segunda-feira, janeiro 29, 2007

Cosmovisão para Leigos (3) - Áreas de Conhecimento

Sociedade, Governo, Economia, Cultura, Arte e Tecnologia.

No post anterior iniciamos uma tratamento resumido de áreas da atividade em que estamos envolvidos ou de conhecimento, com a Palavra de Deus. A forma como observamos, abordamos ou procuramos entender essas esferas, se constitui em nossa Cosmovisão.

Sociedade
Na cosmovisão cristã, o estudo das sociedades, ou sociologia, começa com a pessoa de Deus, que subsiste em um relacionamento social eterno na trindade. A Bíblia enfatiza que Deus é unidade e pluralidade, bem como causa final de todas as coisas. Por isso, nas Escrituras, não encontramos nem o indivíduo nem a sociedade corporativa, um acima do outro. O cristianismo representa a única solução aos problemas gerados pelo humanismo que postula uma luta constante entre individualismo e coletivismo.

Em sua sabedoria infinita, Deus instituiu o relacionamento social primário e fundamental – a família, desde a criação. Esta é a célula principal de todas as demais ordens sociais, que foram se desenvolvendo conforme a providência divina. Procedem de Deus a formação do estado, da igreja e da família. Cada uma dessas áreas representa uma esfera de atividades e competências, com regras e limites específicos, sendo responsáveis perante Deus, na pessoa de seus líderes designados, para funcionarem dentro da esfera de autoridade específica que cada uma possui, como dádiva recebida de Deus. Esses direitos e responsabilidades foram adequadamente delineados e registrados na Lei santa de Deus. Deus criou o homem, portanto, como uma criatura social, à sua imagem.

A Bíblia também nos apresenta fatos sociais que devem ser ensinados. Por exemplo, existe extremo valor didático e muitos princípios a serem extraídos do estudo de como Deus se relacionou com o seu povo, em uma época e situação específica, no Antigo Testamento. Como aquela sociedade foi estruturada, por Deus, para resistir a fragmentação gerada pelo pecado. Quais os contrastes e similaridades daquela sociedade com os povos sem Deus que a rodeavam. A apresentação bíblica da ordem social é necessária para nos ensinar como Deus lida com a corrução moral e social em diversas ocasiões. A legislação moral encontrada na Palavra de Deus é uma ferramenta de análise das diversas estruturas sociais das nações e povos.

Quando analisamos a ordem social proveniente de Deus e a perversão dessa ordem, pelo homem pecador, compreendemos as diretrizes divinas para constituição de uma sociedade alternativa que verdadeiramente o glorifique. O que é distorcido pelo pecado, é restaurado pela graça de Deus. Cristo e a redenção nele encontrada, não somente restaura o relacionamento entre Deus e os seus chamados, mas, como resultado, o relacionamento entre homens, mulheres, crianças, raças e nações é também restaurado. A família cristã e a comunidade cristã – a igreja – deveriam sempre ser modelos firmes de um relacionamento social adequado no meio do caos do mundo contemporâneo – submerso em pecado.

Pela Palavra de Deus, a sociedade cristã é igualmente equipada a coexistir e sobreviver - fortalecida em Deus e por ele - em um mundo que pode ser hostil intelectualmente, ou até fisicamente violento contra o cristianismo e os cristãos. Nessas situações, a sociedade cristã não "joga a toalha" e se amolda aos valores e percepções anti-cristãs, mas permanece, como sal da terra e luz do mundo, testemunhando dos valores de Deus, procurando influenciar, em vez de ser influenciada, na expectativa de que ele, por sua graça comum, conceda momentos de vitórias onde tais valores venham a permear segmentos, bolsões, ou grande parte da sociedade. A história registra que Deus, por vezes, tem concedido tais tempos de refrigério ao seu povo.

Governo
O estudo correto do governo, ou das ciências políticas, na cosmovisão cristã, deve ser fundamentado na Palavra de Deus. O estudo da lei civil e do governo torna necessário a compreensão do padrão infalível de Deus, para uma adequada percepção do que é justiça e do que é injustiça. O governo civil se ocupa da promulgação da lei. Isso significa que sua esfera de atuação abrange a definição do certo e do errado. Certo e errado, entretanto, são conceitos que não podem ser divorciados de moralidade e moralidade está na essência da religião. Assim, governo civil é, por sua própria natureza, uma instituição religiosa – no sentido de que se rege pela religião (verdadeira, ou humanista) e presta contas a Deus (ou deixa de prestá-las, atuando como se fosse autônoma, para sua própria destruição.

