terça-feira, novembro 11, 2014

Augustus Nicodemus Lopes

ATOS SIMBÓLICOS DO ESPÍRITO?

Canzis similares aos usados pelo profeta Jeremias
Não faz muito tempo Ana Paula Valadão provocou uma polêmica no meio evangélico ao se colocar de quatro no palco, durante um show em Anápolis, e começar a andar  tentando imitar um leão. Enquanto isto, os membros da banda faziam gestos de “leão” ou de olhos fechados e mãos erguidas “abençoavam” a plateia, que gritava em delírio. O vídeo está no Yoube. Não quero voltar a este episódio, já tão batido, mas usá-lo como gancho para entender o quadro maior.

Isto de se imitar animais no palco sob a "unção" do Espírito Santo parece ter começado em 1995, na igreja do Aeroporto de Toronto, famosa por ter sido o berço da “bênção do riso santo”. Escrevi um artigo sobre isto em 1996. Naquele ano, um pastor chinês, líder das Igrejas chinesas cantonesas de Vancouver, Canadá, durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. O pastor da Igreja, John Arnott, estava ausente do país, e foi chamado às pressas de volta, para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento bizarro do pastor chinês era do Espírito Santo.

Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião, e para surpresa de todos, ele caiu sobre as mãos e os pés, e começou a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro, e gritando "Deixem ir meu povo, deixem ir meu povo!". Ao voltar ao normal, o pastor chinês explicou que durante anos seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas agora o leão de Judá haveria de libertá-los. A igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se que aquilo vinha realmente do Espírito de Deus. Isto acabou provocando o desligamento desta igreja da sua denominação, a Vineyard Fellowship, que discordou que aquilo vinha de Deus. Mas, parece que a moda pegou.

A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da "bênção de Toronto." Houve casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como a águia, mugindo como o boi, e gritando gritos de guerra como um guerreiro. Para Arnott, estes sons eram "profecias encenadas", em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.

Acredito que o argumento para “profecias encenadas” ou “atos proféticos” tão em voga hoje nos shows e cultos do movimento gospel e do pentecostalismo sincrético é que, no passado, Deus mandou seus servos transmitirem mensagens ao povo usando objetos e dramatizando a mensagem. Não é difícil achar exemplos disto no Antigo Testamento. Deus mandou que Jeremias atasse canzis (cangas) ao pescoço como símbolo do cativeiro do povo de Israel (Jer 27:2); mandou que comprasse um cinto de linho e o enterrasse às margens do Eufrates até que apodrecesse, como símbolo também da futura deportação dos judeus para a Babilônia (Jer 13:1-11); determinou que ele comprasse uma botija de barro e quebrasse na presença do povo, para simbolizar a mesma coisa (Jer 19:1-11). O Senhor mandou que Isaías andasse nú e descalço por três anos, como símbolo do castigo de Deus contra o Egito e a Etiópia (Is 20:3-4). Há outros exemplos demprofetas que poderiam ser citados.

No Novo Testamento, o único exemplo de um profeta falando a Palavra de Deus e ilustrando-a com um ato simbólico é o do profeta Ágabo, que usando um cinto, amarrou seus próprios pés e mãos para simbolizar a prisão de Paulo (At 21:10-11).

Ao tentarmos entender a “teologia” dos atos proféticos da Bíblia percebemos alguns traços comuns a todas as ocorrências.
  • Elas foram determinadas a profetas de Deus, como Isaías e Jeremias, os quais foram levantados por Deus para profetizar sobre o futuro da nação de Israel e a vinda do Messias. Ou seja, tais atos tinham a ver com a história da salvação, o registro dos atos salvadores de Deus na história.
  • Estes atos simbólicos ilustravam revelações diretas de Deus para o seu povo através dos profetas. No caso de Ágabo, tratava-se de uma revelação sobre a vida do apóstolo Paulo, homem inspirado por Deus, que o Senhor haveria de usar para escrever a maior parte do Novo Testamento. Portanto, a mensagem de todos aqueles atos proféticos se cumpriu literalmente, como os profetas disseram que haveria de acontecer.
  • Sem revelação direta, infalível e inerrante da parte de Deus, não há atos simbólicos. Eles eram ilustrações destas revelações. Uma vez que não temos mais profetas e apóstolos, que eram os canais destas revelações infalíveis, não temos mais estes atos proféticos que acompanhavam ocasionalmente tais revelações.
  • Nesta compreensão vai o autor de Hebreus, que relega ao passado aqueles modos de Deus falar ao seu povo. Agora, Deus nos fala pela sua dramatização maior e suprema, a encarnação em Jesus Cristo (Hb 1:1-3).
  • Tanto assim, que os únicos atos simbólicos que o Senhor Jesus determinou ao seu povo, e cuja mensagem é fixa e imutável, foi que batizassem os discípulos com água e comessem pão e bebessem vinho em memória dele. Tais atos ilustram e simbolizam nossa união com o Salvador. Fora disto, não encontramos qualquer outra recomendação do uso de atos simbólicos para transmitir a mensagem do Senhor.
Portanto, para mim, estes “atos proféticos” atuais e profecias encenadas nada mais são que uma tentativa inútil – para não ser crítico demais - de imitar os profetas e apóstolos, na mesma linha destes que hoje reivindicam, em vão, serem capazes de fazer a mesma coisa que aqueles fizeram.



