terça-feira, junho 30, 2009

Mais 500 anos de Calvino - Salmos, volume 4

Recentemente tive a oportunidade de passar por Genebra e verificar in loco como estão ocorrendo ali as comemorações dos 500 anos do nascimento do João Calvino (10 de julho). Logo na chegada fica óbvio que na cidade onde o reformador exerceu seu ministério a sua contribuição não foi esquecida. Folhetos, cartazes e folders estão expostos em vários lugares e quem vai ali com a curiosidade que eu fui, logo encontra os sinais da herança do reformador. Muito diferente de uma visita há mais de vinte anos quando nao era tão fácil encontrar todo este tipo de informação.

Peças de teatro tendo Calvino como foco estão em cartaz e uma exposição temporária no Musée international de la Réforme (Museu Internacional da Reforma) mostra "Um dia na vida de Calvino", tentanto trazer para perto do público o que teria sido um dia de atividades na vida do reformador. Muito interessante a mostra, feita em blocos de cenas com textos, orações e possíveis diálogos do reformador, começando com suas orações matinais (4:00h), aula, refeição, sua participação no julgamento de Miguel Serveto até a hora de deitar-se (21:00h). Não trata-se de 'louvação', mas de um retrato da 'vida diária' que traz bastante luz sobre a piedade, firmeza, controvérsia e relações de Calvino com seus amigos e a cidade de Genebra.


Tudo isto escrevo a título de introdução do real ponto desta postagem, que
é a publicação do quarto volume do Comentário de Salmos, o qual tive o privilégio de prefaciar. Os comentários de Calvino permanecem como uma rica fonte para a interpretação bíblica até os dias de hoje e creio que a publicação dos mesmos na língua portuguesa enriquece profundamente as nossas condições de aprender sobre a exegese bíblica e o método de interpretação desenvolvido pelo reformador. Abaixo, deixo o prefácio falar...

Ainda muitos livros serão escritos procurando entender todas as dimensões sobre as quais a Reforma Protestante deixou o seu legado e as mudanças que causou para a história da humanidade. Para que esta reforma acontecesse, vários pequenos e grandes movimentos foram postos em curso pelo Senhor da história. Um destes movimentos deu-se na área da interpretação das Escrituras, que foi libertada da interpretação alegórica e da força da tradição da igreja da Idade Média. Grandes intérpretes foram levantados por Deus e capacitados com várias sortes de dons e talentos para que um grande salto pudesse ser dado na história da interpretação. Neste contexto é que aparecem os comentários de João Calvino, um grande teólogo, pastor, lingüista, intérprete e comentarista do seu tempo.

Uma das fortes características do movimento reformado foi a busca do sentido literal, gramático e histórico do texto da Bíblia, e, neste sentido, João Calvino foi reconhecido como o “Rei dos Comentaristas”.[1] Há muitos aspectos introduzidos nos comentários de Calvino que são praticamente desconhecidos para a sua época. Isto não significa, é claro, que Calvino interpretou de forma absolutamente independente. Como acadêmico, ele buscou as fontes disponíveis em seu tempo e trabalhou seus comentários de forma contextualizada, comparando sua interpretação com os escritos dos rabinos, os Pais da Igreja e comentários de seus contemporâneos. É bem verdade que o período da Reforma foi um de florescimento do interesse sobre as línguas originais e o texto da Escritura, o que gerou uma grande quantidade de comentários. Calvino tirou toda a vantagem deste ambiente para desenvolver o conhecimento do grego e do hebraico e aplicá-los na interpretação. Com estas ferramentas Calvino destaca-se no século XVI por sua originalidade, profundidade e valor permanente dos seus escritos. Não são muitos os textos e comentários que sobrevivem ao tempo de seu autor e aqui estamos nós, quatro séculos e meio depois, dispensando grande energia e recursos, para que esta obra se faça disponível para os leitores de língua portuguesa.

