terça-feira, junho 30, 2009

Mauro Meister

Mais 500 anos de Calvino - Salmos, volume 4

Recentemente tive a oportunidade de passar por Genebra e verificar in loco como estão ocorrendo ali as comemorações dos 500 anos do nascimento do João Calvino (10 de julho). Logo na chegada fica óbvio que na cidade onde o reformador exerceu seu ministério a sua contribuição não foi esquecida. Folhetos, cartazes e folders estão expostos em vários lugares e quem vai ali com a curiosidade que eu fui, logo encontra os sinais da herança do reformador. Muito diferente de uma visita há mais de vinte anos quando nao era tão fácil encontrar todo este tipo de informação.

Peças de teatro tendo Calvino como foco estão em cartaz e uma exposição temporária no Musée international de la Réforme (Museu Internacional da Reforma) mostra "Um dia na vida de Calvino", tentanto trazer para perto do público o que teria sido um dia de atividades na vida do reformador. Muito interessante a mostra, feita em blocos de cenas com textos, orações e possíveis diálogos do reformador, começando com suas orações matinais (4:00h), aula, refeição, sua participação no julgamento de Miguel Serveto até a hora de deitar-se (21:00h). Não trata-se de 'louvação', mas de um retrato da 'vida diária' que traz bastante luz sobre a piedade, firmeza, controvérsia e relações de Calvino com seus amigos e a cidade de Genebra.


Tudo isto escrevo a título de introdução do real ponto desta postagem, que
é a publicação do quarto volume do Comentário de Salmos, o qual tive o privilégio de prefaciar. Os comentários de Calvino permanecem como uma rica fonte para a interpretação bíblica até os dias de hoje e creio que a publicação dos mesmos na língua portuguesa enriquece profundamente as nossas condições de aprender sobre a exegese bíblica e o método de interpretação desenvolvido pelo reformador. Abaixo, deixo o prefácio falar...

Ainda muitos livros serão escritos procurando entender todas as dimensões sobre as quais a Reforma Protestante deixou o seu legado e as mudanças que causou para a história da humanidade. Para que esta reforma acontecesse, vários pequenos e grandes movimentos foram postos em curso pelo Senhor da história. Um destes movimentos deu-se na área da interpretação das Escrituras, que foi libertada da interpretação alegórica e da força da tradição da igreja da Idade Média. Grandes intérpretes foram levantados por Deus e capacitados com várias sortes de dons e talentos para que um grande salto pudesse ser dado na história da interpretação. Neste contexto é que aparecem os comentários de João Calvino, um grande teólogo, pastor, lingüista, intérprete e comentarista do seu tempo.

Uma das fortes características do movimento reformado foi a busca do sentido literal, gramático e histórico do texto da Bíblia, e, neste sentido, João Calvino foi reconhecido como o “Rei dos Comentaristas”.[1] Há muitos aspectos introduzidos nos comentários de Calvino que são praticamente desconhecidos para a sua época. Isto não significa, é claro, que Calvino interpretou de forma absolutamente independente. Como acadêmico, ele buscou as fontes disponíveis em seu tempo e trabalhou seus comentários de forma contextualizada, comparando sua interpretação com os escritos dos rabinos, os Pais da Igreja e comentários de seus contemporâneos. É bem verdade que o período da Reforma foi um de florescimento do interesse sobre as línguas originais e o texto da Escritura, o que gerou uma grande quantidade de comentários. Calvino tirou toda a vantagem deste ambiente para desenvolver o conhecimento do grego e do hebraico e aplicá-los na interpretação. Com estas ferramentas Calvino destaca-se no século XVI por sua originalidade, profundidade e valor permanente dos seus escritos. Não são muitos os textos e comentários que sobrevivem ao tempo de seu autor e aqui estamos nós, quatro séculos e meio depois, dispensando grande energia e recursos, para que esta obra se faça disponível para os leitores de língua portuguesa.

