quarta-feira, setembro 24, 2008

Carta ao Apóstolo Juvenal

[Não se preocupem, o apóstolo Juvenal não existe. Também nunca tive amigo que virou apóstolo. O apóstolo Juvenal é uma personagem fictícia, embora baseada em personagens da vida real.]


Meu caro Juvenal,

Espero que você se lembre de mim, o Augustus Nicodemus, seu colega de turma do seminário presbiteriano (talvez você se lembre pelo apelido "Brutus" que eu odiava...!). Faz uns 20 anos que não temos contato. Só recentemente consegui seu e-mail, com o Mário, nosso amigo comum.

Desculpe não lhe tratar como "apóstolo". Você sabe, desde os tempos do seminário, que minha opinião é que os apóstolos constituíram um grupo único e exclusivo na história da Igreja e que hoje não existem mais. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com seu programa de televisão e com você se apresentando como "apóstolo" Juvenal! Eu não sabia que você tinha deixado o pastorado em nossa denominação, montado uma comunidade e adquirido esse título de "apóstolo", o qual, como já disse, não consigo reconhecer como legítimo.

Você sabe que para nós, cristãos históricos reformados, os apóstolos de Jesus Cristo tiveram um papel crucial e extremamente relevante na fundação da Igreja cristã. É um cargo, um ofício, tão sério e fundamental, que ver pessoas usando esse título nos dias de hoje causa um grande desconforto, uma profunda perplexidade e tristeza inominável. Não consigo imaginar uma banalização maior do que essa. Não que você seja uma pessoa indigna, pífia, pérfida ou mesquinha -- não se trata disso. Eu sentiria a mesma coisa se o próprio Calvino resolvesse usar esse título para si.

Não sei o que se passou por sua cabeça para que você, que conhece a Bíblia e a história da Igreja, resolvesse virar um "apóstolo" e montar sua própria comunidade. Pelo seu programa de televisão, ficou patente para mim que você adotou os cacoetes, o linguajar e as idéias que são próprias dos outros "apóstolos" que já estão por ai há mais tempo que você. Valendo-me da nossa amizade dos tempos de seminário, resolvi escrever-lhe e tirar as dúvidas, perguntar diretamente a você, para não ficar imaginando coisas.

1) Quem foi que lhe conferiu esse status, Juvenal? Refiro-me ao título de "apóstolo". Nas igrejas históricas ninguém toma para si o cargo, a função e o título de diácono, presbítero, pastor. São títulos concedidos por essas igrejas a pessoas que elas reconhecem como vocacionadas e aptas para a função. Não sei quem lhe conferiu esse título de "apóstolo". Ouvi falar que existe um conselho de apóstolos no Brasil, ligado a outros conselhos similares no exterior, que é quem ordena e investe os apóstolos no Brasil. Mas, pergunto, quem ordenou, investiu e autorizou os membros desse conselho de apóstolos? Em algum momento, chegaremos ao ponto em que alguém se autonomeou apóstolo, já que esse título e ofício deixaram de existir na Igreja Cristã desde o século I. Os apóstolos de Cristo não deixaram sucessores que por sua vez fizessem outros sucessores, numa corrente ininterrupta até os dias de hoje. Só quem reivindica isso é o Papa e nós não aceitamos essa reivindicação -- aliás, esse foi um dos motivos da Reforma protestante ter acontecido. Por isso, considero a utilização do título "apóstolo" hoje como uma usurpação, uma apropriação indevida dentro da Igreja de uma função histórica que não mais existe.

2) Fala sério, Juvenal, você acha mesmo que é um apóstolo? Quando você usa esse título para si, você está se igualando aos Doze Apóstolos e a Paulo, ou simplesmente usa o termo no sentido de "enviado, missionário", que é o sentido básico da palavra no grego? Se for nesse último sentido, fico menos consternado. Há outras pessoas na Bíblia que são referidas como apóstolos, além dos Doze e Paulo, como Tiago, irmão do Senhor (Gálatas 1:19; mas veja 1Coríntios 9:5 onde Paulo distingue entre apóstolos e os irmãos do Senhor) e Barnabé (Atos 14.14). O sentido aqui é quase sempre de enviado de igrejas locais, missionário, para usar o termo mais popular. Todavia, esse uso é secundário e desconhecido pelas igrejas modernas. Quando se fala em "apóstolo", as pessoas imediatamente associam o termo a Pedro, Tiago, João, Paulo, etc. Usar o título "apóstolo" hoje é igualar-se a eles ou, no mínimo, causar confusão na mente das pessoas. Você acredita mesmo que é um apóstolo como Paulo, Pedro, João, Mateus, André, Felipe, etc.?