A obra magna de Calvino, As Institutas da Religião Cristã, já demonstrou ao longo dos séculos a sua importância e relevância como teólogo. Aos poucos, os comentários de Calvino publicados nesta série vão descortinando o pastor e intérprete. Cabe dar conhecimento ao leitor sobre a forma como nasceram estes comentários. Tendo sido pastor durante duas décadas e meia em Genebra, Calvino adotou como forma de pregação o método de exposição consecutiva das Escrituras. Ele começava suas séries de pregação no primeiro verso do primeiro capítulo de um livro e caminhava até o último verso do último capítulo. Normalmente, quando terminava um livro, começava o próximo. Tendo feito a devida preparação em oração, subia ao púlpito portando apenas o texto hebraico ou grego e pregava extemporaneamente. Assim, produziu milhares de sermões, dos quais cerca de pouco mais de 2000 foram preservados e muitos ainda carecem de publicação. Estes foram compilados ipsissima verba, durante 11 anos, por um homem chamado Denis Raguenier, pago para tal pelo serviço de diaconia da igreja de Genebra.[2] Os comentários, escritos posteriormente, eram baseados em suas exposições para a congregação, fossem sermões, aulas ou palestras. Logo, a pregação e o ensino de Calvino à congregação serviam como o elemento fomentador de seus comentários, onde sua alma de pastor transparece com grande clareza. Não é incomum encontrar as belas orações de Calvino ao fim de algumas de suas exposições, deixando a todos face a face com Deus.[3] Na verdade, um motivador específico para a publicação dos comentários de Calvino era o seu temor de que suas pregações e palestras viessem a ser publicadas contra a sua vontade. Para que não viesse a acontecer, debruçou-se para completar os comentários que viriam a ser publicados conforme a sua vontade (vol 1, p.32).

Os comentários de Calvino cobrem pelo menos setenta e cinco por cento dos livros do Antigo Testamento e sabe-se que alguns deles foram escritos concomitantemente à pregação, entre eles o comentário em Salmos. Já na dedicatória, “Aos leitores piedosos e sinceros”, Calvino afirma que sua decisão final de escrever este comentário específico se deu em função dos “apelos dos meus irmãos”, o que até então ele julgava desnecessário em função do comentário de Salmos de seu contemporâneo, Martin Bucer.

Ao contrário da imagem rígida transmitida pelas gravuras que retratam a face de Calvino, somada à densidade das Institutas e as asseverações contundentes contra as heresias de todas as espécies e, especialmente o Catolicismo Romano[4], encontramos no comentário de Salmos de Calvino a face e voz de um homem que compreende profundamente os sentimentos da alma. Ele mesmo afirma na introdução aos Salmos que denomina este livro de “Uma anatomia de todas as partes da alma”, e, por certo, ele escrutina a sua própria alma em seus comentários. Aliás, é na dedicatória ao comentário dos Salmos que encontramos alguns raros e preciosos dados autobiográficos de Calvino. O tom de denúncia contra o erro nunca e esvaziado, mas a voz do pastor é presente.

Outra área que distingue Calvino em seus comentários é como hebraísta. É óbvio que não se pode esperar que usasse, anacronicamente, os conhecimentos e recursos que são posteriores à sua época. Mas, com certeza, não se pode deixar de observar que ele avança significativamente na aplicação do conhecimento da língua hebraica na interpretação. Uma de suas claras convicções é de que o conhecimento da língua original é fundamental para a compreensão do texto e para a boa exegese. Justamente no quesito exegese é que a habilidade de Calvino supera o que foi produzido em seu tempo. Ele mantinha a convicção de que compreensão gramatical precede a compreensão teológica. No comentário dos Salmos o uso do hebraico transita entre o trabalho lexical e a gramática. Comparando as traduções bíblicas e outros comentários, incluindo comentários rabínicos, faz acertadas propostas de tradução para o texto, discutindo com grande habilidade a relevância, por exemplo, a questão da tradução dos verbos, o significado específico de determinadas partículas e seu uso. Num tempo em que o estudo gramatical tendia pesadamente para o prescritivo, Calvino discute o uso contextual de palavras e expressões.

Como filho de seu tempo, lutando contra séculos de interpretação alegórica e tendenciosa, Calvino deu passos visíveis em direção contrária. Ele afirma que “O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é natural e óbvio”.[5] A habilidade em ir “da mera letra, além” e observar a intenção das palavras e seu autor é fundamental para qualquer intérprete e, principalmente, para aqueles que vão interpretar as Escrituras. Calvino, mais uma vez, destaca-se! Neste sentido, a leitura dos comentários de Calvino torna-se uma ferramenta importantíssima para aqueles que desejam compreender o texto com profundidade e desenvolver habilidade semelhante como intérpretes.