A obra magna de Calvino, As Institutas da Religião Cristã, já demonstrou ao longo dos séculos a sua importância e relevância como teólogo. Aos poucos, os comentários de Calvino publicados nesta série vão descortinando o pastor e intérprete. Cabe dar conhecimento ao leitor sobre a forma como nasceram estes comentários. Tendo sido pastor durante duas décadas e meia em Genebra, Calvino adotou como forma de pregação o método de exposição consecutiva das Escrituras. Ele começava suas séries de pregação no primeiro verso do primeiro capítulo de um livro e caminhava até o último verso do último capítulo. Normalmente, quando terminava um livro, começava o próximo. Tendo feito a devida preparação em oração, subia ao púlpito portando apenas o texto hebraico ou grego e pregava extemporaneamente. Assim, produziu milhares de sermões, dos quais cerca de pouco mais de 2000 foram preservados e muitos ainda carecem de publicação. Estes foram compilados ipsissima verba, durante 11 anos, por um homem chamado Denis Raguenier, pago para tal pelo serviço de diaconia da igreja de Genebra.[2] Os comentários, escritos posteriormente, eram baseados em suas exposições para a congregação, fossem sermões, aulas ou palestras. Logo, a pregação e o ensino de Calvino à congregação serviam como o elemento fomentador de seus comentários, onde sua alma de pastor transparece com grande clareza. Não é incomum encontrar as belas orações de Calvino ao fim de algumas de suas exposições, deixando a todos face a face com Deus.[3] Na verdade, um motivador específico para a publicação dos comentários de Calvino era o seu temor de que suas pregações e palestras viessem a ser publicadas contra a sua vontade. Para que não viesse a acontecer, debruçou-se para completar os comentários que viriam a ser publicados conforme a sua vontade (vol 1, p.32).

Os comentários de Calvino cobrem pelo menos setenta e cinco por cento dos livros do Antigo Testamento e sabe-se que alguns deles foram escritos concomitantemente à pregação, entre eles o comentário em Salmos. Já na dedicatória, “Aos leitores piedosos e sinceros”, Calvino afirma que sua decisão final de escrever este comentário específico se deu em função dos “apelos dos meus irmãos”, o que até então ele julgava desnecessário em função do comentário de Salmos de seu contemporâneo, Martin Bucer.

Ao contrário da imagem rígida transmitida pelas gravuras que retratam a face de Calvino, somada à densidade das Institutas e as asseverações contundentes contra as heresias de todas as espécies e, especialmente o Catolicismo Romano[4], encontramos no comentário de Salmos de Calvino a face e voz de um homem que compreende profundamente os sentimentos da alma. Ele mesmo afirma na introdução aos Salmos que denomina este livro de “Uma anatomia de todas as partes da alma”, e, por certo, ele escrutina a sua própria alma em seus comentários. Aliás, é na dedicatória ao comentário dos Salmos que encontramos alguns raros e preciosos dados autobiográficos de Calvino. O tom de denúncia contra o erro nunca e esvaziado, mas a voz do pastor é presente.

Outra área que distingue Calvino em seus comentários é como hebraísta. É óbvio que não se pode esperar que usasse, anacronicamente, os conhecimentos e recursos que são posteriores à sua época. Mas, com certeza, não se pode deixar de observar que ele avança significativamente na aplicação do conhecimento da língua hebraica na interpretação. Uma de suas claras convicções é de que o conhecimento da língua original é fundamental para a compreensão do texto e para a boa exegese. Justamente no quesito exegese é que a habilidade de Calvino supera o que foi produzido em seu tempo. Ele mantinha a convicção de que compreensão gramatical precede a compreensão teológica. No comentário dos Salmos o uso do hebraico transita entre o trabalho lexical e a gramática. Comparando as traduções bíblicas e outros comentários, incluindo comentários rabínicos, faz acertadas propostas de tradução para o texto, discutindo com grande habilidade a relevância, por exemplo, a questão da tradução dos verbos, o significado específico de determinadas partículas e seu uso. Num tempo em que o estudo gramatical tendia pesadamente para o prescritivo, Calvino discute o uso contextual de palavras e expressões.

Como filho de seu tempo, lutando contra séculos de interpretação alegórica e tendenciosa, Calvino deu passos visíveis em direção contrária. Ele afirma que “O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é natural e óbvio”.[5] A habilidade em ir “da mera letra, além” e observar a intenção das palavras e seu autor é fundamental para qualquer intérprete e, principalmente, para aqueles que vão interpretar as Escrituras. Calvino, mais uma vez, destaca-se! Neste sentido, a leitura dos comentários de Calvino torna-se uma ferramenta importantíssima para aqueles que desejam compreender o texto com profundidade e desenvolver habilidade semelhante como intérpretes.