3) Se você acredita, então minha próxima pergunta é essa: você viu Jesus ressurreto? Ele lhe apareceu e lhe comissionou como apóstolo? Pois foi assim que ele fez com os Doze e com Paulo. Todos eles foram chamados diretamente por Jesus e o viram depois da ressurreição. Se você disser que Jesus lhe apareceu e lhe comissionou, pergunto ainda como fica a declaração de Paulo em 1Coríntios 15:8, "e, afinal, depois de todos, [Cristo] foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo"? Ele está defendendo que Jesus apareceu a várias pessoas, depois da ressurreição, e "afinal, depois de todos" apareceu a ele. Literalmente, no grego, Paulo está dizendo que "por último de todos" (eschaton de pantwn) Cristo apareceu a ele. Ou seja, Paulo entendia que a aparição do Cristo ressurreto a ele era a última de uma seqüência. É assim que os cristãos históricos sempre entenderam. Se a condição para ser apóstolo era ter visto Jesus ressurreto, conforme Pedro declarou (Atos 1:22; veja também 1Coríntios 9:1), então Paulo foi o último apóstolo. Desculpe, não creio que Cristo lhe apareceu no corpo da ressurreição. Se você disser que sim, prefiro acreditar em Paulo, de que ele foi o último.

4) Você acha, sinceramente, que usar esse título de alguma forma vai ajudar a Igreja? Em que sentido? Veja só, grandes líderes da Igreja, através de sua história, pessoas que deram contribuições duradouras na área de teologia, missões, social, nunca buscaram esse título. Nem mesmo aqueles grandes homens de Deus que viveram na época imediatamente após os apóstolos e que foram discípulos deles, como Papias e Policarpo. Outros, como Agostinho, Calvino, Lutero, Wesley, Spurgeon, e os grandes missionários como Carey, jamais arrogaram para si essa designação. Se alguém teria esse direito, depois dos apóstolos, seriam eles, e não pessoas como você e outros que se apropriaram desse título, e cuja contribuição para a Igreja cristã é mínima comparada com a contribuição deles.

5) Outra pergunta. Pelo que entendi, você é o fundador e presidente dessa igreja "Igreja Apostólica Global da Misericórdia de Deus". Como você concilia isso com o fato de que os apóstolos de Cristo não se tornaram donos, presidentes, chefes e proprietários das igrejas locais que eles fundaram? Eles eram apóstolos da Igreja de Cristo, da igreja universal, e não de igrejas locais. A autoridade deles era reconhecida por todos os cristãos de todos os lugares. Aonde eles chegavam eram recebidos como emissários de Cristo, com autoridade designada por ele. A prova disso é que os escritos deles, como os Evangelhos e as cartas, foram recebidos por todas as igrejas como Palavra de Deus e autoritativas em matéria de fé e prática, foram organizadas e colecionadas naquilo que hoje conhecemos como o cânon do Novo Testamento. Pergunto, então: quem reconhece sua autoridade como apóstolo? As igrejas cristãs do Brasil ou somente sua igreja local? Seus escritos, seus sermões -- eles são recebidos como Palavra infalível e autoritativa da parte de Deus em todas as igrejas cristãs ou somente na sua igreja local?

6) Juvenal, pelo que me recordo de você, você sempre foi uma pessoa com dificuldades de relacionamento com as autoridades. Lembra daquela suspensão que você pegou no seminário por desacato ao diretor e ao capelão? Para não mencionar as brigas constantes que você tinha em sala de aula com os professores, não por causa dos conteúdos, mas porque você insistia em questionar, às vezes até zombeteiramente, a autoridade deles em sala de aula. Lembrando-me desse traço da sua personalidade e do seu caráter, até que posso entender o motivo pelo qual você resolveu abandonar o sistema conciliar da nossa denominação e fundar uma outra, onde você é o chefe supremo. Imagino que você não presta contas a ninguém da sua conduta, do que ensina e de como usa os recursos financeiros que arrecada. Afinal de contas, acima dos apóstolos só Jesus Cristo, e pelo que sei, ele não emite nada-consta nessas áreas...

