segunda-feira, setembro 24, 2007

O Relativismo Multicultural e o Infanticídio Indígena no Brasil

No post anterior fiz referência à análise social de Os Guiness, onde ele apresenta os três caminhos que têm sido seguidos para resolver a convivência com as profundas diferenças da humanidade. Ali, detalhei o que seriam o Universalismo Progressivo, o Relativismo Multicultural e a Aliança Cívica Plural. Quero me deter no Relativismo Multicultural, pois esta visão está bem presente em nosso país e com resultados desastrosos, especialmente no tratamento de uma questão muito contemporânea: a do infanticídio indígena, que tem ceifado inúmeras vidas, perante o olhar impassível de antropólogos e autoridades. Estes têm considerado essa questão apenas como uma peculiaridade de uma cultura, que não pode ser contraditada.

Já apontamos como a suposta convivência harmônica de diferenças, no Relativismo Multicultural, se mantém com o sacrifício do reconhecimento de absolutos éticos. Indicamos como o grande perigo existente nesse caminho é o fechamento dos olhos ao mal explícito, rotulando ocorências condenáveis como legítimas, válidas e inquestionáveis, por serem expressões culturais.

Pois é exatamente isso que vem ocorrendo em nosso meio. O antropólogo e teólogo Ronaldo Lidório, entre outros, já chamou atenção para os assassinatos de crianças que ocorrem nas culturas indígenas, no artigo: Não Há Morte Sem Dor e em sua “Carta Aberta Sobre o Infanticídio Indígena”. Os questionamentos dessa prática, entretanto, e até a simples discussão da mesma, é vista com maus olhos não somente pelas autoridades cegas pelo relativismo multicultural, mas também pela maioria da mídia, que embasa suas pautas e reflexões com igual descaso pelo que seria certo e o que seria errado – obviamente por não aceitar a premissa de que existem, sim, valores universais absolutos.

A matéria da Revista VEJA de 15 de agosto de 2007 representa uma grande exceção nessa insensibilidade imoral, trazendo uma visão favorável à ação de missionários que têm se colocado contra a prática do infanticídio em comunidades indígenas do nosso país. O senso de certo e errado das pessoas (que, teologicamente, identificamos como “a lei de Deus impressa em seus corações” – Rom. 2.15), despertado por esta reflexão, gerou muitas cartas de apoio à reportagem que apontava a inatividade e incompetência da FUNAI para resolver essas situações.

Um dos poucos parlamentares que têm se alinhado contra esses assassinatos que ocorrem no nosso solo é o Deputado Henrique Afonso. Henrique Afonso, presbiteriano, do Acre, tem tomado posições firmes nesta e em outras questões relacionadas com a vida e com a família, com singular independência, seguindo sua consciência de cristão, muitas vezes contra a orientação do seu partido (PT). De sua autoria, está na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados um projeto de lei que, se aprovado, aumentará a pena de quem comete ou permite infanticídio em populações indígenas. O PL 1057/2007 criminaliza 12 práticas tradicionais reconhecidamente nocivas.
São muitas as vozes de apoio? Não! O Centro Feminista de Apoio e Assessoria – Lobby esquerdista e com posturas declaradamente contrárias à vida e à família, se opõe claramente a este projeto lei, chamando-o de “repressivo” em seu site: “Ele precisa ser discutido com as mulheres indígenas, que serão as principais atingidas pela nova legislação”, diz Myllena Calasans, assessora parlamentar do CFEMEA para a área de direitos humanos.

Pago com o seu e o meu imposto, temos uma Comunidade de Discussão do Poder Legislativo – Interlegis (Senado e Câmara). Nesse site somos brindados com a notícia de que “Antropólogos e representantes de povos indígenas defenderam, nesta quarta-feira, o direito de as tribos decidirem sobre infanticídio”. Os depoimentos ocoreram em uma audiência pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias. A representante das mulheres indígenas no Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres, Jacimar de Almeida Gouveia (da etnia Kambeba), disse que a decisão deveria ser somente das famílias. Ela criticou a atuação de organizações não-governamentais (ONGs) que retiram crianças deficientes das aldeias para levá-las para as cidades.

