conta não fecha, cortamos gastos. Ninguém consegue chegar para o nosso contribuinte pessoal, “o patrão”, e dizer: amanhã tenho que ganhar mais, pois não está dando – usualmente você recebe por seus méritos e progride na estrutura da empresa, mas não chega com uma arma e faz com que os que detêm a grana lhe paguem mais. Nem mesmo o comerciante consegue aumentar os preços quando deseja – o mercado o regula, também. Apenas uma categoria aumenta os seus rendimentos espoliando, extorquindo, extraindo à força: os ladrões e gatunos. Pois bem, o governo faz exatamente isso: quando você menos espera, lá vai outro pedaço de sua renda, e não tem contestação ou “diálogo”. Cortar gastos? Não! Aumentemos a receita!

E não pensem que vai terminar aqui. Estamos vendo apenas a primeira parte desse longo filme, que, na melhor das hipóteses vai durar quatro anos. Já se fala seriamente na renovação da Contribuição Provisória Sobre Movimentação Financeira, a impopular CPMF. Essa situação é surrealista: uma taxação provisória já irá para sua quinta renovação. Possivelmente terá aumento das alíquotas originais e mudança da finalidade inicial (que era a de ser toda canalizada à área da saúde, que, na época, estava tão falida como continua, agora). Essas situações parecem que só acontecem no nosso passivo Brasil. Sim, nessa nossa terra constatamos que todo e qualquer imposto, taxa ou forma de extorsão que possa ser pensada para alimentar o estado voraz e insaciável, passa com toda tranquilidade pelos legisladores. Ou então, ela é arbitrariamente decretada para perpetuidade pelo Executivo, com medidas legislativas que contrariam a própria função desse poder. Essas medidas do Executivo são igualmente “provisórias”, mas de permanente efeito deletério.

Poucas são as vozes no Congresso que têm se levantado legitimamente contra mais impostos. Outros, que até protestam, têm o intuito de barganhar o seu voto. Dificultam aprovações para poder vender a facilidade da posição favorável, e fazem isso com a maior “cara de pau”, assim conseguindo os seus propósitos egoístas e pessoais. Vários desses parlamentares, após votarem “sim” a mais impostos, passam umas poucas semanas se escondendo da mídia, e logo retornam às aparições públicas como se as oscilações éticas de suas vidas nada representassem.

Outro segmento do legislativo é permanente a favor do “quanto mais imposto melhor”. Este quer ver sempre o estado bem suprido de fundos extorquidos das pessoas, pois essa concentração de valores favorece as possibilidades de desvios pelos inúmeros órgãos públicos, que sairão favorecidos com o fluxo monetário gerado por qualquer imposto, novo ou antigo.

Nossos Congressistas são chamados de “representantes do povo”, no entanto raramente representam os interesses da população. Quem deveria proteger o povo do governo? É verdade! Já escrevemos sobre a tendência natural do governo fugir às suas finalidades originais. Estas deveriam ser simplesmente garantir a segurança dos cidadãos e assegurar que ninguém seria atacado ou explorado por outro, garantindo, desta forma, a possibilidade de cada um desenvolver com iguais oportunidades as suas desigualdades. Afinal, somos singulares e não uma massa informe manipulável como querem que acreditemos. Por esta razão, é necessário que tanto o governo se atenha às suas funções (em tudo mais que pretende fazer se mostra ineficiente, oneroso e incompetente), quanto que exista uma barreira ao seu poder, à sua voracidade, às suas garras que podem se voltar contra os cidadãos ordeiros e de bem.