7) Uma última pergunta e depois vou lhe deixar em paz. Você faz os mesmos milagres que os apóstolos fizeram? Não me refiro a curas em massa de pessoas que não têm CPF nem endereço e que foram curadas de males internos como enxaqueca, espinhela caída, pressão alta, etc. Refiro-me à curas daquele tipo efetuadas pelos apóstolos de Cristo, de aleijados, surdos, cegos, paralíticos, cujas deformidades, endereço e identidade eram conhecidos das comunidades. Refiro-me às ressurreições de mortos, como a ressurreição de Dorcas feita por Pedro. Você faz esse tipo de sinais? Os apóstolos não fracassaram nunca quando diziam "em nome de Jesus, levanta-te e anda". O índice de sucesso deles era de 100%. E as curas eram instantâneas e completas. Quem era cego voltava a ver completamente, e não em parte. Aleijados voltavam a andar e a pular. Você faz isso, Juvenal? Você se incomodaria em me deixar participar de uma daquelas reuniões de cura que você anuncia em seu programa, para que eu entrevistasse as pessoas que dizem ter sido curadas? Não me leve a mal, mas é que tem muita charlatanice nesse meio, muita gente que é paga para dar testemunho falso de cura, muitos que pensam que foram curados quando no máximo foram sugestionados nesse sentido. Curas reais e autênticas serão assim comprovadas por laudo médico, exames, etc. Não é que eu não creia em milagres hoje. Eu creio, sim, que Deus cura hoje em resposta às orações. Inclusive, eu mesmo já fui curado em resposta às orações. O que eu não creio é que existam hoje pessoas com o dom apostólico de curar simplesmente pelo comando verbal, e de realizar curas imediatas e completas de aleijados, cegos, surdos, paralíticos, doentes mentais, cancerosos, aidéticos, etc. Esse dom fazia parte do equipamento apostólico e servia como "credenciais do apostolado", conforme Paulo declarou aos coríntios (2Coríntios 12:12). Se você não é capaz de fazer os sinais que os apóstolos faziam, não creio que tenha o direito de se chamar de apóstolo.

Bom, não sei se você vai me responder. Fique à vontade. Eu precisava lhe perguntar essas coisas, para não ficar imaginando no coração que você é um mercenário, uma daquelas pessoas que está disposta a tudo para ganhar poder, espaço e dinheiro, mesmo que seja às custas da credulidade do povo brasileiro e em nome de Deus.

Um abraço,

Augustus

terça-feira, setembro 16, 2008

Está Jesus Também entre os Profetas?

Tive o privilégio semana passada de ser um dos debatedores do Dr. Richard Horsley (foto), famoso estudioso do Novo Testamento, em palestra que ele proferiu no Mackenzie sobre Jesus e o underground da Galiléia. O outro debatedor foi Dr. Carlos Caldas, professor do Mackenzie, que trouxe importantes contribuições ao evento.

De maneira geral, podemos enquadrar Horsley na linha social da Terceira Busca do Jesus Histórico, juntamente com Martin Hengel, Geza Vermes, Marcus Borg, E.P. Sanders e Gerd Theissen. Horsley desenvolve seu trabalho principalmente a partir dos estudos sociológicos do mundo daquela época. Sua releitura dos Evangelhos a partir de referenciais sociais e de modelos de luta de classes entre oprimidos e opressores se assemelha em muito à hermenêutica da teologia da libertação. Essa visão é claramente perceptível nos muitos livros que ele tem publicado.


Em sua palestra, Horsley argumentou que a situação social da Galiléia e da Judéia era de opressão e violência institucionalizada praticada pelo império romano contra os camponeses e moradores das vilas através de líderes comunitários e da hierarquia do templo. É nesse ambiente de tensão que surge Jesus. Ele escolheu ser um revolucionário social, tomando o partido dos pobres e oprimidos e se colocando contra as elites poderosas, compostas das hierarquias do templo de Jerusalém que estavam a serviço do poder imperial de Roma. Ele organizou uma revolução social de baixo para cima, de base, a partir dos camponeses, moradores das comunidades e vilas espalhadas pela Galiléia, reorganizando a vida rural, comunitária, das vilas na Galiléia, pregando a renovação da vida comunitária com base em seus ensinamentos éticos.


