quarta-feira, março 29, 2006

Sobre Ética na Política

A demissão de Palocci do Ministério da Fazenda ressuscita a questão da corrupção no governo Lula. Digo “ressuscita” porque o assunto havia esmaecido diante da divulgação dos aparentemente bons números da economia brasileira e a subida de Lula na preferência do eleitorado. Na mesma época da demissão do ministro, sai o relatório final da CPI dos Correios, que aponta claramente a existência do “mensalão”. E o assunto outra vez chega às primeiras páginas.

O clamor por “ética na política” se faz ouvir em toda parte. Todavia, desconstruído pelo relativismo moral e pelo individualismo de nossos dias, qualquer clamor por “ética na política” carece de fundamentos coerentes que lhe permitam fazer pronunciamentos morais e moralizantes. Qual a base para se clamar por honestidade, sensibilidade, verdade, sinceridade, integridade e altruísmo na política se estes são conceitos considerados relativos e subordinados ao pragmatismo individualista, conforme a mentalidade de nossa época? Qual a base para se clamar em prol dos oprimidos, excluídos e sem-nada do nosso país se o ser humano é visto como fruto do meio e da seleção natural, onde sobrevivem os mais aptos, leia-se, os mais espertos, independentemente dos meios que se utilizam para isto?

Em grande parte, este vácuo de absolutos foi gerado pela secularização gradual das culturas e do Estado e pelo abandono no Ocidente dos valores morais e espirituais do cristianismo, que um dia serviram de fundamento para o surgimento das políticas democráticas. O humanismo materialista, centrado no anthropos, não tem conseguido produzir um sistema de valores abrangente que permita uma chamada coerente à ética na política. Não isento aqui a Igreja de culpa. Por muitas vezes ela simplesmente entregou o mundo ao diabo. Como, talvez, aqui no Brasil.

Acredito, todavia, que a fé reformada oferece as condições necessárias para um clamor coerente por ética na política brasileira. A força política da Reforma se fundamenta em diversas premissas sobre Deus e sobre o homem ensinadas na revelação bíblica. São elas: a igualdade de todos os homens diante de Deus, a vocação individual de cada ser humano por Deus e a doutrina do sacerdócio universal de todos os cristãos genuínos. Essa última premissa entende que a autoridade deve ser exercida como uma delegação concedida por Deus ao povo e do povo aos governantes. Uma outra premissa é a doutrina da autoridade das Sagradas Escrituras. Historicamente, a Bíblia foi instrumento eficaz para despertar o povo para estudar, instruir-se e assim gerir seus destinos. E essa Bíblia ensina que as autoridades políticas são constituídas por Deus e respondem diante dele pelo exercício do poder. Conforme o estudioso francês André Biéler, “a democracia não consegue instalar-se nem permanecer lá, onde as premissas religiosas ou filosóficas profundas das populações são estranhas aos princípios evangélicos, iluminados pelo Cristianismo reformado”.

O principal conceito da visão reformada quanto à política é que somente Deus tem poder absoluto. Desse conceito decorrem vários princípios que moldam a visão reformada da política e apontam o caminho da ética. Menciono alguns deles.

1) A fé reformada faz a clara distinção entre Igreja e Estado, mas vê toda autoridade como procedente de Deus (Epístola aos Romanos 13). Os governantes são vistos como servos de Deus neste mundo, para através da política e do exercício do poder promover o bem comum, recompensar os bons e punir os maus. Como tal, haverão de responder diante de Deus pela corrupção na política, pela insensibilidade e pelo egoísmo. A visão do cargo político como sendo uma delegação divina desperta no povo o devido respeito pelas autoridades, mas, ao mesmo tempo, produz nestas autoridades o senso crítico do dever.

2) A fé reformada resiste ao conceito da soberania absoluta do Estado, “um produto do panteísmo filosófico alemão” (Abraham Kuyper, 2002, p. 96) e ao conceito da soberania absoluta do povo, conforme defendido pela revolução francesa. O poder reside em Deus. Tanto o poder do Estado quanto do povo são delegados por ele visando a organização da humanidade. Como conseqüência, a fé reformada defende que nenhum ser humano tem poder sobre outro, a não ser quando delegado por Deus, ao ocupar um cargo de autoridade. Desta forma, a fé reformada se levanta contra toda opressão política à mulher, ao pobre e ao estrangeiro, contra todo sistema político que produza escravidão, contra o conceito de castas e da distinção entre sacerdotes e leigos.

3) Já que o poder não é intrínseco ao ser humano, mas uma delegação divina, deve-se resistir pelos meios corretos a quem exerce o poder político em desacordo com a vontade de Deus. Esta vontade divina para os governantes se encontra claramente expressa na Bíblia, como por exemplo, nos Dez Mandamentos. Entre eles encontramos proposições como “não furtarás”, “não dirás falso testemunho”, “não matarás”. Esses mandamentos refletem absolutos éticos presentes em todas as civilizações, em função de todos os seres humanos levarem em sua constituição a imagem e semelhança de Deus – com maior ou menor precisão, em função da imperfeição moral existente na humanidade. Nenhum governante tem imunidade contra a Lei de Deus. Na tradição protestante reformada, resistir à corrupção na política é dever de todos e a vontade de Deus para cada cristão verdadeiro.

4) A corrupção na política é vista pela fé reformada como tendo origem primariamente no coração dos seres humanos. A Bíblia afirma que não há sequer uma pessoa justa neste mundo. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Jesus Cristo disse que é do coração dos homens e das mulheres que procedem “maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19-20). Quando a causa é identificada, há condições de se buscar o remédio adequado. Aqui se percebe a insuficiência de éticas humanistas reducionistas, que analisam apenas aspectos sociológicos e antropológicos da corrupção na política, deixando de incluir a dimensão pessoal: egoísmo, maldade, crueldade, despotismo, avareza, inveja, cobiça. O protestantismo reformado prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus, que se arrependam do mal e pratiquem obras de justiça.

