sexta-feira, outubro 22, 2010

Afinal, quando começou e para que serve o governo?

Em meu último post, um leitor fez um comentário sobre minha afirmação de que o Governo, no conceito da teologia reformada, haveria começado após a queda. Disse ele:


"Fiquei curioso devido ao fato que nas duas narrações bíblicas de Gênesis que relatam a criação, em ambas está implícito a capacidade de governar que foi dada por Deus ao Homem. Pois no primeiro relato (Gn Cap.1) encontramos Deus dizendo ao Homem:"...domine sobre..." (Gn 1.26) e "E Deus os abençou, e Deus lhe disse:...sujeitai-a...dominai (Gn 1.28); E no segundo relato (Gn Cap.2), diz: "E Adão pôs os nomes a todo o gado... (Gn 2.20)... a tudo o que Adão chamou...isso foi o seu nome (Gn2.19)". Ou seja, capacidade para governar, o Homem recebeu de Deus e isso não foi após a queda e a partir de Noé, mas já na criação original do Homem".

Este é, realmente, um ponto controvertido. Mas, para iniciar a discussão, não devemos confundir capacidade de organização com a instituição do governo humano (a regência de uns sobre outros). Veja que, nos exemplos acima, a classificação filológica realizada por Adão, demonstra capacitação, mas não governo, no estrito senso da palavra.

Tendo dito isso, é verdade que muitos estudiosos consideram a instituição do governo, ou “o estado” como sendo parte da organização social humana que antecede a queda em pecado. Um autor coloca a questão da seguinte maneira: “Existe uma forte indicação que o governo existiria mesmo se vivêssemos em um mundo sem pecado” (1). Na opinião deste autor, o governo faria parte dos atos criativos de Deus, que teria ordenado os métodos pelos quais os homens e anjos deveriam ser governados. Para ele, a base do governo civil está enraizada na nossa natureza de criaturas formadas à imagem e semelhança de Deus. Entretanto, esse mesmo autor afirma que a necessidade do governo é exatamente o controle da pecaminosidade humana, e ele se volta para o registro de Gênesis 9.

Essa opinião sobre a base e origem do governo, ou do “estado”, apesar de aparecer em círculos evangélicos, é mais característica do campo Católico Romano. Uma publicação católica faz a seguinte afirmação sobre os governos – “regimes cuja natureza é contrária à lei natural, à ordem pública a aos direitos fundamentais das pessoas, não podem alcançar o bem comum das nações das nações nas quais eles estão impostos” (2). O ponto a ressaltar, nessa afirmação, é o conceito do “contrário à lei natural”. Essa compreensão vê o governo como sendo uma conseqüência lógica da "lei natural". Além disso, o governo subsistiria em qualquer circunstância, pois sua finalidade seria promover “o bem comum”.

O Papa Leão XIII, em sua encíclica Imortale Dei, de 1885, disse (grifos meus):


"Não é difícil determinar qual seria a forma e caráter do Estado, se fosse governado pelos princípios da filosofia cristã. Os instintos naturais do homem o levam a viver em sociedade civil, porque ele não pode, vivendo isoladamente, prover para si mesmo com os requerimentos necessários a esta vida, nem obter os meios de desenvolver as suas faculdades mentais e morais. Conseqüentemente, é uma ordenança divina que ele direcione a sua vida, seja ela em família, socialmente ou na sociedade civil, juntamente com seus semelhantes, no meio dos quais as suas diversas necessidades serão supridas adequadamente. Mas nenhuma sociedade pode se manter coesa a não ser que alguém esteja sobre ela, direcionando todas as pessoas para que busquem com afinco o bem comum; cada comunidade civilizada deve possuir uma autoridade regente. Essa autoridade, bem como a própria sociedade, tem a sua fonte na natureza e, conseqüentemente, tem Deus como o seu autor".(3)

Percebem as implicações da visão católico romana, bem como as diferenças entre os dois conceitos? Deus é colocado como última causa, mas a ênfase é na sociedade (estado) como existindo em função dos “instintos naturais” das pessoas, para o bem comum. Há, igualmente, uma tendência a subordinar diferentes esferas (como, por exemplo, a família) ao estado, bem como em traçar um relacionamento muito mais incestuoso entre igreja e estado, do que o conceito bíblico-reformado.

