sábado, dezembro 31, 2005

Falecimento, Ação de Graças

Faleceu o meu primo, irmão que eu não tive, Rev. João Paulo de Souza Filho, pastor da Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Cabo, em Pernambuco. No dia do falecimento, eu estava só com ele no hospital. Ele já não estava mais consciente, quando entraram uma senhora e mais dois senhores da capelania do hospital: haviam sido treinados juntos com o Pastor João Paulo e agora exercitavam o treinamento recebido no próprio hospital onde ele estava em seus últimos momentos. Dali há 30 minutos ele respiraria pela última vez, com 42 anos de idade, vitimado de câncer no cólon com metástase avançada, por falência múltipla dos órgãos. Deus o levou, encerrando dias de sofrimento físico para ele e para a família, por vê-lo sofrer. O dia 29 foi um dia inusitado, com um funeral pela manhã e um culto de ação de graças à noite, ambos envolvendo a família.

Tive a oportunidade de falar nas duas ocasiões. Pela manhã, brevemente, fiz referência ao trecho que descreve o ministério de João Batista e tem, na minha Bíblia, o título - "João dá testemunho de Jesus" (Lucas 3.15-20). Eu disse que aquele título poderia ser o da vida do João Paulo, dedicado a essa tarefa, pregando a Jesus em tempo e fora de tempo. Durante o seu curto ministério, ele pregou a Palavra e treinou inúmeros obreiros, tendo viajado por incontáveis vezes ao sertão de Pernambuco e da Paraíba, fortalecendo os ministérios existentes naquelas localidades distanciadas e carentes. João Batista termina o seu ministério na prisão - em situação de dificuldade física. João Paulo também terminou seu ministério de uma forma inesperada, com muito sofrimento em um leito de hospital. O sucesso, na vida espiritual, certamente não é aquilo que muitos projetam e Deus, em seus propósitos insondáveis, leva os seus servos fiéis e aqueles bem valiosos a esses momentos. Mas, graças a Ele, que temos capítulos como Hebreus 11, que mostra o destino dos heróis da Fé - muitos levados em martírio para que a Fé deles servisse de exemplo para nós e como uma chamada prematura à comunhão eterna com o Pai, pois "o mundo não era digno deles". Em toda sua enfermidade e sofrimento, alguma perplexidade, mas nenhuma palavra de revolta ou indignação contra Deus. Deixa viúva sua esposa, Gorete e dois filhinhos - João Paulo Neto ("Terceirinho" - 10 anos) e João Pedro ("Pedrinho" - 5 meses).

Voltando ao funeral, li o Salmo 131 e disse que aquele salmo expressava bem o que tinha sido a sua vida, com toda humildade (olhando para ele e conversando com ele, ninguém poderia aferir a intensidade do seu ministério), mas, esperando sempre no Senhor e realizando a Sua obra: "SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre".

À noite, resolvemos não cancelar o culto de ação de graças pelos 60 anos de casamento dos meus pais, já anunciado de longa data e para o qual reunimos a família em Recife - todos os meus quatro filhos, nora, futuras noras, etc., e para o qual muitos haviam sido convidados e não conseguiriam ser contatados em tempo hábil.

Foi bom termos mantido o culto, pois o fator que uniu as duas cerimônias e que nivela as tragédias e as alegrias na vida dos cristãos é exatamente a capacidade de dar graças em todas as situações. Cerimônia simples, com uma hora de duração, seguindo o programa com alguns cânticos e leituras bíblicas - sem retrospectivas de vida ou elogios exagerados, pois era, essencialmente, um culto a Deus em situação especial, como acreditamos que devam ser tais ocasiões (Confissão de Fé de Westminster, XXI, 5 - "... ações de graças em ocasiões especiais..."). Na exposição da Palavra, preguei sobre Malaquias 2.13-16, sobre "Uniões Duradouras" - como sendo o ideal expresso nas Escrituras, pois o "Senhor odeia o repúdio e a violência" (v. 16), e como sendo que devemos almejar para as nossas vidas e para as dos nossos filhos. Nesse sentido:
1. A união duradoura não é fruto de um mero contrato entre pessoas, mas de um pacto solene - uma aliança testemunhada por Deus e pelos homens (Vs. 10, 11 e 14).

2. A união duradoura não se firma em mera religiosidade externa (V. 13).

3. A união duradoura não vem automaticamente aos que estão em liderança (v. 15a - Abraão é dado como exemplo de um que racionalizou com palavras piedosas o seu pecado. Temos visto muitos exemplos de racionalizações e quedas, nos anos recentes).

4. A união duradoura ocorre quando cuidamos dela com carinho, nos caminhos do Senhor (vs. 15b e 16 -
"cuidai de vós mesmos").

Foi, portanto, uma quinta-feira (29.12.2005) inusitada, como o é a vida, com lágrimas de saudades e com alegrias, mas tudo dentro da providência divina e sustentados pela graça infinita do nosso Senhor Jesus.

sábado, dezembro 24, 2005

Provérbios e Torah

Estava refletindo esta semana sobre a lei de Deus, que normalmente é mal compreendida. Lembro-me de uma ocasião em que estava traduzindo um pastor britânico sobre o tema Graça. No meio de uma das palestras ele afirmou: "existem muitos livros escritos com o título Lei e Graça! Deveriam se chamar 'Lei é Graça'." Como era na minha própria igreja e eu havia escrito um livro com este título, todo mundo caiu na risada. Mas meu problema é fácil de resolver. Se houver uma segunda edição, é só colocar o acento agudo no 'e'.

O que tenho percebido nos escritos de muitos, no entanto, é a contínua oposição entre lei e graça, a busca de uma graça barata e desvinculada de sua irmã, criação de Deus, chamada lei. É interessante observar que a depreciação da lei acontece por dois grupos: aqueles que teologicamente a compreendem mal e aqueles que insistem em mal compreendê-la para justificar suas mazelas e pecados. Estes, geralmente, acusam aos que amam a lei de Deus de legalistas (Salmo 119.97 - Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!).

Diante disto fui fazer uma busca sobre a 'torah' no Antigo Testamento e me deparei com seu uso abundante no livro de Provérbios mostrando como a lei de Deus, compreendida de maneira correta, pode nos abençoar. Porém, antes de chegar a Provérbios é bom lembrar o que é a torah. Os cinco primeiros livros do AT (Pentateuco) são conhecidos na própria Escritura e no judaismo como Torah ou Lei de Moisés. Lendo o Pentateuco vamos descobrir que estes cinco livros são muito mais do que uma lista de leis. Grande parte do seu conteúdo é de histórias e revelações. Este conjunto, lido na sua inteireza, é a Torah, a instrução de Deus para seu povo. No sentido maior ainda, toda instrução é torah. Esta instrução é uma instrução amorosa e cheia de graça que prevê toda a sorte de bênçãos para aqueles que querem viver justa e piedosamente e, certamente, maldições para aqueles que a rejeitam, quer intelectualmente ou na prática. São muitas as expressões bíblicas para falar sobre lei, mas torah é a mais abrangente delas. Interessante observar que a torah só pode ser compreendida com graça e misericórdia e só pode ser aplicada corretamente por aqueles que pessoalmente conhecem o Senhor da torah e a guardam no seu coração (este é o conceito completo da torah no livro de Deuteronômio). Para que isto não vire um pequeno tratado teológico, vamos à torah em Provérbios.