Após Deus ter se revelado em Jesus Cristo, ter estado entre nós e transmitido ao vivo a sua Palavra, após os apóstolos terem registrado esta mensagem de maneira infalível e suficiente nas Escrituras, pergunto qual a necessidade de profecias encenadas e atos simbólicos para que Deus nos fale através deles. Se alguém não entende a fala de Deus registrada claramente na Bíblia vai entender através do simbolismo ambíguo de gestos e encenações de gente que alega falar no nome dele? Sola Scriptura!

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

9 comentários

comentários
11/11/14 09:38 delete

Muito bom, Rev. Augustus Nicodemus! Tenho aprendido muito com o senhor. Que Deus continue lhe abençoando. Grande abraço!

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11/11/14 09:42 delete

Agora consigo entender mais sobre o assunto. estou lendo o seu livro "Apóstolos" Nicodemus; entendendo então que, os apóstolos são a continuidade subsequente dos profetas veterotestamentária; percebo que estes apóstolos e profetas modernos não tem a mesma autoridade sobre a igreja,e que, a maneira de Deus falar a nós, hoje, é outra (através de Cristo - Bíblia) Muito bom!

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11/11/14 11:01 delete

Olá querido pastor,
Quais passagens bíblicas nós podemos usar para refutar esse tipo de pensamento equivocado de pessoas que acreditam que podem realizar atos "proféticos" em nossos dias?

Att;
Em Cristo,
Malvina Viana.

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Helena Costa
AUTOR
12/11/14 11:40 delete

Olá Pastor Augustus! Paz do Senhor Jesus!

Precisava falar consigo sobre um assunto que me vem incomodando bastante nos últimos tempos. Será possível enviar-lhe um e-mail?

mariahtafc1965@gmail.com

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Boris Pedro
AUTOR
20/11/14 00:59 delete

Falta de bíblia, leva o povo a se embriagar no "misticismo moderno" se assim posso chamar.Graças a Deus que ainda existem homens e igrejas sérias e comprometidas com a Palavra de Deus... 

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Andre Brum
AUTOR
29/11/14 03:04 delete

Mais um entre tantos outros episódios lamentáveis protagonizados pelo segmento gospel...
A internet tornou-se um importante instrumento para expor os equívocos doutrinários cometidos por muitas denominações e/ou pregadores.
Antes, as aberrações ficavam restritas às quatro paredes dos templos. Hoje, graças aos celulares que gravam e enviam imagens e ao youtube, temos acessos a essas imagens que expõem a teologia rasa desses pseudocristãos, o que, via de regra, serve de alerta para muitas pessoas realmente bem intencionadas, que buscam uma comunhão com verdadeiros irmãos em Cristo Jesus e que valorizam a sã doutrina e que podem fazer uma correta avaliação, sem a necessidade de expor-se, checando “in loco”.
Todavia, se por um lado a exposição dessas imagens revela as muitas facetas das falsas doutrinas, funcionando como sinal de alerta para os mais cuidadosos, servindo como “estudo de caso” ou como tema de preleções sobre “como não agir e o que não fazer”, por outro lado, expõe o segmento evangélico ao escárnio, tal a quantidade de loucuras e disparates postados pelos internautas.
O que dizer então sobre os comentários que geralmente acompanham esses vídeos?
A falta de discernimento daqueles que se arvoram defensores do evangelho, sem contudo possuir o mais rudimentar conhecimento das escrituras ou mesmo da língua portuguesa, serve de prato cheio para os ateus, os hereges e demais inimigos da fé.
Verdade é que as falsas doutrinas e as heresias estão sobremaneira infiltradas nas denominações protestantes, que termos como: evangélico, gospel, crente... estão rapidamente se transformando em pejorativos.
Talvez seja a hora de uma nova e radical ruptura com todo esse modelo há muito desgastado e corrompido e do início de uma carreira solo (ou sola scriptura). Ou talvez ainda o bom senso e a ética recomendem discrição ao emitir juízo de valor, ou mesmo a longanimidade devesse nos tornar mais resignados.
Eu realmente não sei...

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Andre Brum
AUTOR
30/11/14 01:57 delete

Só complementando, com o receio de haver me expressado mal, eu não estou postulando a favor dos desigrejados. Longe disto, a ruptura que eu sugiro não é a nível pessoal, mas sim de igreja. Talvez seja a hora de uma nova reforma. Uma que deixe bem claro a posição das igrejas reformadas, tradicionais e fundamentalistas. Uma que permita definir o cristão que valoriza as escrituras e o fundamento dos verdadeiros apóstolos e que não necessite de tantas explicações, pelo receio de ser confundido com as igrejas que não tem o menor apego ao verdadeiro culto a Deus.

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Marcelo
AUTOR
13/2/15 11:34 delete

Prof. Augustus Nicodemus,

O senhor é sempre um recurso para nós, uma segurança para a nossa fé.
Que Deus continue lhe abençoando e mantendo essa mente brilhante sempre jovem.

Quem sabe não nos vemos em Campina Grande-PB na VINACC.

Um abraço.

Marcelo Hagah
João Pessoa-PB

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15/10/15 10:36 delete

Sem duvidas pastor, quero agradecer por esclarecer de forma edificante com base sólidas na história em relação às origens de manifestações errôneas que não condizem com as Escrituras, nas quais foram plenamente reveladas e suficientes para o nosso entendimento da vontade de Deus em relação à adoração em Espírito e em Verdade. Deus o abençoe, Se Deus quiser nos veremos na Consciência Cristã em Campina Grande-PB em 2016.

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