A teologia reformada, em sua visão majoritária, considera o governo (ou o estado) como uma instituição pós queda em pecado. Isso não quer dizer que a sociedade humana sem pecado (em uma visão especulativa) seria carente em organização. Desorganização e caos são características do pecado. Um mundo sem pecado seria, por natureza própria, organizado e respeitador dos direitos e limites estabelecidos pela fonte de toda justiça – Deus.

Hebden Taylor, importante jurista e filósofo reformado, mesmo sendo ministro ordenado da igreja anglicana, ensinou no Dordt College (Estados Unidos), no meio da Igreja Cristã Reformada. Ele escreveu um livro importante sobre este assunto (4). Nele, ele diz:

“O estado existe em função da pecaminosidade humana, de tal forma que, com o seu poder de coação, o estado é uma instituição característica da graça comum, temporal e preservativa, de Deus. A visão católico-romana, que fundamenta o estado da esfera do natural, não faz justiça ao fato do pecado. Tanto no Antigo, como no Novo Testamento, o poder organizado da espada é relacionado, com ênfase, à queda do homem (Ro 13.1-5; 1 Pe 2.13; Ap 13.10; 1 Sm 12.17-25; 24.7, 11; 26.9-11; 2 Sm 1.14-16)”. (5)

O trabalho de Taylor consistiu, na realidade, na apresentação simplificada das idéias do filósofo holandês Herman Dooyeweerd sobre a “soberania das esferas”. Dooyeweerd tem um tratado extenso e muito técnico, em quatro volumes, chamado “Uma Nova Crítica do Pensamento Teórico”, mas suas convicções específicas quanto ao pensamento cristão sobre o estado, foram expressas em palestras (“De Christelijke Staatsidee”) realizadas na cidade de Apeldoorn, na Holanda, em 1936, publicadas, posteriormente, como um livreto, sendo traduzidas mais tarde para o inglês. (6)

Dooyeweerd constrói sua idéia sobre o estado na tradição e trabalho de Agostinho, Calvino e Abraham Kuyper – que consideravam o estado uma conseqüência da queda do homem. Mesmo assim, o estado é uma instituição com uma esfera específica de autoridade – devendo responder a Deus, o doador desta autoridade, e sem exercer interferência na autoridade ou vida da igreja, ou da família – cada uma dessas, uma esfera de autoridade em si, responsáveis por suas missões e ações, na providência divina.

No desenvolvimento do seu pensamento, Dooyeweerd está constantemente apontando como a visão bíblica difere do conceito católico romano – a de que o estado é uma instituição natural, que existe para o bem comum.(7)

Uma outra análise de proveito, providenciada por Dooyeweerd, é a exposição feita do pensamento de Emil Brunner (discípulo de Karl Barth). Em função da visão neo-ortodoxa do cristianismo, que enfatiza o caráter subjetivo e supra-natural – divorciado dos fatos concretos da história, para Brunner (e Barth) o estado cristão é uma impossibilidade, “como o são a cultura cristã, o aprendizado cristão, a economia, a arte ou a ação social cristã”.(8)

Rejeitando esse conceito, Doyeweerd vê o estado como a ferramenta principal da graça comum de Deus. Ele mostra, igualmente, que a visão pagã do estado soberano sobre todas as coisas, provoca confusão das esferas de autoridade, o surgimento de governos e sistemas totalitários, a interferência do estado na família e na igreja e a legislação desvairada em áreas de moralidade às quais nunca recebeu responsabilidade divina de legislar. Uma aplicação contemporânea dessa interferência do estado pagão secular é vista nas legislações que se multiplicam procurando legitimar as uniões homossexuais (interferência com a esfera da família), ou que pretendem enquadrar disciplinas eclesiásticas contra homossexualismo, como sendo atitudes discriminatórias passíveis de punição legal (interferência com a esfera da igreja). Essa idéia pagã do estado procede de Aristóteles, para quem o estado é a forma mais elevada de união, na sociedade humana, da qual todos os demais relacionamentos sociais são apenas partes dependentes deste.(9)