É nesse sentido, originalmente, que surgiram os “representantes do povo”. O estado era monárquico, por vezes despótico, regência de uma pequena oligarquia ou corte – nas mãos de um só monarca. Aos poucos foi aprendendo a conviver com parlamentos – a Inglaterra deu esse legado ao mundo. Os Estados Unidos fizeram uma guerra de independência (1776), exatamente porque não tinham voz no parlamento britânico, mas as taxas e impostos da colônia eram arbitrados por lá. O mote que começou aquela revolta foi “no taxation without representation” – nenhum imposto sem representação. Percebem o princípio básico e a ironia da nossa situação? O parlamento deveria representar exatamente a voz do povo a se contrapor à voracidade do estado. Sem representantes, que votem pelo povo, limitando os impostos e a taxação, haverá espoliação.


Conseguimos inverter tudo, por aqui, no Brasil – o estado voraz, que já está bem representado na mão do poder executivo (que não executa o que deve), recebe como aliado os “representantes do povo”, que votam contra o povo. Em vez de se ocuparem da defesa do povo, sendo atalaias, levantando a voz, ocupando a tribuna, para bloquearem a avidez por mais, do estado; em vez de agirem contra o inchaço burocrático, que demanda mais dinheiro; em vez de se ocuparem em fiscalizar e eliminar os desperdícios; em vez de serem criativos em descobrir alternativas; em vez de forçarem a volta do estado aos seus propósitos originais – juntam-se ao mesmo estado voraz e contribuem significativamente com todos esses defeitos. Inventamos a roda quadrada, no Brasil – “taxation with representation” – conseguimos destruir o princípio da representatividade. Elegemos representantes contra nós mesmos. Criamos o estado unilateral.

A voracidade do estado não é novidade; deveríamos estar bem avisados. Há mais de 3.000 anos, nos registros da história do povo de Israel, no Antigo Testamento; em época que havia um governo simples, sem estrutura feudal, sem grandes burocracias; com uma legislação objetiva, direta e clara (a lei mosaica); o povo ficou deslumbrado com a possibilidade de estruturar uma corte real. O profeta Samuel veio com um aviso bem pertinente: “Este será o modo de agir do rei que houver de reinar sobre vós: tomará os vossos filhos...para lavrarem os seus campos... Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas terras... Tomará e dízimo das vossas sementes e das vossas vinhas, para dar aos seus oficiais e aos seus servos.... Tomará o dízimo do vosso rebanho; e vós lhe servireis de escravos” (1 Samuel 8.11-18). De nada adiantou esse alerta ao estado voraz. A vaidade de se ter um governante cercado de esplendor, levou às favas a prudência. Ninguém queria fazer contas quanto haveria de custar tudo aquilo. “O povo, porém, não quis ouvir a voz de Samuel; e disseram: … haverá sobre nós um rei” (8.19). No final todos foram prejudicados e onerados com pesados impostos e com o custo da corte. Um dos reis subsequentes (Roboão, 978-920 a.C.) expressou ao povo governado exatamente essa característica dos governantes em aumentar progressivamente os impostos. Ele disse: “Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda o aumentarei” (1 Reis 12.14).

E assim tem sido ao longo dos séculos. O estado se apresenta voraz e devorador das riquezas produzidas pelos cidadãos: quer ele seja monárquico ou republicano; de déspotas desumanos ou dos benevolentes; nas sociedades tribais ou nos conglomerados metropolitanos da atualidade. Por mais que ele proteja os cidadãos, no cumprimento de suas funções - na segurança pública; sempre é e será necessário ter quem proteja os cidadãos das garras do governo. Hoje, em nossa terra, experimentamos exatamente um assalto estatal ao bolso. E a voz do povo não se ouve, nem pelos seus supostos “representantes”, que passaram “para o outro lado”; nem por frustrados ajuntamentos de protesto (em São Paulo, em 2007, esperava-se um comparecimento de mais de um milhão de pessoas em um ato público contra a CPMF: compareceram apenas 15 mil, isso porque havia um grande show, com artistas). E o pior: muitos ainda acham que está tudo bom assim mesmo e continuam aplaudindo e justificando o Rei, ou a Rainha, até em sua defesa dos impostos crescentes – tudo como nos tempos bíblicos de Saul...

