quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Entrevista à Revista Educação

Neste final de fevereiro de 2008 passo a atuar em um outro segmento do setor educacional, ainda na mesma instituição de ensino. Durante os últimos três anos, fui privilegiado por Deus contar com a colaboração de pessoas muito dedicadas e preciosas que muito me auxiliaram e, na esmagadora maioria das vezes, fizerem todo o trabalho enquanto estive à frente da Educação Básica e do desenvolvimento de um Sistema de Ensino. Como lembrete deste período, vou transcrever entrevista que dei à Revista Educação, em seu histórico número 100, em setembro de 2005, que contém algumas de minhas idéias e avaliação do setor.


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Educação - Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?

Analisando friamente os números, a educação básica vive, nos últimos sete anos, um período de retração. Por exemplo, no ensino fundamental (1ª a 8ª série), a rede pública, gratuita, mantém a quantidade de alunos (32 milhões - MEC-Inep), enquanto a rede particular tem progressivamente encolhido (15%). Isso ocorreu exatamente quando houve ampliação da capacidade nas escolas. As escolas sentem diretamente o reflexo do empobrecimento geral da classe média e da decrescente taxa de natalidade dos últimos anos. A escola particular, pressionada financeiramente pelo descompasso entre investimento e recrutamento, tem a tendência de sacrificar a qualidade de ensino exatamente quando os indicadores internacionais mostram a necessidade de elevarmos qualitativamente o nível dos nossos alunos.

Na formação dos professores, atravessamos décadas de um ensino meio utópico e idealista, no qual a ênfase na liberdade de quaisquer diretrizes, a concentração quase exclusiva no método e a retirada do mérito, como incentivo e forma de aferição, diluíram consideravelmente a qualidade do ensino. Os alunos deixaram de ser preparados para o mundo real, competitivo, no qual importa, sim, o que você sabe. Conteúdo virou termo pejorativo nos círculos pedagógicos. Atravessamos uma situação semelhante à descrita por um educador norte-americano (J. Gresham Machen) quando, comentando sobre a ênfase desmedida no método sem a importância necessária ao conteúdo, escreveu: "Fizemos uma grande descoberta pedagógica - que é possível pensar com uma mente completamente vazia!" Felizmente, parece que décadas de resultados desastrosos começam a acordar os nossos educadores, que passam a dar mais importância a valores, princípios, diretrizes, disciplina e, também, conteúdo - sem descartar ou negligenciar as melhores metodologias.

Educação - Quais foram as grandes mudanças pelas quais o ensino passou nos últimos tempos? O que é necessário para ser um bom colégio atualmente?

Com certeza a grande mudança metodológica é na tecnologia de informação. Hoje não se pode conceber o ensino que não utilize o computador com a tranqüilidade e facilidade com que papel e lápis têm sido utilizados.

Na área social, observamos o enfraquecimento da esfera da família. Isso tem profundos reflexos no conceito da escola, que passa a ter de trabalhar situações que antes eram abrigadas no seio familiar. Em paralelo, observamos conseqüentes tentativas de transferência de responsabilidades da família para a escola, forçando uma redefinição das áreas e dos limites. Por incrível que pareça, o colégio vê-se, freqüentemente, na qualidade de instrutor dos pais.

Para ser um bom colégio, atualmente, o ensino encontrado nele deve ser firmado em valores e princípios, de tal forma que esse ambiente e contexto permeie todas as disciplinas. A sociedade está cansada de uma educação amorfa e permissiva. Existe um anseio pelos valores de uma tradição bem firmada que dê aos alunos igual ênfase à modernidade e à visão do futuro. Não podemos simplesmente educar para o presente (e muito menos para o passado). Os colégios precisam equipar os alunos para que enfrentem os desafios do futuro com pleno conhecimento e habilidades que se enquadrem na época em que viverão a qual ainda não foi atravessada. Em um bom colégio, portanto, tanto a escola como as professoras e os professores têm que ser um pouco visionários. Não podem ser refratários a métodos contemporâneos à ampla utilização da informática. Devem dominar e equipar seus alunos a controlar o fluxo desmedido de informação no qual estão submersos.

