terça-feira, julho 25, 2006

Eu Não Sei

Recentemente li uma crítica feita aos calvinistas que eles costumam escapar de dilemas teológicos resultantes de sua própria lógica recorrendo ao conceito de “mistério”. Ou seja, os calvinistas, depois de se colocarem a si mesmos numa encruzilhada teológica, candidamente confessam que não sabem a resposta para a mesma.

A crítica em particular era sobre a doutrina da predestinação. Segundo a crítica, os calvinistas insistem que Deus decretou tudo que existe, mas quando chega o momento de explicar a existência do mal no mundo, a liberdade humana e a responsabilidade na evangelização, eles simplesmente dizem que não sabem a resposta para os dilemas lógicos criados: se Deus predestinou os que haveriam de ser salvos e condenados, como podemos responsabilizar os que rejeitam a mensagem do Evangelho? Os calvinistas, então, de acordo com a crítica, recorrem ao que é denominado de antinômio, a existência pacífica de duas proposições bíblicas aparentemente contraditórias que não podem ser harmonizadas pela lógica humana.

A verdade é que, além da soberania de Deus, temos outras doutrinas na mesma condição, como a definição clássica da Trindade, mantida não somente pelos calvinistas, mas pelo Cristianismo histórico em geral. Por um lado, ela afirma a existência de um único Deus. Por outro, afirma a existência de três Pessoas que são divinas, sem admitir a existência de três deuses.

Ao longo da história da Igreja vários tentaram resolver logicamente o dilema causado pela afirmação simultânea de duas verdades aparentemente incompatíveis. Quanto ao mistério da Trindade, as soluções invariavelmente correram na direção da negação da divindade de Cristo ou da personalidade e divindade do Espírito Santo; ou ainda, na direção da negação da existência de três Pessoas distintas. Todas essas tentativas sempre foram rechaçadas pela Igreja Cristã por negarem algum dos lados do antinômio.

Um outro exemplo foram as tentativas de resolver a tensão entre as duas naturezas de Cristo. Os gnósticos tendiam a negar a sua humanidade para poder manter a sua divindade. Já arianos, e mais tarde, liberais, negaram a sua divindade para manter a sua humanidade. Os conservadores, por sua vez, insistiram em manter as duas naturezas e confessar que não se pode saber como elas podem coexistir simultânea e plenamente numa única pessoa.

No caso em questão, as tentativas de solucionar o aparente dilema entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana sempre caminharam para a redução e negação da soberania de Deus ou, indo na outra direção, para a anulação da liberdade humana. No primeiro caso, temos os pelagianos e arminianos. No outro, temos os hipercalvinistas, que por suas posições deveriam mais ser chamados de “anticalvinistas”. Mais recentemente, os teólogos relacionais chegaram mesmo a negar a presciência de Deus pensando assim em resguardar a liberdade humana.

Há várias razões pelas quais eu resisto à tentação de descobrir a chave desses enigmas. A primeira e a mais importante é o fato que a Bíblia simplesmente apresenta vários fatos sem explicá-los. Ela afirma queum Deus e quetrês Pessoas que são Deus. Não nos dá nenhuma explicação sobre como isso pode acontecer, mesmo diante da aparente impossibilidade lógica do ponto de vista humano. Os próprios escritores bíblicos, inspirados por Deus, preferiram afirmar essas verdades lado a lado, sem elucidar a relação entre elas. Em seu sermão no dia de Pentecostes, Pedro afirma que a morte de Jesus foi predeterminada por Deus ao mesmo tempo em que responsabiliza os judeus por ela. Nãoqualquer preocupação da parte de Pedro com o dilema lógico que ele cria: se Deus predeterminou a morte de Jesus, como se pode responsabilizar os judeus por tê-lo matado? Da mesma forma, Paulo, após tratar deste que é um dos mais famosos casos de antinomínia do Novo Testamento (predestinação e responsabilidade humana), reconhece a realidade de que os juízos de Deus são insondáveis e seus caminhos inescrutáveis (Rm 11.33).

A segunda razão é a natureza de Deus e a revelação que ele fez de si mesmo. Para mim, Deus está acima de nossa possibilidade plena de compreensão. Não estou concordando com os neo-ortodoxos que negam qualquer possibilidade de até se falar sobre Deus. Mas, é verdade que ninguém pode compreender Deus de forma exaustiva, completa e total. Dependemos da revelação que ele fez de si mesmo. Contudo, essa revelação, na natureza e especialmente nas Escrituras, mesmo suficiente, não é exaustiva. Não sendo exaustiva, ela se cala sobre diversos pontos – e entre eles estão o relacionamento lógico entre os pontos que compõem a doutrina da Trindade, da pessoa de Cristo e da soberania de Deus.

A terceira razão é que existe um pressuposto por detrás das tentativas feitas de explicar racionalmente os mistérios bíblicos, pressuposto esse que eu rejeito: que somente é verdadeiro aquilo que podemos entender. Não vou dizer que isso é exclusivamente fruto do Iluminismo do séc. XVII pois antes dele essa tendência já existia. O racionalismo acaba subordinando as Escrituras aos seus cânones. Prefiro o lema de Paulo, “levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Coríntios 10.5). Parece que os racionalistas esquecem que além de limitados em nosso entendimento por sermos criaturas finitas, somos limitados também por nossa pecaminosidade. É claro que mediante a regeneração e a iluminação do Espírito podemos entender salvadoramente aquilo que Deus nos revelou em sua Palavra. Contudo, não há promessas de que regenerados e iluminados descortinaremos todos os mistérios de Deus. A regeneração e a iluminação não nos tornam iguais a Deus.

Além dos mistérios mencionados, existem outros relacionados com a natureza de Deus e seus caminhos. Diante de todos eles, procuro calar-me onde os escritores bíblicos se calaram, após esgotar toda análise das partes do mistério que foram reveladas. Não estou dizendo que não podemos ponderar sobre o que a Bíblia não falamas que o façamos conscientes de que estamos apenas especulando, no bom sentido, e que os resultados dessas especulações não podem ser tomados como dogmas.

53 comentários:

Halei Rembrandt disse...

Sinceramente sobre tudo isso... SÓ SEI Q NADA SEI, a unica coisa q sei e entendo é q só tenho um Deus, e para chegar até Ele só um caminho... e sinto q sei e entendo (por graça D'Ele) o mais importante, o resto eu realmente NÃO CONSIGO ENTENDER, vai muito alem do q posso ver ou pensar...

gd abç Rev. é bem dificil de eu entrar em blogs mais gosto muito do seu...

Paz...

Halei Rembrandt

Hermisten disse...

