sábado, abril 28, 2012

Conselhos a um Pastor: Cartas reais.

Há alguns anos, recebi uma carta de um pastor recém ordenado solicitando conselhos. Respondi, compilando exortações que tenho passado a alguns pastores que me têm abordado sobre essas questões relacionadas com os seus ministérios. Acreditando que há a necessidade de reforço dessas áreas, em muitos pastorados, transcrevo abaixo essas duas cartas, omitindo e acrescentando alguns detalhes e, obviamente, colocando um nome fictício...
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Pb. Solano

Poderia me dar uma orientação? Estou na eminência de assumir o pastorado de uma igreja... ... será o meu primeiro ministério... . Sinto uma mistura de ansiedade, alegria e responsabilidade em saber que estarei apascentando o rebanho do Senhor, tenho orado, lido a Palavra e gostaria que o irmão me orientasse quais devem ser os primeiros passos de um novo pastor diante de sua igreja.

Firmino Oliveira
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De: Solano Portela
Assunto: Uma Orientação
Meu caro irmão Firmino:

O conselho que me pede é difícil, pois nunca estive nessa situação, mas como já tenho alguns quilômetros rodados e muita observação na igreja de Cristo, aventuro-me a dar-lhe algumas orientações, certo de que esse passo que o irmão está dando - de pedir conselhos, já mostra a mão de Deus sobre a sua vida.

Gostaria de animar o querido irmão a perseverar firme na Palavra de Deus e a caminhar em santificação, seguindo sempre as palavras de Paulo a Timóteo quando orientou aquele jovem ministro a tomar cuidado dele próprio (em todos os sentidos na vida física e espiritual, bem como ser firme nos caminhos de Deus para com a família) e, subsequentemente, da doutrina do ensino, do ministério na Casa do Senhor. Nunca descuide a vida devocional e o estudo sério da Palavra, utilizando todas as ferramentas que puder ter em mãos (livros, livros, livros!). Estou presumindo que tem o treinamento pastoral completado, mas esse nunca acaba - é preciso SEMPRE estar estudando.

Espere algumas dificuldades no ministério. Deus assim indica que isso ocorrerá. No entanto, além dele dar o poder para suportá-las, as eventuais dificuldades, surgidas com alguns, não devem desviar os seus olhos do objetivo de que a igreja caminhe em paz, direcionada na trilha da sã doutrina. Procure preparar os novos convertidos e adolescentes para declararem a sua fé e não descuide das frentes de evangelização. Tente fundar um ponto de pregação, na casa de alguém que mora mais distante, que poderá se tornar mais tarde em uma congregação e assim a igreja irá crescendo. O seu ministério na igreja será formado pela pregação da Palavra mas também por vidas que deve aconselhar e visitar, bem como pela intercessão pelos membros que Deus lhe confiar.

Agora vão alguns conselhos práticos deste presbítero, que já sentou sob diversos ministérios e que acumulou um pouco de experiência, não pela perspicácia, mas pela própria idade, vivência e por intermédio de muitos erros dos quais Deus permitiu que lições fossem extraídas:

1. A saúde: Minha esposa certamente diria que eu não sou pessoa adequada para aconselhar nessa área mas isso não significa que eu não sei o que deva ser feito. Assim, apoiando-me no conselho Paulino, já aludido acima (1 Tm 4.16), cuide-se, porque cuidando de si mesmo estará cuidando de sua família e também da sua igreja. É impossível funcionarmos adequadamente quando nos sentimos mal fisicamente. Não use a prática nociva da auto-medicação, pois isso só pode piorar as situações de desconforto, a médio prazo, e, possivelmente, agravará os problemas. Muitas vezes estará lidando apenas com os sintomas, em vez de com as causas. A auto-medicação não significa cuidado adequado com a saúde. Portanto, pelo bem da sua família e da igreja cuide-se, nessa área.

2. A memória: Devemos confiar menos nela. Eu tenho anotado cada vez mais as coisas, pois vejo que já não me lembro dos detalhes com a mesma facilidade de antigamente. Na sua condição de pastor a lembrança de datas, nomes, fatos é solicitada com muita freqüência e algo inevitavelmente ficará para trás. Portanto, meu conselho é para que ande com um caderninho [hoje em dia, um iPad, serve] e anote tudo o que for pertinente. Sobretudo, nunca suba no púlpito sem anotações dos avisos que pretende dar à congregação, com todos os seus detalhes importantes. A falta disso resultará em momentos constrangedores nos quais procurará lembrar e, muitas vezes não conseguirá. Alguém da congregação virá em auxilio, mas isso não pega bem especialmente quando esse auxílio é solicitado do púlpito. Meu conselho é que, anote, anote, anote...