5) Por fim, o conceito de graça comum (concedida a todos) ensina que há princípios gerais que, se seguidos e aplicados, produzirão a ética na política. Segundo este conceito, Deus abençoa a humanidade em geral com virtudes e qualidades, independentemente das convicções religiosas e políticas das pessoas. É por este motivo que encontramos quem se professa cristão e não tem ética, e encontramos a ética funcionando pelas mãos de quem não se declara cristão. Ao reconhecer a graça comum de Deus, a fé reformada entende que o caminho para a ética na política não é necessariamente converter todos ao cristianismo e nem colocar em cargos políticos quem se professa cristão, mas contribuir para que os princípios acima mencionados sejam reconhecidos e exercidos por todos, independentemente da convicção religiosa.

Não custa sonhar que um dia a fé reformada, mediante a pujança da Igreja, possa influenciar nosso país e moldar nossa cultura com uma cosmovisão bíblica, oferecendo as bases morais, espirituais e lógicas para ética na política.

[Esse post é baseado na Carta de Princípios 2006 da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que tive o privilégio de elaborar]

Obras Mencionadas

BIÉLER, André, 1999. A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Editora Cultura Cristã.

KUYPER, Abraham, 2002. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã.

domingo, março 26, 2006

A Imprensa, verdade e “liberdade de expressão”

O Gustavo Nagel, em seu Blog, o “lado ‘b’ de minha mente” (nome bem criativo, por sinal) trata de uma questão interessante: “Liberdade de Expressão”: isso significaria liberdade para propagação de qualquer coisa? Dois exemplos são trazidos – a reação contra as charges dinamarquesas sobre o islamismo (deveriam elas ter sido publicadas?) e a tentativa de grupos judaicos de proibir a reimpressão de um livro supostamente histórico que revelaria os segredos de uma malévola conspiração judaica (estão certos em procurar impedir a nova edição?).

Os desenhos dinamarqueses, todos já conhecem e sabem das repercussões internacionais causadas por eles; o livro mencionado, “Protocolo dos Sábios de Sião”, conheci há uns 30 anos, nos Estados Unidos. Obra possivelmente espúria e pseudo-histórica, ela tem circulado em vários países. Na época em que a conheci, servia de combustível, sim, para fomentar o antisemitismo e o ódio aos judeus e assim têm sido os motivos por trás de sua distribuição ao longo dos anos.

No entanto, antes de entrarmos no debate se tudo deve ou não ser publicado, ou se as charges anti-maomé deveriam ter sido censuradas pelo editor, ou vistas apenas como expressão cômica-mordaz de verdades nem sempre expressas, cabem algumas considerações de cunho pessoal sobre a nossa interação com a mídia, sobre o apreço pela verdade e, posteriormente, sobre nossa compreensão do que é “censura”.

A verdade é um fator essencial na comunicação e em nossa avaliação dos Meios de Comunicação. Isso é válido não apenas na transmissão do Evangelho, mas também como ponto de aferição da chamada “imprensa secular”. O nono mandamento (não dirás falso testemunho) estabelece a importância da verdade na comunicação. Um grande comunicador de massa disse que da mesma forma que uma munição só é poderosa se explodir, as idéias só são eficazes se forem comunicadas. A isso poderíamos adicionar que a comunicação só encontra o seu propósito justo e certo se for fundamentada na verdade. Cabe ao Cristão procurar discernir sempre a verdade e não deixar se empolgar com as primeiras notícias e aparências.

Devemos exercitar a mesma cautela que rege os princípios bíblicos de apresentação de testemunhas para substanciar uma história (Deuteronômio 19.15 estabelece que duas ou três testemunhas deveriam sempre ser ouvidas). Isso significa que devemos ter uma mente inquisitiva e fazer perguntas como essas:

  • Quais foram as fontes para essa notícia?
  • Existiria algum motivo de difamação ou sensacionalismo, por trás disso?
  • Existe prova suficiente para essas afirmações?
  • Qual a posição e convicção religiosa, moral ou política dos autores desse artigo?
  • É possível separar os fatos, da filosofia anti-cristã, que possivelmente essa notícia contém?

Não podemos deixar de lembrar um incidente ocorrido na cidade de São Paulo, no ano de 1994, quando uma família proprietária de uma escolinha para crianças foi acusada de abusar sexualmente de seus alunos. Como o assunto, em si, traz um potencial de revolta e (justa) indignação muito grande, observou-se um imediato julgamento da questão, não nos tribunais, mas nas páginas da mídia, que culminou na prisão do casal apontado, bem assim como na depredação da escola. Naquela ocasião, parecia importar muito mais a venda dos jornais, pelo sensacionalismo, do que a transmissão e a investigação da verdade. Até as autoridades policiais, que inicialmente lidavam com a questão, se deixaram envolver no clima, aparentando procurar uma autopromoção. Rigoroso inquérito que se seguiu, com a substituição do primeiro delegado, revelou a inexistência de fundamento para quaisquer das acusações levantadas. Vidas, entretanto, foram desgraçadas e nomes jogados na lama, pela falta de seguimento das mais elementares diretrizes bíblicas, de apreço à verdade.

Reconhecemos, entretanto, que Deus em sua misericórdia, tem muitas vezes usado os meios de comunicação para colocar em evidência desmandos administrativos e governamentais, provocando uma vigilância maior desses incidentes pela sociedade como um todo, trazendo à tona verdades encobertas (Pv 16.16).