O Antigo Testamento revelou o sistema legislativo para um governo civil. Deus, através de Moisés, supriu todo um povo, civilização e sociedade com um sistema completo de legislação civil e de governo. O decálogo, estabelece a base moral do governo. O exemplo do governo civil do Povo de Deus no AT, nos ensina separação de poderes; sistema de apelos e recursos; e um sistema de aferições contínuas entre os poderes.

Essa compreensão da teocracia veto-testamentária nos possibilita a análise comparativa de governos humanos, do passado e do presente, bem como de suas estruturas, leis e políticas. A cosmovisão cristã e o estudo desta área, leva aquele que estuda e se aplica nos princípios bíblicos a uma participação responsável no seu governo, exercitando cidadania responsável, tornando-se arauto da lei de Deus a uma sociedade sem Deus.

Reconhecemos que Deus trabalha de formas diferentes em eras diferentes (Hb 1.1-4) e que a legislação civil do Antigo Testamento foi promulgada para um povo específico, com propósitos específicos e com caráter temporal, não sendo normativa em seus detalhes à nossa sociedade. No entanto, a cosmovisão cristã procura estudar os princípios e valores contidos por trás daquelas legislações específicas e reconhece o aspecto didático desse estudo.

O entrelaçamento do governo (ou do estado) com a pessoa de Deus é claramente delineado no textus maximus dessa área - Rm 13.1-7, onde temos reafirmado o ensinamento de que Deus é a fonte da autoridade, que ela a delega a governantes humanos, mas que nem por isso eles deixam de ser responsáveis perante Deus e os homens, pelo desempenho correto de suas responsabilidades. Ali aprendemos, em adição, que tais responsabilidades são limitadas e não atribuidas para o exercício do despotismo; que elas são circunscritas a áreas específicas de manutenção da ordem, e não representam uma carta branca para a intromissão em todas as áreas das vidas dos cidadãos.

Em um post subsequente, deverei expandir um pouco mais essa visão bíblica do governo, ou do conceito do estado.

Economia
Deus é o proprietário da terra, a fonte de toda a riqueza. Ele é o dono de tudo e delega tal propriedade a quem lhe apraz. De Deus procedem, também, leis que governam a esfera da economia humana. Deus concedeu ao homem o direito de possuir propriedade privada, de ocupá-la ou desenvolvê-la, de objetivar a lucratividade e de definir como o a receita deve ser aplicada. No entanto, pelo próprio fato de que Deus é o Senhor de tudo e de todos, somos ensinados a exercitar todos esses direitos responsavelmente, como mordomos de Deus.

De acordo com as Escrituras, não faz parte das atribuições governamentais a regulamentação excessiva ou detalhada da economia, exceto na dádiva de garantias contra roubos e fraudes. A Palavra de Deus especifica a dignidade do trabalho e o direito do trabalhador de usufruir economicamente do seu trabalho. O exercício desses direitos deve se processar debaixo de diretrizes contidas na Palavra que produzem um sistema econômico que glorifica a Deus e demonstra sensibilidade às necessidades alheias. Esse sistema deve englobar e levar em consideração: o trabalho com afinco; a competitividade; os riscos do mercado. Esses fatores impelem os produtores e vendedores a utilizarem suas habilidades e recursos econômicos com muito cuidado, gerando produtos de qualidade crescente a preços mais razoáveis. O papel do governo, nessa esfera, é o de servir de árbitro – louvando os bons e punindo os maus – também na mercantilização, de acordo com os padrões da lei de Deus.

Riqueza não é uma conseqüência única de brutalidade econômica. A prosperidade econômica é possível vir como resultado das bênçãos divinas sobre o uso correto do trabalho empregado e da aplicação do lucro obtido. Harmonia produtiva, na esfera comercial, é fruto da graça comum de Deus, possibilitando as pessoas a seguirem suas leis (mesmo descrentes, que não as têm em suas mentes e corações). O cristianismo deve servir de intensa influência salutar na vida econômica construida em justiça, em uma sociedade; promovendo o respeito mútuo às leis; a obediência aos contratos firmados; a consideração ao bem alheio, o uso comedido do poder, a ausência de egoísmo desvairado nas realizações e a sensibilidade aos necessitados e carentes.

Cultura e Arte
As artes e a cultura são dons concedidos aos homens pelo Espírito Santo. Quando um artista compõe uma música, pinta um quadro de qualidade, um arquiteto projeta um edifício – cada um desses aplica, em sua específica esfera, o talento recebido de Deus. Na cosmovisão cristã, cada dom será utilizado para refletir a glória e sabedoria do doador e imitar a beleza e utilidade da obra criativa de Deus.[1]

A cosmovisão humanista vê a cultura e a arte como se existissem apenas para se auto-expressarem, ou para o divertimento das pessoas, ou por vaidade egoísta. As pessoas sem Deus utilizam, muitas vezes, a cultura como uma forma de expressar a sua revolta contra Deus e de glorificarem-se a si mesmas. Quando o homem cria, não está criando algo do nada, mas descobrindo a potencialidade em si, ali colocada por Deus. O uso correto da cultura e das artes representa uma bênção de Deus e resulta no benefício da humanidade e na validade da apreensão estética das coisas. O uso ou desenvolvimento incorreto, torna-se em uma maldição contribuindo para a destruição e dissolução moral da humanidade.