3. As batalhas: Escolha as batalhas que vai travar. Nem todas valem à pena. Obviamente que as que não valem à pena não terão caráter doutrinário, mas meramente administrativos ou podem ser questões sócio-culturais - que devem ser resolvidas, mas sem a avidez e intensidade das questões explicitamente apontadas nas Escrituras. As questões doutrinárias merecem, também, classificação de importância, para discernir o tempo e época correta de tratá-las. Alguns territórios de somenos importância podem ser concedidos para que outros maiores e mais importantes sejam ganhos. Antes de avançar o exército, avalie bem o terreno pisado, conheça os detalhes e as personalidades daqueles que estão nas redondezas. Acima de tudo, peça constantemente a Deus sabedoria sobre como tratar questões administrativas [vale a pena, mesmo, "expulsar" os diáconos da sala que ocupam há mais de uma década?]. Quando delegar delegue, mesmo, estabelecendo os limites da delegação, mas disposto a aceitar as ações e decisões dos que receberam a responsabilidade de decidir. Não se envolva em todos os detalhes administrativos da Igreja. Ache quem tem talento para isso e descanse, concentrando-se nos aspectos maiores do seu ministério, ainda que você ache que, se fosse você, faria algo de maneira diferente [o mundo não vai acabar, porque o portão instalado é deslizante e não de bandeira, como você acharia melhor].

4. Os Cânticos: Via de regra, a congregação precisa de uma voz forte que lidere a igreja na melodia. Na realidade, ela espera isso de quem está cantando lá na frente. Quando isso não ocorre é possível que ela fique perdida . Se o irmão não tem esse dom, ache quem tem, mas não deixe que lhe usurpem o púlpito e passem a fazer sermões e "passar pitos" na igreja - isso é função do pastor. Tenha cuidado com as letras, pois muita doutrina errada entra pelos cânticos. Não se entusiasme com algo só porque tem o nome "Jesus"
no meio. Lembre-se das palavras de Cristo que muitos dirão "Senhor! Senhor!" Não escolha melodias muito complicadas. Simplifique. O cântico congregacional é algo bonito e que envolve a todos - creio que Deus se agrada muito nele. Muito mais do que quando alguém faz um solo, ou exagera no tocar de algum instrumento, quase como um espetáculo, às vezes, chamando atenção para a própria pessoa que canta ou toca, em vez de para a música e mensagem cantada. Contudo, creio que alguns solos, duetos ou conjuntos - bem cantados e ensaiados - "com arte e júbilo" podem fazer parte da liturgia.

5. Pregação: Essa é a grande área do ministério. Pela pregação os pecadores serão alcançados e os propósitos de Deus realizados. Procure sempre falar um bom português, comunicar-se bem, exercite o seu vocabulário e a fluência verbal. Pregue com autoridade e procure alicerçar as mensagens em sã doutrina e na palavra. Essas são qualidades raras nos dias de hoje e muitos pregadores gostariam de tê-las - e nunca é tarde para obtê-las. Ainda, dentro desse tema da pregação, aconselho:

   a. Objetivo: Deixe claro, no início, o que quer ou o que pretende ensinar. A igreja seguirá melhor se souber onde o irmão quer chegar.

   b. Lições/Aplicação: É melhor transmitir poucos pontos (um ou dois; no máximo três), mas que sejam bem substanciados pelo texto exposto (ou pela Palavra de Deus, em geral). Quando se procura transmitir mais do que isso, corre-se demais e o ensino fica superficial.

   c. Duração: Procure desenvolver o sermão em 30-40 minutos. Essa é a minha luta, também, mas a atenção da congregação será melhor aproveitada quando há essa perspectiva. Quando a expectativa dela é de uma hora ou mais de sermão, já se cansa, ou se desliga de véspera. Muitos pregadores expressam com orgulho mal-disfarçado: "nunca prego menos de uma hora"! Isso alimenta o ego e podemos até argumentar que deveria existir maior interesse na exposição da Palavra de Deus, mas podemos também receber essa limitação como sendo o tempo que Deus nos Deus para trabalharmos com máxima eficiência e eficácia. Ou seja, concentrarmos-nos no que deveríamos fazer, em vez de ficar lamentando uma eventual atitude de impaciência na congregação.

   d. Introdução: Tenha introduções curtas, sempre ligadas ao propósito da mensagem. Às vezes as introduções podem virar verdadeiros sermões, mas confundem o povo, pois o sermão vem depois.