Deixo um alerta ao leitor que primeiramente aproxima-se dos comentários de Calvino: espere certos ‘saltos’ interpretativos, o que alguns podem considerar como interpretação alegórica. O fato é que Calvino, ao ler o Antigo Testamento com uma visão cristocêntrica, muitas vezes chega diretamente a aplicações neo-testamentárias no texto. Veja-se, por exemplo, a leitura de Calvino nos Salmos. Ele parte sempre do pressuposto cristão de que Israel corresponde à Igreja, o que, na teologia reformada, é perfeitamente aceitável e desejável. Entretanto, é importante notar a necessidade de uma leitura escalonada, na qual, primeiramente, deve-se ver o sentido pretendido pelo autor humano do texto e aplicado ao seu próprio tempo. Em vários de seus comentários, Calvino simplesmente segue para o próximo passo. Um exemplo claro encontra-se no Salmo 133, onde Israel é apontado como a Igreja e a unção com o óleo sobre a cabeça de Arão, que desce sobre a barba e gola da vestes do sacerdote, como Cristo, o cabeça, e a sua Igreja: “assim somos levados a entender que a paz que emana de Cristo como a cabeça é difusa por toda a extensão e amplitude da Igreja” (comentário no Salmo 133). Ainda que esta seja a conclusão final esperada, trata-se mais diretamente de uma aplicação do texto, o que, entendemos, é desejável em um sermão, mas, deve ser mais minuciosamente explicado em um comentário. Mas esperar que estes comentários se adaptem ao nosso formato contemporâneo de comentário, novamente, seria um desejo anacrônico. Por outro lado, observa-se em seus comentários uma percepção aguçada entre os aspectos de continuidade e descontinuidade entre o Antigo e Novo Testamentos, dando a base sobre a qual a teologia calvinista viria a desenvolver-se.

Estes comentários devem fazer parte da biblioteca daqueles que desejam desenvolver uma compreensão profunda e coerente do livro dos Salmos, tanto pela sua perspectiva histórica quanto pela capacidade que Calvino demonstra em tocar a alma dos “leitores piedosos e sinceros” na exposição da Palavra de Deus.

[1] Schaff, Phillip. “Calvin as a Commentator” em The Presbyterian and Reformed Review (3:11, 1892), p. 462: “Se Lutero foi o rei dos tradutores, Calvino foi o rei do comentaristas”

[2] Olson, Jeannine. Calvin and Social Welfare: Deacons and the bourse française. Selinsgrove, PA, EUA: Susquehanna University Press, 1989, p. 47.

[3] Além das orações mantidas em seus sermões, como parte da própria exposição, muitas orações estão também em seus comentários.

[4] Em Salmos, vol. 1, p. 39, Calvino revela a sua motivação em publicar as Institutas da Religião Cristã: “Meu objetivo era, antes de tudo, provar que tais notícias eram falsas e caluniosas, e assim defender meus irmãos, cuja morte era preciosa aos olhos do Senhor; e meu próximo objetivo visava a que, como as mesmas crueldades poderiam muito em breve ser praticadas contra muitas pessoas infelizes e indefesas, as nações estrangeiras fossem sensibilizadas, pelo menos, com um mínimo de compaixão e solicitude para com elas.”

[5] Citado em Lawson, Steven. A arte expositiva de João Calvino. S. J. Campos: Editora Fiel, 2008, p. 72. Do Comentário aos Gálatas, capítulo 4, verso 22.

domingo, junho 21, 2009

Xô, Satã!

Já passamos de meio milhão de acessos ao nosso blog. Todo tipo de gente passa por aqui, inclusive Satã, que desta feita resolveu postar um comentário no último post. Acho que ele ficou tão impressionado com a marca que não conseguiu ficar sem registrar a sua presença. Dei uma colher de chá (apesar da recomendação bíblica de “não dar lugar ao diabo”) e publiquei o comentário do coisa-ruim (veja aqui).

Isto me lembrou que minha tarefa não é ser o editor do maligno, mas de expor quem ele é e alertar meus irmãos e irmãs contra as suas ciladas. Aproveitei uma tarde livre aqui em Colatina, ES, num acampamento da bela 3a. Igreja Presbiteriana, e fiz algumas reflexões sobre o assunto, seguindo aquela idéia genial de C. S. Lewis de que o tinhoso gosta de dois tipos de gente: aqueles que não acreditam que ele existe e aqueles que lhe dão demasiada atenção.