As artes e a cultura criam obras que expressam pensamentos e emoções. Conseqüentemente, influenciam a moralidade e o comportamento de muitos. Em muitas situações, providenciam comunhão e experiências praticamente religiosas aos apreciadores, criando um magnetismo e atratividade intensa entre artistas e espectadores. Isso representa uma grande responsabilidade ao cristão e quer dizer que não devemos nos envolver e desfrutar das artes que promovem pensamentos, emoções e comportamentos contrários à Palavra de Deus (2 Co 6.14).

Reconhecendo a manifestação da graça comum de Deus nessas esferas; reconhecendo o que é de mérito e qualidade; o cristão deve utilizar-se dessas áreas para a promoção do Reino de Deus. Os talentos devem ser desenvolvidos em harmonia com a lei moral de Deus, para sua honra e glória.

Tecnologia
Uma maneira de entender tecnologia, é considerando-a como a ciência aplicada à mecânica da vida, à multiplicação do potencial humano de realização. Ela tem algo de arte e cultura, pois é a interação da criatividade humana com as decobertas do funcionamento da criação de Deus (por exemplo: as chamadas leis físicas e químicas, o código do genoma, etc.), resultando em construções ou produtos colocados a serviço do homem. Se "fazer ciência" é algo que compreendemos como possível exatamente pela existência de Deus, como âncora metafísica maior, que estruturou e mantém uma criação em harmonia - não caótica, a tecnologia só é possível em função dessa mesma harmonia.

O avanço da tecnologia é uma evidência da operação do que conhecemos como graça comum de Deus. Ele possibilita a facilitação da jornada humana, através de obras que, como nas artes e na cultura, possuem mérito e qualidade intrinseca, independentemente se foram produzidas conscientemente para a glorificação do Criador. Ou seja, a cosmovisão cristã reconhece, sim, que o descrente produz obras de mérito e qualidade - mesmo em sua rejeição ao Deus que as possibilita. Descrentes projetam e constroem pontes seguras, elevadores que não falham, prédios que não caem, computadores que funcionam. Semelhantemente, são competentes na realização de cirurgias complicadas (e as simples, também), no estudo e controle de condições climáticas. A diferença é que os crentes no Deus da criação que são competentes nessas áreas têm a capacidade de exercitar seus dons e treinamentos conscientemente na glorificação do Criador e reconhecem que essas habilidades procedem dele.

A cosmovisão cristã não rejeita a tecnologia, mas não a considera um fim em si, nem que a sua servitude se exaure no melhoramento da humanidade. Enxerga a fonte e o destino dela - o Deus do Universo. Sabe que ela pode ser utilizada tanto para o bem como para o mal, e que isso é uma consequência do fator pecado, que deixa suas marcas em todas as áreas de realizações humanas.

Conclusão
Diversas outras áreas de conhecimento poderiam ser apresentadas sob o prisma de uma cosmovisão cristã. Nosso propósito, é o de que você se convença que as Escrituras são pertinentes ao todo da nossa vida. Isso tem uma conseqüência dupla: (1) Torna legítima as múltiplas esferas de conhecimento, ao cristão, que deve dominá-las para a Glória de Deus; (2) Desenvolve o nosso pensar como cristãos, objetivando a verdadeira transformação de nossa mente, em vez da conformação com o pensamento do mundo, fazendo-nos ávidos inquiridores e pesquisadores da Palavra de Deus, para ver o que ela tem a nos ensinar em cada segmento do conhecimento humano.

[1] Ver o meu artigo “Cultura – A Fé Cristã é Contra ou a Favor?”, postado em: http://www.solanoportela.net/artigos/cultura.htm

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Cosmovisão para Leigos (2) - Áreas de Conhecimento

Gostaria de dar um tratamento resumido sobre o relacionamento da fé cristã com algumas áreas do conhecimento humano. Isso, obviamente, não tem qualquer pretensão de esgotar a questão - meramente arranhamos a superfície. [1]

Matemática
Deus é trino – uma trindade. Ele é, igualmente, um único Deus. Nisso entendemos porque temos tanto unidade como diversidade na criação. Podemos ver nisso uma base para unidade e diferenciação na matemática.