Dooyeweerd insiste que a visão bíblica do princípio estrutural do estado o revela como sendo uma instituição de relacionamento social, que difere dos laços de sangue presentes na instituição da família. A função do estado, desde a fundação, é vista no aspecto histórico da realidade – um mundo submerso em pecado e uma instituição que recebe o direito monopólico da espada, sobre um dado território. Se existir deficiência nessa fundamentação (o direito de uso do poder coercitivo – a espada) – não se pode falar verdadeiramente da existência de um estado. (10) Ele lembra que: “Tomás de Aquino e a teoria política Católico-romana, disseminada após ele, ensinou que o estado, como tal, não foi instituído em função do pecado... o poder da espada, na visão católico-romana, não é parte da estrutura do estado. Isso é um desvio da visão das Escrituras, apresentada com convicção e vigor pelos pais da igreja, especialmente por Agostinho”. (11)

Ainda assim, mesmo no campo reformado, encontramos algumas divergências. Alguns apontam a instituição do governo em Gn 9.5-6, nas palavras proferidas por Deus a Noé, como representante maior da raça humana, cuja quase totalidade havia perecido no julgamento do dilúvio. Nesse entendimento, a própria raça humana havia sido deixada “sem governo”, de tal forma que a iniqüidade e a violência se multiplicaram na face da terra, culminando com o julgamento. Gn 9.5-6 institui o “poder da espada” e a delegação de que fosse exercitado “pelo homem”, contra os que desrespeitassem as leis de justiça e ceifassem vidas inocentes.

J. Oliver Buswell, teólogo reformado, autor de uma Teologia Sistemática, acha que o governo não foi “instituído pela primeira vez depois do dilúvio”. Ele continua indicando que “... pelas genealogias de Gênsis 5 e 11, pressupõe-se a existência de um governo patriarcal ou alguma forma dinástica de governo, desde as eras mais antigas”. (12)

Conclusão :

Muitas são as implicações desse entendimento reformado da instituição do governo:

a. Devemos rejeitar filosofias políticas que ignoram a pecaminosidade humana e que tratam a sociedade como se fosse moralmente "neutra".

b. Muitas teorias utópicas de governo têm essa premissa como base – algumas levam ao totalitarismo. Em sua obra clássica “A República”, Platão propôs um governo ideal no qual filósofos iluminados, transformados em reis, governariam a terra. Mas a Bíblia ensina que todos são pecadores (Rm 3.23). Esses “iluminados”, pecadores como os demais nem sempre seriam benevolentes, bem intencionados e justos.

c. O estado não pode transformar a natureza humana. Sua capacidade de ação é propositadamente limitada. Sua abrangência de ação ocorre sempre às custas de liberdades confiscadas em outras áreas. O estado pagão, se considera Deus, e se arvora no direito de legislar moralidade, de indicar o que é certo e o que é errado, quando ele deveria atuar debaixo dos princípios de justiça que emanam de Deus. Deve ser protetor do indivíduo, da família e da sociedade, e não proponente da dissolução moral que aniquila essas três esferas.

d. A família e a igreja são instituições que coexistem com o estado. De uma certa forma, estão sob ele, mas soberanamente atuam, cada uma em suas esferas – responsáveis, perante Deus, pelo exercício de suas prerrogativas e responsabilidades.

e. Para quê serve o governo? Para muito pouco, mas esse pouco é essencial. Serve para garantir a nossa segurança e para reconhecer os cidadãos de bem (Rm 13.1-7), dando-lhes oportunidades iguais de desenvolverem as suas desigualdades. Não serve para administrar empresas. Não serve como mero provedor de empregos sem critérios de eficiência. Não serve como supridor de assistencialismo perene, que gera dependência e tira a iniciativa. Não serve como base de ganho pessoal ilícito aos governantes. Não serve como instrumento de tirania, moral ou física. Não serve para estabelecer ou legislar o certo e o errado (mas deve SE REGER pelo certo, e não pelo erro). Não serve para tomar o lugar da família e postular como esta deve criar e NÃO disciplinar os filhos. Não serve para alterar parâmetros biológicos e para inventar casamentos entre os incapazes para tal. Não serve para abrigar assassinato de infantes. Não serve para o gigantismo que gera opressão e tirania (mas deve se enquadrar em suas limitações, dando espaço para os cidadãos respirarem livremente). Ou seja, não serve para a maioria das áreas que usurparam o foco e a área de concentração legítima - garantir nossa liberdade!

f. Por último, para eu não perder a viagem, nesta eleição de 2010, reafirmo que nenhum dos dois candidatos possui a visão correta dessas questões, pois defendem um coletivismo insano. No entanto, vote naquele que tem uma plataforma de partido mais aproximada com a almejada proteção da família e da sociedade, em oração para os que estiverem no governo, lembrem-se de suas responsabilidades perante o Criador Soberano do universo, e sejam restringidos na apropriação pessoal dos bens que recebem para administrar a nação.