Deixo um alerta ao leitor que primeiramente aproxima-se dos comentários de Calvino: espere certos ‘saltos’ interpretativos, o que alguns podem considerar como interpretação alegórica. O fato é que Calvino, ao ler o Antigo Testamento com uma visão cristocêntrica, muitas vezes chega diretamente a aplicações neo-testamentárias no texto. Veja-se, por exemplo, a leitura de Calvino nos Salmos. Ele parte sempre do pressuposto cristão de que Israel corresponde à Igreja, o que, na teologia reformada, é perfeitamente aceitável e desejável. Entretanto, é importante notar a necessidade de uma leitura escalonada, na qual, primeiramente, deve-se ver o sentido pretendido pelo autor humano do texto e aplicado ao seu próprio tempo. Em vários de seus comentários, Calvino simplesmente segue para o próximo passo. Um exemplo claro encontra-se no Salmo 133, onde Israel é apontado como a Igreja e a unção com o óleo sobre a cabeça de Arão, que desce sobre a barba e gola da vestes do sacerdote, como Cristo, o cabeça, e a sua Igreja: “assim somos levados a entender que a paz que emana de Cristo como a cabeça é difusa por toda a extensão e amplitude da Igreja” (comentário no Salmo 133). Ainda que esta seja a conclusão final esperada, trata-se mais diretamente de uma aplicação do texto, o que, entendemos, é desejável em um sermão, mas, deve ser mais minuciosamente explicado em um comentário. Mas esperar que estes comentários se adaptem ao nosso formato contemporâneo de comentário, novamente, seria um desejo anacrônico. Por outro lado, observa-se em seus comentários uma percepção aguçada entre os aspectos de continuidade e descontinuidade entre o Antigo e Novo Testamentos, dando a base sobre a qual a teologia calvinista viria a desenvolver-se.

Estes comentários devem fazer parte da biblioteca daqueles que desejam desenvolver uma compreensão profunda e coerente do livro dos Salmos, tanto pela sua perspectiva histórica quanto pela capacidade que Calvino demonstra em tocar a alma dos “leitores piedosos e sinceros” na exposição da Palavra de Deus.

[1] Schaff, Phillip. “Calvin as a Commentator” em The Presbyterian and Reformed Review (3:11, 1892), p. 462: “Se Lutero foi o rei dos tradutores, Calvino foi o rei do comentaristas”

[2] Olson, Jeannine. Calvin and Social Welfare: Deacons and the bourse française. Selinsgrove, PA, EUA: Susquehanna University Press, 1989, p. 47.

[3] Além das orações mantidas em seus sermões, como parte da própria exposição, muitas orações estão também em seus comentários.

[4] Em Salmos, vol. 1, p. 39, Calvino revela a sua motivação em publicar as Institutas da Religião Cristã: “Meu objetivo era, antes de tudo, provar que tais notícias eram falsas e caluniosas, e assim defender meus irmãos, cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor; e meu próximo objetivo visava a que, como as mesmas crueldades poderiam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas, as nações estrangeiras fossem sensibilizadas, pelo menos, com um mínimo de compaixão e solicitude para com elas.”

[5] Citado em Lawson, Steven. A arte expositiva de João Calvino. S. J. Campos: Editora Fiel, 2008, p. 72. Do Comentário aos Gálatas, capítulo 4, verso 22.

Mauro Meister

Postado por Mauro Meister.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

18 comentários

comentários
murilo
AUTOR
1/7/09 11:49 delete

Prezado Rev. Mauro Meister,
Encontrei-o sentado no assento reservado a mim no avião ontem (30/07/09). Reconheci-o e tivemos uma boa conversa até nossa chegada em Goiânia. Espero manter contato (murilo.leal@gmail.com).
Parabéns pelo artigo. Aproveitando o ensejo: as diferenças entre as doutrinas Luterana e Calvinista são basicamente os Sacramentos, a Liturgia e a Predestinação. Tendo frequentado a Igreja Luterana e a Presbiteriana não percebi grande diferença prática. Para um membro de qualquer igreja o cerimonial ou como seu destino está traçado não é importante!!! Por outro lado, tenho dúvidas sobre a doutrina da Consubstanciação (ou Trans) da Igreja Prbiteriana. Ela vê o pão e vinho de forma simplesmente ritual como Zuínglio?