A Bíblia nos ensina que o criador é Deus de ordem (1 Co 14.33 – “... Deus não é Deus de confusão...”). Quando estudamos o universo, criação de Deus, verificamos a ordem matemática das estruturas. A criação é governada por leis matemáticas, por seqüências lógicas (Sl. 19.1-2), que refletem o caráter daquele que a formou. Muitas leis da criação são definidas em termos da matemática. Observamos uma precisão maravilhosa na natureza e na física. Isso deve nos levar a exaltar a pessoa de Deus, constatando que essa precisão só é possível porque emana dela.

Os princípios matemáticos não variam; as fórmulas e equações demonstram coerência a toda prova. A matemática é, portanto, uma ferramenta básica ao estudo da obra criativa de Deus. A matemática nos auxilia a descobrir as leis físicas da criação e os modelos nela colocados por Deus. É impossível, para nós, entendermos a criação divina, sem a dádiva da matemática. Sem ela não teríamos como medir o mundo de Deus. A matemática é uma das ferramentas que Deus deu ao homem para que ele exercesse o seu domínio sobre a criação (Gn 1.28). Todos os campos de conhecimento demandam planejamento, cálculo de percurso e avaliação de resultados – no sentido de que as responsabilidades recebidas de Deus sejam bem desempenhadas. A matemática tem papel fundamental, quer seja em negócios, engenharia, arte, ciências, governo, economia, etc.

O estudante cristão, ao dominar a matemática, está contribuindo para o avanço do Reino de Deus, na terra, quando exercita esse conhecimento para a glória dele e se empenha no cumprimento do mandato cultural, de dominar a terra e sujeitá-la, recebido no início da criação.


Ciência
Ciência é o estudo próprio da criação de Deus. Os fatos da criação somente podem ser entendidos apropriadamente, quando olhados através das lentes das Escrituras. A Palavra de Deus nos ensina que a questão das origens, mesmo se constituindo uma base para ciências, é, acima de tudo, uma questão de fé, de pressupostos, de postulados. Hb 11.3, ensina: “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê”. Mas quando a ciência, os fenômenos observáveis da criação, são estudados partindo da informação Bíblica de que Deus é o criador, tudo adquire sentido, coerência e forma.

O estudo das ciências revela a glória de Deus (Sl 19.1), o poder de Deus, a beleza da obra de suas mãos e a arquitetura, com similaridades, nas suas criaturas – indicando procedência criativa de um ser todo-poderoso, pensante. A criação foi efetivada pela sabedoria divina e o homem é parte dela, tendo sido chamado a subjugá-la para a glória de Deus. Ainda no Jardim do Édem, Deus assinalou ao homem a tarefa de regência sobre os animais e plantas, na guarda da terra. Sob a autoridade de Deus, ele deveria cultivar a terra, cuidar dela e desenvolver cada aspecto do conhecimento sobre esta mesma terra, para a glória de Deus. Certamente o conhecimento das ciências esteve presente em Adão, para o cultivo da flora e classificação da fauna.

Para que dominemos a terra, como Deus nos comanda, temos de adquirir o conhecimento científico sistematizado e organizado. Pelo estudo tanto das leis físicas como das demais criaturas, aqueles que assim o fazem na compreensão de que procedem de Deus, aprendem a utilizar esse conhecimento segundo os preceitos de Deus. Cada nova descoberta sobre o mundo e o universo criado por Deus, deve levar ao reconhecimento de que Jeová é único. Deve levar, igualmente, a um cuidado maior por essa criação divina. Para que isso ocorra, o estudo da ciência tem que estar subordinado à Palavra de Deus. Não é que a Bíblia virá suprir a todo o conhecimento necessário nesses campos, mas a criação nunca deve ser vista como algo que é independente do seu criador.

O cristão, e a cosmovisão cristã, vêem a criação como impossível de ser estudada – em coerência e verdade – sem considerações ao papel fundamental da pessoa de Deus (na criação e manutenção dela) e sem que sejam traçados os elos, de propósito e utilidade, aos preceitos das Escrituras. Quando essa conexão se faz ausente, caímos na falsa ciência (1 Tm 6.20) e na cosmovisão evolucionista que domina os círculos intelectuais contemporâneos descrentes, chegando a influenciar fortemente e confundir aos próprios cristãos.


Saúde
O propósito do estudo da saúde e da educação física é o cuidado dos nossos corpos para a glória de Deus. Essa perspectiva da cosmovisão cristã difere da compreensão contemporânea do chamado “culto do corpo”. Somente Deus é para ser cultuado e o fazemos com nossas mentes e corpos. Um corpo saudável nos possibilita o serviço diligente à causa do mestre e realizar os deveres que nos são comandados. Assim, os princípios de termos dietas saudáveis, o exercício sistemático, o descanso apropriado – são todas áreas de ênfase, nesta esfera de conhecimento, para que nossa saúde se mantenha em excelência, para a glória de Deus. Devido ao pecado as pessoas têm a tendência à preguiça e indolência. O exercício físico e os esportes, combinados com a santificação do caráter interno, condicionam o corpo ao comando da mente; encorajam o desenvolvimento da auto-disciplina.

