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domingo, setembro 16, 2007

Solano Portela

Como Conviver com Diferenças Profundas? Guinness no Mackenzie

Neste mês de setembro de 2007 o sociólogo, erudito palestrante internacional e pensador Os Guinness, esteve proferindo conferências na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em Brasília e em São Paulo. Em uma das palestras ele apresentou a necessidade de ordem e paz no mundo como sendo um dos problemas cruciais da atualidade. Nesse sentido, chamou a atenção para o fato de que a quebra dessa ordem e paz nos legou, só no último século, cerca de 300 milhões de pessoas mortas: 1/3 em guerras declaradas; 1/3 em repressões políticas e 1/3 em função de violência étnica e religiosa. Assim, essa questão estaria acima até de outros problemas modernos, tais como a disseminação do HIV e a criminalidade desenfreada em nossas metrópoles.

De acordo com Os Guiness a busca de uma sociedade harmônica – ou a resposta à pergunta: “Como conviver com nossas profundas diferenças?” – têm se alinhado em três vertentes ou visões principais:

  • O Universalismo Progressivo

  • O Relativismo Multicultural

  • A Aliança Cívica Plural

O Universalismo Progressivo seria o caminho advogado por aqueles que, partidários de forte ideologia ou crenças, procuram progressivamente universalizar o pensamento comum dos cidadãos. Essa busca pela universalização superaria até considerações éticas; os valores devem ser impostos; os métodos a serem aplicados seriam aqueles que funcionam.

Os Guinness aponta que muitos procuram incluir o cristianismo nesta vertente, mas isso é um erro, pois o cristianismo verdadeiro não se alicerça, se espalha ou se amplia por coação ou força externa, e sim por persuasão interna. A “espada” brandida por Jesus e seus seguidores é poder persuasivo da Palavra (Ef. 6.12 e Ap. 2.16) e não uma luta militar “contra carne e sangue”. O cristianismo de Constantino – que decretou pela espada a conversão de todos os habitantes do império, não é a expressão real dos proclamadores das boas novas, mas uma distorção. Reconhece-se, entretanto, que é verdade que ao longo da história outros movimentos sob bandeiras “cristãs” (como as Cruzadas) têm emulado essa mesma distorção.

Nessa categoria, do universalismo progressivo, na realidade, se incluiriam o comunismo, o islamismo, os movimentos étnicos e tribais geradores de genocídios na África (como o massacre dos Tutsis pelos Hutus, em Ruanda, que resultou na morte de 500 mil pessoas; e o massacre dos Zurgas, em Dafur, no Sudão, que resultou em um milhão de mortos, já neste século 21), e outros semelhantes. Certamente tal universalização por coação não é a resposta. A suposta “harmonia” gerada vem à custa da liberdade de consciência e da liberdade individual. As pessoas são reduzidas a meras peças de um jogo de xadrez no qual se busca a supremacia pela aniquilação do contraditório.


A segunda visão, o Relativismo Multicultural, se apresenta como sendo um caminho muito atraente. Esse ponto de vista está intensamente presente no mundo acadêmico e nas culturas ocidentais e é avidamente defendida pelos antropólogos. Ela parte da observação correta da existência de muitas culturas e especifica uma tolerância abrangente e eclética. Todos devem demonstrar tolerância às expressões da multiculturalidade, ou seja, aos valores e práticas específicas das diversas culturas, em suas áreas de manifestação, presença e influência.

Acontece que esse caminho pode ser até gerador de uma convivência harmônica, mas esta é tão somente aparente, pois traz em si um enorme perigo latente: é calcada em um relativismo ético e ausência de absolutos de tal forma que conclama as sociedades a fecharem os olhos ao mal explícito, rotulando suas ocorrências como legítimas, válidas e inquestionáveis expressões culturais.