   e. Exposição: Pregue expositivamente. Escolha um texto e abra o seu entendimento para que ele possa ser internalizado nas mentes e corações de suas ouvelhas. Estude o seu contexto, suas ligações, verifique quais aspectos não são tão claros assim, para a congregação e os explique. Creio firmemente que quando Deus nos coloca na posição de pregadores da Palavra, ele nos dá insights sobre o texto fruto de nosso estudo e meditação nele, que devem ser transmitidos à congregação (não confunda! isso não tem nada a ver com novas revelações). Quando pregamos expositivamente, não significa que não erramos, mas erramos menos, porque estamos presos ao texto. A pregação tópica tem o seu lugar na igreja uma vez ou outra, mas creio que a norma deveria ser a pregação expositiva, pois todas as doutrinas podem ser ensinadas, dependendo do texto. Muitos entendem pregação expositiva como sendo pregação seqüencial (quando o pregador fica em um livro da Bíblia domingos à fio). Essa sistemática pode ser importante, mas não é mandamento divino e é possível que nem sempre essa pregação sequencial - se praticada com exclusividade, atenda as necessidades ou edifique a igreja. Utilizada de vez em quando, em uma seqüência de domingos, usados na exposição de um livro da Bíblia, é uma boa idéia.

   f. Referências paralelas: Tenha cuidado para que os textos paralelos, de apoio, não virem um sermão dentro do sermão. É possível nos perdermos quando vamos a textos que deveriam apoiar a lição principal a ser transmitidas e, quando vemos, estamos expondo outros pontos que confundem e não auxiliam. Acho que sempre ajuda estarmos nos perguntando, quando usamos outros textos fora daquele que estamos expondo ajuda a esclarecer, a ilustrar a substanciar; ou desvia a atenção dos pontos principais?

   g. Aplicação: Procure aplicações simples, pertinentes à vida dos membros, às situações vivenciadas no dia a dia. É importante mostrarmos a situação atual do mundo evangélico, das igrejas que nos cercam, dos desvios doutrinários que estão no nosso meio. No entanto, se colocarmos na maioria das vezes a aplicação nessa área, podemos gerar apenas sentimentos de auto-justiça e deixamos de atingir os corações daqueles a quem ministramos.

   h. Ilustrações: Utilize-as em profusão, mas com muito cuidado e critério - elas devem ser pertinentes ao tema e ao texto (você já deve ter ouvido pastores falarem que encontraram um membro que fez referência a um sermão ouvido há anos, e não se recordavam de nada da mensagem principal, mas a ilustração havia sido sensacional!). Ilustrações pessoais são sempre as melhores, mas seja cuidadoso e não se coloque indevidamente, como uma criatura perfeita - Paulo, que se colocava como exemplo, admitia, ao mesmo tempo que era "o principal" dos pecadores.

   i. Dicção: às vezes o sistema de som é deficiente. Procure, portanto, articular bem as palavras para que elas sejam realmente bem entendidas. Isso parece um ponto não tão importante assim, mas é importantíssimo, pois de que adianta ter o que transmitir se a congregação não consegue entender? Em algumas igrejas que freqüentei esse tem sido um problema constante: o som e a inteligibilidade da mensagem e das palavras do pastor. Não sei como enfatizar isso o suficiente (também não sei como Spurgeon consegui falar para 5.000 pessoas sem sistema de som, mas ele conseguia!). Já ouvi de várias pessoas, principalmente de idade mais avançada, dizer que não conseguem entender o pastor . Um outro casal visitante disse-me, certa vez, que conseguiu compreender uns 25% do que o pastor falou. Portanto, é preciso cuidado nisso. Procure trabalhar com quem domina o sistema de som para chegar a uma equalização que gere inteligibilidade à mensagem. Procure, igualmente, não falar com muita rapidez (isso geralmente ocorre nos dez minutos finais do sermão, quando ficamos agoniados para comprimir tudo o que queriamos dizer e que não deu tempo até aquele momento nesse caso, volto aos pontos b e c , acima transmita menos, mas transmita com mais intensidade). A rapidez na fala também prejudica a inteligibilidade, da mesma maneira que a fala lenta e pausada demais (ou com as abomináveis "pausas vocais" - "eh..", "uh...",) coloca as pessoas para dormir.

Não esqueça que todo o seu pastorado é veículo para a transmissão do verdadeiro evangelho, de "todo o conselho de Deus". Cuide de você, de sua família, dos pilares da fé cristã e do ensino Espero que essas observações ajudem. Desejo-lhe imensa felicidade no seu ministério e durante toda sua vida.
Em Cristo Jesus,

Presbítero Solano Portela

quinta-feira, abril 19, 2012

Uma nova igreja local - Igreja Presbiteriana na Barra Funda


Uma casa nova, um bairro novo, uma igreja nova

É assim que se processa na minha mente como a igreja Presbiteriana na Barra Funda está nascendo. Deus deu a nossa família o privilégio de vir morar  este bairro que está se tornando, na verdade, uma nova cidade.

