sábado, fevereiro 25, 2006

Solano Portela

O CARNAVAL


Jerônimo Gueiros (1880-1954) foi um ministro presbiteriano nordestino muito conhecido por seu rico ministério, no Recife, e por suas qualificações como literato e apologista da fé cristã. De sua lavra surgiram artigos penetrantes, livros inspiradores e poesias tão belas quanto incisivas e pertinentes aos temas apresentados.

Nesta época do ano lembro e coloco, neste espaço, a poesia de sua autoria com o título acima. Nunca me canso de lê-la e de apreciar tanto a estética do texto como a sua contemporaneidade:

Carnaval! Empolgante Carnaval!
Festa vibrante!Festa colossal!

Festa de todos: de plebeus e nobres,
Que iguala, nas paixões, ricos e pobres.
Festa de esquecimento do passado,
De térreo paraíso simulado...

Falsa resposta à voz do coração
De quem não frui de Deus comunhão,
Festa da carne em gozo desbragado,
Festa pagã de um povo batizado,

Festa provinda de nações latinas
Que se afastaram das lições divinas.
Ressurreição das velhas bacanais,
Das torpes lupercais, das saturnais

Reino de Momo, de comédias cheio,
De excessos em canções e revolteio,
De esgares, de licença e hilaridade,
De instintos animais em liberdade!

Festa que encerra o culto sedutor
De Vênus impúdica em seu fulgor.
Festa malsã, de Cristo a negação,
Do "Dia do Senhor" profanação.

Carnaval!Estonteante Carnaval!
Desenvoltura quase universal!

Loucura coletiva e transitória,
Deixa do prazer lembrança inglória,
Festa querida, do caminho largo,
De início doce, mas de fim amargo...

Festa de baile e vinho capitoso,
Que morde como ofídio venenoso,
Que tira do homem sério o nobre porte,
E gera o vício, o crime, a dor e a morte.

Carnaval!Vitando Carnaval!
Festa sem Deus!Repúdio da moral!
Festa de intemperança e gasto insano!
Trégua assombrosa do pudor humano,

Que solta a humana besta no seu pasto:
O sensualismo aberto mais nefasto!
Festas que volve às danças do selvagem
E do africano, em fúria, lembra a imagem,

Que confunde licença e liberdade
Nos aconchegos da promiscuidade
Sem lei, sem norma, sem qualquer medida,
Onde a incauta inocência é seduzida,

Onde a mulher, às vezes, perde o siso
E o cavalheiro austero o são juízo;
Onde formosas damas, pela ruas,
Exibem, saltitando, as formas suas,

E no passo convulso e bamboleante,
Em requebros de dança extravagante,
Ouvem, no "frevo" , as chufas e os ditados
Picantes, de homens quase alucinados,

De foliões audazes, perigosos,
Alguns embriagados, furiosos!
Muitos, tirando a máscara, em tais dias,
Revelam, nessas loucas alegrias,

A vida que levaram mascarados
Com a máscara dos homens recatados...
Carnaval!Perigoso Carnaval!
Que grande festa e que tremendo mal!

Brasil gigante, atenção! Atenção!
O Carnaval é festa de pagão!
Repele-o! Que te traz só dor e morte!
Repele-o! E inspira em Deus a tua sorte.

Rev. Jerônimo Gueiros.

Solano Portela

Postado por Solano Portela.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

9 comentários

comentários
27/2/06 14:04 delete

Solano,

engraçado que os liberais e neo-liberais falam tanto que teologia é poesia.

Ta aí poesia de verdade com boa teologia.

Abraços!

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Wilson Bento
AUTOR
27/2/06 20:33 delete

Eu estava ontem na casa de uma familia de brasileiros que tem o canal da globo em casa e assisti por meia hora a tv, claro, tudo sobre carnaval.
Me senti como se estivesse sendo agredido, nao sei se eh porque estou a tanto tempo fora do Brasil e sem globo, mas o fato eh que aquilo me incomodou muito, demais.
Maranata, vem Senhor Jesus!!!!

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Adalberto TQS
AUTOR
1/3/06 17:06 delete

Eu nunca vi um politico evangélico apontando os estragos da festa de Carnaval. Não apenas em termos morais, eu creio q o carnaval traz grandes prejuízos ao país no q tange a segurança, saúde e outras areas sociais.
Tai uma coisa q eu gostaria de ver, uma político evangélico falando abertamente, e sem "evangeliquês" ao público, contra o carnaval.