Dr. Augustus, eu também não. Fixo-me apena na questão da eleição e nos princípios que guiavam o pensamento de Calvino, os quais, creio podem ser-nos úteis ainda hoje.
O apóstolo Paulo, diante dos presbíteros de Éfeso, quando se despede em caráter definitivo, traz è lembrança de seus ouvintes: “Jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (At 20.27).
Em outro lugar, o apóstolo Paulo diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, (didaskali/a = “instrução”) para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2Tm 3.16). Entre outras coisas, isto significa que o nosso pensar teológico deverá estar sempre conectado com a fidelidade à Escritura e com o ensino da Palavra; este aspecto realça a nossa responsabilidade como intérpretes e pregadores da Palavra. Por outro lado, há aqui um grande conforto, que nem sempre temos nos dado conta: não precisamos – nem nos foi requerido –, "desculpar" ou "justificar" Deus e a Sua Palavra. [Calvino afirma que: “Contra os ímpios, que com destemor falam mal de Deus abertamente, o Senhor se defende suficientemente com a Sua justiça, sem que Lhe sirvamos de advogados.” [João Calvino, As Institutas (1541), II.8]. Na seqüência, entretanto, ele nos mostra como Deus nos fornece argumentos racionais para fazer calar as suas maldades e injustiças] Não há o que selecionar ou cortar: "Toda Escritura é (...) útil o para ensino". Algumas vezes, tenho a impressão de que diante de "questões embaraçosas" tais como: a "condenação de todos os homens inocentes que morrerem sem conhecer a Cristo", a "eleição de uns para a salvação em detrimento de outros", "o quase silêncio dos evangelhos sobre os trinta primeiros anos de Cristo", e semelhantes, ficamos como que procurando uma justificativa para O Soberano agir desta ou daquela forma, buscamos uma maneira de tornar Deus apetecível à mente e aos valores modernos e “pós-modernos”. Como cristãos, devemos aprender, se ainda não o fizemos, a nos calar diante do silêncio de Deus, sabendo que o som da nossa voz petulante e "lógica" – em tais circunstâncias –, por si só seria uma "heresia". [Vd. João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 9.14), p. 330; J. Calvino, As Institutas, III.21.4 e III.23.8] Diante da vontade de Deus – que é a causa final de todos os Seus atos –, temos que manter um reverente silêncio, reconhecendo que Ele assim age, porque foi do Seu agrado; conforme o Seu santo, sábio e bondoso querer: Isto nos basta! (Sl 115.3;135.6; Dn 4.35; Ef 1.11). O que nos compete é procurar entender, através do estudo e da oração, o que Deus quer nos ensinar em "toda a Escritura" e em cada parte da Escritura.
Deus não precisa ser justificado, explicado ou racionalizado. Ele ultrapassa em muito a nossa capacidade de percepção (Jó 11.7; Is 40.18, 28; 45.15; Rm 11.33-36): um Deus plenamente explicado seria um “deus” humanizado, à altura da nossa "razão" humana e preso à cosmovisão contemporânea. Em cada época este “deus” seria compreendido de uma forma, de acordo com a percepção e valores hodiernos. Neste caso a Teologia se transformaria em antropologia e, mesmo assim uma antropologia bastante limitada e circunstancial. A Teologia não tem nem pode ter esta pretensão – de justificar Deus –; ela apenas O descreve conforme Ele Se revelou em atos e palavras nas Escrituras, buscando permanentemente a Sua iluminação para a compreensão da Sua Palavra. A domesticação de Deus dentro de nossa mente finita tornaria Deus humano e pecador (já que a nossa mente é bastante versátil nesta área) ou nós nos tornaríamos deuses. A Palavra, no entanto, não nos oferece nenhuma dessas opções.
A doutrina da Eleição não escapa aos problemas suscitados. Curiosamente, ela é uma da mais conhecidas nos círculos reformados e, paradoxalmente é uma das menos sabidas. Esta aparente contradição se deve ao fato de que praticamente todos os presbiterianos sabem que existe esta doutrina e, ao mesmo tempo, poucos conhecem mais especificamente o seu significado. A partir daí, alguns querem transformá-la no cerne da revelação bíblica – partindo deste ponto, sem dúvida fundamental, para querelas infindáveis e pouco ou nada edificantes [Calvino enfatizando a dificuldade do assunto que, considera um “labirinto” para a mente humana, observou corretamente que “.... o ser humano tropeça em muitas mesquinhas dificuldades, principalmente quando ouve o que a Escritura ensina acerca da predestinação” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 329] –, outros, no extremo oposto, procuram ignorá-la como que sendo “condescendente com Deus” por Ele ter deixado “escapar” em Sua revelação este assunto, esquecendo-se deliberadamente, “que o Espírito não nos ensinou nada senão o que visa ao nosso interesse saber...”. [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 330]. Agindo de um ou de outro modo, deixamos de usufruir os “dulcíssimos frutos” [Cf. expressão de Calvino; Vd. As Institutas, III.21.1. Vd. também: Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Phillipsburg, New Jersey: P & R. Publishing, 1992, Vol. I, IV.6.9. p. 331. Calvino usa terminologia similar ao tratar da “Providência de Deus”. (Cf. J. Calvino, As Institutas, I.17.6] guardados por Deus para nós através do estudo humilde e reverente deste assunto tão precioso. Por isso, deixar de meditar e ensinar esta doutrina é um agravo ao homem e a Deus. [J. Calvino, As Institutas, III.21.1]
O fato é que esta doutrina é amplamente ensinada nas Escrituras, fazendo parte dos ensinamentos de Jesus (Mt 11.20,25; 13.11; 25.34; Lc 10.20; 12.32; Jo 8.47; 10.25-29;15.16) e dos apóstolos (Rm 8.29; 9.1-33; Ef. 1.4,5; 1Ts 5.9; 2Ts 2.13; 2Tm 1.9; Tt 1.1; 1Pe 1.2). Portanto, ela não pode ser simplesmente ignorada, sem que com isso cometamos uma tremenda injustiça para com Deus, que nos revelou esta verdade, e para com a Sua Igreja, a quem Deus dirigiu a Sua revelação. [Vd. Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Vol. I, IV.6.4-5. p. 330]
Também deve ser observado que Calvino ao tratar da predestinação não partiu de uma questão especulativa, fruto de abstrações desprovidas de sustentação concreta (a priori). O seu foco é existencial – os fatos compartilhados por todos nós; a sua abordagem, no entanto, é soteriológica e pastoral. A problemática, entre outras, com a qual ele se deparou – comum a todos nós ainda hoje –, é: por que nem todos crêem no Evangelho?.
Nas Institutas (1541), quando Calvino vai tratar da Predestinação e da Providência de Deus, inicia o capítulo com palavras sóbrias oriundas de uma constatação comum aos crentes. Ao mesmo tempo revela a orientação pastoral de sua teologia, preocupada com a compreensão da Palavra de Deus por parte do Seu povo: “.... Tendo-se em vista o fato de que a Aliança da Vida não é pregada igualmente a todos, e também que onde é pregada não é recebida igualmente por todos, vê-se nessa diversidade um admirável mistério do juízo de Deus. Não há dúvida nenhuma de que essa variedade atende ao Seu beneplácito, agrada ao Seu querer. Pois bem, como é evidente que isto é feito pela vontade de Deus – que a salvação é oferecida a uns e os outros são deixados de lado – daí decorrem grandes e altas questões, as quais só se resolvem ensinando aos crentes o que eles podem compreender da eleição e da predestinação de Deus”. [João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 3, (III.8), p. 37. Este mesmo princípio orientador foi mantido na edição final (1559): “Já, porém, que o pacto de vida não é pregado entre todos os homens igualmente e, entre aqueles a quem é pregado, não acha a mesma receptividade, ou qualitativa, ou continuativamente, nessa diversidade se manifesta a admirável profundeza do juízo divino. Pois, nem padece dúvida de que esta variedade sirva também ao arbítrio da eterna eleição de Deus” (J. Calvino, As Institutas, III.21.1]
Na seqüência, acrescenta: “.... quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto do qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso”. [João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 3, (III.8.1), p. 38].
Comentando o texto de 2Pe 3.9, – “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9) –, revela a sua preocupação pastoral e, ao mesmo tempo, a sua honestidade diante da aparente antinomia [Uso a expressão “antinomia” do mesmo sentido que Packer a emprega (J.I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus, 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 16ss.). Podemos chamar também este conceito de “paradoxo lógico” [Para uma visão crítica do emprego do termo “antinomia”, não do conceito teológico sustentado por Packer, ver: R.C. Sproul, Eleitos de Deus, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 38-40 e Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p.18. Veja-se também: K.S. Kantzer, Paradoxo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1998-1990, Vol. III, p. 98-99 e Anthony Hoekema. Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 11-13]: “Tão maravilhoso é seu amor pela humanidade, que ele poderia salvar a todos, e que ele mesmo está preparado para dar salvação ao perdido. A ordem é para ser noticiada, que Deus está pronto para receber todos ao arrependimento, de modo que nenhum se perca. (...) Pode ser perguntado aqui: se Deus não quer que ninguém pereça, por que então muitos perecem? Para isso, minha resposta é que não há menção, aqui, sobre o decreto secreto de Deus pelo qual os ímpios são condenados à sua própria ruína, mas somente de sua própria vontade como feita conhecida para nós no Evangelho. Pois, ali, Deus estende a mão sem distinção a todos, mas só segura, de forma a conduzi-los a si, aqueles que Ele escolheu antes da fundação do mundo”. [John Calvin, Calvin's Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, Vol. XXII, (2Pe 3.9), p. 419-420. Por outro lado, orienta: “Deus não é destituído de sua misericórdia em manifestar, em ocasiões próprias, a severidade do Juiz, ao tentar de todas as formas, porém em vão, em trazer o pecador ao arrependimento, tampouco pode o exercício de tal severidade ser considerado uma impugnação de sua clemência” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 58.10), p. 526].
Mcgrath enfatiza: “Longe de ser uma especulação teológica árida e abstrata, a análise de Calvino sobre a predestinação se inicia a partir de fatos empíricos” [Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 195]. Portanto, continua: “A crença na predestinação não é uma questão de fé em si mesma, mas representa o resultado final de uma reflexão, informada pelas Escrituras, a respeito dos efeitos da graça sobre os indivíduos, à luz dos enigmas da experiência. A experiência ensina que Deus não toca todo coração humano (As Institutas, III.24.15).” [Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, p. 195] Prossegue: “Para Calvino, a predestinação é apenas um exemplo adicional do mistério da existência humana, por meio do qual alguns são inexplicavelmente favorecidos por dons materiais e intelectuais, os quais são negados a outros. A predestinação não levanta qualquer dificuldade que já não esteja presente em outras áreas da existência humana”. [Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, p. 196. Ver também: I. John Hesselink, Calvin’s First Catechism: A Commentary. Louisville, Kentucky: Westminster/John Knox Press, 1997, p. 94]
Esta doutrina deve ser estudada não com espírito armado e defensivo, mas em oração, com o desejo sincero de aprender de Deus a Sua Palavra, certos de que através deste aprendizado, poderemos usufruir de modo consciente as bênçãos que Ele reservou para o Seu povo. O que se segue, é que este assunto é para ser tratado pelo povo de Deus; não tem nenhum sentido debates “acadêmicos” sem um coração novo: a revelação de Deus não visa satisfazer a nossa curiosidade ou perguntas acidentais da nossa vida; Deus sempre trata do que é vital para esta existência e para a por vir. Quando vemos a abordagem de Calvino a este assunto, percebemos que a sua preocupação é fortemente pastoral e não especulativa. Ele nos instrui: “Quão perigoso para a Igreja é esse conhecimento que conduz às controvérsias, ou seja, o conhecimento que ignora a piedade e se preocupa só com a ostentação pessoal. Toda a assim chamada teologia especulativa dos papistas pertence a essa categoria”. [oão Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.14), p. 232. “A ambição é sempre contenciosa e nos conduz às polêmicas, de modo que aqueles que desejam aparecer estão sempre prontos a desembainhar a espada a pretexto de qualquer tema”. [João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.20), p. 186]. Como os jovens são mais irritáveis, dá uma orientação mais específica: “Os jovens, em meio às controvérsias, se irritam muito mais depressa do que os de mais idade; se iram mais facilmente, cometem mais equívocos por falta de experiência e se precipitam com mais ousadia e temeridade. Daí ter Paulo boas razões para aconselhar a um jovem a precaver-se contra os erros próprios de sua idade, os quais, de outra forma, poderiam facilmente envolvê-lo em disputas inúteis” [João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 2.22), p. 244]. Não deixa de ser instrutivo e revelador o fato de Calvino, na edição final das Institutas (1559), ter tratado deste assunto depois de um longo capítulo sobre a oração que, sozinho, é maior do que os quatro dedicados à doutrina da Eleição [Vd. J. Calvino, As Institutas, III.20. Do mesmo modo, no Catecismo de Genebra, das 373 perguntas [Catecismo de Genebra. In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962], Calvino dedica 63 à oração. Assim também, na Instrução na Fé (Goiânia: Logos Editora, 2003), uma das seis partes é dedicada à oração]. Também, deve ser destacado que este assunto foi sendo ampliado conforme ele reescrevia as Institutas e elaborava seus comentários bíblicos. Na primeira edição (1536), a doutrina da “Eleição e Predestinação” foi tratada dentro da quarta parte do Credo Apostólico. Na edição final (1559), a doutrina foi amplamente desenvolvida, sendo agora estudada dentro do contexto da soteriologia.
Calvino não sentia a necessidade de explicar todas as partes das Escrituras, sentia-se sim, no dever pastoral de ensinar tudo o que as Escrituras ensinavam. A aceitação do paradoxo ou antinomia faz parte da própria limitação nossa diante da Revelação de Deus. Ele diz textualmente: “Toda verdade proclamada referente a Cristo é completamente paradoxal pelo prisma do juízo humano. Entretanto, o nosso dever é prosseguir em nossa rota. Cristo não deve ser suprimido só porque para muitos ele não passa de pedra de ofensa e rocha de escândalo. Ao mesmo tempo que ele prova ser destruição para os ímpios, em contrapartida ele será sempre ressurreição para os fiéis”. [João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Rm 6.1), p. 201-202] Escritura é suficientemente clara mas não absolutamente clara em todas as coisas. A própria Confissão de Westminster nos instrui: “Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em uma ou outra passagem da Escritura são tão claramente expostas e aplicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas”. (I.7).
Calvino jamais considerou como tarefa da teologia conciliar aparentes paradoxos que considerava mistérios centrais das Escrituras. Dowey Jr. comenta: “Calvino, pois, estava plenamente convencido de que havia alto grau de claridade e compreensibilidade nos temas individuais da Bíblia, mas estava, também, tão submisso ante o mistério divino a ponto de preferir criar uma teologia contendo muitas inconsistências de lógica, ao invés de optar por um todo racionalmente coerente. (...) Claridade de temas individuais, incompreensibilidade de suas inter-relações – essa é a marca registrada da teologia de Calvino”. [Edward A. Dowey, Jr., The Knowledge of God in Calvin’s Theology, New York: Calumbia University Press, 1952, p. 39-40. George comenta: “Com toda sua reputação de teólogo de lógica rigorosa, Calvino preferiu viver com o mistério e a incoerência de lógica a violar os limites da revelação ou imputar culpa ao Deus que as Escrituras retratam como infinitamente sábio, completamente amoroso e absolutamente justo” (Timothy George, A Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 209]
A doutrina da predestinação & eleição têm seu nome associado ao de Calvino (1509-1564) como se fosse ele o seu inventor, o que não corresponde aos fatos. [Ver: S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2ª ed. Porto Alegre/Caxias do Sul, RS.: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes/Livraria Sulina Editora/Universidade de Caxias do Sul, 1980, Vol. I, I.23.4. p. 235. Veja-se: Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, p. 195-196].
Calvino entende, que a especulação indevida é um mal. Devemos observar também, que mal semelhante é negligenciar o estudo daquilo que Deus nos revelou em Sua Palavra. Calvino (1509-1564) nos advertiu quanto a isso, dizendo: "As cousas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligenciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosidade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra". [J. Calvino, As Institutas, III.21.4] O limite de nosso conhecimento está delimitado pela Palavra: “Se alguma vez nos ocorreu ou nos ocorrer este pensamento: que a Palavra de Deus é o único caminho que nos leva a inquirir tudo quanto nos é lícito conhecer sobre Ele; e mais, que ela é a única luz que nos ilumina para contemplarmos tudo quanto nos é lícito ver – ela nos poderá manter afastados de toda atitude temerária. Porque saberemos que, saindo dos limites próprios, caminharemos fora do caminho e vagaremos na escuridão total. E assim só poderemos errar, tropeçar e nos ferir a cada passo. Tenhamos, pois, em mente que será uma loucura querer conhecer todas as coisas relacionadas com a predestinação, exceto o que nos é dado na Palavra de Deus. Estejamos igualmente apercebidos de que, se alguém quiser caminhar por entre as rochas inacessíveis, irá mergulhar nas trevas” [João Calvino, As Institutas, (1541), III.8]
Em outro lugar, ele observa que a sabedoria consiste em reconhecer os nossos limites. "Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedoria imensa de Deus, que em Seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, [Vd. também: As Institutas, III.21.2] a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura." [J. Calvino, As Institutas, III.23.8. Na edição de 1541, escrevera: “E que não achemos ruim submeter neste ponto o nosso entendimento à sabedoria de Deus, aos cuidados da qual Ele deixa muitos segredos. Porque é douta ignorância ignorar as coisas que não é lícito nem possível saber; o desejo de sabê-las revela uma espécie de raiva canina” [João Calvino, As Institutas, (1541), III.8]