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Lucio Mauro
AUTOR
1/7/09 14:18 delete

Gostaria de saber se posso publicar o artigo

OS CALVINISTAS ESTÃO CHEGANDO por Augustus Nicodemus

em meu blog "obra da graça"

luciommanoel@hotmail.com

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Fábio Vaz
AUTOR
1/7/09 15:54 delete

Obrigado pelo post, Dr. Meister. Que o legado de Calvino - que pertence a todos os reformados, do século XVI em diante - seja cada vez mais difundido, para a glória de Deus mediante Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo. Parabéns aos senhores e continuem sempre nos presenteando com os posts do Tempora. Que Deus os abençoe ricamente.
F.V.
www.alegrem-se.blogspot.com

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1/7/09 23:20 delete

Meister,

parabéns pelo Prefácio dessa obra. Ela certamente será mto útil a todos nós. Eu tenho os três primeiros volumes, e esse vai enriquecer minha biblioteca.

Abraços, Angélica Mansano.

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Anônimo
AUTOR
2/7/09 15:34 delete

Olá Dr. Meister parabéns pelo prefácio.

Gostaria de saber se esse volume vai até o salmo 150.
Me parece que o volume 3 acaba no salmo 106.

Abraços

Esdras

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2/7/09 15:42 delete

Ressalto esse trecho:

"Uma de suas claras convicções é de que o conhecimento da língua original é fundamental para a compreensão do texto e para a boa exegese."

Precisamos de intérpretes e exegetas dedicados à língua original, se é que se pode falar em exegeta que não conhece a língua original.

A paz
Tales

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Anônimo
AUTOR
2/7/09 17:17 delete

Olá. Quem foi que publicou esta obra em português? O prefácio me apeteceu a leitura...

Obrigado,

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3/7/09 10:12 delete

Caro Mauro,

Quando me aproximei da teologia calvinista não o fiz por intermédio do próprio Calvino, e sim, dos seus sucessores (os puritanos, etc.). Aliás, acredito que isso se dá com a maioria das pessoas que descobrem a teologia reformada. Até bem pouco tempo atrás eu tinha lido muito pouco do próprio Calvino, a não ser uns poucos excertos. Sempre me apeguei às citações que os teólogos reformados faziam de Calvino em seus textos. Geralmente eram as frases mais arrebatadoras do grande reformador. Confesso que durante algum tempo alimentei um misto de desconfiaça e receio em ir direto à fonte. "Que graça teria ler o próprio Calvino", pensava. Isso se explicava pelo fato de Calvino não citar Calvino! Parece meio absurda a ideia, mas era mais ou menos assim que eu pensava. Até que resolvi comprar o comentário de 1 Coríntios. Daí pra frente eu passei a entender porque é que Calvino é considerado o maior teólogo da Reforma. Estou completando minha coleção do reformador. Tenho As Institutas (Edição Especial), 1 e 2 Coríntios e As Pastorais. Pretendo comprar os quatro volumes dos Salmos, a curto prazo, e finalizar com tudo o que houver disponível em língua portuguesa.

Espero que, para isso, os preços dos livros se tornem mais acessíveis.

Um grande abraço!
opticareformata.blogspot.com

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Danilo Neves
AUTOR
3/7/09 21:15 delete

De Calvino para Lennox, a Cultura Cristã vai lançar algum livro desse matemático?? A curiosidade tá matando rsrsrs...

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4/7/09 04:20 delete

Prezado Meister, parabéns pelo post. Nesses idos das comemorações dos 500 anos de Calvino, gostaria de deixar o registro do pioneirismo de um pastor conterrâneo seu: Rev. Valter Graciano Martins, então pastor da Igreja Presbiteriana de São Bernardo, e fundador da Editora Parakletos, hoje pertencente à Editora Fiel, e quem iniciou as traduções dos Comentários de Calvino para nossa Lingua. Tive o privilégio de acompanhar seu trabalho, lá nos idos de 1990, e como resultado ele nos deixou 1 e 2 Coríntios, Romanos, Gálatas, Efésios, as Pastorais, Daniel, v.1 e 2, os três primeiros volumes dos Comentários dos Salmos, dentre outros. Não sei, ao certo, mas creio que este quarto volume também tenha sido traduzido pelo Rev. Valter, já que ele está na equipe da Editora Fiel, atualmente.
A homens como esse precioso pastor, e aos senhores, do "Tempora", eu oro a Deus que os proteja, preserve, e que os tornem aptos, em zêlo pela sã doutrina e também em santidade e amor, para o serviço do Reino e para a Glória de Deus.