A expectativa de multiplicação demográfica nos próximos 10 anos é estupenda. De ‘gatos pingados’ a uma expectativa de ocupação de acima de todas as demais áreas da cidade de São Paulo (230 habitantes por hectare – o bairro vizinho, de Perdizes, tem 160 habitantes por hectare). Vamos colocar em uma perspectiva mais clara: na quadra onde é nosso apartamento não tinha nenhum imóvel residencial, só comércio e indústria. Agora, já tem 400 apartamentos de 3 e 4 quartos prontos e mais 3 torres com centenas de novos apartamentos sendo construídos. De zero habitantes a milhares, em uma quadra!

Isto colocou diante de nós uma oportunidade

Como pastor há mais de 20 anos, percebi que me acostumei às ovelhas e ao seu cheiro, o que é bom, mas, ao mesmo tempo, me impediu de conviver com aqueles que não pertencem ao rebanho de Cristo. De repente, me vi cercado de centenas de pessoas que estão perdidas, sem pastor, por não terem o Evangelho que pode lhes dar o verdadeiro pastor. A partir dai, é como se não tivesse escolha, abriu-se uma oportunidade e uma porta na qual eu sequer havia batido!

Apresentei o projeto à família, irmãos, pastores, ao conselho da Igreja Presbiteriana da Lapa e aos irmãos da Igreja Presbiteriana Paulistana. As portas abertas se alargaram e as perspectivas se avantajaram
diante dos olhos, crescendo tão rápido como a  própria população do Bairro. Posteriormente recebemos a cooperação do Plano Missionário Cooperativo, da IPB. Já nos reunimos para a  formação do grupo base por alguns domingos, adorando, celebrando a Ceia do Senhor e ouvindo a Palavra. Temos sido um grupo constante de pouco mais do que 10 pessoas e temos aprendido com a Palavra a nos fortalecer na graça do Evangelho para poder levá-lo aos que não conhecem. Por isto oramos e convidamos pessoas que o Senhor tem colocado em nosso caminho e isto alegra o nosso coração.

Tudo é muito simples e doméstico, e ao mesmo tempo queremos que seja sério, solene e alegre. Juntos queremos ver uma igreja local crescer com o fundamento da Escritura, teocêntrica, cristocêntrica e conduzida pelo Espírito Santo. Com certeza gostaríamos de receber a visita de  alguns para se alegrarem conosco e compartilhar da fé em nosso Senhor. A Escritura diz que não devemos cobiçar, mas cobiçamos as suas orações por esta igreja nascente.

Nossa missão é muito simples, e não poderia ser outra:  ir e pregar o Evangelho, fazer discípulos, batizar e ensinar!

Temos uma página no Facebook: www.facebook.com/ipbarrafunda.
Você pode entrar em contato conosco pelo email ipbarrafunda@gmail.com.