cristao disse...

Os mistérios existem, nos inquietam, nos movem a buscarmos respostas, e por causa disso, heresias foram criadas ao longo da História. Não devemos cair na tentação de responder coisas que não conseguimos compreender, e assim, provocar enganos.

De tudo o quê foi comentado, a minha dúvida é sobre nosso futuro, na glória, com Cristo. Na realidade vindoura, na pátria celestial, compreenderemos completamente estes mistérios, todos eles, não todos, ou apenas de maneira melhor? Continuando: mesmo um dia quando não tivermos corrupção nenhuma, nós seremos capazes de entender Deus? Não seremos ainda assim finitos, limitados, mesmo que perfeitos, enquanto que Ele Infinito?

cristao disse...

Em tempo: este foi o "eu não sei" mais bem defendido e explicado que eu já vi na vida. Se eu tivesse o seu conhecimento em meus tempos de escola... :)

Augustus Nicodemus disse...

Hermisten,

Comentário precioso, completo, instrutivo, que traz o pensamento do ilustre Reformador de Genebra sobre esse assunto. Muito obrigado! Os que pensam que Calvino era racionalista, seguidor de uma lógica fria e calculada, perceberão por seu comentário que, muito ao contrário, ele se curvava diante dos mistérios divinos e procurava trazer cativo o pensamento à obediência de Cristo.

Um abraço.

Augustus Nicodemus disse...

Halei e Cristão,

Grato pelos comentários! É bom ver que muitos outros têm essa mesma atitude para com os mistérios divinos.

Cristão, creio que na glória vindoura saberemos e entenderemos muito mais do que aqui. Paulo disse, "então conheceremos como também somos conhecidos" (1Cor 13). Aguardemos!

Um abraço.

JP disse...

Ola Nicodemus...

Acredito que o grande problema dos cristãos hoje, em geral, é tentar prender e fechar Deus em um sistema de regras e ações fáceis de serem concebidas e um padrão de comportamento previsível e recheado de justiça humana.
Por isso a dificuldade de se entender a pré-destinação, porque será que Deus permite Tsunamis, porque Deus perdoa o pecador, porque isso porque aquilo, aos olhos da justiça humana é loucura e injusta...
Paulo pergunta: Há pois injustiça da parte de Deus?
Em sintese: Sempre o complexo humano de querer ter justiça própria.

