domingo, janeiro 29, 2006

Sobre fundamentalistas e fundamentalistas

Regressei hoje do Nordeste, onde estive de férias o mês de janeiro. Reinicio as atividades no blog com um post sobre fundamentalismo. O tema vem de uma sugestão da Norma Braga, em um comentário recente aqui no blog. A sugestão é muito pertinente, pois à semelhança de outros rótulos nos meios evangélicos, esse também é mal compreendido e mal empregado. Além do mais, é esse o rótulo preferido por alguns para se referir a quem adere com firmeza a determinadas doutrinas que são consideradas como antigas e ultrapassadas. Nada mais natural do que procurar esclarecer o assunto. Acho que a primeira coisa é falar sobre os vários tipos de fundamentalistas cristãos.

O fundamentalista cristão histórico não existe mais. Ele existiu no início do século XX, durante o conflito contra o liberalismo teológico que invadiu e tomou várias denominações e seminários nos Estados Unidos. J. G. Machen, John Murray, B. B. Warfield, R. A. Torrey, Campbell Morgan, e mais tarde Cornelius Van Til e Francis Schaeffer, são exemplos de fundamentalistas históricos.
O fundamentalista americano ainda existe, mas perdeu muito de sua força. Embora tenha surgido ao mesmo tempo que o histórico, separou-se dele quando adotou uma escatologia dispensacionalista, aliou-se à agenda republicana dos Estados Unidos, exerceu uma militância belicosa contra tudo que considerasse inimigo da fé cristã, como o comunismo, o ecumenismo, o liberalismo, a ciência moderna e o próprio evangelicalismo. Defendia e praticava o separatismo institucional de tudo e todos que estivessem ligados direta ou indiretamente a esses inimigos. Recentemente faleceu o que pode ter sido o último grande representante desse gênero de fundamentalista, o famigerado Carl McIntire. Alguns consideram que Pat Robertson é seu sucessor, embora haja muitas diferenças entre eles.

O fundamentalista denominacional é aquele membro de denominações que se consideram oficialmente fundamentalistas e que até trazem o rótulo na designação oficial. Após um período de grande florescimento no Brasil, especialmente no Nordeste e em São Paulo, as igrejas fundamentalistas, presbiteriana e batista, sofreram uma grande diminuição em suas fileiras. Grande parte das igrejas fundamentalistas presbiterianas regressaram à Igreja Presbiteriana do Brasil, de onde saíram na década de 50. Em alguns casos, o fundamentalismo denominacional do Brasil foi marcado por laços financeiros e ideológicos com McIntire. Hoje, até onde eu sei, não há mais esse laço. No Brasil, o fundamentalismo denominacional que sobrou desenvolveu uma síndrome de conspiração mundial para o surgimento do Reino do Anticristo através do ocultismo, da tecnologia, da mídia, dos eventos mundiais, das superpotências. Acrescente-se ainda o desenvolvimento de uma mentalidade de censura e apego a itens periféricos como se fossem o cerne do evangelho e critério de ortodoxia (por exemplo, só é bíblico e conservador quem usa versões da Bíblia baseadas no Texto Majoritário, quem não assiste desenhos da Disney e não assiste “Harry Potter”).

O fundamentalista xiita é sinônimo de intransigência, inflexibilidade, ser-dono-da-verdade e patrulhamento teológico. Esse tipo tem mais a ver com atitude do que com teologia. Nesse caso, é melhor inverter a ordem e chamá-lo de xiita fundamentalista. Na verdade, xiitas podem ser encontrados em qualquer dos campos protestantes. A propalada tolerância dos liberais, neoliberais e neo-ortodoxos é mito. Há xiitas liberais, neoliberais, neo-ortodoxos, e obviamente, xiitas fundamentalistas. Teoricamente, alguém poderia ser um fundamentalista histórico e denominacional e ainda não ser um xiita.

Por fim, o fundamentalista teológico, um outro sentido em que o termo é muito usado. O fundamentalista teológico se considera seguidor teológico dos fundamentalistas históricos e simpatiza com a luta deles. Sem pretender ser exaustivo, acredito que são considerados fundamentalistas teológicos atualmente os que aderem aos seguintes conceitos ou a parte deles: a inerrância da Bíblia (sobre isso vou falar noutro post), a divindade de Cristo, o seu nascimento virginal, a realidade e historicidade dos milagres narrados na Bíblia, a morte de Cristo como propiciatória, sua ressurreição física de entre os mortos, seu retorno público e visível a este mundo, o conceito de verdades teológicas absolutas, o conceito de que Deus se revelou de forma proposicional, a aceitação dos credos e confissões da Igreja Cristã, a adoção do método gramático-histórico de interpretação bíblica, uma posição conservadora em assuntos como aborto e eutanásia, a preferência pela pregação expositiva, gosto pelos escritos dos puritanos antigos e modernos (vixe, lá vou ter que escrever um post sobre isto também...), a rejeição do liberalismo teológico e da neo-ortodoxia, a crença que Deus criou o mundo em sete dias, a rejeição da ordenação feminina, não-rejeição da pena de morte e outros. Há quem queira acrescentar a essa lista os que votaram contra o desarmamento, são contra o esquerdismo brasileiro, gostam dos Estados Unidos, e mais recentemente, os que adicionaram à lista de favoritos o blog de Norma Braga e o Tempora-Mores...

Em linhas gerais, o fundamentalista teológico acredita que a verdade revelada por Deus na Bíblia não evolui, não cresce e nem muda. Permanece a mesma através do tempo. A nossa compreensão dessa verdade pode mudar com o tempo; contudo, essa evolução nunca chega ao ponto radical em que verdades antigas sejam totalmente descartadas e substituídas por novas verdades que inclusive contradigam as primeiras. O fundamentalista teológico reconhece que erros, exageros e absurdos tendem a ser incorporados através dos séculos na teologia cristã e que o alvo da Igreja é sempre reformar-se à luz dos fundamentos da fé cristã bíblica, expurgando esses erros e assimilando o que for bom. Admite também que existe uma continuidade teológica válida entre o sistema doutrinário exposto na Bíblia e a fé que abraça hoje.

Acho que é aqui que está a grande diferença entre o fundamentalista teológico e o neoliberal. Esse último acredita na evolução da verdade a ponto de sentir-se comissionado a reinventar a Igreja e escrever novas confissões de fé.

Muitos me chamam de fundamentalista. Bom, não posso ser fundamentalista histórico, pois nasci muito depois da luta de Machen. Contudo, sou fã dele, que era um perito em Novo Testamento. Não sou um fundamentalista americano, pois sou brasileiro (apesar do nome), nunca recebi um tostão de McIntire e sou amilenista. Aliás, nem conheci McIntire pessoalmente. Fui fundamentalista denominacional por decisão dos meus pais quando eu tinha doze anos. Saí após conversão e entrada no ministério pastoral. Também não me acho xiita. Há controvérsia sobre isso, eu sei.

Na categoria de fundamentalistas teológicos encontramos presbiterianos, batistas, congregacionais, pentecostais, episcopais, e provavelmente muitos outros. É claro que nem todos subscrevem todos os pontos acima e ainda outros gostariam de qualificar melhor sua subscrição. Contudo, no geral, acho que posso dizer que os fundamentalistas teológicos não fariam feio numa pesquisa de opinião sobre o que crêem os evangélicos brasileiros. Por esse motivo, e por achar que o assim chamado fundamentalismo teológico é simplesmente outro nome para a fé cristã histórica, não fico envergonhado quando me rotulam dessa forma, embora prefira o termo calvinista ou reformado.

Como link para esse post, sugiro os artigos que tenho escrito sobre o assunto no site da Editora Vida Nova (http://www.teologiabrasileira.com.br/).

sábado, janeiro 21, 2006

Ainda os Liberais: O reflexo prático das suas ações.

“... Entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho”. Atos 20.29

As últimas postagens, neste Blog, pelos Drs. Augustus e Mauro, têm procurado traçar análises pertinentes à atuação dos liberais no seio da igreja. Vou fazer uma reflexão eminentemente prática de uma experiência pessoal com a questão.
Nos idos de 1994, se não me falha a memória, fui visitar um tio, hoje já falecido, em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Esse tio, dentista, pregador exímio, criado presbiteriano, congregava-se por razões pessoais na igreja metodista local na qual ensinava uma classe de Escola Dominical.
Meu tio pediu-me para ministrar à classe, naquele domingo, e entregou-me a lição que seria estudada. Fui folheando a revista. Ela tratava sobre a mensagem dos profetas do Antigo Testamento. Tinha sido preparada pelos especialistas da denominação e procurava espelhar o supra-sumo da erudição teológica. Na realidade, ela apresentava alguns conceitos que hoje nem os liberais discutem com tanta veemência, mas como essas questões chegam atrasadas uns 50 anos, aqui no Brasil, ela refletia o que estava (e possivelmente ainda está) sendo ministrado nos seminários dessa denominação e, infelizmente, de outras também. Constatei que aquela lição se empenhava em desfigurar a integridade do texto bíblico.
A premissa básica, que não era colocada de forma clara e explícita, era que “profecia não existe”; partindo desse pensamento sorrateiro, a lição ensinava que os livros dos profetas haviam sido escritos após os acontecimentos profetizados. Não havia, portanto, nada de sobrenatural, pois os escritores apenas registraram fatos passados e os leitores desavisados é que estariam sendo enganados. Lógico que os autores procuravam ressaltar alguma coisa válida de cunho social no conteúdo, mas se a credibilidade da narrativa é destruída, logo em sua integridade de autoria e escopo, por que deveríamos prestar atenção a qualquer detalhe da mensagem?

A lição tinha que lidar com alguns acontecimentos mais remotos, que haviam obviamente ocorridos após a escrita de qualquer texto (como, por exemplo, o nascimento virginal de Cristo). O tratamento que ela dava era, ainda, de que esses eventos não foram, na realidade, profetizados, mas eram fruto da interpretação (ou distorção) daqueles que relataram os eventos em si. Os escritores posteriores, diziam, “acomodaram” os fatos para que “parecessem” cumprimento de algo subjetivamente incluso nas profecias. Várias ginásticas lingüísticas eram aplicadas em uma tentativa fútil de explicar o inexplicável.
A revista continuava, assim, ponto por ponto, na tarefa insana de destruir a fé; atacando os fatos intrinsecamente ligados a ela. Para se conformar a essa visão de que os manuscritos eram posteriores aos eventos “profetizados”, ensinava que o livro de Isaías estaria convenientemente dividido em três partes, de autores e datas distintas. A lição falava de “segundo Isaías” e “dêutero-Isaías” como se isso fosse ponto pacífico entre os eruditos, tivesse base documental, respaldo intelectual, ou fosse linguagem comum e normal de alunos de escola dominical.
Naquele domingo eu preparei minha aula e a ministrei, utilizando o tema e o texto base, mas sem utilizar aquela lição dos “especialistas”, nem a mensagem que eles queriam transmitir. No dia, fiquei olhando aquela classe, formada em sua maior parte de gente humilde e sincera. Crentes fiéis, ávidos por ouvir o ensino e a exposição da Palavra. Fiquei com um aperto no coração e com uma ira santa da situação. Quem eram essas pessoas distanciadas do rebanho que achavam que podiam rasgar e tripudiar a razão de existência da própria Igreja de Cristo? Que tipo de motivação possuíam? Qual a profundidade da insensibilidade espiritual que estavam retratando?
No meio das estruturas eclesiásticas sempre encontraremos os “lobos vorazes”, cujo caminho a percorrer resulta na destruição do rebanho. Temo que esses vão se agregando nas cúpulas, como cristais em uma solução salina, fortalecendo-se mutuamente e tomando formas aleatórias que diferem da fé simples e do cristianismo verdadeiro professado e abraçado pelas ovelhas reais. Contamos, entretanto, com a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a igreja verdadeira. Esse é o nosso verdadeiro conforto.

domingo, janeiro 15, 2006

Ortodoxia e Fé, Liberalismo e Misticismo

Aproveitando o post do Augustus, sobre liberalismo, aproveito a deixa para falar do assunto perguntando: Existe diferença quando um Ortodoxo usa a palavra 'fé' e um liberal ou neo-ortodoxo a usa? A resposta é óbvia e a diferença é abismal. Quando um 'crente na Bíblia' usa a palavra fé e diz que a tem, sabe dizer, com objetividade, de onde vem a fé que diz ter, sabe propor esta fé com palavras e tem a coragem de proclamá-la com clareza aos que Deus coloca no seu caminho, mostrando a fonte.

Mas, e o liberal ou neo ortodoxo (neoliberal?), como pode dizer de onde vem a sua fé? Não pode! Não crêem que Deus se revelou de maneira objetiva e nem têm certeza de como é esse deus, afinal, a 'revelação' deste deus no qual acreditam é totalmente subjetiva e só pode ser conhecida, individualmente, no interior do homem. Logo, não podem ter a menor condição de afirmar que o Deus, ou deus em que crêem é o mesmo deus da pessoa ao seu lado. Quando usam a palavra fé, que não é a fé objetivamente revelada nas Escrituras, tornam-se místicos. O que estou querendo demonstrar é que liberalismo e misticismo, tem tudo a ver, não importa a roupagem que use.

Vejam, por exemplo, o caso de David Friedrich Strauss, considerado o precursor da 'nova era' no criticismo bíblico e pai do liberalismo teológico entre os alemães, no sec. XIX. Strauss gastou a sua vida acadêmica toda trabalhando minunciosamente sobre o Novo Testamento, passagem por passagem, usando o grego e os estudos comparativos para 'comprovar' que o texto deveria ser lido como mito e não como história. Seu principal alvo era encontrar os mitos 'fundantes' do material do NT e libertar o cristianismo da leitura dos literalistas. Para Strauss os relatos do Evangelho são uma concha para um conceito religioso. Ao mesmo tempo em que buscava libertar o cristianismo do literalismo estava destruindo o conceito de fé objetiva e entregando o cristianismo ao misticismo. Strauss insiste, por exemplo, que "O nascimento sobrenatural de Cristo, seus milagres, sua ressurreição e ascensão, permanecem como verdades eternas, sejam quais forem as dúvidas que recaiam sobre sua realidade como fatos históricos" (The Life of Jesus Critically Examined).

Mas o que é que pode dar um mínimo de certeza da realidade espiritual destas coisas se não correspondem a algo que aconteceu na história e não se tem a menor certeza de que o Deus da própria Bíblia as revelou? Mal sabemos que há uma casta de iluminados, que tem uma inteligência maior, superior, que 'sabem' estas coisas. Os que as escreveram eram do mesmo tipo, sejam indivíduos ou comunidades, que tinham o 'espírito' e deixaram este legado para que os que ainda não chegaram lá tivessem alguma chance de encontrar esta 'verdade espiritual. '

Qual a diferença de uma concepção religiosa como esta e qualquer outra concepção mística? Na essência, nenhuma. O liberalismo, seja com que roupa aparecer, é uma porta aberta para o misticismo e, consequentemente, para padrões morais anti-bíblicos (com isto não quero dizer que todo liberal é imoral). É por isto que a igreja liberal alinha-se com causas biblicamente imorais e politicamente corretas. E os liberais no meio da igreja ortodoxa? Ou ficam quietinhos para manter a segurança de seus salários ou usam de expedientes que encontram para dizer que os demais são 'obscurantistas', ainda precisam ser iluminados.

Em outro post pretendo mostrar como este misticismo acabou também nas praias pentecostais... mas isto é depois...

sábado, janeiro 14, 2006

Sobre Liberais, Parasitas e Neoliberais

O liberalismo teológico nasceu, alimentou-se e viveu como um parasita, usando o corpo, as energias, os recursos e a vida das organizações eclesiásticas fundadas e financiadas por conservadores. Os primeiros liberais eram ministros de denominações conservadoras – embora já minadas pelas idéias do Unitarismo e do Iluminismo – de onde tiraram seu sustento e onde ganharam respeitabilidade. Mesmo que tenham mudado suas crenças, não largaram o corpo de onde se alimentavam. Pois não teriam para onde ir.

