sábado, janeiro 04, 2014

Augustus Nicodemus Lopes

E quem fez pacto com o diabo, não tem que quebrar as maldições em sua vida, mesmo depois de crente?


Tem sido argumentado que o Brasil é um país místico, cuja grande parte da população tem se envolvido, uma vez ou outra, com o oculto. A quantidade de pessoas envolvidas com espíritos malignos é muito grande, quer através de procura consciente de contato com entidades espirituais, quer através de “inocentes” consultas aos búzios e leitura das linhas das mãos. As implicações de toda esta abertura para o reino das trevas, argumenta-se, é que dificilmente encontraremos nas igrejas pessoas que foram convertidas como adultas, e que não tiveram, ao menos, uma passagem superficial pelo mundo dos espíritos. Tais pessoas estão sujeitas a serem molestadas, oprimidas e mesmo invadidas por estes espíritos, aos quais deram o direito de entrar em suas vidas no passado, se não anularem estes “pactos” que foram feitos com eles, mesmo que inconscientemente.

A pergunta é se o tratamento recomendado nas Escrituras para estas pessoas é a prática de “quebra de maldições”, a anulação de pactos com demônios.

O mundo em que os apóstolos pregaram o Evangelho era infestado pelo ocultismo, e pela idolatria, possivelmente de forma tão intensa quanto o Brasil de hoje. Muitos dos convertidos pelos apóstolos vieram de um passado de ocultismo, artes mágicas e feitiçaria. Entretanto, em nenhum momento os apóstolos consideraram necessário acrescentar ao arrependimento e à fé coisas como quebra de maldições ou anulação de pactos com espíritos.

Um dos locais mais infestados era Éfeso. A cidade era conhecida como um centro de artes mágicas, e pelo culto da deusa Artemis (Diana). Esta deusa da mitologia grega era conhecida como a deusa do submundo, que controlava espíritos da natureza e dos animais selvagens. Sua imagem era coberta com os símbolos do Zodíaco, para lembrar aos adoradores de Éfeso que ela era uma divindade cósmica, com controle sobre os espíritos determinantes do destino.

Quando Paulo ali pregou o Evangelho, muitos efésios converteram-se a Cristo, boa parte dos quais havia se envolvido com artes mágicas, e certamente com o culto a Diana (Atos 19.18-20, 26-27). Como testemunho público de que já haviam sido libertos e resgatados pelo poder do Espírito Santo, vieram a público queimar seus livros de magia negra. Não foi pelo atear fogo naqueles livros que ganharam sua plena libertação. Eles já haviam sido libertados, quando creram (At 19.18).

Mais tarde, quando lhes escreveu a carta que conhecemos como Efésios, o apóstolo Paulo não sentiu nenhuma necessidade de instrui-los a quebrar maldições que fossem resultado de pactos ainda pendentes com o antigo culto aos demônios com que se envolveram no passado

Antes, em sua primeira viagem missionária, Paulo havia levado à Cristo o procônsul Sérgio Paulo, na ilha de Patmos (Atos 13.4-12). Sérgio Paulo havia se envolvido com artes mágicas, pois tinha ao seu lado um judeu mágico, um bruxo, chamado Barjesus. Possivelmente era seu conselheiro espiritual, conforme prática antiga — e bem moderna! — de oficiais e governadores de consultar videntes para tomar resoluções. Após a conversão de Sérgio Paulo, o apóstolo nada lhe recomendou em termos de quebrar os pactos antigos feitos com os espíritos malignos através dos serviços do bruxo.

Um outro exemplo de como os apóstolos tratavam convertidos que vinham do ocultismo é o relato da conversão dos samaritanos em Atos 8. Lemos ali que os samaritanos em pêso seguiam a Simão Mago, um bruxo que praticava artes mágicas, e que era o líder espiritual da cidade, ou da região (Atos 8.9-11). Certamente a maioria dos moradores da cidade já havia, uma vez ou outra, se envolvido com Simão, através de consultas, “trabalhos”, invocação de mortos, e outras práticas ocultas populares daquela época. Quando Felipe ali chegou pregando o Evangelho no poder do Espírito, muitos deles deram-lhe crédito, e foram convertidos a Cristo. Felipe os batizou (Atos 8.12). O próprio bruxo foi batizado (8.13).

Mais tarde, os apóstolos vieram de Jerusalém examinar estes convertidos. Nada acrecentaram ao que Felipe já havia feito, a não ser orar para que os convertidos recebessem o Espírito Santo — procedimento necessário para que ficasse claro que, à semelhança dos Judeus no dia de Pentecostes, outros povos podiam também ser aceitos na Igreja de Cristo (At 8.16-17). Nenhuma palavra sobre o passado deles na feitiçaria! Nenhuma instrução a Felipe para que anulasse os pactos demoníacos daquela gente! Os apóstolos consideraram que a obra de Cristo nos samaritanos, convertendo-os, era suficiente para romper os laços antigos de pecado, ignorância, superstição e incredulidade.


E mesmo quando o bruxo deu sinais de que ainda estava “amarrado” ao seu passado, a orientação de Pedro foi: “arrepende-te e ora ao Senhor” (Atos 8.22). Pedro viu que Simão estava ainda “em fel de iniquidade e laço de amargura” (Atos 8. 23), mas não julgou que a solução seria “anular” os compromissos do bruxo com o mundo dos espíritos. A solução era um verdadeiro arrependimento e oração ao Senhor.