Rev. Nicodemus, se pensarmos que não temos condições de compreender Deus de forma exaustiva, completa e total. E que sua soberania transcende qualquer pensamento e atitude humana, não acabaria caindo em algum tipo de relativismo, mesmo que não seja do ponto de vista "neo-ortodoxo"?
O que o senhor acha do conceito de Kierkegaard de existência? E que Deus esta além de nossa existência.
E a discussão sobre momento?

Abraços
JP

João de Séllos disse...

Rev. Augustus,
Excelente texto!!
Antes de ser reformado, eu tinha dúvidas em relação a soberania de Deus e a responsabilidade humana e depois de muito estudo e oração apenas aceitei aquilo que é bíblico.
Um forte e abraço.

Rushman disse...

"Não nos dá nenhuma explicação sobre como isso pode acontecer, mesmo diante da aparente impossibilidade lógica do ponto de vista humano."

Isso é possível sim. Na literatura secular, George Orwell ilustra em "1984" que as ferramentas de comunicação (linguagem) são as chaves da limitação/expansão do pensamento humano. Para esse caso específico, ele até inventou uma palavra: DUPLIPENSAR ("defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas").

Paulo Silvano Cardoso disse...

Conhecer melhor os reformados e a sua teologia tem sido a minha última decepção. Meu pai deixou a Igreja Presbiteriana nos anos idos do decênio de 1950. Estava prestes a ser enviado ao seminário do Sul quando aceitou a fé pentecostal e foi para Assembléia de Deus, no tempo em que quem assim procedia era profundamente incomprendido e estigmatizado.
Autodidata com dedicação invejável, meu pai vivenciou profundamente a experiência pentecostal sem, contudo, permitir que as meninices e extremismos, por vezes tão presente nesse meio, então extremamente laico, afetassem negativamente muitas das convicções teológicas herdadas no meio reformado.
Cresci e, inspirado por ele, aprendi a cultivar o melhor de uma cultura evangélica que contempla o falar sobre Deus, tão apreciado no meio dos tradicionais reformados, com o falar com Deus, prática marcante entre os pentecostais.
Nesse exercício, creio equilibrado, da minha fé, instigado por meu pai, assumi cedo que nós pentecostais, principalmente no Brasil, não éramos expoentes na questão da elaboração teológica. Aprendi, também com o meu pai, que na seara dos reformados havia muito mais liberdade para o pensamento e expressão.
Li muitos livros de orientação pentecostal clássica, mas lí bastante da confissão reformada, começando pelo presbiterianíssimo Manual dos Catecúmenos de Ludugero Braga, no afã de beber da que apreendi como fonte dos bons postulados teológicos. Bebi e continuo bebendo de mentores como Ricardo Barbosa, Eugene Peterson , Elben César e outros.
Minha tristeza, no entanto, ocorre quando depois de tudo, com o desejo de conhecer ainda mais a teologia reformada, olho para blogs como esse e vejo os reformados, principalmente os catedráticos, intrincheirados na defesa de ícones como o da predestinação. Defendem com unhas e dentes de forma que - não tenho dúvidas - maculam aquilo que mais pretendem defender, a Soberania de Deus. Fazem com tanta veemência que tornam Deus o refém de si mesmo.
Perdoe-me, mas às vezes fico pensando que, defesa tão aguerrida, por mentes que me parecem tão lúcidas, não expressa as suas reais convicções sobre Deus, mas é, na verdade, um esforço para manterem o status quo confessional, conquistado com a muita luta, suor e sangue do pós reforma. Vejo assim que do jeito como vai a coisa, com tanta presunção, o lema da Reforma do século XVI: “Semper Reformanda”- Uma igreja reformada, sempre se reformando, será sempre só um clichê.

Norma disse...

Quando pensamos que Deus se move na eternidade e cria o tempo para que nele habitemos, fica mais fácil aceitar o mistério da existência simultânea da instância eterna (onde tudo é ao mesmo tempo) e temporal (onde há passado, presente e futuro). Deus sabe de tudo, mas nós somos seres limitados pelo tempo. As duas realidades coexistem: a da presciência divina e a da responsabilidade humana. Deus, que é ser da eternidade e criou o tempo, entende isso perfeitamente - nós é que, limitados, não podemos abarcar as duas realidades simultaneamente, e por isso dizemos humildemente "não sei" quando adentramos no difícil terreno das realidades de Deus, como a predestinação. Enfim, é meu modo de perceber a questão. :-)

Augustus, gostei do post e, sobretudo, da tranqüilidade com que é dito "não sei" - imprescindível a todo especialista! Abração!

André Scordamaglio disse...

Qual é a "carinha" para boquiaberto (interrogação)...Que contribuição do Rev. Hermistem e que texto do Rev. Augustus... :-p

Sabe, infelizmente tenho uma tendência em pensar que alguns mistérios de Deus podem ser racionalizados e que levar para o lado da lógica seria um terreno mais apropriado do que simplesmente caracterizar algum assunto (Eleição e Predestinação no caso) como mistérios insodáveis de Deus. Claro que, como o artigo explica, nunca teremos a capacidade de exaurí-los, mas até que ponto a bíblia se cala (interrogação). Por exemplo: para mim, é claro e bíblico o *italic*Concursus*italic*; e que ele demonstra uma certa lógica de um Deus que tudo cria e tudo mantém responsabilizar suas criaturas pelas próprias atitudes, apesar de sua Soberania nos seus decretos e caminhos, mas talvez outras pessoas o classificariam como mistério. Vejo um mistério na forma como ele se processa, mas não no sentido da existência do conceito, entende (interrogação).

Então, minha dúvida seria se a bíblia se cala para todos ou existe a possibilidade dela ser "mais revelada" a uns e menos a outros, observando o fato de que ninguém pode exaustivamente compreendê-la. Espero ter-me feito compreender.

Abraços Reformados,

Onésimo disse...

Olá nobre Augustus, quero dizer que oro sempre pelo irmão e pelos demais criadores do blogger,para que na vossa erudição tragam sempre material edificante para os eleitos de Deus.
Li um artigo no site do Filipe(monergismo)sobre uma discurção sobre este assunto entre Van Til e G.H.Clark.Pareçe que na ocasião háviam explicado a antinomia, o partido de Clark e o partido de Van Til estava discutindo mais ainda pois eles no que pareçe queriam ficar com o mistério. Gostária que o irmão comentasse se puder.
No mais fico na promessa da postagem que o irmão me prometeu a uma pergunta que lhe fiz.

Que a Graça de deus seja sempre com sua vida.

Vanderson disse...

Um outro mistério também é o das S. Escrituras, palavra de Deus e, ao mesmo tempo, também palavra dos homens que a escreveram. Sobre a predestinação, fiquei convicto de que essa era uma verdade bíblica irrefutável após ler o comentário de Russell Norman Champlin sobre Romanos 9.

Anônimo disse...

boa noite....

quero primeiramente registrar o meu apreço pelo irmão e o respeito pelo pensamento presbiteriano. Contudo penso que a doutrinação da predestinação como foi percebida por João Calvino guarda semelhanças com o pensamento de Adolf Hitler. Pois certamente ela instaura o principio de desigualdade entre os homens (preteritamente), pois como Hitler fez em relação aos judeus definindo que existia desde o inicio uma classe sem qualquer possibilidade de regeneração, sendo que no caso de Hitler os judeus e no caso de Calvino os destinados a condenação eterna. Interessante que as percepções pra ser escolhido são altamente subjetivas, pois como se dizer que é um eleito? As guerras entre protestantes e católicos, haja vista Agostinho (teólogo católico)crer também na doutrina da predestinação, certamente com algumas diferenciaçãoes) na Irlanda poderia ser eleito matando eleito? E cristãos coptas, maronitas, melquitas, ortodoxos e romanos. Será que eles são eleitos, pois antecedem ao protestantismo?
E os cristãos medievais ?
E concluindo, qual a relação entre democracia e predestinação?
Pois como um professor que professa estas concepções pode conciliar os principios constitucionais da dignidade da pessoa humana com a certeza que ele carrega implicitamente que uns certamente já nasceram tolidos de qualquer possibilidade de dignidade?
como homens que possivelmente entre muitos que elaboraram o texto constitucional não professam algum credo ( na linguagem religiosa ímpios) podem ter essa sensibilidade e o próprio Deus, não a teria?
Como ficava a questão da escravidão nos Estados Unidos?
Possivelmente irmãos calvinistas escravizavam homens que supostamente não seriam eleitos, pois se fossem seria no minimo horrível?
Por que houve dificuldade entre os presbiterianos de apoiar o processo de emancipação dos escravos nos Estados Unidos?

nEle que nos faz um só povo,
Carlos Alberto.....