Solano Portela

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Notas:
(1) Kerby Anderson, Christian View of Government and Law (www.leaderu.com/orgs/probe/docs/xian-pol.html)
(2) Catechism of the Catholic Church (Liguori, MO: Liguori Publications, 1995).
(3) Papa Leão XIII, Encíclica Immortale Dei, 1885.
(4) Hebden Taylor, The Christian Philosophy of Law, Politics and the State (Nutley, NJ: The Craig Press, 1966), 653 pp.
(5) Ibid, 429.
(6) Herman Dooyeweerd, The Christian Idea of the State (Nutley, NJ: The Craig Press, 1966), 51 pp.
(7) Rousas John Rushdoony ressalta também este fato no prefácio da op. cit., p. xiii.
(8) Dooyeweerd, 2.
(9) Ibid, 8.
(10) Ibid, 40.
(11) Ibid.
(12) J. Oliver Buswell, A Systematica Theology of the Christian Religion (Grand Rapidas: Zondervan, 1962, 1968), 400.

28 comentários:

Esli Soares disse...

Solano,

FANTÁSTICO!!! EXCELENTE!!!

Esli Soares

Solano Portela disse...

Caro Esli:
Obrigado. Estava ainda no meio da escrita. Acrescentei mais um item, na conclusão.
Abs
Solano

Gustavo Abadie disse...

Como se diz aqui em casa: este texto é DE DEUS!

Ronaldo Barboza de Vasconcelos disse...

Uma ótima introdução a teoria política reformada. Um tapa na cara dos idolatras de um estado grande. E um bálsamo para os que estão cansados de ver teorias políticas totalmente dissociadas da verdade Bíblica.

Abraços!

mané disse...

perfeito...

Cleber disse...

Caro Solano

Muito bom.

Pelo que entendi a visao catolica e parecida com a do contrato social de Russeau, inclusive do homem sem pecado o bom selvagem


Cleber Leite

Esli Soares disse...

Solano,

Estou numa conversa em outro blog (do Jorge Isah o KALAMOS) onde, fugindo do debate binário do pleito atual, conversamos sobre as idéias de Marx e o envolvimento de cristão nelas. É óbvio que, para esse cristão-marxista (ou marxista-cristão) algum dos 2 pensamentos (Cristão ou marxista) vai ser relegado a segundo ponto, no que são divergentes (e são muitas coisas). Mas existem algumas coisa que podemos chamar de similares entre Cristo e Marx, que não são ideais exclusivos de Marx (outros sistemas também os desenvolve – e eu desconfio que de forma bem melhor), por exemplo a busca pelo bem social (nem vou entrar no mérito da realidade – i.é., se em algum país marxista/comunista/socialista realmente fez algum bem para a população).

Digo isso porque como vc enfatizou, na conclusão, ponto e(para que serve o governo?), questões chaves e pragmáticas da ação (ou da não-ação) do governo, nas áreas sociais, privadas ou públicas – acho até que faltou: “não serve para cobrar impostos, sob o pretexto de distribuir renda”. Entretanto não podemos a título de renegar esses ideais marxistas – que vc magistralmente expôs pelo reverso (ponto e, da conclusão) – se esquecer (cada um de nós) do social e da promoção do bem – sem entrar no mérito eclesiástico!
Um sistema que se estabelece (cresce e permite-se) na opressão dos mais pobres pelos mais ricos, não está certo (o contrário mais ainda)! Devemos lutar pelos direitos iguais, pela liberdade e legalidade, dentre outras coisas, sabendo que nenhum homem (rei, monarca, xeique, presidente) é maior que os outros, não cabendo, submissão desses àquele como se fosse a um deus; e nem uma instituição (Igreja, partido, ideologia, ou mesmo a sociedade – a maioria: 50% + 1), como se essa fosse o único meio de Deus por agir (bondade, justiça, liberdade – atributos divinos comunicados) e promover sua vontade.