O liberalismo nunca plantou igrejas, nunca aumentou número de membros e nem a receita financeira das igrejas. Só conseguiu reproduzir outros liberais, os quais por sua vez precisavam também sobreviver. O liberalismo teológico sempre teve que achar um hospedeiro que pudesse sugar até que o mesmo morresse, drenado. Hoje assistimos aos estertores mortais das últimas denominações históricas na Europa e nos Estados Unidos que um dia o abrigaram.

O liberalismo sobreviveu à custa do esforço missionário, do zelo expansionista e do sacrifício financeiro dos cristãos bíblicos, que fundaram igrejas, criaram organizações, ajuntaram fundos missionários, abriram escolas teológicas, todas elas ocupadas depois pelos liberais. Sei que isso não ocorreu do dia para a noite e que houve um processo durante o qual as doutrinas basilares do Cristianismo histórico vinham sendo erodidas lentamente nessas denominações. De qualquer forma, o liberalismo plenamente desenvolvido não fundou novas denominações, não abriu novas igrejas, não inaugurou novos campos missionários e nem abriu novas escolas. Não conheço nenhum curso de teologia hoje nos Estados Unidos e na Europa que seja liberal e que funcione numa universidade que tenha sido criada por liberais. Harvard, Union, Princeton, Yale, Amsterdã, Oxford... todas foram criadas por conservadores das mais diferentes linhas. No Brasil, as denominações que nasceram como fruto de dissidências liberais de corpos conservadores são praticamente inexpressivas a não ser quando ganham mídia por algum escândalo.

O caráter parasitário do liberalismo teológico se deveu ao fato de que os liberais não acreditavam em evangelismo e missões. Acreditavam em fazer obra social, em ensinar as pessoas a cultivar as terras, a se organizar politicamente contra a opressão, a abrir poços, a organizar sociedades de tecelões, etc. Embora essas coisas sejam louváveis, não produzem novas igrejas, não aumentam o numero de crentes comprometidos e nem trazem retorno financeiro. Os liberais sempre precisaram de hospedeiros para sobreviver enquanto levavam avante a sua agenda. Sugaram a herança organizacional eclesiástico-financeira de Calvino, Lutero, Wesley e dos puritanos.

O liberalismo teológico faleceu, historicamente, com o advento da pós-modernidade e pela evidente falta de resultados acadêmicos e eclesiásticos. Mas, como um vírus mutante, transfigurou-se no neoliberalismo. Embora diferente em muitos aspectos do antigo liberalismo, o neoliberalismo conserva o caráter parasitário. Pois neoliberais não sabem direito em que acreditam, duvidam da autoridade da Bíblia, estão meio perdidos sem referencial histórico e teológico. Daí, pastores neoliberais dificilmente conseguem fundar novas igrejas, trazer pecadores a Jesus Cristo, aumentar o número de membros, abrir frentes missionárias e melhorar a arrecadação das igrejas. Precisam de hospedeiros, de corpos eclesiásticos de onde tirar o sustento, enquanto ficam refletindo e tentando descobrir em que acreditam, afinal.

Um dos segredos da capacidade de sobrevivência do parasita é o mimetismo. Ele consegue imitar o ambiente onde se encontra para poder passar despercebido. Neoliberais podem virar fundamentalistas, conservadores, reformados, pentecostais e até liberais, dependendo da necessidade do momento. Talvez seja isso que torne os neoliberais mais perigosos que os antigos liberais, como já sugeri em outro post.

Devido à dificuldade em se extirpar parasitas com poderes de misturar-se ao ambiente, pouca esperança resta a não ser esperar a morte do hospedeiro, que representará também a morte do parasita, embora nem sempre. Pastores neoliberais pulam de igreja local para igreja local, deixando atrás de si um histórico de comunidades drenadas, confusas e cicatrizadas.

Sei que neoliberais não são o único tipo de parasita no Corpo. Pastores reformados ineptos podem ter o mesmo efeito prático. E sei que pastores reformados no Brasil ainda têm um longo caminho pela frente até conseguirem colocar em prática a visão calvinista de missões. Contudo, pela extraordinária capacidade de se transformarem no que quiserem conforme a situação requeira, parasitas neoliberais são os mais difíceis de serem identificados e tratados.

Noé, no Brasil, em 2006!

Traduzi uma texto que roda a Internet e tropicalizei-o às condições peculiares de nossa terrinha...
Um amigo meu, sobrevivente da grande cheia recifense de 1975, teve um pesadelo. Ele testemunhava o que ocorria com Noé, só que o patriarca morava no Brasil e era o ano de 2006:

Noé nunca tinha visto chuva em sua vida e fica espantado quando ouve uma voz retumbante dizendo: “Em um ano eu farei chover sobre toda a terra. Ela será coberta com água até que tudo esteja destruído, começando aí no Brasil, mas quero que você salve os justos e dois espécimes de cada animal. Assim, estou lhe comandando a construir uma ARCA”!

No meio de um relâmpago, num piscar de olhos, caem às mãos de Noé os desenhos e todas as especificações da Arca a ser construída.

Tremendo de pavor, Noé pega o projeto e concorda com a construção da Arca. “Lembre-se”, diz a voz, “Você tem que terminar a Arca e ter tudo e todos a bordo dentro de um ano”.

Passa-se exatamente um ano, no sonho, e uma tormenta monumental cobre toda a terra. Os mares estão agitados e tumultuados, mas Noé está sentado no terreno de sua casa, chorando!

“Noé”, ressoa novamente a voz, “onde está a ARCA”?

“Perdoe-me”, clama Noé. “Fiz o que eu pude, mas os problemas foram terríveis”!

“Primeiro, eu tive de obter uma licença de construção e o projeto da Arca não se enquadrava no código naval, nem estava assinado por um engenheiro credenciado na Marinha. Tive que contratar uma firma especializada para redesenhar tudo”!

“Depois, fiquei sabendo que o Distrito Naval havia feito um convênio de segurança e entrei numa questão judicial com o CONTRU, pois insistiam que a Arca precisava de uma sistema de ‘sprinklers’ contra incêndios e, além disso, a Capitania dos Portos exigia uma enormidade de coletes-salva-vidas”.

“Ai o meu vizinho ligou para o ‘Psiu’ dizendo que eu estava fazendo muito barulho e depois para a prefeitura, alegando que a construção da Arca no quintal da frente, violava o zoneamento da Capital. Tive que estar presente a cinco audiências na comissão de planejamento municipal até conseguir um certificado de exceção, para dar andamento ao projeto”.

“Tive problemas na compra de madeira para construir a Arca em função da proibição de corte de árvores, para proteção do mico-leão na Mata Atlântica. Finalmente, consegui convencer a Secretaria Estadual de Proteção à Fauna e Flora que eu precisava da madeira EXATAMENTE para salvar o mico-leão, mas a Polícia Florestal não me deixou pegar um casal de micos-leão. Sem mico-leão, não havia o que salvar”.

“Os marceneiros que eu havia contratado foram visitados pelo carro de som do Sindicato dos Trabalhadores em Madeira que convenceu-os a procurar a proteção do Sindicato. Na semana seguinte, fizeram uma greve, querendo intervalos para lanche de 2 em 2 horas e recusando-se a trabalhar horas extras. Tive de negociar até com a CUT e agora, em vez dos 8 carpinteiros que contratei quando comecei, tenho 16, que trabalham 5 horas a menos por semana do que os 8 que eu tinha, no início. E ainda não tenho os micos-leão”.

“Quando comecei a juntar os outros casais de animais, fui interpelado judicialmente pela Associação de Proteção aos Animais. Eles argumentavam que eu estava levando somente dois de cada espécie, o que provocaria solidão indevida – caso um dos parceiros rejeitasse o outro, além de confinamento desumano, pelo período em que permaneceriam na Arca”.

“Assim que consegui descaracterizar a legitimidade desse processo, o Ministério do Meio Ambiente, lá de Brasília, me intimou dizendo que eu não poderia completar a construção da Arca, sem dar entrada em um Estudo de Impacto Ambiental do Dilúvio que eu estou anunciando. Disseram que nem o Rodoanel de São Paulo, que vai beneficiar 18 milhões de pessoas eles aprovam, quanto mais uma arca que vai servir a uma família e uma porção de animais. Apesar da minha insistência, eles não consideraram com seriedade meus argumentos de que eles não teriam jurisdição sobre a conduta do Criador. Pensaram até que eu estava falando do Presidente da República”.