Carlos Alberto..... disse...

boa noite....

perdoe-me a minha a minha falta de habilidade com estes recursos...pois a minha postagem saiu como anônimo...e certamente não foi a minha intenção....

nEle,
Carlos Alberto...

Augustus Nicodemus disse...

Prezado JP – Não penso que admitir que não podemos entender plenamente questões como a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana acabe nos lançando no subjetivismo. Para mim é simples: a Bíblia afirma as duas coisas e não as explica. Não é relativismo, é falta de informação e falta de capacidade para entendê-la. Isso nada tem a ver com o conceito de paradoxo de Kiekegaard.

João de Séllos – Sou fã de seu sobrenome, muito distinto! Obrigado pelo comentário!

Rushman – Espero que você não viva apressado, como seu nome sugere... Obrigado pela contribuição do “duplipensar”. Muito bom, eu só acrescentaria que, da parte do cristão reformado, a contradição entre as duas verdades é aparente.

André – Acho que entendi o seu ponto. Talvez faltou que eu deixasse mais claro que “mistério” não é a soberania de Deus, mas como ela se relaciona logicamente com a responsabilidade humana. Quanto à sua questão, se “se a bíblia se cala para todos ou existe a possibilidade dela ser ‘mais revelada’ a uns e menos a outros, respondo com as palavras da Confissão de Fé de Westminster: “Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas”.

Um abraço a todos.

Augustus Nicodemus disse...

Caro Paulo Silvano

Lamento a sua decepção com os reformados e a sua teologia. Na verdade, a sua decepção parece ser somente com a predestinação, pelo que pude entender. O que é natural, considerando a sua herança da Assembléia de Deus. Só um detalhe: dois de seus autores prediletos são presbiterianos e aceitam a predestinação. Espero que não se decepcione com eles.

Seu comentário é mais um desabafo, onde falta consistência de argumentos e qualquer conteúdo. Veja um exemplo: “Defendem com unhas e dentes de forma que - não tenho dúvidas - maculam aquilo que mais pretendem defender, a Soberania de Deus. Fazem com tanta veemência que tornam Deus o refém de si mesmo.” Não diz absolutamente nada com nada. Em que sentido maculamos a Deus e o tornamos refém de si próprio?

Veja outra coisa: “Perdoe-me, mas às vezes fico pensando que, defesa tão aguerrida, por mentes que me parecem tão lúcidas, não expressa as suas reais convicções sobre Deus, mas é, na verdade, um esforço para manterem o status quo confessional, conquistado com a muita luta, suor e sangue do pós reforma”. Está perdoado por julgar nossas intenções e pronunciar uma condenação pública sobre pessoas que nem conhece. É assim que você pensa em refutar a predestinação? Aliás, publiquei seu comentário exatamente para que os nossos leitores vejam o nível da argumentação contrária.

Um abraço.

Augustus Nicodemus disse...

Norma,

Seus comentários são sempre enriquecedores. Obrigado. De fato, quando refletimos sobre o ser de Deus, mais fica evidente a necessidade do “eu não sei” em nossos lábios.

Um abraço!

Augustus Nicodemus disse...

Onésimo,

Não tive oportunidade de acompanhar essa discussão. Mas, faz sentido, sim, que o Van Til tenha preferido ficar com o conceito de mistério. Sobre a promessa que lhe fiz... pode me lembrar o que era? A idade é uma coisa séria!

Vanderson,

De fato, as duas “naturezas” da Bíblia se constituem um outro desafio. Sobre o Champlin, interessante sua experiência com o capítulo 9 de Romanos. Mudando um pouco de assunto, eu tive um professor de teologia na África do Sul que se tornou crente lendo o comentário de Romanos de Lloyd-Jones – e já era professor de teologia há anos! Wesley se converteu ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à carta aos Romanos. Agostinho, lendo Romanos 14. E Romanos 1:16 teve papel decisivo na conversão de Lutero. Cartinha poderosa!

Abraços!

Augustus Nicodemus disse...

Carlos Alberto...,

Obrigado pelo apreço por mim e pelo respeito pela doutrina presbiteriana. Mas, na verdade, acho que o sr. é incoerente, pois se eu julgasse realmente que Calvino e Hitler são semelhantes no pensamento, não teria qualquer apreço e nem respeito pelos calvinistas.

Perdoe-me se não respondo suas alegações e suas perguntas. Creio que elas são sinceras, embora partam, obviamente, de um preconceito evidente contra os calvinistas que só é superado pelo desconhecimento que o sr. demonstra quanto à doutrina da predestinação conforme é aceita pelos reformados.

Mas, aqui fica publicado seu comentário, para que nossos leitores avaliem o tipo de argumento que é usado conta o calvinismo e as doutrinas da graça.

Boa noite.

Charles L. Grimm disse...

Rev. Augustus,

Agostinho já dizia:

credo ut intelligam (creio para entender) - se não me falha a memória, um dos textos que ele usava para fundamentar isso era o salmo 116.

Portanto, creio que um dos pressupostos para se entender as Escrituras não é primeiramente a lógica. Obviamente que as doutrinas da Bíblia não negam a lógica, mas antes da nossa compreensão, vem a revelação das Escrituras. E isso não quer dizer que aceitemos antinomia.

Alguém citou a questão de Van Til. Realmente, a crítica feita a este teólogo parece-me perfeitamente plausivel. Segundo o artigo do Monergismo, não se pode afirmar que Deus seja 1 e ao mesmo tempo 3 como Van Til afirmava, mas sim que Deus é uma unidade trina - fora do alcance da nossa compreensão - mas não ilógica ou exemplo de antinomia.

A pergunta para ajudar nesta questão é: Deus opera por usando a lógica ou ele mesmo cria as leis da lógica? Por exemplo, "2+2=4" é a mesma coisa para nós e para Deus? E se é, isso é assim porque Deus quis? Acredito que não, pois Deus "trabalha" na mesma lógica,
digamos.

Bem, então como entender pela lógica que Jesus é Deus verdadeiro e homem verdadeiro? Não entendemos! Admitimos isso, em primeiro lugar, porque as Escrituras afirmam ora a divindade de Cristo, ora a sua humanidade e por isso, cremos na unidade do Deus-Homem. As afirmações a respeito da natureza de Jesus não são excludentes e não são ilógicas, apenas, incompreensíveis. Por isso, cremos para entender! Cremos nas Escrituras para entendê-las, e isso, é dom de Deus!

Charles L. Grimm disse...

Rev. Augustus,

Gostaria de responder o irmão Paulo Silvano.

-----

Caro irmão Paulo Silvano,

Há um dito mais ou menos popular de um pregador que é assim: "De joelhos, todos cristãos são calvinistas".

Nenhum genuíno cristão acusaria Deus de sádico pelo fato de Ele ordenar que oremos para que nos dê aquilo que nos seja necessário mesmo já sabendo que Ele já sabe do que necessitamos. Porém, que este cristão não se esqueça de que a oração está inegavelmente amalgamada à doutrina da Providência - um dos corolários da predestinação. Uma oração respondida é providencialmente respondida. Por exemplo, quantas coisas - situações, pessoas, tempo - Deus já não estava preparando para que determinada resposta às nossas petições fossem atendidas? Como todas as coisas podem cooperar para o bem daqueles que amam a Deus e que foram chamados segundo o seu propósito/decreto? Não estaria aí um exemplo vivencial da predestinação?

Além disto, não nos consola o fato de que o próprio Santo Espírito intercede segundo a vontade do nosso Pai por nós? Não nos consola que temos o próprio Cristo à destra de Deus que também intercede por nós? Haveríamos de julgar esta bendita intercessão trinitária em favor dos seus? Não entedemos plenamente esta intercessão divina, mas cremos na sua veracidade, mesmo que muitas vezes somos tomados por assaltos da fé. Se a oração de justo pode muito em seus efeitos, muito mais a oração do Justo. E Ele é justo e permanece justo em interceder somente em favor daqueles que lhe foram dados. A fé desses que são guardados pelo Salvador não desfalecerá pois é sustentada por causa do seu Profeta, Sacerdote e Rei.

Essas questões não podem ser julgadas pela razão apenas e tampouco podem ser tratas abaixo do nivel racional pois, tais coisas, não são irracionais e sim estão acima da nossa compreensão. A doutrina da predestinação é "supra-racional" - termo usado por John Stott.

Enfim, esta doutrina da predestinação, quando bem entendida, crida, e aplicada por um coração devoto tem um valor incontável. É um sublime conforto. É como mel extraído de uma dura rocha. Mesmo que o mundo, a nossa carne e o diabo digam mil vezes "não", basta saber que todas as promessas, por graça se cumprem cabalmente por Cristo em favor dos seus - e nenhum deles jamais será arrebatado de suas mãos. Bendito Senhor e benditos servos! Bendito Pastor e benditas ovelhas! Bendito Pai e benditos filhos!