Como sinônimos na tradução de torah em Provérbios encontramos 'ensino, doutrina, instrução e lei'. A instrução deve ser ouvida, lembrada e guardada no coração. A torah é dada pelo pai, pela mãe e pelo sábio e serve como lâmpada e luz para o caminho. O filho que a guarda é prudente e não deixa o seu ensino. O bondade da língua está ligada a torah, para que fale com sabedoria. A indignação contra a perversidade está ligada ao conhecimento que se tem da torah de Deus e aquele que se coloca contra ela acaba louvando o perverso. A própria corrupção está ligada à falta da torah de Deus, na figura da profecia, que é a correta interpretação da lei. O que se desvia da torah, até as suas orações são abominação para Deus.

Amanhã é natal e fala-se tanto em um "feliz natal". Pois o livro de Provérbios nos ensina que o que guarda a torah, a instrução de Deus, este é feliz, e que a torah do sábio é fonte de vida. Logo, se queremos um natal realmente feliz, precisamos aprender a amar a lei de Deus, pois para isto mesmo foi que Ele nos enviou no natal a maior expressão de sua graça. Que seja a torah do Senhor a 'menina de nossos olhos'.

Provérbios

1.8 Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe.
3.1 Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos, e o teu coração guarde os meus mandamentos;
4.2 porque vos dou boa doutrina; não deixeis o meu ensino.
6.23 Porque o mandamento é lâmpada, e a instrução, luz; e as repreensões da disciplina são o caminho da vida;
7.2 Guarda os meus mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos.
13.14 O ensino do sábio é fonte de vida, para que se evitem os laços da morte.
28.4 Os que desamparam a lei louvam o perverso, mas os que guardam a lei se indignam contra ele.
28.7 O que guarda a lei é filho prudente, mas o companheiro de libertinos envergonha a seu pai.
28.9 O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável.
29.18 Não havendo profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei, esse é feliz
31.26 Fala com sabedoria, e a instrução da bondade está na sua língua.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

A Falta de Imaginação dos Neoliberais

Nunca me esqueci de uma frase que ouvi quando seminarista em Recife do já saudoso pastor presbiteriano João Campos (tem um ainda vivo com este mesmo nome e que mora em São Paulo): "Seja um jovem prá frente mas não deixe Jesus para trás". Acho que ele, sem saber, resumiu num nutshell o segredo de ser progressista sem ser liberal e a razão pela qual falta imaginação aos teólogos neoliberais.

Quem pensa que a teologia conservadora cristã (de Agostinho a Calvino, e de lá, passando pelos puritanos, aos calvinistas modernos) já disse tudo o que se podia dizer sobre a Trindade, por exemplo, e que não resta mais nada a não ser conservar o dogma da Trindade e batalhar pela fé que uma vez por todas foi dada aos santos, deveria ler John Frame e Vern Poythress para ver como teólogos conservadores podem ser prá frente sem deixar Jesus para trás. Ambos são apologetas de Westminster e aplicaram de forma criativa a doutrina da Trindade à hermenêutica e à apologética, continuando a visão seminal de Cornelius Van Til. Sem romper com os pressupostos históricos e bíblicos acerca da natureza Triúna do único Deus, abriram novos horizontes quanto às implicações dessa Triunidade em disciplinas correlatas.

O problema dos neoliberais, à semelhança dos velhos teólogos liberais do passado, é que pensam que só podem ir em frente se romperem radicalmente com tudo o que ficou para trás. Acreditam que o conhecimento só avança com a mudança dos fundamentos sobre os quais se ergueu o edifício de toda a teologia antes deles. Se lessem Nancey Pearson e outros historiadores evangélicos da ciência, veriam que os avanços da ciência moderna se deram, não com a descoberta de fatos novos que invalidaram os antigos, mas com uma mudança de atitude para com os mesmos fatos de antes.

É preciso mais imaginação e criatividade para ser progressista na teologia sem abandonar os pressupostos cristãos históricos do que simplesmente jogar o passado fora e recomeçar. O que virá dai nem será algo novo e muito menos cristão, uma vez que as linhas mestras foram abandonadas.

O que a teologia brasileira precisa não é uma crise de rompimento radical com tudo que veio antes. Não queremos reinventar a roda. Mas precisa de imaginação e criatividade para erguer um edifício novo sobre o firme fundamento já lançado pelos antigos. Ser teólogos prá frente sem deixar Jesus para trás.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Este Negócio de Blog está me Matando!

Quando meu amigo Celsino Gama me sugeriu que fizéssemos um blog juntos, resolvi não aceitar, pois suspeitava que não teria o tempo necessário. Mas, a idéia ficou na minha cabeça, remoendo, remoendo. Quando compartilhei-a com Solano Portela e Mauro Meister, os dois resolveram na hora que faríamos um blog a três. Fiquei animado com o projeto e aceitei. Preciso até pedir perdão ao Celsino...

Mas, estou descobrindo que o problema não é tanto a falta de tempo (que continua sendo um problema), mas o gênero literário do blog, coisa nova, fruto da tecnologia, da internet e dos tempos e mores em que vivemos (para justificar um pouco o título deste blog). Passei a vida toda escrevendo livros, comentários bíblicos, cursos teológicos, artigos para revistas científicas, para a internet, para jornais... o formato varia um pouco, é verdade, mas no fundo é tudo muito parecido.

Neste pouco tempo de bloggista, já descobri que estou diante de um desafio diferente. Ñada do que fiz antes cabe num blog. O blog, por ser uma espécie de diário aberto a todos, exige um tom intimista, pessoal, e quase de confissão, mas com limites por ser público. Exige que o autor se desnude, que abra o coração, ao mesmo tempo em que mostre o que pensa acerca dos assuntos sobre os quais escreve. Pois quem quer ler teologia, vai para os sites teológicos ou compra livros e revistas. Mas quem quer saber o que um determinado autor ou teólogo pensa, sente e como ele reage, vai para o blog dele. Todo mundo espera que o blog seja mais pessoal. Acho que vou tentar por algum tempo. Acho que ainda posso aprender algo, apesar do adágio popular "papagio velho não aprende a falar".

FOME, capitalismo e a necessidade de precisão na análise.

