sábado, janeiro 05, 2013

"Só Presto Contas a Deus"



Esse é o pensamento do evangélico típico de nossos dias.

Quando fui perguntado recentemente por alguém sobre a maior necessidade da igreja evangélica no Brasil não tive dúvidas em responder que é o exercício da disciplina bíblica. Sei que existem igrejas que disciplinam seus membros e líderes e até cometem abusos nisso. Mas creio que já se tornaram a minoria. Na minha avaliação, a grande maioria das igrejas de todas as denominações não exerce a disciplina eclesiástica sobre seus membros e líderes, ou quando o fazem, o fazem de forma equivocada, arbitrária e sem levar em consideração os ensinamentos das Escrituras sobre o assunto.

Para mim esse assunto é relevante, pois a disciplina da Igreja tem como alvo manter a sua pureza e restaurar os faltosos, e se constitui numa das marcas da verdadeira Igreja de Cristo. Onde os pecados passam impunes, os faltosos não são repreendidos, corrigidos e restaurados, onde os líderes cometem pecados públicos claros e não dão conta a ninguém de seus atos, poderá estar ali a verdadeira Igreja do Senhor, pela qual ele derramou seu sangue precioso, em busca de um povo puro e santo?

Para mim, tudo começa pela absoluta falta de dar conta de seus atos que caracteriza líderes e membros das igrejas. Ninguém se sente devedor a ninguém, senão a Deus – esquecendo que foi o próprio Deus quem instituiu a disciplina eclesiástica como instrumento do seu desejo de manter a Igreja pura e restaurar os caídos. Isso é claro especialmente no caso de líderes que construíram seu império eclesiástico e que não se encontram debaixo de qualquer pessoa ou grupo que poderia corrigi-los e discipliná-los em caso de falta. Pecam impunemente em nome do perdão e da tolerância divina.

As próprias igrejas não exercem a vigilância, o zelo e o cuidado que deveriam para com seus membros faltosos. Preferem ocultar os pecados cometidos ou exercer algum tipo de restrição que mal pode ser reconhecida como disciplina. E os membros – não se sentem obrigados a prestar contas de seus atos às igrejas que freqüentam e portanto, em caso de serem argüidos de seus pecados e erros, não se sujeitam e não acatam qualquer medida corretiva e simplesmente mudam-se para outra igreja.

Na minha opinião, é um estado caótico de coisas, que compromete a imagem dos evangélicos diante do povo, que toma conhecimento do comportamento irregular de líderes e crentes pela mídia. Juntamente com a crise de identidade e doutrinária, a falta de disciplina contribui para o agravamento da situação de UTI em que a igreja evangélica brasileira se encontra.

14 comentários:

Unknown disse...



"Se me fosse pedido para explicar o porquê das coisas serem como elas são na igreja; se me fosse pedido para explicar porque as estatísticas mostram a diminuição de membros, da falta de poder, e da falta de influência sobre o homem e a mulher... se me fosse pedido para explicar porque a igreja está nessa perigosa condição, eu certamente diria que a causa final é a falha no exercício da disciplina"

Martyn Lloyd-Jones

Pensando a Verdade disse...

Excelente!

Leandro Teixeira disse...

Eu conheço igrejas onde somente quando o pecado é sexual que a disciplina é imposta, e mesmo assim muito parcamente.

Böhler Peter disse...

“Sua cabeça vai rolar!” É melhor ninguém começar a pregar o arrependimento enquanto não confiar sua cabeça ao céu”. Joseph Parker

Bill Hamilton disse...

Tive o privilégio de participar numa disciplina eclesiástica em nossa igreja de Campinas, SP, nos anos 90. Eu digo "privilégio" porque eu pude ver, de perto, os benefícios dessa prática.

Era missionário de uma missão para-eclesiástica naquela época. Éramos membros de uma igreja cujos pastores eram, como nós, norteamericanos. O pastor titula, também missionário, juntou a liderança da igreja para apresentar o problema (dois jovens "encheram a cara" e transaram com uma prostituta) e explicar o procedimento bíblico.

Tivemos uma assembléia com todos, dando oportunidade para os dois jovens (um era líder dos jovens e o outro era vice) falaram para a igreja. O líder dos jovens pegou o microfone e pediu perdão; o vice não quis dizer nada.

Como igreja decidimos tirar os cargos desses jovens e mantê-los no banco por um ano; depois desse ano, íamos reavaliá-los para ver suas condições de exercer alguma função na igreja.

Alguns jovens ficaram alterados durante a assembléia porque não concordaram com a maneira que seus "líderes" estavam sendo humilhados "em público". Esses jovens revoltados acabaram saindo da igreja, inclusive o vice. Eventualmente o ex-líder dos jovens saiu por causa da vergonha que ele sentia.

