quarta-feira, dezembro 12, 2012

Augustus Nicodemus Lopes

Onde Jesus esteve entre os 13 e 30 anos?


A revista Aventuras na História da Editora Abril publicou uma matéria onde requenta a velha teoria de que Jesus, dos 13 aos 30 anos, viveu em países estrangeiros aprendendo mágica, filosofia e alquimia, antes de se apresentar em Israel como o esperado Messias dos judeus. Vários evangelhos apócrifos são mencionados como fonte para esta especulação.

A matéria é entediante, além de revelar a mais completa ignorância dos estudos bíblicos e arqueológicos relacionados com a vida de Jesus Cristo. É igual às outras publicações sensacionalistas de fim de ano, que se aproveitam do Natal todo ano para interessar os curiosos e ignorantes tecendo teorias absurdas sobre a vida de Jesus.

A razão pela qual os Evangelhos não nos dizem nada sobre Jesus dos 13 aos 30 anos é por que os Evangelhos não são biografias no sentido moderno do termo, onde se conta toda a história da vida do biografado, desde seu nascimento até a sua morte, dando detalhes da sua infância, adolescência, mocidade, vida adulta e velhice. Os Evangelhos, como o nome já diz, foram escritos para evangelizar, isto é, para anunciar as boas novas da salvação mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, o que da vida de Jesus interessa aos Evangelhos é seu nascimento sobrenatural, para estabelecer de saída a sua divindade, seu ministério público a partir dos 30 anos, quando fez sinais e prodígios e ensinou às multidões, e sua morte e ressurreição que são a base da salvação que ele oferece. Não há qualquer interesse biográfico na adolescência e mocidade de Jesus, pois nesta época, viveu e cresceu como um rapaz normal.

Assim mesmo, algumas informações dos Evangelhos canônicos - Mateus, Marcos, Lucas e João - nos deixam reconstruir este tempo da vida de Jesus, que passa sem registro direto. Lemos que quando Jesus começou a fazer milagres e a ensinar em sua própria cidade, Nazaré, os moradores estranharam muito pelo fato de que eles conheciam Jesus desde a infância:
 "E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal sorte que se maravilhavam e diziam: Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles". (Mat 13:54-58 ARA)
 Percebe-se pela passagem acima que os moradores da cidade conheciam Jesus e toda a sua família. Se Jesus tivesse passado estes 27 anos fora da cidade, certamente não haveria esta reação.

Além do mais, o ensino de Jesus acerca da Lei, dos mandamentos, do Reino de Deus , as suas parábolas e suas ilustrações são todas tiradas do Judaísmo, das Escrituras do Antigo Testamento e das terras da Palestina. Ele está familiarizado com a agricultura, o cuidado de ovelhas, o mercado, o sistema financeiro e legal da Palestina. Estas coisas teriam sido impossíveis se ele tivesse passado todos estes anos recebendo treinamento teológico e místico em outro país, outra cultura, outra religião. Não há absolutamente nada no ensino de Jesus que tenha se originado na religião egípcia, persa, mesopotâmica do da índia, todas elas politeístas, cheias de deuses e totalmente panteístas. O ensino de Jesus, ao contrário é monoteísta e criacionista.

Estas lendas bobas da sua infância são tiradas de "evangelhos" apócrifos e espúrios, cuja análise já fiz e ofereci aos meus leitores aqui

É impressionante, todavia, que ainda estão dando importância a este fragmento de um suposto "evangelho da esposa de Jesus" mesmo após autoridades em manuscritologia e papirólogos terem rejeitado sua importância e mesmo sua autenticidade. Escrevi aqui sobre o tal fragmento.

No fundo, a razão para todas estas especulações é a rejeição do quadro simples e claro que os Evangelhos nos pintam acerca de Jesus, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que nasceu, viveu e morreu para que pudéssemos ter o perdão de pecados e a vida eterna.

