segunda-feira, janeiro 28, 2008

Mas, e Mateus 18?

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Já presenciei diversas situações em que tentativas de exercer a disciplina em pastores e líderes que cometeram faltas em público, abertamente, do conhecimento de todos, foram engavetadas sob a alegação de que os denunciantes ou queixosos não cumpriram antes o que Jesus preceitua em Mateus 18:15, "Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão."

Todavia, esses passos iniciais que Jesus estabeleceu aqui têm a ver com irmãos faltosos que pecaram "contra nós" (Mat 18:15-17). Em vários manuscritos gregos antigos a expressão “contra ti” não aparece, o que tem levado estudiosos a concluir que se trata de uma inserção posterior de um escriba. Todavia, existem vários argumentos em favor da sua autenticidade. Primeiro, mais adiante no texto, tratando ainda do mesmo assunto, Pedro pergunta a Jesus: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe?” (Mat 18:21). A pergunta de Pedro reflete o entendimento que ele teve das instruções de Jesus quanto ao pecado de um irmão contra ele. Segundo, a expressão “contra ti” aparece na maioria dos manuscritos, ainda que mais recentes. Terceiro, a omissão da expressão nos manuscritos mais antigos pode se explicar pela ação deliberada de um escriba que quis generalizar o alcance das instruções. Por esses motivos, consideramos a expressão como tendo sido originalmente pronunciada por Jesus.

Notemos, portanto, que em Mateus 18 o Senhor não tem em mente os pecados públicos cometidos contra a Igreja de Cristo. O Senhor está tratando do caso em que um irmão pecar "contra mim". Num certo sentido, todos os pecados que um irmão comete acabam sendo contra mim, pois sou membro da Igreja que ele ofendeu. Mas, existem ofensas e faltas que me atingem de forma direta, como indivíduo. É disso que Mateus 18 trata.

Portanto, há que se distinguir duas situações gerais que precisam ser tratadas de forma diferente: aqueles pecados que foram cometidos abertamente e que são do conhecimento público, e aqueles outros que foram cometidos diretamente contra uma pessoa, e que ainda não são do conhecimento público. Os primeiros, os tais pecados abertos e públicos, devem ser tratados imediatamente pela Igreja, e não por indivíduos em conversas privadas. Os segundo, estes sim, exigem o tratamento que Jesus ensina em Mateus 18. Evidentemente, há pecados que se encaixam nas duas categorias e nem sempre é possível distinguir com facilidade o caminho a seguir.

De acordo com Calvino, os pecados abertos e públicos devem ser tratados sem demora pelos conselhos das igrejas, para que os bons membros não sofram uma tentação a mais ao pecado ocasionada pela demora. Calvino apela como prova para a repreensão pública imediata que Paulo fez a Pedro, conforme Gálatas 2:11,14. Paulo não esperou para falar em particular a Pedro. Como o pecado de Pedro, que era a hipocrisia, foi cometido abertamente, Paulo passa a repreendê-lo abertamente, sem demora.

Paulo também orienta Timóteo a disciplinar publicamente aqueles que vivem no pecado: “Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam” (1Tim 5:20). Não há aqui nenhuma menção da necessidade de procurar esses faltosos em particular uma ou duas vezes, mas apenas a necessidade de se estabelecer o fato pelo depoimento de testemunhas.

Quando Paulo tratou do caso do imoral de Corinto, um caso que era público, notório e do conhecimento de todos (cf. 1Cor 5:1), pediu a imediata exclusão do malfeitor (1Cor 5:13), lamentando que isso ainda não tivesse acontecido. Quando Ananias e Safira pecaram, mentindo abertamente sobre o valor das propriedades vendidas, ao trazerem diante dos apóstolos a sua oferta, foram disciplinados imediatamente por Pedro, sem que houvesse quaisquer encontros particulares anteriores com eles (At 5:1-11).