A participação em competições encoraja as pessoas a se manterem dentro das regras estabelecidas e a aceitarem o direcionamento de pessoas em posição de autoridade, bem como ao trabalho em grupo e ao desenvolvimento das habilidades, pela prática constante. Praticadas sob princípios cristãos de comportamento, as competições esportivas ensinam a manifestar graça tanto na vitória como na derrota. Na cosmovisão cristã, as atividades relacionadas com a saúde e educação física, nunca são um fim em si, nem se sobrepõem a outros deveres humanos, mas são áreas que compõem e servem de base ao desenvolvimento de uma vida de serviço a Deus.


Geografia
Para que o homem exerça o domínio sobre a terra, como Deus comanda, ele necessita ter um conhecimento prático de geografia. Nesse estudo ele deve levar em consideração os dados da Palavra de Deus, bem como os relatos históricos do grande cataclismo que foi o dilúvio e seus efeitos sobre a aparência e configuração da terra. Ignorar este evento e suas implicações, é o caminho seguido pelos eruditos descrentes contemporâneos, mas as conclusões a que chegam divergem consideravelmente da realidade e veracidade à qual pode chegar aquele que possui uma cosmovisão cristã.

Aprendemos nas escrituras, igualmente, a origem das nações, no incidente da Torre de Babel. Considerando esse fato, o estudo terá um direcionamento mais adequado. O estudo da geografia possibilitará entender como as diferentes configurações, climas, limites e recursos afetam a vida e a economia das nações. Em uma cosmovisão cristã, estaremos vendo Deus como regente da história e das nações operando o seu plano soberano de forma linear, na terra. O estudo da geografia também nos possibilita o acompanhamento do avanço do Reino de Deus, na terra, e como podemos nos empenhar ao avanço das missões a cada terra e nação.


História
A Bíblia revela, claramente, que Deus é Senhor da história. Ele governa os povos e nações por intermédio de sua providência. Ele age tanto direta, como indiretamente na história, derramando bênçãos e executando julgamentos sobre a terra (Dt 28). A Palavra de Deus registra profecias e muitas dessas já foram cumpridas, demonstrando que não somente a história foi planejada por Deus, mas se desenrola de acordo com o seu propósito. Todos os aspectos da história (antiga, medieval, moderna e contemporânea) devem ser vistos como a regência soberana de Deus sobre os atos dos homens, na terra. Tantos os indivíduos como as nações devem prestar contas a Deus. A história e os atos de Deus, nela, nos ensinam a viver o presente.

Estudar a história, sem a perspectiva da cosmovisão cristã, leva a um conceito errôneo de que as seqüências de eventos são aleatórias e sem propósito. Deus se entrelaça com a história da forma mais intensa. Não somente regendo-a de forma transcendente, mas interagindo poderosamente com ela, em Cristo Jesus. Esse é o ponto chave da criação. Um estudo da história que considere a vinda e vida de Cristo apenas um pequeno incidente a ser (imperfeitamente) relatado, é um estudo distorcido e inconseqüente. O fato da queda, é histórico, e também um ponto chave na compreensão dos incidentes históricos subseqüentes, da maldade humana motivadora das guerras e dissensões, bem como na necessidade do Messias redentor.

A teologia verdadeiramente relacional, é a reformada, que apresenta o Deus soberano verdadeiramente se relacionando com a sua criação. História é o registro desses relacionamentos. O plano de Deus é convergir todas as coisas em Cristo (Ef 1.10). A história tem, conseqüentemente, um propósito. O seu significado e interpretação se acham na compreensão de Cristo.

História é mais do que uma crônica de nomes, datas, lugares e eventos. História é o estudo da moral e do pacto feito entre Deus e o homem. Todos os eventos anteriores à crucificação, levam a ela e apontam a ela. Todos os subseqüentes, levam à vitória final, profetizada e à exaltação de Cristo. O estudo da história, sob a cosmovisão cristã, revelará as tentativas fúteis de homens que procuraram estabelecer o reino dos homens, em vez de procurarem o Reino de Deus.


No próximo post, pretendo dar continuidade ao que entendo como Cosmovisão Bíblica, desta vez nas áreas - Sociedade, Governo, Economia, Cultura, Arte e Tecnologia.

[1] Para um aprofundamento nesse relacionamento das diversas áreas com a Palavra de Deus, procure adquirir a Enciclopédia das Verdades Bíblicas, de Ruth C. Haycock – excelente livro recém-traduzido para o português, pela ACSI. Também utilizamos bastante material do Biblical Worldview Curriculum.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Afinal, que bicho é esse de que tanto se fala? COSMOVISÃO para leigos (1).