A fome das pessoas é um problema real, que incomoda os famintos e leva alguns alimentados a procurar aliviá-la. No Brasil criamos um programa governamental pífio e mal-sucedido para, supostamente, erradicá-la da sociedade. No afã de fazer alguma coisa, ou, por vezes, com motivos menos nobres e demagógicos, rotula-se a fome como sendo uma catástrofe gerada por este "mundo capitalista" – como escreveu um amigo meu. Essa análise é falha, pois o mundo é tudo, MENOS capitalista. A fome ocorre genericamente neste mundo onde impera o pecado, exatamente por causa do pecado.

A fome existe nas Ruandas, Somálias, Sudãos e Etiópias da vida (de ideologia amorfa) - onde a exploração genocida, com a visão tribal de uma etnia sobre a outra exterioriza o pecado latente no coração de cada pessoa da forma mais letal - acompanhado de opressões, mutilações, extermínios, estupros, separações familiares e outras tantas barbaridades.

A fome ocorre na Coréia do Norte (um dos últimos dos antigos "paraísos" comunistas) onde o pecado é representado pelo desvio de recursos de um crápula egomaníaco que perpetua uma dinastia de opressão sobre seu próprio povo, mantendo um exército com investimentos desproporcionais ao que o país gera de recursos.

A fome ocorre nos países muçulmanos, escravizados a uma religião mutiladora dos pensamentos e da consciência; contra a qual o mundo treme e poucos têm a coragem de dizer que ela é incentivadora de violência e da exploração de um sobre o outro (especialmente aproveitando-se da fragilidade das mulheres). Fome e carência muçulmana promovida pela oligarquia de poucos regendo sobre muitos, desviando os recursos e riquezas de países que são ricos, mas que servem aos interesses de uma casta cruel. Fome e carência, como a que existe na Argélia, que foi palco de massacres em vilarejos inteiros, com muçulmanos radicais mantendo pessoas simples sob terror.

A fome ocorre quando a individualidade gloriosa com a qual Deus nos fez é subvertida pela compreensão pecaminosa de alguns sistemas e governantes e as pessoas são tratadas como "massa"; tendo a sua liberdade individual tolhida e a iniciativa pessoal e o desejo de progresso esmagado e subjugado à vontade de uns poucos privilegiados. Quando elas são levadas como bois magros a trabalhar em planos coletivos e centralizados mirabolantes, distantes de toda e qualquer realidade, fadados ao insucesso. Quando esses privilegiados constroem para si, em cima de despotismo e corrupção, impérios militares absorvedores de recursos que poderiam estar sendo revertidos em benefício dessas nações. Como os exemplos abundantes que pudemos ver na história de paraísos socialistas, hoje carcomidos e falidos pela própria ineficácia da ideologia e do sistema, que tanto empolgaram os seus apoiadores brasileiros, no passado, e que, tristemente, vemos que ainda empolgam e obscurecem a visão de muitos, em nossos dias.

A fome ocorre nos impérios descaracterizados de ideologia, onde a lei maior é o terror e onde o patriotismo dos cidadãos é cooptado para servir ao interesse dos ditadores, via de regra, a uma família, como era no Iraque. Naqueles onde a religião serve de pretexto para alianças; onde cidades inteiras foram riscadas do mapa quando os seus habitantes cometeram a imprudência de respirar na hora e no lugar errado.

A fome ocorre também, como o pecado é genérico, em países chamados "capitalistas", mas não, precisamente, em função do sistema de promoção da iniciativa e liberdades individuais, mas porque os pontos de controle são relaxados; porque se esquecem que a natureza humana é pecaminosa em todos os sentidos e achará maneiras, também, de expressar essa "individualidade" de forma errada e exploratória; sobretudo, ocorre, por falta de um sistema judicial que aplique punições rápidas, abrangentes, indiscriminadas e justas - mediante a evidência de violência e crimes cometidos - fazendo com que malfeitores vivam uma vida "mansa e tranqüila", sem medo da conseqüência dos seus atos, enquanto que os inocentes vivem sobressaltados e aflitos – exatamente o contrário do ideário Bíblico (Rm 13.1-7 e 2 Tm 2.2).

Assim tem nos ensinado a história ...

Fico triste, portanto, quando vejo cristãos que deveriam ser esclarecidos na doutrina da Palavra, se posicionarem contra questões tão elementares, como o direito à propriedade, enraizado na própria lei moral que recebemos de Deus, como se isso fosse parte da solução. Dói-me ver a utilização, no nosso meio, de chavões ultrapassados e que não resistiram o crivo da história e das evidências mais gritantes, como "capitalismo excludente", como se isso fosse uma tese provada e não um tema de discussão, para defenderem o comunismo e o socialismo. É perturbador ver a introjeção dessa visão nas diretrizes bíblicas e em seus registros históricos. Se estudarmos com seriedade as Escrituras, rejeitaremos essa visão simplista contemporânea que postula o abraçar de uma ideologia socialista moribunda, às custas do incentivo às liberdades individuais, como remédio para os males sociais. Veremos com maior clareza, igualmente, que a exaltação do homem não produz a justiça de Deus. Identificaremos a necessidade de estarmos defendendo princípios de justiça sem sucumbir a uma cartilha política anacrônica, a clichês superados ou a um alinhamento com porta-vozes do aborto e da amoralidade.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Mais um Prego no Caixão do Método Crítico


Acabo de escrever o prefácio da obra de Paulo Anglada cujo título é Introdução à Hermenêutica Reformada. Fiquei muito honrado com o convite de Paulo. Somos amigos a muitos anos, e apesar da distância -- ele mora em Belém do Pará -- sempre nos mantivemos próximos.

O livro ainda não saiu (mas a capa já está pronta, veja foto ao lado), deve fazê-lo no início do próximo ano. Fiquei impressionado com ele. Praticamente todas as grandes discussões que hoje ocupam os evangélicos no Brasil estão relacionadas com questões de interpretação do texto bíblico. Paulo analisa meticulosamente as principais questões relacionadas à interpretação bíblica e aponta o caminho de uma hermenêutica sólida, teologicamente orientada, e historicamente testada e comprovada, que é a hermenêutica oriunda dos princípios da Reforma protestante e enriquecida com as perspectivas atuais das ciências afins.

É mais munição para os professores e estudantes de teologia que já desconfiaram que o método histórico-crítico, que vem dominando os estudos teológicos nos redutos liberais e influenciando a área de Bíblia em seminários confessionais, está com os dias contados. Oriundo do Iluminismo, tal método tende a desacreditar as Escrituras e a relativizar completamente a sua interpretação, pois nada tem de científico. Ao contrário, é norteado por pressupostos filosóficos e teológicos provindos da incredulidade que dominou os adeptos do liberalismo teológico.

Um dos maiores inimigos do método histórico-crítico, por incrível que pareça, são os métodos surgidos com a posmodernidade, que enfatizam a leitura como produção de significado, o texto como uma reserva inesgotável de diferentes sentidos e a determinação do sentido de um texto pelo leitor, sentido este diferente a cada dado momento. Contudo, os cruzados das novas hermenêuticas, após o trabalho de demolição, não têm conseguido oferecer à Igreja uma leitura bíblica que produza resultados compatíveis com a fé histórica do Cristianismo. É necessário um método que rejeite os pressupostos críticos, mas que mantenha os fundamentos da fé.