A ação revolucionária de Jesus foi possível por causa daquilo que Horsley denominou em sua palestra de underground, um movimento subterrâneo subversivo, que formava uma rede de comunicação entre as vilas e comunidades, e que era alimentada pelas esperanças messiânicas de Israel. Assim, Jesus, para Horsley, é um profeta da mudança social, a exemplo dos profetas Elias e Jeremias (daí, o título dessa postagem). Um exemplo que Horsley dá da ação de Jesus, como profeta, para enfrentar as elites poderosas é a entrada triunfal em Jerusalém.


Na minha resposta a Horsley, destaquei, em primeiro lugar as muitas contribuições positivas do seu trabalho, entre elas sua insistência nas questões sociais como pano de fundo para entendermos a Galiléia nos tempos de Jesus. Seus estudos, sem dúvida, nos ajudam a entender melhor o ambiente sócio-político daquela época.


Em seguida, fiz algumas observações à apresentação dele e às suas teses em geral. As primeiras observações tiveram a ver com as fontes que Horsley usa para reconstruir a situação da Galiléia, os movimentos proféticos populares, as revoltas dos camponeses, a vida e mensagem de Jesus e o movimento iniciado por ele. De acordo com ele, as fontes escritas foram produzidas pelas elites cultas e letradas e refletem somente as instituições e a ideologia do dominador. Todavia, ele não hesitou em usar Guerras Judaicas, uma das principais obras de Flávio Josefo, um destacado membro da elite judaico-romana, ex-fariseu, como fonte confiável para reconstruir o clima sócio-político da Galiléia.


Ainda nessa linha, mencionei que Horsley tem a tendência de rejeitar o quadro que os Evangelhos canônicos pintam de Jesus. É, portanto, estranho que ele usa Josefo com segurança para reconstruir as revoltas e os movimentos proféticos da Palestina e tem restrições quanto ao uso dos quatro Evangelhos e no quadro de Jesus que eles nos fornecem. É por esse motivo que ao comparar Jesus com Teudas, o Samaritano, o Egípcio e outros líderes populares mencionados por Josefo, Horsley relega a segundo plano as diferenças fundamentais entre eles e Jesus, conforme os Evangelhos e as cartas dos primeiros discípulos de Jesus nos informam, a começar do fato que Jesus se considerava Deus.


A releitura que Horsley fez da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém pressupõe que o relato dos Evangelhos não retrata a realidade, embora contenha elementos historicamente plausíveis. Para ele, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém foi teatro intencional, com propósitos políticos, disfarçado de peregrinação religiosa. Jesus teria escolhido a festa da Páscoa de propósito, para deflagrar a sua revolução social. A profecia que Jesus pronuncia sobre o templo é entendida como um castigo pela exploração do povo – mesmo que os Evangelhos insistam que era parte do castigo porque os judeus não o reconheceram como o Filho de Deus, conforme várias parábolas nos ensinam.


Ainda nesse contexto, observei que muitas afirmações e conclusões de Horsley não podem ser substanciadas a partir dos textos cristãos mais antigos. Por exemplo, se a mensagem de Jesus e suas ações eram dirigidas para o confronto com as classes dominantes e eram revestidas primariamente de um caráter social e libertário, por que não encontramos nas fontes histórias de Jesus confrontando os dominadores das vilas e comunidades ou as elites poderosas de cidades da Galiléia, como Séforis ou Tiberíades?


As segundas observações que fiz tinham a ver com a abordagem sociológica do ilustre palestrante. Fiquei com a nítida impressão de que ele tem a tendência de diminuir e menosprezar o componente teológico dos ensinamentos dos grupos existentes na Galiléia, como fariseus, zelotes, saduceus, e reduzi-los apenas a grupos que tinham interesses sociais. Se entendermos que todo o conflito de Jesus com os lideres da sua época era de natureza exclusivamente social, em que sentido ele foi diferente de Teudas, Judas, o Egípcio, o Samaritano e outros líderes revolucionários sociais cujos movimentos foram de curta duração? E se o movimento iniciado por Jesus foi um movimento social fracassado, que terminou com sua execução, sem que as reformas sociais esperadas viessem, como explicar a continuidade, crescimento e fortalecimento do movimento por ele iniciado até os dias de hoje?