Não é que entre os evangélicos tenha muita gente que não acredita que Satã exista – ele existe, sim, até colocou um comentário no Tempora-Mores! Mas a verdade é que dentro do campo dos conservadores existem aqueles que lhe negam a existência na prática, embora, por causa do compromisso com a inerrância da Bíblia, tenham que admitir a sua realidade.

Esta negação prática se dá de várias maneiras. Nos púlpitos, em reação aos exageros neopentecostais, os pregadores conservadores quase não alertam os crentes acerca da ação satânica e excluem a atividade maligna como parte da causa dos males que existem no mundo. Na ação pastoral são poucos os pastores conservadores que estão dispostos a considerar a expulsão de demônios como a resposta para determinadas situações, embora biblicamente tenham de admitir que a possessão e a opressão malignas são uma possibilidade sempre presente. A tendência é sempre identificar a origem dos problemas e crises que acontecem com as pessoas como decorrentes unicamente das corrupções do coração humano. Todavia, se por um lado não devemos dar demasiada atenção ao mundo das trevas, por outro, não podemos viver ignorando-o, na prática.

Do outro lado do espectro, estão aqueles que acabam caindo no erro oposto, conforme a máxima de Lewis, e dão ao diabo mais prestígio do que realmente merece. Pastores, bispos, apóstolos, missionários evangélicos ficam perguntando o tempo todo “qual é sua graça?” aos demônios que supostamente infernizam a vida das pessoas que aparecem em seus cultos – uma prática erroneamente baseada num incidente da vida de Jesus, quando indagou o nome da legião de demônios que possuía o gadareno, antes de expulsá-los inexoravelmente (Mc 5.9). Pior, acabam dando o microfone a estas supostas entidades, como se o depoimento delas fosse algo que pertencesse ao culto a Deus ou que interessasse ao crente. Acho que estão dando crédito demais ao cão. Apesar de Jesus ter dito que ele é mentiroso e o pai da mentira, os neopentecostais continuam interessados no que Lúcifer tem a dizer e acreditam no que ele supostamente diz. Escrevem livros inteiros com base em informações obtidas dos demônios que tiveram a língua amarrada para dizer a verdade durante sessão de exorcismo!

É verdade que Paulo se refere aos demônios como “principados e potestades” (Ef 6.12) e que Jesus disse que o diabo é o “príncipe deste mundo” (Jo 14.30). Todavia, estão hoje enchendo a bola do coisa-ruim indevidamente, atribuindo-lhe mais poder do que ele realmente tem. Falam o tempo todo da sua autoridade. Falam dele como se ele fosse onisciente e conhecesse nossos pensamentos e lesse o nosso coração, como Deus faz. Reagem a ele como se ele fosse todo-poderoso e responsável por tudo de ruim que acontece no mundo, inclusive pelos pecados que as pessoas cometem, a ponto de criarem a idéia de que existem demônios do câncer, da erisipela, da AIDS, do desemprego, da luxúria, etc. Nunca consegui ver isto na Escritura. Para mim, prostituição, lascívia, idolatria, feitiçaria e outros são “obras da carne” nas palavras de Paulo (Gl 5.19-21), muito embora os demônios estejam por detrás dos ídolos, usando-os para corromper a mente das pessoas (1Co 10.20). Satã é um anjo caído, uma criatura deformada moral e espiritualmente. Isto não o torna mais poderoso do que os demais anjos de Deus e muito menos lhe confere algum poder extra. A autoridade que ele tem é limitada pela vontade de Deus, como ficou claro no episódio de Jó.