As exortações de Paulo para que nos afastemos dos que ensinam falsas doutrinas (Rom 16:17), para que se admoestem os insubmissos (1Tes 5:14), para que nos apartemos dos desordeiros (2Tes 3:6), para que fujamos e nos separemos dos falsos mestres (2Cor 6:17; 2Tim 3:5) sugerem ação disciplinar exercida pela Igreja sobre membros da comunidades que notoriamente são insubmissos, desordeiros, divisivos, falsos doutrinadores. O apóstolo traz uma lista complementar em 1Coríntios: "Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais" (1Cor 5:11). No caso de Himeneu e Alexandre, dois notórios blasfemadores e divulgadores de falsas doutrinas, Paulo os entrega diretamente a Satanás (1Tim 1:20).
Essas evidências levam à conclusão de que, no caso de irmãos que vivem notoriamente em pecado e que cometeram esses pecados abertamente, publicamente, não existe a necessidade de exortação particular e individual antes de se iniciar o processo disciplinar pela Igreja.

Aqui cabe mais uma vez citar o pensamento de Calvino, ao comentar Mateus 18:15. O Reformador mais uma vez distingue entre pecados abertos e secretos e exclama: "Certamente seria um absurdo se aquele que cometeu uma ofensa pública, cuja desgraça é conhecida de todos, seja admoestado por indivíduos; pois se mil pessoas tiverem conhecimento dela, ele deveria receber mil admoestações".

Isso não significa negar aos faltosos o direito de se defender e de se explicar. O pleno direito de defesa sempre deve ser garantido a todos. Todavia, eles exercerão esse direito já diante das autoridades da Igreja, e não diante de um irmão em particular, de maneira informal.
A determinação de Paulo a Tito, para que ele se afaste do homem faccioso após adverti-lo duas vezes (Tit 3:10-11), pode parecer militar contra o que estamos dizendo acerca do tratamento de pecados públicos. Todavia, é provável que as duas advertências que Paulo menciona já sejam públicas e abertas, pois se trata de homem faccioso, isso é, que promove divisões na igreja pelo ensino de falsas doutrinas. Se as mesmas não surtem efeito, como disciplina preliminar, a exclusão (implícita no mandamento para separar-se) é o passo definitivo e final.
Infelizmente, pela falta de distinção entre pecados públicos e pessoais, concílios e igrejas apelam para o não cumprimento de Mateus 18 em casos de denúncias feitas contra seus pastores, para travar administrativamente processos disciplinares contra os mesmos. Presenciei diversos casos de denúncias feitas contra pastores que haviam cometido faltas notórias e que foram arquivadas por seus concílios sob a alegação de que os passos de Mateus 18 não haviam sido cumpridos. Todavia, não se tratavam de faltas cometidas contra irmãos específicos, mas de erros públicos, notórios, que afetavam a Igreja de Cristo como um todo.

33 comentários:

moisés meirelles disse...

Rev. Augustus Nicodemus, seria possível o senhor dá exemplos contemporaneos de pecados, que abranja os dois casos, além dos citados na bíblia ou mais abrangentes para uma compreensão melhor do assunto?

Marcos Aurélio disse...

Pr. NICODEMOS,
O QUE DIZER ENTÃO DE IRMÃOS QUE VIVEM EM PRÁTICA CONSTANTE DE PRÁTICAS SEXUAIS QUE NÃO CHEGAM AO CONHECIMENTO DA IGREJA, POR EXEMPLO, A MASTURBAÇÃO ENTRE JOVENS E ADOLESCENTES, TÃO POUCO DISCUTIDA ABERTAMENTE NOS CÍRCULOS CRISTÃOS?
Faço essa pergunta levando em conta os dois artigos sobre disciplina bíblica postados no Blog Temporas.
Obrigado.
POR FAVOR, GOSTARIA DE SUA OPINIÃO.

Ednaldo disse...

Rev. Dr. Augustus, Graça e Paz.