Você vai ouvir cada vez mais a palavra Cosmovisão. Apesar dela não fazer parte de nosso vocabulário diário, ela sempre foi muito usada nos meios teológicos e filosóficos e é imprescindível que o resto de nós, leigos, tenhamos a compreensão do que ela representa. É um pássaro? É um avião (até rima)? É um bicho exótico - e será que ele morde?

Simplificadamente, cosmovisão é a compreensão que uma pessoa tem do mundo, do universo que a cerca, da vida. O alemão expressa esse significado com a palavra weltanschauung. O inglês, como worldview, ou com a combinação: world and life view. O significado, principalmente no alemão, abrange mais do que simplesmente a visão do universo físico. É nesse sentido que a devemos utilizar. Para o cristão, a cosmovisão cristã vai colocar o entendimento do universo como criação de Deus, e todas as esferas de conhecimento, possíveis de estarem presentes na humanidade, como procedentes do Deus único e verdadeiro, Senhor do universo, comunicadas a nós por Cristo “...no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3)”.

Disse que você vai ouvir cada vez mais esta palavra, porque está em andamento uma movimentação muito intensa, no meio evangélico, para estabelecimento de escolas evangélicas, que ensinem todas as matérias a partir da perspectiva cristã da vida. Para isso, há a necessidade de que se ensine e se dissemine uma cosmovisão cristã. A fé cristã deixa de ser uma “questão religiosa” para o domingo, mas volta a assumir o seu posto original, e que havia sido resgatado pela reforma do século 16.

O curioso, é que esse movimento por escolas cristãs, tem características interdenominacionais. A fé reformada sempre enfatizou a questão da cosmovisão cristã. Agora, esse tesouro está sendo procurado por segmentos que até pouco tempo rejeitavam qualquer coisa que tivesse o mais remoto relacionamento com o calvinismo. O que pregadores e autores, durante anos, não conseguiram, Deus, em sua soberania, está fazendo – com a absorção, pela necessidade, dos conceitos transmitidos na idéia de uma cosmovisão cristã.

Nesse sentido, Deus tem sido pregado como soberano real do universo em comunidades teologicamente arminianas. Escolas de igrejas que “fogem” da teologia reformada, não piscam quando livros tais como: Calvinismo (de Abraham Kuyper) e E Agora, Como Viveremos (que tem como co-autora Nancy Pearcey – que estudou com o filósofo e teólogo calvinista, Francis Schaeffer), são recomendados, apresentados e suas idéias ensinadas. Tais círculos têm compreendido que é impossível se praticar a verdadeira educação das esferas de conhecimento, sem a coesão proporcionada por uma cosmovisão cristã reformada, na qual Deus é verdadeiramente regente do universo, e não um mero espectador, que reage às circunstâncias, procurando “consertar” as coisas.

Por isso é necessário que o pastor e líder cristão, e até nós, leigos, tenhamos uma boa compreensão deste tema. Porque precisamos também orientar os irmãos e familiares nesse entendimento. Cosmovisão cristã, também, tem tudo a ver com o estudo de Governo e Economia, e outras áreas de conhecimento e de atividades humanas que, para serem adequadamente compreendidas e exercitadas, não podem ser divorciadas dos princípios contidos nas Escrituras.

É óbvio que para o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã é crucial a pertinência e a necessidade da Palavra de Deus, para compreensão e envolvimento nosso, com o mundo em que vivemos. Mas, nesses posts, agora, quero focalizar a nossa atenção no conceito de cosmovisão, mostrando como existe um relacionamento de todas as atividades humanas, com o rumo traçado nas Escrituras para a criação.

Falar em cosmovisão no singular ou sem qualificá-la, somente, não resolve. Cada filosofia, cada forma de ver e entender as coisas, é uma cosmovisão em si. Norman Geisler diz que a “cosmovisão é análoga à lente intelectual através da qual as pessoas vêem a realidade. A cor da lente é um fato fortemente determinante para contribuir o que elas crêem acerca do mundo”. Ele continua, indicando que toda cosmovisão “procura explicar como os fatos da realidade se relacionam e se ajustam uns aos outros”. Além disso, a cosmovisão se preocupa com “as conseqüências lógicas associadas a viver de acordo com as convicções” sustentadas como verdadeiras.[1]

Por isso, devemos considerar sempre a cosmovisão cristã. Nossa lente são as nossas premissas. Nossas premissas são verdadeiras, porque se fundamentam na revelação de Deus ao homem – As Escrituras. Não precisamos pedir desculpas por nossas pressuposições, apenas devemos reconhecê-las claramente e demonstrar que todas as demais cosmovisões possuem suas próprias pressuposições. Quando falamos de cosmovisão cristã, portanto, já expressamos o entrelaçamento de nossa visão do universo e da vida, com as premissas da nossa fé cristã, reveladas de forma objetiva e proposicional nas Escrituras.