Mas a comunicação pode ser mal utilizada. Este fato é evidente desde o incidente da Torre de Babel. A linguagem falada é o meio primário de comunicação, mas até este foi abusado pela natureza pecaminosa humana. É errado acharmos que os meios de comunicação são veículos neutros, quando se encontram sobre o direcionamento e administração de homens (2 Jo 1.1-11). Se em Babel houve o abuso, quanto mais na utilização das técnicas mais sofisticadas modernas. Não podemos ser ingênuos e achar que existe a objetividade propalada pelos comunicadores. Temos a tendência em achar que se foi divulgado, é verdade objetiva, mas precisamos fazer como os Bereanos fizeram e estar sempre confrontando o que vemos e ouvimos com padrões que expressem e sirvam de referencial à veracidade do que está sendo comunicado (At 17.11).

Em um próximo post, tratarei da questão da censura – é válida, ou ela é incompatível com uma sociedade democrática?

quarta-feira, março 22, 2006

É Claro que Há Mitos na Bíblia!

Os liberais sempre estiveram certos. Há mitos na Bíblia. Mitos eram abundantes no mundo religioso do Antigo Oriente ao redor de Israel, bem como nas religiões à época da igreja apostólica do século I. Por conseguinte, os escritores bíblicos registraram vários deles em suas obras.

No Antigo Testamento encontramos vários desses mitos. Há a crença dos cananeus de que existiam deuses chamados Astarote, Renfã, Dagom, Adrameleque, Nibaz, Asima, Nergal, Tartaque, Milcom, Astarote, Renfã e Baal. Sobre esse último, há o mito de que podia responder com fogo ao ser invocado por seus sacerdotes. Há também o mito egípcio de que o Nilo, o sol, e o próprio Faraó, eram divinos, o mito filisteu do deus-peixe Dagom e que o Deus de Israel precisava de uma oferta de hemorróidas e ratos de ouro para ser apaziguado. Para não falar do mito cananeu da Rainha dos Céus que exigia incenso e libações (bolos) dos adoradores (Jeremias 44.17-25). Um outro mito na Bíblia é que o sol, a lua e as estrelas eram deuses, mito esse que sempre foi popular entre os judeus e radicalmente combatido pelos profetas (2Reis 23.5,11; Ezequiel 8.16). O mito pagão de
monstros e serpentes marinhas é mencionado por Jó, Salmos e Isaías, em contextos de luta contra o Deus de Israel, em que eles representam os poderes do mal, os povos inimigos de Israel (Jó 26.10-13; Sl 74.13-17; Is 27.1). A lista é enorme. Há muitos mitos desse tipo espalhados pelos livros do Antigo Testamento.

Os profetas, apóstolos e autores bíblicos se esforçaram por mostrar ao povo de Deus que os mitos eram conceitos humanos. Esforçaram-se por chamá-lo a se submeter à revelação do Deus que se manifestou poderosa e sobrenaturalmente na história. Eles sempre souberam a diferença entre os mitos e os atos salvadores de Deus na história. Por conseguinte, sempre estiveram empenhados em separar mitologia de história real e invenções humanas da revelação de divina. Foram os prioneiros da desmitologização. Elias desmitologizou Baal no alto do Carmelo. Moisés também desmitologizou o Nilo, o sol, e o próprio Faraó, provando pelas pragas que caíram sobre eles que a divindade deles era só mito mesmo. E quando ele queimou o bezerro de ouro e o reduziu a cinzas, desmitologizou a idéia de que foi o bovino dourado quem tirou o povo de Israel do Egito. O próprio Deus se encarregou de desmitologizar Dagom, deus-peixe dos filisteus, quando a imagem de Dagom caiu de bruços diante da Arca do Senhor e teve a cabeça cortada (1Sm 5.2-7).

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo se refere por quatro vezes aos mythoi (grego). De acordo com o apóstolo, mitos são estórias profanas inventadas por velhas caducas (1Tim 4.7), que promovem controvérsias em vez da edificação do povo de Deus na fé (1Tm 1.4). Entre os próprios judeus havia muitas dessas fábulas, histórias fantasiosas (Tito 1.14). E já que as pessoas preferem os mitos à verdade (2Tm 4.4), Timóteo e Tito, a quem Paulo escreveu essas passagens, deveriam adverti-las contra os mitos. A advertência era necessária, pois os cristãos das igrejas sob a responsabilidade deles vinham de uma cultura permeada por mitos.

O próprio Paulo se deparou várias vezes com esses mitos. Uma delas foi em Listra, quando a multidão o confundiu, juntamente com Silas, com os deuses do Olimpo e queria sacrificar-lhes (At 14.11). Outra vez foi em Éfeso, quando teve de enfrentar o mito local de que uma estátua da deusa Diana havia caído do céu, da parte de Júpiter, o chefe dos deuses (At 19.35). Em todas essas ocasiões, Paulo procurou afastar as pessoas dos mitos e trazê-las para a fé na ressurreição de Jesus Cristo. Quando Paulo escreveu aos romanos, um povo imerso em mitos religiosos, descreveu no capítulo primeiro de sua carta a origem das religiões humanas. Elas são criações humanas, oriundas da recusa do homem em aceitar a verdade de Deus. Ao rejeitar a revelação de Deus, os homens inventaram para si deuses e histórias sobre esses deuses, que são os mitos das religiões pagãs (Romanos 1.17—32).