Aproveito para sugerir "um post" que divulgue uma preciosa obra de Calvino, e que tenho inclusive usado para presentear pessoas que estou evangelizando: "A Verdadeira Vida Cristã".

Um abraço

Ricardo de Abreu Barbosa

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4/7/09 10:35 delete

Olá Murilo,

Tá vendo, trocar a fila "c" pela "d" tem suas vantagens, como reencontrar um colega da sexta série e poder lembrar dos velhos tempos de estudos no colégio Marista. O mundo dá suas voltas!

Quanto a Ceia, transcrevo o capítulo 29 da Confissão de Fé de Westminster. Grande abraço!

Mauro

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4/7/09 10:35 delete

CAPÍTULO XXIX
DA CEIA DO SENHOR

I . Na noite em que foi traído, nosso Senhor Jesus instituiu o sacramento do seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser observado em sua Igreja até ao Fim do mundo, a fim de lembrar perpetuamente o sacrifício que em sua morte Ele fez de si mesmo; selar aos verdadeiros crentes os benefícios provenientes. desse sacrifício para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele e a sua obrigação de cumprir todos os seus deveres para com Ele; e ser um vínculo e penhor da sua comunhão com Ele e de uns com os outros, como membros do seu corpo místico.

Ref. I Cor. 11:23-26, e 10: 16-17, 21, e 12:13.

II. Neste sacramento não se oferece Cristo a seu Pai, nem de modo algum se faz um sacrifício pela remissão dos pecados dos vivos ou dos mortos, mas se faz uma comemoração daquele único sacrifício que Ele fez de si mesmo na cruz, uma só vez, e por meio dele uma oblação de todo o louvor a Deus; assim o chamado sacrifício papal da missa é sobremodo ofensivo ao único sacrifício de Cristo, o qual é a única propiciação por todos os pecados dos eleitos.

Ref. Heb. 9:22, 25-26, 28; Mat. 26:26-27; Luc. 22:19-20; Heb. 7:23-24, 27, e 10:11-12, 14, 18.

III. Nesta ordenança o Senhor Jesus constituiu seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do comum para um uso sagrado, tomar e partir o pão, tomar o cálice dele participando também e dar ambos os elementos aos comungantes e tão somente aos que se acharem presentes na congregação.

Ref. Mar. 14:22-24; At. 20:7; I Cor. 11:20.

IV. A missa ou recepção do sacramento por um só sacerdote ou por uma só pessoa, bem como a negação do cálice ao povo, a adoração dos elementos, a elevação ou procissão deles para serem adorados e a sua conservação para qualquer uso religioso, são coisas contrárias à natureza deste sacramento e à instituição de Cristo.

Ref. I Tim.1:3-4; I Cor. 11:25-29; Mat. 15:9.

V. Os elementos exteriores deste sacramento, devidamente consagrados aos usos ordenados por Cristo, têm tal relação com Cristo Crucificado, que verdadeira, mas só sacramentalmente, são às vezes chamados pelos nomes das coisas que representam, a saber, o corpo e o sangue de Cristo; porém em substância e natureza conservam-se verdadeira e somente pão e vinho, como eram antes.

Ref. Mat. 26:26-28; I Cor. 11:26-28.

VI. A doutrina geralmente chamada transubstanciação, que ensina a mudança da substância do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Cristo, mediante a consagração de um sacerdote ou por qualquer outro meio, é contrária, não só às Escrituras, mas também ao senso comum e à razão, destrói a natureza do sacramento e tem sido a causa de muitas superstições e até de crassa idolatria.

Ref. At. 3:21; I Cor. 11:24-26; Luc. 24:6, 39.