“Em paralelo, o Ministério do Exército ficou sabendo dos planos de construção da Arca. As pessoas lá acharam que a questão do dilúvio era prejudicial à segurança nacional e me pediram um desenho detalhado da proposta do dilúvio. Eu enviei para eles um globo terrestre, que eu tinha lá em casa, mas ficaram ofendidos, achando que eu estava ‘tirando sarro’ deles e ameaçam mandar uns Brucutus, aqui para frente de minha casa, para impedir o andamento do projeto”.

“Atualmente estou empenhado em resolver um problema com a Comissão de Direitos Humanos, da Câmara dos Deputados. Eles me acusam de discriminação e exigem que, dentro da arca, eu tenha um número idêntico de pessoas que sejam descrentes e neguem a Deus. O movimento dos direitos Gay está exigindo a inclusão de um casal representante, na arca, além de protestarem a seleção de apenas um animal de cada sexo, querem que eu inclua um terceiro, em cada casal”.

“A Receita Federal quebrou o meu sigilo bancário e telefônico e abriu um processo para confiscar todos os meus bens, pois está convencida que estou construindo a Arca para fugir do país e investiga se paguei o IPI, PIS, COFINS e a Contribuição Social sobre o lucro presumido, com os ingressos da Arca”.

“A Secretaria da Fazenda solicita o pagamento de ICMS, pois classificou a Arca como ‘veículo de recreação e entretenimento’, enquanto que o município quer cobrar ISS utilizando exatamente o mesmo raciocínio”.

“Finalmente, fui processado pela Associação de Liberdades Civis, para que o trabalho na Arca fosse paralisado. A alegação deles é que o Dilúvio que estou anunciando é um evento religioso e que é inconstitucional, considerando a abrangência proposta do evento”.

“Não creio que possa terminar a Arca antes de uns 5 ou 6 anos”, choramingou Noé.

Noé olhou para o céu e viu a tempestade clareando. O mar começou a se acalmar. Um arco-íris formou-se de ponta a ponta. Noé levantou-se, esperançoso: “Isso quer dizer que a terra não vai mais ser destruída?” “Não”, exclamou a voz, “Os governantes já fizeram isso, completamente”!

Meu amigo acordou, suando...

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Paganismo e Neo-paganismos

Há alguns anos atrás tive o privilégio de traduzir o Dr. Peter Jones em uma série de palestras sobre o tema acima, na cidade de Belo Horizonte. Dr. Jones tem o livro "Ameaça Pagã" publicado pela Editora Cultura Cristã, no Brasil e também o livro "Desmascarando o código da vinci", com James L. Garlow (Editora A.D. Santos). Na próxima semana terei o prazer de rever o Dr. Peter Jones em uma mini conferência sobre o tema, que sua organização está promovendo. Dr. Jones mantém um ministério voltado para o estudo deste tema (Christian Witness to a Pagan Planet - Testemunho Cristão para um Planeta Pagão). A missão do mesmo é "equipar a Igreja para levar as boas novas do Evangelho a um mundo crescentemente pagão" e seu alvo principal é treinar líderes e estudiosos para esta tarefa.

Uma das principais teses defendidas pelo autor é que o nosso mundo caminha cada vez mais para um contexto em que teremos que saber lidar com uma forma de paganismo semelhante ao paganismo do primeiro século, quando os Evangelhos e cartas foram escritos. Logo, nossa aplicação do Evangelho para as novas gerações necessitará de ser bem contextualizada, afinal, o que Dr. Jones chama de neo-paganismo é parte da cosmovisão mística que se alastra em nossa cultura com movimentos crescentes em todas as camadas sociais e religiões, inclusive entre evangélicos. O recente interesse em livros como o "Código da Vinci", creio, não se dá apenas por tentar ser uma boa produção literária, mas, principalmente, pelo seu lado místico. Outros livros tornaram-se best sellers nos EUA e Europa exatamente por trazerem como foco interpretações místicas e mirabolantes (veja o "Código da Bíblia" de Michael Drosnin, Editora Cultrix). Os sites com temas neo-pagãos são crescentes (veja os links no "Jornal Neopagão") e a mídia não deixa de ajudar com novelas e programas que exploram constantemente o tema (a corrente "novela das seis" na Globo) . E como não poderia deixar de ser, surgiram autores com um tipo de Código da Biblia Gospel ("Os Misteriosos Códigos da Bïblia" - Grant R. Jeffrey, Bom Pastor).

Vendo as coisas por esta perspectiva é importante não confundir as bolas da proposta de Peter Jones com os movimentos de batalha espiritual que enxergam demônios em cabeça de alfinete. Há poucos dias acessei um site criticando o misticismo presente nas Crônicas de Nárnia e no filme, dizendo que tudo isto é um des-serviço ao Evangelho. Diz o autor: "Vejamos o que são os tais contos-de-fada na definição de quem entende e sabe o que significa". Me surpreendeu o autor do texto ao fazer uma citação de segunda mão de Jung para caracterizar o que significam as fábulas (ora, Jung é um dos mais famosos místicos de todos os tempos). Definitivamente, não é sobre este tipo compreensão que estamos falando! Por outro lado, não podemos deixar de entender que a cada dia estamos lidando com uma sociedade e cultura que estão mais afeitos a uma cosmovisão pagã do mundo, muitas vezes travestida de ciência! Todo este contexto é chamado entre os estudiosos do assunto de "A Nova Espiritualidade" e é algo que merece nossa atenção. Termino o post com uma pergunta: como devemos lidar com este novo contexto? Ou isto é irrelevante?

Indicação de leitura (além do "Ameaça Pagã"): James Herrick, The Making of the New Spirituality: The Eclipse of the Western Religious Traditions (Downers Grove, IL.: InterVarsity Press, 2003).

Quer assunto melhor do que este para publicar numa sexta-feira, 13??

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Augustus, Arraes e a síndrome do morto que vira herói...

O Augustus postou um relato impagavelmente tragicômico, com uma aplicação melhor ainda (Sobre pitbulls, vira-latas e falsos heróis). Realmente, a vocação para endeusamento dos falecidos tem raízes profundas e não é só no Brasil. Qualquer dia desse termino de escrever um de meus textos bem intencionados, mas nunca acabados: “Martin Luther King: O homem e o Mito”, nada politicamente correto e contrário ao endeusamento subseqüente à sua morte, cujo roteiro e modus operandi foi bem traçado pelo Augustus. Ao ler a postagem, entretanto, não pude deixar de me lembrar de outro falecido recente cujo canonização político-social começou até antes dele morrer, a despeito de registros pouco recomendáveis em sua vida, bem como dos resultados pífios de suas admistrações e ações. Trata-se do cacique político Miguel Arraes de Alencar, falecido em agosto de 2005

Na ocasião eu assistia ao Jornal Nacional da Globo e ouvi o que os americanos chamam de eulogy de Miguel Arraes – ou seja o relato de sua vida e morte e depoimentos de amigos, correligionários e até alguns antigos inimigos. Seguindo a máxima de que a memória da história é curta e a noção popular de que os que morrem encontram expiação para seus pecados em vida, sai-se da apresentação Global com a idéia de que ele foi um santo redentor de Pernambuco – “a maior expressão política do nordeste”, na palavra de um dos depoentes.

Tenho idade suficiente, e essa idade, mesmo conjugada com o seu peso inerente, me dá a vantagem de relembrar por mim mesmo as coisas como realmente foram nas idas e vindas de Miguel Arraes. Eu tinha 17 anos quando o exército o arrancou do Palácio das Princesas, em Recife. Na época eu já trabalhava a poucas quadras do palácio governamental, numa prancheta de desenho, no nono andar de um prédio, do qual observei cada detalhe dos movimentos das tropas nas ruas. Deposto, foi enviado para Fernando de Noronha no que seria transformado em um prolongado exílio na Argélia, de onde retornou com a anistia figueiredista. Voltou ao Palácio das Princesas pelo voto popular para mais dois mandatos, como Governador. Antes disso atuou no Congresso Nacional.