Assim mais uma vez parabenizo sua iniciativa, assino embaixo do seu post, concordo plenamente com todos os detalhes, e, o cumprimento por ter saído (não falado) da disputa PT x PSDB (que é uma chatura! – afinal os dois são a mesma porcaria). E rogo as mais ricas bênçãos do Senhor a sua vida e de sua família.
Das fileiras, em Cristo.
Esli Soares

p.s: o comentário ficou grande (tem mais coisa... risos) e resolvi postá-lo em meu blog. Sugerindo a leitura em A Cruz on-line!

Bruno Rosi disse...

Presb. Solano,

O governo não serve (também) para construir e administrar estradas, portos, aeroportos, sinais de trânsito, coleta de lixo, escolas de todos os níveis, hospitais, garantir o pagamento de aposentadorias, férias, salários mínimos e tantas outras coisas que os governos pelo mundo afora fazem? O que dizem os autores reformados que o senhor citou? O que o senhor pensa sobre isso?

Com honestidade e curiosidade sinceras,

Bruno

fisio disse...

Olá Solano. Bom texto.
Vejo, contudo, dificuldades em relacionar Estado e moralidade. Nossa própria Carta Magna, quando por ex. trata dos princípios e garantias fundamentais (que envolvem cláusulas pétreas, inclusive) no artigo 5º, pressupõe um código moral. No referido artigo encontra-se também o fundamento para a laicidade do Estado: não de proteger este das "religiões" (como amiúde erradamente se supõe), mas garantir ao indivíduo o direito de seguir sua ideologia sem qualquer coerção ou imposição filosófica do Estado. Mas, reiterando, como a Constituição pressupõe uma ética, e sabemos que Deus é o ponto de partida ético, como efetivamente conciliar as duas coisas sem chegar a um Estado teocrático cristão (nos princípios explícitos de suas leis)?
Como tratar da legalização do casamento homossexual sem envolver uma ética que por fim transcende o próprio escopo do Estado? O fato de o Estado omitir esta questão em suas leis já representa um posicionamento ético (ie, ele não RECONHECE o casamento homossexual).

Abs

marcelo h.

Robson disse...

Esli Soares,

Veja que a responsabilidade de lutar contra a pobreza, a miséria, de ajudar o destituído, o desprovido de posses, NÃO é responsabilidade do Estado. É responsabilidade de cada um.

Ajudar o pobre deve ser sempre uma atitude voluntária. Ou você chamaria de caridade voluntária se algum ladrão chegasse à sua casa, te apontasse uma arma, e te mandasse dar 40% de sua renda, argumentando que vai dar aos pobres? Mesmo se você achar que é justo, ainda será um roubo, porque o ladrão te mataria se você se recusasse.

Essa é a figura do atual Estado brasileiro. Rouba-nos 40% dos ganhos com o pretexto de justiça social. Veja que, mesmo que ele nos confiscasse 1%, ainda assim seria um roubo. Não existe caridade forçada.

Portanto, ao dizer "não podemos nos esquecer do social", lembre-se que essa é uma responsabilidade de CADA UM, não de uma entidade chamada Estado que nos suga as riquezas e faz um trabalho sempre menos eficiente que a caridade privada.

Robson disse...

Rev. Solano,

Como consequência lógica às suas conclusões no texto, e aplicando-os também aos temas da moda (aborto e casamento gay), conclui-se que o Estado não tem também autoridade para legislar qualquer coisa sobre casamento hétero. Esse detalhe ninguém ainda notou. O problema então não é que se adote ou não o casamento gay, mas a nossa base já está errada ao atribuir ao Estado a competência para interferir em qualquer assunto da família, inclusive o casamento hétero.

Ele não tem competência pra legislar sobre conteúdo programáticos de escolas, nem sequer autoridade para se colocar no dever de "garantir educação para todos". O mesmo se diz quanto ao fornecimento estatal de saúde, saneamento básico, regulação de portos e aeroportos, regras de trânsito, ciência e tecnologia, recursos naturais, e qualquer outra área que envolva economia.

Rm 13 nos indica que a única (única mesmo) função das autoridades civis são garantir a justiça. Ou seja, dos três poderes atuais que vigoram na nossa "democracia", apenas o Poder Judiciário seria bíblico segundo as atribuições delimitadas por Deus ao Estado.