A obra de Paulo Anglada oferece uma alternativa aos professores e alunos que desejam estudar a interpretação bíblica de forma erudita sem abrir mão, contudo, dos pressupostos teológicos quanto à autoridade, infalibilidade e inerrância da Palavra de Deus. É uma defesa do consagrado método gramático-histórico, cujas origens remontam à Reforma protestante. Paulo se posiciona na linha de uma nova geração de hermeneutas, como Peter Stuhlmacher, Eta Linnemann, Gehard Maier, Don Carson.

O método histórico-crítico está agonizando, e quando morrer, já morreu tarde. Mas, o que virá em seu lugar? É uma boa oportunidade para os evangélicos mostrarem serviço na área de hermenêutica.

terça-feira, dezembro 20, 2005

O Verdadeiro Espírito do Natal


A antiga revista Manchete, há muitas décadas, costumava publicar traduções semanais das colunas do jornalista-humorista Art Buchwald. Alguns anos atrás uma destas colunas foi intitulada: “Deve-se permitir, às igrejas, abrirem no dia do Natal?” Nela o autor descrevia um evento fictício no qual “um grupo de cidadãos se organizou para protestar a maneira como certas igrejas estão tentando transformar o Natal em um feriado religioso!

O porta-voz do grupo, inventado, presta então as seguintes declarações ao Art Buchwald, na suposta entrevista: — "Bastante dinheiro, tempo e propaganda foram colocados na preparação do Natal, para deixarmos que uma pequena minoria estrague o evento usando este dia para ir à igreja. Não somos contra igrejas,” diz o personagem fictício, “mas somos terminantemente contra estas igrejas permanecerem abertas no dia dedicado ao nosso faturamento...”

Apesar da crônica estar carregada de humor, é triste verificarmos a aproximação da história narrada com a nossa realidade. O Natal tem sido distorcido e seu verdadeiro espírito esquecido. Suas bases e origens foram relegadas a um segundo plano.

Anos atrás a revista Time publicou um artigo mostrando a diferença de ênfases na celebração de Natal existente entre os dias atuais e a prática de algumas décadas passadas. Diz a revista que antigamente se pensava, nesta época, no relacionamento do homem para com Deus; enquanto que agora, pensa-se em termos do relacionamento do homem para com os outros homens. O ponto focal da história de Natal foi esquecido e este fato é refletido nas decorações e “slogans” natalinos da atualidade. Que melhor exemplo para isto do que os cartões que dizem apenas: “Boas Festas!”

Em Gálatas 4.4,5 nós lemos: “Mas vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para reunir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”. Este é o propósito real do Natal. As canções, a mercantilização e mesmo o sentimentalismo fora de Cristo, que são sinônimos desta estação, tendem a obscurecer o significado real deste dia.

O Natal é mais do que um tributo à infância ou às mães; é mais do que um curto espasmo de generosidade e de bondade; é mais do que um incentivo ao comércio e ao lucro; não é meramente uma ocasião para comidas e bebidas, festas e alegrias vazias. É possível nos envolvermos tanto com o papel, os invólucros, as fitas e os cordões, que chegamos a perder o presente real.

Deus, mandando o Seu Filho para redimir aqueles que estão sob a maldição do pecado—este é o verdadeiro milagre e o verdadeiro presente de Natal! Este é o verdadeiro espírito do Natal!

A Bíblia nos diz que o Natal é muito mais do que um congraçamento entre os “homens de boa vontade”, pois é, na realidade, “boa vontade para com os homens”, da parte de Deus. A celebração sem substância do Natal nulifica o seu verdadeiro espírito. Freqüentemente entoamos o hino natalino, “Cantai que o Salvador chegou!” Se esta canção está em nossos corações, a falta de esperança se transformará em alegria e o vazio será preenchido com vida. Não fará muita diferença se estivermos numa multidão ou sozinhos. A alegria do Senhor e as vozes dos seus anjos ressoarão em nossos corações. Isto é o que é o Natal.

Um Feliz Natal para Todos!

Duas palavras a formandos

1. Conhecimento e sabedoria:

Durante boa parte de sua existência nós educadores, caminhamos com vocês para que desenvolvessem não somente conhecimento próprio, mas também sabedoria.

O conhecimento de fatos e eventos, por si só, não é o suficiente para equipá-los à vida. E existe, sim, uma diferença entre conhecimento e sabedoria. Conhecimento é o que vocês sabem ou foram levados a compreender; sabedoria é o relacionamento e a aplicação correta do conhecimento de cada um nas oportunidades e peculiaridades da vida – nas suas situações e contextos.

De nada adianta vocês se destacarem em conhecimento se lhes faltar sabedoria; vocês podem, com muita metodologia, dados e técnica, até, desperdiçar as suas vidas e a de várias outras pessoas ao seu redor, se houver falta de sabedoria.

A aquisição e desenvolvimento do conhecimento dos alunos é parte básica da missão dos educadores. Mas esperamos, de coração, que também os princípios que fizeram parte da sua instrução, os valores que ecoam nas salas e corredores – mesmo quando não verbalizados, mas quando adequadamente praticados – tenham achado abrigo em suas vidas, de tal forma que sejam igualmente pessoas sábias.

Entrando na plenitude da vida adulta e seguindo suas carreiras na Universidade, esperamos que lembrem-se da base da sabedoria – a qual tanto ouviram em sua passagem por nossa Escola - “O Temor do Senhor é o Princípio da sabedoria”.

Não esqueçam de suas responsabilidades para com Deus e desfrutem de uma vida plena, aplicando essa bela juventude e enorme talento, não de forma egoísta, mas nos propósitos maiores da vida.


2. Olhando para o passado:

Numa formatura normalmente falamos muito sobre o futuro. Falamos de como vocês são o futuro e como irão traçar os rumos dos dias que virão. Mas e com relação ao passado? O que vocês farão com suas vidas vai influenciar não somente o futuro, mas vai dar significado ao passado. Isso pode parecer confuso – “como eu posso dar significado ao passado?” Na medida em que vocês aplicarem as coisas que aprenderam, prezarem as pessoas que ensinaram e a instituição na qual foram instruídos, estarão dando significado à memória dessas pessoas – seus pais, seus mestres e também à sua escola.

Serão provas vivas de um passado construído com amor e dedicação. Levarão consigo os toques pessoais que marcaram suas vidas e serão inspirados a demonstrar igual atenção a outros que cruzarão os seus caminhos.

Lembrem-se das palavras do Sábio Salomão, escritas há mais de 2.900 anos, extraídas do livro de Provérbios (23.22-23), as quais, parafraseadas, ponderam:

Escute os seus pais, pois você lhes deve a vida e não despreze a sua mãe quando ela envelhecer. Adquira a verdade, a sabedoria, a instrução e o bom senso e não se desfaça de nenhuma dessas bênçãos.

domingo, dezembro 18, 2005

Paipóstolo? Essa não!