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

16 comentários

comentários
Lucas Yahn
AUTOR
12/12/12 20:56 delete

Essas matérias da Editora Abril só pegam desprevenidos os "evangélicos não-praticantes", que acabem ficando na dúvida até morrer, pois isso aparentemente é mais fácil que pegar nosso Manual e lê-lo.

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SoninhaJC
AUTOR
12/12/12 23:59 delete

Texto claro, conciso e esclarecedor. Só não entende quem não quer. Deus abençoe.

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Daniel
AUTOR
13/12/12 10:30 delete

Rev Augustus, tenho aprendido muito em cada estudo/comentário que o senhor coloca neste blog, Deus continue abençoando sua vida.
Por favor, se o senhor puder, gostaria de um esclarecimento sobre cura interior. Dei uma olhada aqui no blog e não encontrei.
Muito obrigado.
Daniel

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13/12/12 11:38 delete

Texto bastante conciso, porém, excelente!

Um livro que tem me ajudado em algumas destas questões é a "Teologia do Novo Testamento" do Ladd.

Um abraço,
Thiago McHertt

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13/12/12 11:41 delete

Bastante oportunas as palavras. Obrigado pela dedicação às ovelhas pastor.

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Rodrigo
AUTOR
13/12/12 17:01 delete

Essas acusações de que Jesus era um mágico já eram feitas no século II.

Realmente, não há nada de novo debaixo do sol...

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14/12/12 18:26 delete

Rev. Augustus Nicodemus Lopes mais uma vez dizendo tudo que deveria ser dito de forma simples e direta. Que Deus o abençoe para que o senhor tenha sempre a disposição para tal tarefa.

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18/12/12 09:47 delete

Reverendo,

De fato a matéria da revista Aventuras na História é entediante, mas a li toda. E todos os anos temos que suportar estes sensacionalismos, como o senhor muito bem disse. Em dezembro do ano passado a mesma revista publicou outra matéria polêmica sobre Jesus com o título: ”Jesus... houve mais de um”. A capa trazia a seguinte descrição: “Jesus era apenas um entre muitos profetas que prometiam liberdade, saúde ou o apocalipse no Oriente Médio do século I. E nem era o mais famoso. Conheça os ‘outros Cristos’.”

O que é gritante é a ênfase que dão em supostos argumentos baseados em fontes frágeis, e a manipulação que fazem dos Evangelhos para sustentá-los.

No dia 09 de dezembro preguei um sermão sobre os escribas que acusaram a Jesus de expulsar demônios em nome de Belzebu (Marcos 3:20-30). Os escribas eram exímios conhecedores das Escrituras e das indicações da mesma sobre o Messias. Mas quando estiveram diante dele não o reconheceram, e ainda atribuíram a sua obra à Satanás. Tal é o pecado imperdoável dos historiadores de nossa época: examinam os Evangelhos e não conseguem encontrar o verdadeiro Deus-Homem que veio para nos salvar; ou se o encontram (pelo menos intelectualmente), não são capazes de admitir, mas preferem blasfemar dele.

Presb. Edson Marques

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Barros
AUTOR
31/12/12 00:38 delete

Reverendo,essa sua afirmação que transcrevo abaixo me deixa confuso: o fato do senhor colocar que Jesus apenas estaria familiarizado com esses temas se tivesse vivido na Palestina, implicitamente afirma que ele não teria o dom da onisciência. No caso "Estas coisas teriam sido impossíveis" apenas no caso dEle não ser onisciente, não?