O meu comentário não tem haver com o assunto do post, haja vista, estar muito claro, ao menos para mim em seu conteúdo e pertinência, mas sim no que diz respeito as diferenças entre textos gregos apontadas pelo sr. no texto de Mt. 18:15, dentre outras passagens.

Queria saber sua posição no que concerne as diferentes versões do texto grego utilizadas em nossos dias, i.e texto eclético, majoritário. Principalmente porque versões como a NVI, NTLH se baseiam exclusivamente no texto eclético, e a RA utiliza um mix de eclético e majoritário. e uma ultima pergunta até onde as diferenças entre estas versões podem influenciar nas doutrinas basilares da nossa fé?

Raimundo disse...

caro rev. Augustus:

Como sempre, é agradável ler as suas palavras.

Os conceitos apresentados foram muito bons, mas as vezes sinto a mesma dificuldade de separação do que é público e privado. Até quantas pessoas envolvidas pode ser considerado privado? E por quais meios? Pois, comentar algo com uma só pessoa, um fofoqueiro, por exemplo, é bem mais público potencialmente do que se expressar com clareza a 50 pessoas de suposta maturidade e com transparência.

De todo modo, sinto que há muita falta de transparência, assim como uma cordialidade que as vezes pode mascarar os verdadeiros sentimentos.

Particularmente, sempre tenho me excedido no muito falar, e algumas vezes sofrido porque pessoas não usaram de franqueza na conversa pessoal. Não tenho a resposta precisa, nem consigo dimensionar precisamente as esferas, mas certamente a transparente verdade em amor é o caminho a ser seguido.

Obrigado pelo seu post. Traz luz a uma questão de Teologia Moral e Pastoral, um universo pouco explorado por nós.

Raimundo

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Moisés,

Creio que podemos considerar como pecados abertos e públicos o ensino de falsas doutrinas, a promoção de divisões na Igreja, um adultério que chegou ao conhecimento público. Um exemplo concreto é o caso de um pastor que foi apanhado vivendo com uma mulher que ele dizia que era a esposa, mas que nunca havia casado. Por vários anos viveu amasiado com ela! Ele deveria ser disciplinado diretamente por seu presbitério. Não cabe aqui Mateus 18.

Um exemplo de falta pessoal é você ofender com palavras um irmão. Aqui cabe o irmão ofendido lhe procurar em particular, antes de levar o caso adiante.

Mas, há casos que podem se incluir nas duas situações. Não tem como fazer um catálogo. É por isso que Deus colocou presbíteros e pastores à frente da Igreja, para poder examinar esses casos e decidir o que é mais correto.

Abraços.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Marcos Aurélio

Respondi sua indagação nos comentários do post anterior.

Abraços.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Ednaldo

Minha posição sobre os textos gregos é que as variantes e diferenças que existem devem ser examinadas em seu mérito próprio. Não costumo aceitar ou rejeitar uma variante só porque ela é do texto crítico ou majoritário.

Sou simpático ao texto majoritário, e não o rejeito com veemência como a maioria dos estudiosos do NT hoje. Apenas discordo que considerações teológicas, como a doutrina da preservação, são determinantes para se estabelecer esse ou aquele texto.

As diferenças entre os principais textos (eclético/crítico e majoritário) em nada efetam nossa compreensão das doutrinas basilares do Evangelho.

Abraços.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Raimundo

Sua perguntas e observações são pertinente e não tenho respostas para todas elas. Creio que os detalhes do processo têm que ser decididos pelos líderes, presbíteros e pastores das igrejas. Como eu mesmo admiti, realmente nem sempre é fácil separar o privado do público.

Concordo totalmente que transparência em amor é o caminho a ser seguido. Vamos em frente.

Abraços.

JOSÉ DANIEL disse...

Graça e Paz, Rev. Augustus.

Tenho acompanhado seus posts, embora tenha-o descoberto há pouco tempo. Porém é sempre gratificante ler seus artigos.