quinta-feira, abril 12, 2012

Carta de Princípios 2012 do Mackenzie: Corrupção




O Mackenzie lançou na terça-feira dia 10 de março a décima segunda edição da sua Carta de Princípios anual. Este ano o tema escolhido foi "Universidade, Educação e Corrupção". A Carta é elaborada pela Chancelaria da Universidade e distribuída a todos os alunos, professores e funcionários. Ela funciona como uma posição institucional sobre os assuntos abordados. 
O texto de todas as Cartas está disponível na página da Chancelaria do Mackenzie.
Segue abaixo o texto da Carta 2012 na íntegra: 
INTRODUÇÃO
Um dos temas que tem dominado o cenário brasileiro em anos recentes é a questão da corrupção. O termo tem sido usado pela mídia e população em geral para se referirem ao desvio de dinheiro público, irregularidades graves no emprego de verbas governamentais, desvio de funções para vantagens pessoais por parte de servidores públicos, falseamento da verdade para ganhos ilícitos, acordos subterrâneos e pactos ocultos, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e outras atitudes e atividades ilegais, imorais e injustas.
Diante desse cenário, é importante destacar o entendimento cristão quanto às causas e consequências da corrupção, bem como as atitudes possíveis de combatê-la. Esse é o tema desta Carta de Princípios 2012 da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
CORRUPÇÃO: ORIGENS E ASPECTOS
Definindo a corrupção
O sentido próprio do termo é deterioração ou apodrecimento. Os sentidos secundários derivam dessa ideia original. Toda vez que alguém deixa de cumprir o seu dever estabelecido diante de pessoas, instituições e até mesmo ideais - por interesse próprio ou de terceiros - ocorre a corrupção.
Quase sempre associamos a corrupção aos ambientes estatais. Já em 2005, conforme notícia publicada no Financial Time, o então presidente da Controladoria Geral da União do Brasil, Waldir Pires, afirmava que mais de 20% dos gastos públicos no país são perdidos para a corrupção, o que, somente em 2004, correspondeu a mais de R$ 18,5 bilhões. A mesma reportagem dava conta de que, em auditorias realizadas pela CGU em 741 dos 5.500 municípios brasileiros, escolhidos aleatoriamente, foram descobertas irregularidades graves em 90% deles e algum tido de irregularidade em todos eles.(1) Os números atuais da corrupção certamente superam esses dados.
Todavia, a corrupção ocorre também na esfera particular. Há práticas corruptas ao nosso redor, inclusive em nossas próprias ações. Por exemplo: existência de “caixa dois” em empresas, uso de pessoas como “laranjas” em negócios irregulares, compra e venda de produtos pirateados, uso de “softwares” baixados sem permissão dos seus proprietários, pedido e/ou concessão de notas em atividades escolares, com base em amizades ou outra forma de relacionamento. Por isso, o conhecido “jeitinho” brasileiro é, em uma análise objetiva e séria, simplesmente corrupção.
Os efeitos da corrupção
A corrupção pode parecer ter um lado bom, especialmente para os aparentemente “beneficiados” por ela, contudo não podemos fechar os olhos para o grande mal que ela traz para a sociedade. A corrupção é fator de injustiça social, porque tira os direitos de muitos, impede o desenvolvimento justo e equânime dos cidadãos, produz um efeito cascata que começa no topo e corrompe a população como um todo, anestesia a consciência, afronta a lei e promove a impunidade. Ela também frustra a motivação dos que buscam as recompensas materiais por meios legítimos de conduta, visto o enriquecimento questionável e rápido de alguns.
Além disso, não raramente, a rede de ações corruptas se vale de atitudes violentas para acobertar suas mazelas. Portanto, nada há que realmente justifique a corrupção.
As causas da corrupção
Cremos ser importante refletir sobre as causas da corrupção, pois quando elas são identificadas, há condições de se buscar o remédio adequado.
Geralmente as fragilidades da estrutura político-jurídico-financeira são responsabilizadas como a causa da corrupção estatal. O ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, disse em pronunciamento durante um evento em 2011 que a corrupção no país decorre principalmente do financiamento privado de campanhas e de partidos, do sistema eleitoral, dos meandros da elaboração do orçamento público e impunidade garantida pelas leis processuais penais.(2)
Embora existam causas externas para a corrupção, não se pode negar que o problema reside, em última análise, no coração das pessoas. A fé reformada vê o próprio coração dos homens como a origem primária da corrupção. A Bíblia afirma que não há sequer uma pessoa justa neste mundo. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Jesus Cristo disse que é do coração das pessoas que procedem “maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19-20).
Na análise feita pela sociedade, é possível perceber a insuficiência de éticas humanistas reducionistas, que analisam apenas aspectos sociológicos e políticos da corrupção. Como resultado, as propostas de “redenção” contemplam apenas medidas repressivas, melhorias na educação, uma melhor legislação, as propostas de determinado partido político ou candidato.
Tais medidas, mesmo sendo necessárias e boas, deixam de contemplar a dimensão pessoal do problema: egoísmo, maldade, avareza, inveja e cobiça.
O protestantismo reformado prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus e conclama que todos se arrependam do mal e pratiquem obras de justiça.
Por que a corrupção continua e se fortalece?
Podemos pensar em várias respostas para essa pertinente indagação. A primeira é a sua banalização. Existe hoje maior divulgação dos casos de corrupção e da impunidade dos corruptos que no passado. Ao que parece, isso tem levado a sociedade a certo grau de indiferença quanto à sua gravidade.
Como consequência prática, a luta contra esse mal chega a parecer um trabalho inútil.