E esse judiciário não é necessariamente um "monopólio da força". Esse pode muito bem ser diluído na sociedade (como Rm 13 diz, "as autoridades", no plural, e não "o Estado"), e gerido por agentes privados, que não arrogam para si o direito de legislar e julgar os outros segundo a sua própria constituição arbitrária (como faz os estados nacionais modernos, que fingem que são democráticos e legislam em causa própria), mas são constantemente reguladas entre os indivíduos, com tribunais privados sujeitos às regras do livre mercado. Qualquer "monopólio soberano da força" terá sempre o problema de todos os monopólios: ninguém tem o poder de regular suas arbitrariedades.

Rev. Ageu Magalhães disse...

Caro Solano,

Obrigado por este texto. Muito instrutivo! Continue escrevendo. Abraco, Ageu.

Fernando Jordão disse...

Caro Presb. Solano

Excelente texto, muito esclarecedor. Tenho uma pergunta, o que a Bíblia diz sobre mulheres no governo?

Um grande Abraço

Fernando Vargas

Oliveira disse...

Caro Professor Solano

Claro que os senhores podem publicar o que acharem que devem, o blog tem dono.

Mas a abordagem deste texto é bem melhor que a dos dois últimos postados pelo senhor, falando sobre a disputa entre o rasgado e o roto...

Se fosse eleição para presbítero... mas como é uma eleição para "síndico", e os dois do ponto de vista moral diferem em quase nada, e são ímpios no melhor significado da palavra, deve-se escolher pelo menos aquele que tem melhores indicadores de gestão na Administração Pública.

E qual deles tem? Bem... a meu ver isto não é pergunta que deva ser respondida neste blog, nem por mim enquanto comentarista, mas deve ser respondida por cada um individualmente.

Agora, o texto presente, este sim, é muito bom e nos remete a reflexões muito mais interessantes.

Minha contribuição "herética", falo respeitosamente a todos os que pensam diferente, entendo que o texto em Romanos que elenca funções para o Estado, a meu ver, não é taxativo e exaustivo, mas apenas ilustrativo e exemplificativo, assim o Estado a meu ver pode ter mais responsabilidades do que as poucas lá listadas.

Cordiais saudações

o pregador disse...

Caro Pb Solano:
A pouco Abracei a Fé Reformada. Estes dias li o livro de Al Martin e ele me foi muito próprio não só para a leitura como também para a indicação de outros que assim o fizeram.

Este pequeno volume acrescentou muito a minha alma.Desculpe falar de outra coisa mas acho que essas nticias naõ devemos esperar para amanhã.
Deus o Abençoe !!!

Mauricio Nepomuceno disse...

Caro Presb. Solano (às vezes, REv. Solano também!!!)

Estou remoendo o que afirmaste sobre a idéia de governo como um evento pós queda. Ainda que o irmão, evoque os consagrados Calvino, Kuiper, Agostinho, Dooweweerd, desculpe, mas acho que nesse assunto, ainda há algo mais a ser discutido.

Talvez, a definição próprio de Governo é que esteja nos afastando da mesma conclusão. Inicialmente, no texto pensei que falávamos da mesma coisa, mas depois percebi que o conceito "Estado" é igualado ao conceito "Governo".
Bem, se é assim que "Governo" está conceituado, então concordamos. Pois também acho que a idéia geral de Estado é derivada da necessidade pós queda, afinal, agora o homem precisa ser constrangido à obediência às leis colocadas no coração.
Mas, por outro lado, penso que o conceito de "governo" deva ser considerado de forma mais ampla, libertando-se dessa sucumbência à idéia da queda.
Até onde me lembro, na teologia reformada tradicional, baseado no conceito da "vice-regência" do homem (doutrina federal) estariamos diante de um impasse: como o homem pode ser um vice-regente sem governar? Também gostaria de pensa sobre o governo de Deus sobre todas as coisas, pois ele é o grande Rei sobre toda a terra e isso nada tem a ver com a queda ou o pecado, apenas com o fato de que sobre tudo e todos Ele É.
Gostaria que o irmão, caso queira, me ajude a compreender esse assunto. Sua erudição teológica é impressionante.

Um grande abraço

Maurício Nepomuceno

Handerson Xavier disse...

Vote naquele que mais se preocupa com o bem comum, é a favor da vida e da família... ou seja... vote em ninguém!