O apóstolo Pedro também estava perfeitamente consciente do que era um mito. Quando ele escreve aos seus leitores acerca da transfiguração e da ressurreição de Jesus Cristo, faz a cuidadosa distinção entre esses fatos que ele testificou pessoalmente e mythoi, “fábulas engenhosamente inventadas” (2Pe 1.16). Ele sabia que a história da ressurreição poderia ser confundida com um mito, algo inventado por ele mesmo ou pelos demais discípulos de Jesus [esse argumento permanece de pé, ainda que alguns neguem que Pedro seja o autor dessa carta]. Ao que parece, Paulo e Pedro, juntamente com os profetas e autores do Antigo Testamento, estavam perfeitamente conscientes da diferença entre uma história real e outra inventada.

Dizer que os próprios autores bíblicos criaram mitos significa dizer que eles sabiam que estavam mentindo e enganando o povo com estórias espertamente inventadas por eles. Seus escritos mostram claramente que eles estavam conscientes da diferença entre uma história inventada e fatos reais. Através da história, os cristãos têm considerado o mito como algo a ser suplantado pela fé na revelação bíblica, que registra os poderosos atos de Deus na história. Equiparar as narrativas bíblicas aos mitos pagãos é validar a mentira e a falsidade em nome de Deus. É adotar uma mentalidade pagã e não cristã.

Existe, naturalmente, uma diferença entre o mito e os contos que aparecem na Bíblia. Há várias histórias na Bíblia, criadas pelos autores bíblicos, que claramente nunca aconteceram. Contudo, elas nunca são apresentadas como história real, como fatos reais sobre os quais o povo de Deus deveria colocar sua fé, mas como comparações visando ilustrar determinados pontos de fé, ou linguagem figurada. São as parábolas, os contos, como aquela história do espinheiro falante contada por Jotão (Jz 9.7). Há também a poesia, onde se diz que as estrelas cantam de júbilo, que Deus cavalga querubins e viaja nas asas do vento. Os Salmos contém muito disso. Quando os neoliberais deixam de reconhecer a diferença entre mitos e gêneros literários que usam licença poética e linguagem figurada, fazem uma grande confusão.

Eu disse que a atitude dos profetas, apóstolos e autores bíblicos em relação ao mito foi de desmitologização. Eu sei que dizer isso é anacrônico, pois foi somente no século passado que Rudolph Bultmann, autor do clássico
Jesus Cristo e Mitologia, propôs seu famoso programa de desmitologização da Bíblia. Ele achava que havia mitos na Bíblia e que era preciso separá-los da verdade. Mas, antes dele, os próprios profetas, apóstolos e autores bíblicos já haviam manifestado essa preocupação. É claro que eles e Bultmann tinham conceitos diferentes. Mas, se ao final o mito é uma história de caráter religioso que não tem fundamentos na realidade, e que se destina a transmitir um conceito religioso, ele não é, de forma alguma, uma preocupação exclusiva de teólogos modernos. Ou seja, o programa de desmitologização começou muito antes de Bultmann, desde quando a Bíblia faz a separação entre mito e os atos salvadores de Deus na história e nos convida a crer nesses últimos de todo coração.

[Como sempre, o texto foi lido e revisado por vários colegas a quem agradeço]

segunda-feira, março 20, 2006

Afeganistão: Conversão pode levar à morte!

A Folha de São Paulo de hoje (20.03.2006) traz uma reportagem no primeiro caderno (Pg. A 12) sobre um afegão que está sendo processado e pode ser condenado à morte por ter-se tornado cristão. Abdul Rahman está preso desde o mês passado. Confrontado, no tribunal, com as evidências de sua conversão, ocorrida há 16 anos, quando teve contato com alguns cristãos que realizavam uma operação de caridade, naquele país, ele confirmou a fé. Tendo sido oferecida oportunidade para que ele negasse a fé e declarasse retorno ao islamismo, ele recusou.

O juiz disse: “Nós não somos contra nenhuma religião em particular, mas no Afeganistão esse tipo de coisa é contra a lei”. O promotor declarou: “Somos muçulmanos, e tornar-se um cristão é contra a lei. Ele deve receber a pena de morte”. O artigo diz que Rahma, após sua conversão, trabalhou por quatro anos no Paquistão e viveu, posteriormente, na Alemanha. Voltou ao Afeganistão em 2002 e tentou reaver a custódia das filhas que viviam com os avós. No processo que se seguiu ele foi encontrado, no tribunal, com uma Bíblia, o que provocou a sua prisão. Devemos investigar, mais, este caso e, ao mesmo tempo, estar em oração por toda essa situação e ver que providências pessoais cada um de nós pode tomar.

A notícia também está no site da BBC (e em vários outros sites internacionais) com a foto do Juiz (ao lado) apresentando a Bíblia de propriedade do acusado, como evidência do crime cometido contra o os muçulmanos.

Aqueles que insistem na apresentação do islamismo como uma religião pacífica, inclusive alguns que comentaram em nossa postagem passada sobre o assunto, deveriam ponderar suas opiniões e revisar suas conclusões à luz da abundante evidência contrária.

quarta-feira, março 15, 2006

Sobre a Guerra entre o Cristianismo e a Ciência


Para muita gente a relação entre o cristianismo e a ciência sempre foi conflituosa, uma história de guerras e tensões contínuas. Uma das razões para essa concepção é que geralmente se pensa que as duas coisas estão em campos totalmente opostos e não intersectáveis. A religião trata da alma, do sobrenatural, do transcendente, de valores e conceitos acima da possibilidade padrão de verificação. A ciência, por sua vez, nada teria a ver com religião, ou quando muito, teria um papel de desmistificação, explicando através das leis naturais aquilo que os religiosos acreditam que é a mão de Deus na história, na natureza e na realidade humana.