Eu sabia que ando meio desatualizado, mas não sabia que era tanto assim. Fui tomado de surpresa quando na sala de aula, após criticar a voracidade com que líderes evangélicos se auto-atribuem títulos cada vez mais elevados (pastor, bispo, apóstolo, nesta seqüência), um aluno disse que já existe "paipóstolo", o pai dos apóstolos. Não acreditei. Tive que ir à Internet e fazer uma pesquisa. Lá de Manaus, eis que surge o "paipóstolo"!

É tão rídículo que por uns instantes fiquei atordoado. E mesmo que o tema nem valha uma reflexão séria, e mesmo que outros na Internet já expressaram total repúdio, achei que devia dizer alguma coisa. Primeiro, paipóstolo não faz o menor sentido. Se a intenção era querer dizer "pai dos apóstolos", furou. Pois pai+póstolo não significa nada. "Póstolo" é o quê? A palavra grega, da qual se origina apóstolos, é apostolos. Não é postolos. Começa por aqui.

Depois, não acho que este tipo de coisa é o resultado de megalomania ou soberba. Não, acho que existem motivos mais rasteiros. No fim, acho que é dinheiro mesmo. Pois o paipóstolo logo em seguida lançou a campanha da unção dos nobres, que lhe renderá milhões. Neste jogo, ganha quem for maior, mais elevado e tiver mais poder. E quem é acima de um paipóstolo? (por enquanto, ninguém, mas quem viver, verá).

Só falta aparecer uma "mãepóstola". E o pior, é que já apareceu mesmo, a esposa do referido paipóstolo.

O Senhor Jesus disse que não deveríamos ser chamados de mestres dos homens, pois um só é nosso Mestre, o Cristo. Com isto ele estava proibindo a arrogância e o desejo de dominar sobre os outros. O autor de Hebreus, ao comentar sobre o sacerdócio, diz que ninguém toma para si mesmo essa honra, senão aquele que é chamado por Deus (Hb 5:4). Quando me senti chamado ao ministério, mesmo que soubesse que era uma boa aspiração (1Tm 3.1), relutei por um tempo, considerando a grandeza da honra e da responsabilidade. Todos os profetas do Antigo Testamento, quando chamados por Deus, tremeram diante da responsabilidade da função. Moisés, a mesma coisa. Quando vejo líderes evangélicos subindo vorazmente numa escalada de títulos que eles mesmos inventaram, não vejo ai o Espírito de Deus, mas o espírito deste mundo, o anticristo, que mediante falsos profetas engana as multidões.

E o pior de tudo é a falta de discernimento do povo, que segue após tais pessoas... estava certo quem disse que os evangélicos no Brasil têm a alma católica, que anseia por um papa.

"Eles são do mundo. Por isto o mundo os ouve" (1Jo 4:5).

Reflexões Relâmpago sobre Pós-Modernidade

Afinal, o que é uma mente pós-moderna, ou uma audiência pós-moderna? Na minha compreensão:

  • Aquela pessoa que, como o rei Agripa (Atos 26.28) , diz: "por pouco me persuades...", mas como verdades conflitantes podem coexistir pacificamente lado-a-lado, fico na minha e você na sua.
  • Aquela pessoa que tem a consciência cauterizada pela convivência continuada com o erro e pela prolongada falta de ênfase em absolutos e em verdades universais.
  • Aquela pessoa que tem a sensibilidade distorcida pela freqüente exposição à pecaminosidade da era e já não se choca mais com descalabro algum, por maior que seja o pecado apresentado, mas aceita tudo como parte de uma sociedade pluralista e multiforme. Essa sociedade é encarada por esss mentes como não apenas uma realidade inexorável, mas uma forma desejável de existência.

É nesse contexto contemporâneo que somos chamados a ser proclamadores das verdades de Deus!

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Não Fazem Mais Liberais como Antes



Uma coisa que eu sempre gostei dos antigos liberais alemães e americanos foi o radicalismo das suas idéias e a criatividade. Ficava impressionado com a coragem deles em cruzar as linhas que claramente demarcavam o solo santo da fé histórica da Igreja. Nunca entendi direito como alguém que não cria que a Bíblia era a Palavra de Deus, que não cria na Encarnação, que não cria na Ressurreição física e literal de Jesus, ainda podia ter algum interesse em estudar a Bíblia. Mas, eles não somente negavam tudo isto e muito mais, como também demonstravam uma criatividade extraordinária em explicar o que acreditavam que realmente havia acontecido na Igreja e em Israel. O bom da coisa é que eu sabia desde cedo com quem estava lidando. As linhas demarcatórias eram claras. Como disse Machen, o liberalismo não é cristianismo, mas uma outra religião. E isto ficava claro nos próprios livros dos liberais.

Mas hoje é diferente. Todo mundo nega que ainda existam liberais. Num sentido, é verdade. Pois o liberalismo teológico, como movimento e metodologia, já foi desacreditado. Os neo-liberais, sucessores dos próprios, são de outra estirpe, todavia. Prefiro os antigos liberais. Os neo-liberais não são radicais e nem criativos. Não tomam posição. Não falam claro. E nem escrevem claro. Preferem o caminho da ambiguidade, da incerteza, da mornidão, do crepúsculo. Você nunca sabe em que realmente um neo-liberal acredita. Nem quando ele fala e nem quando ele escreve. Uma vez um neo-liberal veio conversar comigo sobre a existência de um Adão histórico. Teria existido realmente? Durante a conversa toda fiquei sem saber se ele acreditava ou não que Adão havia existido realmente, se ele estava perguntando porque tinha dúvidas ou porque desejava ouvir os argumentos da minha parte. Os alunos de professores neo-liberais geralmente saem divididos da aula: "O professor acredita na Bíblia!" diz um. "Como?", responde o outro, "ele chamou tudo de mito!".

E a queda que os neo-liberais têm para o pentecostalismo? Aí é que confunde tudo! Acho que os pentecostais não reconheceriam os neo-liberais como filhos legítimos. Ninguém nem sabe se eles acreditam na personalidade do Espírito Santo e se acreditam que milagres aconteceram (e acontecem). Os antigos liberais, contudo, permaneciam geralmente na tradição de suas igrejas. Bultmann (foto ao lado) foi, até morrer, diácono da Igreja Luterana.

Seminários onde não se ensina nem o liberalismo e nem o cristianismo histórico (não usei "fundamentalismo" de propósito), e onde não existe uma linha definida, são fábricas de neo-liberais. Eles saem de lá desacreditando da teologia, pois tantas dúvidas foram semeadas que não sabem mais como acreditar firmemente em alguma coisa. Daí, no ministério e na vida pessoal as opções são o pragmatismo e/ou o pentecostalismo. E em vez de teologia, passam a gostar de poesia.

