terça-feira, agosto 20, 2013

Augustus Nicodemus Lopes

Relativismo, Certeza e Agnosticismo em Teologia


Tenho sempre me deparado com pastores e teólogos que acreditam que teologia boa é só aquela que está sendo feita agora. Algum tempo atrás encontrei mais um desses. Chamou-me de fundamentalista porque eu acredito que existe teologia certa e teologia errada, e porque incluo na primeira categoria os antigos credos cristãos e as confissões reformadas. Ensinou-me com aquela pachorra típica de quem é iluminado e se depara com um pobre fundamentalista obscurantista e tapado, que “a teologia é apenas um construto humano, limitado, provisório, subjetivo, que tem que ser feito por cada geração, pois não atende mais as necessidades da próxima”.

Era óbvio que eu estava diante, mais uma vez, daquela cena hilária em que o relativista declara com toda autoridade e convicção que “não existe verdade absoluta, tudo é relativo”.

Vamos supor, ainda que por um momento, que esses teólogos – nem sei em que categoria enquadrá-los, pois nem liberais eles são (os liberais de verdade acreditavam em certo e errado) – estejam certos. Que cada geração entende Deus, a Bíblia e as grandes verdades do Cristianismo de uma maneira totalmente diferente de outra geração e de pessoas de outra cultura, a ponto de não podermos adotar as suas reflexões teológicas como verdadeiras e válidas para a nossa geração. Se levada às últimas conseqüências, essa perspectiva sobre a teologia criaria uma série de problemas, inclusive para os que a defendem.


1) Vamos começar pelo fato que cada nova geração teria de definir, de novo, o que é o Cristianismo. Explico. O Cristianismo, enquanto religião, foi definido e os seus limites estabelecidos durante os primeiros séculos depois de Cristo, quando os primeiros cristãos foram confrontados com explicações diferentes, contraditórias e alternativas da mensagem de Jesus e dos apóstolos, como o montanismo, as idéias de Marcião, os gnósticos, os docetistas e os ebionitas, para mencionar alguns.
Os grandes credos ecumênicos da Cristandade estabelecidos nas gerações posteriores nos deram de forma sintetizada a doutrina de Cristo, da Trindade, entre outras, as quais o Cristianismo histórico adota até hoje. A seguir o que esse pastor estava me dizendo, teríamos de jogar tudo isso fora e recomeçar, refazer, redefinir o Cristianismo a partir da nossa própria situação.
2) A segunda dificuldade é que essa perspectiva acaba pegando mal para seus próprios defensores. Pergunto: o que eles têm descoberto e oferecido mais recentemente que seja novo acerca do ser e das obras de Deus, da pessoa de Cristo e de sua morte e ressurreição? Quando não caem nas antigas heresias, repetem simplesmente o que já foi dito por outros em tempos passados. A “nova perspectiva sobre Paulo” não deixa de ser uma antiga perspectiva sobre o judaísmo. A nova “busca do Jesus histórico” não tem conseguido oferecer nenhuma reconstrução do Jesus da história que esteja em harmonia com o quadro dele que temos nos evangelhos. A teologia relacional não consegue ir adiante do Deus sociniano, que também desconhecia o futuro.
3) A terceira dificuldade é que essa perspectiva realmente acaba com a distinção entre teologia certa e teologia errada e anistia todas as heresias já surgidas na história da Igreja. Vamos tomar, por exemplo, a área de soteriologia, que trata da questão da salvação do homem. A doutrina de que o homem é justificado pela fé somente, sem as obras ou méritos humanos, foi estabelecida cedo na Igreja cristã e reafirmada na Reforma protestante. Depois de tantos séculos, nossos teólogos progressistas (ainda não gosto desse rótulo, vou acabar achando outro) têm algo de novo para nos dizer sobre esse ponto? Os que tentaram, caíram nas antigas heresias soteriológicas já discutidas e refutadas ad nauseam pelos Pais da Igreja e pelos Reformadores.
Não me entendam mal. Eu também acredito que a teologia é um construto humano, e como tal, imperfeito, incompleto e certamente relativo. Estou longe de adotar para com a teologia reformada uma postura similar àquela que considera a tradição aristotélica-tomista como a filosofia e/ou teologia “perene”. Eu também considero que a teologia é fruto da reflexão humana e, portanto, sempre sujeita às vulnerabilidades de nossa natureza humana decaída. Mas não ao ponto de não poder refletir com uma medida de veracidade e fidelidade a revelação de Deus nas Escrituras. O problema com essa postura relativista é que ela desistiu completamente da verdade. É agnóstica. Eu creio que a teologia, se feita “levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5), se for fiel à revelação bíblica, produzirá sínteses confiáveis que podem servir de referencial para as igrejas de todas as gerações, conforme, aliás, as confissões reformadas elaboradas nos sec. XVI e XVII vêm fazendo há alguns séculos.
Mas, os teólogos relativistas acreditam em que? Em tudo e, portanto, em nada. Eles tentam manter tudo fluido, em permanente devir, sempre abertos para todas as possibilidades. Mas, nesse caso, não teriam que, forçados pela própria lógica, de aceitar também a teologia conservadora como uma teologia legítima? Mas é aqui que a lógica relativista se quebra. Pois para eles, todas as opiniões estão corretas – menos aquela dos conservadores.
Um amigo meu que é teólogo me disse outro dia numa conversa, “a verdade é absoluta, mas minha percepção dela é sempre relativa”. Até hoje estou intrigado com essa declaração. Eu o conheço o suficiente para saber que ele não é relativista. Sou obrigado a reconhecer, por força do conhecimento da minha própria limitação e subjetividade, que ele está certo quanto à relatividade da nossa percepção teológica.