Em segundo, existe uma sensação pessoal de culpa, a qual leva à cumplicidade e, portanto, ao silêncio. Apesar de as pessoas condenarem os políticos e empresários corruptos, muitas delas também praticam a corrupção na vida pessoal, como, por exemplo, transgredindo as leis dos direitos autorais, praticando o suborno, driblando a legislação tributária, entre outros.
Pelas causas acima, a corrupção acaba sendo vista e consagrada como “um mal sem remédio”. Isso favorece sua prática, alimenta os males que ela gera, conserva a impunidade e fomenta a permanência desse nocivo tipo de atividade. Nas palavras de João Calvino, “a impunidade é a mãe da libertinagem”.(3)
O combate à corrupção
Apesar de estar tão profundamente enraizada no ser humano e na sociedade, a corrupção tem sido combatida em todas as épocas. Nas palavras de Celso Barroso, “tão antiga quanto à corrupção é a luta contra ela; em toda parte se dá valor à integridade, e sempre se deu. Podemos desrespeitar os valores morais, porém não chegamos a negá-los”.(4)
Segundo a visão cristã de mundo, a razão pela qual os seres humanos não conseguem conviver tranquila e passivamente com a corrupção é porque foram criados à imagem de Deus e porque Deus ainda age neste mundo.
Essa ação de Deus no mundo em geral é chamada de graça comum (concedida a todos). Segundo esse conceito, Deus abençoa toda a humanidade com virtudes e qualidades, independentemente das convicções religiosas das pessoas. Além disso, Deus instituiu os governos não somente para promover a justiça e o bem comum, mas também para punir os malfeitores e os corruptos (Romanos 13).
No Brasil, os principais órgãos responsáveis pelo combate à corrupção estatal, em todos os aspectos, são o Tribunal de Contas da União (TCU) - principal órgão de fiscalização do dinheiro e dos bens públicos, e a Controladoria Geral da União (CGU), órgão que responde pelo Brasil perante a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção e, com exposição recente mais ampla, o Conselho Nacional de Justiça (CJN), que aflorou o fato de que, infelizmente, nem mesmo os nossos juízes estão imunes à corrupção e seus efeitos danosos.
O combate à corrupção, todavia, cabe também à população. A sociedade deve agir e cobrar medidas públicas contra a corrupção. É preciso reafirmar o repúdio a essa prática, enfatizar a necessidade de transparência nas contas públicas, apoiar as iniciativas civis no combate aos desmandos e promover a ética no trato das questões públicas. Na esfera eclesiástica, em que deveria estar o exemplo, é preciso também repudiar as práticas financeiras desonestas de muitas igrejas.
Diante desse necessário combate, encontramos o papel das universidades confessionais.
O PAPEL DA UNIVERSIDADE CONFESSIONAL
Uma instituição de ensino que se pauta pelos princípios da visão cristã de mundo poderá contribuir de diversas maneiras para que a corrupção seja pelo menos reduzida. Com relação às causas externas, deve incluir o ensino e a transmissão de valores cristãos, tais como: honestidade, integridade, verdade, justiça e amor ao próximo. Somos responsáveis por uma boa mordomia dos recursos que Deus nos confiou.
Esse papel de integração da ética à academia é algo que vem sendo reconhecido até nas instituições de ensino superior sem características confessionais, por razões meramente realistas e práticas. Uma reitora, no contexto da crise europeia, que desde 2008 assola o velho mundo, chamou a atenção das universidades para a falta de ética e a aplicação deficiente de práticas saudáveis de negócios. Ela declarou que todos os operadores do sistema financeiro frequentaram os bancos universitários e provocou o incômodo questionamento: será que não falta maior ênfase na ética de negócios, em nossos currículos? Segundo a reitora, “as instituições têm que assumir a sua quota de ensinamento pela vivência de valores que devem reger uma sociedade de bem”.(5)
Nesse caminho, como instituição confessional, devemos ter um interesse redobrado sobre o entrelaçamento da ética com a formação acadêmica, como uma das armas contra a corrupção de nossa sociedade.
Com relação à causa interna, que é a corrupção da mente e do coração humanos, a instituição confessional cristã deve sempre lembrar aos seus alunos que somos responsáveis por nossos atos e que não podemos responsabilizar a sociedade, o governo e os outros pelos nossos desvios de conduta. Por fim, deve anunciar, sempre respeitando a consciência de todos, que Deus, em Jesus Cristo, nos oferece perdão pelos nossos desvios e uma mudança interior, dando-nos uma nova orientação e esperança na vida, tendo como alvo amar ao próximo e a Deus. Cultivamos, assim, uma expectativa realista de mudança sabendo que o nosso trabalho não é vão diante de Deus.
CONCLUSÃO
O cristianismo reconhece que não é possível a existência de uma sociedade que seja completamente isenta da corrupção. A nossa esperança é o mundo vindouro, escatológico, a ser inaugurado com o retorno de Jesus Cristo, quando as causas da corrupção serão removidas para sempre. O que não significa que não devamos, com todas as nossas forças, lutar para que os valores do Reino de Deus sejam implantados aqui neste mundo, por meio de uma boa educação integral, que contemple não somente a formação intelectual e profissional, como também a formação de cidadãos éticos e compromissados com os valores morais que servem de base para famílias e sociedades sólidas e justas. 
Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes
Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie
 NOTAS
1. Cf. Financial Times, 25 de abril de 2005.
2. www.cgu.gov.br/imprensa/Noticias/2011/noticia22511.asp (acesso em 23/01/2012).
3. CALVINO, João. Exposição de Efésios. São Paulo: Parakletos, 1998, p.186.
4. LEITE, Celso Barroso. Sociologia da Corrupção. Rio de Janeiro: Zahar, 1987, p. 16
5. “As Universidades Têm Um Papel em Minimizar os Efeitos da Crise”, artigo/entrevista de Madalena Queirós, com a Reitora da Universidade de Aveiro, Helena Nazaré, de 17.02.2009, disponível em: economico.sapo.pt/noticias/as-universidades-tem-um-papel-em-minimizar--os-efeitos-da-crise_3843.html , acessado em 22.04.2009.