Uma outra causa dessa visão beligerante entre religião e ciência são obras cujo propósito foi desbancar o cristianismo e estabelecer o naturalismo como filosofia subjacente da ciência, como por exemplo, History of the Conflict between Religion and Science [História do conflito entre Religião e Ciência], de John William Drapper (1811-1882) e History of the Warfare of Science with Theology [História da Guerra entre a Ciência e a Teologia] de Andrew Dickson White (1832-1918). A tese de White nessa obra é que em toda a história moderna, a interferência da religião na ciência resultou nos males mais terríveis tanto para a religião como para a ciência. Além disso, outras obras historiaram as grandes descobertas científicas abstraindo-as do contexto religioso dos cientistas, pesquisadores e filósofos que as fizeram, mesmo que, em quase todos os casos, foram os pressupostos cristãos dessas pessoas que as levaram a elaborar hipóteses e achar caminhos que nos deram a moderna ciência.

Atualmente, uma nova perspectiva surge na academia causada, em primeiro lugar, pela redescoberta do papel decisivo da Europa cristianizada para os primórdios da ciência moderna. Em segundo lugar, recentes historiadores da ciência têm demandando que o relato das grandes descobertas científicas seja feito levando-se em conta o papel das convicções religiosas dos pesquisadores e cientistas e a contribuição das mesmas para tais descobertas, especialmente aquelas que lançaram os fundamentos da moderna ciência. Defendem uma abordagem holística da história da ciência.

Essas mudanças acima fortalecem a convicção de que a história da relação entre o cristianismo e a ciência, longe de ter sido uma história de conflitos constantes, foi de cooperação. As obras recentes de cientistas e historiadores cristãos como Hooykaas, Russell, Kuyper, Pearcey, entre outros (veja bibliografia ao fim do post), mencionam alguns fatos históricos que apontam para essa relação, que resumo aqui para conforto dos leitores do nosso blog. Começo com a constatação de que várias culturas orientais da antiguidade – desde chineses até os árabes, passando pelos egípcios e sumérios – alcançaram um nível de conhecimento e de tecnologia muito superior ao alcançado no Ocidente cristianizado. Contudo, a ciência, como disciplina sistemática, nasceu no Ocidente, na Europa, à época dominada por uma visão cristianizada de mundo, em que pesem os abusos e erros da Igreja Romana.

O que há no cristianismo, de modo geral, que permitiu que isso acontecesse? Nem todos os cientistas e pesquisadores eram cristãos devotos, mas a maioria deles operava com uma visão intelectual de mundo moldada de acordo com o conceito bíblico da criação e do governo de Deus na realidade natural e humana, o que acabou por fornecer à cultura ocidental diversos pressupostos fundamentais sobre o mundo natural. Menciono alguns.

1. A natureza é real. O mudo existe objetivamente, fora de nós. Muitas outras religiões consideram o mundo como irreal, como uma manifestação do divino ou manifestações do ser absoluto e infinito, como o panteísmo e o idealismo. No hinduismo, o mundo é maya, ilusão. Na visão cristã, além de real, a natureza é de grande valor. Ela é boa. Isso difere da visão do dualismo oriental entre matéria e espírito, que equiparava a matéria à desordem. “E Deus viu que era bom” é o veredito do Criador sobre a natureza.

2. A natureza não é Deus, mas uma criação dele. As religiões orientais são panteístas ou animistas, vendo o mundo como habitação das divindades ou extensões delas. No cristianismo, Deus não é a alma do mundo, mas seu criador. Foi essa “desdeificação” (Hooykaas) da natureza que permitiu que ela fosse estudada e pesquisada, como pré-condição essencial para a ciência. No panteísmo, o homem, a natureza e Deus fazem parte da mesma realidade, o que torna impossível ao homem transcender a natureza para poder analisá-la. A visão cristã da criação deu ao homem a coragem necessária para examinar a natureza sem medo de ofender os deuses.

3. No mundo os acontecimentos ocorrem de maneira confiável e regular, pois foi criado de forma ordenada, coerente e unificada por um Deus de ordem. O mundo é regido por leis naturais ordenadas e implantadas por Deus e não por forças misteriosos que escapam à nosso conhecimento. Portanto, suas manifestações são legítimas e compreensíveis. As irregularidades não devem ser consideradas como anomalias dessas forças misteriosas, mas um desafio para uma pesquisa mais profunda e a descoberta de leis que possam explicá-las. O uso da matemática na ciência reflete essa convicção de que o mundo é ordenado por leis que podem ser expressas em fórmulas. A convicção fundamental da ciência é que o mundo é ordenado. Ela é dádiva da visão cristã de que o mundo foi criado por um único Deus e não por vários deuses ambíguos, contraditórios, incoerentes e caprichosos, a partir da matéria caótica, como acreditavam algumas religiões orientais.

4. O homem foi dotado de inteligência, ao ser criado à imagem e semelhança de Deus, e portanto pode interpretar as leis do universo. De acordo com o grande estudioso da cultura chinesa Joseph Needham, a cultura chinesa não desenvolveu a ciência moderna porque os chineses não crêem numa ordem inteligível no universo e nem na capacidade da mente humana em decodificar essa ordem, caso ela existisse. Da perspectiva cristã, todavia, o homem foi criado para a glória de Deus e com a missão de conhecê-lo mais e mais pelo conhecimento da Sua criação, bem como com o propósito de dominar essa criação e usá-la em benefício do seu próximo.

