sábado, novembro 18, 2017

Mauro Meister

O Legado de Calvino

Quais foram, afinal, as contribuições de Calvino para o campo da exegese bíblica? Ao contrário da imagem rígida transmitida pelas gravuras que retratam a face do reformador, somada à densidade das Institutas e às suas asseverações contundentes encontramos nos seus comentários (especialmente no de Salmos) a face e voz de um homem que compreende profundamente os senti- mentos da alma. Ele mesmo afirma na introdução aos Salmos que denomina este livro “Uma anatomia de todas as partes da alma”, e por certo ele escrutina a sua própria alma em seus comentários. Aliás, é na dedicatória do comentário de Salmos que encontramos alguns raros e preciosos dados autobiográficos de Calvino. O tom de denúncia contra o erro nunca é esvaziado, mas a voz do pastor está sempre presente.
Assim, o primeiro legado de Calvino na área dos princípios de interpretação e exegese do texto bíblico é proveniente do seu propósito ao desenvolve-los: entender a Palavra de Deus e faze-la clara ao seu povo por meio da pregação. Para tanto, ele parte do mais alto apreço ao valor das Escrituras, numa época em que a mesma era colocada abaixo da autoridade da Igreja Romana e sua tradição. Na luta contra essa avassaladora tradição, o reformador sabia que não podia expor a Escritura meramente com o poder humano. O verdadeiro intérprete e expositor é um instrumento nas mãos do Deus todo-poderoso, transmitindo com fidelidade a vontade do seu autor. Logo, devemos apontar como legado de Calvino, em primeiro lugar, um legado pastoral: a interpretação para a pregação. A evidência clara disto está no fato de que seus comentários foram escritos para a pregação bíblica e são fruto da mesma. Resta-nos, no presente tempo, aprender com Calvino que o estudo da Palavra não é um fim em si mesmo. Com o advento do liberalismo, o estudo da Escritura tornou-se mero exercício acadêmico, desvinculado do compromisso da fé́, voltado mais para a satisfação das inquirições especulativas da mente humana do que para o conhecimento do Deus que se revela nas Escrituras. Com certeza, para Calvino essa busca seria vã̃ e inglória.
A segunda grande contribuição do reformador foi a sua incansável busca do sentido pleno do texto bíblico e a sua tentativa de livrar-se da interpretação alegórica e seus danos para a igreja. Isto não implicou, para Calvino, em interpretação literalista. Ele via a necessidade de uma interpretação simples que compreendia o escopo e a abrangência do texto, a intencionalidade do autor e a mensagem completa da Escritura. Acredito que esta contribuição específica de Calvino nos aponta em duas direções importantes. Primeiro, para o entendimento de que a mensagem da Escritura não se encontra numa compreensão rígida do texto bíblico, mas em uma compreensão fiel do texto, que considera todo o contexto e a dimensão divino-humana que ele carrega. Sobre os “ombros de gigantes”, usando de ferramentas literárias contemporâneas, não contraditórias ao conceito da inspiração das Escrituras, creio que temos como dar seguimento ao que Calvino começou em seu tempo: continuar na busca do sentido pleno do texto bíblico. Por outro lado, como Calvino fez, devemos aprender a respeitar o legado que nos foi deixado pelos antepassados, aprendendo com eles.
A terceira grande contribuição que vemos da parte de Calvino, na exegese que ele mesmo praticou, foi a sua forma de exposição, tanto da exegese em si (seus comentários) quanto do seu fruto (os sermões). Certamente a sua rejeição da retórica frívola, em favor de uma retórica sóbria e inteligente, deveria nos ensinar a ensinar. Nos seus sermões, Calvino entregou à congregação de Genebra uma dieta constante de ensino bíblico em exposições consecutivas. Para tanto, precisava primeiro aplicar-se à exegese do texto. Com isto não estou defendendo uma exposição textual versículo a versículo como método de ensino. Por outro lado, estou defendendo a exposição consecutiva de livros inteiros da Bíblia. Assim, todo o conselho de Deus será́ ensinado e os temas e trechos que constrangem o pregador não poderão ser evitados.
Uma quarta grande contribuição do reformador de Genebra foi o seu apreço pelas línguas originais e seu papel na compreensão do texto. Hoje, temos excesso de ferramentas e escassez de bons intérpretes nos púlpitos das igrejas locais. Muitas vezes as línguas bíblicas têm sido uma mera formalidade dos estudos acadêmicos e preparatórios, isto quando não são totalmente abandonadas. Não só́ devemos aprender as línguas, mas aprender a usar com competência o universo de ferramentas para o estudo das línguas originais que sequer se imaginava estariam um dia disponíveis.

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Muitas outras foram as contribuições de Calvino no campo da exegese bíblica. O simples fato de que seus comentários, publicados há quase 500 anos, continuam a ser traduzidos e reimpressos em várias línguas é evidência suficiente de que seu legado é permanente para a igreja cristã e sua história.

Mauro Meister

Postado por Mauro Meister.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.