Vejam a explicação ela para o infanticídio: "Quando uma família decide eliminar um de seus membros, é feito um ritual, que tem um significado, e o assunto é encerrado. Ao contrário, quando uma criança é retirada da aldeia a dor não tem fim, pois eles ficam impedidos de saber qual foi o desfecho". Muito lógico, não? Permitam, consintam e defendam o infanticídio para que a família não fique supostamente desconfortável com um dor que é subjetiva e não aferível. Trocamos o fato concreto de uma criança sacrificada, pelo relativismo cultural intangível da proteção à cultura – muito civilizado!

Mas o que nos espanta, mesmo, é a notícia, no mesmo site (Interlegis) das palavras do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Augusto Freitas Meira, e da representante do Fórum de Defesa dos Direitos Indígenas (IDDI) Valéria Payê. Esses especialistas, de carteirinha, “defenderam o direito às diferenças culturais”. O presidente da Funai fica em cima do muro do relativismo ético e, agradando aos antropólogos, diz: “A análise requer cautela, pois o tema é delicado e complexo e não deve ser reduzido ao julgamento moral das práticas e tradições indígenas”, ao que Valéria Payê complementa que os indígenas não podem se submeter aos padrões morais e culturais dos brancos. “Eles têm direito a uma concepção própria de direitos humanos. Por que os povos indígenas deveriam aceitar a visão dos brancos sobre direitos humanos como a única correta?”

Do ponto de vista antropológico o Brasil é um dos países mais radicais na defesa do não intervencionismo e relativismo cultural. A influência relativista está alojada na ABA (Assoc. Bras. de Antropologia), na FUNAI e nas principais ONGs que lidam com a questão indígena. Em seus artigos, Lidório relata vários fatos de diversas culturas que demonstram não ser o infanticídio uma peculiaridade dos nossos índios. Diz ele que “o infanticídio... não é um fato isolado nem mesmo reside em um passado distante; é uma experiência atual”. Nem por isso pode passar em branco sem ser contestado; sem que a sociedade condene a prática e ofereça alternativas para as culturas que a pratica.

O missionário Edson Massamiti Suzuki afirma que “a prática do infanticídio é uma realidade até os dias de hoje, e que a cada ano dezenas de crianças são enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer na floresta. Mães amorosas são muitas vezes forçadas pela tradição cultural a trair seus instintos e desistir de suas crianças. Algumas preferem se suicidar a fazer isso. Outras têm que conviver com a dor e o remorso pelo resto da vida. Em alguns casos, as mães lutam pela vida de seus filhos enquanto podem, e são obrigadas a viverem excluídas da sociedade ou a se refugiar fora da sua comunidade”.

Poucos, entretanto, estão interessados nos direitos dessas mães, ou nos direitos das crianças, tudo por uma suposta proteção relativista do “direito” de proteção à cultura. Um dos que estão, na cidade de Tupã, estado de São Paulo, é o vereador Airton Peres Batisteti, que se posicionou contra o infanticídio indígena e tem propostas sobre a matéria. Ele disse o seguinte sobre essa questão: “mesmo sendo uma violação aos direitos humanos, o infanticídio acaba sendo protegido pelos órgãos oficiais, sob a política de não interferência cultural”.

O deputado Luiz Couto, do PT da Paraíba, nos diz em outro site oficial, pago por nós (Rádio Câmara), que o importante nessa questão de infanticídio é o debate: “Ninguém é dono da verdade. É, nós achamos que é fundamental o respeito a vida mas também o respeito às diferenças... Nós queremos efetivamente que outros debates possam acontecer”.

E assim, assepticamente, como se vidas não estivessem envolvidas e sendo ceifadas, vamos debatendo. No caldeirão do relativismo multicultural, cabe tudo. Fechamos os olhos até a assassinatos, porque, acima de tudo, está o respeito às diferenças em um mundo do qual se aboliram os valores éticos universais e fundamentais.

domingo, setembro 16, 2007

Como Conviver com Diferenças Profundas? Guinness no Mackenzie

Neste mês de setembro de 2007 o sociólogo, erudito palestrante internacional e pensador Os Guinness, esteve proferindo conferências na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em Brasília e em São Paulo. Em uma das palestras ele apresentou a necessidade de ordem e paz no mundo como sendo um dos problemas cruciais da atualidade. Nesse sentido, chamou a atenção para o fato de que a quebra dessa ordem e paz nos legou, só no último século, cerca de 300 milhões de pessoas mortas: 1/3 em guerras declaradas; 1/3 em repressões políticas e 1/3 em função de violência étnica e religiosa. Assim, essa questão estaria acima até de outros problemas modernos, tais como a disseminação do HIV e a criminalidade desenfreada em nossas metrópoles.