Foram cientistas com essas convicções acima, no todo ou em parte, que lançaram as bases da moderna ciência, como os astrônomos Kepler e Galileu, os químicos Paracelso e Van Helmont, os físicos Newton e Boyle e os biólogos Ray, Lineu e Culvier, para citar alguns. Não estou dizendo que eles foram cristãos no sentido evangélico, mas que, no mínimo, independentemente de sua relação pessoal com Cristo, operaram a partir dos pressupostos acima mencionados, que ainda prevaleciam na cultura de sua época.

Infelizmente, a fé cristã foi mais e mais empurrada para fora da academia, que apesar disso continua a operar com o capital acumulado pelo cristianismo, a começar com aquele que é o pressuposto central da ciência, que é a existência objetiva de um mundo ordenado por leis regulares e universais. A pergunta é, por mais quanto tempo esse pressuposto continuará a manter a ciência? (N. Pearcey).

[Esse post se inspirou parcialmente no primeiro capítulo de A Alma da Ciência de Nancy Pearcey, que deverá estar na Universidade Presbiteriana Mackenzie em setembro desse ano, para palestras a comunidade acadêmica e ao grande público]

BIBLIOGRAFIA BÁSICA:

HOOYKAAS, Herman, A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna. Editora da UnB. 1988.
PEARCEY, Nancy, A Alma da Ciência. Editora Cultura Cristã. 2005
RUSSELL, Colin, Correntes Cruzadas. Interações entre a Ciência e a Fé. Editora Hagnos. 2004.
KUYPER, Abraham, Cavinismo. Editora Cultura Cristã. 2002.
BYL, John, Deus e Cosmos. Publicações Evangélicas Selecionadas. 2004.

quinta-feira, março 09, 2006

O Que Aconteceu com os Evangélicos?

Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados da década de 90, ele apenas tocou em uma das muitas áreas em que o evangelicalismo havia entrado em colapso no Brasil: a sua incapacidade de deter a proliferação de teologias oriundas de uma visão pragmática e mercantilista de igreja, no caso, a teologia da prosperidade. Fica cada vez mais claro que os evangélicos estão atualmente numa crise muito maior, a começar pela dificuldade – para não falar da impossibilidade – de ao menos se definir hoje o que é ser evangélico.

Até pouco tempo, “evangélico” indicava vagamente aqueles protestantes de entre todas as denominações – presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos, luteranos e pentecostais, entre outros, que consideravam a Bíblia como Palavra de Deus, autoritativa e infalível, que eram conservadores no culto e nos padrões morais, e que tinham visão missionária. Hoje, no Brasil, o termo não tem mais essa conotação. Ele tem sido usado para se referir a todos os que estão dentro do cristianismo em geral e que não são católicos romanos: protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, igrejas emergentes, comunidades dos mais variados tipos, etc.

É evidente a crise gigantesca em que os evangélicos se encontram: a falta de rumos teológicos definidos, a multiplicidade de teologias divergentes, a falta de uma liderança com autoridade moral e espiritual, a derrocada doutrinária e moral de líderes que um dia foram reconhecidos como referência, o surgimentos de líderes totalitários que se auto-denominam pastores, bispos e apóstolos, a conquista gradual das escolas de teologia pelo liberalismo teológico, a falta de padrões morais pelos quais ao menos exercer a disciplina eclesiástica, a depreciação da doutrina, a mercantilização de várias editoras evangélicas que passaram a publicar livros de linha não evangélica, e o surgimento das chamadas igrejas emergentes. A lista é muito maior e falta espaço nesse post.

Recentemente um amigo meu, respeitado professor de teologia, me disse que o evangelicalismo brasileiro está na UTI. Concordo com ele. A crise, contudo, tem suas raízes na própria natureza do evangelicalismo, desde o seu nascedouro. Há opiniões divergentes sobre quando o moderno evangelicalismo nasceu. Aqui, adoto a opinião de que ele nasceu, como movimento, nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos. Era uma ala dentro do movimento fundamentalista que desejava preservar os pontos básicos da fé (veja meu post sobre Fundamentalismo), mas que não compartilhava do espírito separatista e exclusivista da primeira geração de fundamentalistas. A princípio chamado de “neo-fundamentalismo”, o evangelicalismo entendia que deveria procurar uma interação maior com questões sociais e, acima de tudo, obter respeitabilidade acadêmica mediante o diálogo com a ciência e com outras linhas dentro da cristandade, sem abrir mão dos “fundamentos”. Eles queriam se livrar da pecha de intransigentes, fechados, bitolados e obscurantistas, ao mesmo tempo em que mantinham doutrinas como a inerrância das Escrituras, a crença em milagres, a morte vicária de Cristo, sua divindade e sua ressurreição de entre os mortos. Eram, por assim dizer, fundamentalistas esclarecidos, que queriam ser reconhecidos academicamente, acima de tudo.

O que aconteceu para o evangelicalismo chegasse ao ponto crítico em que se encontra hoje? Tenho algumas idéias que coloco em seguida.

1. O diálogo com católicos, liberais, pentecostais e outras linhas sem que os pressupostos doutrinários tivessem sido traçados com clareza. Acredito que podemos dialogar e aprender com quem não é reformado. Contudo, o diálogo deve ser buscado dentro de pressupostos claros e com fronteiras claras. Hoje, os evangélicos têm dificuldades em delinear as fronteiras do verdadeiro cristianismo e de manter as portas fechadas para heresias.

2. A adoção do não-exclusivismo como princípio. Ao fazer isso, os evangélicos começaram a abrir a porta para a pluralidade doutrinária, a multiplicidade de eclesiologias e o relativismo moral, sem que tivessem qualquer instrumento poderoso o suficiente para ao menos identificar o que estivesse em desacordo com os pontos cruciais.