Os jovens que ficaram se tornaram um grupo de jovens exemplar, ao meu ver. Além de realizarmos um estudo do livro "A busca da santidade" (autor: Jerry Bridges) juntos, os jovens começaram se encontrar todo sábado de manhã para evangelizar no maior parque da cidade. Eles levavam os frutos deste evangelismo para a igreja, e esses novos convertidos entravam num grupo de jovens sério e santo!

No início eu descrevi essa disciplina como um privilégio. Realmente Deus a usou para "limpar a casa" daqueles que não queriam levar a sério a Palavra e "filtrar" aqueles que entendiam a prioridade de princípios bíblicos acima da "vergonha" humana.

O ex-vice e vários outros "irmãos" sumiram - uns 15 a 20. Aqueles que ficaram transformaram o grupo de jovens em algo sério para a glória de Deus. Quatro desses jovens fizeram seminário e se tornaram missionários (um casal trabalhou uns 5 anos entre os índios de Roraima). Até o ex-líder dos jovens voltou um pouco mais de um ano depois e, publicamente, pediu perdão de novo à igreja. Ele estava numa outra igreja cujo pastor insistiu que cada candidato à membresia "faça as pazes" com sua antiga igreja.

Realmente, quando a igreja levar a sério a Palavra, independentemente da cultura, Deus honrará essa igreja. Pode perder alguns no início, mas a qualidade e o compromisso daqueles que permanecem vão melhorar, sem dúvida!

O pregador disse...

Eu sou filho de Pastor, Também Pastor. Se eu fosse dizer o que já ouvir e sei sobre isso não dava mais pra ninguém postar nada.
Portanto, só posso dizer excelente texto meu caro Reverendo. excelente texto.
SOLI DEO GLORIA.

Marcelo disse...

Em minha cidade, Sorocaba/Sp, lá pelos anos 1970, não era tão comum alguém mudar de igreja e, quando o fazia, era ou por motivos do tipo "virei pentecostal" ou quando havia casamento de membros de denominações diferentes, sendo que neste caso o casal ficava na igreja de um dos cônjuges.
Atualmente, as pessoas mudam de igreja rapidamente e se são disciplinadas em caso de pecado, não titubeiam e mudam para outra igreja.
E o pior, o pastor da nova igreja nem pede carta de recomendação ou entra em contato com o pastor da igreja da qual a pessoa saiu para saber qual o motivo.
Mais um para fazer número, para trabalhar e para dar o dízimo.
Por isso, além de pessoas que tiveram problemas de disciplina, divorciados que se casam de novo, às vezes mais de uma vez, usam deste expediente para não serem confrontados.
O caso citado pelo irmão Bill Hamilton, é louvável. Infelizmente está se tornando cada vez mais uma exceção.

Daniel Viana Morais disse...

muito bomm!!!!!!!!!!!!!!

Cristiano Pereira de Magalhães disse...

Rev. Augustus e demais irmãos,

Não tenho dúvidas de que a disciplina é Bíblica e deve ser aplicada na Igreja.
Mas, há alguns pontos que não me deixam confortável.
a) Nunca vi ninguém (ou Igreja alguma) aplicar o critério de Mateus 18 - obviamente, se for realmente aplicado, não é mesmo para ser divulgado e conhecido, pois a situação é resolvido diretamente com o faltoso ou na presença de duas testemunhas. Esse cuidado prévio é esquecido...
b) Por que só o pecado sexual é objeto de disciplina? - 99% dos casos de disciplina dizem respeito a adultério, gravidez antecipada (normalmente adolescentes ou jovens) e união estável. E os outros pecados? Por exemplo, será que a soberba não é mais perigosa? O que se diria da “fofoca”?
c) Disciplina não significa humilhação pública ou exposição ao ridículo. Já ouvi um comentário de um pastor experimentado que nesses casos, quem se senta no primeiro banco da igreja, para assistir ao show, é o próprio diabo, dando risada... Não sei se chega a esse ponto do comentário sarcástico que ouvi... Mas, na maioria das vezes, o faltoso que é humilhado em público some da igreja, apostata etc.. É pronunciada a disciplina e dá início ao falatório...
O objetivo maior é a recuperação do faltoso e, em paralelo, a manutenção da pureza da Igreja. Creio que nenhum dos dois objetivos são alcançados. O faltoso abandona a Igreja pela vergonha e a pureza fica prejudicada pela “fofoca e soberba”.
Mas o que fazer? (continua...)

Cristiano Pereira de Magalhães disse...

Continuação...