Peço, por favor, a sua atenção para ler um artigo que postei no meu blog a respeito má postura de alguns os calvinistas em relação à doutrina da predestinação:

http://pro-nobis.blogspot.com/2006/02/santssima-predestinao-do-senhor.html

Carlos disse...

Augustus,

Como sempre mais um ótimo e relevante post! Sou um admirador do blog e dos livros dos autores! Parabéns!

Mas quero lhe perguntar sobre o problema de Deus e o Mal: o que acha da análise e da resposta de Gordon Clark no livro "God and Evil: The Problem Solved"?

Um abraço,

Onésimo disse...

Quero apenas lhe lembrar da promessa que o irmaõ me fez de uma postagem sobre uma pergumta que lhe fiz se à luz do nosso metodo de interpretação H-Gramatical, a atualidade dos dons ela confiemada ou cancelada.Li tambem que o irmão está interpretando o Novo Testamento,fale um pouco sobre isso.No mais que a Graça Comum nunca se aparte da sua memoria.

Solano Portela disse...

Augustus:
Excelent post. Permita-me uma observação a um dos seus comentaristas -

Carlos Alberto:

Calvino = Hitler!!! Wow! Haja criatividade! Fez-me recordar uma manchete de um jornal de Bangladesh que li na semana passada (repentinamente adquiri interesse por aquele país, com a recente mudança do meu filho e esposa para lá...). Comentando a guerra de Israel contra o Hezbollah, o jornal trazia a seguinte chamada: "Hitler foi o único que os identificou corretamente"! Tipicamente terceiromundista em conceito e apreensão. Agora temos a contrapartida teológica desse tipo de visão!

É incrível como se recorre à "pixação" quando o alicerce dos argumentos some debaixo dos pés.

Abs

Solano

cristao disse...

Acho que houve um grande desentendimento por parte do irmão Carlos Alberto, a quem eu discordo respeitosamente, entre a "raça superior" de Hitler (pensamento nietzschiano?... importei um livro que analiza isso) com a "raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus".

Mas na verdade, pastores e leitores deste blog, se perceberem bem verão que este pensamento acusador não se limita apenas ao calvinismo (que eu considero o verdadeiro cristianismo puro e simples). Verdade seja dita, independente se uma denominação cristã crê ou não na doutrina (bíblica, diga-se de passagem, e não saída meramente do "umbigo" do Mr. Calvino) da predestinação, só o fato de nos considerarmos salvos pela Graça de Deus já é motivo para outros nos acharem como pessoas que consideram a si mesmas "superiores", "melhores do que os outros", "que julgam", "diferentes", "quem são eles para acharem que os outros vão inferno?", "estes crentes não aceitam outra opinião que não seja a deles", e outras coisas mais. Logo, as passagens da Constituição lembradas pelo irmão são, de uma maneira ou de outra, vistas como feridas aos olhos de alguns, devido ao cristianismo em si.

Não sei se me fiz por entender bem neste comentário, mas ao falar de Cristo com algumas pessoas já encontrei com este tipo de argumento, e creio que não fui o único.

cristao disse...

Logo, em última instância, e seguindo esta lógica, as pessoas (ou a humanidade em seu estado de rebelião contra Deus) acaba por perguntar: "Quem é Jesus para julgar e mandar uns para o céu e outros para o Inferno?", caindo em heresias do tipo negar a divindade de Jesus, negar a existência do Inferno, negar a Justiça de Deus, negar a existência do próprio pecado.

JP disse...

Olá Nicodemus

Eu também concordo que algumas passagens na biblia não nos compete conhecer, e que apenas Deus soberano sabe seus desígnios..
Paulo faz isso...e não necessariamente relativiza...
Como o senhor postou esse texto, poderia dar um gancho para a questão da relativização da verdade, muito frequente hoje, e o paradoxo de Kierkegaard....
(não sei se o assunto é demasiadamente amplo ou propício, mas poderia ficar como uma próxima sugestão)...

Abraços

Charles Grimm disse...

Caro Rushman,

Você escreveu:

"[...]DUPLIPENSAR ("defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas")[...]


Salvo melhor juízo, George Orwell na obra 1984, ao citar o "duplipensar" estava fazendo na verdade uma crítica ao Partido (o comunismo, diga-se de passagem). O "duplipensar" não era algo lógico. Era ilógico - inverídico. Fato era que a "Novilígua" apenas usava, ao bel-prazer, informações de que convinham ao momento e logo em seguida, fazendo que a memória dos cidadãos fosse tomada pelo esquecimento. Isto justamente para mostrar que duplipensar era algo fundamentado na mentira e na conveniência. Exemplo disto, em "1984", era o conceito de democracia do Partido - usava-se o "duplipensar" para convencer que a democracia era ruim, ao mesmo tempo que diziam que o Partido era democrático...

Logo, não seria o caso de usar este comparação - negativa - para aplicar aquelas doutrinas incompreensíveis do Cristianismo

Charles Grimm

Nepomuceno disse...

Olá Senhores! É a primeira vez que envio um comentário ao blog, embora esteja acompanhando as discussões sempre. Na verdade, concordo com o exposto no post inicial, ressalvando o fato de que, em minha maneira de encarar o tema, devemos percorrer até onde pudermos para tornar o assunto apetecível à mente, respeitando o fato de que nem sempre isso é possível.
Contudo, devemos compreender que esta é uma doutrina apresentada nas Escrituras esse é o fato lógico apetecível a quem reconhece que as Sagradas Escrituras são a palavra infalível, inerrante e inspirada de Deus. Por si só, este fato lógico serve de argumento à mente. A questão da crença nessa doutrina não repousa, repito, em minha visão, sobre a questão da sua complexidade lógica em si, mas no modo como tratamos os textos que direta e indiretamente tocam o assunto e ou o expõem.

Anônimo disse...

Irmãos,

essa 'contradição aparente' deriva do pressuposto infundado da relação inerente entre "liberdade - responsabilidade", que é estranha à Bíblia.

A nossa responsabilidade perante Deus descansa unicamente em seu decreto.

É muito estranho manter a relação supracitada, sabedores que somos da ilogicidade de uma liberdade humana genuína - enquanto meras criaturas finitas. Ademais, a Bíblia ensina a soberania divina absoluta, e isso também conflita com essa liberdade acima pressuposta.

em Cristo,
marcelo herberts.

wilson bento disse...

Ola Nicodemus,
Sabe que esse fim de semana eu simplesmente comentei a respeito do assunto: predestinação, e quase fui linchado por algumas pessoas que não creem "nisso", foi como se referiram, para logo em seguida dizerem que somente creem na predestinação se for baseada na presciencia de Deus...onde poderia encontrar um estudo que me desse respaldo? obrigado!!!

Anônimo disse...

Muito bom post, Augustus. Desconcertante a arrogância e a falta de discernimento histórico e teológico de alguns.

Arrogância por querer um cristianismo sem o mistério e o abscôndito.

E falta de discernimento histórico e teológico por não se perceber onde esta história irá acabar.

Quer queira, quer não, históricamente, o arminianismo conduziu ao pelagianismo, que se tornou arianismo, depois unitarismo, liberalismo teológico e, finalmente, ateísmo.

Triste sina.

Como já dizia dizia Chesterton: “Os enigmas de Deus são mais reconfortantes que as soluções dos homens”.

Abs,
Franklin

Monergismo.com/Felipe Sabino disse...

Todos os calvinistas crêem que Deus é a causa última de todas as coisas, ou seja, tudo acontece porque Deus quis, e não meramente porque “permitiu” (Calvino refuta o motivo da vontade permissiva de maneira magistral nas Institutas).

Assim, se vamos usar a palavra “mistério” (usada frequentemente de maneira errônea, pois “mistério” nos escritos de Paulo é o que Deus revelou, e não o que está ainda oculto) para denotar algo que não sabemos, devemos usá-la para nos referirmos ao motivo que levou Deus a fazer as escolhas que fez (eleição, predestinação, existência do mal, etc.). Em outras palavras, sabemos que Deus desejou tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá; agora, o porquê ele quis tal coisa e não outra, não nos é revelado. Na maioria das vezes a Escritura apresenta a vontade de Deus como uma explicação mais do que suficiente, ordenando que nos calemos como criaturas e exclamemos em submissão: “Sim, ó Pai, pois assim foi do teu agrado!”. Além do mais, se Deus desejou algo, isso não é um motivo justo para nós? Como dizia Gordon Clark, tudo o que Deus faz é bom por definição, pois é ele quem define o que é bom, e não nós, segundo os nossos padrões humanos. Dessa forma, para dar um exemplo, o mal não é algo bom, mas é bom que Deus tenha escolhido o mal para mostrar a sua glória e poder.