sábado, abril 07, 2012

A Ressurreição - Esboço Homilético de 1Coríntios 15

Para os que vão pregar amanhã sobre a ressurreição de Jesus e suas implicações segue um esboço homilético de 1Coríntios 15, o capítulo mais detalhado e extenso sobre o tema.


A Ressurreição
Uma Análise Sintética de 1Coríntios 15

Augustus Nicodemus Lopes

 

I - INTRODUÇÃO

1.     A ressurreição é o fato fundamental do Cristianismo.

2.     Várias explicações dadas pelos que a negam:

3.     Túmulo errado (Jesus está sepultado noutro local)

4.     Discípulos roubaram o corpo e inventaram

5.     Jesus não havia realmente morrido e fugiu

6.     A idéia de que mortos ressuscitam sempre encontrou adversários e inimigos

 

II - O PROBLEMA EM CORINTO

1.     Havia alguns na igreja de Corinto que afirmavam não haver ressurreição de mortos, e por implicação, negavam a ressurreição de Cristo, 15.12;

2.     Este falso ensino já estava contaminando alguns da Igreja, 15.33;

3.     Os defensores desta idéia questionavam aspectos da ressurreição dos mortos, 15.35;

4.     Paulo os considera como estando em pecado e não terem o verdadeiro conhecimento de Deus, 15.34.

 

III - A ARGUMENTAÇÃO DE PAULO

1.     A ressurreição é um fato provado, 15.1-13

2.     Negá-la traz terríveis conseqüências, 15.14-19

3.     Por que a ressurreição demora, 15.20-28

4.     Exortações severas contra incrédulos, 15.29-34

5.     Respostas sobre o corpo ressurreto, 15.35-49.

6.     O caso dos vivos na vinda de Cristo, 15.50-57

7.     Aplicação, 15.58


IV - A RESSURREIÇÃO DE CRISTO COMO FATO PROVADO E ESTABELECIDO

1.     A importância de nos mantermos firmes no ensino apostólico, 15.1-2;

2.     O testemunho das Escrituras do Antigo Testamento, 15.3-4;

3.     O testemunho dos apóstolos e de outros que viram Cristo ressurreto, 15.5-7;

4.     O testemunho de Paulo, 15.8-11;

5.     Negar a ressurreição dos mortos é negar a de Cristo, 15.12-13.

 

V - IMPLICAÇÕES DE SE NEGAR A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS E DE CRISTO

1.     Esvazia a pregação apostólica e a , 15.14;

2.     Torna os apóstolos em falsas testemunhas e perjuros, 15.15-16;

3.     Os crentes ainda terão de pagar por seus pecados, 15.17;

4.     Os crentes que morreram, na verdade, pereceram no inferno, 15.18;

5.     Somos os mais infelizes de todos, 15.19.

 

VI - POR QUE A RESSURREIÇÃO DEMORA?

1.     A certeza da ressurreição de Cristo, 15.20a;

2.     As “primícias” e o segundo Adão, 15.20-23;

3.     Os demais ressurgirão na vinda de Cristo, ao fim de sua obra, 15.23-24;

4.     A causa da demora: ele já reina, mas ainda restam alguns inimigos a serem colocados debaixo de seus pés, 15.25-26;