Também não acho que o tinhoso é tão inteligente assim. As Escrituras nos revelam que há uma certa astúcia em Satanás (2Co 10.3); todavia, esta astúcia é a astúcia de uma mente corrompida e depravada. Satanás é megalomaníaco e arrogante (1Tm 3.6) e obcecado por receber adoração dos seres humanos (Mt 4.9). A mente de um ser torcido como este não pode funcionar direito. O próprio Jesus disse ao diabo que cogitações dele eram apenas das coisas do homem, e não de Deus (Mt 16.23). Falta-lhe verdadeira inteligência e entendimento, além de sabedoria. Por exemplo, ele nunca conseguiu decidir direito o que fazer com Jesus. Num momento, ele tentou afastá-lo da cruz, tentando-o no deserto com riquezas e poder (Mt 4.1-11) e mais tarde através de sugestões feitas à mente de Pedro (Mt 16.21-23). Depois, contrariando este plano de ação, entra em Judas, que trai Jesus, levando-o à cruz (Lc 22.3-5; Jo 13.27). O tiro saiu pela culatra e com isto o demônio decretou sua própria derrota. Mas, ele não aprendeu a lição. O ódio que o domina e consome é tal que afeta seu entendimento e discernimento. Ele não percebeu que quanto mais instiga o mundo contra a Igreja, levando milhares ao martírio, mais a Igreja cresce e se multiplica, pois “o sangue dos mártires é a sementeira da Igreja”. Sua mente torcida pelo ódio não consegue ver claramente, só pensa em roubar, matar e destruir (Jo 10.10). É como um leão velho, faminto, matreiro, capaz de fazer truques, iludir e enganar, mas incapaz de realmente planejar com discernimento e entendimento sua guerra contra Deus e seu povo. É verdade que ele é astuto o bastante para derrotar e destruir muitos. Mas não o suficiente para ganhar esta guerra, vencer a Deus e impedir a sua Igreja.

Ele nem é muito criativo. Não consegue improvisar e criar coisas novas. No máximo, faz imitações toscas da ação de Deus. Não é sem razão que Lutero o chamou de “o macaco de Deus”. Deus mandou seu Filho ao mundo assumindo uma natureza humana? O tinhoso reagiu imitando a encarnação, mas o máximo que conseguiu foi a possessão. Isto explica porque apareceu tanta gente endemoninhada quando Jesus esteve entre nós, conforme o relato dos Evangelhos (Mt 4.24; etc.). Deus concedeu dons miraculosos à sua Igreja para realizar sinais e prodígios com o propósito de autenticar a mensagem apostólica (Hb 2.4)? Satanás parte para a imitação desta estratégia e seus ministros realizam sinais e prodígios da mentira (2Ts 2.9; Mt 24.24), através de demônios operadores de sinais (Ap 16.13-14). Acho que Satanás é bastante previsível e que os evangélicos erram em lhe atribuir mais inteligência do que ele realmente tem.

Acho que os evangélicos esquecem que ele é um espírito atormentado, amaldiçoado por Deus (Gn 3.14), que não conhece um minuto de paz em sua alma em trevas. Se os seres humanos sem Deus, que foram criados à sua imagem, sentem angústia e vazio por que lhes falta comunhão com Deus, muito maior é a dor, o sofrimento, a angústia e o vazio na alma deste anjo, criado para ser de Deus. É nesse sentido que as Escrituras nos dizem que ele está amarrado em algemas eternas para o juízo daquele dia (Jd 6). Ele e seus capangas vivem em constante terror diante da expectativa da chegada do dia do juízo, quando serão lançados no lago de fogo e enxofre para sempre (Mt 25.41). Foi por isto que aqueles pobres diabos, vencidos diante da majestade onipotente do Filho de Deus, rastejaram aos seus pés implorando “não nos mande sair para o abismo” (Lc 8.31).

Não estou dizendo isto para despertar pena e compaixão pelo cão. Ele é assassino e mentiroso. Não há redenção para ele, pois Deus, na sua soberania, decidiu socorrer aos homens e não aos anjos. Cristo não veio para redimir os anjos caídos, mas a descendência de Abraão (Hb 2.16). Estou dizendo estas coisas em reação à idéia popular de que o demo é um ser livre, que mora no inferno e ali reina supremo, atormentando as almas dos homens e tendo imenso prazer em fazer isto. A realidade é outra. Ele ainda não foi ao inferno, embora já viva em tormentos, e quando for, não será para reinar e atormentar os homens, mas para ser atormentado eternamente com eles (Ap 20.10).

Portanto, xô, Satanás!

segunda-feira, junho 15, 2009

Carta a Bonfim: Deus e as tragédias

Meu caro Bonfim,(*)

Foi realmente uma surpresa agradável encontrá-lo este fim de semana em Campos do Jordão, durante o feriado. Embora nossa conversa tenha sido breve, foi suficiente para relembrarmos os bons tempos que passamos quando éramos jovens na Igreja do Recife. Foi uma pena que não deu para aprofundarmos nossa discussão sobre Deus e as tragédias que ocorrem no mundo. Mas, como prometi, estou enviando este email para dar seqüência ao que pude apenas começar a dizer.