De acordo com Os Guiness a busca de uma sociedade harmônica – ou a resposta à pergunta: “Como conviver com nossas profundas diferenças?” – têm se alinhado em três vertentes ou visões principais:

  • O Universalismo Progressivo

  • O Relativismo Multicultural

  • A Aliança Cívica Plural

O Universalismo Progressivo seria o caminho advogado por aqueles que, partidários de forte ideologia ou crenças, procuram progressivamente universalizar o pensamento comum dos cidadãos. Essa busca pela universalização superaria até considerações éticas; os valores devem ser impostos; os métodos a serem aplicados seriam aqueles que funcionam.

Os Guinness aponta que muitos procuram incluir o cristianismo nesta vertente, mas isso é um erro, pois o cristianismo verdadeiro não se alicerça, se espalha ou se amplia por coação ou força externa, e sim por persuasão interna. A “espada” brandida por Jesus e seus seguidores é poder persuasivo da Palavra (Ef. 6.12 e Ap. 2.16) e não uma luta militar “contra carne e sangue”. O cristianismo de Constantino – que decretou pela espada a conversão de todos os habitantes do império, não é a expressão real dos proclamadores das boas novas, mas uma distorção. Reconhece-se, entretanto, que é verdade que ao longo da história outros movimentos sob bandeiras “cristãs” (como as Cruzadas) têm emulado essa mesma distorção.

Nessa categoria, do universalismo progressivo, na realidade, se incluiriam o comunismo, o islamismo, os movimentos étnicos e tribais geradores de genocídios na África (como o massacre dos Tutsis pelos Hutus, em Ruanda, que resultou na morte de 500 mil pessoas; e o massacre dos Zurgas, em Dafur, no Sudão, que resultou em um milhão de mortos, já neste século 21), e outros semelhantes. Certamente tal universalização por coação não é a resposta. A suposta “harmonia” gerada vem à custa da liberdade de consciência e da liberdade individual. As pessoas são reduzidas a meras peças de um jogo de xadrez no qual se busca a supremacia pela aniquilação do contraditório.


A segunda visão, o Relativismo Multicultural, se apresenta como sendo um caminho muito atraente. Esse ponto de vista está intensamente presente no mundo acadêmico e nas culturas ocidentais e é avidamente defendida pelos antropólogos. Ela parte da observação correta da existência de muitas culturas e especifica uma tolerância abrangente e eclética. Todos devem demonstrar tolerância às expressões da multiculturalidade, ou seja, aos valores e práticas específicas das diversas culturas, em suas áreas de manifestação, presença e influência.

Acontece que esse caminho pode ser até gerador de uma convivência harmônica, mas esta é tão somente aparente, pois traz em si um enorme perigo latente: é calcada em um relativismo ético e ausência de absolutos de tal forma que conclama as sociedades a fecharem os olhos ao mal explícito, rotulando suas ocorrências como legítimas, válidas e inquestionáveis expressões culturais.

O forçado “respeito cultural” e a tolerância multicultural que gera a tão solicitada harmonia, para que possamos conviver com as diferenças, vem ao custo, mais uma vez, da dignidade do ser humano. Ela acolhe situações e ações que, por serem “culturais” devem permanecer ocorrendo, mesmo quando são inequivocamente condenáveis e erradas. Um exemplo disso seria a aceitação acrítica da mutilação genital feminina (a Anistia Internacional apresenta uma lista de 28 países africanos onde ela é normalmente praticada). Sendo que essas “manifestações culturais” não somente não devem ser questionadas, como, por vezes, devem até ser “protegidas”. Ou seja, mesmo as pessoas de “outra cultura” que não possuem tais práticas, em prol da harmonia, devem se empenhar em defender a “liberdade” de quem as praticam. Tal harmonia sacrifica a ética inerente à própria humanidade.


A terceira visão e resposta à questão da convivência social com diferenças profundas é, o que chama Os Guinness de Aliança Cívica Plural. Ele esboça a metáfora de uma praça pública, na qual pessoas de diferentes persuasões, ideologias e opiniões se aproximam para o diálogo e o debate. No entanto, essas interações acontecem debaixo de uma estrutura na qual se reconhecem absolutos mínimos que regem a convivência e que protegem certos direitos básicos e inalienáveis das pessoas. Consequentemente, fica ausente a possibilidade de opressão e coação, enquanto que se garante a mais primária das liberdades: a de consciência, de crença, de exercício da fé.