5.     Tudo está sujeito à vontade do Pai, 15.27-28.


VII - EXORTAÇÕES SEVERAS CONTRA OS CORÍNTIOS

1.     Os heréticos estão mais corretos! 15.29;

2.     Se mortos não ressuscitam, só nos resta nessa vida comer e beber! 15.30-32;

3.     Cuidado com as más companhias, 15.33;

4.     Retornem à sobriedade – não crer na ressurreição de mortos é não conhecer a Deus, 15.34.


VIII - RESPOSTAS SOBRE O CORPO DA RESSURREIÇÃO

1.     A pergunta dos incrédulos, 15.35;

2.     A natureza do corpo ressurreto, 15.35-49:

3.     O sepultamento como semeadura, 36-37

4.     Existe diferença de carne e corpos, 38-41

5.     Comparação  com o corpo futuro, 42-44

6.     Cristo, o último Adão e o segundo homem, 15.45-49


IX - A TRANSFORMAÇÃO DOS VIVOS NA VINDA DO SENHOR

1.     E os que estiverem vivos por ocasião da ressurreição dos mortos? 15.50

2.     Trata-se de um “mistério” que Paulo recebeu do Senhor e que agora revela, 15.51.

3.     Os vivos serão “transformados” na vinda do Senhor, 15.51-52;

4.     A necessidade para isso, 15.53

5.     Representará a vitória final sobre a morte, 15.54-56

 

CONCLUSÃO

Diante da realidade da ressurreição e da glória que nos espera, Paulo encoraja os coríntios a continuarem firmes na obra do Senhor. Ela não é , pois haverá ressurreição de mortos! 15.58.

quarta-feira, abril 04, 2012

Verdades e Mitos sobre a Páscoa

Nesta época do ano celebra-se a Páscoa em toda a cristandade, ocasião que só perde em popularidade para o Natal. Apesar disto, há muitas concepções errôneas e equivocadas sobre a data.

A Páscoa é uma festa judaica. Seu nome, “páscoa”, vem da palavra hebraica pessach que significa “passar por cima”, uma referência ao episódio da Décima Praga narrado no Antigo Testamento quando o anjo da morte “passou por cima” das casas dos judeus no Egito e não entrou em nenhuma delas para matar os primogênitos. A razão foi que os israelitas haviam sacrificado um cordeiro, por ordem de Moisés, e espargido o sangue dele nos umbrais e soleiras das portas. Ao ver o sangue, o anjo da morte “passou” aquela casa. Naquela mesma noite os judeus saíram livres do Egito, após mais de 400 anos de escravidão. Moisés então instituiu a festa da “páscoa” como memorial do evento. Nesta festa, que tornou-se a mais importante festa anual dos judeus, sacrificava-se um cordeiro que era comido com ervas amargas e pães sem fermento.

Jesus Cristo foi traído, preso e morto durante a celebração de uma delas em Jerusalém. Sua ressurreição ocorreu no domingo de manhã cedo, após o sábado pascoal. Como sua morte quase que certamente aconteceu na sexta-feira (há quem defenda a quarta-feira), a “sexta da paixão” entrou no calendário litúrgico cristão durante a idade média como dia santo.

Na quinta-feira à noite, antes de ser traído, enquanto Jesus, como todos os demais judeus, comia o cordeiro pascoal com seus discípulos em Jerusalém, determinou que os discípulos passassem a comer, não mais a páscoa, mas a comer pão e tomar vinho em memória dele. Estes elementos simbolizavam seu corpo e seu sangue que seriam dados pelos pecados de muitos – uma referência antecipada à sua morte na cruz.

Portanto, cristãos não celebram a páscoa, que é uma festa judaica. Para nós, era simbólica do sacrifício de Jesus, o cordeiro de Deus, cujo sangue impede que o anjo da morte nos destrua eternamente. Os cristãos comem pão e bebem vinho em memória de Cristo, e isto não somente nesta época do ano, mas durante o ano todo.

A Páscoa, também, não é dia santo para nós. Para os cristãos há apenas um dia que poderia ser chamado de santo – o domingo, pois foi num domingo que Jesus ressuscitou de entre os mortos. O foco dos eventos acontecidos com Jesus durante a semana da Páscoa em Jerusalém é sua ressurreição no domingo de manhã. Se ele não tivesse ressuscitado sua morte teria sido em vão. Seu resgate de entre os mortos comprova que Ele era o Filho de Deus e que sua morte tem poder para perdoar os pecados dos que nele creem.

Por fim, coelhos, ovos e outros apetrechos populares foram acrescentados ao evento da Páscoa pela crendice e superstição populares. Nada têm a ver com o significado da Páscoa judaica e nem da ceia do Senhor celebrada pelos cristãos.

Em termos práticos, os cristãos podem tomar as seguintes atitudes para com as celebrações da Páscoa tão populares em nosso país: (1) rejeitá-las completamente, por causa dos erros, equívocos, superstições e mercantilismo que contaminaram a ocasião; (2) aceitá-las normalmente como parte da cultura brasileira; (3) usar a ocasião para redimir o verdadeiro sentido da Páscoa.

Eu opto por esta última.