Os antigos liberais eram impressionantes pela firmeza, pela clareza e pela coragem. Vários perderam seus empregos e ministérios por tomarem posição clara, como Strauss (foto ao lado), que publicou suas idéias acerca do Jesus histórico. Seus herdeiros, os neo-liberais, nem mesmo eles sabem em que acreditam, pois acreditam em tudo. Não se fazem mais liberais como antigamente.

A Fé que Salva

O movimento histórico conhecido como a Reforma do Século 16 ocorreu há quase 500 anos, iniciado quando Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, pregou 95 teses, ou declarações, na porta da catedral de Wittenberg, que pastoreava. Lutero foi um homem que atravessou uma profunda experiência de conversão, pela qual teve os olhos abertos à simplicidade dos ensinamentos contidos na Bíblia. Comparando esses ensinamentos com o que era pregado e praticado na igreja dos seus dias, Lutero encontrou diferenças marcantes. Ele verificou como, ao longo do tempo, distorções haviam sido introduzidas, de tal forma que o povo era conservado em ignorância espiritual, privado das verdades reveladas na Palavra de Deus que podem levar à salvação. Os reformadores (Lutero e os que se seguiram a ele) procuraram resgatar a mensagem que salva e que pode levar os homens de volta ao seu destino original, reconciliando pecadores com o Deus santo que rege os céus e a terra.

Os historiadores têm, normalmente, identificado quatro pilares da Reforma do Século 16. Quatro temas principais que dominaram os escritos e ensinamentos dos reformadores, por serem essenciais à propagação da sã doutrina. Esses “pilares” são normalmente identificados por palavras latinas, não tão difíceis de compreender: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide e Solus Christus. Vamos identificar esses significados e ver a relação deles, um para com os outros, bem como a razão da Reforma ter se concentrado nesses temas.

Sola Scriptura, significando que somente as Escrituras providenciam a fonte do nosso conhecimento religioso, das coisas espirituais cujo conhecimento é essencial à compreensão da vida. Essa era uma ênfase necessária, pois a igreja havia incorporado muitas doutrinas que não procediam da Bíblia, mas meramente de tradições humanas. Questões tais como culto às imagens, a existência do purgatório, etc., faziam parte das doutrinas ensinadas ao povo. Os reformadores, investigaram e deram um sonoro “não” a esse ensino e à consideração da “tradição” como fonte de autoridade igual ou superior à Palavra de Deus. Eles consideraram, corretamente, que isso era mortal para a saúde espiritual de qualquer um e da própria igreja.

Sola Gratia, significando que somente a Graça de Deus é a origem da nossa salvação. Na época da reforma, e mesmo nos nossos dias a tendência humana é a de exaltar a habilidade humana de salvar-se a si mesmo. Os reformadores apontaram que a Bíblia indica sem sombra de dúvidas que somente a graça de Deus, o favor não merecido da parte dele, origina um meio de salvação. Estamos todos mortos em delitos e pecados e, conseqüentemente, nada podemos fazer para nossa própria salvação. A iniciativa, de providenciar um plano de salvação, é de Deus e dele procedem todas as providências, nesse sentido.

Sola Fide, significando que somente a Fé é o meio pelo qual nos apropriamos da salvação efetivada por Cristo Jesus para o seu povo. Se a iniciativa da salvação é a graça de Deus, a Fé representa a resposta a essa iniciativa. Essa ênfase, extraída da Bíblia, era muito necessária, pois enfatizava-se as ações humanas como forma de se adquirir a salvação. Vendiam-se indulgências – pedaços de papel que, segundo os vendedores, representavam uma espécie de passaporte para o céu. Quanto mais se contribuía, mais certeza se obtinha, diziam eles, do perdão de pecados – do próprio comprador ou de parentes ou amigos que desejava beneficiar. Lutero e os demais reformadores, não encontraram qualquer base para esses ensinamentos nas Escrituras. Eles identificaram a Fé como sendo a resposta humana, provocada pelo toque regenerador do Espírito Santo de Deus, no processo de salvação.

Solus Christus, significando que somente Cristo é a base da nossa salvação. Somos salvos somente pelos méritos e pelo sacrifício de Cristo e não com base em qualquer outra situação ou ação humana. Cristo é o nosso único intermediário – assim a Bíblia especifica – e isso contrasta com tudo o que se ensinava, e ainda se ensina, relacionado com a intermediação de Maria e de outros “santos”.

Além dos “quatro pilares”, acima explicados, adiciona-se normalmente mais um: Soli Deo Gloria– Glória a Deus somente, significando o propósito da existência de nossas pessoas e de tudo o que temos ao nosso redor. Essa ênfase, igualmente bíblica, foi surgindo com o trabalho dos reformadores que se seguiram a Lutero, especialmente com o de João Calvino, que ensinou a doutrina da vocação – o chamado de Deus para que nos envolvamos em todos os aspectos da vida, sempre centralizando nossas ações na glória que é devida a Deus. Deus fez todas as coisas para sua própria glória e nos enquadramos em nossa finalidade e encontramos a felicidade quando abraçamos esse ensino em nossas vidas.

No meio desses pontos cardeais, dessas ênfases centrais nas doutrinas bíblicas, é interessante notarmos que Martinho Lutero considerava a questão da fé: Sola Fide – Somente a Fé, como sendo aquela ênfase crucial, que devia ser propagada e defendida a qualquer custo. Obviamente que, para ele, todas as demais eram importantes, mas com a questão da fé – como único e exclusivo meio pelo qual nos apropriamos da salvação – ele tinha um cuidado todo especial. Possivelmente isso ocorreu porque foi estudando a doutrina da fé que ele foi atingido pela contundência da mensagem divina de salvação. Lutero, atribulado porque estava acostumado a ouvir a pregação das indulgências, ou a validade de relíquias e amuletos, como meios de se tornar agradável a Deus, identificou-se como “um pecador perante Deus com a consciência atribulada”. Ele estudava a carta de Paulo aos Romanos, mais especificamente o capítulo 3, quando se deparou com a declaração: “o justo viverá pela fé”, no verso 28. Lutero escreveu o seguinte: “...então eu compreendi que a justiça de Deus é o fundamento de direito pelo qual, pela graça e pela misericórdia, ele nos justifica através da fé. Imediatamente eu me senti como se tivesse atravessado uma porta aberta e penetrado no paraíso”.