Político matreiro, bem da velha escola clientelista, dava andamento a uma gestão desastrada para o estado de Pernambuco quando teve a carreira interrompida em 1964. A gestão e economia do estado iam de mal a pior, enquanto ele brincava de governar e dedicava-se à sua vertente favorita: liderar as massas das famosas “ligas camponesas” – os “sem terra” da época. Sempre que havia oposição a algum ato dele, ele providenciava inúmeros ônibus que transportavam “espontaneamente”, no melhor estilo das ditaduras populistas, milhares de camponeses do interior às ruas de Recife. Esses marchavam com foices e facões, ameaçadoramente, clamando por um governo proletário. Presenciei mais de uma marcha com esse teor. A população urbana assistia a tudo aquilo meio intrigada, meio amedrontada. O apoio à deposição, que também presenciei, não foi forçado ou artificial - mas intensamente genuíno. Este não veio, obviamente, de agitadores profissionais travestidos de “camponeses”.

Um tio meu, que já faleceu, prefeito por diversas vezes de uma cidade no interior de Pernambuco, foi apoiador ferrenho de Miguel Arraes. Ele também foi cassado. Ouvindo as histórias dele e sobre ele, eu ia compreendendo os conchavos da política, o tráfico de influência, as “trocas” de posições, postos e cargos – tudo isso caracterizava o político matreiro, Arraes. De ideologia, mesmo, transparecia apenas o aproveitamento da situação e do caos geral comandado por Jango.

Abrigado pelo governo esquerdista de Ben-Bella, na Argélia, fez boa fortuna com negócios relacionados com petróleo. Retornando ao Brasil, na década de oitenta, em seus dois mandatos subseqüentes, sempre com um apelo populista, mais uma vez foi chefe de um desgoverno no qual o funcionalismo público, que o havia apoiado triunfalmente na eleição, passou a receber com três a quatro meses de atraso.

Testemunhei tudo isso de longe, pois já não morava mais em Pernambuco, situações de grande penúria e carência. Parentes meus me relatavam as histórias dos intestinos da máquina governamental – que não encontravam muita divulgação, uma vez que a empolgação da mídia concentrava-se apenas nas campanhas das diretas, apresentadas como sendo a resposta à redenção de todos os problemas que enfrentávamos com um governo militar carcomido, autoritário e corrupto. Uma das políticas de Arraes, em seu terceiro mandato, se não me falha a memória, era distribuir vacas com bezerros a moradores do campo. Enquanto isso, obras estruturais, para realmente resolver os problemas do Estado e uma administração austera e honesta, eram coisas deixadas para trás.

Reescrever a história agora, com sua morte, é fácil. A imagem que passará para as gerações será essa: de um homem bondoso, íntegro, uma liderança nata, de ideologia cristalina e de eficiência administrativa. Como lembra o Augustus, o passaporte ao heroísmo vem fácil, com a morte. A realidade dura, entretanto, permanecerá privilégio e tesouro de uns poucos.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Crente não se suicida?

Nunca fiz um estudo bíblico detalhado sobre suicídio, apesar de ter escrito sobre eutanásia e muito do que aprendemos sobre esta prática se aplica ao suicídio, pois em ambas situações lidamos com a valorização da vida. Mesmo assim, tenho alguns pensamentos sobre o assunto.

Alguns apontam a morte de Sansão (Jz 16. 29-31) como sendo um exemplo de um servo de Deus que se suicidou. Mas observo que a posição de Sansão não pode ser vista como normativa ou até exemplificativa da questão. Sansão era mais um prisioneiro de guerra, do que qualquer outra coisa. Ele e o país se achavam em uma situação emergencial de conflito, como descrevem os capítulos 13 a 16 do livro de Juízes. Vemos, em sua ação, não um suicídio por desespero, pelo fato de estar cego, mas um ato de um guerreiro que não hesita em sacrificar sua vida em função de uma grande vitória - o seu brado final comprova isso (“morra eu com os filisteus!”).

Uma outra passagem é Jó 6.11. Ali vemos retratado o sentimento e desespero de Jó, no qual ele aventa o suicídio. No entanto, não o faz e não segue o "conselho" dos seus amigos, apesar de clamar: "Por que esperar, se já não tenho forças? Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo?".

O apóstolo Paulo, em certa situação, diz preferir a morte mais do que a vida (Fl 1.23-24), mas ele faz uma avaliação racional da situação e verifica que a prioridade não é o alívio de suas dificuldades, que adviria com a morte, mas a fidelidade à sua missão na terra: "Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne".

Mas e se a racionalidade, que contextualizou as observações de Jó e de Paulo estiver momentaneamente, ou permanentemente, ausente? Será que uma pessoa, crente, não pode ser levada ao suicídio, em situações como esta?Outra questão a ponderar: não temos exemplo de suicídio consciente e aprovado nas Escrituras, mas, quando alguma pessoa coloca a sua vida em risco não dizemos: "isso é suicídio" – ou seja, se alguém sabe que a vida está em risco e não faz nada para impedir o risco e preservar à vida, interpretamos como suicídio. Mas e o caso do Senhor Jesus, que mesmo sabendo que iria morrer, seguiu o caminho da morte. E tem mais - ele disse que ninguém tirava a vida dele, ele a dava voluntariamente. É lógico que temos todos os qualificativos e aspectos de expiação e substituição vicária do plano de redenção e eles nos fazem não considerar a morte de Cristo como "suicídio".

Entretanto, será que não existem outros contextos explicativos, tais como perda da capacidade de raciocínio, ou distorção da capacidade adequada de julgamento, causada por pressão intensa circunstancial, etc. que possam levar um crente a este estágio?

Não tenho as respostas, mas não encontrando uma passagem explícita, nas Escrituras, que indique que o Espírito Santo impedirá que nossa natureza pecaminosa e o pecado do mundo se concretize em tal situação, tenho que deixar a possibilidade aberta e examinar caso a caso, em vez de fechar questão e categoricamente dizer: "crente não se suicida", como sempre aprendi, desde pequeno...

Sobre pitbulls, vira-latas e falsos heróis

Eu tenho uma amiga que cria três pitbulls em casa. Ela mora à beira mar, aqui em Recife, onde eu e minha família estamos passando as férias. Ela me contou que acidentalmente deixaram o portão da casa aberto e Atos, o pitbull macho, enorme, saiu para a rua. Seu alvo era um vira-lata pulguento, matreiro, o dono do pedaço, que passava o dia deitado ao lado de uma barraca de vender cachaça, bem na beira da praia. O tal vira-lata (em São Paulo é fura-saco) já havia batido em todos os cachorros da área. Num piscar de olhos, Atos tinha o infeliz pelo pescoço. A praia estava cheia de gente. O pitbull não se interessou por ninguém, só pelo pulguento. Sacudiu-o pelo pescoço como se fosse uma boneca de pano. Juntou gente ao redor, armada de paus, foices, garrafas quebradas... tentaram de tudo para apartar a briga. Jogaram até uma bicicleta no pitbull.

Atos não largou a vítima até que a filha de minha amiga, uma adolescente de dezesseis anos, ouvindo a confusão, chegou e deu voz de comando, “Atos, solta!” O cão obedeceu imediatamente. Largou o trapo de carne sangrenta aos pés da dona e ficou sentado olhando interrogativamente para ela. Prevendo um linchamento, a adolescente disse ao pescador, dono do cão morto, que se aproximava com uma foice: “Pode atacá-lo se quiser, mas não me responsabilizo pela reação dele. Ele não atacará pessoa alguma. Por favor, deixem-nos passar”. E saiu do meio da multidão, acompanhada pelo pitbull com a cara manchada de sangue. Naquela noite, jogaram o cadáver do vira-lata no jardim da casa da minha amiga, por cima do muro. Minha amiga está respondendo a uma denúncia que foi feita contra ela por descuido. Graças a Deus, Atos, que foi criado com as três filhas dela, não atacou um ser humano.