Mas, por outro lado, reluto em aceitar as conseqüências plenas dessa declaração. Primeiro, como podemos falar de verdade absoluta, se é que sempre temos uma percepção relativa dela? Se existe verdade absoluta, não seria teoricamente possível conhecê-la como tal? Segundo, porque embora pareça humildade, admitir o caráter sempre relativo da nossa percepção implica em admitir que ninguém tem a verdade, o que acaba com a possibilidade do certo e do errado, do verdadeiro e do falso como conceitos públicos, transformando cada indivíduo, ao final, no referencial último dessas coisas. Será que não poderíamos dizer que nós, mesmo enviesados por nossos pressupostos e preconceitos (horizontes), ainda somos capazes, em virtude na nossa humanidade básica compartilhada com as pessoas de todas as épocas – para não mencionar a graça comum e a ação do Espírito Santo –, de perceber a verdade da mesma forma que outras pessoas a perceberam em outros tempos e em outros lugares?
Aqui as palavras de Anthony Thiselton são pertinentes:
"O que será da ética cristã se adotarmos uma perspectiva relativista da natureza humana? Se a experiência da dor, do sofrimento e da cura no mundo antigo não tem qualquer continuidade com qualquer conceito moderno, o que poderemos dizer acerca do amor, auto-sacrifício, santidade, fé, pecado, rebelião, etc.? Ninguém num departamento de línguas clássicas, literatura ou filosofia de uma universidade aceitaria as implicações de um relativismo tão radical. Nada poderíamos aprender sobre a vida, o pensamento, ou ética, dos escritores que viveram em culturas antigas. Com certeza, nenhum estudioso, se pressionado com essas implicações, defenderia até o fim esse tipo de relativismo".[1]
4) Uma última dificuldade que desejo mencionar é que essa visão, se levada às últimas conseqüências, acaba nos privando da Bíblia. Vejamos. Quem defende essa visão (há exceções, eu sei) geralmente tem dificuldades em aceitar que as Escrituras do Antigo Testamento e Novo Testamento foram dadas por inspiração divina e são, portanto, infalíveis. Nessa lógica, as Escrituras são apenas a reflexão teológica de Israel e da Igreja cristã primitiva. Consideremos as cartas de Paulo. Elas são a teologia do apóstolo, resultado da aplicação que ele fazia das boas novas às situações novas das igrejas nascentes no mundo helênico. Para ser coerente, quem defende que toda teologia é relativa, imperfeita e subjetiva, e que é válida somente dentro dos limites da cultura e da geração em que foi produzida, não poderia aceitar para hoje a teologia de Paulo, a de Pedro, a de João, a de Isaías. Teria de rejeitar as Escrituras como um todo, pois elas são a teologia de Israel e da Igreja, elaboradas em uma época e em uma cultura completamente diferente da nossa.
Para dizer a verdade, há quem faça isso mesmo. Os antigos liberais faziam. Para eles, a Bíblia nada mais era que a teologia (ultrapassada) dos seus autores. O Cristianismo se reduzia a valores éticos e morais, que eram as únicas coisas permanentes nesse mundo. Eu admiro e respeito os antigos liberais. Os de hoje, precisariam assumir o discurso relativista e levá-lo às últimas conseqüências. Pode ser que não conseguiriam absolutamente nada com isso, como acho que não vão conseguir. Mas, pelo menos, teriam o meu respeito – se é que isso vale alguma coisa.

[1] THISELTON, Anthony C., The Two Horizons: New Testament Hermeneutics and Philosophical Description (Grand Rapids: Eerdmans, 1980).

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

8 comentários

comentários
21/8/13 08:22 delete

Rev. Pastor Nicodemus,

A paz do Senhor Jesus Cristo!

Comecei lendo a tua postagem e, de início, pensei que o senhor viria com um discurso engessado, inflexível, pautado em um pesamento teologicamente cauterizado. Mas, com humildade, o senhor disse: "Eu também acredito que a teologia é um construto humano, e como tal, imperfeito, incompleto e certamente relativo. Estou longe de adotar para com a teologia reformada uma postura similar àquela que considera a tradição aristotélica-tomista como a filosofia e/ou teologia “perene”. Eu também considero que a teologia é fruto da reflexão humana e, portanto, sempre sujeita às vulnerabilidades de nossa natureza humana decaída."(...). Perfeito! Quanto à teologia liberal, que tenta montar um quebra-cabeça com peças de figuras diferentes, vai sempre seguir o espírito de cada época, errando no discurso, mas acertando no objetivo, que é preparar o caminho para a manifestação do Anticristo. Permita-me colocar o teu texto em meu Blog: www.pastorhafner.blogspot.com

Se não for muita ousadia da minha parte, peço-lhe, com humildade, que o senhor siga o meu Blog.