Fiquei preocupado com o jeito que você está querendo entender a tragédia que foi a queda do vôo 447 da Air France na semana passada. Você me deu a entender que está revoltado com o fato de que centenas de pessoas boas, desprevenidas, cidadãos de bem, foram apanhados numa tragédia e morreram de forma terrível, deixando para trás famílias, filhos, entes queridos. Você perguntou aflito, “Onde estava Deus quando tudo isto aconteceu?”

Eu entendo a sua preocupação com o dilema moral que tragédias representam quando vistas a partir do conceito cristão histórico e tradicional de Deus. Se Deus é pessoal, soberano, todo-poderoso, onisciente, amoroso e bom, como então podemos explicar a ocorrência das tragédias, calamidades, doenças, sofrimentos, que atingem bons e maus ao mesmo tempo?

Creio que qualquer tentativa que um cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus faça para entender as tragédias, desastres, catástrofes e outros males que sobrevêm à humanidade, não pode deixar de levar em consideração dois componentes da revelação bíblica, que são a realidade da queda moral e espiritual do homem e o caráter santo e justo de Deus.

Lemos em Gênesis 1—3 que Deus criou o homem, macho e fêmea, à sua imagem e semelhança, e que os colocou no jardim do Éden, com o mandamento para que não comessem do fruto proibido. O texto relata como eles desobedeceram a Deus, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, e decaíram assim do estado de inocência, retidão e pureza em que haviam sido criados. As conseqüências, além da queda daquela retidão com que haviam sido criados, foram a separação de Deus, a perda da comunhão com ele, e a corrupção por inteiro de suas faculdades, como vontade, entendimento, emoções, consciência, arbítrio. Pior de tudo, ficaram sujeitos à morte, tanto espiritual, que consiste na separação de Deus, como a física e a eterna, esta última sendo a separação de Deus por toda a eternidade.

Este fato, que chamamos de “queda,” afetou não somente a Adão e Eva, mas trouxe estas conseqüências terríveis a toda a sua descendência, isto é, à humanidade que deles procede, pois eles eram o tronco e a cabeça da raça humana. Em outras palavras, a culpa deles foi imputada por Deus aos seus filhos, e a corrupção de sua natureza foi transmitida por geração ordinária a todos os seus descendentes. Desde cedo na história da Igreja cristã esta doutrina, que tem sido chamada de “pecado original”, foi questionada por gente como Pelágio, que afirmava que o pecado de Adão e Eva afetou somente a eles mesmos, e que seus filhos nasciam isentos, neutros, sem pecado, e sem culpa e sem corrupção inata. Tal idéia foi habilmente rechaçada por homens como Agostinho, Lutero, Calvino e muitos outros, que demonstraram claramente que o ensino bíblico é o que chamamos de depravação total e transmitida, culpa imputada e corrupção herdada. As conseqüências práticas para nós hoje são terríveis. Por causa desta corrupção inata, com a qual já nascemos, somos totalmente indispostos para com as coisas de Deus; somos, por natureza, inimigos de Deus e, portanto, filhos da ira. É desta natureza corrompida que procedem os nossos pecados, as nossas transgressões, as desobediências, as revoltas contra Deus e sua Palavra.

Agora chegamos no ponto crucial e mais relevante para nosso assunto. Entendo que a Bíblia deixa claro que os nossos pecados, tanto o original quanto os pecados atuais que cometemos, por serem transgressões da lei de Deus, nos tornam culpados e portanto sujeitos à ira justa de Deus, à sua justiça retributiva, pela qual ele trata o pecador de acordo com o que ele merece. Ou seja, a humanidade inteira, sem exceção – visto que não há um único justo, um único que seja inocente e sem pecado – está sujeita ao justo castigo de Deus, o que inclui – atenção! – a morte, as misérias espirituais, temporais (onde se enquadram as tragédias, as calamidades, os desastres, as doenças, o sofrimento) e as misérias espirituais (que a Bíblia chama de morte eterna, inferno, lago de fogo, etc.).