Mas há algo no incidente bastante instrutivo. No dia seguinte à morte do vira-lata, saíram duas notas nos jornais locais: “Família cria pitbulls em casa e aterroriza vizinhos”. Uma das notas descrevia a luta entre os dois cães. O vira-lata virou herói: “morreu tentando salvar seu dono da fera enlouquecida”. Quase morro de rir da notícia. Especialmente do vira-lata matreiro, que provavelmente nunca cometeu um ato de heroísmo em toda sua vida. Virou herói na morte.

Curiosamente, ontem a noite estava assistindo o filme Daylight com o péssimo ator Silvester Stalone. Um bandido condenado havia se ferido mortalmente dentro do túnel desabado. Sabendo que ia morrer, pede aos circunstantes que digam ao seu pai que ele havia morrido tentando ajudar os outros. Um deles diz, “Vou dizer ao seu pai que você morreu como herói”. A face do bandido anuviou-se. “Ele não vai acreditar em você”, gaguejou em voz sumida, e expirou. O pai conhecia o filho que tinha. Não acreditaria que morrera herói. Eu também conhecia aquele vira-lata de outras férias. Não acreditaria na notícia do jornal.

A humanidade gosta de transformar em heróis gente comum que morreu em circunstâncias trágicas. Às vezes, até bandidos viram heróis. Ou então, os pecados são esquecidos, como que lavados no sangue do martírio. Quantos lembram que Padre Anchieta ajudou a enforcar em São Vicente o reformado Jacques le Balleur, o único sobrevivente do massacre dos protestantes da baía da Guanabara? Todos esqueceram das heresias cristológicas de Miguel Serveto, condenadas até pela Igreja Católica, quando lamentavelmente foi queimado em Genebra, na presença de Calvino. Às vezes, não precisa nem morrer. Recentemente, realizou-se um encontro de teólogos e filósofos protestantes e católicos no Brasil que tinham em comum o fato de que foram todos expulsos, repreendidos ou disciplinados por suas igrejas. Foram apresentados como mártires e heróis. Essa era a bandeira do encontro. E das heresias pelas quais (alguns) tinham sido apenados, ninguém se lembrou mais...

Onde a morte e o sofrimento forem vistos como sacramento, gente comum será beatificada. No Brasil, até os evangélicos têm alma católica.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Por que fujo de acupuntura.


Anos atrás, tive uma paralisia facial e fui levado por um amigo para um médico chinês, especialista em acupuntura que furava sem piedade e curava por atacado os alunos e professores do seminário no qual meu amigo ensinava.

Há um mês eu havia dado uma palestra naquele seminário sobre pena de morte. Minha paralisia talvez fosse fruto da reação dos ouvintes – espantados com alguém que considerasse bíblica a pena capital. Bom, tentando me restaurar o semblante, o chinês me espetou bastante com agulhas miúdas, médias e longas – quem diz que acupuntura não dói deveria experimentar umas daquelas maiores, principalmente as enfiadas entre as juntas. Além disso, me deu choques com uma maquininha que deve ter comprado no acervo em liquidação do DOI-CODI, ou importado de Sobibor.

Mas o que me fez realmente desistir do tratamento foi quando ele me deu uma pílula do tamanho de uma bola de ping-pong para deglutir com um copo de água morna trazido por sua solícita esposa (com água fria ela não teria descido, mesmo). Não, não foi o tamanho da pílula que me assustou – se bem que ela estava contentíssima em ficar hospedada na garganta um pouco antes do início do estômago. O que me espantou foi quando li a bula da dita cuja: pelos de panda, dentes de tigre de bengala, raspas de chifre de rinoceronte, e outros ingredientes que disputavam entre si o prêmio de exotismo (é sério - se você já tomou uma semelhante em uma sessão dessas e não acredita, é porque não leu sua bula). Senti-me como participante de uma experiência mista de vodu, macumba e meditação transcendental. Pensei – “deve haver algum versículo contra isso” e abandonei o tratamento.

Para encurtar a história, a paralisia facial foi embora. Minha mulher jura, até hoje, que foi por obra do chinês. Eu tenho minhas dúvidas. Mas se eu continuar travando, o que de lá para cá não ocorreu, vou estar tentado a voltar para o chifre do rinoceronte.

sábado, janeiro 07, 2006

“Aquele pastor acredita no casamento... já vai no terceiro!”

Foi assim que um conhecido meu se referiu em tom de gozação a um pastor evangélico que, por sinal, é seu amigo. Desconfio que tal pastor não é o único da sua espécie. Não tenho estatísticas para provar, mas meu “achômetro” registra um crescimento nas igrejas evangélicas da aceitação de pastores que já vão no segundo ou terceiro casamento. Ouvi dizer que tem alguns já no quarto casamento, mas eu não quis acreditar.

Afinal, qual a importância de um casamento sólido e duradouro para o ministério pastoral? Paulo escreveu que “é necessário que o bispo ... seja esposo de uma só mulher” (1Tm 3.2). Podemos ler essa passagem de duas ou três maneiras diferentes, mas todas elas, ao final, falam da necessidade de um casamento exemplar para os líderes cristãos. Bom, creio que há vários pontos que podem ser mencionados aqui. O primeiro é a paz e o sossego que um casamento estável oferece e que se refletem inevitavelmente na lide pastoral. Não sei como pastores que enfrentam a separação, o divórcio, um novo casamento e a adaptação à nova realidade (se tiver filhos, é ainda mais difícil), encontram tranqüilidade para pastorear, ao mesmo tempo em que vivem as angústias da crise. O segundo ponto é o exemplo, para os filhos, se houver, e para os casais da igreja que pastoreia. Todos esperam que o casamento do pastor seja uma fonte de inspiração e exemplo. Casamentos que dão certo e duram a vida toda funcionam como uma espécie de referencial para os demais casamentos, especialmente se for o casamento do pastor.

O terceiro ponto é a questão da autoridade. Não era esse o receio de Paulo, que após ter pregado a outros não viesse ele mesmo a ser desqualificado? (1Co 9.27). Qual a autoridade de um pastor divorciado já pela segunda ou terceira vez para exortar os maridos da sua igreja a amarem a esposa e a se sacrificar por ela? Essa história aconteceu com um pastor que foi colega meu de seminário. Certo dia, falando na igreja sobre os deveres do marido cristão, sua própria esposa se levantou no meio do povo e disse, “É tudo mentira, ele não faz nada disso em casa!”. O pastorado daquele colega acabou ali mesmo.

Mas tem um quarto ponto. Pastores que já vão no segundo ou terceiro casamento estão passando a seguinte mensagem para os casais da igreja: “O divórcio é uma solução legal e fácil para resolver os problemas do casamento. Quando as coisas começam a ficar difíceis, o caminho mais rápido é o da separação e o recomeço com outra pessoa”. Essa mensagem é também captada pelos jovens, que um dia contrairão matrimônio já pensando no divórcio como a saída de incêndio.

Não que eu seja absolutamente contra o divórcio. Como calvinista, entendo que o divórcio é permitido naqueles casos previstos na Escritura, que são o adultério e a deserção obstinada (Mateus 19.9; 1Coríntios 7.15; ver Confissão de Fé de Westminster XXIV, 6). Sou contra a sua obtenção por quaisquer outros motivos, mesmo que fazê-lo seja legal no Brasil.

Fico me perguntando se, ao final, tudo isto, não é uma versão moderna e evangélica da velha poligamia. Como ela é proibida no Brasil e rejeitada pelas igrejas, alguns pastores acharam esse meio de ter várias mulheres durante o seu ministério, embora não ao mesmo tempo, que é casar-se várias vezes em seqüência, com mulheres diferentes. É legal e é mais barato.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

O casamento está ficando fora de moda?


Meu filho Daniel casa hoje à noite com Aline, uma linda moça de fé e caráter mais bonitos ainda. Meu filho mais velho, David, casou há seis meses com Tati – igualmente bela em todos os aspectos. Um presente de Deus para os dois e para as famílias! Para completar a alegria, meus pais fizeram 60 anos de casados agora, em dezembro de 2005 – estou “de peito estufado”! Eu deveria, além de estar contando as bênçãos, estar descansando e não “blogando”, para não ficar estressado na cerimônia. Se você acha que só os noivos ficam nervosos, espere até casar seus primeiros filhos. No entanto é difícil não pensar no desgaste que a instituição da família vem sofrendo e nas distorções que têm ocorrido nas relações humanas na terra – especialmente quanto ao casamento.