Quanto à responsabilidade humana diante da soberania de Deus, concordo com Marcelo, pois somos responsáveis primariamente por causa do conhecimento inato que temos de Deus, e, em segundo lugar, por causa da sua revelação natural (Romanos 1). Assim, é o conhecimento de Deus que temos, suprimido pelos incrédulos, que nos torna indesculpáveis diante de Deus.

Um grande abraço,
Felipe Sabino

Juan de Paula disse...

Olá Pr. Augustus,

eu li a crítica a ti aqui na internet! Obrigado pelas respostas e esclarecimentos. Obrigado também Rev. Herminsten pelo excelente comentário substancioso. Como aprendemos por aqui!!!!!!!!

Quanto o comentário do Carlos Alberto, acho engraçado comparar Calvino e Hitler!

Na 2a Guerra Mundial, adeptos do método histórico-crítico (que nada tem a ver com o histórico-gramatical defendido por Calvino e a tradição reformada) começaram a apoiar o nazismo e perseguir os judeus, visto que o At para eles era somente "panfleto javista" (Cf. CORNU, Daniel. Karl Barth, o teólogo da liberdade, ed. Paz e Terra), então não sei se seria exato comparar Calvino com Hitler.

Quanto a justiça divina e a eleição leia direitinho Romanos 9.

A Eleição transcende povos, tribos, raças e nações. Cristo morreu por um povo (Mt 1:28) eleito!

A questão histórica da doutrina da predestinação defendida por Agostinho foi a mesma defendida por Lutero e Calvino. Calvino admitiu isso quando diz que Agostinho "é totalmente nosso" (Cf. FERREIRA, Franklin. Agostinho de A a Z, Ed. Vida). Nínguem disse aqui que só "protestante" ou calvinista vai para o céu. Mas só vai aquele que confessar com a boca e com o coração que Jesus Cristo é o Senhor e Salvador (Rm 10:9) recebendo Cristo , único mediador entre Deus e o indivíduo (1 Tm 2:5) , sendo salvo pela graça mediante a justificação pela fé em Cristo, não sendo nosso dom, nosso esforço e sim GRAÇA e DOM DE DEUS (Ef 2:8) sendo primitivo, medieval, moderno ou vivente na era da tecnologia!

Quanto a democracia, longe de mim discutir teorias políticas, não tenho capacidade para esse tipo de debate, mas como cristão (e pastor) creio na revelação de Deus e o Senhor se revelou como Rei, portanto como Rei , Ele decidi como governar o seu Reino pela Sua providência.

O calvinismo não fere a dignidade humana (leia o texto de Weber, Ética protestante. Ainda que com reservas a partes do texto, a doutrina da predestinação impulsiona o crente para o mundo para glorificar a Deus e isso (evangelho) dignifica o ser humano), porém prega a crença bíblica na depravação total do homem (Rm 3:23).

Quanto a escravidão, qual seria a base histórica para essa afirmação?

Abraço e que Deus abençoe todos os leitores desse blog!

Juan

Augustus Nicodemus disse...

Charles,

Obrigado por suas contribuições, além de me poupar um tempo precioso em tentar responder aos comentários gigantescos colocados aqui, enriqueceram em muito o debate.

Carlos,

Não conheço a resposta do Gordon Clark à questão do mal. Mas, duvido que ele ou qualquer outro tenha a solução do mistério, sem tornar Deus o autor do mal ou um banana sem poder algum sobre a história.

Onésimo,

Agora me lembro da promessa. Obrigado por relembrar. A verdade é que a questão da contemporaneidade dos dons não é uma questão de interpretação ou de método, mas uma questão teológica, e histórica e prática. Independente do fato que os reformados preferem usar o método gramático-histórico, eles via de regra são cessacionalistas, ou seja, acreditam que os dons que implicam em novas revelações já cessaram, como profecia, línguas, sonhos e visões. Alguns reformados como eu, entendem que as línguas não eram revelacionais, portanto estamos prontos a admitir a sua atualidade, embora eu pessoalmente não conheça nenhum caso do dom de línguas que considere verídico. Não estou negando que exista, apenas dizendo que não conheço. Todos que eu conheço desobedecem 1Coríntios 14.

Um abraço a todos.

Augustus Nicodemus disse...

Nepomuceno,

Obrigado por sua primeira participação. Continue nos visitando e trazendo comentários tão pertinentes.

Marcelo,

Muito interessante a sua perspectiva. De fato, existe uma diferença entre liberdade e responsabilidade. O meu alvo na postagem não era discutir a fundo esse assunto, mas apenas a relação entre responsabilidade humana e a soberania de Deus, que permanece um mistério.

Wilson Bento,

Ainda bem que você escapou de ser linchado. As pessoas que apelam para o conceito de presciência pensam que assim resguardam a liberdade do homem, mas é um mero engano, como já aprendemos com o os teólogos relacionais. Eles já perceberam que tanto faz predestinação ou presciência, em ambos os casos Deus já sabe o que o homem vai fazer dentro dos próximos minutos, portanto qualquer decisão humana nunca é livre. É por isso que eles sentem que precisam, inclusive, negar a presciência de Deus.

Franklin,

O encadeamento histórico que você trouxe no seu comentário é iluminador. Só senti falta da teologia aberta ou relacional como um dos elos da cadeia.

Meu caro Felipe Monergismo Sabino,

Obrigado pelo comentário. Sou fã do seu site de especialmente do seu filho Charles Spurgeon, cujo autógrafo trago ainda hoje na capa da minha Bíblia. Dê um abraço nele por mim.

Juan.

Que bom vê-lo de volta à ativa. Como anda sua monografia? Você se forma ainda esse ano?

Um abraço a todos.

Anônimo disse...

Oi, Augustus,

Não a mencionei pois me parece que a teologia relacional se encontra dentro do espectro da teologia liberal. Mesmo com os protestos em contrário de Clark Pinnock, John Sanders, Greg Boyd e outros na ETS. E da teologia relacional para o ateísmo é um pulo.

Abs,
Franklin

Anônimo disse...

Quanto à escravidão, vale fazer uma pesquisa sobre Charles Hodge, que foi um ardoroso abolicionista, e que chorou quando Lincoln foi assassinado.

Abs,
Franklin

Eliot D. Chambers disse...

Olá, Augustus!

Não tenho comentado mas tô sempre por aqui, absorvendo e observando...

Essa do Hitler foi boa... he he he.

Vale lembrar que a questão do "mistério" está presente na filosofia, salvo engano, desde os tempos de Agostinho... acho que até antes...

Augustus, estou lendo um filósofo muito influenciado por Agostinho e pelos escolásticos, Leibniz, que tratou dessa questão das ações e responsabilidades humanas e da presciência e soberania de Deus numa forma interessante, não sei se você já estudou-o... Acredito que ele seja o maior autor do racionalismo clássico e trata tais questões com algumas categorias, que, de repente, podem facilitar (ou dificultar, he he) a abordagem desse tema, que, de fato, em certos momentos é melhor jogar a toalha e dizer: Deus sabe, eu não".

Ele divide a vontade de Deus em "geral" e "particular", fala que "a mais geral das leis de Deus, reguladora de todo o universo, não tem exceção", mas afirma que as "vontades particulares" seriam exceções de algumas máximas subalternas a essa lei mais geral. Usa o termo "contigência" (acredito que quase da mesma forma que Aristóteles) e dissocia fatos e coisas em 'contingentes' e 'necessários'. Ele fala em livre arbítrio, mas nesses termos:

Como a noção individual de cada pessoa encerra de uma vez por todas quanto lhe acontecerá, nela se vêem as provas "a priori" da verdade de cada acontecimento ou a razão de ter ocorrido um de preferência ao outro. Estas verdades, porém, embora asseguradas, não perdem, entretando, sua contingência, pois fundamentam-se no livre-arbítrio de Deus ou das criaturas, cuja escolha tem sempre suas razões, inclinando sem necessitar.

Certamente ele não deve estar em harmonia com Calvino em todos os pontos, mas acredito que vale a pena dar uma estudada e fazer os dois autores "dialogarem". Quem sabe a terminologia leibniziana, somada ao rigor hermenêutico da Bíblia por parte dos protestantes possam gerar, juntas, alguns esclarecimentos, algumas novas ponderações, não é mesmo? Bem, também pode acarretar também em mais alguns "ah, não sei, isso é mistério"...he he he

Concluindo: As observações de W. Grudem podem fazer qualquer pessoa mais recalcitrante com o tema -como algumas que passaram longa parte de suas vidas em igrejas arminianas, como eu - a aceitar essa doutrina de forma menos impactante, pois Grudem não dá margem para que da Bíblia se extraia qualquer fatalismo ou determinismo, que é o que realmente assusta as pessoas quando o assunto é predestinação.

Foi muito edificante.

Augustus, um abraço para você, para o Solano e para o Meister!
Até!