Nelson Ando disse...

Não resta dúvida, um excelente artigo!
Agora, mudando um pouco o rumo da questão, vale a pena ler a pastoral do Isaltino Gomes Coelho Fº sobre "Um Novo Deus no Pedaço:
.
No mais, agradeço pela existência deste também excelente blog.

Aprendiz disse...

Eli Soares

Até onde sei, o sistema marxista sempre promove o culto è personalidade, transformando seus líderes em deuses a serem adorados. Não é acidental, basta basta você estudar e verá.

Até onde sei, também, os sistemas marxistas estabecem duas classes de pessoas: a burocracia (nomenklatura), que é a dona real do país, e o resto do povo, que são na verdade escravos daquela primeira classe. Segure a vontade de me responder a primeira coisa que lhe vier à cabeça, e estude.

Aqui no Brasil, desde a tomada do poder pelo petralhismo, começaram a ocorrer os dois fenômenos, na medida do possivel num país que (ainda) tem resquícios de instituições democráticas. É claro o desejo de auto-endeusamtne dos líderes petistas, e também é evidente a criação de uma classe de parasitas do pais, (que tem sido chamados de burgueses do capital alheio), que ficaram ricos e dominam os conselhos de acionistas das antigas estatais.

O quadro só tende a agravar-se.

É estranho que muitos evangélicos achem que isso uma coisa boa, que deve até ser apoiada.

Jorge disse...

Prezado e Nobre Solano, Graça e Paz!

Fui eu quem escreveu o comentário ao qual dissertou sobre ele.
Quero desde já, agradecer-lhe pela atenção e fecundidade da análise.

Vejo que a discussão está vinculada a qual definição pode-se chegar sobre o que realizou Adão antes da Queda, governo ou organização?

Outro ponto interessante a definir, é a questão que o Mauricio Nepomuceno levantou em seu comentário sobre, como podemos definir Governo e Estado, são semelhantes? Ou distintos?

Porém, o seu artigo já desenvolveu muito bem a questão e a esclareceu de forma legitima e bíblica.

Vamos deixar o restante das questões para o aperfeiçoamento e formação do pensamento teológico a respeito do assunto.

Atenciosamente grato a sua atenção.
Um grande abraço.

Neto disse...

Aprendiz, (Estou postando esse comentário à pedido direto do Esli. Como ele me passou, estou colando:)

fiquei perplexo, imagino que o Eli Soares seja eu... Mas o que me deixou perplexo, mesmo, não fui o errinho de escrita (é coisa realmente comum com meu nome paradoxalmente complicado, essas 4 letrinhas realmente - não estou brincando - confunde muito) mas o teor do comentário.

Sabe,

Até onde nós (eu e vc) sabemos - embora eu não saiba o quanto vc sabe mesmo (risos) - o sistema marxista acaba por sempre promover o culto a personalidade, transformando seus líderes em deuses a serem adorados. Não é acidental, basta basta qualquer um estudar e verá.

Até onde nós (eu e vc) sabemos - idem acima! - os sistemas marxistas estabecem duas classes de pessoas: a burocracia (nomenklatura), que é a dona real do país, e o resto do povo, que são na verdade escravos daquela primeira classe...

De fato aqui no Brasil, os dois fenômenos ocorrem, inclusive, antes da tomada do poder pelo petralhismos, mas com essa tomada de poder eles se intensificaram - mas isso eu preciso (na verdade, não preciso, não!) estudar mais. Esses fenomenos ocorre na medida do possível (ou aonde se der brecha) em qualquer país, mesmo as grandes nações democráticas (essa turminha que mama no dinheiro público é muito criativa!), sabe parafraseando Marx realmente há um espectro em todos os lugares, mas ele não é o "bem do espirito comunista" e sim o mal comum ao coração humano.

E (tentando) segurando a vontade de te responder a primeira coisa que veio na cabeça estou aqui estudando!!! Mas sabe esse primeiro pensamento que me veio a cabeça ao ler seu comentário não passou. então... que raio de comentário é esse??? Imagino que vc não leu o q eu escrevi aqui... afinal o q isso ai tem a ver comigo?

No alta da minha perplexidade, esperando que vc tenha aprendido e possa me ajudar a te entender (afinal não captei a sua mensagem)

Em Cristo,
Eli...ops, Esli Soares

Pedro Barreto disse...