O forçado “respeito cultural” e a tolerância multicultural que gera a tão solicitada harmonia, para que possamos conviver com as diferenças, vem ao custo, mais uma vez, da dignidade do ser humano. Ela acolhe situações e ações que, por serem “culturais” devem permanecer ocorrendo, mesmo quando são inequivocamente condenáveis e erradas. Um exemplo disso seria a aceitação acrítica da mutilação genital feminina (a Anistia Internacional apresenta uma lista de 28 países africanos onde ela é normalmente praticada). Sendo que essas “manifestações culturais” não somente não devem ser questionadas, como, por vezes, devem até ser “protegidas”. Ou seja, mesmo as pessoas de “outra cultura” que não possuem tais práticas, em prol da harmonia, devem se empenhar em defender a “liberdade” de quem as praticam. Tal harmonia sacrifica a ética inerente à própria humanidade.


A terceira visão e resposta à questão da convivência social com diferenças profundas é, o que chama Os Guinness de Aliança Cívica Plural. Ele esboça a metáfora de uma praça pública, na qual pessoas de diferentes persuasões, ideologias e opiniões se aproximam para o diálogo e o debate. No entanto, essas interações acontecem debaixo de uma estrutura na qual se reconhecem absolutos mínimos que regem a convivência e que protegem certos direitos básicos e inalienáveis das pessoas. Consequentemente, fica ausente a possibilidade de opressão e coação, enquanto que se garante a mais primária das liberdades: a de consciência, de crença, de exercício da fé.

Guinness pergunta, de que adianta termos liberdade de ajuntamento, se nada pode ser expresso livremente em tal ajuntamento? E ainda, de que adianta ter liberdade de expressão, se ao expressar você for condenado pelo que expressa, sendo subtraída a sua liberdade de consciência? Assim ele substancia que o livre pensar é a primeira das liberdades, apesar de segmentos da civilização terem considerado, erroneamente, as de ajuntamento e expressão como sendo mais importantes.

A nossa luta deve ser, portanto, pelo reconhecimento desses absolutos e pelo estabelecimento dessas regras de convivência, para que subsista harmonia real, ainda que com diferenças profundas de crença e ideologias. Essa Aliança Cívica Plural não significa a adoção de um “mínimo denominador comum” – onde as crenças e valores são reduzidos àquilo que todos acreditam, porque isso não respeitaria a liberdade de consciência e de pensar, nem seria uma visão realista que levasse em conta a profundidade das convicções de cada um. Não está sendo advogada a construção de uma sociedade amorfa, sem convicções. É, simplesmente, um reconhecimento que você tem direito de pensar diferentemente de mim, e eu de achar que você está errado, sem a sanção de coagi-lo a pensar como eu. Ao mesmo tempo; aquilo que é realmente bom (“o bem”) deve ser tanto bom para você como para mim – deve respeitar uma estrutura mínima de valores universais que se constituem a moldura e estrutura necessária à convivência civilizada. Tudo aquilo que ferir a dignidade da pessoa humana, não pode ser aceito nessa “praça pública” de debates. As idéias são apresentadas, debatidas e espera-se persuasão, convencimento, mas nunca coação.

Infelizmente vivemos em um mundo onde muitos estão envolvidos pelo Universalismo Progressivo e outros tantos com o Relativismo Multicultural – ambos ceifando vidas e fechando os olhos ao mal explícito que campeia na humanidade. Mentes lúcidas se dedicarão à construção dessa praça pública de debates. O verdadeiro cristianismo, pelo menos, deveria defendê-la e propagá-la na confiança da Soberania de Deus, que nos ensina a transmitir as boas novas e que nos ilustra, na história, como o evangelização foi abençoada onde floresceu a liberdade estruturada de consciência.

Não temos que concordar com tudo, nem que aceitar que existem apenas três avenidas para responder à pergunta da convivência pacífica e civilizada. Talvez existam quatro, cinco ou seis. Mas o importante é que Os Guinness nos faz pensar e, se somos honestos, temos que admitir que o que temos ouvido constantemente, quer na sociedade, mídia ou academia, nem é verdade inquestionável nem é necessariamente lógico. Existem outras maneiras de análise e outras respostas a serem dadas. De qualquer maneira, essa estrutura apresentada nos auxilia a algumas análises de situações que estão sendo correntemente discutidas. Em um próximo post gostaría de focar a intensa presença do Relativismo Multicultural no Brasil, especialmente à luz do debate corrente relacionado com o infanticídio praticado por várias tribos indígenas do nosso país.

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