Na esfera moral, esse controle, obviamente, parte pela adoção de valores éticos, principalmente porque vivemos em uma era onde é incentivada a sexualidade precoce e onde se jogam as crianças e os adolescentes em interações para as quais não possuem ainda a necessária maturidade. Em vez de policiamento ostensivo, o colégio deve promover, sobretudo, o desenvolvimento de autocontrole, considerando que as portas de acesso de idéias destrutivas e contaminadoras do progresso pessoal e de uma vida responsável estão escancaradas no lar, na rua e na escola. Perdemos o progresso suave que ia da inocência à maturidade responsável e temos de resgatar esses estágios, possibilitando que crianças sejam crianças e não adultos prematuros, maldosos e cheios de segundas intenções, sob a cobertura de uma falsa e enganosa "liberdade de expressão". Programas governamentais que incentivam promiscuidade, sob a falsa capa de transmissão de informações sexuais, devem ser veementemente resistidos e denunciados.

A escola que se rende à dissolução moral, adotando a linguagem e os métodos rasteiros da sociedade, com o argumento de que é assim mesmo e não se consegue mudar, é assumir a falência do sistema educacional e se entregar à derrota, como pedagogos. Os educadores devem se empenhar a fundo em uma reorientação da forma de educar e no fornecimento de ferramentas comportamentais e de controles aos jovens colocados sob seus cuidados. Isso não é possível sem âncoras metafísicas de valores e princípios; sem um fio de prumo que mostre se o edifício que se pretende erguer caminha para o desastre final, por terem sido utilizados materiais duvidosos, construção inadequada e métodos falhos.

Educação - Quais são os grandes desafios atuais para um bom professor? Que concepções mudaram em relação ao professor do passado?

Já está sedimentado que o professor discursivo não é eficiente, mas demos uma guinada demasiada encorajando professores passivos. A autonomia desmedida nas salas de aula, a quebra da autoridade do professor, a falta de respaldo ao respeito devido nas salas de aula são elementos prejudiciais a uma boa educação e à dignidade da profissão.

O grande desafio é, portanto, o professor ser produtivamente interativo, metodologicamente atualizado, informaticamente alfabetizado e que faça parte de uma escola que tenha filosofias e valores definidos, os quais abrace e defenda e com os quais comungue.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Mackenzie debate sobre Darwinismo

A Universidade Presbiteriana Mackenzie promove nos dias 8 a 10 de abril no campus São Paulo o I Simpósio Internacional – DARWINISMO HOJE. O evento reúne pesquisadores no campo das diferentes áreas do saber, com a finalidade de promover um amplo debate sobre o Darwinismo, o Criacionismo e o Design Inteligente, aproveitando que em 2009 se comemora no meio acadêmico os 150 anos do lançamento de A Origem das Espécies.

O palestrante internacional é Dr. Paul Nelson (foto), que falará do ponto de vista do Design Inteligente. O ponto principal de suas palestras é demonstrar a necessidade de um outro modelo, que não o darwinista, que explique mais adequadamente informações e fatos relativamente recentes levantados por diferentes ciências, entre elas a bioquímica.

Falando do ponto de vista do Darwinimo, teremos a participação de Dr. Aldo Mellender de Araújo. Já a visão criacionista será apresentada por Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, presidente e fundador da Sociedade Criacionista Brasileira. Os três palestrantes estarão juntos numa mesa redonda ao final do evento.

O evento realizar-se-á nos dias 08 a 10 de abril 2008, no campus São Paulo, com transmissão via satélite ao vivo para os campi Mackenzie no Rio de Janeiro e em Brasília. As inscrições para participação já estão abertas. Os interessados podem se inscrever a partir do site do Mackenzie, no endereço http://www4.mackenzie.br/10391.html. Os participantes receberão certificados de participação.

Sobre os Palestrantes

Dr. Aldo Mellender de Araújo
Possui graduação em História Natural (1967) e doutorado em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1973). Realizou estágios na University of Liverpool (1975) e na Cornell University (1976), sobre história da genética e evolução. Atualmente é professor titular do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IB - UFRS), atuando na área de história e epistemologia das idéias sobre evolução biológica.

Dr. Paul Nelson
Paul Nelson é filósofo da Biologia, especializado em biologia do desenvolvimento. Tem um PhD em Filosofia pela Universidade de Chicago. Sua tese, publicada sob a forma de livro pela Universidade de Chicago, oferece uma crítica a aspectos da teoria da macroevolução à luz dos desenvolvimentos mais recentes na embriologia e da biologia do desenvolvimento. Nelson é membro da International Society for Complexity, Information and Design [Sociedade Internacional para a Complexidade, Informação e Design] e do Centro de Ciências e Cultura do Discovery Institute. Autor de vários artigos científicos em revistas especializadas.

Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira
Engenheiro Mecânico-Eletricista pela USP, Livre-Docente e Catedrático de Mecânica dos Fluidos na EESC-USP. Tem vários livros e artigos científicos publicados. É Presidente e Fundador da Sociedade Criacionista Brasileira.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Deus, o trabalho e a prosperidade

A prosperidade financeira obedece a normas, regras e métodos estabelecidos. Por outro lado, da perspectiva bíblica, a prosperidade é um dom de Deus. É ele quem concede saúde, oportunidades, inteligência, e tudo o mais que é necessário para o sucesso financeiro. E isso, sem distinção de pessoas quanto ao que crêem e quanto ao que contribuem financeiramente para as comunidades às quais pertencem. Deus faz com que a chuva caia e o sol nasça para todos, justos e injustos, crentes e descrentes, conforme Jesus ensinou (Mateus 5:45). Não é possível, de acordo com a tradição reformada, estabelecer uma relação constante de causa e efeito entre contribuições, pagamento de dízimos e ofertas e mesmo a religiosidade, com a prosperidade financeira. Várias passagens da Bíblia ensinam os crentes a não terem inveja dos ímpios que prosperam, pois cedo ou tarde haverão de ser punidos por suas impiedades, aqui ou no mundo vindouro.

Através dos séculos, as religiões vêm pregando que existe uma relação entre Deus e a prosperidade material das pessoas. No Antigo Oriente, as religiões consideradas pagãs estabeleceram milênios atrás um sistema de culto às suas divindades que se baseava nos ciclos das estações do ano, na busca do favor dessas divindades mediante sacrifícios de vários tipos e na manifestação da aceitação divina mediante as chuvas e as vitórias nas guerras. A prosperidade da nação e dos indivíduos era vista como favor dos deuses, favor esse que era obtido por meio dos sacrifícios, inclusive humanos, como os oferecidos ao deus Moloque. No Egito antigo a divindade e poder de Faraó eram mensurados pelas cheias do Nilo. As religiões gregas, da mesma forma, associavam a prosperidade material ao favor dos deuses, embora estes fossem caprichosos e imprevisíveis. As oferendas e sacrifícios lhes eram oferecidas em templos espalhados pelas principais cidades espalhadas pela bacia do Mediterrâneo, onde também haviam templos erigidos ao imperador romano, cultuado como deus.

A religião dos judeus no período antes de Cristo, baseada no Antigo Testamento, também incluía essa relação entre a ação divina e a prosperidade de Israel. Tal relação era entendida como um dos termos da aliança entre Deus e Abraão e sua descendência. Na aliança, Deus prometia, entre outras coisas, abençoar a nação e seus indivíduos com colheitas abundantes, ausência de pragas, chuvas no tempo certo, saúde e vitória contra os inimigos. Essas coisas eram vistas como alguns dos sinais e evidências do favor de Deus e como testes da dependência dele. Todavia, elas eram condicionadas à obediência e só viriam caso Israel andasse nos seus mandamentos, preceitos, leis e estatutos. Estes incluíam a entrega de sacrifícios de animais e ofertas de vários tipos, a fidelidade exclusiva a Deus como único Deus verdadeiro, uma vida moral de acordo com os padrões revelados e a prática do amor ao próximo. A falha em cumprir com os termos da aliança acarretava a suspensão dessas bênçãos. Contudo, a inclusão na aliança, o favor de Deus e a concessão das bênçãos não eram vistos como meritórios, mas como favor gracioso de Deus que soberanamente havia escolhido Israel como seu povo especial.

O Cristianismo, mesmo se entendendo como a extensão dessa aliança de Deus com Abraão, o pai da fé, deu outro enfoque ao papel da prosperidade na relação com Deus. Para os primeiros cristãos, a evidência do favor de Deus não eram necessariamente as bênçãos materiais, mas a capacidade de crer em Jesus de Nazaré como o Cristo, a mudança do coração e da vida, a certeza de que haviam sido perdoados de seus pecados, o privilégio de participar da Igreja e, acima de tudo, o dom do Espírito Santo, enviado pelo próprio Deus ao coração dos que criam. A exultação com as realidades espirituais da nova era que raiou com a vinda de Cristo e a esperança apocalíptica do mundo vindouro fizeram recuar para os bastidores o foco na felicidade terrena temporal, trazida pelas riquezas e pela prosperidade, até porque o próprio Jesus era pobre, bem como os seus apóstolos e os primeiros cristãos, constituídos na maior parte de órfãos, viúvas, soldados, diaristas, pequenos comerciantes e lavradores. Havia exceções, mas poucas. Os primeiros cristãos, seguindo o ensino de Jesus, se viam como peregrinos e forasteiros nesse mundo. O foco era nos tesouros do céu.