A Bíblia revela com muita clareza, e sem a menor preocupação de deixar Deus sujeito à crítica de ser cruel, déspota e injusto, que ele mesmo é quem determinou tragédias e calamidades sobre a raça humana, como parte das misérias temporais causadas pelo pecado original e as transgressões atuais. Isto, é claro, se você acredita realmente que a Bíblia é a Palavra de Deus, e não uma coleção de idéias, lendas, sagas, mitos e estórias politicamente motivadas e destinadas a justificar seus autores. De acordo com a Bíblia, foi Deus quem condenou a raça humana à morte no jardim (Gn 2.17; 3.19; Hb 9.27). Foi ele quem determinou a catástrofe do dilúvio, que aniquilou a raça humana com exceção da família de Noé (Gn 6.17; Mt 24.39; 2Pe 2.5). Foi ele quem destruiu Sodoma, Gomorra e mais várias cidades da região, com fogo caído do céu (Gn 19.24-25). Foi ele quem levantou e enviou os caldeus contra a nação de Israel e demais nações ao redor do Mediterrâneo, os quais mataram mulheres, velhos, crianças e fizeram prisioneiros de guerra (Dt 28.49-52; Hab 1.6-11). Foi ele quem levantou e enviou contra Israel povos vizinhos para saquear, matar e fazer prisioneiros (2Re 24.2; 2Cr 36.17; Jr 1.15-16). Foi ele quem ameaçou Israel com doenças, pestes, fomes, carestia, seca, pragas caso se desviassem dos seus caminhos (Dt 28). Foi ele quem enviou as dez pragas contra o Egito, ferindo, matando e trazendo sofrimento a milhares de egípcios, inclusive matando os seus primogênitos (Ex 9.13-14). Foi o próprio Jesus quem revelou a João o envio de catástrofes futuras sobre a raça humana, como castigos de Deus, próximo da vinda do Senhor, conforme o livro de Apocalipse, tais como guerras, fomes, pestes, pragas, doenças (Apocalipse 6—9), entre outros. Foi o próprio Jesus quem profetizou a chegada de guerras, fomes, terremotos, epidemias (Lc 21.9-11) e a destruição de Jerusalém, que ele chamou de “dias de vingança” de Deus contra o povo que matou o seu Filho, nos quais até mesmo as grávidas haveriam de sofrer (Lc 21.20-26). E por fim, Deus já decretou a catástrofe final, a destruição do mundo presente por meio do fogo, no dia do juízo final (2Pe 3.7; 10-12).

Isto não significa, na Bíblia, que o sofrimento das pessoas é sempre causado por uma culpa individual e específica. Há casos, sim, em que as pessoas foram castigadas com sofrimentos temporais em virtude de pecados específicos que cometeram, como por exemplo o rei Uzias que foi ferido de lepra por causa de seu pecado (2Cr 26.19; cf. também o caso de Miriã, Nm 12.10). O rei Davi perdeu um filho por causa de seu adultério (2Sm 12.14). Mas, em muitos outros casos, as tragédias, catástrofes, doenças e sofrimentos não se devem a um pecado específico, mas fazem parte das misérias temporais que sobrevêm à toda a raça humana por conta do estado de pecado e culpa em geral em que todos nós nos encontramos. Deus traz estas misérias e castigos para despertar a raça humana, para provocar o arrependimento, para refrear o pecado do homem, para incutir-lhe temor de Deus, para desapegar o homem das coisas desta vida e levá-lo a refletir sobre as coisas vindouras. Veja, por exemplo, a reflexão atribuída a Moisés no Salmo 90, provavelmente escrito durante os 40 anos de peregrinação no deserto. Veja frases como estas:

Tu reduzes o homem ao pó e dizes: Tornai, filhos dos homens... Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca. Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento...

Não devemos pensar que aquelas pessoas que ficam doentes, passam por tragédias, morrem em catástrofes – como os passageiros do AF 447 – eram mais pecadoras do que as demais ou que cometeram determinados pecados que lhes acarretou tal castigo. Foi o próprio Jesus quem ensinou isto quando lhe falaram do massacre dos galileus cometido por Pilatos e a tragédia da queda da torre de Siloé que matou dezoito (Lc 13.1-5). Ele ensinou a mesma coisa no caso do cego relatado em João 9.3-4. Os seus discípulos levantaram o problema do sofrimento do cego a partir de um conceito individualista de culpa, ponto que foi rejeitado por Jesus. A cegueira dele não se deveu a um pecado específico, quer dele, quer de seus pais. As pessoas nascem cegas, deformadas, morrem em tragédias e acidentes, perdem tudo que têm em catástrofes, não necessariamente porque são mais pecadoras do que as demais, mas porque somos todos pecadores, culpados, e sujeitos às misérias, castigos e males aqui neste mundo.