Guinness pergunta, de que adianta termos liberdade de ajuntamento, se nada pode ser expresso livremente em tal ajuntamento? E ainda, de que adianta ter liberdade de expressão, se ao expressar você for condenado pelo que expressa, sendo subtraída a sua liberdade de consciência? Assim ele substancia que o livre pensar é a primeira das liberdades, apesar de segmentos da civilização terem considerado, erroneamente, as de ajuntamento e expressão como sendo mais importantes.

A nossa luta deve ser, portanto, pelo reconhecimento desses absolutos e pelo estabelecimento dessas regras de convivência, para que subsista harmonia real, ainda que com diferenças profundas de crença e ideologias. Essa Aliança Cívica Plural não significa a adoção de um “mínimo denominador comum” – onde as crenças e valores são reduzidos àquilo que todos acreditam, porque isso não respeitaria a liberdade de consciência e de pensar, nem seria uma visão realista que levasse em conta a profundidade das convicções de cada um. Não está sendo advogada a construção de uma sociedade amorfa, sem convicções. É, simplesmente, um reconhecimento que você tem direito de pensar diferentemente de mim, e eu de achar que você está errado, sem a sanção de coagi-lo a pensar como eu. Ao mesmo tempo; aquilo que é realmente bom (“o bem”) deve ser tanto bom para você como para mim – deve respeitar uma estrutura mínima de valores universais que se constituem a moldura e estrutura necessária à convivência civilizada. Tudo aquilo que ferir a dignidade da pessoa humana, não pode ser aceito nessa “praça pública” de debates. As idéias são apresentadas, debatidas e espera-se persuasão, convencimento, mas nunca coação.

Infelizmente vivemos em um mundo onde muitos estão envolvidos pelo Universalismo Progressivo e outros tantos com o Relativismo Multicultural – ambos ceifando vidas e fechando os olhos ao mal explícito que campeia na humanidade. Mentes lúcidas se dedicarão à construção dessa praça pública de debates. O verdadeiro cristianismo, pelo menos, deveria defendê-la e propagá-la na confiança da Soberania de Deus, que nos ensina a transmitir as boas novas e que nos ilustra, na história, como o evangelização foi abençoada onde floresceu a liberdade estruturada de consciência.

Não temos que concordar com tudo, nem que aceitar que existem apenas três avenidas para responder à pergunta da convivência pacífica e civilizada. Talvez existam quatro, cinco ou seis. Mas o importante é que Os Guinness nos faz pensar e, se somos honestos, temos que admitir que o que temos ouvido constantemente, quer na sociedade, mídia ou academia, nem é verdade inquestionável nem é necessariamente lógico. Existem outras maneiras de análise e outras respostas a serem dadas. De qualquer maneira, essa estrutura apresentada nos auxilia a algumas análises de situações que estão sendo correntemente discutidas. Em um próximo post gostaría de focar a intensa presença do Relativismo Multicultural no Brasil, especialmente à luz do debate corrente relacionado com o infanticídio praticado por várias tribos indígenas do nosso país.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Diversidade num Mundo Globalizado: Guinness fala sobre temas atuais


Teve início nessa segunda-feira (12/09/2007) a série de palestras do Dr. Os Guinness no Mackenzie. É a primeira vez que o crítico social, doutorado por Oxford, vem ao Brasil. Nascido na China de missionários ingleses, criado na Europa e atualmente residindo em Washington, Guinness é considerado um dos maiores apologetas cristãos hoje, sucessor do legado de Francis Schaeffer.

Dr. Guinness falou na segunda-feira no Mackenzie-Brasília para cerca de 350 pessoas sobre "Um Mundo Seguro onde a Diversidade pode Existir". Após analisar diversos modelos históricos de países que tentaram relacionar religião e vida pública, optou pelo modelo que foi usado pelos fundadores dos Estados Unidos, de plena liberdade de consciência e de expressão religiosa num Estado guiado por princípios cristãos. Usou a figura da praça pública cívica, instituição usada pelos gregos e romanos, onde as pessoas poderiam ir e debater suas idéias livremente. Afirmou que o Cristianismo tem uma visão de mundo que oferece soluções para o mundo caótico de hoje e que os cristãos não deveriam recear engajar-se no debate dos problemas mundiais que nos afligem. No auditório, havia embaixadores, juízes, advogados, pastores, professores, estudantes, que participaram ativamente na sessão de perguntas e respostas que se seguiu.