Assim, a justificação pela fé passou a ser uma das doutrinas centrais dos que abraçaram a fé reformada, que ficaram historicamente conhecidos como “protestantes”. Lutero escreveu, ainda: “esta doutrina é a principal e a angular. Somente ela gera, nutre, constrói, preserva e defende a igreja de Deus; sem ela a igreja de Deus não sobreviverá por uma hora”. O ensinamento bíblico, principalmente contido no terceiro capítulo de Romanos, sobre a justificação pela fé, não significa que nós somos considerados justos com base na fé. A base de nossa justificação é Cristo e o seu sacrifício na cruz, com a subseqüente vitória da morte, obtida em sua ressurreição. Somos salvos, portanto, pela Graça de Deus, por meio da fé, com base no trabalho de Cristo. Explicando o que é justificação, João Calvino nos ensina que ela “consiste no perdão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo”. Uma das expressões que ele utiliza, é a de que os cristãos são “inseridos na justiça de Cristo”. Ou seja, não temos justiça própria, mas recebemos a justiça de Cristo sobre nós.

Na carta de Paulo aos Efésios (capítulo 2, versos 8 a 10), lemos: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. A fé, aqui mencionada, é essa fé que salva. Aprendemos, nestes versos, que somos salvos somente pela graça proveniente de um Deus soberano. A fé, é o meio – “mediante a fé”. Mas note que não temos qualquer razão ou motivo de nos orgulharmos de termos exercitados fé. Nem temos qualquer prerrogativa ou direitos perante Deus. Somente exercemos a fé, porque ela é dom de Deus. Ele é que nos concede esse meio de resposta ao seu toque salvador. Aprendemos, também, que a salvação não vem das obras – não podemos nos orgulhar, ou nos gloriar, das nossas ações, pois elas não levam à salvação. No entanto, somos instruídos sobre o verdadeiro relacionamento entre graça, fé e obras (ações). Não existe graça verdadeira, sem a respectiva fé que salva. Não existe fé salvadora, sem as evidências dessa salvação, dessa transformação de vida – as obras, as ações de mérito, representadas pelo cumprimento dos mandamentos e das diretrizes divinas contidas nas Escrituras e que existem “para que andemos nelas”.

Essa é a fé que salva. A fé que não é simplesmente uma manifestação mística em algumas coisas. Muitos têm fé sincera em objetos que não podem salvar – em ídolos, em ritos de umbanda, em espíritos desencarnados. Mesmo em sinceridade, essa fé leva à perdição. Somente a fé em Cristo Jesus é fé salvadora (Atos 4.12: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”). A fé que salva é conseqüência natural da graça. A fé que salva não é incompatível com as obras, mas as obras são uma conseqüência necessária a essa fé. Há quase 500 anos os reformadores entenderam isso e resgataram essa doutrina que não estava sendo ensinada e se encontrava velada debaixo do entulho de tradição humana que a havia soterrado. Você entende que essa fé é o único meio para a sua salvação?

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Reflexões da família assistindo Nárnia!

O Leão a Feiticeira e o Guarda-roupa

Fui assistir ao filme da série Nárnia com meus filhos Avner (12) e Nina (9). Posso começar dizendo que gostei imensamente da produção e da razoável fidelidade do script ao livro de C.S. Lewis. Com isto não quero dizer que endosso toda a teologia do autor e a teologia ‘extra’, adicionada por Disney. Algumas coisas poderiam deixar um fã de Lewis muito chateados, e outros, teologicamente plugados, muito preocupados. Se você não leu o livro ou assistiu ao filme, esta mensagem pode não fazer muito sentido!

Entre os problemas da teologia de Disney acrescentada ao livro, está o fato de que o pai de Aslam é substituído pela ‘mágica que governa’. Logo, o ‘Imperador que governa além do mar’ torna-se uma força impessoal (mais no estilo Senhor dos Anéis). Outro problema é que Aslam, no livro, é muito mais poderoso e efetivo na sua autoridade do que a forma como está representado no filme. Uma boa resenha do filme, em inglês, encontra-se na revista Christianity Today.

No entanto, o que eu gostaria de comentar foram as reações que nós 3 tivemos durante o filme. Li o livro há muitos anos atrás (mais de 15, com certeza, talvez 20). Quando soube do lançamento do filme, neste ano, recomendei ao meu filho (de 12 anos) que lesse o livro, o que ele fez com prazer. No cinema, nossa expectativa era grande. Até o grupinho de adolescentes que, certamente, tinha ido ao cinema para fazer mais barulho do que o filme foi se calando depois das primeiras cenas. Minha mente esforçava-se para buscar na memória os detalhes da minha leitura de muitos anos antes e comparar com o que eu estava vendo. Minha experiência tem sido de que o filme é sempre decepcionante com relação ao livro. Mas fiquei surpreso.

O filme é envolvente e profundo, ainda que tenha sacrificado alguns diálogos importantes do livro. Outros foram bem mantidos, garantindo a integridade da maior parte da história. A parte mais envolvente do filme é quando Aslam, aquele que todos esperavam para salvar Nárnia, se entrega para ser morto em lugar de um menino, Edmundo, que era rebelde contra seus irmãos e traidor do povo de Nárnia. A caminho do seu lugar de sacrifício, pelas mãos da Feiticeira Branca, Aslam afirma a dois personagens (as filhas de Eva), que era necessário que ele fosse. Nesta altura, minha filha pediu para assentar-se ao meu lado e me disse: “Papai, não estou entendendo o filme”. Veio para o meu colo e eu rapidamente expliquei o caráter representativo dos personagens no filme. Não creio que ela não estivesse entendendo, mas estava hesitante em fazer as conexões da história que ela bem conhecia, e que normalmente não via nos filmes. Quando Aslam finalmente se apresenta para o sacrifício humilhante, meu filho se inclina, algumas cadeiras de distância, e diz: “Pai, é igualzinho na Bíblia!”. Minha sensação, naquele instante, é que ambos compreenderam, no filme, o conceito de redenção. Esta é a proposta de Lewis em seu livro e, pelo menos nós três, tivemos este impacto.

É claro que Aslam, que se entrega para o sacrifício para salvar o menino, (segundo as leis de Nárnia, um traidor teria que ser morto) ressuscita. É impossível para alguém que conhece o que é a redenção graciosa de Cristo e está entendendo o filme não se emocionar nesta altura. Outro elemento interessante é que ao final, quando o reino de Nárnia é restaurado, os dois filhos de Adão e as duas filhas de Eva são coroados como reis e rainhas. Edmundo, que é o pivô da traição contra os irmãos e contra Aslam, é coroado como ‘Edmundo, o justo’. Estes detalhes fazem com que os conhecedores da teologia alinhem seus pensamentos. A última cena reafirma que Aslam, agora se retirando no horizonte, vai voltar.

Termino recomendando o filme e dizendo aos pais cristãos que esta é uma excelente oportunidade de mostrar a história da redenção fora do ambiente regular da igreja e do culto doméstico. Lembro aos que forem ver o filme que se trata de FICÇÃO, e, portanto, buscar a harmonia de todos os elementos que aparecem no filme com aspectos da teologia é como interpretar cada elemento de uma parábola: impossível sem que se conclua uma bobagem! Também recomendo ir com não crentes para assistir ao filme e usar da oportunidade para explicar o conceito de redenção. Ainda que a mensagem esteja lá, quem não conhece a história bíblica não entenderá a preciosidade dos conceitos sem que haja quem os explique.