A Idade Média viu a cristandade passar por uma mudança nesse ponto (e em muitos outros). A pobreza quase virou sacramento, ao se tornar um dos votos dos monges, apesar de Jesus Cristo e os apóstolos terem condenado o apego às riquezas e não as riquezas em si. Ao mesmo tempo, e de maneira contraditória, a Igreja medieval passou a vender por dinheiro as indulgências, os famosos perdões emitidos pelo papa (como aqueles que fizeram voto de pobreza poderiam comprá-los?). Aquilo que Jesus e os apóstolos disseram que era um favor imerecido de Deus, fruto de sua graça, virou objeto de compra. Milhares de pessoas compraram as indulgências, pensando garantir para si e para familiares mortos o perdão de Deus para pecados passados, presentes e futuros.

A Reforma protestante, nascida em reação à venda das indulgências, entre outras razões, reafirmou o ensino bíblico de que o homem nada tem e nada pode fazer para obter o favor de Deus. Ele soberana e graciosamente o concede ao pecador arrependido que crê em Jesus Cristo, e nele somente. A justificação do pecador é pela fé, sem obras de justiça, afirmaram Lutero, Calvino, Zwinglio e todos os demais líderes da Reforma. Diante disso, resgatou-se o conceito de que o favor de Deus não se pode mensurar pelas dádivas terrenas, mas sim pelo dom do Espírito e pela fé salvadora, que eram dados somente aos eleitos de Deus. O trabalho, através do qual vem a prosperidade, passou a ser visto, particularmente nas obras de Calvino, como tendo caráter religioso. Acabou-se a separação entre o sagrado e o profano que subjaz ao conceito de que Deus abençoa materialmente quem lhe agrada espiritualmente. O calvinismo é, precisamente, a primeira ética cristã que deu ao trabalho um caráter religioso. Mais tarde, esse conceito foi mal compreendido por Max Weber, que traçou sua origem à doutrina da predestinação como entendida pelos puritanos do século XVIII. Weber defendeu que os calvinistas viam a prosperidade como prova da predestinação, de onde extraiu a famosa tese que o calvinismo é o pai do capitalismo. As conclusões de Weber têm sido habilmente contestadas por estudiosos capazes, que gostariam que Weber tivesse estudado as obras de Calvino e não somente os escritos dos puritanos do séc. XVIII.

Atualmente, em nosso país, a idéia de que Deus sempre abençoa materialmente aqueles que lhe agradam vem sendo levada adiante com vigor, não pelos calvinistas e reformados em geral, mas pelas igrejas evangélicas chamadas de neopentecostais, uma segunda geração do movimento pentecostal que chegou ao Brasil na década de 1900. A mensagem dos pastores, bispos e “apóstolos” desse movimento é que a prosperidade financeira e a saúde são a vontade de Deus para todo aquele que for fiel e dedicado à Igreja e que sacrificar-se para dar dízimos e ofertas. Correspondentemente, os que são infiéis nos dízimos e ofertas são amaldiçoados com quebra financeira, doenças, problemas e tormentos da parte de demônios. Na tentativa de obter esses dízimos e ofertas, os profetas da prosperidade promovem campanhas de arrecadação alimentadas por versículos bíblicos freqüentemente deslocados de seu contexto histórico e literário, prometendo prosperidade financeira aos dizimistas e ameaçando com os castigos divinos os que pouco ou nada contribuem.

O crescimento vertiginoso de igrejas neopentecostais que pregam a prosperidade só pode ser explicado pela idéia equivocada que o favor de Deus se mede e se compra pelo dinheiro, pelo gosto que os evangélicos no Brasil ainda têm por bispos e apóstolos, pela idéia nunca totalmente erradicada que pastores são mediadores entre Deus e os homens e pelo misticismo supersticioso da alma brasileira no apego a objetos considerados sagrados que podem abençoar as pessoas. Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas e procurando obter prosperidade material por meio de pagamento de dízimos e ofertas me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro e sua teologia da prosperidade não são, na verdade, filhos da Igreja medieval, uma forma de neo-catolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma medieval.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pecado, pecadinho, pecadão...