VII. Os que comungam dignamente, participando exteriormente dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente, pela fé, a Cristo Crucificado e todos os benefícios da sua morte, e nele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente, não estando o corpo e o sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos pão e vinho, nem com eles ou sob eles, mas espiritual e realmente presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais.

Ref. I Cor. 11:28, e 10:16.

VIII. Ainda que os ignorantes e os ímpios recebam os elementos visíveis deste sacramento, não recebem a coisa por eles significada, mas, pela sua indigna participação, tornam-se réus do corpo e do sangue do Senhor para a sua própria condenação; portanto eles como são indignos de gozar comunhão com o Senhor, são também indignos da sua mesa, e não podem, sem grande pecado contra Cristo, participar destes santos mistérios nem a eles ser admitidos, enquanto permanecerem nesse estado.

Ref. I Cor. 11:27, 29, e 10:21; II Cor. 6:14-16; I Cor. 5:6-7, 13; II Tess. 3:6, 14-15; Mat. 7:6.

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4/7/09 10:36 delete

Prezado Esdras,

Sim, este é volume final, até o Salmo 150!
abs
Mauro

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4/7/09 10:38 delete

Prezados Fábio e Angélica,

Obrigado pelos comentários. De fato, temos valiosa obra agora em nosso vernáculo.

Um grande abraço!

Mauro

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4/7/09 13:40 delete

Lúcio Mauro,

Autorizado.

Augustus

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Anônimo
AUTOR
4/7/09 21:25 delete

Prezado Mauro,

Faço pública a gratidão da Editora Fiel pelo seu pelo prefácio ao volume 4 do comentário de salmos do reformador francês. Seu texto abrilhantou a edição deste comentário na tradução de Rev. Valter Graciano.

Deus o abençoe ricamente, meu irmão!

Em Cristo,
Franklin

Editor das Obras de João Calvino/Editora Fiel
São José dos Campos/SP

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Anônimo
AUTOR
5/7/09 22:46 delete

Lembro aos irmãos que há comentários de Calvino em português publicados pelo site Monergismo mas sem versão impressa ainda (sobre Oséias, Joel e Obadias).

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Oliveira
AUTOR
9/7/09 16:53 delete

Caro Murilo e pedindo permissão ao Prof. Mauro,

Sou presbiteriano neófito...
Nascido assembleiano.

Mas entendo que a consubstanciação e a transubstanciação são coisas diferentes, e nenhuma delas é doutrina da Igreja Presbiteriana.

Vejo os presbiterianos e a mim mesmo como memorialistas, entendendo este termo como um cristão que faz uso da Santa Ceia como um momento de "memória" do Senhor. "Fazei isto em memória de mim...".

Usando termos simples, é como se estivéssemos a brindar a lembrança da morte e ressurreição do Senhor por nós.

Entendo também que ensinar é procurar envolver no aluno o maior número de sentidos possíveis, e assim a Ceia do Senhor é um exemplo clássico: pegamos nos elementos pão e fruto da vide (tato), cheiramos os elementos (olfato), vemos os elementos (visão), comemos os elementos (paladar), ouvimos os significados dos elementos pelo ministrante (audição).

Aprendizado completo!
Dificilmente esqueceremos.

E especulo que Jesus assim o fez para que fosse inesquecível mesmo.

Transubstanciação já explicado pelo texto do Prof. Mauro é um absurdo.

Consubstanciação é mais sutil, o cidadão espiritualiza os elementos e acha que está comendo "espiritualmente" os elementos... é daqueles que acham, como meus irmãos assembleianos assim faziam e diziam, que faltar no culto de ceia era mais grave do que faltar em culto normal.

Pois para eles a falta no culto de ceia era mais grave pois o cara estava sem se "alimentar espiritualmente" da ceia...

E assim se ele faltasse a muitas ceias ia ficando raquítico espiritualmente.

Eu discordo e acho um erro sutil o da consubstanciação, aliás este termo nem era abertamente falado, mas as pessoas (a maioria delas)criam assim e nos púlpitos era assim demonstrado (o culto de ceia era mais imporntante pois "alimentava").

Pela minha ótica, uma forma sutil de misticismo.

É assim que vejo o assunto.
Me corrijam se estiver enganado.

Um abraço

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