No caso do cego, Jesus disse que ele nascera assim “para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3). Sofrimento, calamidades, etc., não são somente um prelúdio do julgamento eterno de Deus; há também um tipo de sofrimento no qual Deus é glorificado por meio de Cristo em sua graça, e assim se torna, portanto, um exemplo e um prelúdio da salvação eterna. As tragédias servem para levar as pessoas a refletir sobre a temporalidade e fragilidade da vida, e para levá-las a refletir nas coisas espirituais e eternas. Muitos têm encontrado a Deus no caminho do sofrimento.

O que eu quero dizer, Bonfim, é que, diante de acidentes como a queda do AF 447, devemos nos lembrar que eles ocorrem como parte das misérias e castigos temporais resultantes das nossas culpas, de nossos pecados, como raça pecadora que somos. Poderia ser eu que estava naquele avião. Ou, alguém muito melhor e mais reto diante de Deus. Ainda assim, Deus não teria cometido qualquer injustiça, ainda que aquele avião estivesse cheio dos melhores homens e mulheres que já pisaram a face da terra. Pois mesmo estes são pecadores. Não existem inocentes diante de Deus, Bonfim. Pense nisto, antes de ficar indignado contra Deus diante do sofrimento humano.

Por último, preciso deixar claro duas coisas para você. Primeira, que nada do que eu disse acima me impede de chorar com os que choram, e sofrer com os que sofrem. Somos membros da mesma raça, e quando um sofre, sofremos com ele. Segunda, é preciso reconhecer que a revelação bíblica é suficiente, mas não exaustiva. Não temos todas as respostas para todas as perguntas que se levantam quando um acidente destes acontece. Não sabemos, por exemplo, porque foi o vôo AF 447 e não outro que caiu no oceano matando todos os seus ocupantes. Não conhecemos a vida de seus passageiros e nem os propósitos maiores e finais de Deus com aquela tragédia. Só a eternidade o revelará. Temos que conviver com a falta destas respostas neste lado da eternidade. Mas, é preferível isto a aceitar respostas que venham a negar o ensino claro da Bíblia sobre Deus, como por exemplo, especular que ele não é soberano e nem onisciente e onipotente. Posso não saber os motivos específicos, mas consola-me saber que Deus é justo, bom e verdadeiro, e que todas as suas obras são perfeitas e retas, e que nele não há engano.

No mais, termino com meu apelo para que você esteja sempre pronto a ser chamado à presença de Deus a qualquer instante. Somente em Cristo encontramos perdão para nossos pecados e reconciliação com Deus.

Um grande abraço,
Augustus

(*) Bonfim é um amigo fictício, embora os fatos não o sejam.

quarta-feira, junho 10, 2009

Semana Calvino

Encontram-se disponíveis os vídeos das palestras da "Semana Calvino", realizada na Universidade Presbiteriana Mackenzie em celebração aos 500 anos do nascimento do Reformador de Genebra.

Dentre os palestrantes, tivemos o Dr. John Hesselink, autoridade reconhecida no campo de estudos de João Calvino e calvinismo. Temas como "Calvino e Educação", "Em Busca do Calvino histórico", "Calvino e Lutero, Convergências e Divergências", "Calvino e a Oração", entre outros, foram tratados nas palestras do evento. Clique nos links abaixo para assistir ou baixar as palestras no formato que desejar.


"Em Busca do Calvino histórico"
Prof. Dr. Alderi Souza de Matos

FLV

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"Calvino e Lutero, Convergências e Divergências"
Prof. Dr. Ricardo Willy Rieth

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"Calvino e Expiação"
Dr. John Hesselink

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"Calvino e a Oração"
Prof. Dr. Hermisten M. P. Costa

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"Calvino e o Espírito Santo"
Prof. Dr. John Hesselink

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"Calvino: Sobre este Mundo e o Próximo"
Prof. Dr. John Hesselink

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