"Além do mais, o ensino de Jesus acerca da Lei, dos mandamentos, do Reino de Deus , as suas parábolas e suas ilustrações são todas tiradas do Judaísmo, das Escrituras do Antigo Testamento e das terras da Palestina. Ele está familiarizado com a agricultura, o cuidado de ovelhas, o mercado, o sistema financeiro e legal da Palestina. Estas coisas teriam sido impossíveis se ele tivesse passado todos estes anos recebendo treinamento teológico e místico em outro país, outra cultura, outra religião"

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31/12/12 21:12 delete

Barros,

Jesus era plenamente Deus e plenamente homem. Como homem, ele cresceu e aprendeu normalmente como qualquer um de nós. Veja estas passagens:

"Crescia o menino (Jesus) e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele". (Lucas 2:40 ARA)

"Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem".(Heb 5:7-9 ARA)

Ele com certeza não sabia o dia do seu retorno a este mundo:

"Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai". (Mar 13:32 ARA)

Se a onisciência de Jesus era suficiente para que ele aprendesse todas aquelas coisas, as experiências humanas, o conhecimento da sua cultura, por que, então, ele nasceu judeu, cresceu menino e adolescente, viveu com sua família e aprendeum uma profissão? Acredito que foi parte da humilhação de Jesus esvaziar-se de algumas de suas prerrogativas como Deus par experimentar a plena humanidade, um mistério afirmado pela Igreja desde cedo.

Um abraço.

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Barros
AUTOR
1/1/13 20:04 delete

Obrigado Reverendo! A idéia da onisiciência de Cristo realmente seria meio complicada já que Jesus afirma: 1. Que "a lua não dará a sua luz" quando na verdade a lua apenas reflete a luz do sol. 2. Que a semente de mostarda é a menor de todas quando na verdade a menor de todas é a da orquídea. A melhor resposta para isso era que Jesus não poderia transmitir sua mensagem usando um conhecimento que aquele povo não possuía, mas nesse caso já posso dizer que a melhor explicação é a de que Jesus não era onisciente!

Por outro lado, como podemos entender um Jesus não sendo onisciente e sendo "plenamente Deus"?

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2/1/13 01:26 delete

Reverendo,
O sr falou a respeito da rejeição dos ensino de Jesus a respeito dos evangelhos. A minha pergunta é: Será que esse rejeição também não tem acontecido de forma muito mais declarável através do liberalismo teológico, principal através dos posicionamentos liberais de Caio Fábio?

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9/1/13 17:01 delete

Barros,

A plena divindade de Jesus e sua plena humanidade continuam sendo aquilo que os estudiosos através dos séculos chamam de "mistério". A Bíblia afirma as duas coisas sobre Ele, mas não sabemos como exatamente as duas naturezas do único Cristo se relacionam. Recebemos pela fé.

Abs.
Augustus

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9/1/13 17:03 delete

Daniel,

Confesso que não leio e nem assisto Caio Fábio. Portanto, teria dificuldade em responder sua pergunta. Todavia, posso responder de maneira genérica que qualquer pessoas que ensine contrariamente às Escrituras, é falso profeta e presta um desserviço ao Reino de Deus.

Abs.

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1/1/15 15:32 delete

1° - Lucas 4:16,31
Jesus viajou para Nazaré, onde havia sido criado e conforme seu costume, num dia de sábado, entrou na sinagoga.

Desde Criança ele ia a Sinagoga pois era seu costume.

2° - Mateus 13:55

Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?

Antes de assumir seu ministerio Jesus foi carpinteiro herdado sua profissão com seu pai carnal José, haja vista que para ser um "Rabi" ou mestre teria que ter acima de 30 anos de idade.

Jesus abençõe vcs!!

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Antônio led
AUTOR
22/2/15 22:59 delete

O SENHOR COMO UM GRANDE ETUDIOSO DA BIBLIA PODE ME RESPONDER PORQUE TODOS OS PAISES EM QUE JESUS PISOU E PREGOU FORAM AMALDIÇOADOS COM TODOS OS MALES ATÉ HOJE CO MISERIA GUERRAS FOME DOENÇAS EXTREMISMO RELIGIOSO COISAS QUE NEM SATANAS TEM CORAGEM DE FAZER ! TEM COMO RESPONDER ? OBRIGADO !

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