Meditei muito já sobre o tema. Há instrumentos na Bíblia para permitir a correta aplicação da disciplina.
I) – Chamado ao arrependimento – o faltoso deve ser confrontado por seu pecado pessoalmente pela liderança, de forma reservada e direta. Dessa maneira, é dada a oportunidade para o arrependimento. Natã não fez isso com Davi (2 Samuel 12)? Vide Mateus 18.15. O verdadeiro crente comente pecados e, às vezes, em determinada situação está com seu coração endurecido e enganado pelo pecado (Hebreus 3. 13)e necessita dessa exortação para arrependimento.
II) – Faltas públicas – a falta pública deve ser disciplinada em público para que a igreja mostre que não é conivente com o ato pecaminoso (1 Coríntios 5). Mas, o mesmo cuidado deve ser adotado. Antes de anunciar publicamente a disciplina deve ser procurado o faltoso, de forma reservada e pessoal, para lhe dar a oportunidade para arrependimento, ainda que seja necessário que ocorra na presença de duas ou três testemunhas, tudo conforme o roteiro de Mateus 18. E deve ser dito no momento da disciplina que o faltoso foi procurado e lhe foi dada a oportunidade para o arrependimento e esse concordou ou não.
Não tenho dúvidas de que a disciplina não é abençoadora na vida de um crente se não for dada a oportunidade para arrependimento. É evidente que só DEUS conhece o coração e a sinceridade do arrependimento. Portanto, como homens, só podemos julgar pelos frutos. A sanção é inevitável, e deve ser aplicada com cuidado e observando se é o caso ou não de ser pública. Quando há arrependimento sincero, naturalmente se aceita as conseqüências do pecado e busca-se o perdão de DEUS.
III – Ausente o arrependimento – nesse caso, deve ser dito à igreja e o faltoso excluído da comunhão (Mateus 18.17). Creio que se o pecado se enquadrar na exceção de 1 João 5.16, acho que o cuidado seria prescindível. Mas, como pecadores que somos, teremos condições de aferir que se trata de “pecado para a morte”? Só DEUS pode dar a palavra final. Portanto, acho que esse cuidado prévio é fundamental em qualquer situação.
Quanto ao mais, creio que a crise moral porque passa a Igreja deve ser combatida. Os nossos púlpitos, com raras e honrosas exceções, não combatem o pecado e, muitos, ficam sem a devida exortação!
A exortação é uma vacina que ajuda a diminuir a incidência do pecado. Ataca-se a causa, enquanto a disciplina, quando o fato já está consumado!!!
Não sei se já leram a crônica de Machado de Assis “O Alienista”. Em resumo, conta a estória de um médico psiquiatra que encontra loucura em todas as personagens e, por conta disso, interna, compulsoriamente, cada uma. Encerra a crônica, ele próprio se trancafiando...
Lembram-se das Palavras do SENHOR à Igreja de Laodicéia? A exortação e disciplina são atos de amor (Ap. 3.19) e, sem amor, não adianta ter fé (1 Coríntios 13)!!!
Em suma, entendo que a disciplina é necessária, mas com zelo e amor. Não é show, nem humilhação pública ou exposição ao ridículo... Todos somos pecadores e só pela misericórdia de DEUS que não cometemos o mesmo pecado que está sendo exposto!!!
O exemplo que o irmão Bill Hamilton contou tem um lado triste. Um dos jovens se perdeu... Estava na igreja, participava dos trabalhos e, por um pecado isolado (não estou diminuindo a gravidade do fato), saiu deliberadamente da igreja... A exposição pública em uma Assembléia não encontra fundamento na Bíblia, pois fere a gradação de Mateus 18.
O cuidado na aplicação disciplina é prova concreta do amor que a Igreja deve ao faltoso! Esse cuidado se manifesta, antes, durante e depois!
Soli DEO Gloria!!!

Cristiano Pereira de Magalhães

Enrico Santos disse...

O texto realmente aborda uma questão muito importante, que inclusive também vivenciei em minha congregação. É verdade, quem ama disciplina. No inicio, a situação é muito desconfortante, mas no futuro gera frutos de arrependimento e amor entre os irmãos.
Mas o que se esperar de uma igreja que não tem doutrina sã nem lembranças da velha e boa ortodoxia cristã e mal conhece a sua própria história? Disciplina? Manda outra...!!!

Wanderley Santana disse...

Realmente acho muito estranho a maneira como grande parte dos crentes de nossos dias se comportam diante de situações onde o exercício da disciplina bíblica seria extremamente necessário.

De um lado há aqueles "crentes" que vivem em flagrante pecado sem qualquer resquício de arrependimento. E do outro, há aqueles que aparentemente vivem de modo digno, porém, veem tudo isso acontecendo na igreja e acham que é normal.

Segundo o autor da Carta aos Hebreus, a ausência de disciplina no tempo presente é característica dos "bastardos". Das duas uma: Ou Deus mudou sua forma de lidar com seu povo, ou esses "crentes" não são seus filhos.

Creio que a segunda opção seja a correta.

Abraço fraterno




Pb Fernando disse...

Infelizmente em muitas igrejas o único pecado cuja disciplina é aplicada, é o pecado de ordem sexual, e isso apenas para os crentes pobres.

Adriano Modolo disse...

Concordo com o Cristiano Pereira de Magalhães. Aqui em Piracicaba-SP temos igrejas que não disciplinam e as que exageram. Temos inclusive aquelas em que não se compra um chicletes sem falar com o "líder". A questão é a cultura da época e a cultura de hoje...