Explicando o post:
Alguns anos atrás foi publicado o livro de multi-autoria ao lado: “Disciplina na Igreja: Uma Marca em Extinção”. Pessoas, realmente conhecidas, como George Knight, Augustus Nicodemus e Valdeci Lopes, escreveram seus capítulos e, por alguma razão indecifrável, coube-me contribuir com dois capítulos. Sou, portanto, um interessado no assunto e achei muito bom os dois últimos posts colocados pelo Dr. Augustus (ausência de disciplina de líderes e sobre Mateus 18). Neles, temos algumas aplicações bem contemporâneas, sobre disciplina bíblica; além do tratamento de outros aspectos que estão presentes no livro em questão. As interações dos leitores, nos comentários desses dois posts, têm sido igualmente bem interessantes. No meio de muitas observações pertinentes e perguntas estimulantes, várias delas confundem a existência do amor real com ausência de disciplina, não compreendendo como esses dois aspectos são biblicamente complementares. Outros comentários observaram a suposta igualdade dos pecados. Um deles disse que a gradação de pecados era uma caracerística "humana" e não divina. Outro, disse que se uma determinada disciplina é aplicada a pecados específicos, porque não tratar todos os pecados (inclusive, foi mencionado o de glutonaria) com penalidades idênticas. A questão da igualdade, ou não, dos pecados, não foi abordada neste livro já mencionado e achei que caberia aqui um post, ainda na mesma linha de pensamento dos dois anteriores.

Todo pecado é igual?
De certo modo é correto se afirmar que todos os pecados são iguais. Em certo sentido, todos os pecados são odiosos perante Deus e suficientes para nos alijar da comunhão eterna com ele. Por isso somos recebedores tão somente de sua graça infinita (em Cristo Jesus) e não temos qualquer mérito em qualquer suposta “vida moral” ou com pouca incidência de pecados, ao sermos aceitos por ele.

Assim nos ensina a Pergunta 152 do Catecismo Maior de Westminster, que diz:
“O que cada pecado merece da parte de Deus”?
R: Todo pecado, até o menor, sendo contra a soberania, bondade, santidade de Deus, e contra a sua justa lei, merece a sua ira e maldição, nesta vida e na vindoura, e não pode ser expiado, senão pelo sangue de Cristo.

As referências dadas são: Tg 2.10,11; Ml 1.14; Dt 32.6; Hc 1.13; I Pe 1.15,16; Lv 11.45; I Jo 3.4; Gl 3.10; Ef 5.6; Pv 13.21; Mt 25.41; Rm 6.21,23; Hb 9.22; I Jo 1.7; I Pe 1.18,19, das quais citamos apenas Tiago 2.10: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos”.

Há, portanto um grau de veracidade na afirmação – “todo pecado é igual” - o menor dos pecados já nos faz culpados por não guardar os princípios de justiça de Deus. No entanto, essa afirmação deve ser bem entendida e qualificada, pois não representa o todo da verdade. Por exemplo, ouvi uma pessoa comentando e defendendo um pecado cometido por um líder evangélico, comparando-o com uma mentira cometida por ele próprio (o defensor). Ele disse: “... o erro do .... foi tão grave diante de Deus quanto o foi hoje de manhã eu ter pedido que dissessem que eu não estava, só para não atender o telefonema de um ‘amigo’ chato”.
Existe, ou não, diferenciação de pecados?
Acontece que não é bem assim, como colocou a pessoa acima, pois é o próprio Deus que nos ensina existir uma GRADAÇÃO de pecados - alguns realmente, são mais odiosos do que outros. E essa é a interpretação, também, do Catecismo Maior da Confissão de Fé de Westminster, exatamente nas perguntas que precedem a que já examinamos, acima. As perguntas 150 e 151 mostram que a idéia de que não existe “pecadinho” e “pecadão” é uma noção comum, muito propagada em nossas igrejas, mas não é Bíblica. As respostas a essas perguntas 150 e 151, mostram o sentido em que são diferentes, enquanto que a resposta à 152, mostra o sentido no qual os pecados são iguais. Vejamos:

Pergunta 150.
"São todas as transgressões da lei de Deus igualmente odiosas em si mesmas à vista de Deus"?
R: Todas as transgressões da lei de Deus não são igualmente odiosas; mas alguns pecados em si mesmos, e em razão de diversas circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros.
Refs.: Hb 2.2,3; Ed 9.14; Sl 78.17,32,56.
Pergunta 151.
"Quais são as circunstâncias agravantes que tornam alguns pecados mais odiosos do que outros"?
R: Alguns pecados se tornam mais agravantes:
1º) Em razão dos ofensores, se forem pessoas de idade mais madura, de maior experiência ou graça; se forem eminentes pela vida cristã, dons, posição, ofícios, se forem guias para outros e pessoas cujo exemplo será, provavelmente, seguido por outros.
Refs.: Jr 2.8; I Rs 11.9; II Sm 12.14; I Co 5.1; Tg 12.47; Jo 3.10; II Sm 12.7-9; Ez 8.11,12; Rm 2.21,22,24; Gl 2.14.
2º) Em razão das pessoas ofendidas, se as ofensas forem diretamente contra Deus, seus atributos e culto, contra Cristo e sua graça; contra o Espírito Santo, seu testemunho e operações; contra superiores, pessoas eminentes e aqueles a quem estamos especialmente relacionados e a quem devemos favores; contra os santos, especialmente contra os irmãos fracos; contra as suas almas ou as de quaisquer outros, e contra o bem geral de todos ou de muitos.
Refs.: I Jo 5.10; Mt 21.38,39; I Sm 2.25; Rm 2.4; Mt 1.14; I Co 10.21,22; Jo 3.18,36; Hb 6.4-6; Hb 10.29; Mt 12.31,32; Ef 4.30; Nm 12.8; Pv 30.17; Zc 2.8; I Co 8.11,12; I Ts 2.15,16; Mt 23.34-38.
3º) Pela sua natureza e qualidade de ofensa, se for contra a letra expressa da lei, se violar muitos mandamentos, se contiver em si muitos pecados; se for concebida não só no coração, mas manifestar-se em palavras e ações, escandalizar a outrem e não admitir reparo algum; se for contra os meios, misericórdias, juízos, luz da natureza, convicção da consciência, admoestação pública ou particular, censuras da igreja, punições civis; se for contra as nossas orações, propósitos, promessas, votos, pactos, obrigações a Deus ou aos homens; se for feita deliberada, voluntária, presunçosa, imprudente, jactanciosa, maliciosa, freqüente, e obstinadamente, com displicência, persistência, reincidência, depois do arrependimento.
Ref.: Ez 20.12,13; Cl 3.5; Mq 2.1,2; Rm 2.23,24; Pv 6.32-35; Mt 11.21-24; Dt 32.6; Jr 5.13; Rm 1.20,21; Pv 29.1; Rm 13.1-5; Sl 78.34,36,37; Jr 42.20-22; Sl 36.4; Nm 15.30; Ez 35.5,6; Nm 14.22,23; Zc 7.11,12; Pv 2.14; Jr 9.3,5; II Pe 2.20,21; Hb 6.4,6.
4º) Pelas circunstâncias de tempo e de lugar, se for no dia do Senhor ou em outros tempos de culto divino, imediatamente antes, depois destes ou de outros auxílios para prevenção ou remédio contra tais quedas; se em público ou em presença de outros que são capazes de ser provocados ou contaminados por essas transgressões.
Ref.: Is 22.12-14; Jr 7.10,11; Ez 23.38; Is 58.3,4; I Co 11.20,21; Pv 7.14,15; Ne 9.13-16; Is 3.9; I Sm 2.22-24.
Se estudarmos com maior profundidade a questão, portanto, aprendemos que realmente existe gradação. Uma outra maneira de verificar isso é pelas diferentes penas aplicadas aos diversos crimes na lei judicial (ou civil) de Israel. Essa Lei foi dada pelo próprio Deus.
É cristão demonstrarmos entendimento e solidariedade, na face do arrependimento sincero. Na ausência desse, a Palavra nos manda até quebrarmos as associações de amizade (nem mesmo "comer" com o impenitente, para que ele, sacudido por esse terremoto social, se arrependa – 1 Co 5.11). Podemos (e com frequencia fazemos) quebrar os princípios de justiça de Deus, desprezando a disciplina; achando que são passos injustos; ou seja, querendo exceder a benevolência e benignidade de Deus - sermos mais caridosos do que ele nos manda ser. Quando isso ocorre no seio da família - expressamos um amor equivocado, não disciplinamos os filhos, criamos seres que desrespeitam a hierarquia e que se dão mal - no futuro. Quando fazemos no seio da igreja, contribuímos para a concretização de uma igreja doentia e conivente com o pecado.
O mesmo erro deve ser sempre penalizado de forma igual?
Um outro argumento utilizado pelos que querem enfatizar tão somente a igualdade dos pecados (não somente entre si, mas também quando cometidos por pessoas diferentes) é dizer que seria incoerência penalizar pessoas de forma diferente, desde que cometam o mesmo erro.