As tendências destas ênfases da “batalha espiritual”, portanto, acaba sendo a de diminuir o poder e a eficácia da suficiência de Cristo na vida do crente, ao introduzir a necessidade de coisas como a quebra de maldições hereditárias como condição para que o crente verdadeiro usufrua plenamente das bênçãos que Deus lhe tem reservado em Cristo.

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

10 comentários

comentários
Robson Porto
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4/1/14 20:00 delete

Sinceramente reverendo, as vezes tenho a impressão de que as pessoas que creem em “batalha espiritual”, nunca leram a Bíblia!


Deus abençoe!

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Amanda Cali
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5/1/14 15:19 delete

Como sempre, agradeço pelo texto, realmente muito bom e muito clara sua explicação.
Confesso que por muito tempo acreditei em todas essas coisas de batalhas espirituais e maldições hereditárias e quebra de maldições etc...
Porém há alguns anos atrás quando conheci a fé reformada, me deparei com uma realidade bem diferente que mudou muita coisa na minha vida e na minha maneira de enxergar as coisas de Deus.
Hoje entendo que mesmo quando lemos a palavra, se Deus não nos trouxer a luz, o entendimento correto, facilmente somos levados por qualquer palavra que ouvimos por aí.
Hoje enxergo cada texto de uma forma tão diferente, que fico maravilhada em descobrir tantas coisas que antigamente estavam meio que "ocultas" aos meus olhos.
Por isso agradeço a Deus por levantar homens como o Sr. que tem acrescentado muita coisa na minha vida, e Deus é sem dúvida o Autor de todas essas coisa, pois é Ele quem nos abre os olhos para ver as coisas como elas verdadeiramente são.
Quanto mais lemos, mais aprendemos.

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5/1/14 15:26 delete

Excelente post.
O mesmo apóstolo Paulo disse, certa feita, aos gálatas: "Foi para a liberdade que Cristo os libertou." - Gálatas 5.1.

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Bruno Lima
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6/1/14 08:05 delete


Pastor o senhor tem usado o email do Terra ainda? Te enviei 2 dúvidas que tenho se puder me responder ficarei muito grato. Desculpe escrever por aqui mas no face não consigo mandar mais mensagens na sua pagina.

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Alex Esteves
AUTOR
6/1/14 12:52 delete

Rev. Augustus,

Esse é mais um post excelente, repleto de informações úteis e bíblicas.
Como pentecostal histórico (Assembleia de Deus), sei que a teologia da Batalha Espiritual teima em querer assediar os pentecostais, mas não tem guarida na doutrina pentecostal. Por falta de cuidado ou seja lá o que for, líderes de igrejas têm deixado que pregadores de Batalha Espiritual falem de maldição hereditária e outras bobagens, mas isso não tem nada que ver com o pentecostalismo.
Então, essa é uma das frentes em que o Movimento Pentecostal também peleja ao lado dos reformados.
Em Cristo,
Alex.

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Alex Esteves
AUTOR
7/1/14 13:02 delete

Rev. Augustus,

aguardo a continuação da série sobre Lucas.

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Rafael S.
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9/1/14 20:20 delete

Nicodemus, um artigo tem confundido muito minha mente afirmando com argumento que o inferno não é eterno, eu não consigo refutar esses argumentos deste site http://www.verdadeemfoco.com.br/estudo.php?id=45 gostaria de lhe pedir encarecidamente que o senhor refute se possivel esse artigo parte por parte, para que eu possa não ficar confuso. Sei que pode ser um pouco demorado por isso terei paciencia, afinal sou eu o necessitado. Obrigado.

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16/1/14 14:18 delete

Rafael S., Graça e Paz

Vi seu pedido ao Augustus e dei uma olhada naquele link, superficialmente. Parece algo dos testemunhas de Jeová. Negam a imortalidade da alma e a eternidade do inferno, através de ampla argumentação. Não sou especialista, mas creio na visão tradicional cristã. Até pela lógica, apenas algumas poucas seitas acreditam na interpretação do inferno não eterno. Não consigo ver Apocalipse 20, v10 como algo não eterno. Além disso, se o inferno não é eterno, o céu então também não seria?

Paz

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12/2/14 15:49 delete

fico admirado com os comentários dizendo que isso não existe ou não há necessidade de se fazer desligamento e arrependimentos dessas coisa, sou líder de igrejas e tenho uma imensa experiencia nessa área e o que mais me deparo são com crentes e até obreiros possessos por demônios e muita maldição, se tudo estivesse escrito dentro da bíblia toda a vida diária dos apóstolos não caberia, mas um dia vcs terão experiencias como eu e ai sim suas opiniões serão mudadas.


Apóstolo Sidnei Freitas

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27/6/14 04:35 delete

Coloque referências bíblicas contextualizadas para levantar um debate ao invés de só ficar admirado baseado em experiência de vida. Entrei duas vezes nesse blog e, pelo que vi, há uma preocupação tamanha com a sã doutrina. Talvez tenha até algum post sobre o apostolado que também seria proveitoso para o Sr.
Daniel H. Martins

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