Na terça-feira Dr. Guinness falou no Mackenzie-São Paulo para mais de 800 pessoas, com transmissão ao vivo via satélite para o Mackenzie-Rio. Seu tema foi "Os Desafios da Globalização para a Humanidade". Após definir os efeitos da globalização na cultura ocidental moderna, Dr. Guinness apresentou os perigos inerentes ao moderno sistema de comunicação, que é rápido, onipresente e em larga escala. Falou dos perigos que as elites correm de se isolar cada vez mais da população pobre e carente, perdendo a responsabilidade para com os excluídos. Mencionou três "pontos cegos" da visão otimista de mundo defendida pelos ateus e secularistas, e que formam, na opinião deles, os componentes de uma tempestade perfeita do mal: o avanço tecnológico, o ganho financeiros cada vez maior e os graves problemas sociais. Todas essas coisas são potencializadas e pioradas pela globalização. Somos a geração que mais tem produzido refugo humano na história, milhões e milhões de pessoas que ninguém deseja, como os 25 milhões que hoje habitam em campos de refugiados. Por fim, Dr. Guinness desafiou os estudantes a refletir sobre a seguinte questão: "em quem você confia para enfrentar um mundo gigantesco e globalizado?" e conclamou todos a colocar a confiança no Deus da Bíblia.

Hoje a noite, Dr. Guiness falará sobre a violência indizível que marca nossa geração, focando especialmente nos genocídios e crimes em massa.

Durante a semana muitos palestrantes nacionais estarão fazendo conferências no Mackenzie São Paulo, sobre temas relacionados com religião e cultura, que é o tema desse III Congresso Internacional de Ética e Cidadania. Entre eles destacamos hoje a palestra da Norma Braga sobre "Modernidade, literatura e transcendência: uma abordagem schaefferiana," do Dr. Davi Gomes sobre "Sexualidade Integral" e a intrigante palestra do nosso Dr. Hermisten sobre “Façamos os deuses à nossa imagem”. Há mais de 1.200 pessoas inscritas para participar dessas palestras e outras que ocorrerão até sexta-feira.

A realização desse evento faz parte da visão da Igreja Presbiteriana do Brasil de difundir a visão reformada de mundo e a ética cristã reformada na sua Universidade e através dela ao público em geral.

sábado, setembro 01, 2007

Falta de Amor?

Tornou-se comum evangélicos acusarem de falta de amor outros evangélicos que tomam posicionamentos firmes em questões éticas, doutrinárias e práticas. A discussão, o confronto e a exposição das posições de outros são consideradas como falta de amor.

Essa acusação reflete o sentimento pluralista e relativista que permeia a mentalidade evangélica de hoje e que considera todo confronto teológico como ofensivo. Nossa época perdeu a virilidade teológica. Vivemos dias de frouxidão, onde proliferam os que tremem em frêmito diante de uma peleja teológica de maior monta, e saem gritando histéricos, "linchamento, linchamento"!

Pergunto-me se a Reforma protestante teria acontecido se Lutero e os demais companheiros pensassem dessa forma.

É possível que no calor de uma argumentação, durante um debate, saiam palavras ou frases que poderiam ter sido ditas ou escritas de uma outra forma. Aprendi com meu mentor espiritual, Pr. Francisco Leonardo Schalkwijk, que a sabedoria reside em conhecer “o tempo e o modo” de dizer as coisas (Eclesiastes 8.5). Todos nós já experimentamos a frustração de descobrir que nem sempre conseguimos dizer as coisas da melhor maneira.

Todavia, não posso aceitar que seja falta de amor confrontar irmãos que entendemos não estarem andando na verdade, assim como Paulo confrontou Pedro, quando este deixou de andar de acordo com a verdade do Evangelho (Gálatas 2:11). Muitos vão dizer que essa atitude é arrogante e que ninguém é dono da verdade. Outros, contudo, entenderão que faz parte do chamamento bíblico examinar todas as coisas, reter o que é bom e rejeitar o que for falso, errado e injusto.