No próximo post vou dar um tratamento resumido sobre o relacionamento da fé cristã com algumas áreas do conhecimento humano.


[1] Norman Geisler, Fundamentos Inabaláveis, p. 53.

sábado, janeiro 13, 2007

E agora, o MEU comercial…

Caros amigos:

Chega aquele momento inexorável da mídia onde nos empenhamos em mostrar as qualidades daqueles que nos apóiam, cuidam de nós, e em fazer a devida propagandazinha. Não pensem que estavam imunes disso, neste BLOG!

Quero divulgar o site “Crônicas do Cotidiano”, cujo link está aí ao lado, escrito por escritora que conheço há 37 anos e com a qual estou casado há 33! Betty Portela, tem escrito um artigo trimestral em revista da Igreja Presbiteriana. Mesclando realidade com ficção, ela entrelaça o nosso cotidiano com princípios extraídos da Escritura. Se você gosta de uma crônica, de boa literatura e se preocupa em refletir as questões do dia-a-dia à luz da Palavra, pode gostar muito do que vai encontrar lá.

Dêem uma passadinha por lá e, se gostarem, deixem um comentário. Isso irá motivar a autora e fará maravilhas à manutenção da harmonia conjugal!!

Um abraço,

Solano

quarta-feira, janeiro 03, 2007

A Religião dos Liberais-Esquerdistas

Em 1923 J. Gresham Machen publicou Cristianismo e Liberalismo, em que mostrou claramente que o liberalismo era uma religião, e uma bem diferente do Cristianismo. Apesar da denúncia, a religião dos liberais cresceu e permeou todas as áreas do mundo ocidental moderno cristão, particularmente a política. Uma obra recente que delineia a religião do liberalismo e sua influência é Godless -- The Church of Liberalism [Sem Deus -- A Igreja do Liberalismo] de Ann Coulter. Comprei o livro (ainda não traduzido) e aproveitei minhas férias aqui em Recife para lê-lo (foto). Já estou chegando ao fim e também a algumas considerações sobre o seu conteúdo.

Ann Coulter é uma cristã que freqüenta com alguma regularidade a Redeemer Church, do Tim Keller, pastor presbiteriano conhecido nosso nos Estados Unidos. Republicana, conservadora, Coulter é advogada, jornalista, colunista de diversos periódicos americanos e escritora de sucesso, com vários livros na lista de best-sellers do The New York Times, inclusive esse último. Ann Coulter é uma crítica mordaz, ferrenha e destemida dos democratas-liberais esquerdistas americanos, aos quais se refere abertamente como retardados, traidores, covardes e inimigos de Deus, do Cristianismo e da América.

Godless é voltado para o público americano e expõe a falácia e incoerência dos principais pontos defendidos pelos liberais democratas americanos, naquilo que Coulter chama de "a Igreja do liberalismo". Podemos ter alguma dificuldade no entendimento de suas teses porque para a maioria dos brasileiros todos os americanos são apoiadores do Bush, direitistas e retardados. Apesar da linguagem ácida e debochada (eu provavelmente não liberaria comentários dela aqui no blog...) Coulter é extremamente bem informada e usa essas informações com muita inteligência – apesar de ser loura e usar uma mini-saia – e com uma ironia fina que arranca risadas freqüentes dos leitores (que concordam com ela, é claro). Tudo isso é empregado de maneira eficaz para detonar a religião do liberalismo político e expor seus defensores. Entre as risadas que dei lendo o livro na rede à beira-mar, aprendi que existe uma extraordinária semelhança entre a religião dos democratas-liberais esquerdistas de lá e aquela dos esquerdistas daqui. Menciono algumas, lembrando que aqueles que ela chama de liberais no contexto americano equivale mais ou menos aos esquerdistas do Brasil. Também não preciso dizer que apesar de generalizar, estou consciente de que há várias exceções.

1. Os liberais-esquerdistas são contra a punição de malfeitores como estupradores, assassinos, assaltantes a mão-armada e terroristas. Por não acreditarem no estado de queda e depravação moral e espiritual em que os homens vivem, defendem a possibilidade de reabilitação dos piores criminosos mediante a melhoria da auto-estima deles, programas de reabilitação administrados pelo Estado e psicólogos profissionais. São contra prisão perpétua, pena de morte, e a construção de mais prisões e detenções. São a favor de indultos, diminuição de pena e de devolver à sociedade bandidos perigosos para que se reintegrem e se tornem bons cidadãos. Esse seria um dos mandamentos da religião do liberalismo: “não punirás o malfeitor”.