Outro ponto: embora existisse uma enorme brecha entre ricos e pobres na Galiléia, agravada pelos fazendeiros ricos e opressores, não é claro se podemos falar de “tensões sociais” dentro da Galiléia na época de Jesus, como hoje temos. Embora Jesus tenha dito muita coisa na área social (família, dinheiro, pobreza, riqueza, poder, etc.) elas foram ditas num contexto onde a luta de classes era desconhecida.


Levantei também o fato de que as abordagens sociológicas à vida, obra e mensagem de Jesus e os inícios da igreja cristã costumam deixar sem explicação o surgimento das tradições teológicas/escatológicas presentes na pregação da Igreja primitiva em curto espaço de tempo. Não há a menor dúvida que Jesus levou em consideração, em seus ensinamentos, a pobreza, a opressão e a violência de sua época. Todavia, os Evangelhos e as cartas de Paulo, algumas escritas antes dos Evangelhos, nos retratam um Jesus que via como sua missão principal não uma reforma social, mas uma de natureza espiritual, que buscava em primeiro lugar a reconciliação do homem pecador com Deus e o estabelecimento de uma nova comunidade, a sua igreja. O Reino pregado por Jesus era uma idéia primariamente religiosa-escatológica, com conotações sociais.


Obviamente, Horsley teve a oportunidade de responder às minhas críticas. Sua principal argumentação foi que sua palestra visava apenas mostrar o lado humano e social de Jesus, e que ele não teve chance de mostrar também o lado transcendente e espiritual do Jesus histórico, que ele diz acreditar. Num esforço visível para mostrar que era evangelical conservador, o nobre erudito afirmou que era crítico dos liberais – e de fato é mesmo – e que chega próximo de uma postura inerrantista da Bíblia – a confirmar.


Num certo sentido, podemos dizer, sem qualquer demérito para a obra brilhante e instrutiva de Dr. Horsley, que de novidade ela nos apresenta apenas uma reconstrução social interessante da Galiléia camponesa e dos movimentos que possivelmente a infestaram no período antes, durante e depois de Jesus. Pois, a idéia de Jesus como revolucionário social, com uma mensagem e ação de confronto das classes dominantes, já nos é bem conhecida, desde os tempos áureos – agora passados – da teologia da libertação em nosso país, com sua análise marxista da Bíblia.

sábado, setembro 13, 2008

Reprimir o Desejo Sexual faz Mal?

Recebi diversos comentários (alguns impublicáveis) ao post Carta a Um Jovem Evangélico que Faz Sexo com a Namorada argumentando que a abstinência sexual defendida por mim e outros que comentaram a matéria provoca nos jovens evangélicos traumas e neuroses. Ou seja, passar a adolescência e a mocidade sem ter relações sexuais faz com que os evangélicos fiquem traumatizados, perturbados mental e espiritualmente, reprimidos e recalcados.

Esse raciocínio tem sua origem mais recente nas idéias do famoso Sigmund Freud. Para ele, o sexo era o fator dominante na etiologia das neuroses e o desejo sexual era a motivação quase que exclusiva para o comportamento das pessoas. No início, Freud falava que o ser humano, até biologicamente (todos os seres vivos, no final), viveria sua existência na tensão entre dois princípios, ou instintos, primordiais: o princípio do prazer (instintivo e ligado ao id, às vezes relacionado como a libido) e o princípio da realidade (a limitação do prazer para tornar a vida possível, princípio ligado mais ao amadurecimento e, às vezes, ao superego). Mais tarde (na publicação de Além do Princípio do Prazer, 1920), ele passou a falar em outros dois princípios mais amplos, o princípio de vida e o princípio de morte, os quais ele denominou eros e tanatos, como os dois princípios que geram a tensão que move o ego. De qualquer modo, tanto o princípio do prazer quanto eros (princípio de vida) eram, para Freud, princípios instintivos, ligados à preservação da vida e da espécie, e sempre conectados ao apetite sexual (ver Os Instintos e Suas Vicissitudes, 1915).