3. O abandono gradual da aderência a esses pontos cruciais com o objetivo de alargar a base de comunhão com outras linhas dentro da cristandade. Com a redução cada vez maior do que era básico, ficou cada vez mais ampla a definição de evangélico, a ponto de perder em grande parte seu significado original.

4. O abandono da confessionalidade, dos grandes credos e confissões do passado, que moldaram a fé histórica da Igreja com sua interpretação das Escrituras. Não basta dizer que a Bíblia não tem erros. Arminianos, pelagianos, socinianos, unitários, eteroteólogos, neopentecostais – todos afirmarão isso. O problema está na interpretação que fazem dessa Bíblia inerrante. Ao jogar fora séculos de tradição interpretativa e teológica, os evangélicos ficaram vulneráveis a toda nova interpretação, como a teologia relacional, a teologia da prosperidade, a nova perspectiva sobre Paulo, etc.

5. A mudança de uma orientação teológica mais agostiniana e reformada para uma orientação mais arminiana. Isso possibilitou a entrada no meio evangélico de teologias como a teologia relacional, que é filhote do arminianismo. Permitiu também a invasão da espiritualidade mística centrada na experiência, fruto do reavivalismo pelagiano de Charles Finney. Essa mudança também trouxe a depreciação da doutrina em favor do pragmatismo, e também o antropocentrismo no culto, na igreja e na missão, tudo isso produto da visão arminiana da centralidade do homem. Mas talvez o pior de tudo foi a perda da cosmovisão reformada, que serviria de base para uma visão abrangente da cultura, ciência e sociedade, a partir da soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Sem isso, o evangelicalismo mais e mais tem se inclinado a ações isoladas e fragmentadas na área social e política, às vezes sem conexão com a visão cristã de mundo.

6. Por fim, a busca de respeitabilidade acadêmica, não somente da parte dos demais cristãos, mas especialmente da parte da academia secular. Essa busca, que por vezes tem esquecido que o opróbrio da cruz é mais aceitável diante de Deus do que o louvor humano, acabou fazendo com que o evangelicalismo, em muitos lugares, submetesse suas instituições teológicas aos padrões educacionais do Estado e das universidades, padrões esses comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo, em que as Escrituras e o cristianismo são estudados de uma perspectiva não cristã. Abriu-se a porta para o velho liberalismo.

Não há saída fácil para essa crise. Contudo, vejo a fé reformada como uma alternativa possível e viável para a igreja evangélica brasileira, desde que se mantenha fiel às grandes doutrinas da graça e aos lemas da Reforma, e que faça certo aquilo que os evangélicos não foram capazes de fazer: (1) dialogar e interagir com a diversidade delineando com clareza as fronteiras do cristianismo; (2) abandonar o inclusivismo generalizado e adotar um exclusivismo inteligente e sensível; (3) voltar a valorizar a doutrina, especialmente os pontos fundamentais da fé cristã expressos nos credos e confissões, que moldaram os inícios do movimento evangélico. Talvez assim possamos delinear com mais clareza os contornos da face evangélica em nosso país.

[Agradeço a todos os amigos que viram o draft original deste post e fizeram valiosas sugestões.]

quarta-feira, março 01, 2006

Sobre Espiritualidade, Místicos e Neoliberais

A espiritualidade, tema antigo da praxis católica, tornou-se ultimamente um assunto da agenda protestante. Quando ouvi pela primeira vez evangélicos propondo a espiritualidade, fiquei curioso, embora não muito interessado. A proposta passava pelos escritos e experiências dos místicos do período medieval (o quadro ao lado é o êxtase de Tereza de Ávila) e eu não via o que podíamos aprender deles nessa área. As justificativas apresentadas para a busca de uma comunhão maior com Deus pareciam ter algum fundamento. Criticou-se a superficialidade da piedade cristã moderna, o desinteresse atual da Igreja por exercícios espirituais como meditação e contemplação, e a influência nefasta daquele tipo de teologia sistemática tradicional que faz uma abordagem mecanicista da realidade e não dedica espaço para a oração. Mas será que os padres místicos medievais poderiam servir de modelo para o avivamento espiritual tão necessário em nossos dias?

Mais tarde, ouvi a mesma proposta vinda de gente que defendia o diálogo com o catolicismo e a Igreja Ortodoxa via misticismo medieval, que funcionaria como uma espécie de ponte para esse diálogo. Depois me inteirei que vários teólogos católicos modernos estão afinados no mesmo discurso. E quando finalmente ouvi neoliberais se dizendo místicos e espirituais, e defendendo a mesma coisa, fiquei de orelha em pé. Por que neoliberais, que acreditam que a verdade evolui e muda, que são críticos ferozes de tudo que é antigo na Igreja, agora resolveram beber no misticismo medieval?

Preciso esclarecer, de saída, que não estou dizendo que todo mundo que defende aspectos da espiritualidade medieval para hoje é neoliberal. Preciso também esclarecer que, a princípio, estou aberto para aprender com os cristãos do passado, ainda que sejam católicos romanos medievais. Também quero acreditar que os atuais proponentes evangélicos da espiritualidade estão examinando tudo e retendo apenas o que é bom. Não sei, contudo, como conseguirão separar a mística medieval da teologia medieval, eivada do catolicismo que foi denunciado pelos Reformadores.

Mas o meu objetivo nesse post é o interesse dos neoliberais no misticismo medieval. Algo não está batendo direito, a não ser que tenham encontrado no misticismo dos monges semelhanças com a espiritualidade em que acreditam.