2. Os mártires da religião liberal-esquerdista são geralmente esse pessoal. Nos Estados Unidos, assassinos seriais como Ted Bundy ganham fã-clube e seguidores, além de defensores entre homens e mulheres públicos. Recentemente, o estuprador e assassino Willie Horton ganhou notoriedade e milhares de defensores por que seus crimes foram considerados como armação de brancos preconceituosos – Horton é afro-descendente. Na mídia mundial liberal, Saddam Hussein já começa a tomar os contornos de herói e mártir.

3. O ponto de honra da religião liberal-esquerdista é o aborto, equivalente a um sacramento. Liberais-esquerdistas fazem o seu principal cavalo de batalha do direito da mulher abortar em qualquer período da gestação. Coulter diz que a razão é que os liberais odeiam os seres humanos e querem destruir o maior número possível de fetos. Nessa mesma linha, defendem o casamento gay porque gays não se reproduzem.

4. Os templos da Igreja liberal-esquerdista são as escolas públicas e os sacerdotes são os professores. Os liberais conseguiram transformar a rede pública de ensino em templos onde sua religião secularista-humanista-evolucionista é ensinada, onde o Cristianismo é proibido, onde nossos filhos aprendem desde cedo que a sexualidade precoce é natural, que ser gay é OK, que é legal usar camisinha e o “liberou-geral”, tudo isto à custa dos impostos pagos inclusive por aqueles que não mandam filhos para as escolas públicas e nem aceitam essas premissas ou a religião dos liberais. Aqui no Brasil, isso se estende à esfera governamental, com seus anúncios permissivos pagos com nossos impostos, bem como às universidades públicas.

5. Os liberais-esquerdistas são inimigos da ciência que considera as realidades de Deus, e se pudessem, queimariam todos os livros verdadeiramente científicos, como no passado houve queima de Bíblias. A religião liberal só aprecia a ciência quando ela aparenta contradizer o Cristianismo histórico. Toda vez que a ciência contradiz algum dogma da sua religião, os liberais estão prontos a reagir, protestar, desautorizar e renegar o valor das pesquisas e conclusões. Fizeram isso quando pesquisas científicas feitas por cientistas de Harvard, Cambridge e outros, mostraram que o QI das pessoas é genético (isso desbanca o dogma da igualdade de todas as raças por causa da evolução), que os homens são mais aptos para ciência e engenharia do que as mulheres (isso ataca o dogma da igualdade plena homens e mulheres), que o vírus da AIDS discrimina mesmo, atacando gays em 90% dos casos comprovados de AIDS (isso ameaça o dogma que ser gay é normal e natural e até desejável), que o aquecimento global não é tão sério como os ambientalistas – geralmente liberais-esquerdistas – propagam (isso ataca o dogma de que a vida humana tem menos valor que o meio-ambiente), que células-tronco de adultos são eficazes e têm já produzido efeito na cura de doenças graves, muito mais que o uso de células tronco de embriões (isso ataca o sacramento liberal de exterminar com o maior número possível de fetos), e por ai vai.

6. A premissa fundamental da religião liberal é a teoria da evolução. Apesar de 150 anos terem decorrido desde a publicação de Origem das Espécies os liberais continuam sem evidências fósseis da seleção natural e da evolução de uma espécie em outra mais adaptada. Quanto mais mergulhamos no conhecimento profundo do mundo e suas maravilhas, menos e menos plausível o evolucionismo se torna, a ponto de cientistas ateus, que rejeitam a evolução, procurarem outras alternativas para a origem da vida (que tal incluir Deus entre as opções?). Apesar de tudo, evolucionismo é dogma intocável e não passível de discussão nos templos liberais do ensino público. A única religião e a única fé que os liberais realmente desejam excluir das escolas e universidades é o Cristianismo. A religião que continua a defender pela fé o evolucionismo é mantida, nutrida e ensinada aos nossos filhos, usando nossos impostos.

Posso não concordar com o estilo mordaz de Coulter e nem com algumas colocações bem mais radicais do que estou pronto a endossar, mas estou impressionado com a percepção clara que ela tem daquilo que está realmente em jogo. A Igreja do liberalismo-esquerdista está no Brasil também, com seus templos, sacerdotes, dogmas e sacramentos. Em contraste com os Estados Unidos, cristãos históricos no Brasil ainda não são bem articulados, organizados e têm pouco acesso à mídia. Todavia, temos esperança de que, considerando as inconsistências internas do liberalismo, o crescente interesse pelo Cristianismo histórico e os esforços pequenos porém constantes de indivíduos em mostrar o outro lado, dias melhores poderão chegar.