Nem as crianças estariam livres desse apetite sexual instintivo – elas desejavam sexualmente seus pais. Freud apelou aqui para o complexo de Édipo, em que o filho deseja sexualmente a mãe e o complexo de Eletra, a inveja que a menina tem do pênis do menino. Naturalmente, quando esses desejos sexuais eram interrompidos, resistidos, negados, o resultado eram as neuroses, os traumas. As obras mais conhecidas onde ele sustenta seus argumentos são Sobre as Teorias Sexuais das Crianças (1908) e Uma criança é espancada - uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais (1919), onde ele defende o surgimento das neuroses como resultado da repressão do desejo sexual.

Em que pese a importância de Freud, seu modelo e suas idéias têm sido largamente criticados e rejeitados por muitos estudiosos competentes. Todavia, algumas de suas idéias – como essa de que a repressão sexual é a causa de todas as neuroses e distúrbios – acabou se popularizando e é repetida por muitos que nunca realmente se preocuparam em examinar o assunto mais de perto.

Vou dizer por que considero esse argumento apenas como mais uma desculpa de libertinos que procuram se justificar diante de Deus, da igreja e de si mesmos pelo fato de terem relações sexuais antes e fora do casamento. Ou pelo menos, por defenderem essa idéia.

1. Esse argumento parte do princípio que os evangélicos conservadores são contra o sexo. Já desisti de tentar mostrar aos libertinos que essa idéia é uma representação falsa da visão cristã conservadora sobre o assunto. Nós não somos contra o sexo em si. Somos contra o sexo fora do casamento, pois entendemos que as relações sexuais devem ser desfrutadas somente por pessoas legitimamente casadas (ah, sim, cremos no casamento também). Foi o próprio Deus que nos criou sexuados. E ele criou o sexo não somente para a procriação, mas como meio de comunhão, comunicação e prazer entre marido e mulher. Há muitas passagens na Bíblia que se referem às relações sexuais entre marido e mulher como sendo fonte de prazer e alegria. O livro de Cantares trata abertamente desse ponto. Em Provérbios encontramos passagens como essa:

Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias (Pv 5.18-19).

Não, não acredito que o sexo é somente para a procriação. Não, não sou contra planejamento familiar e o uso de meios preventivos da gravidez, desde que não sejam abortivos. Sim, o sexo é uma bênção, desde que usado dentro dos limites colocados pelo Criador.

2. Esse argumento, no fundo, acaba colocando a culpa em Deus, na Bíblia e na Igreja de serem uma fábrica de neuróticos reprimidos. Sim, pois a Bíblia ensina claramente a abstinência, a pureza sexual e a virgindade para os que não são casados, conforme argumentei no post Carta a Um Jovem Evangélico que Faz Sexo com a Namorada. Se a abstinência sexual antes do casamento traz transtornos mentais e emocionais, deveríamos considerar esses ensinamentos da Bíblia como radicais, antiquados e inadequados. E, portanto, como meras idéias humanas de pessoas que viveram numa época pré-Freud – e como tais, devem ser rejeitadas e descartadas como palavra de homem e não Palavra de Deus. Ao fim, a contenção dos libertinos é mesmo contra a Bíblia e contra Deus.

3. Bom, para esse argumento ser verdadeiro, teríamos de verificá-lo estatisticamente, na prática. Pesquisa alguma vai mostrar que existe uma relação direta de causa e efeito entre abstinência antes do casamento e distúrbios mentais, neuroses e coisas afins. Da mesma forma que pesquisa alguma vai mostrar que os jovens que praticam sexo livre antes do casamento são equilibrados, sensatos, sábios e inteligentes. Pode ser que até se prove o contrário. Os tarados, estupradores e maníacos sexuais não serão encontrados no grupo dos virgens e abstinentes.Talvez fosse interessante mencionar nesse contexto o estudo conduzido na Universidade de Minessota por Ann Meir. De acordo com as pesquisas, o sexo estava associado a auto-estima baixa e depressão em garotas que iniciaram as relações sexuais (idade média de início 15-17 anos) sem relacionamento afetivo ou romântico.

4. A coisa toda é muito ridícula. Funciona mais ou menos assim. Os libertinos tendem a considerar todo distúrbio que encontram como resultado de repressão dos desejos sexuais. Mas eles fazem isso não porque têm estatísticas, experiências ou históricos que provam tal teoria – mas porque Freud explica. Em vez de considerarem que esses distúrbios podem ter outras causas, seguem sem questionar a tese de Freud que tudo é sexo, desde o menininho de um ano chupando dedo até o complexo de Édipo.