Considerar como falta de amor o discordar dos erros de alguém é desconhecer a natureza do amor bíblico. Amor e verdade andam juntos. Oséias reclamou que não havia nem amor nem verdade nos habitantes da terra em sua época (Oséias 4.1). Paulo pediu que os efésios seguissem a verdade em amor (Efésios 4.15) e aos tessalonicenses denunciou os que não recebiam o amor da verdade para serem salvos (2Tessalonicenses 2.10). Pedro afirma que a obediência à verdade purifica a alma e leva ao amor não fingido (1Pedro 1.22). João deseja que a verdade e o amor do Pai estejam com seus leitores (2João 3). Querer que a verdade predomine e lutar por isso não pode ser confundido com falta de amor para com os que ensinam o erro.

Apelar para o amor sempre encontra eco no coração dos evangélicos, mas falar de amor não é garantia de espiritualidade e de verdade. Tem quem se gabe de amar e que não leva uma vida reta diante de Deus. O profeta Ezequiel enfrentou um grupo desses. “... com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro” (Ezequiel 33.31). O que ocorre é que às vezes a ênfase ao amor é simplesmente uma capa para acobertar uma conduta imoral ou irregular diante de Deus. Paulo criticou isso nos crentes de Corinto, que se gabavam de ser uma igreja espiritual, amorosa, ao mesmo tempo em que toleravam imoralidades em seu meio. “... contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? Não é boa a vossa jactância...” (1Co 5.2,6). Tratava-se de um jovem “incluído” que dormia com sua madrasta. O discurso das igrejas que hoje toleram todo tipo de conduta irregular em seus membros é exatamente esse, de que são igrejas amorosas, que não condenam nem excluem ninguém.

Ninguém na Bíblia falou mais de amor do que o apóstolo João, conhecido por esse motivo como o “apóstolo do amor” (a figura ao lado é uma representação antiquíssima de João) Ele disse que amava os crentes “na verdade” (2João 1; 3João 1), isto é, porque eles andavam na verdade. "Verdade" nas cartas de João tem um componente teológico e doutrinário. É o Evangelho em sua plenitude. João ama seus leitores porque eles, junto com o apóstolo, conhecem a verdade e andam nela. A verdade é a base do verdadeiro amor cristão. Nós amamos os irmãos porque professamos a mesma verdade sobre Deus e Cristo. Todavia, eis o que o apóstolo do amor proferiu contra mestres e líderes evangélicos que haviam se desviado do caminho da verdade:

- “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo 2.19).

- “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo 2.22).

- “Aquele que pratica o pecado procede do diabo” (1Jo 3.8).

- “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” (1Jo 3.10).

- “todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo” (1Jo 4.3).

- “... muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo... Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus... Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más” (2Jo 7-1).

Poderíamos acusar João de falta de amor pela firmeza com que ele resiste ao erro teológico?
O amor que é cobrado pelos evangélicos sentimentalistas acaba se tornando a postura de quem não tem convicções. O amor bíblico disciplina, corrige, repreende, diz a verdade. E quando se vê diante do erro seguido de arrependimento e da contrição, perdoa, esquece, tolera, suporta. O Senhor Jesus, ao perdoar a mulher adúltera, acrescentou “vai e não peques mais”. O amor perdoa, mas cobra retidão. O Senhor pediu ao Pai que perdoasse seus algozes, que não sabiam o que faziam; todavia, durante a semana que antecedeu seu martírio não deixou de censurá-los, chamando-os de hipócritas, raça de víboras e filhos do inferno. Essa separação entre amor e verdade feita por alguns evangélicos torna o amor num mero sentimentalismo vazio.

O amor, segundo Paulo, “é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Coríntios 13.4-7). Percebe-se que Paulo não está falando de um sentimento geral de inclusão e tolerância, mas de uma atitude decisiva em favor da verdade, do bem e da retidão. Não é de admirar que o autor desse "hino ao amor" pronunciou um anátema aos que pregam outro Evangelho (Gálatas 1). Destaco da descrição de Paulo a frase “O amor regozija-se com a verdade” (1Coríntios 13.6b). A idéia de “aprovar” está presente na frase. O amor aprova alegremente a verdade. Ele se regozija quando a verdade de Deus triunfa, quando Cristo está sendo glorificado e a igreja edificada.

Portanto, o amor cobrado pelos que se ofendem com a defesa da fé, a exposição do erro e o confronto da inverdade não é o amor bíblico. Falta de amor para com as pessoas seria deixar que elas continuassem a ser enganadas sem ao menos tentar mostrar o outro lado da questão.