Há anos a instituição do casamento vem sendo atacada e demolida por uma sociedade sem Deus. Rotula-se ele como algo ultrapassado, que pode ter servido em algum momento na evolução sociológica do homem, mas que não tem mais lugar em pessoas modernas e esclarecidas. Esse ataque começa sempre pelo questionamento de sua indissolubilidade. Casamentos existentes são quebrados com a maior facilidade e, por maior que tenha sido a cerimônia original, a quebra ocorre sem a menor cerimônia.

Seguindo o mesmo curso de pensamento, a sociedade passa a considerar o passo inicial como desnecessário. Deve-se “experimentar” a vida conjunta, “para ver se dá certo”. E “se der certo”, para que se casar? A felicidade, nos dizem, não depende da cerimônia.

Aliado ao descaso e desprezo pelo casamento, temos a banalização do mesmo, com resultados possivelmente até mais destrutivos. Personalidades famosas, do mundo esportivo ou televisivo, “casam-se” em um festivo evento social, às vezes até no meio de comprometimentos conjugais passados que ainda não foram formalmente ou juridicamente encerrados. Os novos relacionamentos são detonados poucos meses depois, com grande publicidade e, invariavelmente, com grandes somas de dinheiro trocando de bolsos.

Infelizmente, já notamos reflexos dessas atitudes dentro das nossas igrejas. Não somente os abandonos, o repúdio e o divórcio tornam-se cada vez mais comuns, mas muitos jovens já não dão a importância devida à cerimônia de casamento. Aceitam naturalmente a sua banalização.

Enquanto muitos cristãos estão desenvolvendo idéias bem diferentes das que a Bíblia apresenta, é incrível que alguns alertas surjam até dos que estão do lado de fora das igrejas evangélicas. O conhecido Stephen Kanitz escreveu alguns pensamentos sóbrios sobre o formalismo que cerca os relacionamentos matrimoniais e sobre a cerimônia de casamento (VEJA, 1873, 29.09.04). Nesse artigo, que tem recebido ampla circulação, ele disse:

A essência do contrato de casamento é a promessa de amar o outro para sempre. Muitos casais, no altar, acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato... Banalizamos a frase
mais importante do casamento. "Eu amarei você para sempre" deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro.

Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível.

Essa colocação do Kanitz é verdadeira. Os integrantes do casal, ao longo do seu percurso após o casamento, encontrarão muitos homens e mulheres, que poderiam até ser classificados como “ideais”, mas o contrato firmado deveria elevar o bom senso acima da atratividade pontual. Ele continua:


O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas. As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa
incerteza...

Kanitz chama a nossa atenção, portanto, para muitos aspectos que estão sendo deixado de lado, em nossa sociedade e que contribuem progressivamente para a dissolução dela mesma.

Acho digno de nota que algumas pessoas estejam verificando a necessidade de dar importância ao formalismo e aos votos que são proferidos em uma cerimônia de casamento. Mas para nós, cristãos, este momento envolve mais do que um contrato horizontal fechado entre dois lados – Deus está envolvido na cerimônia e nas promessas proferidas e isso é um pacto solene feito na sua presença (Ml 2.13-16). Nesse pacto, Deus está bem mais comprometido, do que as partes humanas poderiam estar, com o cumprimento do acordo.

O projeto de Deus foi e ainda é bom! – um homem e uma mulher – pessoas de sexos opostos, deixam suas famílias para formar uma união singular – uma nova família independente. Esta é a regra dada pelo Criador à raça humana, para sua própria preservação! Paulo compara o relacionamento entre Jesus e a sua igreja àquele existente entre um marido e uma esposa (Ef 5.25-32). Nossos casamentos devem ilustrar esse tipo de amor, aos nossos filhos e ao mundo!

Assim, quando participarmos da próxima cerimônia de um casamento cristão, não vamos pensar que estamos apenas atravessando os trejeitos de uma convenção social em extinção. Não vamos concentrar nossas mentes nos aspectos cansativos da ocasião. Vamos nos lembrar de que estamos tendo o privilégio de participar e testemunhar a realização de um pacto solene, igualmente testemunhado e atestado por nosso Deus Santo e Soberano.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

A Incredulidade no Púlpito

Crer naquilo que a Bíblia diz é um dom salvador de Deus. Aptidão para falar em público, não. Crer em Jesus Cristo como o Filho de Deus encarnado é obra salvadora da graça. Capacidade para administrar uma igreja, não. Receber os relatos bíblicos em fé e viver por eles é resultado da operação salvadora do Espírito de Deus no coração. Capacidade para liderar um culto e dirigir uma liturgia, não. Fé nos relatos bíblicos de milagres é graça especial aos eleitos. Poder intelectual e acuidade mental, não.

É por isto que existem pastores e professores de teologia que são incrédulos. Pois para ser pastor e professor de teologia não é preciso fé. Tive um professor de teologia no mestrado que me confessou ter sido um agnóstico durante toda sua vida. Creu aos 65 anos de idade, durante uma enfermidade. Sua vida mudou. O famoso William Barclay, autor de um comentário em todos os livros do Novo Testamento, ao fim da vida confessou que nunca realmente creu em coisa alguma do Cristianismo.

Pastores e professores de teologia que não têm fé têm que ter outra coisa: a habilidade de separar mentalmente o que ensinam domingo na sua igreja daquilo que realmente acreditam, quando estão a sós com seus livros. Se não tiverem isto, até o que tem lhes será tirado. Pois se ensinarem na igreja o que realmente acreditam, dificilmente manterão seu emprego. Qual é a igreja que deseja ouvir um pastor que não crê nas Escrituras? As que quiseram, fecharam ou estão morrendo. As igrejas da Europa que o digam.

Por não ter fé, o pastor incrédulo tem que direcionar seu ministério e seu culto para áreas onde sua incredulidade passe mais despercebida. Daí, a liturgia formalista, o ritual litúrgico elaborado, as recitações, as fórmulas, os paramentos, as cores, os símbolos. Tudo voltado para ocupar os sentidos de maneira que a fé não faça falta. A mensagem deve evitar temas difíceis. O foco é em pontos morais, sociais e políticos.

Tive amigos que eram membros de uma igreja cujo pastor eu desconfiava que fosse incrédulo. Perguntando a eles como eram as pregações, descobri que o problema não era o que o pastor dizia, mas o que ele deixava de dizer, os temas que ele evitava, os assuntos que nunca mencionava, como a ressurreição de Cristo, a infalibilidade das Escrituras, a veracidade e confiabilidade da narrativa bíblica, o poder do Espírito para regenerar a natureza humana pecaminosa, a morte vicária de Cristo, a realidade da tentação e a necessidade de resisti-la. Era assim que ele aprendeu a sobreviver, evitando matérias de fé e pregando aquilo que um rabino, um mestre espírita ou líder muçulmano também pregaria, como a honestidade, o amor ao próximo e a necessidade de votar a favor do desarmamento.

Meu filho de 16 anos leu o draft deste post. “Papai, por que alguém gostaria de ser pastor se não tem fé? Não tem uma maneira mais fácil dele ganhar dinheiro?”. Pois é, pior é que não tem.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Socialismo na Bíblia? Mitos e verdades.

Fico impressionado como tantos cristãos embarcam na visão político-econômica socialista. Não me espanta que ela leve de roldão grande parte da “intelectualidade” do mundo ocidental, bem como aquelas cabeças não pensantes, que seguem a opinião majoritária por pura necessidade de aceitação comunitária. Afinal, o socialismo é uma visão bem humanista que enaltece a bondade nata das pessoas. Nada que nos surpreenda que ele seja abraçado por aqueles que não gostam da realidade do Deus verdadeiro, revelado nas Escrituras, com seus princípios de justiça e demandas de soberania plena. O que me assusta é o contorcionismo teológico e exegético feito por alguns para achar na Bíblia justificativa para sua crença socialista (ou, quiçá, marxista), ignorando as evidências contrárias e os princípios que contradizem essa corrente de pensar.