Juan de Paula disse...

Pr. Augustus,

não acabei a monografia ainda, ainda estou digitando o trabalho elaborado, o tema é: A catequese e o ministério pastoral reformado: O uso dos catecismos nas igrejas de confissão reformada.

Porém me formo esse ano.

Estou na ativa, mas devagarinho, rsrsrs!!!!!!!!!!!

Acho que o Franklin poderia explorar mais aqui a questão da abolição da escravatura. Eu sei que existe um movimento no meio presbiteriano no início do século passado, mas nada além disso!

Abração e estou voltando para a ralação da mono.

Daniel Portela disse...

Wilson Bento,

existem diversos bons artigos sobre predestinação no site do Felipe Sabino:

www.monergismo.com

e também no site de nosso irmão Solano Portela:

www.solanportela.net

abraços,

Daniel

wilson bento disse...

Obrigado Daniel, ja estou na maratona da leitura...Deus te abençõe. (sempre vou no seu blog para ver alguma novidade, como dizem os mexicanos aqui em Dallas: Que pasô hermano, ponga sus pensamientos afuera!!) hehe

Leonardo Bucky disse...

Rev. Augustus,

Gostei muito do seu texto, creio ser o mais esclarecedor a respeito da doutrina da predestinação.

Duas coisas que mais me impressionaram foi a sua piedade exposta na compreensão da limitação humana frente às coisas de Deus; e sua fidelidade ao texto sagrado (seguindo o exemplo de Calvino), pois acredito ser o mais correto nos calarmos onde a Bíblia se cala.

Tenho lido muitos textos extremados sobre a predestinação, principalmente no site "Monergismo", que advogam uma crença tão rígido a ponto de negar a responsabilidade humana e sua liberdade (ainda que limitada por Deus).

Abraços.

E que Deus o continue abençoando, a fim de que o senhor continue nos enriquecendo com seus textos.

Daniel Portela disse...

Valeu Wilson!

Por não ter internet em casa e estar com um chefe novo aqui no serviço ficou um pouco inviável "blogar", mas agora me mudei, estou em uma nova casa e lá tenho internet!

Se Deus quiser vou postar mais frequentemente.

Grande abraço,

Daniel

Rev. Jonathan disse...

Mais uma vez Rev. Augustus: Parabéns pelo excelente texto e muito obrigado pela edificacao bíblica que muito contribui para uma constante "reciclagem" de nós, ministros reformados (continuo escrevendo no meu teclado em espanhol, rsrsrs). Quero também especialmente agradecer ao Rev. Hermisten (meu caro "mestre") porque a través da sua erudicao característica enriqueceu com informacoes adicionais este post. Sobre a relacao Hitler-Calvino: muito engracado!!! (e mal-intencionado também). Típico comentário de quem nunca entendeu nem a doutrina da predestinacao nem a proposta de Hitler e do nacional-socialismo alemao de inícios do século XX.
A doutrina bíblica da predestinacao é muito mais do que simplesmente crer que existem eleitos. Ela é uma conseqüência direta do conceito bíbico de que Deus é soberano sobre todo o universo por Ele criado e que Ele, sendo tao distinto aos seres criados e envolvendo-se, ao mesmo tempo, no dia-a-dia de sua criacao (sendo trascendente e imanente) tem controle absoluto sobre a história, a qual pode ser resumida assim: (1)Deus criou o mundo, (2)este mundo tem sido sujeito a condenacao a causa da queda e (3)Deus executa a redencao desta criacao caída em Cristo.
É baseado nisto que a doutrina da predestinacao se apresenta como aquele aspecto do decreto eterno de Deus pelo qual Ele escolhe, dentre toda a humanidade que ele conhece desde a eternidade, àqueles que hao de ser salvos pelo sacrifício de Cristo. Em base a isto, Deus, como soberano sobre todo o universo, escolhe para si um povo que nao está limitado a uma raca, língua, cultura ou nacao específica. Ele escolhe homens e mulheres de todas as nacoes porque visa assim a sua própria glória no estabelecimento de uma Nova Criacao em Cristo, a qual substitui a antiga criacao caída (e condenada na morte de Cristo na cruz). Nesta Nova Criacao em Cristo, as paredes de separacao racial somem e aprendemos a nos complementar na nossa diversidade pessoal e cultural, nos sujeitando a Cristo como único cabeca. Na sua soberania também, Deus, e somente Deus, conhece os eleitos e nao os elege em base a nenhum atributo pessoal ou racial que eles possuam, mas só na base de seu Amor: sua Graca Soberana, dando novamente aos eleitos de todas a racas, a dignididade que o pecado lhes tirou, devolvendo a eles a liberdade, a justica e o bem-estar (shalom) que a Queda nao permite que o homem vivencie. Além disso, a vontade de Deus é que os eleitos, uma vez chamados e regenerados, sometam a Criacao aos pés de Cristo a través de uma vida de servico, mansidao e humildade, aguardando o glorioso dia no qual Cristo virá para julgar os vivos e os mortos e, assim, estabelecer visivelmente e de uma vez o seu Reino hoje invisível. Enquanto isso os eleitos devemos viver para a glória de Deus através do amor ao próximo, nao buscando o poder que este mundo destinado a desaparecer oferece (embora possamos usufruir dele em determinados momentos e sempre em base ao princípio do amor a Deus e ao próximo), mas no poder do Espírito que é justica, alegria, amor e paz. Em outras palavras: nosso Reino nao é deste mundo, embora já esteja presente e agindo neste mundo a través do Espírito de Deus que age por, com e na Igreja Universal (olho: universal = composta por crentes de todas as racas).
Pergunta: o que isso tudo tem a ver com Hitler e com nacional-socialismo alemao dos séculos XIX e XX????? Affff!!! Quanta imaginacao há e pode haver neste mundo!!!

Silvia disse...

Augustus, ótimos os posts que vc me indicou sobre o assunto. Me ajudou bastante a compreender sob uma visão mais ampla o tema predestinação. Mas uma pergunta (básica) ainda me incomoda:
Se fui escolhida por Deus e estou com Jesus hoje, ótimo. Mas caso eu não tenha sido eleita por Deus e mesmo assim tenha aceitado a Jesus como único Senhor e salvador da minha vida e tenha tido uma vida completamente de acordo com o coração de Deus, de nada adiantará, pois no final das contas não estarei no céu com Ele?!
Uma coisa eu sei disso tudo: tudo é relativo e só Deus é absoluto! Sendo assim, por mais que especulemos e discutamos o assunto, é incompreensível pra nós, meros mortais de inteligência e capacidade limitadas diante do ilimitado Deus.
[ ]´s em Cristo.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Silvia,

Se você não tivesse sido escolhida por Deus antes da fundação do mundo, vocÊ jamais iria crer em Cristo, aceitá-lo, amá-lo e andar nos caminhos dele. Somente os eleitos podem ter fé salvadora em Cristo. OS outros, na verdade não desejam, não querem e não crerão. Portanto, todos os que verdadeiramente crêem em Cristo serão admitidos nos céus, pois Deus já os havia predestinado para isto.

Abraços.

Felipe(soldado de cristo) disse...

augustus nicodemus lopez realmente é muito bom...agora sei que msm Deus predestinando tudo, o pecado não é por causa dele, mais sim do homem, e isso é impossível de se compreender...tenho que parar de querer saber(de um jeito humano) os decretos de Deus e me conforma com aquilo que a bíblia diz..., acho que romanos 9 comprova que o calvinismo é a doutrina correta...

Lucas Yahn disse...

O problema de ser calvinista é ter que dar um jeito de "casar" o conceito pra todas as outras situações, custe o que custar.

Por exemplo: não ver problema em considerar que uma criança, mesmo não tendo feito ainda absolutamente nada, estáem pecado, mesmo sem ter desagradado a Deus, e mesmo Deus tendo dito que o pecado do pai não recairia sobre o filho,e ainda por cima não ver problema (incoerência/injustiça/falta de bondade, etc) nessa mesma criança sofrer eternamenteno pior tormento de dor, criado por Deus, pelo simples fato de não ser "eleita".

Lucas Yahn disse...

A última frase do meu comentário não foi rs..

"seria muito interessante e muito útil um post do senhor sobre morte na infância."

Deus te abençoe! (se Ele quiser).

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Lucas,

Muito sem noção esta sua frase: "O problema de ser calvinista é ter que dar um jeito de "casar" o conceito pra todas as outras situações, custe o que custar."

E os arminianos, não fazem isto também?

Você diz que os calvinistas não vêem problema em uma série de situações que você considera óbvias. E vocês, arminianos, e da teologia relacional, como resolvem estes problemas? Negando as passagens bíblicas que falam da soberania de Deus sobre todas as coisas, que nada acontece se não for a vontade dele?

E o que tem morte na infância a ver com tudo isto? Se representa um problema para calvinistas não representa para arminianos?