No amor de Cristo Jesus,

Pastor Hafner - Suíça

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21/8/13 09:11 delete

Reverendo Augustus, Graça e Paz

Sou Presbiteriano desde o nascimento e um estudante autodidata de teologia. Hoje é muito complicado ser um "fundamentalista" teológico, especialmente quem vive em meio acadêmico. Sei que até mesmo os católicos enfrentam esse tipo de problema, mas lidam de forma um pouco diferente - optam pela excomunhão em casos extremos. Tenho uma dúvida que creio que o reverendo pode me ajudar. As tradições católicas que foram sendo incorporadas ao Cristianismo foram devido a esse relativismo teológico ao longo dos séculos? Ou foi mais influência pagã mesmo? Outra pergunta é relativa a 2 pontos utilizados para validar a teologia católica. Uma das explicações dadas por eles é a promessa de Jesus de que estaria conosco até a consumação dos séculos, ou seja, não abandonaria a Igreja ( eles entendem, lógico, que se aplica ao catolicismo ). Também falam do poder da chave, dito por Jesus aos apóstolos, ligando no céu o que a igreja liga na terra. Gostaria de saber o que o reverendo pensa sobre esses assuntos. O sr recomenda algum livro que trate desse tema?

Obrigado!

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21/8/13 09:21 delete

Amado Rev. Nicodemus,

Deus lhe abençoe muitíssimo, em Nome de Jesus.

Mais uma vez, um texto excelente seu. Gostaria de acrescentar algumas coisas, se o sr. permitir.

1) Os relativistas não têm como fugir da seguinte inconsistência lógica: A proposição "Tudo é relativo" é auto-contraditória, pois se fosse verdadeira, então há algo que não é relativo, a saber que "Tudo é Relativo". Então, se o conceito contradiz a si mesmo, ele não pode ser verdadeiro. Contudo, como o racional e a objetividade não estão em alta hoje neste mundo pós-moderno (ao contrário da ênfase nas emoções e do subjetivismo), fica mto difícil...
2)Qdo o tal pastor diz que as confissões históricas não atenderiam as necessidades das gerações atuais, deve-se atentar para o conceito que ele tem de necessidade. O q vemos, é que talvez a teologia histórica não atende a muitos dos DESEJOS das gerações atuais, mas não suas necessidades. Então tentam criar um deus e uma doutrina à imagem e semelhança de seus egos, ao contrário de negar a si mesmos e tomarem a cruz de Cristo.

Um abraço,
Carlos Augusto Welte

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Wagno Silva
AUTOR
21/8/13 15:06 delete

MUITO BOM TEXTO PASTOR!

Estávamos com saudades de suas postagens

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21/8/13 19:42 delete

Eu creio que quando se diz que não existe uma verdade absoluta, está dizendo que Deus não existe. Deus é o parametro do Bem, Justiça e Verdade.

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Carlos Seino
AUTOR
22/8/13 08:23 delete

O próprio pressuposto dos relativistas se desmente por si próprio:

Se a frase "não existe verdade absoluta" for relativa (afinal, para eles, tudo é relativo), significa que há a possibilidade de haver verdade absoluta.

Se a frase "não existe verdade absoluta" for absoluta, significa que esta frase, por si só nega a ela mesma.

Ou seja, de um modo ou de outro, a verdade existe.

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29/8/13 09:56 delete

Rev. Augustus, tem um pouco a ver com o assunto da postagem, mas estou passando na faculdade por professores que atacam a Deus, a Palavra e sua veracidade. Confesso que meu sangue sobe até a testa. Tenho outros colegas evangélicos mas nem todos com a fé reformada ou com boa base teológica. Como já vi alguns irmãos jovens da igreja perderem a fé na faculdade, fico muito nervoso com essas atitudes.

Estou tomando a posição de respeitar a autoridade do professor e manter meu testemunho como pacificador diante dos não-cristãos da sala, como testemunho. Mas eu deveria responder ao professor nas aulas? O que o pastor aconselha?

Obrigado,


Fernando Lima.

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Ronaldo
AUTOR
1/10/13 18:22 delete

Fernando Lima,

Com humildade que lhe aconselho: vai pra cima desse professor! Não me refiro a violência física mas a teológica. Refute tudo o que ele mencionou e mostre tanto a ele como a sua classe que essa atitude é equivocada e retrógrada. Por ser professor, não deveria atacar a religião dos outros. Já começa errado aí. Mas já que iniciou, o afronte mas no espírito.

Abs,
Ronaldo

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