Concordo com o que foi exposto e infelizmente, hoje, muitos (principalmente líderes) tem se escondido atrás do versículo "não toqueis nos meus ungidos" e os seus defensores-fãs ainda acrescentam "senão Deus vai tratar diretamente com você". Usam também "quem é você para julgar?" e "tire a trave do seu olho" e outras coisas mais.

Isso passa apenas um ar de que tudo termina em pizza, exceto para os membros faltosos (isso quando não são membros chegados à liderança).

Dois pesos e suas medidas.

Que Deus continue lhe abençoando no ministério e nos abençoando com textos esclarecedores e inspiradores.

Soli Deo Glória

Raimundo disse...

Rev.

O sr. acha que eu estaria equivicado em interpretar que tanto a gradação, quanto a forma da disciplina eclesiástica podem ser devidamente vivenciadas mais informalmente? Explico, o líder, presbítero ou pastor da Igreja ao saber de alguma falta, dependendo da dimensão do ocorrido, não estaria cumprindo precisamente o seu papel disciplinar ao exortar o faltoso através de uma conversa pastoral? Caso o irmão demonstre suficientes evidências de arrependimento após esta conversa, a disciplina não teria sido legitimamente exercida?
Minha pergunta é sincera, não tem conotações legais, mas é fruto do desejo de pastorear devidamente as ovelhas faltosas, que como eu, tem experimentado quebrantamento pela simples exortação, sem necessariamente passar por um processo disciplinar formal.

Helmut disse...

caro rev. dr. Augustus:

Os seus escritos são úteis e relevantes à Igreja brasileiras, não apenas reformada, mas evangélica em geral.
Eu sempre ouvi falar que para os calvinistas, a Palavra, o sacramento e a disciplina eclesiástica são as marcas principais da verdadeira igreja de Cristo. Este é um pensamento uniforme entre os calvinistas e foi defendido pelo próprio Calvino?
Achei curioso um post reformado do blog http://www.propostascalvinistas.blogspot.com que falava sobre algumas possíveis pequenas diferenças entre calvinistas. Esta seria uma delas, ou todos calvinistas defendem a disciplina como marca essencial da Igreja de Cristo?

ALTAIR GERMANO, disse...

Nobre companheiro, vosso texto é bastante elucidativo. Vale contudo lembrar, que a disciplina, em todos os casos, deve sempre ser aplicada com amor, objetivando a restauração dos faltosos (Hb 12.5-7.

Um abraço!q

propostas calvinistas disse...

Muito elucidativo o seu post, caro Dr. Augustus, nós do http://www.propostascalvinistas.blogspot.com esperamos conseguir ver restauradas esta e outras práticas genuinamente bíblicas na igrejas de Deus em nosso solo brasileiro.
Parabéns pelo post.
Convidamo-lo a comentar o nosso primeiro post também, por gentileza!

Prof. R. A. Maia Fontes disse...

Reverendo, parabéns pela clara, interessante e bíblica exposição!

Deus o abençoe!

Rubem A. Maia Fontes

Gilberto Sampaio disse...

Boa Tarde Irmãos!

Rev. Augustus, vou continuar no gancho do irmão Ednaldo a respeito dos Manuscritos! Sei que o tema tratado no post não foi esse, mas esse tema dos manuscritos tem sido omitido dentro de muitos circulos da cristandade evangelica, merece uma atenção! o que o Dr. acha de publicar um post para dar inicio a uma conversa aberta sobre isso? Fica aqui lançada minha idéia, um grande abraço a todos.

Anônimo disse...

Rev. Augustus Nicodemus
O que esperar para que uma reparação destes casos seja feita, é conveniente ficarmos calados? A pergunta nº 151 do Catecismo Maior de Westminster, 1º, 2º, 3º e 4º. Quer dizer alguma coisa em relação a estes casos? Às vezes penso que vou chegar na Igreja e encontrar-la vazia, é uma sensação horrível, que Deus encha nossos corações com a sua palavra e o seu entendimento para que algo seja feito em relação a estes casos, de forma justa.
Agradeço que haja pessoas como o Senhor para nos ajudar com seus conhecimentos.