Como já vimos, não é isso o que ensina a Palavra nem o que registram as Confissões reformadas. Existe, sim, diferenciação de gravidade, mesmo tendo sido cometido o mesmo pecado. A questão é que o pecado não é só o incidente isolado (é até impossível se isolar um incidente), mas não pode ser ignorada a forma como ele afeta mais ou menos pessoas. Pecados cometidos por lideranças, são muito mais graves do que o mesmo pecado cometido por alguém que esteja sendo instruído na fé.

Pecados “mais” e “menos ruins”:
Existe um conceito relativo (do zero para baixo) nos pecados - com relação a ruindade intrínseca de cada um. Concordamos que qualquer pecado é suficiente para nossa condenação, mas temos que reconhecer que o que concebe, mas não pratica, pecou um pecado "menos ruim" do que aquele que o levou às suas últimas conseqüências. Quanto mais o pecado se alastra (como no caso de David, que tentava acobertá-lo) mais pessoas são atingidas e mais sofrimento é gerado.A parte prática está exatamente no dano que um líder causa, quando peca. Não é errado esperarmos um comportamento exemplar (no contexto de que somos todos pecadores) da parte do líder (1 Tm 4.12), pois assim a Palavra no direciona. O Salmista pede que nós não sejamos "causa de vergonha" (Sl 69.6). O dano ao evangelho é muito grande, quando o pecado está presente e é observado na vida do líder.

Ainda que todos os pecados sejam odiosos e suficientes para nos alijar da santidade de Deus, a não ser pela graça e misericórdia dele e pelo sacrifício de Cristo, existem pecados "mais ruins do que outros"; ou em circunstâncias "mais ruins do que outras". Se fôssemos diagramar os pecados, seria uma "plotagem" abaixo do eixo das abscissas - todos "abaixo de zero". Mas os pecados da liderança fazem “desencaminhar a muitos” e a muitos tropeçar na sua compreensão da lei de Deus, como nos diz Malaquias 2.7-8 - "Pois os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, porque ele é o mensageiro do Senhor dos exércitos. Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na lei..."

Agravantes e atenuantes:
Na Igreja Presbiteriana do Brasil, em seu Código de Disciplina, há uma consideração sobre os "agravantes " e "atenuantes", com relação ao mesmo pecado, nos casos de disciplina. O texto completo, que fala das circunstâncias atenuantes e agravantes, é o seguinte:

(Art. 12) –
São atenuantes:
a) pouca experiência religiosa; b) relativa ignorância das doutrinas evangélicas; c) influência do meio; d) bom comportamento anterior; e) assiduidade nos serviços divinos; f) colaboração nas atividades da Igreja; g) humildade; h) desejo manifesto de corrigir-se; i) ausência de más intenções; j) confissão voluntária.
§2º -
São agravantes:
a) experiência religiosa; b) relativo conhecimento das doutrinas evangélicas; c) boa influência do meio; d) maus precedentes; e) ausência aos cultos; f) arrogância e desobediência; g) não reconhecimento da falta. Art.14 - Os Concílios devem dar ciência aos culpados das penas impostas: a) Por faltas veladas, perante o tribunal ou em particular; b) Por faltas públicas, casos em que, além da ciência pessoal, dar-se-á conhecimento à Igreja.

Conclusão:
Assim, creio que ser bíblico, prudente e necessário, concluirmos pela existência de distinção ou gradação de pecados, sem esquecer que todos eles são odiosos, perante Deus, e que mesmo o menor deles nos afasta de sua santidade e nos faz merecedores da condenação eterna.
Solano Portela