Nesse sentido, recebi há um tempo uma carta dizendo que temos o registro bíblico de que as terras alocadas ao Povo de Israel, quando este adentrou a palestina, foram repartidas igualmente. Todos teriam recebido porções semelhantes. Isso seria uma prova do ideário socialista nas Escrituras. Acontece que a afirmação simplesmente não corresponde à realidade.

As tribos se posicionaram em locais diferentes de acordo com a circunstância da conquista e conforme as alianças (algumas espúrias) que foram fazendo. Umas terras eram mais férteis do que outras; umas mais planas e aráveis do que as da tribo vizinha; e assim por diante. As determinações iniciais para a repartição colocaram aquele povo em movimento, mas depois ele foi seguindo o curso da história, com as desigualdades características de qualquer sociedade ou sistema, com o pecado presente no coração das pessoas – se bem que sempre sendo confrontado com a Lei de Deus. Essa lei visava punir o faltoso, proteger o inocente, preservar certos direitos individuais, de propriedade e impedir que os carentes fossem abandonados na sua fraqueza.

Assim, na teocracia estabelecida à nação de Israel o código civil e penal foi colocado para garantir as liberdades individuais e para lidar com as manifestações do pecado. Nunca houve a visão ingênua de que a “terra prometida” era um lugar sem pecado e sem a necessidade de controles. Um desses controles, admitimos, era a proibição de grandes latifúndios, com a reversão de transações comerciais processadas ao longo dos anos, à tribo e aos proprietários originais.

Esse dispositivo, de limitação latifundiária, é um sistema interessante e, como todo o resto da legislação civil e judicial de Israel, de extremo valor didático para nós, mas não tem caráter normativo. Deveríamos pensar como tais salvaguardas poderiam ser implantadas em nossa sociedade, estudando cuidadosamente o contexto de suas circunstâncias, pois emanaram de um Deus que é todo sabedoria. Mas enquanto procuramos abstrair o princípio, não há determinação de aplicabilidade idêntica ou in totum à nossa sociedade. Não devemos esquecer, também, que o direito de propriedade privada é plenamente assegurado não apenas na legislação civil e judicial do estado judaico vetero-testamentário, mas na própria lei moral, com o oitavo mandamento (“não furtarás”), repetidamente reafirmado em todo o restante da Bíblia, inclusive no Novo Testamento.

Não existe, portanto, nada que se situe mais longe do sistema teocrático de Israel do que o socialismo, comunismo ou marxismo. Querer ler isso nos registros históricos do Povo de Deus, é caminhar em terreno pantanoso que tragará a argumentação e o seu defensor – se praticar coerentemente o que prega.

Reconhecendo isso, alguns proponentes mais insistentes passam a defender que a visão socialista é algo típico do Novo Testamento, apelando ao registro de Atos 2.42-47 – à comunidade de bens. Mas a exegese correta do relato, à luz do contexto textual e histórico, não fornece qualquer base para um modelo comunista de governo aplicável às nações da terra. Primeiro, temos aqui um registro histórico-descritivo de um micro-cosmo social existente entre cristãos, não uma definição prescritiva aos governos e governantes (um texto prescritivo é, por exemplo, a passagem claramente anti-socialista de 2 Ts 3.10 – “se alguém não quer trabalhar, também não coma”). Segundo, temos um contexto histórico no qual a igreja se encontrava acuada e sob perseguição, na perene tentativa satânica de destruição dela. Terceiro, temos o caráter voluntário da iniciativa da comunhão dos bens, e não estatalmente determinativo; isso é substanciado, em adição, pelo próprio Pedro nas palavras proferidas a Ananias e Safira.

Precisamos, como cristãos, reconhecer que essa moda de subscrição à cartilha socialista, que perdura há várias décadas, é carente de sustentação teológica e capenga em uma premissa que é totalmente anti-bíblica: a bondade natural do homem.

Qualquer sistema de governo, seja qual for o seu rótulo, que reconheça certas bênçãos advindas da graça comum divina – como o direito à liberdade, à iniciativa individual, à propriedade privada – e que tenha em sua estrutura salvaguardas e controles que lidem com o pecado e a violência, tem mais possibilidades de refletir princípios de justiça divina e prover com que as riquezas do país sejam revertidas em benefício dos cidadãos que o compõem, diminuindo assim a perspectiva de fome, carências e violências.

O governo eficaz respeita a propriedade, controla e pune malfeitores (não o empreendedor e o cidadão ordeiro comum); essa é a função primordial dele, conforme Rm 13. Depois disso, ele reconhece e galardoa os cidadãos de bem, principalmente certificando-se não de que todos sejam iguais, mas de que todos possuam iguais oportunidades de desenvolverem suas individualidades e talentos específicos.

[se o tema interessa, veja também "Fome, capitalismo e a necessidade de precisão na análise", postagem de 22.12.2005]

segunda-feira, janeiro 02, 2006

É preciso mais fé para ser calvinista do que arminiano

Ser um calvinista é um ato de fé. Ser arminiano, nem tanto. Pois, vivendo a vida diária, parece muito mais evidente que somos absolutamente livres para fazer o que quisermos. Sinto-me livre para escolher um prato do cardápio no restaurante. Sinto-me livre para escolher a camisa que preciso comprar. Senti-me livre quando escolhi, olhando o mapa, que viria ao Recife pela BR 101 e não pela 116. Quando resolvi que iria aceitar a explicação que meu filho adolescente deu para ter agredido o irmão mais novo, sinto que não havia nada me impedindo de fazê-lo. Se estas escolhas ou outras foram determinadas por Deus antes da fundação do mundo, certamente não pareceu, na hora que as tomei. Não me senti em nada compelido a fazer qualquer uma destas coisas. Aliás, senti que podia ter escolhido exatamente o oposto.

Pensando naquele dia de setembro de 1977 em que decidi orar e buscar a Deus em minha angústia, lembro-me de que o fiz livremente. Foi ali que nasci de novo. Confesso, contudo, que não posso dizer que poderia não ter orado. De qualquer forma, meu ponto neste post é que o arminianismo, que ensina o pleno livre arbítrio do homem e nega os decretos de Deus em nível da predestinação individual, com certeza parece ser muito mais evidente aos nossos olhos. Em meados de 1975, jovem rebelde e desviado da Igreja, fui confrontado por uma mensagem poderosa, que me exigia uma decisão. Lutei por vários minutos. Sai do local da reunião. Tomei a decisão de rejeitar aquele apelo. Senti, de fato, uma compulsão para aceitá-lo, mas tive forças para recusá-lo. Não é de admirar que quando me tornei um cristão verdadeiro em 1977, senti muito naturalmente que o arminianismo era a coisa certa. Durante os primeiros anos da minha vida cristã cheguei a enfrentar calvinistas e desafiá-los. Afinal, era óbvio que o homem era livre.

Hoje, vinte e cinco anos depois, libertado por Charles Haddon Spurgeon dos últimos escrúpulos arminianos, continuo operando diariamente como se fosse absolutamente livre diante de todas as escolhas com que me deparo. O apelo do arminianismo é a prova da experiência diária. Já o calvinismo não tem como provar pragmaticamente que esta ou aquela decisão já havia sido antecipadamente decretada por Deus, e que ao livremente escolhermos nosso caminho, o fizemos em perfeita harmonia com o que Deus havia decretado. O calvinista tem de, realmente, viver pela fé, acreditando no ensino bíblico de uma Providência invisível, imperceptível, silenciosa, inaudível, que guia seus passos. Ele tem de diariamente aprender a ver além daquilo que seus sentidos, emoções e experiência parecem confirmar, que é o pleno livre arbítrio.

Eu já não me preocupo mais com isto. Convivo diariamente com o meu suposto livre arbítrio e a declarada soberania de Deus na minha vida. Não paro para refletir teologicamente diante das decisões. Simplesmente, tomo-as. Reflito, é claro, nos valores e princípios teológicos que controlam as escolhas, para que possa fazer aquelas que sejam acertadas Mas, não mais me pergunto “qual a escolha que Deus já determinou para mim”? Esse tipo de pergunta pode paralisar o calvinista, pois provavelmente ele só terá a resposta se for em frente e escolher. Sei que no final, Deus terá realizado seu plano sábio, justo e bom na minha vida. É nisto que creio.