O próprio Freud, na fase mais amadurecida de sua carreira, se questiona na obra Além do Princípio do Prazer (1920):

A essência de nossa investigação até agora foi o traçado de uma distinção nítida entre os “instintos do ego” e os instintos sexuais, e a visão de que os primeiros exercem pressão no sentido da morte e os últimos no sentido de um prolongamento da vida. Contudo, essa conclusão está fadada a ser insatisfatória sob muitos aspectos, mesmo para nós.

5. Embora a decisão de preservar-se para o casamento vá provocar lutas e conflitos internos no coração e mente dos jovens evangélicos, esses conflitos nada mais são que a luta normal que todo cristão verdadeiro enfrenta para viver uma vida reta e santa diante de Deus, mortificando o pecado e se revestindo diariamente de Cristo (Romanos 3; Colossenses 3; Efésios 4—5). Fugir das paixões da mocidade foi o mandamento de Paulo ao jovem Timóteo (2Timóteo 2:22). Essa luta contra a nossa natureza carnal não provoca traumas, neuroses, recalques e distúrbios. Ao contrário, nos ensina paciência, perseverança, a amar a pureza, a apreciar as virtudes e o que significa tomar diariamente a cruz, como Jesus nos mandou (Lucas 9:23). Os que não querem tomar o caminho da cruz, entram pela porta larga e vivem para satisfazer seus desejos e instintos.

Por esses motivos acima e por outros que poderiam ser acrescentados considero esse argumento – de que a abstenção das relações sexuais antes do casamento provoca complexos, neuroses, recalques – como nada mais que uma desculpa para aqueles que querem viver na fornicação. Não existe realmente substância e fundamento para essa idéia, a não ser o desejo de justificar-se ou desculpar-se diante de uma consciência culpada, da opinião contrária de outros ou dos ensinamentos da Escritura.

Os interessados em estudar mais esse assunto poderão aproveitar bastante o livro recém-lançado Sexo Não é problema – Lascívia, Sim – de Joshua Harris, pela Editora Cultura Cristã.

[Agradeço aos colegas e amigos Dr. Davi Gomes (apologeta) e Dr. Pérsio Gomes de Deus (psiquiatra) que leram e corrigiram o manuscrito desse post. Além, é óbvio, de Mauro e Solano.]

quinta-feira, setembro 04, 2008

O Canto do Poeta

Acabo de chegar do lançamento do CD do Stênio Marcius (Auditório Ruy Barbosa – Mackenzie, 03.09.2008), compositor de muitos talentos e cantor de rara amplitude de voz. Conheço o Stênio há vários anos. Primeiro, durante uns três anos, em Manaus. Bem mais novo do que eu, ele foi meu pastor e cuidava com grande carinho tanto do seu rebanho como dos cânticos e hinos cantados na Igreja, muitos de sua autoria. As suas músicas contam e cantam grandes histórias, quer da Bíblia, quer do cotidiano – à luz dos princípios e ensinamentos das Escrituras.

Depois, trilhamos caminhos diferentes e em regiões distantes. Voltamos a nos encontrar algumas vezes em São Paulo. Nos últimos anos acompanhei sua produção de CDs com músicas evangélicas: “O Tapeceiro”, “Estima” e, o recém lançado: “Canções à Meia Noite”. Letras profundas, acordes complexos, teologia destilada em poesia, fontes de reflexão e apreciação pela mão de Deus em nossas vidas: pesando, em correção; agindo, em redenção; resgatando, em salvação; motivando-nos, em adoração.

De várias maneiras – Stênio está pastoreando a muitos pela canção. Talento refinado pela longanimidade e benevolência do Mestre, devolvido ao Autor da Vida em músicas que honram o Nome de Deus.

Se você ainda não conhece o trabalho do Stênio, sugiro que não retarde essa experiência. Mergulhe e nade em largas braçadas em suas poéticas letras (muitas disponíveis
em seu blog - ou em outros sites) e prove o sabor de sua música (algumas disponíveis no site do Bomilcar). Acima de tudo, adquira os seus CD’s – não se arrependerá!