Ao que me parece, há uma distorção bastante forte do ideal de Santo Tomás sobre Lei Natural. Obviamente o Estado existe para que promova o bem comum. Mas de onde tiraram essa ideia de que a existência do Estado não se dá pela ausência de pecado. Pela ideia de que a lei natural, a lei impressa no coração dos homens, é a que dá sustentação ao Estado na medida que cuida a justiça humana, particular.

E há, ao que parece, um entendimento completamente distorcido de Santo Agostinho, já que a obra dele não é unificada. Como intérprete de St. Agostinho, clamo Michel Villey, que diz claramente que a defesa do Estado, e do direito laico, se dá na medida em que a ausência desse direito e Estado são ruins, mesmo que sejam, por essência, injustas. Deve-se mantê-las porque elas agem segundo a Providência de Deus. Vê-se claramente que é uma posição bastante triste em relação às instituições laicas, em colapso completo.

Santo Tomás trouxe de novo essa concepção, na medida em que pela lei natural poderia se manter a justiça particular, entre os homens, inclusive àqueles que não obedecessem aos preceitos do Evangelho como regras morais eficazes, como se dava no direito canônico antigo. Como algumas pessoas não tinham o mesmo apresso pelo Evangelho, algumas acabam não tratando o outro como a si mesmo, e seria uma injustiça deixar que, aquele que ficasse numa posição cristã, de fato, fosse prejudicado.

A lei natural é uma decorrência da necessidade de sustentação legítima do Estado, jamais algo que "o" explica. E cabe lembrar que o tomismo entende que o fim do homem não é o Estado, a Pólis, mas sim Deus.

Surpreende-me, claramente, a distorção que fazem de São Tomás esses autores protestantes, e me parece bastante desonesto não citar fontes diretas, mas apenas "posições jogadas".

Abraços,
Pedro Barreto

Aprendiz disse...

Neto e Esli

Percebo que eu me confundi, e coloquei o meu comentário no texto errado. Não era para ser uma resposta ao Esli Soares, nem era para estar nos comentários deste texto. Desculpe a confusão e agradeço por te-la apontado.

Rafael Galvão disse...

Só uma dúvida, pb. Solano: por acaso já leu alguma coisa sobre Karl Polanyi?

Ivan M. Fraga disse...

Forma de governo, tem haver com política. Faltou os clássicos da área política: Platão (A Republica), Aristóteles ( Política), Maquiavel (O Principe), Jean Bodin ( De La Republique), Jean Jacques Rosseau (O Contrato Social), Thomas Hobbes (O Leviatã)etc.
Mas, de qualquer forma, o texto está muito bom.

Pedro Barreto disse...

Chamar Maquiavel de Clássico, Rousseau e Thomas Hobbes, e comporar com Platão e Aristóteles é bem triste hein.

Ivan M. Fraga disse...

Pedro,
Uso o termo "clássico" apenas no sentido de força de expressão. Não sei exatamente o que vc quer dizer com:"comparar com Platão e Aristóteles é bem triste hein".
Alguém aqui fez alguma comparação?Todos nós sabemos que tanto Platão quanto Aristóteles, bem como os demais pensadores aqui citados por mim, viveram em épocas diferentes e tinham teorias de formas de governos diferentes(Cf. BOBBIO,Noberto. Teorias das formas de Governo.Brasilia:UNB,1997.183p).
Quando uso o termo clássico, é porque qualquer estudante de Ciências Sociais vai estudar esses autores na disciplina de Política (principalmente Maquiavel).
E, visto que o excelente texto do Solano, que trata de formas de governo numa perspectiva cristã, não faz menção a nenhum desses pensadores,pensei que estaria contribuindo de alguma forma.
Mas tudo bem. Abraços!

Francisco Dias disse...

Pr. Augustus. Li o seu livro "O que estão fazendo com a Igreja" e gostei muito. Também percebo que a Igreja dos nossos dias tem se amoldado ao mundo cada vez mais. Compartilho da mesma visão reformada calvinista-agostiniana do sr. E oro para que Deus sopre um novo fôlego de vida em nossa geração, que vem pelo despertar das antigas doutrinas e princípios advindos da Palavra de Deus que nortearam a Igreja desde os seus primeiros séculos.