Rosangela

Jorge Oliveira disse...

É certo que faltará disciplina na igreja dos nossos dias, mas não faltarão também coisas ainda mais importantes? Mais amor e perdão por exemplo.
É verdade que existirão muitos problemas pela falta da aplicação de Mateus 18, mas quantos abusos e exageros já existiram por causa de uma aplicação meramente legalista de Mateus 18? Quantas fogueiras e concílios se levantaram na história para tentar limpar o pecado alheio e manter a “sã doutrina”?
E depois do pecado confessado quantas pedras e estigmas ainda se tem que carregar?
Paulo (e Jesus) também nos ensina a tentar ganhar o caído e a exercitar o amor e o perdão (2 Coríntios 2:7,8).
Penso que a ênfase da igreja nunca poderá ser a disciplina, mas o amor e quando ela tiver que ser aplicada, que seja debaixo de muita oração, jejum e amor.
(1 Coríntios 10:12)

Que O Senhor nos ajude.

Abraços.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Raimundo,

Concordo totalmente que os presbíteros, pastores e até mesmo irmãos devem tratar pastoralmente dos casos que puderem. Todavia, o fato de que uma pessoa se arrependeu e pediu perdão não quer dizer que o processo termina aí, no caso dos pecados cometidos exigirem medidas maiores.

Zaqueu teve que devolver o que roubou, mesmo arrependido dos pecados. Davi perdeu o filho pela disciplina de Deus, mesmo arrependido. Acã foi apedrejado, mesmo arrependido.

Temos que lembrar que o propósito da disciplina não é somente restaurar o pecador, mas limpar o nome da Igreja e de Cristo, reparar a honra do Evangelho.

Quando pastores e presbíteros tratam de casos em que os pecados não são tão graves, onde há atenuantes, onde outros não fora envolvidos e especialmente onde o nome do Evangelho não ficou publicamente comprometido, se o faltoso se arrepender, o caso deve encerrar por ai mesmo.

Um grande abraço!

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Helmut,

Os calvinistas divergem em vários pontos, que consideram secundários. No geral, todavia, consideram que as três marcas da Igreja são essas mesmo, a pregação, os sacramentos e a disciplina. Nem sempre com a mesma ênfase, mas ao final, as três coisas andam juntas, quer como marcas, quer como as maiores necessidades da Igreja.

O Reformador Martin Bucer, que trabalhou com Calvino em Estrasburgo e exerceu muita influência sobre ele, considerava que as marcas da verdadeira igreja de Cristo são a pregação do Evangelho, a administração correta dos sacramentos (batismo e Ceia) e o exercício da disciplina eclesiástica. Esse conceito foi adotado posteriormente por várias das confissões reformadas, como a Confissão Escocesa de 1560 (Artigo 18) e a Confissão Belga de 1561 (Artigo 29).

Calvino todavia lista apenas duas marcas na Confissão de Genebra, de sua autoria (Artigo 18), que são a pregação e a ministração dos sacramentos. Mas, ele considerava a disciplina essencial para que uma verdadeira igreja pudesse existir, conforme escreveu ao Cardeal Sadoleto: “Existem três coisas sobre as quais a segurança da Igreja está fundamentada e apoiada: doutrina, disciplina e os sacramentos.”

Para Calvino, remover ou impedir o exercício da disciplina “contribui para a dissolução final da Igreja.”

Ele achava que a Igreja podia existir por um tempo sem disciplina, como a Igreja de Corinto, que era uma igreja cujos todos os membros – ou a maioria – precisavam de disciplina, mas que foi tratada por Paulo como uma legítima igreja cristã (1Cor 1:1-2). Mas, conforme Calvino, a falta de disciplina não assegura a continuidade da Igreja por muito tempo. Os erros não corrigidos e os faltosos não repreendidos em breve a destruirão.