A primeira pode ser o foco na experiência, a ausência da Bíblia e o conseqüente esvaziamento de conteúdo teológico. Sei que alguns místicos citavam a Bíblia, mas vai uma distância muito grande entre fazer isso e desenvolver uma espiritualidade que seja decorrente da teologia bíblica. A piedade ascética certamente não era moldada pelas Escrituras, a começar pelos votos de abstinência, a auto-flagelação, o isolamento social e uma vida dedicada à contemplação. Para não falar na busca de Deus de forma direta. A mística medieval, com raras e notáveis exceções, é voltada para a experiência interior, para a busca do êxtase, do mistério, de uma comunhão com Deus que não tenha troca de conteúdos, onde o homem não fala teologicamente e Deus também não responde teologicamente. A mesma coisa ocorre com os herdeiros pós-modernos de F. Schleiermacher, o pai do liberalismo protestante. Para ele a religião consistia no senso interior de dependência de Deus, não na aderência a qualquer conteúdo doutrinário. Na mesma linha, Paul Tillich, influenciado pelo místico Meister Eickhart, disse, “se a oração é trazida ao nível de uma conversa entre dois seres, é blasfema e ridícula” (Teologia Sistemática, I, 112). Os neoliberais, ao final, também concordam que o âmago da religião é a experiência individual direta com o inefável. E assim, encontraram nos monges suas almas-gêmeas.

Uma segunda semelhança aparente entre a espiritualidade medieval e a neoliberal é a teologia natural. O Deus que desejam encontrar em suas experiências é aquele de quem podem aprender pela natureza ou dentro de si mesmos. A contemplação meditativa e a comunhão mística com a natureza, seus rios, montanhas, florestas e vales (quem não lembra do “irmão sol” e da “irmã lua” de Francisco de Assis?) colabora para a mística medieval, que nesse ponto não somente é similar à religiosidade neoliberal, mas também à espiritualidade pagã, conforme post de Mauro Meister aqui no blog.

Terceira, a abertura para novas revelações. Grande parte das experiências dos místicos medievais consistia em visões ou contemplações diretas de Deus. A famosa mística medieval, a freira beneditina Hildegard (1098-1179), por exemplo, teve visões de Deus desde os três anos, nas quais Deus revelou-lhe a natureza dele e do universo. Sua obra Scivias, um clássico do misticismo medieval, relata essas visões. Já o famoso Inácio de Loyola, depois de ler o livro Vida de Cristo do monge místico Ludolfo da Saxônia (séc. XIV), experimentou visões místicas de Cristo e da virgem Maria. A própria Teresa de Ávila, ícone da espiritualidade medieval, narra em Castelo Interior como, em uma série de experiências místicas, Jesus veio a ela pessoalmente, a partir das quais ela começou a amá-lo apaixonadamente. Neoliberais não têm visões, mas acreditam que a verdade sempre está evoluindo, que Deus está sempre revelando coisas novas à Igreja. Em ambos os casos, místicos e neoliberais buscam a Deus sem a mediação das Escrituras.

A quarta semelhança pode ser o messianismo não-conformista. Muitos místicos se isolaram em protesto contra a corrupção da Igreja de sua época. Eles queriam reformá-la e livrá-la de suas corrupções. Inconformados, retiraram-se em busca de maior comunhão com Deus. O misticismo deles vem dessa vida de isolamento, dedicado à contemplação, fechados em seus mosteiros ou perdidos em cavernas e desertos. Os neoliberais também são messiânicos e se julgam comissionados a reformar por inteiro a Igreja de seus dias, embora adotem a tática de ficar dentro dela, em vez de sair.

Uma quinta semelhança é a crença última na salvação por obras. O misticismo medieval era ascético – algo bastante diferente da doutrina paulina da justificação pela fé somente. Sua busca da espiritualidade nascia da crença medieval de que o homem colaborava ativamente para a sua salvação e ascensão a Deus. Os neoliberais, da mesma forma, acreditam que a salvação não será pelo sacrifício vicário de Cristo, mas pela evolução pessoal do homem.

A última semelhança é o ateísmo lingüístico. Muitos místicos seguiram a idéia de Plotínio de que Deus está acima da razão e das palavras e que só pode ser conhecido quando alguém transcende esse mundo e se torna um com ele, numa união mística. Não se pode falar sobre Deus e nem se escrever sobre ele. De maneira incrivelmente semelhante, o neoliberalismo rejeita a proposicionalidade da revelação bíblica e insiste que não se pode falar de Deus ou se escrever sobre ele de forma significativa (é por isso que neoliberais acabam se tornando poetas, pois só lhes resta a poesia como forma de comunicação). Uma linguagem onde não se pode falar sobre Deus, ou o ateísmo lingüístico, une as duas espiritualidades.

Não me admira que os neoliberais tenham tanto interesse nos monges. Afinal, são pássaros da mesma plumagem. E não é de estranhar que os Reformadores rejeitaram em geral o misticismo medieval. Calvino e Lutero, tinham profundas diferenças com relação aos conceitos dos místicos sobre Deus, o homem e a salvação.

Como reformado calvinista, ainda tenho escrúpulos quanto a buscar modelos de espiritualidade em místicos ascetas medievais, cuja teologia estava impregnada de conceitos errados sobre essas coisas. Se eles oravam mais, jejuavam mais e contemplavam mais, não me impressiona. Como Calvino, digo que deveriam trabalhar mais para não viver às custas dos outros, enquanto ficavam contemplando, meditando e cantarolando.

Creio que o misticismo bíblico – união com Cristo realizada na sua morte, vivida pelo Espírito, celebrada na Ceia e vivenciada pelo uso dos meios de graça – continua sendo o padrão para os cristãos. O que falta em muitos é a disposição para vivê-lo.