Mais um link: uma reflexão sobre o livro, por Jerram Bars, "Echoes of Eden in C. S. Lewis' The Lion, the Witch, and the Wardrobe"

O País dos Doutores

Não gosto muito de começar minha participação nesse blog falando desse assunto. Mas, por falta até de maior inspiração, lá vai. "Doutor" significa professor em latim. Por séculos, tem sido usado na Europa como um título acadêmico honrado, desde o surgimento das primeiras universidades. A mesma coisa ainda ocorre hoje, inclusive no Brasil. São doutores aqueles que obtiveram o título após anos de estudo intenso numa instituição reconhecida, inclusive com pesquisa. Há também os que portam o "doutorado em ministério". E há os doutores honoris causa, que às vezes são os que mais fazem questão de portar o título.

Após participar em muitas cerimônias, reuniões solenes e cultos aqui e pelo Brasil afora, acabei rascunhando num envelope, durante uma destas cerimônias, algumas reflexões sobre o uso do título "doutor" no cerimonial de tais eventos. É "doutor" prá lá, "doutor" pra cá... Além disto, sei que em vários quartéis da minha própria denominação, existe uma espécie de rejeição ou resistência aos pastores que são "doutores" da Igreja, como se o fato de um pastor ter este título, em si só, já seja um sinal de vaidade e presunção. Bom, aqui vão minhas reflexões.

Seguindo o costume americano, "doutor" é usado no Brasil para advogados, médicos, delegados, juizes, etc., mesmo que nunca fizeram uma pós-graduação lato sensu. Lembro-me de uma vez em que fui pregar em uma igreja em Terezina. Na hora da apresentação dos visitantes, o pastor apresentou o "doutor" fulano de tal, advogado famoso da cidade. E virou-se para mim, que havia acabado de ter o meu doutorado reconhecido pelo MEC, e me apresentou como o famigerado pastor Augustus (depois é que fui ver no dicionário que famigerado significa primariamente alguém bem afamado...).

Vejo com freqüência "doutor" ser usado para empresários, donos de fábricas, empresas, fazendeiros bem sucedidos, deputados, etc. Sei da história de um empresário, dono de uma fábrica, que usa inclusive o título em seu cartão de visitas e mal tem o segundo grau completo. Todos na empresa o chamam de doutor. Quando a secretária dele fala comigo, ou me escreve, se refere a ele como "Doutor" Fulano.

"Doutor" é também usado para aqueles que ocupam a posição de alta direção em instituições privadas. Em muitas delas, os membros da alta direção são chamados de "doutor", quando na verdade apenas um ou outro realmente têm doutorado. É interessante também que no cerimonial de instituições privadas evangélicas, os membros da alta direção são chamados de "doutores" nos eventos, enquanto que os pastores que também trabalham lá, e que são doutores de facto, são mencionados como "reverendos"...

Um lado curioso desta cultura arraigada é como as pessoas são tratadas quando se tornam diretores. Primeiro, passam a ser chamadas de "doutor", e aceitam com uma certa relutância. Passa o tempo e se acostumam. Quando saem do cargo, no dia seguinte passam a ser referidas como o "senhor" fulano de tal. É o caso mais rápido de perda de um título que eu conheço...

E por fim, "doutor" é o título honorífico dado pelos flanelinhas a todos os que estacionam o carro sob seus cuidados em qualquer rua da cidade, dado pelos garçons de restaurantes mais caros aos clientes que aparecem com paletó, e assim por diante.

Viva o Brasil, o país dos doutores!

Bom, é só uma reflexão boba que fiz... pensando bem, não faço questão alguma de ser chamado de doutor, embora não negue que me faça bem, pois sei o quanto lutei para obter este título. Também não deixo de chamar de "doutor" os que se enquadram nas situações acima. Mas ao final, prefiro ser chamado de pastor mesmo. É o que sou, no íntimo do meu coração.

Qual a visão estética correta?

Questões éticas são bastante explicitadas na Palavra de Deus. No entanto, nas questões estéticas e culturais, existe uma subjetividade que as ligam aos locais, às eras e às próprias pessoas em seus diferentes estágios etários (coisas que nos interessam e nos parecem belas na juventude podem ser bem diferentes, na meia idade e na avançada).

Esse condicionamento cultural de certas questões não é desconhecido pela Bíblia. Não creio que possamos falar em uma estética Bíblica nos mesmos termos em que podemos falar em uma ética bíblica. A última é, certamente, muito mais proposicional do que a anterior.

Certas orquestrações e ritmos utilizados nos Salmos eram condicionados a diferentes ocasiões e situações. A divisão não era entre o que era esteticamente aceitável e o que era "do mundo", mas entre o que era recomendável e prescrito a uma determinada situação, mas que não caberia na outra. Trazendo essa questão para a cena contemporânea, nem todo cântico e instrumentação cabível em um acampamento, por exemplo, deve,
necessariamente ser trazido ao local de culto ou ao culto solene, mas isso não significa que um seja do mundo e o outro "sagrado".

Essa é minha compreensão da questão. Cruzar essa linha, significa pontificar e impingir a outros nossos próprios gostos e compreensão estética e gerar um pouco de confusão. O que seria uma estética "de Deus", na pintura? Apenas a representação mais fiel possível da realidade? Naturezas mortas, ou vivas - congeladas? Certamente muitas pinturas são verdadeiras distorções e refletem uma visão niilista da vida, mas há lugar para a pintura abstrata? Para uma mera combinação de cores que agrada a vista? Mas que combinação é essa - ela pode agradar a um, em uma determinada situação de ânimo, mas agredir a outro, que está necessitado de ser aquietado.

Nossa visão religiosa tende a ser prescritiva em excesso, postulando o que é "de Deus" como um reflexo e projeção de nossa formação e gostos - essa é uma trilha perigosa, a qual os pentecostais já percorreram e se feriram nela. A visão reformada, creio, é muito mais ampla, especialmente pelo reconhecimento e acato da Graça Comum, que possibilita a realização de cultura e obras de mérito e qualidade - estética "de Deus" - até aos que
negam a ele.

Com relação à questão do ritmo, até mesmo o Robert Dabney, teólogo reformado da estirpe dos Hodges (contra os quais discordou por razões políticas, na guerra de secessão, mas que era alinhado teologicamente com eles), escrevendo sobre "A questão da dança", posicionando-se contra a dança entre sexos opostos, escreveu: "Ninguém pode afirmar que existe pecado, per se, meramente na movimentação rítmica dos membros humanos ao som da música" (Discussions: Evangelical and Theological, 2 Vols., Banner of Truth, p. 561).

Não estamos defendendo coreografia cúltica, apenas utilizando um exemplo, mas ousaríamos brandir como satânico aquilo que simplesmente foge dos nossos gostos pessoais? Muitas vezes fazemos exatamente isso.