Um grande abraço!

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Altair Germano,

Sem dúvida, a disciplina sempre deve ser aplicada com amor. Ela deve seguir o padrão de Deus, que disciplina aqueles a quem Ele ama.

Propostas Calvinistas,

Parabéns pelo blog, vou ver se tiro um tempinho para ler com mais calma.

Gilberto,

Já pensei nisso, mas eu mesmo não me considero competente nessa área e não quero escrever bobagem. Meu conhecimento aqui dá para o gasto, mas não para entrar numa discussão aberta, o que certamente acontecerá.

Abraços a todos.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Rosangela,

Uma pessoa que acha que o pecado cometido está demorando a ser tratado, deve iniciar os passos prescritos em Mateus 18 e levá-los até o fim.

A pergunta 151 do Catecismo Maior tem a ver com a diferença que existe entre pecados e pecados. Ela enumera as circunstâncias agravantes que tornam determinados pecados mais graves e odiosos que outros. O exercício da disciplina deveria levar em conta esses agravantes e ser proporcional à gravidade da falta.

Abraços.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Rev. Augustus Nicodemus, parabéns pela abordagem equilibrada sobre a disciplina no ambiente eclesiástico. Essa diferença entre pecados públicos e pecados contra um individuo é essencial para a aplicação correta da disciplina. Lendo o contexto de I Tm 5, parece que Paulo adverte para uma disciplina mais rígida aos líderes faltosos da igreja, sendo lamentável o arquivamento de processos contra pastores em vivência de pecado.

Gutierres Siqueira
www.teologiapentecostal.blogspot.com

Teologia Simples disse...

O que você chama de disciplina não seria um castigo?

O Crime(pecado)quando julgado pela igreja(na verdade os líderes)e punido com o castigo(que você chama de disciplina)não toma a liberdade que o cristão conquistou?

Enquanto o castigo for aplicado a liberdade não será possivel. E para crimes só temos que ter uma atitude: perdão. Esse é o único processo que pode resultar na recuperação possivel do crime.

André Amaral

Augustus Nicodemus Lopes disse...

André,

Não sou eu quem chamo de disciplina, a Bíblia chama de disciplina. E é a própria Bíblia quem iguala disciplina com castigo: "Em vão castiguei os vossos filhos; eles não aceitaram a minha disciplina" (Jeremias 2:30).

Veja ainda que o autor de Hebreus iguala a disciplina de Deus com correção (Heb 12:7,10) que traz tristeza a princípio (Heb 12:11). E em Apocalipse vemos que Deus disciplina e repreende a todos quantos ele ama (Apoc 3:19).

Se você, em sua teologia simples, aceita a Bíblia como a Palavra de Deus, não tem como fugir da realidade que ela ensina: disciplinar é o mesmo que corrigir, repreender, exortar, e mesmo expulsar. E isso, sem dúvida, tem a conotação de castigo.

Mas, tudo isso tem que ser fruto do amor pelo irmão em pecado, e todo processo deve buscar ganhar o irmão caído.

Onde na Bíblia você encontra que a única atitude que devemos ter para com os pecados é perdão? Vai ignorar todas as passagens que mandam exercer a disciplina, inclusive as palavras do Senhor Jesus em Mateus 18:15-17?

A única liberdade que a disciplina tolhe é a libertinagem, a liberdade para pecarmos e ficarmos impunes. Essa, quanto mais rápido for extirpada da Igreja, melhor!

Abraços.

André Amaral disse...

Augustus,

imagina que estamos todos reunidos no templo. Então, de repente chega dez irmãos e trazendo com eles uma mulher. Essa foi pega em adultério. Seu pecado deve ser castigado e/ou perdoado?