Solano Portela

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Mas as CRUZADAS não provam que o cristianismo é tão violento como o islamismo?

Será que as CRUZADAS provam que o cristianismo é tão violento quanto o islamismo?
Definitivamente, NÃO! Quem utiliza esse argumento não se aprofundou no que foram as CRUZADAS, nem entende o que é o verdadeiro cristianismo. Vejamos!

As Cruzadas fazem parte de um período marcante da história universal, que perdurou nos anos 1096 a 1291. Eram campanhas expedicionárias, de cunho militar, neste período da idade média, construídas em cima do intenso misticismo e do pano de fundo religioso da era. Elas entrelaçaram a igreja católica medieval e os regentes civis daquela época. Inicialmente, eram excursões de resgate e apoio a cristãos perseguidos, mas rapidamente se transformaram em sucessivas tentativas de tomar o poder da “Terra Santa” – especialmente da cidade de Jerusalém, das mãos dos maometanos, ou muçulmanos.

Por que esse período foi importantíssimo? Porque além de ter durado dois séculos, essas intensas campanhas e ações, chamadas de “Cruzadas” refletem o rumo equivocado que imperava na igreja conhecida como cristã. A essa altura a igreja, no sentido abrangente, já estava descaracterizada, pelo relacionamento incestuoso com o poder civil, pela assunção de uma hierarquia doentia e concentradora de poder e pela absorção de práticas e de uma cosmovisão pagã que a levaram à descabida idolatria. Todas essas situações levaram os líderes da igreja a desviarem ela da sua missão na terra, que é eminentemente espiritual e não temporal, passando a ações e arregimentações de caráter militar contra poderes temporais que ameaçavam e fustigavam os feudos do clero. Essa guerra “contra a carne e contra o sangue” em vez de contra “as potestades das hostes espirituais”, conquanto com fundo místico e linguajar religioso, reflete o mesmo mal-entendido dos discípulos retratado em Mt 20.20-28, quando confundem o reinado pregado por Cristo com os governos deste mundo.

Assim, a luta dos cavaleiros das Cruzadas era por reinados na terra, mesmo. Quatro séculos depois, com a permanência e aprofundamento dessas distorções religiosas, no seio do cristianismo – representadas, de um lado, por um monasticismo isolacionista e do outro pelo envolvimento com o poder político e militar deste mundo – os reformadores foram levantados e impelidos, pelo Espírito Santo, a soarem o brado de retorno à simplicidade e às verdades do Evangelho.  A Reforma do Século 16 levou a prédica e prática extraída tão somente da Palavra de Deus, abandonando a superstição, misticismo cego, engano e obscurantismo que caracterizaram a idade média, especialmente essa era das Cruzadas.

Historicamente, o início do período das Cruzadas é marcado por um apelo de Alexius I (1081-1118), regente em Constantinopla, que se sentia ameaçado pelo avanço dos maometanos, recebido pelo Papa Urbano II (1042-1099), em 1095. Urbano II lançou uma chamada geral a toda a "cristandade", prometendo plena indulgência (perdão de pecados) aos que participassem da expedição - só esse fato já demonstra como estava distorcida a Igreja medieval - pecados perdoados por decreto! O moto da convocação era – “É a vontade de Deus”! A partir de certo ponto o empreendimento mudou a sua feição original de resgatar Alexius e seu império, para a de uma campanha abrangente que visava resgatar os “lugares santos” ocupados pelos mulçumanos.