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1/3/06 18:02 delete

Deus meu! Deus meu!

A poesia é enfadonha, cansa. Sinceramente, de péssimo gosto. Mas, o que se há de fazer, gosto é faz parte da formação de cada um, não deve ser dogmatizado, ou deve?

Já eu gosto do carnaval, pulei em blocos e não vi profanação, pulei em blocos e não vi bacanais.

Não concordo com a generalização feita, o carnaval é uma festa popular, é a cultura do nosso país. Claro que uma pessoa regida pela teologia estadunidense dificilmente apreciaria tal manifestação cultural.

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Norma
AUTOR
2/3/06 00:47 delete

O que é "teologia estadunidense"?

E o que ela tem a ver com não gostar de carnaval?

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2/3/06 16:08 delete

O carnaval também é usado para fins eleitoreiros, políticos. O Hugo Chavez financiou uma escola de samba do Rio de Janeiro. E não é que ela ganhou? (sei não).

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2/3/06 22:22 delete

Rômulo,

Realmente a poesia e a própria literatura de blog é uma questão de gosto. Percebi isto após visitar seu blog.

A Queda afetou não somente o homem enquanto indivíduo, mas nas suas relações, construções sociais, costumes e desenvolvimentos, ou seja, a cultura como um todo.

Não existe cultura neutra. É um mito pensar que a cultura e que manifestações culturais são neutras, inocentes e isentas. E isso em qualquer país. No nosso, a sexualidade, o erotismo, a sensualidade e a imoralidade permeiam nossa cultura e obviamente festas como o carnaval.

É óbvio que nem tudo na nossa cultura é sexo. Mas pouca coisa deixa de ser. Nem tudo no carnaval é necessariamente pecaminoso, mas numa avaliação final, prevalece a imoralidade sexual em suas várias manifestações.

Um abraço.

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silvia
AUTOR
3/3/06 08:53 delete

Pois é Norma...esta também é minha pergunta: seria "teologia estadunidense" uma teologia "made in Estados Unidos"?

Confesso que também não entendi...

Mas...voltando ao assunto do tópico. Quero compartilhar com os irmãos e amigos meu desabafo.

Moro no mesmo quarteirão da Mocidade Alegre! Sim, aquela que foi campeã em 2004 e que também a rainha da bateria sofreu queimaduras na testa,cabelo e na mão (virou heroína nacional!).

Posso até estar negligenciando a cultura do nosso país. Mas fica muito difícil e vou usar o termo insuportável, aguentar 07 meses de ensaios todos os domingos das 16:00 h até às 23:00 h!!!

Sem contar que um mês antes, os ensaios são: todas as 4ª, 6ª e domingos. Ninguém sai e não entra no condomínio, pois eles fecham as principais avenidas do bairro.

A bateria da escola,parece que está dentro do meu quarto de casal!!!

No mês de setembro, tem as 24 (vinte e quatro)horas de samba. Começa no sábado e termina no domingo. Chego na igreja parecendo que levei uma surra.

Por causa do barulho, não consigo falar ao telefone, não posso ouvir música, assistir televisão, dormir, ler um livro, conversar com minha filha, com meu marido.

Ligar para o Psiu? Reclamar nos orgãos responsáveis? Nem pensar! A resposta é sempre a mesma: "NÃO PODEMOS IMPEDIR UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL"!

A prefeitura até cedeu um terreno próximo a Marginal do Tietê. Isto foi há 04 anos e eles continuam aqui.

Eu e minha família voltamos de viagem na 3ª feira na torcida: "espero que eles não tenham ganhado o campeonato". Pois, caso o contrário, não poderíamos entrar em casa.

Por este e outros motivos, NÂO gosto de carnaval e achei a poesia de bom gosto! O gosto é mesmo relativo...um tanto subjetivo...ou não?

Abraços

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Alex Fajardo
AUTOR
3/11/10 20:12 delete

Jerônimo Gueiros foi um grande pastor no Recife, passei dois meses agora em Recife pesquisando sobre evangélicos no rádio, tema do mestrado que faço, e descobri um rico material sobre a família Gueiros que é o livro de David Gueiros.

Jerônimo faleceu em 1953, Recife praticamente parou para acompanhar o velório e o sepultamento. Parte do velório foram transmitidas até pelo rádio na época. O Jornal O Norte Evangélico dedicou toda edição seguinte apenas ao falecimento do pastor.

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