Observe que qualquer semelhança com a bíblia é mera coincidencia, pois, você, em um dos post´s acima, fez essa mesma comparação...

Mas agora pensando na bíblia, que eu sei que pra você é a palavra de Deus... A resposta de Jesus foi um simples "atire a primeira pedra quem não tem pecado..." Quem tem pecado é capaz de castigar um pecado? No popular, é o sujo falando do mal lavado.

Um simples "vai e não peques mais".
A primicia em que esses que tentavam pegar Jesus usaram era falsa. Pois a lei diz que quem não estiver em pecado poderia jogar a pedra. Irmão, sabemos que o único homem que não tem pecado é Jesus O Cristo, certo?

Concordo plenamente que a disciplina deve ser exercida, mas discordo do castigo. Disciplina não deve ser sinonimo de castigo. Castigo só Deus pode dá. E displina é liberdade. Quem ama aplica disciplina para livrar o outro do castigo. Para livrar do castigo é só pelo perdão.

Abraço.

André Amaral

Creuse P. S. Santos disse...

Poderíamos acrescentar à estes textos o texto claro e objetivo de I Timóteo 5.19 e 20, onde Paulo afirma que os Presbíteros (pastores, ministros, reverendos ou qualquer outro nome que queiram dar...) devem ser exortados publicamente para que haja temor. Presbiteros (pastores) que vivem no pecado devem ser exortados publicamente, nunca, restritamente.
No entanto, temos que lembrar e enfatizar que o propósito da disciplina Bíblia, não é o de humilhar, vingar, pagar pecado ou qualquer coisa do tipo, sempre a disciplina Bíblia tem o propósito de levar o pecador ao arrependimento, ao abandono do pecado e à restauração.
É importante notar, que apesar da repreensão pública, não existe aconselhamento e discipulado público, o discipulado e o aconselhamento Bíblico que levará o pecador a não mais pecar é individual.

Augustus Nicodemus Lopes disse...

André,,

Tá. Você quer que o episódio da mulher adúltera seja o padrão. MAs o que faço com MAteus 18:15-17? O que faço com 1Coríntios 5? O que faço com 1Timóteo 5:19-20. Todos esses textos, e um deles dito pelo próprio Jesus, nos ensinam que os pecados públicos devem ser dsiciplinados. O que faço? Fico com o registro de João, da mulher adúltera, e jogo dezenas de textos bíblicos que falam da disciplina fora?

Ou, considerando que a Bíblia não se contradiz, tento entender melhor o episódio da mulher adúltera à luz dessas outras passagens?

Para começar. Aqueles judeus não eram parte da Igreja de Cristo. Junto com os fariseus, eram inimigos de Cristo. Não criam nele. Não se pode esperar que eles haveriam de ter boas intenções -- e de fato não tinham, quando trouxeram aquela mulher.

Outra coisa. Não cabia ali a Jesus exercer disiplina alguma. Isso caberia ao Sinédrio dos judeus, que certamente não estava debaixo da autoridade de Jesus. Todavia, à sua Igreja, ele determinou um procedimento claro quanto ao exercício da disciplina.

A condenação que Jesus se recusou a fazer foi a condenação que os judeus queriam -- apedrejamento. Com sua vinda, Ele já estava mudando as épocas. A aliança estava entrando na nova fase. Na Igreja não há apedrejamento. É claro, portanto, que Jesus não a condenaria daquela forma.

Ainda mais. Quem disse que foi só perdão? Jesus disse, "vai, e não peques mais." Com essas palavras Jesus disse publicamente que a mulher havia pecado e a exortou diante de todos a que não repetisse o pecado. Mais que isso, Ele não poderia fazer. Foi uma disciplina verbal, uma correção pública da adúltera.