As Cruzadas foram largamente apoiadas pela nobreza européia, que via nelas a oportunidade igualmente econômica de adquirir territórios, espólios e riquezas. Alguns poucos nomes desta época, que se destacaram na história, foram idealistas religiosamente mal orientados. A primeira Cruzada reuniu em Constantinopla, os diversos exércitos que a compunham. Reorganizados, a partir de uma grande confusão inicial, partiram para conquistas, cidade após cidade (Nicéa, Dorileo, Icônio, Antioquia, Mosul), chegando, finalmente a Jerusalém em 1099. Godofredo de Bulhão foi nomeado “Protetor do Santo Sepulcro”. A “Terra Santa” torna-se, praticamente, um protetorado europeu e várias divisões políticas são estabelecidas, repartindo o território deste “Reino Latino” entre os conquistadores. Uma segunda Cruzada foi estabelecida recebendo sucessivas ondas de ordens rivais de cavaleiros, brasões e lealdades feudais típicas da idade média (Cavaleiros Templares, Cavaleiros de São João, Cavaleiros Teutônicos, etc.). Esses “cavaleiros” eram grupos organizados com leves características de expedições missionárias, compostos por monges, guerreiros, mercenários e, muitas vezes, apenas romeiros (peregrinos), que tinham como um dos propósitos “cristianizar” o oriente, se necessário pela força.

O relativo sucesso militar das Cruzadas até meados do século 12 deveu-se às constantes batalhas dos muçulmanos entre si mesmos. A fragmentação facilitava as vitórias e a manutenção das conquistas. A partir de 1171, entretanto, o Kurdo Saladim, que havia se declarado Mestre do Egito, começou a amealhar vitória após vitória unindo os maometanos. Esse exército unido ocupou Damasco e em 1183 ele sitiou o “Reino Latino”. Jerusalém foi invadida e derrotada. Este período de Saladim, entre a segunda e terceira Cruzada, é exatamente o que foi coberto pelo filme (2005) de Ridley Scott, chamado "Cruzada" (ironicamente, no original, Kingdom of Heaven, quando retrata guerras por Reinos na Terra).

Só para encerrar essa âncora histórica, quando a notícia da derrota infligida por Saladim chegou à Europa, outras Cruzadas foram organizadas, com líderes famosos como Ricardo Coração de Leão, mas nenhuma Cruzada seguinte conseguiu reconquistar Jerusalém.

Credita-se às Cruzadas, e aos resultados desastrosos delas, o abandono nos séculos subseqüentes dessas aventuras religiosas secularizadas, levando à concentração da religiosidade católica em estudos mais aprofundados de seus dogmas, dos livros apócrifos e das Escrituras. Isso resultou no Escolasticismo, que, em vez de gerar um enraizamento de doutrinas nas Escrituras, sistematizou, ao contrário, práticas pagãs e idólatras e um afastamento maior ainda do cristianismo verdadeiro. Mas foi nesse solo fértil e concreto, eivado de paganismo e carente de verdades que Deus providenciou o desabrochar da Reforma do século 16. Um outro efeito das Cruzadas, foi que a Europa foi despertada à rica cultura do oriente, após ter-se mantido fechada, no seu desenvolvimento intelectual, comercial e humano, durante a idade média. Essa situação levou a um incremento do comércio do leste com o oeste e ao surgimento do iluminismo intelectual.

O contexto das Cruzadas, então, foi o misticismo reinante na época – muito distanciado da religião verdadeira, já esmaecida pela introdução supersticiosa das relíquias e pela prática da idolatria. A ética e a praxis das Cruzadas não é retrato de cristianismo bíblico. Querer apresentá-las como um movimento espontâneo e genuinamente oriundo dos ensinamentos da Bíblia, é pura distorção histórica e fraude intelectual.  No âmbito pessoal, lembremo-nos do chamado à participação nas Cruzadas – “É a vontade de Deus”. Até os dias de hoje, esse slogan tem sido utilizado para justificar as mais diversas ações, pessoais ou coletivas que não refletem preceitos divinos, mas ambição humana. Tenhamos cuidado e prendamo-nos à sua vontade revelada – A Bíblia – suficiente para nos guiar, nesta vida, em tudo que realmente agrada a Deus. E a violência, certamente desagrada a Deus, não faz parte da prática e da fé Cristã, é característica da falsa religiosidade.
-- Solano Portela