Sobre quem não tem pecado atirar pedras. Com isso Jesus estava atacando a justiça própria, a arrogância e a cegueira daqueles judeus, que não criam nele, que o detestavam, que o perseguiam, e que ao mesmo tempo se julgavam capazes de matar uma mulher pecadora. É esse tipo de aitude que Jesus proibe. É evidente que essas palavras dele não proibem que a Igreja julgue e discipline, pois Ele mesmo ensina e manda a Igreja "considerar como gentio e publicano" aqueles que não aceitam a repreensão e a correção.

Pode discordar que disciplina é sinônimo de castigo. Fico com a Bíblia que diz que a disciplina tem essa conotação.

E por fim, não é "primícia," mas "premissa."

Abraços.

Creuse P. S. Santos disse...

Ainda falando da mulher adúltera, aquela mulher era uma Judia, a Igreja não existia ainda como instituição, pois nem se quer esse nome havia, ela era Judia e deveria ser julgada segundo a Lei de Moisés, não segundo a doutrina establecida pelos apóstolos, que por sinal eram apenas um protótipo do que viriam a ser.
Segundo a Lei Judia, o homem com quem ela adulterou deveria ser apresentado também e segundo a lei também deveria ser apedrejado, além disso teriam que apresentar ao menos duas testemunhas, que aparentemente nunca existiram. Todo aquele julgamento estava invalidado, pois os quesitos necessários da lei para um julgamento não estavam presentes. Por isso, ele não era um julgamento válido, na verdade, foi um julgamento armado para pegar Jesus em contradição, e Jesus, como Deus Onisciente, sabia disso, e não caiu na dos Fariseus.
Esse mesmo Jesus, nos deu autoridade como igreja para ligar e desligar na terra e o que fizermos aqui será feito também no céu, sendo assim a Igreja não julga ninguém ela apenas identifica aqueles que já se julgaram a si mesmos quando transgrediram as doutrinas dos apóstolos, a Igreja apenas identifica os transgressores e exerce sobre eles a condenação que já foi dada pelo Justo Juíz em sua Palavra, por meio dos seus santos apóstolos. De fato, a Igreja é apenas uma ferramenta nas mãos de Deus para tratar com seu povo. Usando o texto de Hebreus, Deus ama e por isso disciplina, é Deus quem disciplina, a Igreja é sempre e somente, a vara usada por Deus.
Porém, Deus disciplina sempre por amor e sempre visando o arrependimento, o abandono do pecado e a restauração o que também deve ser o objetivo da Igreja. A disciplina Bíblica é gerada pelo amor de Deus e por isso deve ser em amor. Quem não disciplina não ama, a Igreja que não disciplina está negando o amor de Deus aos filhos de Deus, por tanto, é uma igreja sem amor...

Augustus Nicodemus Lopes disse...

Creuse,

Excelente comentário. É isso mesmo.

Abraços

Luciano disse...

Rev. Dr. Augustus Nicodemus
Ainda sobre a questao da disciplina como "castigo".
Infelismente muitos na Igreja de Cristo ainda continuam, ou constituiram a visao reducionista de que a disciplina não é um instrumento de amor; talvez respaldados pelo conceito conteporaneo da disciplina como "crime".
Deus o abencoe, fico muito feliz por sua vida.
Graça e Paz!!!!

Lukas disse...

Olá

Creio que a disciplina seja um ato de amor sim. porque?

porque só assim o ser humano tera a chance de não cometer mais o erro.

existe diferença entre castigar e disciplinar.

Mauricio disse...

Ta aí um cara que eu admiro.

Rev. Augustus, não sabia que você postava em um blog. Boa essa combinação de fé reformada e Web 2.0. Foi para meus favoritos.

A Paz para todos aqui.

Anônimo disse...

A minha opinião é de que sejam todos aqueles que infringiram a lei, entregues ao Diabo, p/ serem por ele tentados.

Ja pensou... o cabra diante do "cão" em uma de suas mais horripilantes vertentes de imagem, hein ? rsrsr... Esse nunca mais comete um errozinho se quer .. rsrsr..

Abraço a todos...